reluz teu rosto farol fresta facho
26 de abr de 2012
Leo Literatura - "Minerar o branco" - de Ronaldo Werneck
reluz teu rosto farol fresta facho
8 de abr de 2012
Contos e Descontos
29 de mar de 2012
Mineirar o Branco
http://www.proparnaiba.com/artes/2012/03/22/ronaldo-werneck-minerar-o-branco-em-cataguases.html
Postado por Kimura
10 de mar de 2012
XIX CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA BENTO GONCALVES- 2011
XIX CONGRESSO BRASILEIRO DE POESIA BENTO GONCALVES- 2011
6 de fev de 2012
Poesia e Cinema
Belo Horizonte, MG, 4 de Fevereiro 2012Manoel Hygino dos Santos
Poesia e cinema
Nascido em 1897, quase simultâneo com o cinema. Assim, Ronaldo Werneck começa trecho de um livro cuja leitura não pode ser negligenciada: "Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck, editado pela artepaubrasil. A publicação não é rigorosamente, nova, tampouco velha. O que é bom vence o tempo e deixa marcas e sabores inesquecíveis. O vinho que o diga.O volume tem outro nome: "Kiryri rendáua toribóca opé", que o cineasta traduziu ao pé da letra como: "Calma lugar rancho alegre no", ou simplesmente "Lugar de calma e sossego no Rancho Alegre". Ora, seria um trabalho para brasileiro algum desconhecer, muito menos os mineiros.O livro é primoroso no texto, na concepção, na riquíssima iconografia, na felicidade do material - redigido, fotografado e extraído dos filmes. Enfim, algo para ninguém botar defeito e que, mais do que isso, deve ser preservado carinhosamente em lugar adequado, por conter o que agrada ao coração e ao espírito.Quem assiste ao cinema contemporâneo tem o dever artístico, histórico e cívico de conhecer Humberto Mauro, que nasce naquele remoto 1897, quando também nasceu Belo Horizonte como capital de Minas Gerais. Para se ter ideia da importância desse montanhês de Cataguases, poderia recorrer a Sheila Schvatzman, numa publicação da Unesp, de 2033. Ali, ela diz: "Mauro percorreu e construiu com suas lentes o país que se inventa e reinventa sem cessar. Colocou em movimento as imagens e o imaginário que conformaram o Brasil até então e continuavam a se produzir, dando-lhes a sua interpretação, acrescentando símbolos, reiterando outros... Humberto Mauro constrói um Brasil que vem a se tornar, elas mesmas, matrizes do cinema brasileiro".Ofereço tópicos do livro de Ronaldo para se avaliar a relevância do papel do cineasta e do poeta. O indomável Glauber Rocha, há 40 anos, deixou registrado: "...chamaríamos Humberto Mauro de puro, mas não de primitivo. E neste puro não está implícita a mínima relatividade. Puro como John Ford, puro como Griffith ou puro como o cinema intelectual de Eisenstein (…) Seu mundo é a paisagem mineira, o Mauro seria o único cineasta capaz de filmar Guimarães Rosa e dar no cinema a mesma dimensão do grande romancista".E diria o próprio cineasta de Cataguases: "A roda d'água, por exemplo, é de uma fotogenia extraordinária. Aquele rodar lento, os musgos, a água batendo contra o sol. Agora, troca por um motor a turbina e vê a porcaria que fica. Pega um carro de bois no topo de um morro, contra o sol, o candeeiro, o carroceiro em cima do cabeçalho - é de uma beleza incrível! Agora, tira e bota um caminhão fenemê: é uma droga. O progresso é antifotogênico".O poeta conterrâneo, que voltou ao lugar de nascença, diz que "revendo essas palavras, suas palavras-imagens, percebo como o cinema estava nele como se dele nascido, de tal modo que Mauro acabava sempre falando como se filmasse", extraindo beleza. Quem não ler e sentir esse livro, não conhece nosso cinema.
Postado por Kimura
1 de fev de 2012
24 de jan de 2012
Leonardo de Magalhaens / Selva Selvaggia
http://leoleituraescrita.blogspot.com/2011/08/sobre-selva-selvaggia-de-ronaldo.html
Postado por Kimura
RW na TV.Com de Florianópolis.
Ronaldo Werneck.
http://www.youtube.com/watch?v=tLHkthUQCr8&feature=youtu.be
Postado por Kimura.
19 de jan de 2012
Ronaldo Werneck e sua mulher Patrícia Barbosa em PIACABA..
15 de jan de 2012
Isso aí. Ou isso aqui, em Floripa.
Mais um capítulo da "saga de lançamentos" de meu livro Há Controvérias 2.
A convite de meu amigo Edir Vassalo, realizei em Florianópolis no último dia 13 deste janeiro, uma sexta-feira chuvosa mas de muita sorte, mais uma apresentação de minhas controvertidas controvérsias. Na Barca dos Livros, um simpaticíssimo espaço de frente para a marina da Lagoa da Conceição, dirigido pela professora-doutora em Literatura Tânia Piacentini, recebi vários novelhíssimos amigos: poetas, escritores, artisitas plásticos e intelectuais catarinenses. Entre eles, o pintor e escultor Eduardo Lunardelli, meu colega no Colégio Cataguases nos anos 1950. Não nos víamos há décadas e décadas e foi um grande prazer reencontrar meu velho e querido amigo. Lunardelli edita um blog mais que movimentado, de grande aceitação nos meios culturais, o Varal de Ideias. Rápido e eficientíssimo, nem bem acabou o lançamento e meu amigo já postava em seu blog uma foto-reportagem do lançamento. Vejam no link a seguir.
http://cimitan.blogspot.com/
Beijabraços,
RW
14 de jan de 2012
13 de jan de 2012
O escritor mineiro Ronaldo Werneck lança livro na Capital.

na Lagoa da Conceição.
Nascido em Cataguases, como ele diz “uma cidade de primeira”, Werneck já morava havia 32 anos no Rio de Janeiro. Depois de frequentar algumas sessões de terapia, decidiu voltar para cidade natal.
“A terapeuta disse para eu voltar porque era lá que eu encontraria minha história. Eu voltei, mas em vez de história descobri minha geografia”, lembra o escritor, em tom de brincadeira. Acrescenta que descobriu uma geografia afetiva depois de perceber que, rodeado por conhecidos e pelo lugar de origem, estava em condições ideais para ler, escrever e produzir livros.
Em Florianópolis, depois de mais de três décadas sem pisar na cidade, Ronaldo Werneck lança o livro de crônicas “Há Controvérsias 2”, em um bate-papo com o público e sessão de autógrafos nesta sexta-feira, na Barca dos Livros, na Lagoa da Conceição.
Como um crítico observador do cotidiano, Werneck trata dos mais diversos assuntos, da tradição mineira à literatura passando por cinema e futebol, duas paixões do escritor de 68 anos. “A prosa tem um objetivo, eu escrevo tendo como base de que uma palavra puxa a outra. No caso da poesia é diferente, ela é construída”, observa. “Como disse um crítico francês, a prosa é reta e a poesia é circular. O que eu tento fazer é proesia”, diz em um recorrente momento de bom humor.
Mas se hoje Ronaldo se tornou um escritor bem-sucedido, disposto a gastar o tempo disponível entre leituras, escrituras e longas viagens (ele veio com a família de Cataguases a Florianópolis de carro), nem sempre foi assim. O escritor se lembra de tempos difíceis, quando o então presidente Fernando Collor fechou uma revista de comércio exterior do Banco do Brasil onde Werneck trabalhava. Sem ter para onde ir, Werneck suprimiu qualquer resquício literário para passar seis meses trabalhando como bancário. “Foi um tempo muito difícil. Lembro que cheguei a passar semana inteira trancado no quarto”, relembra.
A saída para a quase depressão veio com um convite de Cataguases para que Werneck escrevesse um texto para um jornal local. Depois de muita pesquisa e três meses de produção, o escritor adormecido estava de volta. E logo conseguiu um emprego como jornalista e crítico de artes plásticas do Centro Cultural Banco do Brasil. A lição que aprendeu com tudo isso, ele nunca esqueceu. “A palavra salva”, diz antes de soltar uma boa risada.
“Há Controvérsias 2”
Autor: Ronaldo Werneck
Editora: Arte Pau Brasil
Quanto: R$ 45 (450 pags.)
Serviço
O quê: Lançamento do livro “Há Controvérsias 2”
Quando: 13/1, 20h
Onde: Barca dos Livros, Rua Senador Ivo D’Aquino, 103, Lagoa da Conceição, Florianópolis tel: 3879-3208
Quanto: Gratuito
Publicado em 13/01-12:51 por: Pedro Santos.
Atualizado em 13/01-17:59
Postato por Kimura.
12 de jan de 2012
Ronaldo Werneck - Coluna de Ricardo Machado. Lançamento do livro Há Controvérsias 2.
Confrades - Escritor mineiro Ronaldo Werneck, fotografado numa janela açoriana pelo amigo ilhéu Edir Vidal, chega em Floripa num momento em que perdemos um dos mais expressivos escritores, Jair Hamms.27 de dez de 2011
Há Controvérsias 2 - Ronaldo Werneck

Olhaí, pessoal:
o lançamento do meu Há Controvérsias 2
em Florianópolis será no próximo dia 13,
uma sexta feira. Um dia de muita sorte.
RW
Postado por Kimura
Editora Arte Paubrasil
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Ronaldo Werneck - Por Manoel Hygino dos Santos - Publicado no jornal Hoje em Dia, de 27.12.2011
Interrompo a leitura de "Olhos vesgos de Maquiavel", de Fernando Cesário, para uma espiada em alguns dos muitos livros de Ronaldo Werneck. Do primeiro autor, já dissera Luiz Ruffato ser prova indiscutível de que é possível fazer excelente literatura fora dos grandes centros. A história de amor do romancista elogiado exige cuidadosa reflexão. Enquanto isso, passo os olhos por alguns trabalhos de Werneck. Ambos são de Cataguases e se entendem.A mesa de Ronaldo, ou com Ronaldo, está posta: "Há controvérsias 1 (1987-2003)"; "Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck"; "Noite americana Doris: Day by Night"; "Há controvérsias 2", "Minerar o branco"; e, de quebra, o CD "Dentro Fora da Melodia, que papo é esse, poeta?". Poesia e prosa, para quem gosta de prosear, contar casos, lembrar coisas boas... e ruins também, uma parte apenas da produção do fecundo autor de Cataguases, que não é apenas mais um, porque tem caminhos próprios e ideais muito pessoais. Ronaldo não ganhou expressão nacional à toa, evidentemente.Goleiro de seu time na gloriosa cidade natal, aqui periodicamente evocada por motivos óbvios, Ronaldo não é lugar comum. Os textos das crônicas são cheios de malícia, mas refletem as numerosas verdades humanas - Afinal, o que é verdade? Quem o traz consigo e a diz? - não está assim no julgamento de Jesus?Na poesia, é aquilo que disse Savary, a Olga: "Caracol entre montanhas, entre mata e asfalto, convívio e consentida solidão, ensimesmado, labirinto de si mesmo, Acqua em vida ardente, assim vai a vida por um cio, a vida-poesia. Contando cidades e gentes, amigos, a poesias de RW é semente, pandorga, cor, usina, ofício, solidão, crença, humor, amor." E ainda mais, que o parágrafo não comporta.Outro Ronaldo, o Cagiano, que mora em São Paulo presentemente, mas cujo berço é a mesma cidade da Mata mineira, opina: "Da poesia aos cinema, da música ao teatro, da ficção às artes plásticas, da política ao futebol, os textos werneckanos permitem ao leitor viajar na companhia de uma mirada analítica e eclética, muitas vezes permeada de indulgente dose de humor".Werneck, de fato, não consegue manter-se fiel a uma escola ou gênero. Extravasa, e consegue surfar em águas encapeladas, como relata elegantemente em textos nada fieis a mestres exemplares do passado e contemporâneos.Sem embargo, o essencial é que vale a pena ler a produção de um escritor que tem presença forte nas letras patrícias. Conhecendo pessoas e terras, e bons e maus escritores, daqui e dalhures, consegue prender-nos à sua obra, que é rica e florida, embora não tão chã como pensaria algum Pero Vaz Caminha moderno.O leitor se aproxima de pessoas, lugares e coisas, de que se ouve falar pela televisão, pelo rádio, pelas revistas. RW conviveu com elas e sabe segredos muitos, alguns dos quais pode contar. As outras, ficam para depois. E, no mais, é como disse Drummond: "Minas não é palavra montanhosa./É palavra abissal. Minas é dentro/ e fundo".
Postado por Kimura
1 de nov de 2011
João Guimarães Gomes Rosa
Papai era motorista do ônibus que ia pro Rio (acho que na época já era a Citran, com aquela logomarca inesperadamente gaiata do Zé Carioca). Lembro ainda agora do microônibus do papai parado na descida do morro, as rodas dianteiras jogadas pro meio-fio. Das viagens, o velho-novo Hisbelo, o impossível “Garotinho” – cujo apelido só vim a saber bem mais tarde –, trazia sempre caramelos do D´Angelo de Petrópolis, e maçãs, ah!, aquelas maçãs embrulhadas em papel de seda azul, e com um cheiro de nunca mais. E jornais: o “Diário da Noite”, da véspera; e a “Última Hora”, daquele mesmo dia. Foi ali – acho que espremida entre “A vida como ela é”, do Nelson Rodrigues, e “O Jornal de Antônio Maria”, do próprio, meio que timidamente entre aquelas colunas dos dois figurões da “Última Hora” –, foi ali que li a notícia do lançamento no Rio de Grande Sertão: Veredas, “romance de João Guimarães Rosa, um médico mineiro”, como completava a nota.
Sabedor do que era “Grande” e do que era “Sertão”, mas desconhecedor por completo das tais ‘Veredas”, pensei de imediato em alguma associação por onde se enveredassem os nomes do Seu João Guimarães com o do Doutor Walter, que abandonara o Gomes, deixando apenas o Rosa do sobrenome (“sub-Rosa?”) para despistar a freguezia, melhor, a clientela cataguasense. Só podia ser, mas quem diria? Os dois sizudos conterrâneos embrenhando-se por essas tais veredas daquele grande sertão... Sei não. Controvérsias as há. Ou não? Podia ser também que o Seu João Guimarães tivesse tomado da Rosa, minha irmã, o seu sobrenome literário. Podia ser, afinal a Rosa estivera tratando dos dentes com o Seu João no ano anterior, daí, é lógico, João Guimarães Rosa. Podia ser, mas Rosa mal chegara aos 11 anos e era impossível que ela soubesse o que eram as tais “veredas” – e que fosse a co-autora do livro. Não. Aquilo era mesmo coisa do Seu João com o Doutor Walter: o jornal não dissera tratar-se de “um médico mineiro”? Pois é, João Guimarães (Gomes) Rosa.
Pensei, mas não disse. Isso porque já bastava a gozação recebida quando me espantei – havia eu recém-completado exatas e apenas oito voltas em torno do sol – por ninguém saber que o cara que descobriu o Brasil morava na minha rua. Era o Seu Pedro da Padaria Cabral, pai do Chiquinho Cabral, gente!, o Seu Pedro Álvares Cabral, aquele senhor distintíssimo e sempre sorridente, alto e de bochechas rosadas, exato como eu mesmo o via na gravura de meu livro do Grupo Escolar Coronel Vieira: sabe?, aquele que está lá ainda hoje, o Coronel Vieira, ali na Avenida do avô do Astolfinho, do pai do Pedro Dutra, em frente à Cima – e de banda pra rua que desce pra própria: a rua do meu amigo Cassé Bittencourt.
A notícia passou em branco. Nem mesmo o Juaquincas White disse nada de nada. Nonada. Será que desconhecia a “famisgerada” dupla de novos escritores dos sertões citadinos? E as veredas foram assim temporariamente esquecidas, enquanto o Seu João Guimarães arrancava um dente aqui e o Doutor Gomes Rosa cuidava de seus doentes acolá. Foi então, por-depois, já na virada da década, que vi o livro na biblioteca do Chico Peixoto (que eu ainda chamava de Doutor Francisco, pois era o diretor do Colégio), o pai de minhas colegas Mabel e Maria Cristina, nossa atual “primeira-dama”, em cuja casa costumava às vezes estudar para as provas do Colégio – e quase sempre levar livros emprestados da bibilioteca, a maioria autografados e todos devidamente devolvidos. Juro por meu São João Guimarães (Gomes) Rosa.
E lá foi comigo o Grande Sertão do Chico Peixoto, lido atentamente durante os três meses de férias do verão daquele ano – e, não me lembro bem porquê, no banheiro (o hábito começou aí e vem até hoje) da casa da Vovó Cota, que ficava na esquina da nossa rua com a Rua do Pomba. Uma casa que pertencia à Força e Luz (minha tia Dalila era funcionária da Companhia) e que está lá até hoje a me lembrar onde nasci: naquele quarto ali, cuja janela se debruça em diagonal à Rua do Pomba. E exatamente pelas mãos da afamadíssima parteira Dona Alzira, mãe de Dona Jandira, por sua vez mãe do Chiquinho Cabral, aquele poeta que era filho do Seu Pedro Álvares Cabral, o emérito descobridor destas plagas, como já bem vos disse. Brasil, Portugal, Seu Pedro, Chiquinho, Dr. Sobral. Eis a rua e a estória. Todas as histórias são borgianamente labirínticas e circulares e tudo vai dar no mesmo lugar. Vida, paixão e morte: quem não tem pressa chega lá.
Então, com o Grande Sertão foi assim, meu senhor, leitura de banheiro: onde até hoje leio com mais atenção. Um pouco depois e era sessenta e dois. Li “Primeiras Estórias” em primeiríssima edição, livro comprado em férias no Rio e que tenho comigo aqui e ainda agora, inacreditavelmente conservado até hoje pelas mãos de mamãe, a crédula & bravíssima Dona Zeca (que apelido “mais Guimarães” pra Dona Maria José Werneck Silva, né mesmo?), que tratou de encapá-lo – como fez com a maioria de meus livros da juventude – em papel celofane da Brasitânia. Sabe a Brasitânia? Aquela loja da Dona Mariazinha, que havia ali na Rua da Estação. Pois é, quem diria: celofane – que coisa mais mamãe, que palavra-mais-palavra, que coisa mais precisa que nem de papel precisa. Basta o cheiro da memória: este.
Sagarana, cujos contos antecedem o romance-marco do sertão rosiano, foi lido bem depois, quando já morava no Rio, já de volta da Bahia, onde em 1964 conheci e conversei longamente com o diretor de cinema Roberto Santos num almoço que se estendeu noite adentro na casa do crítico Walter da Silveira. Roberto me contava entusiasmado que gostaria de filmar “O Homem da Cabeça de Papelão”, um conto de João do Rio. Tinha as cenas já quase decupadas na cabeça, que não era nada de papelão. Mas não havia câmera na mão – e nunca fez o filme. Acabou logo depois filmando “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, pra mim, e até hoje, o melhor Guimarães Rosa de todos aqueles a que já assisti no cinema brasileiro. Filmado em 1984 por meu amigo mineiro de andanças e bebelanças no Rio dos anos 70 – tempo de preparação e rodagem de seu filme “Perdida” –, até hoje não vi o “Noites do Sertão”, do meu caro Carlos Alberto Prates Correia, esse sumidão. Então, pra mim, ”Matraga” ainda é o melhor. E foi “A Hora e a Vez” que me levou a ler Sagarana, onde se encontra o conto que deu origem ao filme de Roberto Santos.
Não era o Seu João nem o Doutor Walter, mas sim o Guimarães; sim, o “Doutor” Rosa, como o chamava meu amigo e compadre-poeta Francisco Marcelo Cabral, que com ele trabalhou no Itamaraty. Sabe? O Chiquinho (da Padaria) Cabral. Pois é. Ali estava o Grande Rosa, em meio aos ruídos dos ônibus, à parafernália de freadas a ar comprimido e buzinas daquela tarde carioca. Longe, muito longe do seu sertão. Mas o sertão é dentro da gente, você sabe; não, meu senhor? Apresentei-me, naquele mineirês, naquele conterranês de quem vai chegando assim, meu senhor, com toda a desfaçatez: “De Cataguases; li todo o Grande Sertão; também Primeiras Estórias, é uma grande honra... o senhor também vai para lá?” (Se fosse pra Cataguases, certamente, não haveria controvérsias: era mesmo o João Guimarães Gomes Rosa: eu não disse?).
“Não”, disse Rosa, “vim trazer esta minha amiga que embarca agora para Cataguases”. O ônibus já estava saindo, entramos eu e a moça muito branca, que sentou-se lá atrás e nunca mais nos vimos. Nem ela a mim, nem eu a ela ou a ele, o Doutor João Guimarães Rosa do Grande Sertão cujas Veredas completam agora 50 anos. Ano seguinte, vida que não segue: ele morto (perdão, “encantado”) logo depois da posse na Academia. Mas eu disse, não disse, meu senhor? – e não é só questão de pão, pães, opinião, opiniães –, esse tal de João Guimarães tinha mesmo alguma coisa a ver com Cataguases. Aliás, quem não tem?
Do livro "Há Controvérsias 2".




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