16 de dez de 2014
O dia em que não comi Elisa Lucinda
Ah,
sim, a foto aí de cima. Aconteceu também durante o lançamento de um de meus
livros no Rio de Janeiro. Elisa chegou e abafou de uma sentada só.
Literalmente: sentada no meu colo, com quem não quer nada, para espanto do (in)distinto
público, pede um autógrafo: “Com carinho, please!”
Essa a Elisa, essa Elisa! Mas voltemos ao Felica, onde Elisa aconteceu como
ninguém. E olha que era uma edição com destacados nomes literários: o poeta
Chacal, o artista plástico e romancista Elias Fajardo, o poeta angolano Ondjak,
o poeta e artista plástico Guerá Fernandes, a prosadora Ana Paula Maia, os
escritores cataguasenses José Geraldo Gouvêa e Marcelo Benini, o romancista e
cineasta húngaro (e meu grande amigo) Miklós Palluch, a jornalista Sabrina Abreu
e o grande escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.
Falha
minha, não conhecia nem o Bartolomeu nem sua literatura. Fiquei fascinado com
sua exposição, com seu jeito tranquilo de colocar as coisas mais inesperadas,
assim pausadamente, como quem respira. Saímos para jantar e Bartolomeu
continuou a falar com aquela calma mineira, baixinho, como se segredasse. Aos
poucos, percebemos ter vários amigos em comum, e nos surpreendemos por ainda
não nos termos conhecido. Eu estava para ir a Belo Horizonte, e ficamos de nos
encontrar novamente. Qual o quê! Pouco tempo depois fui surpreendido com a
notícia de sua morte. Achei e perdi um grande amigo que não tinha.
Em
outras noites do Festival, saímos com o Chacal, o Ondjak, o Miklós, o Marcelo
Benini, pra tomar uns “drinques finos”, aquela bebida plural e refrescante que
inventei há tempos, regada a água tônica & guaraná. Quer dizer, eu com meus
drinques finos e a turminha mandando ver nos variados álcoois que fluem das
noitadas cataguasenses. O Felica (evoé, Geraldo!), nos proporcionava isso
(acabou por quê?): uma oportunidade de reencontrarmos velhos amigos e
conhecermos outros, essa gente toda “ligada” no ofício de escrever. Lembro
também de prolongados papos noite adentro com dois outros amigos (nesse ou em
outro Felica?) – o jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, de Belo
Horizonte, e o poeta Nicolas Behr, de Brasília.
“Epa,
a crônica já vai em meio e nada da Elisa nela entrar. Vem cá, Elisa, entra ou
deixe que o outro entre agora, nessa Penetração
do Poema das Sete Faces: “Ele entrou em mim sem cerimônia/ Meu amigo seu
poema em mim se estabeleceu/ Na primeira fala eu já falava como se fosse meu/ O
poema só existe quando pode ser do outro/ Quando cabe na vida do outro/ Sem
serventia não há poesia, não poeta não há nada”. Não sei bem se foi esse ou o
outro ou um dos muitos outros o poema que Elisa soltou na tevê, em pleno Almoço
com as Estrelas, com a não menos Angélica, aquela que vaivém de táxi.
Não
se fala poema na Globo – bem o sabeis, ó leitores meus – e Elisa tava-que-tava pra soltar um dos seus
em meio à entrevista com a Angélica. Lá pelas tantas, ela aproveita a deixa de
uma pergunta e manda bala num poema inteirinho (foi esse, não foi esse?) antes
que, atônita, a apresentadora pudesse sequer abrir a boca. Assim narrava Elisa aqui
em Cataguases, no palco daquele Felica, quando alguém da plateia perguntou: “E
a Angélica, como ficou”. Resposta de bate-pronto, num saque-sagaz: “Loura”.
Essa
a Elisa que nos surpreende sempre e faísca no esplendor do disse-me-disse de
sua bela mulatice, os olhos verde-esmeralda refulgindo de inteligência,
matreiros brilhantes. A Elisa que quase me atropela numa tarde de Ipanema,
início do século. Vinha eu distraído pela calçada da Avenida Atlântica quando, ao
dobrar uma esquina, corto um dobrado para me desviar de uma bicicleta veloz que
só ela. Era Lucinda de byke, as coxas luzindo num shortinho, saltitantes. “Ronaldo!”.
“Pô, Elisa, que susto! Que treco é esse agora, de bicicleta?”. “Liga, não, é
que estou em plena fase fitness”.
Nós
nos conhecemos numa noitada carioca num bar da Pacheco Leão, no Jardim
Botânico, o Botanic – refúgio de poetas de vários quilates, que ali se
apresentavam, falavam seus poemas e falavam, falavam. Lá aconteceram vários dos
shows do Blues Etílicos e dos Camalões, o grupo comandado pelo então poeta Pedro
Bial e outros menos votados. No Botanic, vi em cena figuras inesperadas a
declamar, como a apresentadora de tevê Leila Cordeiro, que lançava livro de
poemas, ou a poeta e performer Crika Ohana (irmã da Cláudia), que acabara de
fazer um happening, desfilando nua pela redação do Jornal do Brasil.
Certa
noite, nem bem eu me apresentara quando alguém me disse que gostara não só de
meus poemas como do meu jeito de dizer. Dito assim, com esses dizeres e esses
gostares, tudo muito me agradou – principalmente vindo daquela figura pós-
existencialista, com piteira e boina à la Juliette Greco. Era a atriz e
romancista Ana Miranda. Eu lera ainda há pouco o seu livro “Boca do Inferno”, e
ficara impressionado com a pesquisa e a beleza do texto. Adorei o elogio, não
há como negar. Meu amigo, o compositor Carlinhos Vergueiro, estava comigo
naquela noite. Dia seguinte, treino do famigerado Politheama, ele disse pro
Chico Buarque que conhecera a Ana. Chico rebateu de pronto: “é uma grande
romancista, gosto muito do que escreve”. Assino embaixo, quer dizer, aqui do
lado. Nunca mais a vi. Há alguns anos, em Fortaleza, li num jornal de domingo
uma ótima crônica de Ana Miranda. Soube, por amigos cearenses, que ela voltara
pra lá. Será que ainda lá está?
Mas,
no Botanic, conheci mesmo foram muitas e muitas poetas, e com algumas fiz bela
amizade, como Solange Padilha e Marly de Oliveira. Convidado por suas
organizadoras – Rachel Gutierrez, Maria Helena Kühner, Helena Rocha –, acabei
participando do livro “Mulheres (in) Versos”, antologia onde Affonso Romano de
SantAnna, Geraldinho Carneiro e eu éramos os únicos “Homens (in) Versos”. Foi
lá que certa noite vi um show com canções francesas do travesti Valéria, a
“Divina Valéria”, onde ela naturalmente cantava La Vie en Rose. Eu estava no
balcão conversando com Cecília, a dona do Botanic, e com a escritora e filósofa
Rachel Gutierrez, hoje minha grande amiga. Lembro-me que eu e Rachel “acompanhamos”
Valéria como se fôssemos a Piaf. Quer dizer, a Rachel, que é pianista de
formação clássica (em Viena). Eu me limitei a desafinar com grande classe.
Depois
do show, Valéria sentou-se ao meu lado e engatamos uma conversa que durou noite
adentro, a Divina sempre com histórias e mais histórias que “vou te contar”. Rachel
Gutierrez já saíra quando, lá pelas tantas, apareceu ninguém menos que Rose
Rondelli, a vedete do Carlos Machado e Certinha do Lalau, que foi casada com o
Chico Anysio e foi também uma das obsessões, vamos dizer, “manuais” de minha
adolescência. Fechamos o Bar. As “meninas” pediram carona e vocês não imaginam
a emoção deste escriba ao conduzir “La Rondelli” pela noite do Rio.
Falei
então pra ela de minha “adoração adolescente” e ela entreabriu (entreabriu?
Será mesmo que entreabriu?) aquele sorriso que eu conhecia das revistas de
antigamente, os cabelos curtinhos que nem os da Jean Seberg do Acossado de Godard. Rose ficou numa rua
do Leblon e levei Valéria até Copacabana. O que então Valéria me contou sobre
figurões da política e do sowbiz não está no gibi, mas faria a festa de outras revistas,
aquelas que primam pela fofoca. Ela saltou dizendo que estava pra fazer um show
que iria arrasar e que eu “já estava convidado”. Nunca mais vi a Divina. La
Rondelli, muito menos.
Foi
também num Botanic lotado (não era lá muita vantagem: pelo tamanho, o Botanic
era mais chegado num pocket-show) que
apresentei o espetáculo (?) “Tônica com Guaraná”, com poemeus & canções de tutti quanti, acompanhado pela cantora Eduarda
Fadini e por um trio da pesada sob o comando do tecladista Sérgio Botto, com
direito a Afonso Vieira na batera. Havia também um quarteto de back in vocals muito gracinha, que
mandou ver num belíssimo “A História de Lily Braun” (como era mesmo o nome das
meninas?) e, ainda, voz & violão de meu amigo Roberto Kimura.
E
foi lá e ainda lá que vi Elisa Lucinda pela primeira vez, falando com grande
verve um de seus enormes poemas. Fiquei fascinado com aquilo tudo, a mulata, os
verdes olhos, a voz rouca, o soar de seu poema-espanto. Também eu falara antes
alguns de meus poemas e, acabada sua apresentação, Elisa sentou-se em minha mesa.
Mal chegamos a ser apresentados e logo elogiei sua bela performance. Ela
devolveu os elogios, dizendo que também gostara de meus poemas. E adiantou:
“Quem sabe a gente não se reúne e faz uma apresentação juntos?”. Eu disse que
sim, que era uma boa ideia. Quem sabe ela não iria lá em casa pra gente
ensaiar?
Elisa
ficou séria: “Ah, Ronaldo, não vou na sua casa, não”. “Mas, Elisa, por que
não?”. Ela então mandou essa: “Não vou não, porque você vai querer me comer”. Surpreso,
eu disse: “O que é isso, Elisa?”. Aí, ela soltou aquele sorriso de quem me
pegara pelo pé: “Ah, não? Você não vai querer me comer? Então é que não vou
mesmo. O que vou fazer lá, se você não vai me comer?”. Pano rápido, com muitas
risadas.
16 de nov de 2014
EXPÔ POESIA VISUAL ANOS DE CHUMBO
Cliquem
no link a seguir para assistir ao documentário que realizei sobre a Exposição
Cataguases-Cartazes / A Poesia Visual nos Anos de Chumbo, organizada por
Joaquim Branco. Aberta ao público em 25 de abril de 2014, a mostra esteve em
cartaz por mais de seis meses no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases.
28 de out de 2014
54,5 MILHÕES & 545 MENSAGENS
Lançamento do livro “o mar de outrora & poemas de agora”, em Belo Horizonte MG
Passei a semana de 23 de outubro em Belo Horizonte: lançamento de meu novo livro “o mar de outrora & poemas de agora”. Poemas fora, eu quero agora agradecer as 545 mensagens de parabéns enviadas por amigos/as de vários quadrantes, além de outras tantas vindas por email. Sei que valem tanto quanto os 54,5 milhões de votos de confiança que derrotaram outros mineiros menos votados.
Nas fotos: gravação do Programa Tropofonia, na UFMG, com o poeta Wilmar Silva. Jantar do dia 23 na Casa dos Contos, com cineastas e amigos belo-horizontinos: à esquerda, Mário Alves Coutinho, Jeanne, Márcia Flau, Anita e Geraldo Veloso; à direita, Mário Lúcio Brandão, Patrícia, RW e Paulo Augusto Gomes. E, finalmente, um brinde de agradecimento a todos vocês.
Segue abaixo o vídeo da entrevista no youtube:
25 de ago de 2014
Prosa-elegia pro Chico Cabral
Escrevemos
porque sabemos
que
vamos morrer.
Escrevemos
porque não sabemos
por quê.
RW,
Lina Tâmega Peixoto e Francisco Marcelo Cabral. Livraria da Travessa-Ipanema. Rio, 2011
“Perdemos
nosso amigo. Cabruxa partiu há meia hora”. Vindo do Rio, o telefonema da última
quarta-feira, 20 de agosto, era da poeta Lina Tâmega Peixoto, e a notícia –
embora esperada, mas não tão cedo – me deixou a nocaute. Cabruxa era como Lina
denominava o seu, o nosso grande amigo, o poeta Francisco Marcelo Cabral, que
eu aprendi desde a juventude a chamar de Chico-Chiquinho Cabral. Eu estivera no
Rio até a véspera, gravando uma entrevista para TV e, naquele momento, já me
encontrava em Cataguases, envolvido com um projeto que precisava enviar para
Belo Horizonte até sexta-feira. Parei tudo. Minha mulher, a Patrícia,
encontrava-se em uma audiência no Fórum. Esperei que ela voltasse, ainda meio
sem saber o que fazer. Já era final de tarde, eu ainda meio a nocaute. Patrícia
sugeriu que seguíssemos logo para o Rio.
Noite alta –
e, por ironia, “céu risonho”–, fomos estrada afora, eu me lembrando de meu
amigo maior. E veio o fragmento de um de seus primeiros poemas: É hora de sol/ lá fora/ e noite, no coração./
Milhares de estrelas,/ borrões/ que as nuvens carregarão. E outro, de seu
mais que admirável livro “Inexílio”: Amar
menos/ é morrer/ como o rio sendo
freado pela areia/ como tirar os
óculos, desligar o telefone,/ guardar a máquina de escrever e sair de casa/
para nada. E logo outro, vindo lá de 1949, de seu primeiro livro, O Centauro, editado em Cataguases: Me matei de sombra/ Me pintei de roxo/ Fiz
um metro, um canto// Para o meu amor./
Que lucrei?/ Um verso./ Que fazer? cantar./ Mas se há dor? que importa!/
A dor é só instrumento.
Cidade
Interior
O carro corria
na noite e me lembrei de um bilhete que mandei pro Chiquinho, quando ele lançou
Cidade Interior (Rio, 2007): “O seu
despojamento, essa sua dicção absolutamente particular – que não consigo identificar
em nenhum dos poetas que conheço – esses seus “poemeus” de antitergi/versar que
me comovem, que me locomovem a cada vez que os releio, meu caro Chico Marcelo,
e que pro seu universo (re)torno – mesmo “que” com todos esses “quês” –, para
essa sua Cidade Interior. E confesso ser cada vez mais tomado pela alta tensão
de sua “escritura” (merci bien et voilà,
M´sieu Derrida), esses poemas que tanto me tocavam a cada releitura, e que
hoje guardo e guardarei sempre: é onde às
noites os medos / .../ cortam as luzes das ruas / .../ as pisadas no tambor dos
pesadelos / .../ (e onde os mortos rumorejam pelas grotas) / .../ uma cidade
para sempre estacionada/ no poema/ – falsa e inesquecivel”.
Esses poemas –
escrevia eu naquela ocasião – sobre os quais não sei ainda o que dizer agora,
numa primeira e rápida e mais que prazerosa leitura. A não ser o óbvio, aquilo
que sempre digo: além de tudo, do grande poeta, você é também "il miglior fabbro da Dr. Sobral" (a rua de Cataguases onde nascemos). E aquele poema então, aquele insight,
coisa de poeta maior:
Todo poema é celebração
mesmo não lido.
Todo poema é de amor
mesmo perdido.
Todo poema fica por aí
mesmo esquecido.
Não, não ficam. Não os desta Cidade
Interior, não se poemas como aqui, nesta em si clari/cidade: antes que o sol mergulhe e se apague no
mar”. Daqui, poema nenhum, nenhum sol será apagado.
Campo Marcado
Em abril de 2008, abri a apresentação que escrevi para seu livro Campo Marcado (Rio, 2010) com um pequeno
poema que Manuel Bandeira lhe dedicou.
Ao
poeta de Cataguases,
Autor
do belo Centauro,
O
Poeta Manuel Bandeira
Envia
um ramo de lauro,
Saudando-o
desta maneira
Ás
futuro entre outros ases!
“O poemeto de
Bandeira é de 1949, ano da publicação de O
Centauro, o livro de estreia do jovem poeta Francisco Marcelo Cabral, então
com 19 anos. São na verdade “antenados” os poetas, mesmo aqueles que se dizem
“menores”, enquanto grafam na maior, e com maiúscula, o seu epíteto.
Ás futuro entre outros ases! – saúda um
muito do exclamante Bandeira, antecipando a rica trajetória de FMC nas próximas
seis décadas. Poucos livros publicou o
poeta desde então, mas todos definitivos. E eles o colocaram ombro a ombro com
os melhores poetas desta e de outras praças e, claro, no pódio dos ases de
Cataguases, aqueles rapazes que fizeram a Revista Verde e marcaram a história
da cidade.
O “ramo de
lauro” de Bandeira foi devidamente assentado na cabeça de Francisco Marcelo
Cabral, que o ostenta com toda a dignidade do poeta singular, poeta maior que
é. Poucas vezes – nenhuma! – vi gente
tão culta, de tão grande sensibilidade e inteligência como Francisco Marcelo
Cabral. Brinco de chamar o poeta de brilhante, mas brilhante é pouco quando se
trata dele.
Brinco também chamá-lo
de “meu guru” (e não é?) desde que – lá se vão quantos anos? – ele me levou, no
Rio, à casa de Alexandre Eulálio, então leitor oficial da Biblioteca de Veneza,
para que eu conhecesse “uma das pessoas mais cultas do Brasil”. Pois é,
Alexandre e eu ficamos arrebatados por aquela noite inteira a ouvir o poeta que
sabia de tudo um muito mais que tudo.
Francisco
Marcelo Cabral é um poeta-perguntador e por isso mesmo capaz de articular
respostas essenciais, de nos propor descobertas: as palavras são portas de saída mas não de entrada. A emoção ou
conceito, presentes num texto, são de quem o lê e não mais apenas de quem o escreveu.
Que
o diga agora este Campo Marcado. Melhor,
que nele possamos (re)ler e (re)assumir a emoção que ressurge a cada poema:
A
luz e o silêncio em mim sabem a vida
e
quando respiro
tudo
o que não entendo faz sentido.
Com seus metapoemas mais que
luminosos, com sua grande intensidade, Chico Cabral faz de Campo Marcado pedra de grande quilate, que há de rolar sempre entre
seus (muitos) fiéis leitores. Escrevo a
língua do meu avô/ sem permissão. Ora, por quem sois, meu poeta! Vosmicê
tem mais que toda permissão!”.
No Rio de meados da década de
1960, Chiquinho Cabral e eu erámos redatores de um escritório de planejamento
econômico, Leone e Associados (um dos
associados era o próprio poeta, sem controvérsias o “cérebro” do escritório).
Um dia, chegou um projeto de cemitério vertical e ele, como numa premonição,
foi seu maior defensor. No Rio, na manhã da última quarta-feira, o corpo do
poeta foi colocado – ao lado de seus irmãos, Edvar e Pedrinho – numa das
gavetas do Memorial do Carmo, aquele mesmo cemitério cuja verticalidade tanto
defendia o redator Francisco Marcelo Cabral. Estava lá Chiquinho Cabral, com a
fisionomia tranquila, como se voasse após meses de sofrimento.
Alguém leu um poema de seu Livro dos Poemas (Rio, 2003), um de seu
cantos para o Maharaji: Meu mestre dança
como os pássaros./ E canta com os claros tímpanos da aurora./ Ele caminha como
a brisa sobre as rosas./ E eu sou a almofada sob seus pés quando repousa. A
seguir, o ritual fúnebre, mesmo não sendo católico o poeta. Foi quando mais uma
vez, como em todos os muitos velórios a que já fui, voltei a assustar-me –
talvez por “ler” errado – com aquele trecho da Ave Maria: “E agora e na hora de
nossa morte, amém”. A poesia vem do susto, do espanto:
O
leitor se assenta.
O
poeta puxa a cadeira
a
poesia é o tombo.
O
leitor se enleva
o
poeta o empurra no abismo
a
poesia é o voo.
Voando, me vou
Logo depois da cerimônia, eu e
Patrícia voltamos para Cataguases. Um dia belíssimo, de sol e céu azul, que me
fez lembrar um mês de maio de não sei quando em que eu e Chiquinho Cabral
viajávamos por essa mesma estrada. Estava contente e alegre como sempre o meu
poeta, que dizia preferir, entre todas, as manhãs de maio e céu azul. Tinha razão:
mesmo de sol e céu azul, costumam ser traiçoeiras as manhãs de agosto.
Quando essa respiração vem
com renovada força de vida
não perguntes nada
simplesmente a recebe e aceita
e gratidão seja a música de tua alegria.
Já em Cataguases, debrucei-me sobre
o famigerado projeto, que consegui enviar a tempo para Belo Horizonte. Mas por
todo o tempo em que escrevia, a presença de Chiquinho Cabral permanecia em mim
– e os poemas de Francisco Marcelo Cabral assomavam, saltavam de meu ser, como
se voassem:
Temo jamais ter merecido
as asas dos meus versos.
Às vezes eu as desprendo – é noite, é Minas –
E como quem espreguiça
num largo espasmo
alço-as e me vou, ou sou levado
voando, me vou.
Ronaldo Werneck
domingo, 24 de agosto de 2014
30 de jul de 2014
RONALDO WERNECK e A MOVEABLE FEAST
W. J. Solha
Não sem razão, Alcione Araújo, logo de
cara, põe como títulodo próprio texto, a proclamação: “Pessoal, é tudo. Tudo é
pessoal”. E é tudo, e é pessoal, mesmo. Como se Leopold Bloom se assumisse Joyce,
mais ou menos o que fez Hemingway ao deixar a ficção de lado, pra contar sua parte
na riquíssima época etílico/literária francesa, em Paris é uma Festa- A
MoveableFeast. O melhor exemplo disso, no caso Werneck, é o intenso poema
Cinerama/68, em que, pela nota de rodapé, fica-se sabendo que esse era o nome de
um bar muito frequentado por ele e tantos outros fanáticos cinéfilos, que
ficava ao lado do Cine Paissandu, Rio. Masquem é esse Werneck - poeta e autor
de livros e documentários importantes sobre seu conterrâneo Humberto Mauro – se
não o garoto Ronaldo, como ele mesmo se define no poema Esse Moço?:
do
sexo masculino/ uma pessoa/ por todos prezada/ um bom menino/ se apresenta/
esquivo/ sem bossa/ a quem interessar possa.
Esse verso “um bom menino”, devolve-nos ao
seu tempo de Cataguases, que conhecemos em Cataminas
Pomba. Logo adiante, ele acrescenta, confirmando-se atento à séria,
oracular recomendaçãoGnothiSeauton –
KnowYourself:
– tudo e todos/ saltam do peito/ do mais
profundo poço/ dando forma e fundo/a esse moço/ pássaros neutrônicos/ elefantes
levíssimos/ patinetes em pânico/ balões em neón/ nada igual.
E aí flagramos puro cinema, muitas e
muitas vezes. Como em Cerrado´s Sentimental Express, onde ele resume a visão de
Petrópolis na névoa, dizendo que o rio e
o mar/ tudo em si/ encerrado/ tudo fora/ em cerração. Em seguida, em Plano
Piloto:
– futurontem/
a cidade/ pulsa/ enquanto o 707/ desacelera/ e plana/ sobre/ o / planalto / a
cidade/ sidérea/ intrincada/ na ferocidade/ de artérias/ de encruzilhadas/
enredada/ em vida vias vasos/ no coração/ do planalto.
Mais adiante, o poema À la Papita começa,
imensamente vivo, graças à presença de Etchichury:
meio
dia em ponto/ e o grito ressoa pela casa/ toma de assalto/ o centro do
planalto/ à lapapi à lapaiii/ à lapaapiiiitaaaa!!!! /// é etc é etchichury/ a
plenos pulmões/ é meio dia/ e estão todos à mesa/ esses dez marmanjos/
subitamente presos/ no coração do planalto/ subitamente/ amigos de infância/
subitamente juntos / esses dez marmanjos/ no coração de cada um.
E o longo poema termina, contrastando
com a alegria inicial, na constatação de que amanhã/ ao meio-dia/ a dezoras/ a qualquer hora/ não haverá lapapita //
estará vazia a casa/ os quartos despidos/ o jardim em si encerrado/ por flores
do cerrado// à mesa nenhum/ marmanjo/ para o suflê/ pratos/ talheres/ para a
janta/ travessas / para dez fantasmas/ espinhas / atravessadas/ na garganta.
É um belo poema sobre alguém que esteve
no paraísoe o viu se ir- “jardim em si encerrado”. Jardim Cerrado, ou, como diz
o texto bíblico: hortusconclusus.
O cotidiano se ressalta quando “o poeta
lê na varanda de sua casa em Itaipu – como ele mesmo conta no rodapé de
Carpintaria - e, a seus pés, a filha Ulla, quatro anos, larga dados e reinações
e lança-se toda no poema, reino do acaso”:
- papi/
tô muito peocupada
- mas ulla/ o que houve? (...)
– a lua tá quebada.
Tenho um ensaio, “Em arte, o todo é
sempre menor que sua melhor parte”, no qual destaco A Criação do Homem sobre
todo o resto enorme do teto da Sistina;ou, sobre todo o Em Busca do Ouro, de
Chaplin, destaco a cena em que Carlitos mete os garfos emdois pãezinhos,
tornando-os sapatos, e faz com eles uma dança de Pinóquio; ou, sobre todo o
Hamlet, destaco omonólogo Ser ou não ser;e sobre todo o Grande Sertão: Veredas,
destaco o julgamento de ZéBebelo. Pois bem. No SelvaSelvaggia propriamente
dito, dou com isto, no primeiro dos Três haicais à la carte:
Os
brancos impressos
entre
as letras são tetas
leite
submerso
É incrível, esse momento em que o poeta
esquece as letras e enfoca seus intervalos, como um músico que trabalha com
silêncios, não com sons, ou –como o personagem de Cortázar e Antonioni–descobre
um crime nasfrenéticas ampliações,blowups,
de uma foto.
E o livro é todo assim. Como neste
trecho de Coordenadas:
de
desordenada vivência / & convivência (...)
Ou neste:
umpassionário
em tudo
E em Círculo:
e o relógio
tique-/tapeando o tempo
Dali amplia um detalhe do Napoleão em
Friedland, de Meissonier (fantasticamente parecido com o Grito do Ipiranga do
Pedro Américo), e mostra as riquezas abstratas que a tela – extremamente
realista –contém.
E Werneck,
em Full-time:
em
cada fonema/ uma explosão em falsete/
uma explosão contida/ em cada letra.
Isso confirma a intenção revelada no
começo de Cardeais de Poema:
minerar
o poema/ de profundo/ essencial poço.
E em Viagem:
Vai
meu poema/ é livre o campo/ a batalha é o canto/ espada cortante ritmo/
rompante audaz// vai meu poema/ massacra a floresta/ sinistra de meu
lado/esquerdo.
Essa imagem: “Floresta sinistra”, devolve-nos à epígrafe que explica o título do
livro, e que diz muito sobre o autor:
Ah
quanto a dir qual era è cosa dura
Questa
selva selvaggia e aspra e forte
Che nel pensier rinnova la paúra.
Repetindo: Massacra a floresta / sinistra de meu lado /esquerdo. “Sinistra”com
seu outro sentindo, joga com “meu lado
esquerdo”. Com isso, o poeta revela seu coração como a selva selvaggia do título do livro, e que é dele que sua poesia
trata.
Em dois poemas seguidos, dois lances
geniais, bem ao estilo Escher. No início de Caminho, numa atitude própria de
menino que vai ao Rio pela primeira vez, vindo de seu estado interior, de
Minas, ele escreve:
o
mar o campo / primeiro espanto / verde-amplo.
E, no final de Moonlight:
nunca
tanta lua / para tão pouco //// marenoite
No final de Vergetais, vemos vincular-se
esse coração, que é uma selva selvaggia, a uma natureza-morta:
sobre
a mesa / descubro / a selvagem / tristeza // do tomate rubro
E eis Ulla de volta, em Vigília, numa
réplica do pai:
ulla
corre grita chispa / se mela remela / clama reclama / “perfuminho é meu /
máquina
é meu tinta / é meu é meu o mundo /é meu”
Obcecado pela vida, Werneck diz, em
Verão, que é verão/ e são / comoção belas
/ as mulheres,e, caramba, há costas/ a areia as coxas / o colo reluzindo,
mas – ele retruca –há tanto Joyce para ler, tanto Pound, os gregos, os
provençais...
havia
tanto/ tanto tempo perdido,
e ele arremata, lá no final, numa
negação do Tudo vale a pena / se a alma
não é pequena”, de Fernando Pessoa, como se dissesse OK,
mas
de que vale o poema / ante a mulher de ipanema?
Isso tem a ver com uma das paixões dele,
naquele tempo: Amarcord. Tem a ver com a cena em que a multidão sai do cinema,
ante o grito, lá fora, de que está nevando.Tem a ver com seu próprio poema
Telstar, produto dessa mesma época, que é também a do Faça amor não faça a guerra, como no Makelove, notwar, de Lennon, em que Werneck faz seu Guerra e Paz, seu
Hiroshima meu amor:
exclamo
/ eu te amo / e uma bomba / explode/ lá fora
(...)
meu amor(...) uma bomba / estraçalhando / teu corpo (... )quan tri / chu thaun/ tay mihn
/ my lai
Nesse contexto, ele fala de uma
separação, no poema Carta:
Sofro/
mas isso passa / que diabo / um profissional da dor / não sofre de graça.
Já no final, em Once upon a time,
contrariando a visão inicial, dantesca, do mundo, ele usa como epígrafe uma
frase do Oito e meio (de novo Fellini ):
–
“é una festa lavita”
Exato:
Exato:
viver
resplandece/ lantejoulas festa / no abismo do sono/ lantejoulas festa
Mas... aqueles anos são, ainda, os de As
Mãos Sujas, de Sartre (1972) e de sua filosofia de liberdade com
responsabilidade. Feito a sonâmbula rainha Machbeth, Werneck diz:
mãos
sujas eu as lavo / duetrevoltiognigiorno
Lá pelo final dos anos 80 vi uma
deslumbrante série de tv, AMÉRICA, de
João Moreira Salles, estupenda fotografia de Walter Carvalho, em que Robert
Longo, um dos muitos grande artistasentrevistados, fala sobre o próprio
espírito do filme:
– Produzir arte é relatar para o futuro
como era viver hoje. É importante que meu trabalho represente o que eu sou, o
que eu faço e o ponto em que estou no tempo.
Pois bem, SELVA SELVAGGIA, de 76, é isso. Fruto –em forma e conteúdo –de sua
época e sobre ela, como oHomem com uma
Câmera, de DzigaVertov(de 1929 e, portanto, também prisioneiro da
circunstância: em branco, preto e mudo ).
Ciente disso e da importância do que
fez, o poeta, ...vinte e nove anos depois, lançou, em busca do tempo perdido, esse RONALDO REVISITA
WERNECK SELVAGGIA.
E
aí?
– é una festa la vita?
- A
MoveableFeast.
25 de jul de 2014
18 de jun de 2014
Mauro-Werneck em BH
Vejam a minha entrevista na Rede Minas, por
ocasião da palestra sobre Humberto Mauro que fiz no Palácio das Artes, em Belo
Horizonte MG.
13 de jun de 2014
O som de Solha ao redor
No verão de 2013, de passagem pelo Recife, assisti
por acaso, sem qualquer indicação, ao filme “O Som ao Redor”, de Kléber
Mendonça Filho. Não sabia nada do filme nem do diretor, mas como a trama
acontecia no Recife acabei “arriscando”, já que ali estava. Grata surpresa: “O
Som ao Redor” é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos, e aí entram
também os estrangeiros. De volta ao hotel, na Praia da Boa Viagem, me vi subitamente
dentro do cenário de “O Som ao Redor” e lembrei-me do personagem Francisco
(chefe de uma família que domina alguns quarteirões da Zona Sul do Recife)
entrando no mar à noite, bem ali onde eu me encontrava.
Nos créditos do filme, lembrava-me de ter notado o
nome de um dos atores, W.J. Solha, mas não sabia qual o seu papel. Pensei já
ter visto o nome, talvez até em meus contatos de email, já ter lido alguma
coisa dele, mas não ligava o nome à pessoa, ou vice-versa. Qual não foi minha
surpresa quando há pouco tempo, por ocasião da morte de um amigo em comum, o
escritor cearense Nilto Maciel, vi novamente o nome W.J. Solha assinando um
texto sobre o Nilto na web. Havia uma foto dele e identifiquei de imediato o
“Senhor Francisco” do Som ao Redor. Logo depois, li um excelente texto do Solha na
Revista Eletrônica Rio Total, onde falava en
passant do Guernica de Picasso visto no Museo
Reina Sofia, em Madri, mas voltava os olhos com maior atenção para a mostra
de um fotógrafo canadense, Jeff Wall, que ali se encontrava. Também eu vira por duas vezes o Guernica no Reina Sofia, inclusive quando de uma
grande exposição sobre Picasso, em 2010. E me detivera, e me detivera, e me
detivera e vou me deter sempre ante o quadro trágico e monumental.
Mas a atenção de Solha naquele dia – Guernica à
parte – fixou-se nas fotos de Jeff Wall – em transparência, de grande porte e
retroiluminadas –, principalmente uma intitulada “Um brusco golpe de vento (a partir de Hokusai, de 1993”). Fora a
dinâmica, o que mais deslumbrou Solha foi saber que a foto remetia a uma imagem
que o japonês Hokusai (Katsushika Hokusai, 1760-1849) flagrara 200 anos antes.
Daí, mostrando grande erudição, Solha parte para a influência da arte oriental
na Europa, marcando trabalhos de Manet, Van Gogh, Cèzanne e outros mais. Seu
texto, acuradíssimo, estava eivado de tal argúcia e propriedade que não me
contive: acabei enviando ao Solha longo email elogiando o primor de suas
palavras.
Logo, seguiram-se outros e-mails de cá pra lá, de
lá pra cá, e descobrimos vários e vários amigos em comum. Enviei também alguns
de meus livros, enquanto aguardava/aguardo o envio de seus livros (o Solha
poeta ganhou o prêmio João Cabral de Melo Neto e foi finalista no Jabuti), que
ainda não chegaram. Qual não foi o meu espanto há algumas semanas, quando
estava em Nova York – e pensara nele naquele mesmo dia, ao ver um quadro de Van
Gogh no MoMa (o título de um dos livros de poemas de Solha, “Trigal com Corvos”,
remete ao quadro de Van Gogh) –, qual não meu espanto, repito ainda espantado, ao
ler no meu facebook dois textos do Solha sobre meus livros. Sou um analfabeto
nos mistérios do facebook e não consegui enviar mensagem pra ele de meu
i-phone, instrumento que manejo com total deficiência, com a imperícia de um
matuto manobrando nave espacial.
Agora sim, “acá y ahora”, direto da
base/Cataguases, prestidigito essas linhas de agradecimento. “Paraibano” desde
1982, embora nascido em Sorocaba, o escritor, poeta, dramaturgo, roteirista,
ator e artista plástico W.J. Solha é desses seres multifários que fazem de tudo
um muito e um muito de tudo, com argúcia e grande competência. Mais que
agradecido, sinto-me honrado com suas palavras. Parece cabotinismo (e é), mas
não resisto a divulgar aqui os seus textos sobre meus livros. Gracias, Solha!
Ronaldo
Werneck em
cataminas pomba & outros rios
W.
J. Solha
A
obra tem substancial fortuna crítica. Fábio Lucas define-a como um suave
percurso pela estória, pela História, pelas partes do Ser. Articulando
confidências da memória e da memória coletiva. Mas Délson Gonçalves parece
alertar, em versos, que se trata disso tudo, mas também de poesia, ao
acrescentar a essa definição algo essencial, quando diz que “o rio caminha fora
de mim/ e o mesmo Pomba me navega por dentro”. Não é à toa a citação que o
próprio Werneck faz de Neruda: “– Sé lo que dicen / todos los rios. (...) Hay
secretos míos/ que el rio se há llevado. (...) Reconocí en la voz del Arno
entonces/ viejas palabras que buscaban mi boca”. Recapitulando: “Confidências
da memória e da memória coletiva”. “Secretos míos”.
Tem
a ver, que numa reedição futura, por isso mesmo, talvez o livro venha a se
encher de notas de rodapé, como o “The Waste Land” do Eliot, desnecessárias
para os de Cataguases e – em alguns casos – somente para o autor, pois a obra
acaba tendo alguma coisa muito pessoal, claro que não hermética como no
“Finnegans Wake”, mas tendo. Exemplo: “como numa fotografia/ como num stop no
tempo/ como num apanhado do landóes”. Felizmente o volume é fartamente
ilustrado e se vê, no verso de uma foto de 1911, reproduzida justamente nesse
ponto: “Atelier Photográphico Alberto Landóes”. Como diz o Manoel de Barros,
numa das inúmeras epígrafes do livro: “Imagens são palavras que nos faltaram”.
Mas isso fez com que eu só fosse conquistado
totalmente pela obra quando – no final dela – Werneck fala de rios com que não
tem a mesma intimidade, como o Tajo, o Tâmisa, o Sena, que me fizeram voltar ao
Cataminas e ao Pomba com outros olhos. E por falar em fotos, realmente cataminas pomba & outros rios tem a
beleza extra de muita, muita fotografia de Cataguases e de sua gente, o que,
com o que afirma Fábio Lucas – seu ritmo é cinemático – mais o fato de que o
poeta é apaixonado pelo cinema, me fazem ver, nele, por um momento, um belo
roteiro devidamente ilustrado com todas as suas locações no tempo e no espaço.
Por
que, então, se não lhe faltavam engenho & arte, Werneck não fez um filme?
Porque, parafraseando Manoel de Barros, palavras são imagens que nos faltaram.
Como quando o mesmo Werneck, genialmente, diz: “Pressinto/ cabreiro/ com
horror/ que estou/ numa cidade/ do exterior/ mineiro”. Uau! Mais adiante, ele
descreve o Tibre como “fio presente ausente/ nas glórias de outrora/ não se vê
não se sente”. Mas “não se vê, não se sente” o quê? “faces flashes de outrora/
estilhaços de fausto/ tênues fragmentos/ sombras sobre a história”. Claro.
História!
Ele
é novamente genial quando diz, em El
tajo/tejo:toledo: “Miúdo /em toledo el tajo é tudo/ el cid el greco”. Exato. Senti isso ao parar na pista, fora da
cidadela fortificada pelo rio franzino que a rodeia no fundo do vale, eu
exatamente onde o pintor excepcional fincara o cavalete para pintar a bela Vista
de Toledo, cheia do espírito místico da cidade e dele mesmo. Werneck me faz
pensar novamente nela, quando descreve Ouro Preto: “chove sobre a cidade
encarcerada em sabão e pedra”, finalizando assim: “chove água que escorre sobre
o ouro dos pretos e leva sua memória”. Não “lava”, como seria de se esperar.
“Leva”. É impressionante como ele venera sua terra, como ama a História.
Ele
diz, em L´arno a firenze: “Como
antes/ la luna / a mesma/ de dante/ & petrarca/ a mesma se via/ sobre a
água/ refluxos de poesia”. E vai fundo, em El
manzanares en madri: “Um rio/ fechado em si/ um rio/ lago/ um rio/ del
cante-jondo/ pardo-tardo-redondo”. Fluem, assim, os versos de Werneck, sobre o
rio que cruza Cataguases “correndo corroendo/ um século em cada minuto”.
“Correndo corroendo”. “A preta prata madrugada”. “Gretas grutas”. Nesses
desdobramentos de palavras – que me lembram o glauberiano poeta recifense
Jomard Muniz de Brito –, ele mostra o quanto cuida de cada detalhe do que
compõe, quase como um outro grande mineiro, Guimarães Rosa, mas empenhado na
multiplicação dos enfoques, como os cubistas faziam, trabalhando sempre com
vários ângulos simultâneos, como numa quarta dimensão.
“O
bafo da railway bufando com bazófia/ entre nostálgicas indústrias/ se acendendo
se ascendendo se/ movendo-se movendo se/ como loucas se locomovendo se”. Cinema? Quase. Veja a decupação que ele faz
desta cena: “O rio envolve/ esse tropel de burros/ bicicletas/ meninos soltos/
no pó/ no pé descalço/ nos galhos/ pendurada no ar/ nas árvores”. Mas aí se
segue o pulo do gato: “a poesia / se desmanchando/ se amarelando/ se
dissolvendo”.
Humberto
Mauro revisto
por
Ronaldo Werneck
W.
J. Solha
Acredito
que Humberto Mauro esteja para Minas como Linduarte Noronha para a Paraíba. O
documentário “Aruanda” – paraibano – foi, segundo Glauber, a estreia do Cinema
Novo brasileiro, o primeiro filme nacional feito apenas “com uma câmera na mão
e uma ideia na cabeça”. Graças a esse enorme elogio, eu e o José Bezerra Filho,
quando fundamos a Cactus Produções Cinematográficas Ltda, lá em Pombal, no alto
sertão paraibano, em 1969, onde éramos funcionários do Banco do Brasil, o
convidamos para dirigir aquele que foi o primeiro longa de ficção, do estado,
em 35 mm – “O Salário de Morte” – no qual fiz a direção de produção e o papel
de um pistoleiro.
Foi
uma loucura: vendi a casa e um caminhão para investir no filme, de que
praticamente toda a cidade foi acionista. Essa coisa épica eu acabo de
reencontrar no monumental “Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck”, de
fascinante leitura, pelo conteúdo gigantesco e pelas mil formas – coisa pra o
“Ulisses” de Joyce – encontradas por Werneck para narrar e narrar e narrar o
que foi tudo aquilo que aconteceu em Cataguases, engrandecendo Minas no
nascedouro do cinema brasileiro, lá pelos anos 1920, quarenta anos antes do
famoso documentário do Linduarte. Gostoso, no livro, ver Glauber assistindo
quatro vezes ao “Ganga Bruta” do Mauro, enquanto o resto da turma de cineastas
estava numa festa, naquele interior mineiro. Não é à toa que sinto no ambiente
escolhido para “Terra em Transe” muito do que se vê nesse longa de 1933.
Gostoso
ver o quanto o paraibano Walter Carvalho comparece no livro, inclusive no
enterro do Humberto. Gostoso ver o Werneck entrevistando seu velho ídolo, com
toda a intimidade que só os conterrâneos têm. Gostoso ver as primeiras divas
brasileiras irrompendo lá de Cataguases. Gostoso ver a coisa simples que é
flagrar Humberto vendo um filme americano e dizendo a um amigo “Isso eu também
faço”, e fazer. Gostoso ver os primeiros investidores desse cinema que brotava
da terra, comerciantes da cidade pequena, como fizeram os de Pombal. Gostoso
ver o rico manancial de imagens fotográficas com que o volume ilustra o que
conta. Quem gosta de cinema não sabe o que está perdendo: “Humberto Mauro
revisto por Ronaldo Werneck”.
João Pessoa, 22 de maio de 2014
6 de nov de 2012
Vejam no link a seguir matéria divulgada no dia 2/11/2012 pela Rede Globo / TV Integração sobre Humberto Mauro e o Cinema em Cataguases.
http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-1edicao/t/zona-da-mata-e-vertentes/v/diversao-e-arte-lembra-a-historia-do-cineasta-humberto-mauro-e-do-cinema-brasileiro/2222259/
http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-1edicao/t/zona-da-mata-e-vertentes/v/diversao-e-arte-lembra-a-historia-do-cineasta-humberto-mauro-e-do-cinema-brasileiro/2222259/
16 de ago de 2012
Cataguases, 1975:
Ronaldo Werneck, Joaquim Branco e Rosário Fusco
35
anos sem Rosário Fusco
Exatamente
há 35 anos, no dia 17 de agosto de 1977, morria em Cataguases o escritor
Rosário Fusco. Nascido em 19 de julho de 1910 em São Geraldo (MG), Fusco veio
com um mês para a cidade onde se tornaria, com apenas 17 anos, um dos
fundadores e enfant terrible da Revista Verde. Lançada em Cataguases em 1927, a Verde foi um dos
principais braços do movimento modernista em Minas Gerais. Após longo périplo “oropa-frança-bahia”
(Rio-Paris-Nova Friburgo), Rosário Fusco voltou em 1968 para Cataguases, onde
ficou até o final da vida. Em 2010, seu centenário de nascimento passou
praticamente esquecido. Escrevi na
ocasião um pequeno texto, ainda inédito, que coloco a seguir, junto com um
verbete sobre ele e um artigo que publiquei no Suplemento Cataguarte,
editado junto com o poeta Joaquim Branco nos anos 1990. Divulgo aqui esses três
textos como homenagem e relembrança de meu amigo, trinta e cinco anos após sua
morte.
ROSÁRIO
FUSCO 100 ANOS
Fusco para principiantes
“Não
vou dizer que a leitura de seus poemas seja ainda insuficiente para conhecer o
poeta, o que seria uma impropriedade. O lugar da literatura não é outro senão a
linguagem, e é no texto que a poesia produz ou não o seu impacto. Mas é em
matéria de impacto, justamente, que o caso Waly tem que ser pensado de
múltiplas formas. (...) A presença de Waly promovia uma chuva ao mesmo tempo
premeditada e repentista de brilhações fulgurantes, aliciadoras e hilariantes.
(...) Essa intervenções protéicas, exorbitantes, que aconteciam em enxurradas
junto de Waly, arriscam-se a passar por uma coleção de anedotas pitorescas e a
sair diminuídas, se narradas assim, isoladas e fora do momento insubstituível
em que aconteciam”.
Quem
escreveu isso foi o José Miguel Wisnik em sua coluna de hoje no Globo. Ele está
falando do poeta Waly Salomão, meu saudoso amigo Waly, que era de tal forma um
“vulcão de criatividade instantânea” que muitas vezes sua hiperbólica presença
apagava o brilho de seus próprios poemas. Lendo essas palavras do Wisnik, lendo
e me lembrando da figura do Waly, foi que me dei conta de como sua presença
tomava toda a cena e se assemelhava à de Rosário Fusco. E de como essas
palavras do Wisnik sobre o Waly se ajustam perfeitamente ao homem Rosário
Fusco.
Nascido
em 1910, este é o ano do centenário de Fusco, que se foi há 33 anos e exatos 25
dias. Mas para quem o conheceu, não há como esquecê-lo. A seguir, o verbete que escrevi para Os
100 do Século em Cataguases (publicação editada no ano 2000 pela Fundação
Cultural Ormeo Junqueira Botelho) e outro texto em sua homenagem, que publiquei
em 1999 no Suplemento Cultural Cataguarte.
RW/Cataguases, 11 de setembro de 2010
Rosário Fusco de Souza Guerra, escritor e
advogado, nascido em São Geraldo, em 19.07.1910. Enfant terrible e talento
maior da Revista Verde, correu mundo como embaixador (involuntário) de
Cataguases, para onde voltou... e para sempre: 17.08.1977.
“Lá se foi o velho
Rosário Fusco” – escrevia o cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil
de 21 de agosto de 1977, quatro dias após a morte do romancista em Cataguases:
“um gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se preferirem) a
aventura antropofágica proposta pelos modernistas. Cosmopolita, para onde quer
que fosse levava um coração provinciano. Teria que terminar em Cataguases,
misteriosa cidade com vocação de radioamador – dentro das casas, nos bares, na
praça, na modorra da roça é apenas uma prevenção de forasteiro; na verdade,
Cataguases está em febril contato com o mundo, é pioneira em cinema, em
literatura, em arquitetura”.
A “Cataguases
pioneira em literatura” deve muito a Rosário Fusco – ainda um menino de 17 anos
e já fazendo com outros rapazes uma revista que daria o que falar na Capital de
Minas, na de São Paulo, em várias outras capitais do Brasil e até no exterior.
Fusco foi o motor da Revista Verde, um vulcão que escrevia, ilustrava,
diagramava, mandava (e recebia) cartas pra todo mundo, mas principalmente pro
modernista Mário de Andrade, descoberta e aprendizado.
Com um mês de idade
e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe,
lavadeira. Estuda na Escola Maternal
Nossa Senhora do Carmo, conclui o primário no Grupo Escolar Coronel Vieira e
faz o secundário no Ginásio Municipal. Duro início de vida: aprendiz de
latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia,
professor de desenho, bedel no Ginásio. Aos 15 anos, já colaborava no
“Mercúrio”, jornal dirigido por Guilhermino Cesar, futuro companheiro na Verde,
e logo em dois outros jornaizinhos, “Boina” e “Jazz Band”. Com José Spindola
Santos, edita “Itinerário” – e juntos fundam a livraria-editora Spindola &
Fusco. Aos 17, é um dos criadores da Verde e, aos 18, publica “Poemas
Cronológicos”, parceria com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, Verde Editora,
1928. Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937.
Romancista,
funcionário federal, dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista,
crítico literário, ensaísta, secretário da Universidade do Distrito Federal e
procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um homem só, mesmo
um mulato enorme e da melhor qualidade como Rosário Fusco. Melhor dizer,
simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque ele foi o primeiro escritor
brasileiro a ser reconhecido como tal pelo antigo INPS. Em meados dos anos 1960,
ele volta para Cataguases. “Aonde anda Rosário Fusco?” – (se) perguntava em
1996 um poeta da terra, no suplemento Cataguarte: “Aonde andam o
vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga
risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a panela com água fazendo de
cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a
mesa do seu escritório na casa da Granjaria. Como a bota de Van Gogh, uma de
suas admirações ´do rol das confessáveis´ (as outras: Machado de Assis,
Dostoievski, Beethoven). Mas que coisa é Rosário Fusco, que coisa entre coisas,
entre todas as coisas é R.F.?”.
De
1928 a
1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance “L´Agressore”,
editado em 1943, no Rio, pela José Olympio – Fusco publica inúmeros títulos em
vários gêneros: “Fruta de Conde”, poesia, 1929; “Amiel”, ensaio, 1940; “O Livro
de João”, 1944, “Carta à Noiva”, 1954, “O Dia do Juízo”, 1961, romances; “Vida
Literária”, crítica, 1940; “Introdução à Experiência Estética”, ensaio, 1949;
“Anel de Saturno” e “O Viúvo”, de 1949, teatro; e “Auto da Noiva”, farsa, 1961.
Que coisa é Rosário
Fusco? Um escritor e basicamente um romancista, com toda a sua danação e
glória: “Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a
vontade de escrever... Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem,
se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes... Vivo – quem
não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra,
protestos de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de
afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça, irremovíveis...Vivo num
mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair...
Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma
fatalidade, para encurtar palavras”.
Na
crônica citada, Carlinhos Oliveira brinda à vida e faz de suas palavras a
melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a
notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu
e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos,
mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem dúvida uma
vitória contra a insidiosa inimiga”.
Os
100 do Século em Cataguases, 2000
ROSÁRIO FUSCO
rosário
fusco o que foi físsil rosário fósforo
foi-se
de fato fora do rastro do que já foi
sim
porque nunca foi
rito
rosto rateio ritmo rumo ruminação relíquia.
A tênue densidade dos corpos
Ainda hoje é comum os americanos se indagarem sobre o que
faziam no dia em que John Kennedy foi assassinado. Foi um novembro
inesquecível, aquele novembro de 63, aquele dia de frente para a morte. Na
noite em que Rosário Fusco morreu, falei com o Ziraldo pelo telefone e combinamos
que eu faria um artigo pro Pasquim. Estava no Rio – e com a casa cheia: minha
mulher ensaiava com outros atores a peça Apaguem os Lampiões, que seria
encenada no mês seguinte, setembro, em Cataguases. Desliguei o telefone ainda
chorando e ainda chorando tranquei-me no escritório: um maço de Minister, um
litro de Cutty Sark e a velha e às vezes infalível Lettera 22.
A mesma Lettera 22 que trouxe do
Rio e onde escrevo agora, quase 19 anos depois, longe de Copacabana e do meu
PC-486. Daqui da casa de minha irmã, de volta ao passado, mais uma vez
cavalgando a imbatível Lettera 22 com seu teclado magicamente ajustado ao ritmo
de meus poemas. Daqui deste terraço de frente pro verde, pros verdes matos e
montes gerais, nesta manhã de maio em Cataguases, muito, muito perto do velho
Rosário que avisto lá naquele morro, aquele lá pra onde vou também juntar-me a
ele que ali já se encontra junto com Annie.
Estamos em agosto de 1977, na
virada de 17 pra 18, dia em que Rosário Fusco será enterrado em Cataguases. Eu
acabara de chegar do exterior, onde estivera a trabalho durante longo período
– se é que podemos chamar Asunción del Paraguay de
“exterior”. De qualquer forma, estava
isolado do país e há mais de três meses não via ou tinha qualquer notícia de
Rosário Fusco. Movido a lágrima e uísque a caubói, exatamente como com ele
tantas vezes bebi, só consegui sair do escritório no “cu da aurora” (d’aprés R.F.), trazendo debaixo do
sovaco um texto emocionado que o Pasquim publicaria na semana
seguinte. Não consegui viajar pro
funeral: sem condições. No ano anterior, março de 1976, há exatos vinte anos,
portanto, o Pasquim publicava a entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com
Fusco e que vai em parte reproduzida neste jornal. Deu um bode dos diabos.
No mesmo dia em que saiu a
entrevista, 19.03.76, um Rosário Fusco puto da vida – e
sob a chancela “Reservadíssimo” –
mandava-me carta de Cataguases: “...
o que v. chamou de montagem de textos e o Pasquim divulgou como entrevista é furo jornalístico de foca provinciano”. E por aí seguia o velho e ferino Fusco,
ameaçador: “... Mas pode ter consequências,
pelas quais o responsabilizarei no momento oportuno, se for o caso”. A entrevista mencionava vários medalhões
literários de forma inédita e bem-humorada, entre eles Lawrence Durrel e...
Grace Kelly, a própria. Fusco temia inacreditáveis represálias sobre o que
havia dito (e dito várias vezes), como se os dois, a “princesa” e “o autor
internacional” fossem algum dia ler o
Pasquim.
Apesar de outros envolvidos no,
vamos dizer, quiproquó (o próprio Ziraldo, o Jaguar, o Joaquim, a Adriana
Montheiro, que havia feito as fotos), ele não livrava minha cara: “Tirei o Joaquim Branco da jogada porque o
estilo dos comentários – inconfundível pelos cacoetes – tenho certeza de que são seus”. O velho
bruxo da Granjaria estava realmente puto da vida. Por absoluto mistério do
correio cataguasense, a carta só chegou às minhas mãos em abril. Devolvi "de bate-pronto" numa longa
resposta onde mostrava meu espanto com sua reação em cima de coisas já sovadas
de tão ditas e repetidas para o fechadíssimo círculo que frequentava sua casa
da Granjaria. E sobre as quais ele nunca pedira segredo.
O dito & o escrito
O próprio Fusco chegara mesmo a
ver grande parte do texto publicado pelo Pasquim: “Foca provinciano – eu
dizia em minha resposta – é no mínimo muito engraçado. ‘Foi uma das melhores
entrevistas do Pasquim’ (Ziraldo), a única que mereceu seis páginas e todo
aquele aparato fotográfico. Certamente (e falando sério) pelo talento &
fotogenia do (suposto?) entrevistado. Mas se o ‘foca provinciano’ que editou a
matéria (‘com seus comentários inconfundíveis pelos cacoetes’) não tivesse as
fotos de primeira qualidade da Adriana, algumas perguntas (respondidas por
escrito) do Joaquim Branco ou os fragmentos (já publicados) das cartas de RF
para Laís Correia de Araújo, a entrevista possivelmente ficaria esquecida na
gaveta de algum pasquim provinciano. O que teria sido melhor: para RF, para
RW... A imaginação do romancista (maior) pode – isso sim – ter sido por demais
fértil”.
Era
na verdade uma briga de amor onde eu terminava dizendo que “o Ronaldo manda um
abraço pro Fusco (como normalmente nos chamávamos) e pra tribo inteira, como de
hábito (isso porque, na carta, ele me chamava de “Ronaldo Werneck” e assinava “Rosário
Fusco”, procurando manter total distanciamento). Em maio daquele ano não pude
ir a Cataguases, tomado pelo nascimento de meu
filho Pablo e de Selva Selvaggia,
meu primeiro livro. No início de junho, recebo carta, agora sim, de meu velho
amigo, que merece transcrição:
“Ronaldo: nada de ressentimentos, tanto mais que o
dito ficou dito e, o falado, escrito. Velho aposentado não dispõe de tempo pra
cartear, pois que o elenco de doenças que carrega lhe consome o tempo: entende?
Vai entender, daqui a trinta anos. Parabéns (extensivos à Adriana) pelo duplo
parto: do filho de papel e do filho do amor. Ambos são válidos e, às vezes, até
se confundem nas nuvens do sonho igual. Você me cita no prefácio do livro do
Quincas (Joaquim Branco) e o Cabral (Francisco Marcelo) me cita no prefácio de
seu livro. Isso dá a impressão de que existe uma igrejinha cataguasense, mais
nordestina do que mineira – o que não é bom. Creio que seu amigo Ezra Pound, na
conjuntura, lhe proporia a seguinte charada inconsequente que psicografo por
estranha força do astral: 'eu te cito/
você me cita/ na área do consumito/ você apita/ se eu apito/ no mesmo apito/
nada comum/ pois que o dito/ só clama aflito/ o pobre mito/ de cada um'.
Abraços do Rosário (02.06.76)
“Ronaldo:
veja, por favor, se descobre o endereço do famoso Dr. Ruper(?), considerado o
maior urologista das três Américas... estou projetando um artigo comprido sobre
sua poesia: mandarei. Não convém que a turma do Pasquim
apareça. Pelo menos, por enquanto. Assim que eu melhorar de, ao menos, uma de
minhas mazelas (acho que todas já se instalaram em mim pra ficar até o dia do
Juízo) avisarei. Annie se junta a mim para abraçar o, agora, quarteto Werneck.
Do velho, Rosário (18.08.76).
Não
me perguntem como, mas devo ter achado o endereço do "famoso Dr.
Ruper", pois em 30.09.76 ele me agradecia em meio ao intenso sofrimento
físico e a comentários sobre uma revista que lhe enviara. Prometia também
terminar um artigo sobre meu livro Selva
Selvaggia, que nunca vi: “De pleno
acordo com você quanto à paginação da revista (José): limpa e fria,
monótona como uma viagem de trem no escuro. Também a matéria não rima com o
formato nem com a indicação pomposa da tríplice especialidade: 'literatura,
crítica e arte'... Doente outra vez – ou como sempre – mas, desta feita,
obrigado a uma viagem diária a J. de Fora (aplicações de raio x nas mamas), ando sem ânimo pra cuidar das
coisas de que mais gosto: ler, escrever e, até, ...beber. Não acabei o artigo
sobre Selva: mas
quero publicá-lo até o fim do mês: antes, submeterei o trololó à sua
apreciação, ou ao seu entendimento, como diria o mulato Machado”.
Que coisa é Rosário Fusco?
Era o velho Fusco que voltava à
toda e me fascinava como sempre, como na primeira vez em que o vi,
absolutamente só (Annie ficara em Friburgo, enquanto ele construía a casa em
que iriam morar no bairro da Granjaria), numa sala nas proximidades do campo de
futebol do Colégio Cataguases, lá pelos meados dos anos 1960. A cabeça surgindo
imensa e se destacando no cipoal de garrafas sobre a mesa, a cabeçorra de
Rosário Fusco que emergia por entre o mar de martinis e gin, muito gin,
imaginem. Remexo na memória, num velho envelope escrito "R.F.", que
trouxe do Rio.
Estão
aqui, neste terraço cataguasense, os vestígios do velho Rosário que carrego
comigo. Onde anda Rosário Fusco? Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda
Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, as
lágrimas, o uísque, o cigarro, a imensa caixa de fósforos marca Olho, a panela com água fazendo de
cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a
mesa do escritório, como a de Van Gogh, o mesmo daquele auto-retrato ali no
fundo, primorosa reprodução feita pela Annie. Mas que coisa é Rosário Fusco?
Que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.?
“Jamais
descobri porque, aos 17 anos, fiquei sofrendo do peito, por solidariedade a
Manuel Bandeira (que deve possuir uma carta minha a respeito)”.
“Tenho
perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever”.
“Amor é
doença, como escrever. Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem,
se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes”.
“Vivo –
quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra,
protesto de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição,
aumento do preço do cinema ou dores de cabeça irremovíveis”.
“Vivo num
mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair”.
“Escrever
é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma
fatalidade, para encurtar palavras”.
Começo
a futucar essas coisas “fuscais”, esses velhos papéis que me ofuscam e quase
planam na memória – não fora a irreversível “densidade dos corpos” que ele
gostava sempre de lembrar. E remexo com
a hierática postura que ele me ensinou um dia – solene, entre uma tragada e uma
talagada: “Meu caro poeta, para ler,
mas ler mesmo, comme il faut, aproveitando o que se lê, aprendendo, é
preciso apreender, é preciso estar com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça
apoiada em uma das mãos, a caneta na outra, anotando o ‘anotável’, digerindo o
‘digerível’, ou o dirigível, como queira”. É o que eu hoje chamo de “leitura fuscal cotovelar” – a
que fica e nos justifica.
Então, "cotovelemos" juntos com as palavras de Rosário Fusco: “Ronaldo:
Lamento sinceramente não me ter encontrado com você. Com um febrão danado (39,5
à sombra), até o sagrado mijo eu o mictava na cama (num ‘compadre’, claro).
Obrigado pela trazida do Processo (?): ainda não o abri, nem o abrirei tão
cedo, com o rabo ruim e a alma pior. Reli seus poemas: acho que v. já tem idade
para editar-se. Não falemos da entrevista nem de O Anunciador (Longa-metragem
realizado em Cataguases em 1967, dirigido por Paulo Bastos Martins). Gostaria
que v. me mandasse:
1 quilo
de bacalhau ‘Neptun’s (dinamarquês, em pacote).
6
garrafas de ‘Merlot’ (Granja União).
6
garrafas de ‘Cabernet’ (idem).
Se tiver
tipo ‘Medoc’, pode meter 6 também. Pagarei aqui, ou aí, como quiser. Abraços
apressados e hemorroidários do R.” (26.08.70).
As mamas do Finnicius
Era assim, totalmente imprevisto,
misturando tudo, poemas, bacalhau e vinho, muito vinho, de uma só ‘cambulhada’,
como gostava de dizer. Foi mais ou menos por aí, meados de 1972, que ele esteve
no Rio, rumo a Paris. Passou um mês no Apa Hotel, em Copacabana, junto com
Annie, a francesa com quem se casou cinco vezes e que o acompanhou sempre – e
ainda agora está a seu lado no campo santo do alto daquele morro que avisto
daqui. Annie que lhe deu François, o Rosário François Petitjean Fusco de Souza
Guerra, então um menino de pouco mais de dez anos. Fusco passou um mês absolutamente
de porre, não querendo embarcar por absoluta paúra de voar, “até mesmo
de elevador”: hospedou-se no 2º andar e só transitava pelas escadas, sempre
para o hall onde bebíamos, onde bebíamos, onde bebíamos. Ele dava generosas
gorjetas aos empregados do Apa para levarem François ao circo, ao Tívoli
Parque, aos cambaus infanto-juvenis. Nós nos víamos quase todos os dias noite
adentro. Annie me pedia, aflita, para convencer o "Rosárr" a pegar o avião logo, pois o
dinheiro que haviam trazido para a temporada européia estava indo embora entre
garrafas & gorjetas.
Pouco
antes de finalmente embarcada para Paris a tribo Fusco, eu e meu amigo fomos ao
tradicional almoço das sextas-feiras na Livraria José Olympio. Rosário queria
rever amigos e lá fomos nós, devidamente calibrados, a pé pela praia de
Botafogo, após deixarmos Annie e François na Sears. Duas figuras de almanaque: Fusco muito alto, de terno
escuro, sem gravata e... sem sapatos (os pés inchados há muito não permitiam
essa “modernidade”). Eu muito baixo perto daquele mulato gigantesco, trôpego,
possivelmente tropeçando em minhas próprias barbas. Ainda não dera meio-dia e
já havíamos bebido “todas” segundo o jargão de hoje. Fusco brilhou, ofuscou a
todos no almoço coalhado de literatos de vários calibres. Lá pelas tantas, Zé
Olympio me chamou em seu escritório. Queria saber, em particular, sobre as
mamas de Rosário, que estavam muito inchadas. Sua preocupação não era
infundada: as mamas inchadas já eram um indício do início do fim ou do reinício
de tudo, do “finnicius” do, segundo ele, “sovado Joyce”. Mas, antes, vamos a
Paris:
“... Já
voltamos da Bretagne. Pra Annie e François, uma festa. Pra mim, uma bosta. Quinze dias sem comer. Uísque
(baratíssimo): um litro por 24 horas... Abraços de tribo pra tribo. Rosário”
(Paris, 18.07.72).
Corta
pra alguns anos depois, talvez 1975. Eu
estava em Cataguases e minha mulher foi internada por causa de uma
desidratação. Nada sério. Relia alguns
contos de Machado no quarto do hospital e, engraçado, pensara no Fusco, pois o
“mulato” era uma de suas admirações, do “rol das confessáveis” (as outras: Van
Gogh, Dostoievski, Beethoven, não necessariamente nessa ordem). Saí pra fumar no corredor e dei com uma
enfermeira que me conhecia (eu, não) e fez a maior festa, pegando-me pela mão,
prometendo uma surpresa inacreditável. Era mesmo.
Ao abrir a porta de um dos quartos, a madrugada em meio, deparamos com a seguinte cena: um enfermeiro, duas enfermeiras, uma garrafa, duas garrafas, várias garrafas, muita fumaça e baforadas e um alegre Rosário Fusco regendo o porre hospitalar. Ele subornara todos & todas. Abriu nova garrafa pra comemorar minha chegada e... “mergulhamos de vez no materialismo histórico”, como ele gostava de dizer, citando Oswald de Andrade.
Ao abrir a porta de um dos quartos, a madrugada em meio, deparamos com a seguinte cena: um enfermeiro, duas enfermeiras, uma garrafa, duas garrafas, várias garrafas, muita fumaça e baforadas e um alegre Rosário Fusco regendo o porre hospitalar. Ele subornara todos & todas. Abriu nova garrafa pra comemorar minha chegada e... “mergulhamos de vez no materialismo histórico”, como ele gostava de dizer, citando Oswald de Andrade.
Creme de Pérolas
Foi também aí, meados dos anos 1970,
que Fusco me mostrou alguns poemas de um volume inédito sobre a Lapa.
Praticamente impublicável na época, o livro (Creme de Pérolas, que
ótimo título!) está inédito até hoje. Tenho aqui, à minha frente, um de seus
poemas, o de que mais gosto, ainda impublicável em jornal, ditado por ele e
datilografado por mim numa manhã etílica da Granjaria. Transcrevo alguns
trechos, dos publicáveis. O título é “Edital de demissão e ponto” e foi
manuscrito pelo próprio com a velha Parker 51:
Meu caro poeta:
Meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.
O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.
Erra,
quem pensa que as palavras valem
hoje em dia
– pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.
São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.
(...)
Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam
o pai
a mãe
( ...)
Sobretudo
o teu gorjeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.
( ...)
Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.
A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
omite
e
demite poetas.
Ora,
pra quem se acreditava
"somente" romancista (“Sempre fui um desprezível poeta –
mamãe dizia que versos não enchem barriga”) este é um poema que nos chega com a força do grande poeta. Creme
de Pérolas pede urgente publicação,
principalmente por se tratar de uma faceta desconhecida de Rosário Fusco. Meu
amigo era também um crítico arguto de poesia, como se vê pelos trechos desta
carta, a última que me enviou, em 19.05.77:
“Seu poema não precisa de apresentação (ele falava de uma versão
inicial que lhe havia enviado de meu livro “Pomba Poema”, homenagem ao
centenário de Cataguases, que seria lançado em setembro de 1977). Ele se
apresenta em tons de ‘martelo’ (nordestino) e ‘carretilha’ (mineiro). No que se
refere ao ritmo. Quanto à forma é uma explosão subconsciente (supra-realista)
dominada, dirigida, como faziam os primeiros modernistas (Mário,
principalmente) e, hoje, até o Chico Anísio nos seus poedramas (da TV)
sincronizados, acentuando as rimas... No formato pretendido por v. não há
economia de papel, custo etc: duas páginas de sua paginação se reduzem a uma,
no formato tradicional. Lembre-se da disposição gráfica do Coup de dés. Não siga o conselho de seu amigo (o designer
cataguasense Dounê, que fez a programação visual): a estatística só funciona no
campo da ciência. O número é restrição, corte de asas. E você está voando, meu
poeta. Eu tenho uma edição de Mallarmé que poderá orientá-lo tipograficamente.
É de 914 e repete o poema do homem como foi composto e publicado originariamente,
em vida do poeta. Não posso me estender mais, com dores tremendas – e
sincopadas – em todo o esqueleto (Fusco morreria três meses depois): ossoporose (sic: ele grafou e grifou
‘osteoporose’ de forma trocada). Venha conversar comigo, ou
telefone. Seu velho, quadrado e anti-modernista Rosário”.
Ah,
sim: no dia 22 de novembro de 1963, enquanto John Kennedy morria em Dallas, eu
viajava de ônibus do Rio para Cataguases. Soube na parada de Além Paraíba.
Traguei forte meu Luiz XV sem filtro e soltei a fumaça em espiral sobre o rio
Paraíba. Tinha exatamente vinte anos e um mês – e a vida parecia uma parada
maior que a morte, até mesmo a de Kennedy. Não era.
Suplemento Especial “Cataguarte”,
Cataguases, 1996
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