30 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 3: Miséria por conta e risco

 A seguir, a primeira parte da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976.  

O ESCRITOR BRASILEIRO É UM SUPERCAMELO 



PASQUIM – Que que há, Fusco. Não publica mais no Brasil? 
FUSCO – Mofino autor de livros sem nenhuma significação especial, nesse ou em qualquer gênero, jamais consegui firmar uma clientela fixa (acho que nem mesmo flutuante) quando isso era possível, neste ou em qualquer país. Agora, ignorado por leitores e editores, me resigno, humildemente, a ser, apenas, autor de títulos que nem aos íntimos revelo. Velhice? Velhice. Não posso conceber um mineiro fazendo concessões de nenhuma espécie. Sou do tempo do fio de barba funcionando como firma reconhecida. Não concebo – mas, porém, todavia, contudo – num artista (eu disse artista). Então vocês acham que mineiro tem coragem de escrever sobre si mesmo? Os que escreveram – Afonso Arinos etc – já os excluí da lista das minhas admirações coestaduais. 

PASQUIM – Literatura e vida: são paralelas? 
FUSCO – Não se pode reduzir uma tese “insistente” a simples verbete. Sim, eu tive sempre (e confesso) vontade de durar: o diabo é que entre “duração” e “existência” há abismos que nem de leve pressente a nossa (dos imbecis) vã filosofia. Ora, meus jovens atletas: quando eu era criança já me preocupava com o assunto e outro dia, revendo velhas coisas, fiquei pasmado com a minha “unidade” na incoerência vital: não mudei, não mudo, não mudarei. “Sou uma miséria só” (Livro de João/1944) – sou “miséria por conta e risco” (O Agressor/1939) – “A vaidade imediata não é o forte dele... nem o meu (Amiel, 19... meu Deus, eu tinha vinte anos). E vou cumprindo, com isso, a outra, a terrível vaidade constitucional. A vida me ensinou a conciliar os extremos: perdão, tempo e memória.                             
PASQUIM – O que você entende por romance?        FUSCO – Romance, para mim, é gênero danado e, pois, maior, o maior. Romance só é gênero pequeno, barco de pequena cabotagem, nos compêndios de história literária dos teoristas nacionais. Ou nos volumes dos narradores brasileiros. Você (vocês, eu, qualquer um) pode ler A Imitação e não se santificar. Pode praticar, digamos, Aristóteles e não se tornar filósofo. Mas se ler o Madame Bovary, por exemplo, será fatalmente modificado, perdido: irremediavelmente. Só o romance exige e transmite sensação. Só um artista, um louco varrido, meu Deus do céu, pode escrever um romance – arte do diabo, sábio e adivinho, profeta e canalha, pregador e santo, catalisador e cirurgião, mágico e ordenador do caos, masoquista e infeliz. Bem, já estou caindo na literatura, com perdão da palavra, louco pra escrever depressa e... o negócio é “mergulhar no materialismo histórico”, como dizia Oswald de Andrade. 

PASQUIM – Na sua opinião, a quantas anda o romance brasileiro. Parou em Graciliano ou continuou em Clarice, Guimarães Rosa etc? 
FUSCO  O romance brasileiro, como processo, não parou. Acontece que, com a tentativa atual de desmoralização do mistério (homem indo a lua, pílulas dissolvendo fetos, robôs engendrando filhos, computadores prevendo o futuro) o homem foi levado a esquecer o corpo, única “realidade” que se pode palpar. Assim, não havendo mais lugar para a ficção (tessitura mítica do que se sente, pensa e faz), a transmissão dos dramas (situações) emocionais, através das palavras, não faz mais sentido. E, porque não faz mais sentido, os romancistas, no momento, se mandaram pra glotologia. Mas isso acabará. A literatura (arte de exprimir, gráfica e esteticamente, o outro lado do real) tem passado por fases históricas, barrocas, equivalentes. Os modismos são pendulares.  

PASQUIM – Por falar em “outro lado do real”, como você situa o realismo fantástico, Borges, Cortázar & etc ? 
FUSCO – Vocês podem publicar, para efeito de gozação, que eu sou o precursor do “realismo fantástico” no romance sul-americano. Li recente entrevista de Cortázar dizendo que aprendeu a coisa de Jorge Luis Borges, que começou a coisa na América em 1942, mais ou menos. Ele, Cortázar (aliás um chatíssimo tipo) começou em 47. Ora, em 39 eu escrevi O Agressor, que demorou 4 anos na José Olympio e só saiu em 43. Logo, donc, q.d.o., “realismo fantástico” é besteira (Pawels é que valorizou a chancela, mais velha do que a Sé do Braga, valorizou ou vulgarizou) quando, para efeito estético, já existia o “supra-realismo” de André Breton e Appollinaire, muito mais lógico. E lógico por que? Porque o supra-real, significando algo mais que o real ou o outro lado dele, diz mais do que “realismo” grudado a “fantástico. Por que ainda? Porque o real independe da existência, podendo até – e é o que acontece sempre – precedê-la. Tomás de Aquino já associava a potência e o ato, ou distinguia o ser da existência (coisas que o vosso amigo Sartre explorou às pampas) pois que a essência precede a existência (Heidegger, Husserl etc). Quando penso um romance, o romance já existe (em essência, i.e., em potência) faltando o ato (fazer) para que ele exista. Já lhes disse, mais de uma vez, que vivemos um tempo semântico. A mesma coisa e a mesmice se impondo com outros nomes. Inventa-se uma palavra (Inventa-se ou valoriza-se) e logo vem uma teoria para lhe dar curso. Parapsicologismo (Rhine) é o ocultismo milenar, oriental, com nome novo. Media (Mcluhan) ou hardware – quinquilharia (ambiente ou resto, ou restos, quinquilharias, peneirados do ambiente, media) fazem a fortuna de um autor e as masturbações dos deslumbrados. Tomás de Aquino: ”a realidade transborda do conceito”. Correto, positivo: porque as palavras que nomeiam as coisas combinam, as coisas restam, resistem. Aqui, cabe o nihil novi. Mas acontece que, sem tais transas, como a gente poderia s’amuser, aguentar a carga existencial, arranjar pretexto para beber ou coisas pelas quais morrer? A confusão foi sempre geral, meus caros. E ai de nós se a existência não fosse confusa, fusa, fusional, fissível, fusca, fusco. Amém. 

PASQUIM– A criatura, ou o criador? O que vale mais, o escritor Rosário Fusco ou o Rosárr, como a Annie lhe chama, o homem cotidiano, tributável? 
FUSCO– Quem escreveu o Cântico dos Cânticos? Shakespeare nasceu quando? Era mesmo Shakespeare ou Bacon, ou um francês, Jacques Pierre? Qual é mais importante a criatura ou o criador, Dom Quixote ou Cervantes? As coisas essenciais não são de ninguém: por pensamentos, palavras e obras. Mas há “essenciais” que podem ser analisados e, da análise, acabar não sendo “essenciais”. O sal era ou já foi, um elemento simples, do qual todos os outros sais derivavam. Descobriu-se que o sal (sal de cozinha) não é apenas cloreto de sódio. Mas sódio, cloro e um elenco de mais treze derivados, se submetido à eletrólise. Donde se conclui – mutatis mutandi e pulando daqui prali – que a meia verdade, aplicada a literatura está com o vosso parente e chato Jorge Luis Borges: “cada escritor cria os seus precursores”, ou, trocando a coisa em miúdos para explicação mais larga: cada um é um repetindo a todos. Daí caímos no sovado dito do nosso caro Pitágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”, dito que eu reedito o modifico por conta e risco: “cada homem é a medida de suas coisas” Agora entendam tudo, porque vou parar de lero-puxa-lero. As vogais tinham cor antes de Rimbaud? Não. Passaram a ter: coisa que até a física moderna comprova e já não é mais considerado troço de poeta. Et voilà.  

PASQUIM– Oswald de Andrade x Carlos Drummond de Andrade. 
FUSCO– Não há confronto entre polos de força que se repelem, mas... curto-circuito. Não me meto nessa. Um morto, outro vivo. Me respondam: qual é o vivo, o mais vivo? 

PASQUIM – O que significou o movimento da Revista Verde dentro do modernismo brasileiro? O modernismo valeu? E a Verde? 
FUSCO – As revoluções, todas as revoluções, são românticas. Quando há desgaste – entropia, para os estruturalistas – recorre-se à revolução, i.e., à volta ao que “já era” sempre considerado ideal em relação ao decepcionante atual que vem sendo, ou “está sendo”. Entendam se puderem. As novas gerações cabeludas não estão, inconscientemente, ensaiando repetir a vida grupal, comunitária dos cristãos – e artesãos – do II século, superestrelando Cristo, o estilo de vida primitivo e os cambaus? Nos cambaus vocês podem incluir, se quiserem, as drogas, o zenbudismo, todos os “misticultismos” do macrobiotismo  ao parapsicologismo, do astrologismo desenfreado (“Você é touro? Pois eu sou virgem...”) ao... teste de Cooper. A Verde é folclore e os seus representantes, um episódico (embora pra Cataguases lisonjeiro mas não identificado) equívoco. Já me fizeram igual pergunta, inúmeras vezes. Minha resposta tem sido esta: nada. O próprio “modernismo brasileiro” não passou de uma onda nacional inconsequente, provocada pela maré estética europeia, então montante. Repare que o historiadores do movimento – na maioria, participantes dele – têm certa dificuldade de justificar a “importância” do que acham que fizeram. Leia os depoimentos anedóticos pertinentes assinados pelos senhores Carlos Chiacchio, Peregrino Junior, Murilo Araújo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Raul Bopp... entre outros. Os grupos provincianos só aparecem aí pela sobrevivência, mais ou menos significativa, de alguns nomes. Nomes que, de qualquer modo, se evidenciaram com o tempo, sem que a adesão deles à moda tivesse isso ou aquilo. O historiador, das letras ou não, é um arbitrário “montador” dos epitáfios para enfeitar compêndios.  



                                                                                                            Continua na próxima semana

22 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 2: Malabarista irreverente

Dando continuidade (na verdade, principiando) à publicação da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontra-se a seguir o texto de apresentação, que escrevemos em conjunto:   

ROSÁRIO FUSCO PARA PRINCIPIANTES  


De um encontro com Rosário Fusco, muita coisa se perde ou fica esclarecida pela metade (o homem não gosta de gravador), outras se pode tentar ler nas entrelinhas, e a maioria transparece na intenção de resguardar uma intimidade imperturbável. Ao lado de uma irreverência em bom som e sem limites, que não vacila em desfiar os assuntos mais controvertidos, Fusco é o místico terra-a-terra, o calmo-desafiante, o espiritualista-materialista, o malabarista do pensamento e, até, o homem comum. Um dualismo perfeito, como convém a um romancista de sua estirpe. De limpador de vidros de farmácia no interior de Minas a conferencista na Sorbonne, onde fotografou os originais do “Lance de Dados” de Mallarmé, passando o negativo do poema pro papel e sacando dessa inversão uma tese inédita, pelo menos na época: “o importante no Coup de Dés não são os espaços em branco, ao contrário do que pensam os apressadinhos, mas o avesso disso: a posição musical ocupada pelas manchas do texto dentro da página. Mas isso é só pra chatear “los cuprinos” (leia-se Augusto e Haroldo de Campos): se quiserem, ainda tenho os originais da geringonça”.  De ghoswriter de inexpressivos e tresloucados políticos de Cataguases (um deles queria que ele lesse o discurso da torre da igreja e depois se lançasse lá do alto, naturalmente metido na recém-inventada máquina-voadora, obra-prima de outro maluco da cidade: “já pensou no impacto, meus caros?!”) a candidato a deputado na década de 50 (“não fique confuso, fique com Fusco”, era seu slogan), fragorosamente derrotado: “os imbecis não me entenderam, o que, aliás, não é novidade”.  
De fabricante de perfumes e desenhista de modas (“até hoje minha mulher usa a água-de-cheiro que eu faço, os vestidos que eu desenho. Muito antes de as botas compridas estarem na moda em Paris ela já calçava as botas que eu havia bolado) a editor da falecida revista A Cigarra dos bons tempos – onde criou famoso concurso de contos, o primeiro do gênero e onde, jura, o Millôr Fernandes foi seu contínuo: “o rapaz era vivo e levava jeito”. De editor, criador e enfant terrible da Revista Verde, que fez em Cataguases na época do modernismo, com apenas 17 anos (é famosa sua carta a Mário de Andrade: “mandem colaboração, seus bostas!”. E os “bostas” mandaram não só um poema a quatro mãos, assinado Marioswald de Andrade – “todos nós somos rapazes/muito capazes de ir/ver de forde verde/os ases de Cataguases” –, como outro, de Blaise Cendrars, dedicado aux jeunes gens de Catacases), à maturidade do romancista de Dia do Juízo, seu último livro publicado no Brasil (em 1961). Ou do kakfiano O Agressor, de 1939, cujos direitos autorais foram comprados por Orson Welles à editora italiana Mondadori, que o lançou na década de 1960. Aliás, o prefácio italiano (L´Agressore) o compara a Kafka e Joyce (“dois animais que só vim a praticar muito tempo depois”, como ele afirma).  
“Quanto ao Orson Welles, eu o conheci num baile do Quitandinha, quase trinta anos atrás. Mas não me lembro do que falei com o atleta: estava mais interessado na Grace Kelly, com quem, por sinal, acabei dançando, sofrendo o diabo dentro de apertadíssimo smoking alugado “pelos tubos” do Rollas: me custou todo o salário do Instituto dos Marítimos, onde eu trabalhava na época (aqui pra nós: “o sovaco da princesa fedia pacas!”). Agora, o que o Orson Welles vai fazer com o meu romance, nem eu sei. Aliás, acho que nem ele, pois até hoje, ao que parece, a coisa está parada, só soube da transação quando a Mondadori me mandou o dinheiro”. E daí vai. Ou vem. E continua: de menino paupérrimo (“quando lá em casa tinha angu com torresmo... era festa...” e se emociona às lágrimas) ao advogado bem-sucedido, ao procurador do estado aposentado (idem como escritor: como membro da confraria de amigos de Plínio Doyle, de quem partiu a ideia, foi um dos primeiros escritores brasileiros a se aposentar como tal), ao excelente e ferino crítico literário dos anos 1940.  E poderia continuar ad infinitum, tão controvertida e multifária é a vida do homem e do escritor Rosário Fusco de Souza Guerra: “nasci da fusão, ou confusão, de mulata com italiano, daí meu metro e oitenta acima do nível do mar (um gigante dentro do baixo nível estatutístico de Cataguases) e meu saco roxo (faixa azul, cinta encarnada), devidamente provido de aparelhagem funcionando a todo o vapor até o cu da aurora”. (Há ao lado de sua casa no Bairro da Granjaria uma vizinha de nome Aurora. Toda vez que Fusco solta esse “cu da Aurora” ele grita na sequência: “não é o da senhora, não, Dona Aurora!”). 
Hoje com 66 anos, novamente sediado em Cataguases (desde 1968), após longo périplo oropa-frança-bahia (leia-se Rio-ParisFriburgo), Fusco continua uma obra & biografia (qual a mais rica?) no mínimo instigantes. Doze livros publicados no Brasil (além de outros na França, Itália, peça encenada nos EUA), destacando-se, além dos citados, Carta à Noiva, O Livro de João, Amiel, O Viúvo, O Anel de Saturno e uma série de poemas e ensaios, entre eles Introdução à Experiência Estética. A Mondadori, inclusive, já está preparando a edição de Dia do Juízo, ainda sem título 
italiano. Mas, como ele mesmo costuma dizer, “não adulo a dona Glorinha” (leia-se badalações & cercanias). Talvez por isso, por seu isolamento consciente, por sua aversão ao meio literário, estejam inéditos os livros que tem na gaveta desde 1961: um tratado de filosofia, dois novos romances (Vacachuvamor e S.A. – solitários anônimos) e um livro de escatológicos poemas sobre a Lapa, ainda sem título, praticamente impublicáveis. Mas que O PASQUIM, naquele tradicional “furo de reportagem” (“velha chantagem brasileira”, como diria o próprio Fusco) oferece de bandeja para o regalo de seu atônito e indistinto público.  (Nota: Vinte anos após esta entrevista, foi lançada nova edição de O Agressor, pela Editora Francisco Alves, O mesmo romance foi também republicado no ano 2000, pela Bluhum. Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor: “A.S.A. – associação dos solitários anônimos”. Existem ainda outros inéditos, como “Vacachuvamor, romance; “Um jaburu na Tour Eiffel”, livro de viagem. E “Creme de Pérolas”, poemas eróticos, de onde foi extraído o poema “Edital de Demissão e Ponto”, que datilografei ditado pelo próprio Fusco em seu escritório de Cataguases – os originais do poema datilografado, com correções à mão do próprio escritor, estão comigo ainda hoje – e que vai publicado ao final da série de crônicas sobre a entrevista. O Pasquim acabou não publicando o poema, por medo da censura dos anos de chumbo: “se a gente publica vai dar um bode dos diabos”, me disse o Ziraldo).
De sua casa na Granjaria, bairro de Cataguases (aliás, simpaticíssima, projetada por ele mesmo: ”sou o único arquiteto da Granjaria que projeta romances, no fundo um somatório de argamassa, humilhações, suor e tijolos rememorizados”), ao hospital da cidade (onde passa algumas temporadas no inferno, tomando soro & uísque contrabandeado através dos mais incríveis estratagemas com as enfermeiras), Fusco continua vivo e ferino, impressionantemente atualizado com o mundo que lhe chega diariamente pelo telstar ou através de livros, jornais e revistas mandados diretamente de Paris pela família de sua mulher atual: Annie, a francesa.  Na verdade, o homem está sempre atento, vivo, funcionando a todo vapor. Guarda ainda resquícios dos velhos tempos de jornal, o hábito de trabalhar e beber durante toda a noite, rompendo “o cu da aurora” e atravessando de pé toda a manhã. Seu sono é parco e religioso: exatamente de meio-dia às quatro en punto da tarde. É raro o dia em que já não levanta com a dose matutina do litro de uísque que o auxilia a exorcizar os demônios do cotidiano. 
 A noite na biblioteca é consumida no silêncio da leitura, entremeada com o leve ruído das sucessivas doses de uísque (que bebe a caubói) ou com o barulho da pena rombuda da velha Parker 51, anotando trechos ou gravando situações que irão compor um próximo romance. Só escreve à mão: “assim me sinto mais ligado ao que estou escrevendo. Além de péssimo datilógrafo, a máquina me distancia das coisas, da densidade dos corpos”.  “Nada vale nada com algemas”, diz no poema impublicável que nos mandou. Mas de qualquer forma, em Cataguases – no início e origem de tudo, na volta ao útero, trazendo da França Annie, a mulher que entre todas e tantas ficou para sempre (para sempre mesmo: devido a problemas com a separação de uma de suas ex-mulheres, Fusco talvez seja recorde mundial de casamento com a mesma mulher: duas vezes em Paris, duas no Uruguai e a última em Cataguases, onde funcionou como padrinho o próprio François, filho do casal) – apesar das algemas do Doutor Fróes (como ele gosta de dizer, brincando), Fusco consegue se equilibrar. Nós é que titubeamos un peu. Afinal, o homem é incrível: doses sucessivas de uísque, pernod, cinzano com gin (é uma mistura dos diabos!), campari & etc, somadas a um vermute “que vai muito bem”. Tudo isso entremeado com scargots, patê truffée & outros babados, quase sempre à francesa, preparados pela Annie ou pelo próprio, que também manda seu recado nas culinárias da vida.
Mas não houve jeito de convencer o homem ao uso do gravador (“deixa pra lá, sô, tenho pavor desse troço”). A entrevista que vai pela aí é um somatório (ou diminuitório) do que a gente conseguiu filtrar desses contatos dos últimos anos. Acrescida, em parte, do que honestamente roubamos das cartas que Fusco mandou para a escritora e excelente poeta Laís Corrêa de Araújo, cujos fragmentos foram publicados no Suplemento Literário do Minas Gerais, de 25.11.72, à revelia do escritor (perdão, Laís, mas não conseguimos te achar durante tuas férias no Espírito Santo. Santo?). Na verdade, a matéria é uma collage de respostas por escrito a perguntas que formulamos, trechos de livros, frases esparsas, sueltos dentro de noites intensamente etílicas. De qualquer forma, Rosário Fusco fica devendo ao PASQUIM uma entrevista comme il faut, com a patota toda, gravador e os cambaus. Literatura à parte, em termos de folclore & criatividade ele é o Oswald de Andrade redivivo. Agora, não publicarem seus livros é puramente safarnagem dos editores brasileiros.   

                                                Ronaldo Werneck & Joaquim Branco

                                                                    ABERTURA DA ENTREVISTA AO PASQUIM Nº 351 (19 A 25 MARÇO DE 1976)


                                                                                                            Continua na próxima semana

9 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 1: 40 anos ainda agora




  “Fernando Pessoa aborrece-me até a morte”, disse recentemente o romancista António Lobo Antunes, um dos escritores portugueses atuais mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo. O dito de Lobo Antunes faz reviver quatro décadas depois uma das tiradas de Rosário Fusco sobre alguns mitos da literatura, daqui e dalhures. “Fernando Pessoa é um chato em e com todos os pseudônimos”. “Rilke tinha tantas perebas psicossomáticas que nem Rodin conseguiu descascá-las a cinzel”. Esses são apenas dois dos inúmeros destaques extraídos da bombástica entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com o escritor mineiro Rosário Fusco (1910-1977), publicada pelo Pasquim há exatos 40 anos (nº 351, 19 a 26 de março de 1976). Sarcástico, amargo, ferino, Fusco deixa transparecer na matéria do Pasquim o atento leitor que sempre foi, o arguto pensador e, principalmente, o grande romancista.

“O escritor brasileiro é um supercamelo”, uma de suas frases, que “puxei” pra título da entrevista, foi copidescado por um dos editores do Pasquim (Ziraldo? Jaguar?) e saiu como título da matéria, em letras garrafais, como “O escritor brasileiro é um supercamelô”, o que mudou por completo o seu sentido. Na verdade, o que Fusco dizia era: “O romancista brasileiro não é, antes de tudo, “um duro”: é um supercamelo carente de enzimas digestivas: rumina, mas não digere”. Editada em corpo 8, texto compacto – como o tratado sobre a arte de tomar banho com um copo d´água, escrito por Mme de Montespin, que ele cita em uma de suas respostas (“composição corrida, cerrada, corpo 8 antigo”) –, mesmo assim a entrevista ocupou seis páginas (uma das maiores publicadas pelo Pasquim), com grandes espaços destinados às fotos de Adriana Montheiro, clicadas na casa do escritor em Cataguases. 

 Devidamente ampliadas, as fotos foram perdidas na redação do Pasquim, e os negativos também sumiram com o passar do tempo. Elas foram agora restauradas a partir de uma velha edição do jornal que sobrou em meu acervo, e tratadas no photoshop, mas o resultado deixa a desejar. De qualquer forma, elas vão ilustrar a entrevista que será publicada na íntegra numa série de crônicas a partir desta de agora, ao lado de algumas outras fotos cedidas pelo filho do escritor, Rosário François Fusco. As “fotos do Pasquim” ficam como registro do “momento” das inúmeras falas e papos com Rosário Fusco.
 “Quero que a dona Glorinha vá pra PUC!” (´Pontifícia Universidade Católica´, ressaltava). Eu e Joaquim trabalhamos com anotações de nossos longos papos com Fusco, textos já publicados e respostas por escrito a algumas perguntas. Ele detestava, ou dizia detestar, gravador (pouca coisa da nossa entrevista foi gravada). O que não é bem verdade: da última vez que o Vinicius de Moraes esteve em sua casa em Cataguases, Fusco gravou todo o papo, apesar de visivelmente impressionado com a Gesse. “Vejam vocês, essa baiana que o Vinicius arrumou é sensacional sob todos os aspectos: conseguiu beber aqui, na minha frente, enquanto conversávamos, uma garrafa inteira de cachaça. E pura: enchia um copo desse tamanho e mandava brasa como se fosse água. Bebeu com uma dignidade de fazer gosto: formidable”.
No mesmo dia em que saiu a entrevista, 19.03.76, um Rosário Fusco danado da vida – e sob a chancela “Reservadíssimo” – mandava-me carta de Cataguases: “… o que v. chamou de montagem de textos e o Pasquim divulgou como entrevista é furo jornalístico de foca provinciano”. E por aí seguia o velho e ferino Fusco, ameaçador: “… Mas pode ter consequências, pelas quais o responsabilizarei no momento oportuno, se for o caso”. A entrevista mencionava vários medalhões literários de forma inédita e bem-humorada, entre eles Lawrence Durrel e… Grace Kelly, a própria. Fusco temia inacreditáveis represálias sobre o que havia dito (e dito várias vezes), como se os dois, a “princesa” e “o autor internacional”, fossem algum dia ler o Pasquim. 
Apesar de outros envolvidos no, vamos dizer, quiproquó (o próprio Ziraldo, o Jaguar, o Joaquim, a Adriana, que fizera as fotos), ele não livrava minha cara: “Tirei o Joaquim Branco da jogada porque o estilo dos comentários – inconfundível pelos cacoetes – tenho certeza de que são seus”. O velho bruxo da Granjaria estava realmente fulo da vida. Por absoluto mistério do correio cataguasense, só em abril a carta chegou às minhas mãos no Rio. Devolvi de bate-pronto, numa longa resposta onde mostrava meu espanto com sua reação em cima de coisas já sovadas de tão ditas e repetidas para o fechadíssimo círculo que frequentava sua casa da Granjaria. E sobre as quais nunca se pediu segredo.
Em maio daquele ano não pude ir a Cataguases, tomado pelo nascimento de meu filho Pablo e do lançamento carioca de Selva Selvaggia, meu primeiro livro. No início de junho, recebo carta, agora sim, de meu velho amigo, que merece transcrição:
“Ronaldo: nada de ressentimentos, tanto mais que o dito ficou dito e, o falado, escrito. Velho aposentado não dispõe de tempo pra cartear, pois que o elenco de doenças que carrega lhe consome o tempo: entende? Vai entender, daqui a trinta anos. Parabéns (extensivos à Adriana) pelo duplo parto: do filho de papel e do filho do amor. Ambos são válidos e, às vezes, até se confundem nas nuvens do sonho igual. Estou projetando um artigo comprido sobre sua poesia: mandarei. Não convém que a turma do Pasquim apareça. Pelo menos, por enquanto. Assim que eu melhorar de, ao menos, uma de minhas mazelas (acho que todas já se instalaram em mim pra ficar até o dia do Juízo) avisarei. Annie se junta a mim para abraçar o, agora, quarteto Werneck. Do velho, Rosário (18.06.76).
“Morreu de talento. É a urna de cinzas detergentes do modernismo”, ele dizia sobre seu amigo Oswald de Andrade. Parecia falar de si mesmo, de seu talento, que lembrava o de Oswald.

Continua na próxima semana




21 de set de 2015

6 - Bia, Helena, Elza: Afonso na batera é coisa louca


 Show Elza Soares na Guaycurus







“Foi-se dormir eternamente meu ídolo, meu pai, meu amigo, irmão e querido Padim. Espero te encontrar um dia novamente, porque essa esperança é o que está me sustentando!”. Comoventes, essas palavras são de Beatriz Peixoto, a Bia, filha da Renata, por sua vez filha da Helena – a mulher que Afonsinho amou e que com ele viveu durante os últimos 30 anos. Estivemos sempre juntos nos longos anos em que eu morei no Posto 4, em Copacabana, e eles nos Posto 6. Quase todos os domingos eu ia almoçar aquela comida mineira e “de casa”, que Helena fazia como ninguém; às vezes, era o Afonsinho quem assumia a cozinha, de onde saía sempre com um spaghetti carbonara que me deixa até hoje com água na boca. E, como sobremesa, um longo papo, música e amenidades a se estenderem tarde afora, de Roma a Cataguases. É quando via o amor dos dois, aquele olhar do Afonsinho para Helena: sua mais fiel companheira, esteio da vida inteira.

Encontrei-me recentemente com a Bia, que conheci menina e hoje já é uma mocinha de seus 18 anos. Afonsinho adorava Bia que adorava o Afonsinho, que poderia ter sido seu avô, mas era seu eterno “Padim”, como ela o chamava. Eu e a Bia não nos víamos desde a morte de meu amigo. Nós nos abraçamos fortemente e nada falamos, mesmo porque as lágrimas não deixaram. Dias depois, ela me enviou este pequeno e emotivo escrito – flor singela a brotar do mais fundo de uma menina-moça: “Há amores de irmão, de amigo e até dos pais,/ mas não chegue a nenhuma conclusão,/ o amor de que vim falar vai além da sua compreensão./ Raciocínio não decifra essa cifra.// Desculpe a sinceridade, mas este caso é raridade!/ Ele não era meu pai, nem irmão, nem namorado./ Padim era como eu o chamava e ele foi o homem mais amado!/ A bateria foi seu refúgio e não adianta achar subterfúgio,// dava claramente pra ver que ele sabia onde bater./ Inspiração pra minha vida, que cura qualquer ferida,/ menos a da saudade que vai me acompanhar pela eternidade”. 
“Afonso na batera é coisa louca”. A voz de Elza Soares tomou de assalto o gravador de meu carro nas últimas semanas em que andei escrevendo essas coisas sobre o Afonsinho – e ainda agora não me sai da cabeça. Ouvi e ouvi várias vezes “Carioca da Gema”, o maravilhoso disco que ela gravou ao vivo no Rio em 1999, com Afonsinho na bateria, Jimmy Santa Cruz no baixo e o saudoso Alberto Farah no piano. Eu assisti a alguns belos shows desse trio, com e sem a Elza, inclusive aqui em Cataguases. Às vezes, os teclados eram comandados pelo admirável pianista Chiquinho Neto. Shows que quem viu não se esquece.
Na faixa “Quatro loucos num samba” (Cyro & Mary Monteiro), Elza homenageia o trio um a um, que com ela vira um quarteto: “Oba! O samba vai começar/ Quatro loucos fazendo miséria/ Na bossa legal sem parar/ Maestro Alberto senta logo ao piano pra começar/ O Jimmy afinando o contrabaixo pra esquentar/ Afonso na batera é coisa louca/ E grita que também está nessa boca”.  E sai de baixo, minha gente, que é uma pauleira só, com direito a um “Ouviram do Ipiranga” à base de solfejos, de velozes be-bops de Elza, dialogando com o baixo de Jimmy e a bateria velocíssima de Afonsinho. Uma coisa.

Mas há também um “Antonico” de emocionar, um “Trem das Onze” que vou te contar e um “Desde que o samba é samba” cool, tristíssimo e bem traduzido, como bem o deveria querer Caetano Veloso: “A tristeza é senhora/ desde que o samba é samba é assim./ O samba ainda vai nascer/ o samba ainda não chegou/ o samba não vai morrer”. Sim, Afonsim, agora a tristeza é senhora. Mas o samba não vai morrer. O samba é pai do prazer. O grande prazer transformador.
Numa tarde dos anos 1990, eu ia pelo Leblon com Baden Powell, rumo ao Antonio´s, quando encontramos o Afonsinho. Eles tinham tocado juntos na Europa em várias oportunidades, inclusive num show em homenagem a Vinicius de Moraes e numa série de programas para a RAI-TV, apresentados pela diva Lea Massari. Baden e Afonsinho se abraçaram efusivos e nós o convidamos para ir tomar uns “drinques finos” conosco (a famigerada mistura de tônica com guaraná, tudo diet, que eu inventara e havia “aplicado” no Baden): como nós dois, também o Baden estava, pelo menos na ocasião, longe dos tempos etílicos – a seco,  etilicamente falando.
Mas Afonsinho tinha algum compromisso e nos despedimos. Já sentados no Antonio´s, e em meio a generosas doses de “drinques finos”, Baden me disse não saber de minha amizade com o Afonsinho – e o cobriu de elogios: ”um dos melhores bateristas com quem já toquei’. Vindo de quem vinha, o elogio de Baden ao Afonsinho me fez sentir aquela ponta de orgulho por meu amigo e por ser amigo de meu amigo...
Eu vi o Afonsinho pela última vez às vésperas de viajar para Brasília, alguns dias antes de sua morte. Ele estava num quarto de hospital, cheio de tubos, e dormia um sono de sobressaltos: boca entreaberta, a respiração opressa. Volta e meia, como numa carícia, Helena enxugava seu rosto – esquecendo-se de enxugar o próprio rosto, tomado pelas lágrimas. Falamos um pouco, eu e Helena, nossa conversa entrecortada pelo choro, mas não esperei que Afonsinho acordasse: ele acabara de conseguir dormir.  A visão de meu amigo naquela situação não me fez nada bem, nem podia: pressenti que o fim estava próximo. Preferi, prefiro ainda agora, guardar a imagem de algumas semanas antes de sua morte, no mesmo quarto de hospital, onde conseguimos conversar um pouco – quando ele até sorriu, dizendo que não me oferecia café porque eu iria ter que balançar a xícara, com aqueles nossos volteados de praxe, até que esfriasse.
Essa era uma brincadeira que fazíamos desde que paramos de beber, praticamente ao mesmo tempo, há quase trinta anos. Girávamos as xícaras de café como se giram as taças de vinho. Como se, à semelhança do vinho, ao girarmos as xícaras fizéssemos desprender as partículas responsáveis pelo aroma do café. Pura curtição. É essa imagem de meu amigo sorrindo que trago comigo ainda agora. E que me leva aos tempos em que dávamos boas gargalhadas a respeito de tudo e de nada, enquanto o conduzia noite aforadentro em meu carro – ele e sua bateria – para os shows e bailes cariocas, só pra aplaudir seus solos mágicos, fenomenais. Seus shows & solos de nunca mais.

Há cerca de um mês, no Festival de Cinema de Ouro Preto, eu e minha mulher Patrícia vimos My name is now, o belo filme sobre Elza Soares, realizado por minha amiga Bete Campos. Durante a exibição, lembrei-me o tempo todo da última vez em que estive com a Elza Soares. Foi há uns três anos, se tanto, num show dela no Bar Brahma em São Paulo, naquela esquina famosa da Ipiranga com a Avenida São João. Fui ao camarim cumprimentá-la, ela sentada numa cadeira – e foi sentada que fez o show, como vem fazendo desde que caiu do palco no Rio, em 1999, e fraturou a coluna durante um show no ATL Hall com o trio Afonso Vieira-Alberto Farah-Jimmy Santa Cruz.
Não nos víamos há muitos anos e Elza me abraçou com um sorriso, sorriso que sumiu logo de seu rosto quando perguntou pelo Afonsinho e eu lhe disse que ele estava com enfisema e sofrendo muito: “Manda um beijo pro nosso menino. Diga que vou a Cataguases visitá-lo qualquer dia desses”. Ao vê-la assim, sem poder se levantar, sua fala pareceu-me apenas um gesto de gentileza, como que um recado carinhoso para nosso amigo. Do jeito que estava, e que ainda está, não havia mesmo condição de ela vir a Cataguases para ver aquele bambino que “na batera é coisa louca”.
O filme de Bete Campos sobre a Elza prima pela emoção que extrapola de grandiosos primeiros planos, e me lembrou muito a exposição Antropologia da Face Gloriosa do meu amigo e também cineasta Arthur Omar, que vi no CCBB-Rio há alguns anos.  Elza está esplendorosa no filme da Bete, e falei isso com ela quando jantamos juntos no final da noite. Bete concordou com a ilação que fiz de seu filme com a mostra de Arthur Omar, e me disse que eu tinha razão – ela também tinha adorado a Antropologia da Face Gloriosa. 
             Afonsinho não aparece no filme da Bete, pois as imagens foram realizadas quando ele não mais acompanhava Elza Soares. Mas no jantar, ao lado de vários amigos e cineastas mineiros – Geraldo Veloso e Anita, Paulo Augusto Gomes e Eulàlia –, estava também o casal de cineastas Fábio Carvalho e Isabel Lacerda. Foi quando me lembrei do filme que eles realizaram durante o show “Cantando pra não enlouquecer”, realizado pela Elza em 1998, em plena Rua Guaycurus, no Centro de Belo Horizonte, acompanhada pelo trio Afonso Vieira-Alberto Farah-Jimmy Santa Cruz. O Fábio me enviara o link do youtube ano passado, quando soube que o Afonsinho estava doente, e já nada bem. Falei com eles sobre o quanto me emocionara o filme, que acabei passando pra DVD e dando de presente ao Afonsinho. 
Lembrei-me disso exato agora e resolvi rever as belas cenas, os ângulos inusitados e a perfeita sincronia imagem-som de “Elza Soares na Rua Guaycurus”, fotografado e dirigido por Fábio, com primorosa montagem de Isabel. Pra quê! Vejam vocês agora o show no link a seguir – onde a cantora é recebida pelo também saudoso compositor Fernando Brant e aplaudida por extasiados populares à beira do palco: Elza enlouquecendo a “turma do gargarejo”. Rever o filme foi uma só emoção do princípio ao fim, com direito a novas lágrimas escorrendo nos solos de Afonsinho, principalmente quando Elza o chama ao proscênio e ele a acompanha ritmando o samba num crescendo, com suas baquetas soando velozes sobre o chão do palco.
 Estavam ali de novo, e afiadíssimos, os “quatro loucos no samba”, e mais uma vez ressurge o Hino Nacional (o be-bop de Elza em contraponto com o baixo de Jimmy), seguido do “Brasil” de Cazuza, e novamente Caetano, não só numa enlouquecedora levada de “Língua” (epa!) como em “Desde que o samba é samba” – agora sim, como Afonsinho tanto gostava, a bateria a todo pano na corrida marcação da voz de Elza: “Mas alguma coisa acontece/ no quando agora em mim/ Cantando eu mando a tristeza embora”.  Pois é, Afonsinho, cantando a gente manda a tristeza embora.
Mas dói no quando agora em nós.  

14 de set de 2015

5- Afonsim,Banana,Garrincha, Lúcio Alves & SylvinhaTelles

   Show no CCBB/Rio Clássicos do Jazz




Meses depois do porre negro romano de 1979, e já no Rio, convido o Tião e o Afonsinho (que acabara de chegar da Itália) para uma feijoada lá em casa, num apartamento da Tijuca onde eu morava na época. Foi o quarto porre negro. Isso porque, feijoada sem batida de limão, como bem o sabeis, “dá cadeia”. Lá pelas tantas da noite, resolvo dar uma carona pro Afonsinho (o Tião já fora embora), que estava na casa de sua irmã Marluce, no Leblon. Demos uma parada estratégica num botequim da Praça da Bandeira, soltanto pra abastecer. Só me lembro que o que aconteceu foi depois de o Afonsinho contar umas histórias das peladas que jogara com o Garrincha (e também com o Chico Buarque) quando a Elza Soares morava em Roma.
O boteco, àquela altura, estava cheio de bebuns das mais variadas estirpes, um ambiente que vou te contar. Afonsinho foi ao banheiro e na volta tropeçou num deles, um sujeito imenso e mal encarado. Tanto que não se fez de rogado: não aceitou as desculpas e partiu logo pra cima do nosso baterista. Eis que surge do nada um negão pra-lá-de-pra-lá-de-grande, que segura o outro e manda essa, inacreditável: “aqui ninguém parte pra cima de amigo do Mané Garrincha, que eu parto logo na porrada”. Ufa, pagamos umas cervas pro nosso novo e nobre amigo, e demos no pé. Dessa vez não teve pão com salame, mas o susto foi grande. Qualé, qualé! Viva nossas pernas tortas, viva o Mané!
Corta para Cataguases, final dos anos 1980. Já vai pra mais de meia-noite de um domingo quando entramos em meu carro rumo ao Rio. Ao meu lado, Afonsinho – em definitivo no Brasil, após quase vinte anos na Itália – diz que seu gosto pela música veio de seu tio Vadinho, que tocava sax como ninguém, e gostava muito de jazz. Fala de sua bateria, que ficou em Roma, e de um festival de jazz onde tocou com Tony Scott, um dos ídolos de Billie Holiday.  Lembramos então do Edson Machado, o Edson Maluco, e daquele seu solo de bateria antológico na gravação de Nara para a música Opinião, de Zé Kéti.
E também do ator Sal Mineo, canastríssimo, no papel do baterista Gene Krupa, um dos ídolos do Afonsinho e de outros bateristas – do Tião, é claro, do Milton Banana, do Edson Machado, do Reizinho da Bateria, do Robertinho Silva e também do nosso grande amigo Juquinha – que além de baterista foi jóquei e marceneiro dos melhores. Acho que, à exceção do Robertinho, toda essa gente já se encontra no rol dos “saudosos” – como, aliás, a grande maioria dos nomes citados nessa série de crônicas. 
Entramos em Teresópolis para um café com coca-cola: vão longe, e para sempre, os tempos etílicos – aqueles memoráveis porres negros.  São quase três da manhã e o bar está cheio. Um cidadão que está tomando uísque volta-se pra mim e diz, solene: “Vi tua mulher ontem no Golf Club. Ela anda bebendo muito”. Toma um trago e olha pro Afonsinho: “Não tava te conhecendo. Sabe que eu votei em você? Pois é, eu também sou PMDB”. Detalhe: nunca havíamos visto aquele sujeito. Afonsinho sorri e diz: “É incrível nossa capacidade pra atrair malucos”. Bingo!
Mas malucos mesmo, malucos por música de qualidade, foram aqueles três personagens inefáveis que se responsabilizaram por boa parte do melhor som produzido no Rio dos anos 1990 – o trio formado pela bateria de Afonso Vieira, o piano de Chiquinho Neto, um dos melhores instrumentistas da noite carioca,  e o baixo (e a voz) do saudoso  Manuel Gusmão, o baixista nº 1 da bossa nova, desde que se abriram os clubes do Beco das Garrafas, além de fundador do famoso Copa Trio. Pois foi esse o Trio que sugeri à pianista clássica Lilian Barretto para incluir em seu Projeto “Música da América”, que aconteceu no CCBB-Rio em 1992.
Dito e feito. Sob o título “Clássicos do Jazz”, o trio Afonso-Chiquinho-Gusmão mandou ver no palco do Teatro II do CCBB, numa das melhores e mais aplaudidas performances do Projeto “Música da América”. Foram muitos os standards do jazz apresentados num show de quase duas horas naquela noite de 05 de setembro de 1992. Editei trechos do show mais que memorável do Trio, que se encontram no vídeo “Clássicos do Jazz” (link a seguir), destacando músicas como “There´s A Small Hotel”, de Richard Rogers e Lorenz Hart; “Don´t Ge Around Anymore”, de Duke Ellington e Bob Russell; e “Route 66”, de Bobby Troup.  Um show “da pesada”, como se dizia naquele tempo, com Afonsinho solando como nunca na batera.     
Ao longo desses últimos três meses desde a morte de meu amigo, e enquanto começava a estruturar essa série de crônicas, a imagem do Afonsinho permanecia viva e me assolava a sua lembrança a cada momento. Nossos muitos risos, suas muitas performances, lances que surgiam do nada, como se soubessem que eu estava envolvido na escritura dessas linhas, e assomado pela saudade.  Como os três cds da Coleção Folha 50 Anos de Bossa Nova, comprados ao acaso em Paraty durante a última Flip, e que vieram rodando em meu carro.
Um deles, com o Milton Banana Trio e sua bossa-jazz, me levou de volta a Copacabana, ao “200 da Barata Ribeiro” e ao Tião e ao Afonsinho. Milton, que acompanhou Tom Jobim e João Gilberto desde o início da bossa nova foi, na verdade, o criador da “batida diferente” que acompanhava, no bar do Hotel Plaza, a revolucionária batida do violão que João aplicava aos sambas de Caymmi, Ary Barroso, Geraldo Pereira e dele mesmo. No encarte do disco, Ruy Castro escreve: “É a Milton Banana que se deve, não apenas o típico teque-teque da bateria da bossa nova, mas todo o colorido rítmico e a intensa variedade de tempos que o ritmo exigia”. Vinte anos depois que Milton Banana me perguntava sobre a Bolsa de Valores naqueles tempos do “200”, eu o encontrei tocando – para ninguém! – num soturno inferninho do bas-fond de Copacabana.
Foi nessa época que o Milton andou morando de favor num quarto de fundos do apartamento de minha amiga Míriam, uma professora de português de “escolas de escol” do Rio. Míriam era uma pessoa séria e recatada, que adorava música e literatura: tenho até hoje uma edição bem cuidadíssima da Divina Comédia, fartamente ilustrada por Gustavo Doré, que ela me presenteou. Bem, Míriam era recatada até que tomava umas e outras no Licks Bar, o botequim em frente ao apartamento onde eu morava na Constante Ramos, nosso “escritório”, meu e de toda a turma da rua. Aí, meus caros, saiam todos de baixo: ela se transformava na “Míriam Camburão” e botava pra quebrar. Coisas da Copacabana daqueles tempos de nunca mais.  
Mesmo ajudado pelo cantor e compositor Mário Telles, irmão da Sylvinha, que organizou um show beneficente para ele, Milton Banana morreu em maio de 1999, após graves problemas circulatórios provocados pela diabetes (teve uma perna amputada numa cirurgia no mês anterior).  Segundo Ruy Castro, no velório chamou a atenção uma coroa de flores com os dizeres: “A Milton, a quem o Brasil não homenageou, nem reconheceu. Ass: Todos os músicos do Brasil”. Soube-se depois que a coroa teria sido enviada por – quem mais? – João Gilberto.
Outro cd comprado em Paraty foi do nosso conterrâneo, o saudoso cataguasense Lúcio Alves, de quem eu e Afonsinho tanto gostávamos (e o João Gilberto também; Lúcio era um de seus ídolos). Lembro de alguns de nossos papos. Eu, Afonsinho e o Lúcio, décadas e décadas atrás, num botequim da Urca, nas proximidades da TV-Tupi, onde Lúcio era diretor. Nossa conversa girava quase sempre sobre o Festival de Música Popular Brasileira de Cataguases que eu e o Joaquim Branco estávamos organizando em 1969 – e Lúcio Alves nos deu uma grande força para a realização.
E parece que está acontecendo ainda agora aquela viagem de tempos depois, quando viemos num táxi do Rio para o Festival – eu, Lúcio e a saudosa cantora (e “certinha” do Stanislaw Ponte Preta) Luely Figueiró. Lúcio era um dos jurados (ou o presidente do Júri?) e Luely iria defender uma das músicas, “Momento”, exatamente uma parceria do Afonsinho com o também saudoso compositor cataguasense Messias. Enquanto o táxi subia a Serra de Petrópolis, Luely e o – também ele! – saudoso Lúcio Alves parodiavam Tom Jobim em sincopados semitons: “Minha alma canta/ deixo o Rio de Janeiro/ estou morrendo de saudade”. E emendavam com aquela valsa-maravilha-de-uma-cidade-maravilhosa, aquele campo/contracampo cinematográfico de Ismael Netto e Antonio Maria: “Vento do mar e o meu rosto ao sol/ a queimar, queimar. /Calçada cheia de gente a passar/ e a me ver passar”. Realmente, essas crônicas estão se transformando num festival de saudosos, e nos deixam aqui morrendo de saudade.
O terceiro cd que comprei era da Sylvinha Telles, que foi quem levou o Afonsinho pro Rio, após vê-lo tocando uma noite em Cataguases. Não conheci a Sylvinha, que morreu muito cedo, mas sim seu irmão Mário Telles, o autor da bela canção Nanã, em parceria com Moacir Santos: “Nesta noite nos delírios meus/ Vi nascer um novo amanhã/ Veio o dia com um novo sol/ Sol da luz que vem de Nanã”. Afonsinho e eu nos encontrávamos às vezes com o Mário na Copacabana dos anos 1990, em longos papos que começavam no Bar El Cid, na Rua Viveiros de Castro, e se estendiam Barata Ribeiro e noite afora até as proximidades de seu apartamento na esquina da Rua Paula Freitas. Numa dessas noites, Mário me presenteou com um de seus cds onde canta várias canções de Baden Powell com Vinicius e duas de sua parceria com Baden (Aurora de Amor e Tristeza vai embora), além de Nanã. E nessas e em outras ocasiões Mário (morto em 2001, mais um ”saudoso”) sempre dizia pro Afonsinho como sua irmã falava bem dele e de sua bateria.
Sylvinha Telles foi umas das “inventoras” do canto cool da bossa nova, ao lado de João Gilberto, de quem, aliás, foi namorada. Seu cd é praticamente dedicado a Tom Jobim (ela talvez tenha sido a cantora que mais gravou músicas do Tom) e traz na faixa de abertura um impecável “Dindi”, canção que ficou mais conhecida em sua voz. “E o vento que fala nas folhas/ contando as histórias/ que são de ninguém/ mas que são minhas/ e de você também”. Ouvindo agora, percebo que Dindi tem a ver com essas histórias que são minhas e do Afonsinho também. Certa vez, perguntada qual foi seu maior sucesso, Sylvinha respondeu: “Dindi. Indindiscutivelmente”.
Mas o disco de Sylvinha conta também com “Canção da volta”, de Ismael Neto. E ouvindo Sylvinha cantar os versos de Antonio Maria (“meu lugar é aqui/ faz de conta que eu não saí”) revém a lembrança das palavras do Afonsinho em 1993, após a execução de nossa música Vermelho Cais no palco do Festival em Cataguases, que homenageou exatamente, olhaí, o “saudoso” Lúcio Alves, morto meses antes: “eu fui (para a Europa), mas voltei. Meu lugar é aqui”. Será que foi inconsciente, ou meu amigo estava “citando” a gravação da Sylvinha? Ou, mais uma vez, eu estou pirando na batatinha?

Continua na próxima semana

9 de set de 2015

4 - Fernet Branca/ Vermelho Cais




No link a seguir o áudio completo de Vermelho Cais no cd

“Dentro & Fora da Melodia”


O terceiro porre negro Werneck/Vieira começou naquela tarde de 1979 em que cheguei a Roma vindo de Argel. E bebendo durante todo o voo. Na época, voar pela Alitália era como trafegar num mercado persa: as aeromoças vendiam de tudo e mais um pouco – e uísque é o que não faltava. Detalhe: estava há cerca de 40 dias na Argélia, a pão e água. Perdão, a pão com poulet (sanduíche de galinha), quase a única coisa que comia, pois não conseguia encarar (literalmente) o boureck (batatas com atum), o kebab (frango com fritas) e outras, vamos dizer, “guloseimas” da gastronomia argelina.
O couscus marocain (tradicional também na Argélia), então, nem se fala: era só bater o olho para eu “desencarar” de imediato. Ficava mesmo no pão com poulet, que descia assim-assim com cerveja Nouas – nome de um poeta argelino que só poetava devidamente embriagado. Nouas quente, é claro: o calor era Rio 40º, mas os árabes colocavam a cerveja em cima da geladeira, nunca dentro, vá entender. Às vezes, no cardápio do hotel, aparecia uma massa, regada a Peau d´Oignon, um vinho argelino bem razoável. Mas nada de destilados: estávamos em pleno Ramadán. Então, o uísque “que se me faltou” em Argel, veio a calhar no voo da Alitália. 

No aeroporto de Fiumicino esperavam-me a Adriana, minha mulher na época, que acabara de chegar do Brasil, e nossa amiga, a aeromoça italiana Paola, recém-separada do Afonsinho. Ele estava fazendo show na Alemanha, e só voltaria a Roma no dia seguinte. Dormimos na casa da Paola, nas proximidades de Fiumicino, e no outro dia fomos pra Roma, onde nos encontramos com Afonsinho. Nós não nos víamos há uns bons cinco anos, ou mais. Como eu queria cortar cabelo, ele levou-me a um barbeiro seu amigo, nas vizinhanças de Viale di Villa Pamphili, onde iríamos ficar, no apartamento onde ele havia morado com a Paola. Foi quando começamos a beber num bar ao lado, enquanto eu esperava a vez no barbeiro.  A beber e conversar e a conversar e beber e quase nos esquecemos do barbiere  – que acabou fazendo um corte sem dor, mesmo porque eu já estava devidamente anestesiado: nossos copos adentraram conosco a barbearia. 
Vai daí que a noite veio e quando a noite vem, vem a saudade, vocês bem sabem. E nós dois resolvemos ir pro apartamento onde o Afonsinho estava morando: ele queria me mostrar umas gravações que andara fazendo com grupos de jazz europeus. Telefonamos pras “respectivas” e ficamos de nos encontrar com elas só no outro dia, apesar dos protestos. Imagina! Não via minha mulher há 40 dias, é certo; mas também não via meu amigo há cinco anos.  Certo? Chi lo sà? Pegamos outra garrafa de uísque e fomos pro apartamento do Afonsinho, onde ouvimos suas gravações, e vários outros discos de jazz.
Ele falou-me daqueles anos em Roma, de shows na RAI, muitas vezes apresentados pelo literalmente grande Vittorio Gassman, de um programa sobre música brasileira, ao lado de nossa ídala, a não menos Lea Massari, por nós adorada desde que vimos L´Avventura, do Antonioni, e Le Souflle au coeur, do Louis Malle.  De quebra, contou-me de uma colazione, um café da manhã, com ninguém menos que Sophia Loren, no pallazo onde ela morava na Piazza Navona. É que Afonsinho tocou durante um tempo com o pianista Romano Mussolini (filho do próprio), que era casado com a irmã da Sophia. Pois é, daí “o porquê” da colazione na casa de La Loren. De repente, Afonsinho tirou da estante meu livro “Selva Selvaggia”, que eu lhe enviara três anos antes, e onde havia aquele poema que fiz pra ele, “Bilhete pra Roma”. Leu o poema, devidamente emocionado, nós dois afogados em talagadas de uísque e baforadas de cigarros.
Depois, Afonsinho falou-me da gravação que fizera com Gato Barbiere para a trilha sonora do filme “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci. Algumas semanas à frente, eu veria em Paris o “Tango” de Bertolucci (na época, proibido no Brasil) num cineminha praticamente vazio do Chatêlet (o filme, de 1972, estava há anos em cartaz). Foi quando lembrei-me  da letra que o próprio Gato Barbiere fizera para a canção-tema do filme, que acabou não aparecendo no corte final, onde ela surge apenas instrumental: “We don't exist/ We are nothing but shadow and mist/ In the mirror we look as we pass/ No reflection's revealed in the glass”. Nada somos, só sombra e névoa, Pois é, eu e Afonsinho já estávamos devidamente enevoados por névoas e névoas de nada, de nada mais que toneladas de uísque caubói enquanto a noite se esvaía.
Quando vimos, estava amanhecendo. Saímos rumo ao Trastevere, que nós também temos direito à nossa colazione. Afonsinho encarou um tramezzino, mas meu estômago não estava pra sanduíches e lembrei-me que, no Brasil, costumava curar minhas ressacas com uma dose de Fernet e um chope. O amargo do Fernet me parecia “medicinal” – e não era? Mas, às vezes funcionava. No terceiro chope com Fernet já estava aprumado pra enfrentar o dia. Foi só falar em Fernet que o Afonsinho me disse que eu ia beber então o melhor Fernet do mundo, o Fernet Branca, o preferido do Chico Buarque quando estava em Roma, onde, entre outras coisas, gravou Per um pugno di samba – disco que acabáramos de ouvir no apartamento, com il bambino Affonso, o próprio, na bateria.

Fernet Branca é o seguinte: não dá pra tomar uma dose só. Na quarta, ou quinta, tomamos coragem e – facciamo un giro sul Trastevere – nós dois a girar, devidamente girados, Trastevere afora. Foi quando, dessas coisas que só aconteciam com a gente, demos de cara com as madames: Adriana e Paola também andavam por ali, a fazer a feira matinal, e quase trombam com a gente. Foi bronca pra lá, bronca pra cá. Fernet Branca pra lá, Fernet Branca pra cá nos dois “irresponsáveis”. Começou mal nosso giro europeu, a cabeça a girar, a girar.


 girar, a girar está aqui ainda agora o meu cd “Dentro & Fora da Melodia”, com o solo mais que grandioso de Afonsinho na música “Vermelho Cais”, única parceria nossa. A canção pode ser ouvida na voz de Maria Júlia no nicho “Trabalhos/Canções” do meu site www.ronaldowerneck.com.br. Ali, meu amigo ataca até de voz & berimbau: não por acaso na faixa “Berimbau”, de Baden & Vinicius. De onde surgiu “Vermelho Cais”? Nós dois gostávamos muito de Take Five, um dos clássicos do jazz, composição escrita por Paul Desmond e apresentada de forma magistral pelo quarteto de Dave Brubeck no álbum Time Out, de 1959, com um belo solo de bateria de Joe Morello e aquele inusitado compasso 5/4.
Para alguns, vem daí o nome da composição, desse estranho compasso. Mas há controvérsias: outros atribuem o “take five” a dar um tempo de descanso, parar a gravação por uns cinco minutos;  outros ainda a reservar uns minutinhos de atenção que seja ao que o outro está dizendo. Time out foi, aliás, um dos discos que eu e Afonsinho ouvimos mais de uma vez naquela noite romana. E também ouvimos uma outra versão de Take Five, com o mesmo Brubeck Quartet e a voz de Carmen McRae: Won't you stop and take/ A little time out with me/ Just take five/  Stop your busy day/ And take the time out/ To see - I'm alive// Wouldn't it be better not to be so polite, you could offer a light;/ Start a little conversation now, it's alright, just take five / just take five”.

Ainda em Roma, Afonsinho escreveu uma composição, “Casinha Pequenina” – gravada pelo trio formado por ele, mais Alessio Urso, no baixo e Írio de Paula, na guitarra – cujo tema, não sei bem o porquê, sempre me remeteu ao Take Five. Pois é, “reservar uns minutinhos de atenção que seja ao que o outro está dizendo”. Acredito haver nas duas músicas uma atmosfera que as aproxima. Já no Brasil, década de 1990, eu coloquei letra em trechos da música do Afonsinho, que acabou se transformando em nossa canção “Vermelho Cais”, defendida por minha amiga Neti Szpilman num Festival de Música aqui em Cataguases, em 1993, com Marco Carvalho na guitarra e meu amigo como sempre arrasando na batera. Não era nem bem uma “letra”, mas palavras soltas, lançadas na melodia em contraponto ao tema: “sol/sal/cais/caos”, “voz/que já partiu/ não volta mais/paixão fugaz/ gás do amor se esvai/ vai, coração/vermelho cais”. Ouvindo agora, e “novamente de novo”, vejo que tem a ver com isso tudo que aconteceu com meu amigo e sua voz que já partiu e não volta mais.

Continua na próxima semana

31 de ago de 2015

3 - Para Mané, para Elza, para Chico, para Pelé e Afonsim

Show do trio Afonso/ Alessio/ Írio  com a Orquestra Pino Calvi

Nápoles/1976


Ano seguinte, 1966, Carlos Sérgio foi prum apartamento no Leme (que nós dividiríamos tempos depois) e Afonsinho e eu pra Copacabana, pro famigerado Edifício 200 da Rua Barata Ribeiro. O 200 é o seguinte, bicho. Sabe, gente, é tanta coisa, tanta gente, não dá pra contar ou cantar. Tanta coisa que a gente nem sabe ou quer mais saber. Foi quando surgiu o Tião, que veio morar conosco. Quer dizer, um à época bancário – este aqui – e dois bateras. Enquanto eu dormia, os dois tocavam pela boates de Copa e dessa vida afora. Eu acordava com eles chegando, cansadíssimos. Só nos falámos mesmo à noite quando, de volta do trabalho, saíamos juntos: eu pra jantar, os dois ainda pra almoçar. 
Pelo apartamento do 200 passaram vários e vários músicos. Alguns “passavam de passagem”, ficavam só dois, três dias; outros, até mesmo três meses, como aconteceu com o Wagner Tizo, então um jovem pianista iniciante na noite. Muita gente, tanta, tantos músicos: Martinho da Vila, os também bateristas Robertinho Silva, o saudoso Milton Banana, João Batista Stockler (meu querido amigo Juquinha, que também já se foi – o baterista que acompanhou João Gilberto e Tom Jobim no emblemático álbum inicial da Bossa Nova, o Canção do Amor Demais, além de ter sido parceiro de Tom em sua primeira canção, Faz uma Semana), o pianista Paulinho Cego (onde andará?), o guitarrista Írio de Paula, Djavan e outros e outros. Até mesmo o atazanado saxofonista e arranjador Tranka (cadê você?), que fez ali mesmo, na sala, o arranjo para uma canção que o Martinho da Vila iria colocar num dos festivais da época (detalhe: Martinho preocupadíssimo, pois o violão onde o Tranka fazia o arranjo tinha uma corda a menos). Nosso apartamento parecia mesmo um estúdio. De malucos – e mais que talentosos.  
Eu chegava de terno do trabalho e era um corpo estranho. Lembro que o baterista Milton Banana sempre me perguntava pelas cotações, pois achava que eu era um broker da Bolsa de Valores. Afonsinho, Tião e eu mal segurávamos o riso (“hoje não foi nada bom, as ações estão em queda”, dizia eu a sério). Um dia, faltou luz. Sexto andar, sem elevador. Showtime: hora de descer para o trabalho nas boates. Paulinho Cego vira-se pro Afonsinho: “Segura aí nas minhas costas, que hoje o Ceguinho é que vai conduzir a parada!”. É, não dá mesmo pra contar. Vivenciamos ali quase tudo que meu amigo, o dramaturgo Paulinho Pontes, que morava nas redondezas, iria contar depois em sua peça, “Um Edifício Chamado 200”. Houve um tempo, anos à frente, quando o Paulinho estava casado com a Bibi Ferreira, em que eu ia muito à casa deles, junto com meus amigos paraibanos – o compositor Marcus Vinicius, hoje maestro e arranjador, e o Waltinho Carvalho, então estudante da Esdi e agora fotógrafo e cineasta de merecida fama. Às vezes me pergunto: será que muitas daquelas inacreditáveis histórias do 200 que eu contava não teriam servido como motivação para o Paulinho Pontes escrever sua peça?
Mas, voltemos ao Afonsinho. Sozinho, ele era uma bateria em sua plenitude. Com uma levada que substituía toda a bateria de uma Escola de Samba. Morando juntos, às vezes eu o acompanhava e assistia aos shows. De todos, lembro particularmente de um com a Elza Soares e os Originais do Samba, que na época contava com Almir Guineto e o Mussum pré-Trapalhões no reco-reco. Foi uma temporada num teatro do final do Leblon e a bateria-escola-de-samba do Afonsinho quase abafava o Samba dos Originais. Vi o show várias vezes – tantas que lá pelas tantas nem entrava mais no teatro. Esperava o meu amigo num boteco em frente. Eu e o Mané Garrincha que, por sua vez, esperava a Elza.
Vamos e venhamos – mas não muito rápido, senão o barco balan-balançando balança todo pra lá e pra cá e ficamos definitivamente borrachos: enquanto eu bebia um ou outro modesto uisquinho, o Mané derramava sucessivos copos de conhaque. Copos mesmo, daqueles americanos, dos grandes. Nunca vi coisa igual. Final do show, atravessávamos a rua para “pegar o pessoal” – o Mané impávido, como se tivesse bebido guaraná. Ufa! Anos, muitos anos depois, eu o veria entrar num botequim de Laranjeiras, nove da manhã, o rosto inchado, os olhos que não olhavam mais para nada. Mané nem me viu: sem condições. Virou num só lance uns três copos de conhaque, daqueles de sempre, e saiu cambaleando pela calçada, as tortas pernas trôpegas. Nunca mais o vi.  
Pois é, o Mané Garrincha, companheiro do Afonsinho em várias peladas romanas, ao lado do mesmo Chico Buarque com quem meu amigo gravou, na Roma dos anos 1970, um disco antológico, Per un pugno di samba, com a Orquestra de Ennio Morricone. No encarte, diz o produtor Sergio Bardotti, também autor das versões das letras do Chico pro italiano (faço aqui uma tradução apressada do final do texto de Bardotti): “É provavelmente (o disco) o menos comercial, o menos vendável, o menos “gosto médio” que jamais produzi, mas quem ainda tem um tico de sensibilidade nos ouvidos, quem resistiu ao assalto de baterias e guitarras a 400 decibéis, o amará como nós que o fizemos, como a dona música bem o manda.”
A bateria de Afonsinho (il bambino Affonso, como está nos créditos do encarte) permeia quase todas as faixas na base da vassourinha, assim meio cool, segurando sóbrio a “cozinha” pra voz de Chico (como queria Sergio Bardotti). Quase, porque em Sogno di um carnevale (“Sonho de um Carnaval”) e Ora dico sul serio (“Agora falando sério”) il bambino se solta e manda ver como num prenúncio de suas melhores performances, que ainda estavam por vir. É um belo disco esse do Afonsinho acompanhando Morricone & Chico Buarque, o mesmo Chico que faria bem mais tarde a canção “Futebol”, aquela que termina com “Para Mané, para Didi, para Pagão, para Pelé e Canhoteiro”.
Pagão, do Santos, e Canhoteiro, do São Paulo, eram ídolos do menino Chico Buarque. Tempos depois, canção pronta e já famosa, Pagão chegou a jogar uma partida no Politheama, o time do Chico. Mané, Didi e Pelé, vocês sabem quem são, ou não? Pelé, pois é. Ninguém acredita, e nem mesmo sei como eu e Afonsinho fomos parar na arquibancada do Maracanã, atrás das redes do goleiro Andrada, do Vasco, naquela noite de uma quarta-feira de 1969, quando o santista Pelé faria seu milésimo gol. Apesar de flamenguistas, nós só íamos ao Maracanã quando Pelé jogava, e mesmo assim muito raramente. Mas estávamos lá, atrás daquele gol, o Andrada quase pegando o pênalti cobrado por Pelé. Explodir de flashes, foguetes, gritos de gol – e nós, como sempre, testemunhas “auricularesdessa e de outras histórias.
   

Mas, antes, houve o segundo “porre negro”. Ainda a falta de cigarro na madrugada. Já morava no Leme: desci e peguei o carro, o nosso Gordini, o imbatível bólido que, além do apartamento, também dividia com o Carlos Sérgio. Mal liguei o Gordini, lembrei-me que podia ir a pé, pois o Bar do Careca, a salvação da madrugada, ficava logo ali, no início do Leme. Mas chuviscava, e bateu preguiça. Nem bem passei a terceira e já chegava ao bar, ao lado das boates onde fervilhavam os jovens músicos da época – do Chico Buarque, que fazia show com a Odete Lara no Arpège, ao pessoal do Grupo Manifesto, Gutemberg Guarabira & Cia. Todos saíam das boates e terminavam a noite no Careca.
Nem bem cheguei, o Afonsinho e sua bateria desceram de um táxi, vindos de um baile na Zona Norte. Um encontro desses, assim na madrugada, merecia um chope, né mesmo? Uns dez chopes depois, resolvi dar uma carona pro meu amigo e sua bateria. Nem bem entramos no carro e perguntei (de onde fui tirar isso?) se ele já tinha ido alguma vez ao Cristo Redentor. Pois é, nós morávamos no Rio há uns quatro anos e nunca subimos  ao Corcovado – “o Redentor, que lindo”, da canção do Tom . “Ora, ora, Afonsinho, então vamos lá”. E fomos, em meio à chuva, os chopes ainda chacoalhando em nós. No final do Cosme Velho, paramos numa padaria, o dia já querendo vir, e compramos uma garrafa de Fogo Paulista. Até hoje, só de ouvir esse nome já me sinto meio nauseado.  

Na subida, Fogo Paulista rolando, o Gordini ia também rolando na pista molhada, em meio a curvas e mais curvas (pra quê tanta curva, meu Cristo?) – e nada do Redentor surgir. Lá pelas tantas, o Gordini deu uma rabeada, pura imperícia de motorista iniciante, e Afonsinho se assustou. Tudo bem, eu disse: tamo subindo, mas já tô testando o freio pra descida. Não sei se Afonsinho acreditou na tirada surrealista, mas lá fomos nós até el cumbre del Corcovado. Nem bem os faróis bateram no platô vi dois fuscas e um punhado de gente estranha parecendo dividir drogas, roubo, coisas da malandragem. Reduzi o bólido num só lance, dei meia volta e desci desabalado.   
Pelo retrovisor, vi os fuscais faróis dos dois fuscas (o)fuscando ensandecidos atrás de nós. Não sei mais como fiz todas aquelas curvas, o coração aos saltos. Num lance de sorte, dobrei numa estrada vicinal. Os dois fuscas sumiram do retrovisor. Parecia perseguição de cinema. E não era? Como os fuscas, também o porre passou. Percebi que estávamos em Santa Teresa. Pegamos alguma outra descida, ainda meio perdidos, e nos vimos nas proximidades da Avenida Brasil. Levado pelos fuscas, o susto sumiu. Ufa!
Virei pro Afonsinho, mais branco que eu devia estar, e soltei de uma só vez: “vamos pra Vila da Penha fazer uma surpresa pra Marilda”. Acho que esse era o nome da sobrinha do pianista que tocava com ele, e que eu andava meio que namorando. Na Vila da Penha, deixei o Afonsinho num boteco e bati na casa da moça. Ela estava saindo pra missa das sete e me olhou assustada, pois eu estava mesmo de assustar. Mal me cumprimentou e partiu a passos firmes pra igreja. Eu voltei pro boteco, pedimos um pão com salame e uma cerveja pra rebater. Fim de noite, de susto, de “Redentor, que lindo”, de namoro infindo. Pão com salame parecia ser o “gran finale” de todos nossos porres.
Continua na próxima semana