24 de ago de 2015

2 - O show que não houve: chuva, chope e salame

      show do trio Afonso/ Alessio/ Írio    Auditório da RAI – Roma/1976




    Rosário Fusco tinha razão: o que ficou mesmo na lembrança de minhas histórias com o Afonsinho foi o inesperado, nossas pequenas maluquices, nossos porres homéricos, quando ainda se tomavam porres e ainda se dizia homéricos. Como homérico foi aquele imbróglio quando Afonsinho arrumou de tocar num Clube da Zona Norte. Era para fazer a abertura de um show do Martinho da Vila em Campo Grande, num tempo sem GPS e nem sequer Campo Grande, eu acho. Nem mesmo, quem sabe?, Martinho da Vila. Pudera: era 1965 e aquilo era muito, muito longe. Nós morávamos numa pensão na Praia de Botafogo e, como quase sempre, fomos juntos em busca dos músicos num velho táxi americano, dos grandões, acho que um Chevrolet daqueles mafiosos dos anos 1940. 
   Lembro de termos apanhado o baixista na Tijuca – qual era mesmo o nome? Um negão gordo e risonho. Atenção, periferia, nada de “afrodescendente”: era “negão” mesmo, como dizíamos nos anos 1960, absolutamente incorretos e sem qualquer resquício de culpa. Ele sentou ao meu lado no banco de trás e sentou junto seu enorme contrabaixo: um par perfeito, ele e seu instrumento. E fomos Avenida Brasil afora rumo a Campo Grande. Só que havia uma conexão Bangu, que o taxista não sabia. Era para pegar o Írio, o grande guitarrista Írio de Paula, que logo depois iria para Roma com o Afonsinho e a Elza Soares e lá ficou até hoje, fazendo enorme sucesso com aquele seu jeitão Jimmy Hendrix. Todos a bordo – agora Afonsinho, eu e o taxista na frente; atrás, Írio e sua guitarra, o baixista e seu baixo; no porta-malas, toda a parafernália da bateria –, o táxi rolou novamente pela Avenida Brasil até Campo Grande. Já era pra mais de desoras quando chegamos – e nada de acharmos o tal Clube. 
    O endereço “não batia”. Com muito custo, encontramos um desgarrado da noite que nos indicou o lugar. Surpresa: o Clube estava fechado, só um vigia que disse não saber de show nem de “Martinho da Vila nenhum”. E decepção: tivemos que dar meia-volta ou uma grande volta de volta de Campo Grande. Num tempo sem celular, não havia sequer orelhão por perto, e o Afonsinho não teve como falar com o produtor do show. Era noite de sábado e os músicos, Afonsinho inclusive, tocavam em boates de Copacabana e haviam “mandado o Lima” – a velha gíria pra dizer que não iam, mas mandavam “o Lima”; na verdade, um inexistente substituto. Mas, dessa vez, haviam mandado mesmo: tanto que agora estavam preocupados em como pagar os colegas que foram em seus lugares. 
     Bandeira baixa desde que saímos de Botafogo, preço tratado por corrida, o táxi rolava agora cabisbaixo, pois de bandeira baixa e cabisbaixos estávamos todos nós, até mesmo o taxista, talvez preocupado com seu pagamento. E ele ainda precisou, meio a contragosto, se desviar de novo da rota para levar o Írio em Bangu. Ao nos despedirmos, Afonsinho disse pro Írio que não se preocu-passe, nem ele nem o baixista, pois o cachê combinado iria ser pago, nem que ele tirasse do próprio bolso. Mais uma meia hora, e uns três “nens” depois, e já deixávamos o baixista e seu baixo na Tijuca (ele ainda nos convidou para descermos para um café, o que achamos “de bom alvitre” não aceitar, dada a cara de poucos amigos de nosso taxista). 
     Mais uns quinze minutos e estávamos na porta da pensão em Botafogo. Quando o taxista deu o preço, acima do combinado (“sabe como é, tive que ir e voltar a Bangu, fora do nosso caminho”), levamos um susto. O táxi ia ser pago com o dinheiro do cachê, que não rolou. Juntamos os caraminguás e mesmo assim ficou faltando. Foi quando me lembrei do nosso amigo, Carlos Sérgio Bittencourt, que morava conosco na pensão. O futuro dramaturgo foi quem nos salvou, inteirando a grana do táxi. Ufa! Uma aventura, mesmo decepcionante como essa, a gente não esquece, não é mesmo? 
     Na sequência das “pequenas e inesquecíveis maluquices” vividas por mim e pelo Afonsinho, chega a vez do primeiro dos imbatíveis “porres negros”. Deu-se que ficamos sem cigarro no meio de uma noite de domingo. Morávamos ainda na pensão da Praia de Botafogo: Afonsinho, Carlos Sérgio e eu. O papo estava bom, mas nossos cigarros haviam acabado e nos anos 1960 sem cigarro nada funcionava. Descemos eu e Afonsinho rumo ao bar ao lado do Cine Ópera, quatro prédios após a nossa pensão. Mal compramos os cigarros começou a chuviscar e resolvemos tomar um chope. Afinal, quem não está na chuva é mesmo pra não se molhar, não é mesmo? A chuva foi descendo mais forte, os chopes e nosso papo também. 
     Foi então que o bar fechou, bem pra lá de meia-noite. E agora? A chuva chovia choverando (evoé, Oswald de Andrade!) por todo o Rio. Voltar pra pensão era chover no molhado. Era preciso alguma coisa mais forte, mais quente, quem sabe um conhaque com mel, mortífero anti-gripal de toda a gente? Lembrei-me de um botequim que costumava ficar aberto na rua Voluntários, quase esquina com a Praia. Vencemos as três quadras até lá enfrentando com galhardia os pingos de chuva em nossos rostos, e navegando em meio a uma ainda incipiente enxurrada. O botequim estava aberto. Saravá! Sentamos nos banquinhos do balcão e comandamos duas batidas de limão para recomeço dos trabalhos. A chuva chovendo forte lá fora. Solidão apavora. Não, Afonsinho, o samba ainda vai nascer, mas já estamos juntos, copos na mão, tamborim na marcação. 
     De repente, senta-se a meu lado um simpático e bem-falante negão (volto a repetir: não, não era um hoje “afrodescendente”, mas um velho negão anos 1960). Papo vem, papo vai, ele me conta que andou trabalhando em cinema, às vezes ainda trabalhava como maquinista. E disse, pra meu espanto, que estava nas filmagens de Os Cafajestes, naquela cena do nu frontal da Norma Bengell. E começou a contar detalhes das filmagens, daquele famoso travelling circular na praia de Cabo Frio: “na verdade a câmera estava em cima de um jipe, que rodava na areia em volta da Norma e...”. Aí ele sumia por uns bons minutos. Logo reaparecia: “...e então ela peladona e...”. E o negão sumia de novo. Eu imaginei que ele estava indo ao banheiro, mas desconfiei que era banheiro demais pra tão pouco tempo. Virei-me pro Afonsinho: “Que diabos faz esse negão, que some assim no meio do papo?”. 
    Chope e mais chope, o banheiro me chama. Desço do banquinho e sinto a água subindo pelas canelas: o botequim já tinha mais água que o Rio Pomba . Ressurge súbito o negão e me diz que está faturando uma nota empurrando vários carros inundados pela enchente na Voluntários (“coisa de cinco merréis cada empurrada, bicho!”). Só aí nos demos conta do caos. Amanhece, a chuva esmaece. Convoco o Afonsinho para uma retirada estratégica. E lá vamos nós, praia de Botafogo afora, água nas canelas. Paramos num padaria da Visconde de Ouro Preto: afinal era hora do café da manhã. 
     
Sanduíches de pão com salame nas mãos, calças arregaçadas, água nas canelas, caminhamos impávidos rumo à pensão. Bem verdade que às vezes um sanduíche caía em meio à enxurrada, mas nós o recuperávamos com impassível classe. Eis que chegamos. Havia uma escada que levava da rua à porta principal. A enchente tomara bem mais da metade dos degraus. Foi quando avistamos lá no alto o Carlos Sérgio, de terno, pronto para o trabalho, espremido entre algumas pensionistas, dignas funcionárias de algum órgão público. Todo mundo sem poder sair para o trabalho, todo mundo olhando enviesado pra mim e pro Afonsinho, nós dois atônitos, sanduíches de pão com salame equilibrando-se nas mãos trêmulas. 
     Do alto de seu terno, Carlos Sérgio nos deu um pito: “É uma catástrofe, tem gente morrendo, o Rio está inundado, a enchente impede qualquer um de trabalhar e vocês chegam assim, completamente bêbados em plena manhã de segunda-feira!”. Eu e Afonsinho desmontamos em nossas camas enquanto o Rio era inundado por outro rio: imenso e imundo. E percebemos então – moços bem-comportados de Minas Gerais – que havíamos perdido o cartaz com as senhoras funcionárias públicas. Nada mais de paparicos. Nada mais de ovos extras nas refeições. Nada de goiabada.
Continua na próxima semana 

17 de ago de 2015

1 - AfonSim/AfonSom: distância/altura/atenção


Show do Trio Afonso/ Alessio/ Írio – Auditório da RAI – Nápoles / 1976






Era o primeiro dia de outubro de 1975, lá se vão 40 anos, quando bateu uma saudade imensa do “prezado amigo Afonsinho”, meu querido baterista que tinha ido para Roma acompanhando a Elza Soares e por lá ficara. Nós não nos víamos há alguns anos e acabei escrevendo um poema imenso pra ele, “Bilhete pra Roma”, publicado no ano seguinte em meu livro “Selva Selvaggia”. Começava assim: afonsim/ meu meninim/ tupiniquim/ depois de tanto tempim/segue este bilhetim/ só pra dizer que sim/ estamos bem-muito bem/ loucos como sempre/ de porre às vezes/ sós com saudades.
 E depois de falar de filhos (pois não é que anos e anos mais tarde minha filha Ulla ficaria casada por oito anos com o filho dele, Riccardo?), mulheres, gatos, spaghetti carbonara (umas das especialidades culinárias de meu amigo) & os cambaus, eu finalizava citando um poema de Giuseppe Ungaretti: essas as notícias/ que passo/ ainda com sono/ e pigrizia/ são oito da mattina/ e lá fora/ a manhã/ se descortina/ guarda com´è bella!/ filtrando/ luzes/ pela janela/ paola/ riccardo/ simona/ e tutti quanti/ carbonara & chianti/ às vezes penso/ e/ m´illumino d´immenso.
 Pois é, eu estava lançando livro em Brasília no início de maio quando soube das mortes de Sebastião Cândido da Cruz, o Tião, e de Afonso Alcântara Vieira, o Afonsinho. Um seguido do outro, quase ao mesmo tempo, dois belos e bravos bateristas, meus queridos amigos que se foram. Não pude ir ao Rio para o enterro do Tião, nem vir a Cataguases para o do Afonsinho. Mas, a pedido do Trajano Cortez, editor do jornal “Atual”, eu escrevi lá de Brasília um rápido depoimento:
“Afonsinho, AfonSim era o irmão que não tive e que agora se foi.
Amigo e companheiro da vida inteira, não me deu tempo de sair de Brasília para o último abraçadeus, oh seu apressado! Moramos juntos em Botafogo e Copacabana. Muitas vezes fui uma espécie de seu holder, levando em meu carro ele e sua bateria para os shows e bailes cariocas, só pra aplaudir seus solos mágicos,  fenomenais.
“No apartamento de Copacabana morava também conosco outro baterista, o Tião Cruz. Uma semana antes do acontecido, o Tião partiu, também apressadíssimo, como que para preparar um rufo triunfal de bateria no aguardo da entrada de nosso amigo, que chegou, quem duvida?, ao som de um elegante compasso três por quatro. AfonSim, AfonSom que se cala. E cala fundo em nossos corações”.
 No sábado à tarde, 10 de maio, ainda em Brasília, havia recebido telefonemas de seu primo Mauro Sérgio Fernandes e de minha irmã Rosa: “Afonsinho está na UTI, e nada bem – teve dois AVCs”. À noite, o domingo já vindo, enquanto eu e Patrícia assistimos ao show Abraçaço, do Caetano, é em meu amigo que penso o tempo todo. Afonsinho não gostava muito dos baianos, daquele negócio dos doces bárbaros cantarem correndo no palco, entre outras coisas. Exatamente o que vejo Caetano fazendo agora. Esperava que ele cantasse “Desde que o samba é samba”, essa sim, música de que Afonsim gostava muito e que chegou mesmo a gravar com a Elza Soares no disco “Carioca da Gema”.
















  Mas, não. O show acaba e nada. Nem no bis ela surgiu. Mas aí Caetano cantou “Força Estranha”, uma das preferidas do saudoso poeta Francisco Marcelo Cabral e do Afonsinho e minha também – e me emociono mais uma vez com essa canção, uma das mais belas do baiano. E parecia que Chico Cabral, Afonsim e eu cantávamos juntos com Caetano: “A vida é amiga da arte/ É a parte que o sol me ensinou/ Por isso uma força me leva a cantar/ Por isso essa força estranha/ Por isso que eu canto, não posso parar/ Por isso essa voz tamanha”. Cantava junto com Caetano enquanto a voz do Chico Cabral já sumia, o Afonsinho morria e eu não sabia.

   Agora, já em Cataguases, lembro-me do que me disse certa vez meu também saudoso amigo, o romancista Rosário Fusco: “A gente só se recorda de nossas mancadas, das besteiras que fizemos em nossas vidas, jamais das coisas do dia a dia”. Como naquela manhã, aquele jovem estudante de filosofia vindo da Faculdade para o trabalho no Centro do Rio. Terno, gravata, as mãos atulhadas de livros, ele não viu a cordinha do estacionamento e tibum! – estatelou-se no meio do asfalto, livros voando estacionamento afora. Sinal fechado, toda a gente dos carros e dos ônibus de olho na cena. Morto de vergonha, ele catou os livros e tentou sair impávido, empertigando-se como pode, sem sequer notar a calça rasgada nos joelhos. Era 1968 e aconteceu comigo. Nunca mais esqueci. Agora me perguntem os acontecimentos daquela semana, da outra, das outras, das anteriores, das posteriores, um só acontecido que seja. Neca de pitibiribas.
 Falar do Tião e do Afonsinho, mesmo agora que se foram, é então tentar amenizar a coisa toda, como se não houvesse morte em nossas vidas – mas só o insólito, os fatos pitorescos que vivemos. É relembrar todo um leque de inacreditáveis “acontecimentos acontecidos” conosco vida afora. É o que fica, o que ficou, as mancadas, as pequenas besteiras, loucuras de que nos lembrávamos às gargalhadas – e que eu vou recordar para sempre. Mais ainda que seus shows no Brasil e no exterior, ao lado de grandes cantoras, de grandes nomes do jazz internacional, mais ainda que suas belas performances, seus solos impagáveis. Isso para eles dois, para Afonsinho principalmente, era o arroz com feijão, ou feijão com arroz – que a gente também prima pela rima.
     Acompanhar Vinicius, Baden Powell, Chico Buarque, Elza Soares, Astrud Gilberto, Alcione. Participar com seu grupo instrumental dos maiores festivais de jazz europeus durante os vintes anos em que viveu em Roma. Tocar e gravar com Gato Barbieri, inclusive na trilha do filme "O último tango em Paris"; e com Tony Scott, Archie Shepp, George Adams, Sal Nistico, Enrico Pieranunzi, Don Pullen, com o poeta-pianista Léo Ferré e tantos outros grandes nomes do jazz – tudo isso era o prato do dia a dia, os pratos e bumbos de sua cotidiana bateria.
E o Afonsinho sabia bem lidar com isso, não tivesse ele, e até eu mesmo, seguido à risca o conselho do inacreditável goleiro cataguasense Luiz Prata, o Luiz Careta, que lhe disse um dia, assim como quem filosofa: “O importante na vida de um baterista é distância, altura e atenção”. E nada mais disse, e nem explicou o que era aquilo de distância/altura/atenção – e nunca ficamos sabendo se ele falava de bateria ou das agruras de um goleiro, ou de como levar a própria vida. Seria distância da bateria, altura do banquinho, atenção na entrada da música? Chi lo sa?  Vejo agora uma foto daqueles tempos, nós dois ainda muito magros, caminhando numa tarde pela Praia de Ipanema.  Exatamente quando Afonsinho – com as feições imitando o cômico italiano Totó – vira-se para a fotógrafa (nossa amiga Tânia Horta) e solta um daqueles “distância/altura/atenção”. Na verdade, controvérsias à parte, a enigmática tirada do Luiz Careta serve como lema para tudo em nossas vidas, ou não? 

Continua na próxima semana

25 de jun de 2015

Novelhíssima Ponte Velha


Washington Magalhães meu caro foto-escriba: o sino de Santa Rita acaba de bater quatro da matina, o que me fez pular da cama onde, acredite ou não, pensava em seu belo livro-homenagem ao Centenário de nossa Ponte Velha. Veja você: a Igreja de Santa Rita e a Ponte Velha, nossos dois ícones por excelência, me trouxeram aqui e agora pro meu escritório onde madrugada adentro e afora em plena presti/digitação bato com meus dedos não mais tão mágicos essas palavras, todas essas palavras que agora me ocorrem, e como sempre me socorrem. 





Para ler a crônica completa, clique no link abaixo:


3 de jun de 2015

Repercussão do lançamento do novo livro em Brasília DF


Chamada de capa no Jornal Atual, com matéria de página inteira na pág. 3.
E, ainda,  uma resenha de “o mar de outrora & poemas de agora” publicada no Boletim Leituras. 



Clique nos links abaixo e confira na íntegra.






4 de mai de 2015

Lançamento do Livro "o mar de outrora & poemas de agora"

Anome Livros e Carpe Diem Restaurante
convidam
lançamento do livro

o mar de outrora & poemas de agora
de Ronaldo Werneck


Terça feira, 12 de maio de 2015 - 19 horas
Carpe Diem Restaurante
SHCS/Sul CL Qd. 104
Bloco D, Loja 01
Tel (61) 3325-5301
Asa Sul – Brasília – DF




Mais informações pelo site:

19 de dez de 2014

Natal em Três Tempos



VELHOS NATAIS

sim

não existem mais

                           sinos

       meninos

                 os velhos ais

não

          sim

                    não existem mais

                    sons

      sonhos

                   sinos

                   címbalos

                   símbolos

                                    sim

não existem mais

presentes

                  no passado

meninos

                                          janelas abertas

na memória

                           velhas histórias

não

           nós

           nozes

           velas

                      nós na garganta

                      velhas vozes

sim

        não

– que adianta? –

                    não existem mais

coisas que tais

                          hoje só

                                   só sons

                          estranhos

martelando

                          a madrugada

ruídos rompendo

     interrompendo

                    janelas fechadas

a manhã

                     presentes-ausentes

                           hoje só

pressentes

                os sinos

        sim

                 os sinos

não

             os velhos ais

                             uais de nunca jamais

não

     noites

             não

                  nozes

                          não

                              vozes

veladas vozes

        de outroragora

                                     sambam soltas

                        entre as frestas

                        da janela

             de nunca

                             jamais

                               entre as festas

                        de velhos

             anelos

                        belos

                                   tanto

                      tontos

        natais

atônitos. 
                                                                                                          


Rio de Janeiro,1991



NATAL DE CASANOVA

já em dezembro,

natal de prova,

me surpreendo

de casanova.

ano que vai,

vida que vem.

vem me ver, vai

olha que trem

belém-blém-blém

sai daqui, sai

nada é igual:

tudo renova

a vida pau

pra toda prova.

                                                                                                                                                                                                                                         Cataguases, 1999




TREM DE NATAL

tudo tem tudo trem

do ano que vai e vem

pra você: este brilho

viajor, andarilho

ano que vem e cai

agora: berço-embalo

tudo sim tudo claro

tudo que vem e vai

nada neste natal

nada nada fará

nada bem nada mal

nada ao tudo faltar

tudo improvisar

tudo novo janeiros

tudo ao deus dará

tudo de novo: ei-los

os dias sem estepe

um sambinha de breque

tudo salamaleques

do ronaldo werneck



                               Cataguases, 2004

16 de dez de 2014

Grande Otelo & Elisa Lucinda






Otelo & Elisa: comeu comeste, como. 
Como?

                         Enquanto Otelo nos olha com aquela cara safada de Grande Otelo, Elisa Lucinda continua aí, toda lampeira, sentadinha em meu colo. Otelo vem por aí, logo à frente. A história do Botanic – aquela do “não vou porque você não vai querer me comer” da crônica anterior – rendeu e rende gargalhadas até agora entre os poetas que presenciaram a cena. Ainda hoje, de repente, algum deles me pergunta: “então, comeu?”. Há controvérsias, como (como?) em tudo. Mas é essa Elisa de brilhantes insights que não vou esquecer jamais. Ela acabou indo lá em casa, e muitas vezes: ficamos amigos e nos víamos sempre naqueles meados dos anos 1990.

Elisa aparecia de quando em quando em minha sala do CCBB e pegava carona comigo pra Copacabana, onde também morava. Lia para mim seus poemas, pedia opinião (quem sou eu?), trocávamos ideias. Um dia, apareceu lá em casa com uma peça de teatro chamada “Deus”, um texto de grande força e, vamos dizer, “manemolência”. Disse que falara com o Grande Otelo e que ele topara fazer o papel do próprio, quer dizer, de Deus. Disse ainda que o Grande Otelo nos convidara, a ela e a mim, para um almoço em sua casa, para falarmos sobre a peça. Dito e feito.

Não carece aqui falar de minha imensa admiração por “Grande Otelo”, nome dado pelo cineasta Orson Welles ao pequeno-grande ator mineiro Sebastião Prata. Eu já o conhecera pessoalmente quando de uma exposição sobre ele, que fizemos no CCBB. E onde mais uma vez não deixei de me espantar com sua grandeza, e também e até com a grandeza do rol de seus admiradores.

Conversava um dia com Grande Otelo na rotunda do CCBB quando vi passar Fayga Ostrower, a grande gravurista, que expunha no segundo pavimento. Ao me ver com Otelo, Fayga acenou pra mim, me chamando. Ao me aproximar, pediu para que eu a apresentasse a ele, pois era sua fã desde muito tempo. Otelo não a conhecia, mas deu um grande abraço em Fayga, meio que me perguntado com os olhos quem era ela. E eu admirado pelo fascínio da grande Fayga pelo “pequeno” Otelo. Corta para.

Sábado pela manhã, casa de Grande Otelo em Copacabana. Manhã mesmo, pouco depois de dez horas. Elisa me disse que Otelo marcara o almoço para onze horas. Não entendi o porquê daquele horário. Calor carioca, Otelo nos recebeu de bermudas e sem camisa. E logo voltou pro fogão, que era ele mesmo quem estava preparando o almoço. Cozinhava enquanto me dizia, muito gracinha, que era feijão de Uberlândia (sua terra natal), em minha homenagem, coisa de mineiros.

Então, já sentados à mesa, lá estávamos nós e o (ótimo!) feijão de Otelo: Elisa, ele, eu e um de seus filhos (como é mesmo o nome?), que iria dirigir a peça da Elisa. Foi quando perguntei o porquê daquele almoço tão cedo. Pra quê! Otelo disse que, ao contrário daquele que estava sentado à mesa – e que sem dúvida iria dirigir muito bem a peça da Elisa – tinha outro filho que estava sem trabalho. Ele levantara cedo naquela manhã, “pois tive que ir ao Jardim Zoológico arrumar emprego pro meu filho”.

Ops! Otelo estava sentado à minha frente, de bermudas, sem camisa, os cabelos desgrenhados, o próprio Macunaíma. Levei um susto, e não entendi nada. Até que ele, o “Deus da Elisa”, completou: “Sou amigo do diretor do Zoológico e fui pedir emprego de escriturário pro meu filho”. Ah, bom, pensei. E nada mais se disse, ou foi falado, of course.

Deus não deu certo. Nem sempre dá. Otelo já se retirou de cena e acho mesmo que “Deus” anda inédito até hoje. Mas, Elisa não. De lá pra cá, a moça deslanchou, se é que podemos chamar assim, pois Elisa já nasceu deslanchada. Ou em fase de total deslanchamento. Poeta, autora, atriz de cinema e telenovelas, cantora e criadora da “Casa-Poema”, ela tem vários livros publicados, vários espetáculos de sucesso. Elisa não para e, por isso mesmo, está aí ainda o “Parem de falar mal da rotina”, possivelmente seu espetáculo mais bem apanhado, onde ela solta sua verve e atua com a autoridade de quem conhece seu métier, de quem solta-se no palco como se andasse na rua.

E foi numa das apresentações desse espetáculo que ela me deixou meio ou totalmente sem graça num teatro do Leblon, tempos atrás. Eu me sentara numa das primeiras fileiras e naturalmente ela me viu lá do palco. Pois bem, quando dos agradecimentos, o primeiro nome que ela citou foi o meu: “Quero registrar a presença do poeta meu amigo Ronaldo Werneck”. O teatro lotado, eu envergonhado. Não precisava, Elisa, não precisava.

É, ando com saudades de minha amiga, de sua alegria, seu impressionante bom-humor. Pego na estante um de seus livros, ao acaso: “O Semelhante”, de 1996. E me surpreendo com a enigmática dedicatória (não me lembrava mais): “Ronaldo, meu amor de carnavais árduos, belos e de jardins de rimas boas. Quero as amendoeiras, quero tomar sopa no Nogueira. Quero o verso eterno nosso. Beijos, Elisa”. O “Nogueira” era nosso bar, é certo: “a salvação da madrugada”, ali na Viveiros de Castro, nas proximidades da famigerada Prado Júnior, no Baixo Copa. Mas, o meu amor de carnavais árduos, belos? As amendoeiras? Talvez apenas rimas boas com o velho Nogueira, quem sabe?

Quem sabe, sabe, é verdade. Conhece bem, como é gostoso gostar de alguém. Ai, morena, deixa eu gostar de você – já dizia a velha marchinha carnavalesca. Mas fica para sempre a pergunta e sua controversa resposta que nunca houve: “Então, Ronaldo, e a Elisa – comeu?”. Como? – perguntaria, meio que respondendo, meu grande e querido poeta Jorge de Lima, naqueles versos eternos de “Invenção de Orfeu”: “comeu, comeste, como”. Como, Elisa? Como.

O dia em que não comi Elisa Lucinda


Lá se vão quase três anos, mas só agora vejo aqui, meio perdida entre meus alfarrábios, essa crônica sequer começada. Só havia a foto e o título. Mas, que título! Com um título assim nem precisa de crônica, não é mesmo?  Minha querida amiga, a poeta, atriz e performer Elisa Lucinda esteve aqui em Cataguases durante a terceira edição (outubro de 2011) do Felica, o Festival Literário de Cataguases, organizado por Geraldo Filho. “Esteve”, é pouco, quase um eufemismo quando dela se trata. Elisa é um “eufeminismo”, um acontecimento. É sempre show, insight, surpresa. Melhor dizer: Elisa Lucinda aconteceu aqui com sua poesia.

Ah, sim, a foto aí de cima. Aconteceu também durante o lançamento de um de meus livros no Rio de Janeiro. Elisa chegou e abafou de uma sentada só. Literalmente: sentada no meu colo, com quem não quer nada, para espanto do (in)distinto público, pede um autógrafo: “Com carinho, please!” Essa a Elisa, essa Elisa! Mas voltemos ao Felica, onde Elisa aconteceu como ninguém. E olha que era uma edição com destacados nomes literários: o poeta Chacal, o artista plástico e romancista Elias Fajardo, o poeta angolano Ondjak, o poeta e artista plástico Guerá Fernandes, a prosadora Ana Paula Maia, os escritores cataguasenses José Geraldo Gouvêa e Marcelo Benini, o romancista e cineasta húngaro (e meu grande amigo) Miklós Palluch, a jornalista Sabrina Abreu e o grande escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós.

Falha minha, não conhecia nem o Bartolomeu nem sua literatura. Fiquei fascinado com sua exposição, com seu jeito tranquilo de colocar as coisas mais inesperadas, assim pausadamente, como quem respira. Saímos para jantar e Bartolomeu continuou a falar com aquela calma mineira, baixinho, como se segredasse. Aos poucos, percebemos ter vários amigos em comum, e nos surpreendemos por ainda não nos termos conhecido. Eu estava para ir a Belo Horizonte, e ficamos de nos encontrar novamente. Qual o quê! Pouco tempo depois fui surpreendido com a notícia de sua morte. Achei e perdi um grande amigo que não tinha.

Em outras noites do Festival, saímos com o Chacal, o Ondjak, o Miklós, o Marcelo Benini, pra tomar uns “drinques finos”, aquela bebida plural e refrescante que inventei há tempos, regada a água tônica & guaraná. Quer dizer, eu com meus drinques finos e a turminha mandando ver nos variados álcoois que fluem das noitadas cataguasenses. O Felica (evoé, Geraldo!), nos proporcionava isso (acabou por quê?): uma oportunidade de reencontrarmos velhos amigos e conhecermos outros, essa gente toda “ligada” no ofício de escrever. Lembro também de prolongados papos noite adentro com dois outros amigos (nesse ou em outro Felica?) – o jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, de Belo Horizonte, e o poeta Nicolas Behr, de Brasília.

“Epa, a crônica já vai em meio e nada da Elisa nela entrar. Vem cá, Elisa, entra ou deixe que o outro entre agora, nessa Penetração do Poema das Sete Faces: “Ele entrou em mim sem cerimônia/ Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu/ Na primeira fala eu já falava como se fosse meu/ O poema só existe quando pode ser do outro/ Quando cabe na vida do outro/ Sem serventia não há poesia, não poeta não há nada”. Não sei bem se foi esse ou o outro ou um dos muitos outros o poema que Elisa soltou na tevê, em pleno Almoço com as Estrelas, com a não menos Angélica, aquela que vaivém de táxi.

Não se fala poema na Globo – bem o sabeis, ó leitores meus –  e Elisa tava-que-tava pra soltar um dos seus em meio à entrevista com a Angélica. Lá pelas tantas, ela aproveita a deixa de uma pergunta e manda bala num poema inteirinho (foi esse, não foi esse?) antes que, atônita, a apresentadora pudesse sequer abrir a boca. Assim narrava Elisa aqui em Cataguases, no palco daquele Felica, quando alguém da plateia perguntou: “E a Angélica, como ficou”. Resposta de bate-pronto, num saque-sagaz: “Loura”.  

Essa a Elisa que nos surpreende sempre e faísca no esplendor do disse-me-disse de sua bela mulatice, os olhos verde-esmeralda refulgindo de inteligência, matreiros brilhantes. A Elisa que quase me atropela numa tarde de Ipanema, início do século. Vinha eu distraído pela calçada da Avenida Atlântica quando, ao dobrar uma esquina, corto um dobrado para me desviar de uma bicicleta veloz que só ela. Era Lucinda de byke, as coxas luzindo num shortinho, saltitantes. “Ronaldo!”. “Pô, Elisa, que susto! Que treco é esse agora, de bicicleta?”. “Liga, não, é que estou em plena fase fitness”.

Nós nos conhecemos numa noitada carioca num bar da Pacheco Leão, no Jardim Botânico, o Botanic – refúgio de poetas de vários quilates, que ali se apresentavam, falavam seus poemas e falavam, falavam. Lá aconteceram vários dos shows do Blues Etílicos e dos Camalões, o grupo comandado pelo então poeta Pedro Bial e outros menos votados. No Botanic, vi em cena figuras inesperadas a declamar, como a apresentadora de tevê Leila Cordeiro, que lançava livro de poemas, ou a poeta e performer Crika Ohana (irmã da Cláudia), que acabara de fazer um happening, desfilando nua pela redação do Jornal do Brasil.

Certa noite, nem bem eu me apresentara quando alguém me disse que gostara não só de meus poemas como do meu jeito de dizer. Dito assim, com esses dizeres e esses gostares, tudo muito me agradou – principalmente vindo daquela figura pós- existencialista, com piteira e boina à la Juliette Greco. Era a atriz e romancista Ana Miranda. Eu lera ainda há pouco o seu livro “Boca do Inferno”, e ficara impressionado com a pesquisa e a beleza do texto. Adorei o elogio, não há como negar. Meu amigo, o compositor Carlinhos Vergueiro, estava comigo naquela noite. Dia seguinte, treino do famigerado Politheama, ele disse pro Chico Buarque que conhecera a Ana. Chico rebateu de pronto: “é uma grande romancista, gosto muito do que escreve”. Assino embaixo, quer dizer, aqui do lado. Nunca mais a vi. Há alguns anos, em Fortaleza, li num jornal de domingo uma ótima crônica de Ana Miranda. Soube, por amigos cearenses, que ela voltara pra lá. Será que ainda lá está?

Mas, no Botanic, conheci mesmo foram muitas e muitas poetas, e com algumas fiz bela amizade, como Solange Padilha e Marly de Oliveira. Convidado por suas organizadoras – Rachel Gutierrez, Maria Helena Kühner, Helena Rocha –, acabei participando do livro “Mulheres (in) Versos”, antologia onde Affonso Romano de SantAnna, Geraldinho Carneiro e eu éramos os únicos “Homens (in) Versos”. Foi lá que certa noite vi um show com canções francesas do travesti Valéria, a “Divina Valéria”, onde ela naturalmente cantava La Vie en Rose.  Eu estava no balcão conversando com Cecília, a dona do Botanic, e com a escritora e filósofa Rachel Gutierrez, hoje minha grande amiga. Lembro-me que eu e Rachel “acompanhamos” Valéria como se fôssemos a Piaf. Quer dizer, a Rachel, que é pianista de formação clássica (em Viena). Eu me limitei a desafinar com grande classe.

Depois do show, Valéria sentou-se ao meu lado e engatamos uma conversa que durou noite adentro, a Divina sempre com histórias e mais histórias que “vou te contar”. Rachel Gutierrez já saíra quando, lá pelas tantas, apareceu ninguém menos que Rose Rondelli, a vedete do Carlos Machado e Certinha do Lalau, que foi casada com o Chico Anysio e foi também uma das obsessões, vamos dizer, “manuais” de minha adolescência. Fechamos o Bar. As “meninas” pediram carona e vocês não imaginam a emoção deste escriba ao conduzir “La Rondelli” pela noite do Rio.

Falei então pra ela de minha “adoração adolescente” e ela entreabriu (entreabriu? Será mesmo que entreabriu?) aquele sorriso que eu conhecia das revistas de antigamente, os cabelos curtinhos que nem os da Jean Seberg do Acossado de Godard. Rose ficou numa rua do Leblon e levei Valéria até Copacabana. O que então Valéria me contou sobre figurões da política e do sowbiz não está no gibi, mas faria a festa de outras revistas, aquelas que primam pela fofoca. Ela saltou dizendo que estava pra fazer um show que iria arrasar e que eu “já estava convidado”. Nunca mais vi a Divina. La Rondelli, muito menos.

Foi também num Botanic lotado (não era lá muita vantagem: pelo tamanho, o Botanic era mais chegado num pocket-show) que apresentei o espetáculo (?) “Tônica com Guaraná”, com poemeus & canções de tutti quanti, acompanhado pela cantora Eduarda Fadini e por um trio da pesada sob o comando do tecladista Sérgio Botto, com direito a Afonso Vieira na batera. Havia também um quarteto de back in vocals muito gracinha, que mandou ver num belíssimo “A História de Lily Braun” (como era mesmo o nome das meninas?) e, ainda, voz & violão de meu amigo Roberto Kimura.

E foi lá e ainda lá que vi Elisa Lucinda pela primeira vez, falando com grande verve um de seus enormes poemas. Fiquei fascinado com aquilo tudo, a mulata, os verdes olhos, a voz rouca, o soar de seu poema-espanto. Também eu falara antes alguns de meus poemas e, acabada sua apresentação, Elisa sentou-se em minha mesa. Mal chegamos a ser apresentados e logo elogiei sua bela performance. Ela devolveu os elogios, dizendo que também gostara de meus poemas. E adiantou: “Quem sabe a gente não se reúne e faz uma apresentação juntos?”. Eu disse que sim, que era uma boa ideia. Quem sabe ela não iria lá em casa pra gente ensaiar?

Elisa ficou séria: “Ah, Ronaldo, não vou na sua casa, não”. “Mas, Elisa, por que não?”. Ela então mandou essa: “Não vou não, porque você vai querer me comer”. Surpreso, eu disse: “O que é isso, Elisa?”. Aí, ela soltou aquele sorriso de quem me pegara pelo pé: “Ah, não? Você não vai querer me comer? Então é que não vou mesmo. O que vou fazer lá, se você não vai me comer?”. Pano rápido, com muitas risadas.


16 de nov de 2014

EXPÔ POESIA VISUAL ANOS DE CHUMBO





Cliquem no link a seguir para assistir ao documentário que realizei sobre a Exposição Cataguases-Cartazes / A Poesia Visual nos Anos de Chumbo, organizada por Joaquim Branco. Aberta ao público em 25 de abril de 2014, a mostra esteve em cartaz por mais de seis meses no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases.