10 de out de 2016

Slotti: o traço interrompido



     
     Só agora, um mês exato, soube da morte em 02 de setembro de Sebastião Nozza Bielle Lotti, o meu amigo Tuíte, mais conhecido como Slotti, assinatura que dava aos seus trabalhos de artes plásticas. A notícia me chega hoje pela Revista Eletrônica “Chico´s” (nº 46, 22.09.2016), onde o poeta Antônio Jaime Soares fala dos contos de Slotti, que o artista tanto queria ver publicados. Ele chegou também a me mandar alguns desses contos, todos ótimos: além de grande artista plástico, Tuíte escrevia muito bem e tinha muita coisa pra contar. 
     O artigo dele que a “Chico´s” publica sobre o filme “Os dias com ele” é um texto emocionado e emocionante – pelo menos pra mim, que também fui/sou amigo (mesmo sem nos vermos há anos) do poeta e filósofo Carlos Henrique Escobar, atualmente auto-exilado num lugarejo perdido em Portugal. O filme que, como o Tuíte, também eu vi há alguns meses no Canal Brasil, é uma grande homenagem que a diretora Maria Clara Escobar, filha do filósofo, faz a seu pai. Eu e Escobar lançamos juntos livros de poemas na Ipanema dos anos 1970. Lembro-me que nossos livros foram impressos numa gráfica de Petrópolis e subíamos a serra para revisões pelo menos uma vez por semana – filosofando sobre poesia e política naqueles tempos de brutal repressão. Eu passei mais ou menos incólume por uma prisão, vamos dizer, “leve”, sem levar porrada – se se pode chamar de “leve” uma prisão no DOI-CODI dos tempos de Médici. Mas Escobar, não: ele acabou sendo barbaramente torturado. 
     Tuíte pouco saía nos últimos tempos, tomado por um enfisema, esse mal tenebroso que levou também há poucos anos nosso amigo Afonso Vieira, o Afonsinho. Nós nos telefonávamos às vezes – e lembro que quando organizei um número especial do Suplemento  Literário do Minas Gerais sobre Cataguases, em 2013, o chamei para ilustrar alguns poemas de minha prima e sua grande amiga, a poeta Lecy Delfim Vieira, que também já se foi (Gente, toda a nossa gente “está-se-indo”!). Tuíte vinha de uma internação, mas se entusiasmou e me disse que, mesmo respirando com grande dificuldade, ia fazer o possível para “mandar alguma coisa”, pois adorava a Lecy. Mas, ao me ligar tempos depois, dizendo que estava começando a fazer as ilustrações, a edição já estava fechada e mesmo os poemas da Lecy não puderam sair por falta de espaço. Não sei se ele terminou as ilustrações. Quem sabe não estão entre os guardados que deve ter deixado?
     Vou sentir saudade do artista plástico Slotti sempre que olhar para seus quadros; e do escritor, sempre que ler seus contos. Antônio Jaime diz que a família está disposta a publicá-los e “está somente dando um tempo, até passar o choque”. Mas vou sentir uma saudade maior mesmo é de meu amigo Tuíte, que não verei nunca mais. Em sua homenagem, volto a publicar a seguir uma crônica que se encontra em meu livro “Há Controvérsias-1”, de 2009, escrita quando da inauguração de sua mostra “Cabeças Cortadas”, na sala de exposições da Caixa Econômica, no Rio. Mas, antes, assino embaixo o que Antônio Jaime escreveu no “Chico´s” sobre ele: “minha agenda de amigos, pouco a pouco, vai ficando desfalcada, cada vez menos gente para aquele papo “sem meias-patacas”, como dizia Fábio Leite (irmão da cantora Maria Alcina), um dos que se foram. Jorge Napoleão foi outro. Amigo só tem um defeito: morrer antes da gente – disse alguém, creio que da equipe do finado jornal Pasquim”. 


 Slotti e Jorge Napoleão  :  saudosos artistas plásticos 

Glauber/Slotti
     Poucas pessoas são assim tão anos 60. Poucas ainda aquelas assim “ando meio desligado” como o Tuíte dos tempos do desbunde, o Sebastião Lotti de depois, esse Slotti de agora. Que ainda parece estar sempre “viajando”, com a mesma cara de antes, aquela que lembra mais Salvador Dali que o próprio. Surrealista como Dali – sem se desligar do figurativo ao longo de sua trajetória nesses últimos trinta anos, sem se distanciar da perfeição de suas máscaras – Slotti agora e aqui homenageia     Glauber Rocha com suas Cabezas Cortadas. “A função histórica do surrealismo no mundo hispano-americano oprimido foi aquela de ser instrumento para o pensamento em direção de uma liberação anárquica, a única possível”, Glauber dixit. 
    “Cabeças Cortadas”, esta mostra dos trabalhos atuais de Slotti (tenho até hoje em minha sala um quadro que ele me deu, “Trilogia da Terra”, um plano fechado dos pés de camponeses extraído do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber), nasceu do que ele chama de “minha indignação face ao que ainda não foi feito: a reforma agrária desejada em seu sentido mais objetivo”. Os Sem-Cabeça, os Sem-Terra. Tuíte-Slotti diz que os desenhos foram surgindo naturalmente, pois ele queria que as figuras brotassem sem se policiar quanto à forma. Quando saíam acadêmicos, acadêmicos ficavam. 
     De acordo com a emoção do momento, oscilavam entre figuras quase renascentistas e outras muito pelo contrário: absolutamente deformadas pela realidade, meio chegadas ao pop. “Pensei em terra, nos Sem-Terra. Surgiram imagens de Canudos, Lampião, essas imagens tão Glauber, tão do imaginário de Deus e o Diabo, filme que mexeu muito com minha cabeça nos anos 60”. Era o mesmo Glauber que nos anos 70 escrevia: “Cabezas Cortadas é um filme contra as ditaduras, é o funeral das ditaduras. Um encontro apocalíptico nas ruínas da civilização latino-americana, que desmonta todos os esquemas dramáticos do teatro e do cinema. O cinema do futuro será som, luz, delírio, aquela linha interrompida desde L’Âge d’ Or”.


aquela linha interrompida
    Conotação social, arte participante, aquele papo de engajamento. Parece um mundo antigo, efervescente e pleno de contradições, coisa defasada depois da queda do Muro de Berlim, das globalizações & outras mumunhas mais que nivelaram por baixo os anseios, como se refrigerassem nossas vidas. Quer dizer, nossas vidas em Ipanema. Porque, de resto, a coisa continua muito Minas Gerais, i.e., “está onde sempre esteve”. Estão aí os Sem-Terra e os Sem-Mesa. E Minas não surge aqui por acaso. Lá, como aqui, Slotti passou por álcool, drogas & amores mil. Mas amar, amar mesmo, só em Minas. O Rio de namorar: piração. Ipanema é sua praia, o mar desse mineiro de Miraí. De sua pequenina Miraí cujos códigos já transgredia aos 12 anos, naquele “Circo do Tuíte” onde era o trapezista, o diretor, o figurinista e principalmente o criador do strip-tease na roça: agreste, bucólico, corajoso – e precursor e pueril e patético.
     Os peitinhos de Lelena tinham somente 12 anos e ficavam de fora e eram como dois limõezinhos soltos enquanto Marlene cantava “Eva me leva/ pro Paraíso agora” e os meninos de Miraí, na faixa dos 14, se masturbavam num só delírio, num gozo conjunto e total. Os moleques gritavam em uníssono enquanto a Lelena do Lalá caía no picadeiro e saía rolando pra debaixo da cortina: o maior barato. Por razões mineiras, demandas matreiras e por isso mesmo óbvias, o “Circo do Tuíte” foi fechado e seu jovem trapezista – sem peitinhos, mas também com 12 aninhos – muda-se já com seus primeiros desenhos para a cidade grande. Quer dizer, a mais próxima: Cataguases, a Princesinha da Mata Mineira, que adota, elege e erige como cidade dos sonhos. Ou pelo menos trapézio para o mundo que desconheciansiava.
     Censurado no mato, censurado na praia. Na Ipanema dos anos 60, vamos encontrar o mineiro que inventou o strip-tease decorando as vitrines chiques do bairro, como aquelas da Bibba, um dos ícones fashion da década. A Bibba que lançava a moda mais up-to-date, as últimas vogas da swinging London, o que havia de mais “quente” na época. Tuíte, é claro, morava no Solar da Fossa, bicho. Pode crer. É isso aí, ali ao lado de todos aqueles artistas já meio conhecidos, aqueles Gil, aqueles Rogério Duarte, aqueles Caetano junto a quem sua timidez não deixava o papo se travar, perdão, se soltar. Ali no Solar lia Rimbaud e Jean Genet, mas ficava mesmo com o Livro Vermelho de Mao, ou “A Chinesa” do Godard, impressões fortes da juventude, aquela da Geração Paissandu. Sim, ele também estava lá, ô cara!
     “A arte é invenção, é o inconsciente do artista, o sonho, o imprevisto, a forma nova.”. Não por acaso, a frase é também de Glauber Rocha, o mesmo cara daquele “a política e a poesia são demais para um só homem: vão se esquecer de Lênin, mas não de Maiakovski”. Aquele “Glauber, profeta alado”, no dizer de Paulo Emílio Salles Gomes. Na Páscoa de 74, Tuíte utilizou alguns anjos na decoração da Bibba, ali na Maria Quitéria, onde hoje é o Empório 37 (ainda é?). Eram anjos de papelão, segurando um pássaro azul. Como os peitinhos da Lelena do Lalá, anjos de pauzinhos de fora, umas gracinhas. A repressão nada sabia do sexo dos anjos, nem podia. Os militares aplicaram o corretivo de praxe: fecharam a loja, cobriram anjos & vitrines com jornal e abriram processo de atentado ao pudor, o que deu a Tuíte seus 15 minutos de glória no Jornal Nacional, com direito a suítes em toda a mídia do país e até do exterior. Nunca se discutiu tanto o sexo dos anjos.
     Década de 60 sem Mauá não há. Slotti vai pra Mauá, a serra, e acaba no mar. Piração geral: meio desligado, troca as bolas e respectivas praias: achou que Mauá fosse a indefectível Praia de Mauá, permanentemente em estado de emergência. Ficou na lama durante um ano, chafurdando com os caranguejos e achou o maior barato, que nosso artista sempre foi de boa paz: “Mauá é ótimo. É uma estação onde D. Pedro parava, na Praia de Mauá, na Freguesia da Ajuda. A carruagem esperava e ele subia pra Petrópolis pela Estrada do Imperador.”. São de Mauá os anjos em ocre, com elementos terra, sempre a presença da terra, marcante nas paisagens tropicais, bucólicas. Mas eram também trabalhos impregnados pelo surrealismo. Nada de mar, marinas. A paixão de Slotti é a terra, o verde: flor, fruta, jamelão. Ainda Glauber Rocha: “O surrealismo para os povos latino-americanos é o tropicalismo”.

e retomada
     Meio desligado sim, mas em termos. Às vezes, um rebelde, antenado no acontecimento, participante. Aquele mesmo que foi preso durante o movimento estudantil, distribuindo panfletos de sua própria lavra & fabricação em plena Cinelândia. Um jovem indignado com a ditadura, trancafiado no Regimento de Cavalaria Caetano de Farias, ali onde aquele velhinho, perdão, aquele velho milico safado, pisava em seus pés e repisava, olhando fixo em seus olhos com aquele idiotal sorriso de desprezo: “Compositor, né?!!!”. Não era, apesar dos cabelos compridos. Mas guardou para sempre a humilhação. A mesma que devolve agora, nessa retomada da linha de protesto, aquela interrompida.
     De Miraí a Cataguases, de Ipanema a Mauá, dali a Pedra de Guaratiba, onde participa da Associação de Artistas locais, de Teresópolis a Anápolis, a Brasília. E de novo morando em Cataguases, não se sabe até quando, e agora e novamente em Ipanema. Trinta anos de Tuíte esta noite. Do expressionismo ao abstrato, é árido o mundo para esses olhos de espantalho. A expressão do que Slotti vê, o que sai de dentro si – porque quem de dentro de si não sai, bem o sabeis, vai morrer sem amar ninguém. A figura sempre predominando em todas as fases, o traço perfeito, marca, assinatura. A força, o impacto extraordinário desses olhos atônitos, semi-esbugalhados, que fixam o acaso. Muitas vezes o ocaso. 
     Mesmo quando se fragmentam, as figuras não são aleatórias: antes resultam de uma composição pré-moldada na memória. Um amálgama de vários matizes, tons de terra e violeta. Ocre. Verde, amarelo. Esta paleta tão tropical, tão Bandeira do Brasil. A Padroeira que veio impávida & coroada. Puro kitsch. Lona, arte povera. Desenhos & óleos, aquarelas, nanquim, estandartes. Esses estandartes tão marcantes em Deus e o Diabo, em Cabezas Cortadas. O amarelo, o vermelho tão Glauber/Rogério Duarte, a ressoar: “Não me exijam coerência. Não tenho resposta na boca para todas as coisas. Sou um artista, portanto meu processo é um processo dialético entre o fluxo do inconsciente e minha razão dialética. Assim, posso mudar a qualquer momento. Eu não tenho medo de criar, se tiver engenho e arte vou em frente. E é necessário não ser babaca, pois a babaquice é o maior inimigo do artista”.







4 de out de 2016

Elke, essa Maravilha

     “Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e sai na rua... Levei até cuspida na cara. – Eu quero é conviver! A grande arte não é viver, é conviver!”. Mulher Maravilha foi o título sugerido por um repórter que preparava sua biografia. Com aquele “criança” de sempre, marca registrada, ela rebateu de pronto: “Criança, que coisa mais prepotente. Maravilha era a Simone de Beauvoir”. 
    Russa reciclada na roça: de Leningrado a Itabira do Mato Dentro, terra de Carlos Drummond de Andrade, onde passa a morar aos seis anos. Muito tempo depois, já famosa e falante de vários idiomas (o grego como carro-chefe), ouve na voz do próprio poeta: – Elke, eu sou doido por você! “Quase caí de bunda, né? Imagina o Drummond dizer que é doido por mim.”. Elke foi escolhida pessoalmente por Humberto Mauro para estrelar o filme escrito por ele, A Noiva da Cidade (1978): “Humberto Mauro é dever de casa”, disse ela em entrevista de 2012 a André Martins Borges. “Falo dele para alguns jornalistas, e eles nunca ouviram falar, imagina! Fui criada na roça e em Volta Grande (onde o filme foi rodado) estava na roça, com pessoas da roça. O ritmo daquelas pessoas... eu não era uma estranha no ninho. Talvez seja isso que Humberto Mauro tenha lido em mim”. 
    “Estou lembrando hoje de uma contemporânea minha do Colégio Estadual de Minas Gerais” – escreveu n´O Estado de São Paulo meu amigo e primo distante (ele lá, eu cá), o cronista Humberto Werneck: “alta, loura de cabelos longos e lisos, linda. Com sua lourice, sua estatura, seu porte desempenado, chamava atenção também por ter nascido na Rússia. Discreta, bem comportada até onde a vista podia alcançar. Tinha a deliciosa manha de arregalar os olhos ao sorrir”. 
    Na madrugada da terça-feira, 16 de agosto, Elke Grunnupp (Leningrado, 1945 - Rio, 2016), a Elke Maravilha, foi “brincar de outra coisa”, como ela dizia ao se referir à morte. A gente se trombou algumas vezes nessa vida, e sempre de forma inusitada. Assim foi, se lhes apetece.
    Havia um debate sobre cinema brasileiro na Faculdade de Filosofia de Cataguases e sua diretora, Marília Cerqueira, convidou a mim e ao cineasta Paulo Martins para compor a mesa. Era aí pelos meados dos anos 1970 e Marília me disse ter convidado também sua amiga Elke Maravilha, que viria do Rio para o debate. Não entendi bem o que a esfuziante Elke, que então brilhava com suas perucas & penduricalhos no Programa do Chacrinha, iria fazer num debate sobre cinema. 
    Realmente, não podia imaginar. Mas ela chegou e logo cativou a todos. E nos deixou – a mim, ao Paulo e a toda plateia – espantados com sua verve, sua espontaneidade, a inteligência de seus depoimentos, a sagacidade de suas opiniões absolutamente pessoais sobre filmes e momentos de nosso cinema que sequer suspeitávamos. Tudo com o largo sorriso explodindo alegria, o sorrir desconcertante daquela ElkErudita. 
    Era dia de semana e os bares e todos os lugares já estavam quase fechados quando o debate terminou. Fora isso, Elke preferia que a gente continuasse o papo, vamos dizer, “cinematográfico”, num lugar tranquilo. Dei ideia de esticarmos prum bar na vizinha Leopoldina, uma parada de ônibus na Rio-Bahia que funcionava 24 horas. Dito e feito. Lembro que nos esprememos num fusca – Paulo, Marília e mais alguém (quem?) no banco de trás; o motorista, eu e Elke no da frente – ela à vontade, pimpona que só ela. 
    Meia-noite já em meio. Nem bem sentamos no bar de Leopoldina, nem bem pedimos a primeira cerveja, quando para um ônibus que ia pro Nordeste e desce aquele mundão de gente. Não deu outra: quando viram a Elke, nem acreditaram. Com aquela risada de quem já se acostumara com aquilo, ela acabou dando autógrafos e mais autógrafos até que o ônibus partisse e logo chegasse outro e mais outro e mais outros autógrafos e mais outros. Nosso papo tranquilo ficou pra algum dia, quem sabe. 
    A gente se encontrou depois, quando eu e Elke dormimos juntos num noite em Volta Grande, ainda nos anos 1970. Quer dizer: juntos, mas separados, se é que me explico bem. Eu havia marcado um café da manhã com Humberto Mauro, para continuarmos uma entrevista que estava fazendo com ele. Na véspera, à noite, eu acabara de chegar do Rio e estava na casa do Joaquim Branco, em Cataguases, diagramando uma edição especial do Totem sobre Rosário Fusco. Foi quando apareceu a Marília Cerqueira e me disse que também iria pra Volta Grande no outro dia, para se encontrar com a Elke, que estava lá filmando A Noiva da Cidade. 
    Dessas coisas que só acontecem em Cataguases, ou comigo em meus tempos etílicos, disse que não só daria uma carona como, quem sabe, poderíamos ir naquela noite mesmo pra Volta Grande: afinal, meu compromisso com Mauro era de manhã cedo. Pois bem, a noite já ia alta quando chegamos à casa que fora alugada pela produção do filme em Volta Grande. Marília dormia no meu carro enquanto eu fiquei na cozinha bebendo (eu levara a garrafa de uísque iniciada em Cataguases) com o saudoso Bola, o eletricista da equipe. 
    Era uma sexta-feira e o pessoal do filme fora pra Além Paraíba, à cata de algum baile, ou coisa que o valha. Só ficara a Elke, que tinha filmagem no outro dia cedo. Lá pelas tantas, Bola percebeu com toda a razão que, já meio encharcado de uísque, eu estava quase dormindo. Foi quando disse que no quarto da Elke havia uma cama sobrando. “Pô, Bola, deixa pra lá, disse eu com a voz pastosa, não vamos incomodar a Elke”. 
    Mas ele insistiu e acabamos batendo na porta. Elke abriu meio que dormindo e soltou aquele característico “Ô, criança, então entra!”. E voltou pra cama. Eu me ajeitei na outra cama e apaguei de vez. Quando acordei, Elke já tinha saído pra filmar e eu também saí apressado pro café da manhã com Mauro e Dona Bêbe. Até hoje não sei como consegui tomar aquele café com leite em meio a toda aquela ressaca. 
    Corta pros anos 1990. Vinte anos depois, eu vim a Cataguases para um Festival de Música e trouxe um casal de amigos, os poetas Cairo e Denizis Trindade, para fazerem uma performance durante a apresentação de minha música. Na volta pro Rio, Cairo lembrou-se que era dia do casamento (um dos) da Elke. O casal era muito amigo dela, que fora inclusive madrinha de seu casamento. Chegamos aí por volta de umas oito da noite ao pequeno apartamento de Elke no Leme – “caindo de kitsch”, absolutamente lotado, não só de convidados como coalhado de fotos nas paredes, aquelas paredes, como ela, também todas em rosa. O casamento começara às duas da tarde. Quem lá já estava, claro, era nossa amiga Marília Cerqueira que, quando me viu, foi logo gritando “Elke, Elke, olha quem está aqui, lembra daquela noite em Volta Grande?”.
    De repente, me vi conversando com um cara com um turbante à la Arafat que me disse ter comprado em Berlim antes da queda do Muro & coisas & loisas talvez do Oriente Médio e de outras plagas – coisas, assim como loisas, que naturalmente não faço hoje a mínima ideia de quais sejam. Lembro que eu filmei nosso papo (Denizis levara sua câmera), mas essa fita se perdeu por aí. Sobraram trechos de outra, filmada naquela noite do casório pela Denizis. Lá pelas tantas, eu e Marília estávamos sentados no chão no quarto da Elke, quando aboletou-se ao nosso lado o noivo, um rapaz muito jovem, que me disse, assim como se falasse do calor, do mar azul e de outras amenidades: “Que mundo estranho! Sabe que eu já tive a Elke na ponta de minha mira? Eu era atirador de elite do exército e uma vez fui comandado a vigiá-la do alto de um prédio”. 
    “Nossa!”, pensei eu com meus parcos botões – na verdade, nenhum. “O que a Elke está fazendo com esse cara?”. O noivo saiu do quarto, Elke chegou e sentou-se ao nosso lado e ficamos falando qualquer coisa, assim sobre tudo, nada e amenidades afins. A madrugada rolando, aí pelas três, quatro, qualquer coisa assim. Ela sempre rindo muito, eu me perguntando aonde ia dar aquele casamento. De repente, assim sem mais nem menos, Elke trancou a cara e se levantou com suas botas cor-de-rosa, suas roupas idem, seus cílios, sua peruca ibidem, alta, muito alta, mais alta agora, quando eu a via em contra-plongée. 
    Abriu a porta do armário e começou a tirar roupas e mais roupas e, por fim, uma valise. Saiu do quarto e voltou em seguida com o noivo: “Pega tudo e some daqui, seu safado”. O que houve, o que não houve? Não sabíamos, não soubemos jamais. O noivo pegou tudo, jogou de qualquer jeito dentro da valise e sumiu cabisbaixo. Foi assim, como se não acontecesse, o dia-noite do simultâneo casamento-descasamento de Elke. Maravilha pura. 
    Em 1997, nas festividades do Centenário de Humberto Mauro em Cataguases, foram exibidos vários filmes do cineasta, sempre precedidos de um debate e sempre com o Edgar Cine-Teatro lotado, para surpresa do meu saudoso amigo Paulo Cesar Saraceni, que me disse ter chorado mais de uma vez durante a exibição de Ganga Bruta. Eu fui o apresentador e mediador desses debates, e me lembro que a Elke apresentou um deles junto comigo. Um par pura maravilha. Elke enorme como sempre, do alto de suas botas estilo chacrete, bem-humoradíssima, o eterno sorriso largo e solto. Eu, recolhido à humildade de meus parcos metro e sessenta e quatro acima do nível do mar, meu recorde até então e até hoje. Mas também descontraído: brincávamos com a plateia como se estivéssemos em casa. 
    E tivemos que brincar por um bom tempo, descontrair também o (in)distinto público (os spots impediam que o enxergássemos bem), aguardando a atriz Bete Mendes, atrasadíssima para o debate daquela noite. Foi quando nos informaram que ela estava numa cachoeira das redondezas, daí o atraso. Elke deu uma risada e uma píccola alfinetada: “Pois é, já que é Centenário do Humberto Mauro, ela levou a sério a máxima dele: “Cinema é cachoeira”. O público caiu na risada. Foi a última vez em que estive com ela. 
    “Não sou dramática, mas trágica. O trágico não chora, pranteia”, disse ela um dia pro Abujamra em seu programa “Provocações”. Imagino – agora que Elke se foi – o sentimento todo, o imenso pranto de sua grande amiga Marília Cerqueira.

1 de set de 2016

Branco nas entrelinhas

    No próximo dia 6 de setembro em Cataguases, a partir de 18 horas, o poeta-professor Joaquim Branco lança na Casa do Livro (Av. Astolfo Dutra, 25), sua nova obra, “Entrelinhas”. É no branco das entrelinhas, em suas pequenas pausas, que o texto literário sugere imagens, significados que se incorporam ao pensamento do leitor. No branco que “fala”, na força desse branco muito bem sacado no livro de Joaquim. Como ele mesmo diz, no texto de abertura: “Entrelinhas são veredas deixadas pro um autor para que o leitor se introduza na sua obra e até contribua a seu modo, percorrendo caminhos ainda não navegados”.
Todo texto literário se aninha nas entrelinhas. É ali que ele “fala” com o leitor, polissemicamente. Então, é um achado o título deste livro, que diz desde a capa ao que vem. Diz, numa só palavra, tudo que o leitor nele irá encontrar. Pois é nas entrelinhas, no “parar para pensar”, que o leitor se vê frente à frente com as pensatas do autor – é dali que surgem à tona, que emergem os recônditos, as profundezas de cada texto. Erudito, intelectual de primeira ordem, Joaquim Branco desenha aqui um mapa, traça as veredas literárias de grandes autores, do Brasil e do estrangeiro. Veredas, palavra certa. Palavra-símbolo de Guimarães Rosa, umas das preferências literárias de Joaquim (ao lado de Jorge Luis Borges e Kafka), e que é abordado em quatro dos textos do livro.
Um livro capaz de ousadias e descobertas, como comparar – e até inverter, entrecruzar – lírica e antilírica na obras de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, dois poetas pernambucanos, mas aparentemente tão distantes.  E tornar às avessas o lirismo de Bandeira, que se faz despojado, concreto; e o poema a palo seco de Cabral, de repente eivado de lirismo. Achados que Joaquim nos oferece em poemas/fragmentos como aquele Bandeira “concretista” de “a onda anda/ aonde anda/ a onda?// a onda nada/ ainda onda/ aonde? aonde?// a onda a onda”. Ou um Cabral subitamente lírico: “(...) Pois, assim, no telefone/tua voz me parecia/como se tal manhã/estivesses envolvida,/fresca, e clara, como se/ telefonasses despida,/ ou, se vestida, somente/ de roupa de banho, mínima”.  E nessas abordagens – o lirismo em foco, por exemplo – Joaquim Branco, em parágrafos paradoxalmente secos e curtos, traça um conciso panorama do lirismo ao longo dos tempos. Uma aula de um poeta que sabe o que fala, coisa de grande professor.
Mas o texto literário só funciona em sua plenitude quando conta com o feedback do leitor. Leitor-autor “em processo”. E Joaquim aqui nos remete a Borges: “a parte que cabe ao leitor é tão importante quanto a do escritor, pois pertence a ele a fase de consumação (e do consumo) da obra de arte”. Que, por sua vez, nos leva a Hans Robert Jauss (1921-1997) e Wolfgang Iser (1926-2007), fundadores da Estética da Recepção, escola que desenvolveu no pós-guerra alemão uma noção dinâmica do leitor, ouvinte ou espectador como fator essencial à constituição da obra de arte. Dizia Jauss: “para que a literatura aconteça, o leitor é tão vital quanto o autor”.
    Nesse “jogar com o leitor”, o livro de Joaquim Branco é enriquecido com abordagens de jovens autores cataguasenses, como “O Homem Interdito”, de Marcelo Benini, ou dos livros “Beirais das Gerais”, do fotógrafo “portuguases” Henrique Frade, com texto de Leonardo Magalhães Gomes, e “umÁrvore”, de Fernado Abritta. Também do sempre presente Rosário Fusco, de Ascânio Lopes, ou de outros autores que andam meio esquecidos – e cuja obra é bom relembrar, como o também “verde” Camilo Soares, os poetas Henrique Silveira e Delson Gonçalves Ferreira (“A lua/varre a rua/com sua vassoura/de luar.//Bem devagar.//Numa teia, uma aranha/estranha/a lua cheia”), ou a grande poeta e romancista Lecy Delfim Vieira: “Precisarei de alimento, água bússola, companheira./ – será que não há no mundo quem queira comigo ir? – inda que não olhe meus olhos/ inda que vá por partir/ – Fundarei o céu e a terra só pra ter aonde ir”.
Fora isso, “Entrelinhas” nos oferece excertos de autores do calibre de Hemingway, Charles Dickens, Allen Ginsberg, Daniel Defoe, Emily Dickinson. Sem esquecer, é claro, os já citados Guimarães Rosa, Franz Kafka e Jorge Luis Borges. O livro de Joaquim Branco é um vasto espaço para o leitor se deleitar. Mas não para “se deitar”. Cabe a ele, leitor, “trabalhar” esses textos com vagar, deles se apossar com todo o direito e, de repente, perceber que pode também ser o autor escondido nas entrelinhas.




8 de jul de 2016

Poeta de Placa



   
 


   Em 1961, aos 40 minutos do primeiro tempo de um histórico Santos 3 x 1 Fluminense no Maracanã, Pelé recuou e recebeu um passe de Dalmo na intermediária. E deu início ao que foi, para muitos, o lance mais bonito já visto naquele estádio. O Rei arrancou, superando na caminhada Pinheiro, Clóvis e Altair. Diante da chegada de Jair Marinho, colocou a bola, com categoria, no canto direito, longe do alcance do goleiro Castilho. O jornalista Joelmir Beting, ficou tão impressionado que mandou fazer uma placa de bronze para colocar no saguão do Maracanã, com os dizeres: "Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã". Desde então, todos os gols marcados com rara beleza são intitulados "gols de placa”.
   Que me perdoe meu filho Pablo – Fluminense doente –, mas não é que há poucos dias também eu ganhei uma placa, mesmo não jogando contra o Flu? No último dia 30 de junho, recebi das mãos do Prefeito de Viçosa, Ângelo Chequer, uma bela placa, concedida por ele, pela Secretária de Cultura, Cíntia Fontes Ferraz, e pelo Presidente do Conselho de Cultura e Patrimônio Cultural, José Mário Rangel, com os dizeres: “Ao poeta Ronaldo Werneck, a homenagem do povo de Viçosa por sua participação na 3ª Feira do Livro do Colégio Nossa Senhora do Carmo, nas comemorações do centenário do Educandário”. Ora, por quem sois! De qualquer modo, a partir de agora, meu filho, papai é um “poeta de placa” – o que quer que isso signifique.


 
  Brincadeira à parte, não esperava por isso, nem pela placa me homenageando nem por toda a gentileza e carinho com que eu e minha mulher Patrícia fomos recebidos por todos em Viçosa. Convidado pelas Irmãs Sonia Maria Stevan, Diretora Presidente do Colégio Carmo e pela Irmã Marina, Diretora Financeira do Educandário, por intermédio de meus amigos José Luiz Lopes Gomes, promotor do Festival de Cinema de Visconde do Rio Branco, e pelo advogado e professor Vicente de Castro, editor do Jornal Revista Tá na Cara, chegamos a Viçosa com o propósito de eu fazer uma palestra para os alunos do Colégio, dentro das festividades de seu Centenário. Como fomos direto da Flip, em Paraty, acabamos dirigindo por mais de 500 km e chegando a Viçosa já com a noite do dia 30 iniciada – e não tivemos tempo de assistir à entrega da Comenda recebida por meu amigo Vicente na Câmara Municipal, em homenagem aos seus estudos sobre seu conterrâneo, o compositor Hervé Cordovil. 
   Pois é, eu virei o “Poeta de Placa” e ele passou a ser o “Comendador Vicente”. Nascido em Viçosa, Hervé Cordovil ficou famoso por suas músicas “Sabiá lá na Gaiola” e “Vida de Viajante”, em parceria com Luiz Gonzaga. E também pela versão de “Biquini de Bolinha Amarelinha”. Engraçado lembrar-me disso, pois exatamente no último dia 05 de julho – olhaí, “Comendador Vicente” – o bikini virou setentão, já que foi lançado em 1946. Pois é, aquele reduzido maiô de duas peças – depois tanga, invenção de minha amiga, a designer Inês Mynsen; depois asa delta; e finalmente fio dental – hoje sequer notado, causou escândalo na época e seu explosivo nome deve-se ao atol de Bikini, no Pacífico, onde eram realizados testes com bombas nucleares. 
 
  Não assistimos à entrega da Comenda, é bem verdade, mas chegamos a tempo do jantar que nos foi oferecido, onde recebi a placa das mãos do Prefeito Ângelo Chequer. No dia seguinte, ciceroneados pelo “Comendador” e por José Luiz, visitamos o Colégio Carmo, onde fomos recebidos pelas Irmãs Sonia e Marina. Ali, acompanhados pela professora de biologia Adriana, estivemos no Laboratório, onde nos chamou a atenção um pequeno universo para criação e estudo de formigas – todo um mundo homogêneo, perfeitamente articulado, de causar inveja aos humanos. Depois, o Jardim da Ciência, uma grande área com Estação Meteorológica e um Relógio do Sol. E, na sequência, todo um mundo vegetal: cactos, mandacarus, pau-brasil, pitaia, toranja & otras cositas más, que o José Luiz, que é agrônomo, e também a Patrícia, expert no universo rural, saberiam descrever com mais propriedade do que este “Poeta de Placa”, mas infelizmente néscio das vegetabilidades desta vida. Parte do sucesso do Colégio Carmo, esse contato com o “mundo ao vivo”, à parte a mera teoria ensinada em sala de aula, tem permitido aos alunos do Educandário ótimas colocações nos exames vestibulares.
    Manhã de sábado, 02 de julho, tempo da palestra, lançamento do meu livro e da exibição de um curta que realizei sobre o cineasta Humberto Mauro. Confesso minha preocupação inicial ao ver o público que iria me assistir, pois ao lado de professores e pais, havia uma grande e inesperada quantidade de alunos do Carmo, não só adolescentes como também ainda mais jovens. Em minha fala, intitulada “O poema como ofício”, eu abordava poetas como Ezra Pound, Mallarmé, Rimbaud, os nossos Drummond e João Cabral, além de até mesmo dizer um poema da polonesa e Prêmio Nobel Wislawa Szymborska. Qual o quê! Os “meninos” prestaram grande atenção ao que eu dizia, muitos deles anotando tudo. Ao final, vários deles vieram me pedir autógrafos, não só no livro que adquriram, como também em singelos papeizinhos – e todos querendo tirar fotos comigo, imagina! Isso tudo me deixou, confesso, atônito-emocionado. Mas me mantive firme e cordato, como “sói acontecer” com um verdadeiro “Poeta de Placa”.

5 de jul de 2016

Cine Humberto Mauro em Cataguases


  Coisas de cinema. De salas de cinema. Leio dias desses num jornal de grande circulação que numa cidade do Estado do Rio (qual? Qual? Ó memória que “se escapa-me” – epa, epa, que elocução mais “temerária”) está para acontecer o impensável: uma das igrejas da localidade será fechada e, em seu lugar, aberto o novo Cine Humberto Mauro. Como diz minha filha Ulla, isso é uma coisa do rol das “ina”/creditáveis. Aqui na terra dele, do próprio Humberto, que só nasceu nos arredores de Volta Grande por acaso – pois seu lugar na história de nosso cinema ficou reconhecido mesmo como Cataguases, onde rodou seus primeiros e seminais filmes –, pois é, aqui na terra dele, o Cine Edgard está como está, nem cá nem lá.
Há coisa de sete anos, fizemos um pequeno filme, “Regard Edgar”, que se encontra disponível no Youtube(https://www.youtube.com/watch?v=1QHcWQNTm2o) onde, já naquela época, lutávamos pela preservação e manutenção do cinema como tal. Isso posto, ou por supuesto, lembrei-me então de uma crônica que está em meu livro Há Controvérsias 2. Como o livro está esgotadíssimo, “republicá-la-ei” (epa, epa!) aqui, mesmo porque a multidão de meus jovens e ávidos leitores (dois ou três, é bem verdade) não deve ter conhecimento da bendita cuja. 
Pois é, coisas de cinema. De salas de cinema. O Edgard Cine-Teatro já foi Cine-Cataguases e era chamado de Cinema Novo para não confundir com o velho Cine Machado lá na diagonal da praça Rui Barbosa. Quer dizer, o cinema novo brasileiro, é claro, começou em Cataguases. E onde mais, se foi ali que o jovem Humberto Mauro, o “pai de nosso cinema”, viu seus primeiros filmes na década de 1920, na charmosa sala do Cine-Theatro Recreio (ou Cinema Recreio Cataguazense)?
Coisas de cinema – e nada mais justo que agora eu saia numa campanha ainda solitária, mas que espero logo “acompanhadíssima pelos cinéfilos cataguasenses”, quer dizer, por todos os cataguasenses, que somos todos cinéfilos inveterados, né mesmo? Enfim, uma campanha para que se denomine “Sala Humberto Mauro” à sala de projeção do “Edgard”.  Como é que Cataguases ainda não tem uma “Sala Humberto Mauro”, se até a capital, imaginem, até mesmo BH já possui a sua, como a do cinema do Palácio das Artes, entre outras? 
Vamos em frente. Melhor, para trás. Para as salas de cinema da Cataguases dos anos 50, as que eu conheci. Havia um pequeno cinema ali na pracinha da antiga Fábrica Irmãos Peixoto, não me lembro bem o nome, acho que o sala era do pessoal do Hotel Pires. Os que eu frequentava mais eram o cinema do Nelo e o Barracão, onde os Cunhas projetavam as fitas enquanto construíam o prédio do novo cinema em frente, ali no terreno baldio onde seria o prédio de A Nacional. Antes ainda, o Cine-Teatro Machado, ou nome parecido, o cinema do Seu Nelo, o nosso “Nelascópio”, onde agora é o Centro Cultural Humberto Mauro.
Nos 1950, havia no Nelascópio um corredor, hoje Galeria Zequinha Mauro. No meio dele ficava a bilheteria do cinema. Nelo Machado, o próprio, fazia às vezes de bilheteiro, entre outras coisas.  Costumava também “operar” na cabine de projeção: quando o filme era muito longo, o Seu Nelo, “pulava” um ou dois rolos para ir logo dormir, pois acordava cedo pra “conferir o leite de sua fazenda”. Ninguém nunca reclamou: nos anos 1960, o “Nelo” às vezes passava fitas de “arte”, quase sempre europeias. E sabe como é, “cinema europeu é assim mesmo, ninguém entende direito, coisas da vanguarda”.
Pois então, anos 1950, seu Nelo-bilheteiro. Eu segui ali todo o seriado “Perigos de Nyoka”, minha heroína de peripécias e escaramuças contra beduínos, tuaregues e vilões de vários quilates. Dia do último capítulo, era o primeiro da fila. Eu e minha moedinha para compra do ingresso. À minha frente, o seu Nelo, aguardando para abrir. Atrás, a multidão de meninos aguardando pra ver como Nyoka iria se safar (o penúltimo capítulo terminara com ela caindo num poço-elevador, cheio de lanças de aço que subiam ameaçadoras contra o seu corpo).
Eu brincava com minha moedinha jogando-a pro alto. Não deu outra: ela escapou de minhas mãos e rolou pra trás do Seu Nelo. Que não se fez de rogado: não deixou de forma alguma que eu a pegasse, mesmo comigo dizendo (e todos os meninos confirmando): “olha lá, Seu Nelo, tá ali, atrás do senhor”. Até hoje não sei o que aconteceu com Nyoka. Muitos anos depois, acabei escrevendo o roteiro de um filme (é claro, chamava-se “Perigos de Nyoka”) onde procurava desvendar o que teria acontecido com minha “ídala”. Coisas de cinema, de incidentes que fazem filmes. Mesmo os que não foram feitos.
Agora de volta ao Edgard, o antigo Cine-Theatro Recreio, o Cine-Cataguases dos anos 1950 e de tantas histórias. O cinema e o Seu Edgard. Ah, o Seu Edgard! Sua casa na Rua Dr. Sobral era vizinha da casa do papai. Tarde de sábado, eu fumando na janela, Seu Edgard com seu cano de borracha regando a calçada. Chega o Coelho, mestre-de-obras (e “pau-para-todas”) da construção do novo cinema. Chega e vai logo dizendo: “Seu Edgard, hoje é sábado, tem baile no Rancho Alegre, o senhor pode me adiantar cinco mil réis?”. Seu Edgard, reconhecida e providencialmente surdo, continua a olhar o molhado infinito da calçada. Nem aí pro Coelho. Afinal, surdo é surdo. Coelho insiste: “Seu Edgard, hoje é sábado. Baile no Rancho Alegre. Pode me arrumar dez mil réis”. Vira-se pra ele o Seu Edgard, como se o visse pela primeira vez: “Uai, era cinco e agora é dez?”. Trago e tusso, sufocado pelo riso.
Esse o Edgard, aquele o Nelo. Cinemas que se foram. Nada mais justo agora que o Edgar passe a se chamar Humberto Mauro. “Ué, era Edgard, agora é Mauro”? Quer dizer, a sala de cinema. Que poderia ser inaugurada, inclusive com um dos filmes de Mauro recentemente restaurados pelo CTAv/Funarte. Acho que não há controvérsias, só faltam os devidos “trâmites legais”. Ou coisa (a)parecida.

Cataguases/ 2001 – Do livro “Há Controvérsias 2”

23 de mai de 2016

Cauby! Cauby!


 A recente morte de Cauby Peixoto me fez lembrar a canção que Caetano Veloso escreveu para ele, e que foi título do álbum gravado  em 1980: “Lembro eu deitado na relva/ No frio da manhã/ Numa clareira da aldeia Tupy/ Entre mil pássaros só uma voz/ Uma voz, minha mãe/ Música doce/ Chamando meu nome/ Cauby!  Cauby! “. Lembrei-me também de “Bastidores” a canção de Chico Buarque, aquela do “Cantei, cantei/ Nem sei como eu cantava assim/ Cantei, cantei/ Jamais cantei tão lindo assim” – um de seus carros-chefe. E, claro, “eu me lembro muito bem”, e sempre, de “Conceição”, a música de Dunga e Jair Amorim por ele imortalizada.

   Em meu livro “Há Controvérsias 2” (Ed. Artepaubrasil, São Paulo, 2011), publiquei duas crônicas tendo como mote Cauby Peixoto, ou melhor, um dito ao acaso de minha irmã sobre ele. A tirada da Rosa acabou gerando os dois textos. Um deles, sobre pessoas que brilharam, que “arrasaram” em seu métier; outro, ao contrário, sobre o pessoal que “se ofuscou”, pisou na bola – literalmente aqueles que “desarrasaram”.  Na segunda-feira, 25 de abril de 2012, véspera do lançamento do livro em São Paulo, li que Cauby iria cantar no Bar Brahma, onde às vezes vou quando estou em Sampa, ali naquela esquina famosa da Ipiranga com a Avenida São João. Resolvi assistir ao show e aproveitar para levar um livro pro Cauby, afinal ele era um dos personagens do dito cujo. Mas Cauby acabou não aparecendo e quem fez o show foi Elza Soares – que, aliás, e como sempre, “arrasou”.
      Havia muito tempo que não o via, desde uma noite no Rio dos anos 1960 em que saímos de sua boate, o Drink, na Av. Princesa Isabel, e caminhamos – eu, Cauby e o baterista Afonso Vieira (que tocara com ele) madrugada afora até a porta de seu edifício no início da Rua Barata Ribeiro. Cauby morava nas proximidades de onde eu e Afonsinho nos “escondíamos”: no Edifício Richard, o famigerado “200”. Ele acabara de fazer magnífica performance, cantando standards do jazz numa jam-session no final da noite, e foi sobre isso que nós três ficamos conversando de pé ali, e noite adentro – Cole Porter, Gershwin e mais, muito mais – num tempo em que ainda se podia papear sem medo nas calçadas de Copacabana. Eu com o pescoço doendo de tanto olhar pra cima: o “professor” (como Cauby tratava as pessoas, qualquer pessoa) era alto, muito alto. De entortar qualquer pescoço.
Nunca mais o vi. Minto, passaram anos muitos anos quando num show do Marcos Valle naquela boate que ficava no subsolo do Hotel Méridien, depois que a Regine´s acabou (como era mesmo o nome? Acho que “Rio´s”, mas há controvérsias), percebi na mesa à minha frente, em meio ao lusco-fusco, o perfil da moça com muito chiquê, de longos cabelos ondulados, que tentei lembrar de onde conhecia. Súbito, ela se virou ligeiramente. Levei um susto: era o Cauby – ele que gostava de brocados, lamês & paetês e que sempre, dentro ou fora dos bastidores, “com muito brilho se vestiu”.  
  “Sim, eu me lembro muito bem” – assim começa uma das duas crônicas que escrevi sobre o Cauby. “O aniversário da Rosa estava acaba-não-acaba quando ela colocou para girar um disco com não sei quem cantando. Possivelmente a Elis, até hoje a preferida de minha irmã. A turminha começou a nomear seus cantores/cantoras preferidos, quando alguém tocou no nome do Cauby Peixoto. O pessoal caiu de pau no coitado do Cauby: ridículo, cafona, um repertório que vou te contar. Foi quando a Rosa mandou de lá: “É, pode ser, mas o Cauby arrasou na Conceição”.  Nunca vou me esquecer daquele “Arrasou na Conceição”, uma tradução mais que perfeita da grandeza de qualquer um, artista ou não, mesmo quando ataca da “Conceição”, aquela que “vivia no morro a sonhar com coisas que o morro não tem”.
A seguir, eu continuava elencando nas duas crônicas e por vários parágrafos uma série de “arrasos na Conceição”, de Ella Fitzgerald a Elis; de Cole Porter a Tom Jobim; de Jeanne Moreau a Giulieta Masina;  de Truffaut a Fellini; de Nara cantando Lindoneia a Gal cantando Lily Braun; do show de Caetano para Fellini, em Rimini, ao mesmo Caetano de Força Estranha e do álbum Transa; do Vinicius do poema O Haver ao Maiakóvski de A Plenos Pulmões; do Lance de Dados de Mallarmé ao Barco Bêbado de Rimbaud; do João Cabral de Duas Águas ao Drummond de Elegia 1938; do Ungaretti de Mattina ao Keats de “A thing of beaty is a joy forever”. E também de “desarrasos na Conceição”: J. Edgard Hoover, o chefão do FBI, dando uma total “desarrasada na Conceição” ao falar sobre John Lennon: “Não há espaço nos EUA para algumas almas tímidas que pregam a paz a qualquer preço, nem para aqueles que entoam os slogans ´antes comunista que morto´ (better red/ than dead). Precisamos de homens e mulheres com capacidade para a indignação, para defender a causa da democracia”.
Mais tarde Hoover foi rebatido por Gore Vidal: “(...) Lennon era um inimigo nato das pessoas que governavam os EUA na época. Ele era tudo que eles odiavam. Eu diria que ele representava a vida, o que é admirável. E Nixon e Bush (e Hoover, acrescento) representavam a morte. E isso sim, é uma droga”. Em 1976, com Nixon já defenestrado do poder, Lennon ganha a causa e recebe o Green Card. Perguntado se tinha algum ressentimento, John arrasou geral na Conceição: “Não, acredito que o tempo se encarrega dos patifes”. Poderia acrescentar, hoje, que os senadores Lindeberg Farias e Vanessa Grazziotin andam arrasando na Conceição, em descompasso com Cunha & Temer, um só e tenebroso “desarraso”.
Termino esses “recuerdos de la Concepción” reproduzindo o parágrafo final de minha primeira crônica sobre Cauby in “Há Controvérsias 2”: “Madrugada dos anos 60: Copa-Leme. Antes de chegar em casa – vindo não sei de onde, nem sei como –, entro prum último drink na boate do mesmo nome, dos irmãos Araken, Moacir e do não menos Cauby Peixoto, o próprio. Fim de noite, fim de show, derradeiros bêbados em mesas separadas, garçons sonolentos, lusco-fusco. No palco, alguns dos músicos que restaram abrem uma derradeira jam-session: meu caro amigo Afonsinho na bateria (sua bateria, aquela “Conceição” que ele arrasava sempre), o jazzista Moacir no piano. Cauby acabara seu show, onde Conceição naturalmente fora a estrela. Copo na mão, cigarro na outra, volta ao palco e entra no embalo do improviso. Ataca de Cole Porter, sempre ele, um formidável I´ve Gotta You Under My Skin. Aquilo inoculou em minhas veias uma inesquecível sensação. Nunca mais ouvi nada tão intenso. Ali foi quando, sem o saber, Cauby realmente “arrasou na Conceição”.



10 de mai de 2016

Rosário Fusco:um espetáculo


Rosário Fusco de novo e sempre. Após publicar uma série de crônicas sobre a entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com o escritor, que saiu no Pasquim há quarenta anos, lembrei-me de um texto que escrevi também nos anos 1970 e de que Fusco gostava muito. Ele foi publicado em 1985 no livro “Marginais do Pomba”. Editado por Fernando Cesário, Joaquim Branco e por mim, “Marginais do Pomba” era uma antologia de textos de vários escritores cataguasenses, dos Verdes dos anos 1920 ao grupo da Revista Meia Pataca, anos 1940; daí ao pessoal do Totem, década de 1960, chegando aos então novíssimos dos anos 1980.
Como aqueles imponderáveis personagens do realismo fantástico (evoé, Fusco!), também o personagem do meu texto-entrevista (verdadeiro? fictício?) repetia sempre o seu bordão “eu sou um espetáculo”, como se vírgula fosse. A partir daí, Fusco não podia me ver sem bradar do alto dos seus metro e oitenta: “eu sou um espetáculo”. Era mesmo: não o meu personagem, mas o próprio Fusco. Meu texto vai a seguir, como mais uma homenagem ao meu espetacular amigo Rosário Fusco de Souza Guerra.


RINGO NÃO DISCUTE: MATA
 Três indivíduos armados com metralhadoras penetram em uma agência bancária no interior do Rio Grande Sul e rendem o gerente. Sorrateiramente, o guarda do banco saca seu 38 carga dupla e com o braço colocado às costas – no melhor estilo dos caubóis – liquida de uma só vez os assaltantes.
Assim Luiz Mendonça, 37 anos, solteiro, guarda bancário e fotógrafo amador, explica o cognome de Ringo. Onze mortes nas costas (“mas pela frente”), inclusive um goleiro do Coríntians (“eu era centroavante do Santos”), morto com potente tirambaço (“a pelota bateu na trave e acertou nas costas, bem nos rins: morreu na hora”).

Traído pelos coronéis
Ringo é do interior de Minas, filho de índia com espanhol (“mas eles gostam de ser brasileiros”). Foi tropeiro, carregou caminhões de terra, cortou bambu para fábrica de papel. “Meu passado é muito triste, sou um humilde, um humilhado. Mas sou um espetáculo”.
Aos 20 anos entra para a polícia em Belo Horizonte e acaba indo para o Rio Grande do Sul com o SEG (Serviço Especial de Guarda), “na captura de bandidos”. Pelo sim, pelo não, terminou expulso após longa temporada num Hospital Psiquiátrico. Dezessete vezes tratado a choques elétricos. “Fui traído pelos coronéis”.
Fotógrafo de polícia, fazia reportagens com Pio XII, “o Amaral Neto da época”. Aprendeu sozinho: “sou um burocrata formado, um autodidata fotográfico. Faço reportagens e os clientes não pagam. Mas não sou moleque: jamais bato flash sozinho para enganar a freguesia. Sou profissional honesto e positivo. Eu sou um espetáculo”.

Um espetáculo
Nove horas da noite num botequim do interior de Minas. Cabelo à francesa, literalmente penteado pra frente, camisa vermelha com bolotas brancas, terno de linho branco com bainha dupla, imensos óculos escuros cobrindo quase metade do rosto, máquina fotográfica a tiracolo, Ringo rides again.
Entre um chope e um conhaque, e outro, e outros, fala de sua ida à Europa, Oliúdi & adjacências, acompanhado o indefectível Pio XII, “um espetáculo, o maior repórter que já existiu”. Relembra um campo de nudismo que fotografou: “Uma pouca vergonha. Não ignorei a pátria deles (Oliúdi?), mas ela é porca. Não é como o Brasil, onde vivemos prazerosamente e a amizade é total. Aqui não existe covardia. Melhor do que o Brasil só Deus. Mas sou internacional”.

Sexual masculino
       Para de repente, leva um cigarro à boca, acende-o à maneira dos mocinhos de cinema, riscando o fósforo com uma só mão, e emenda de um jato, quase sem respirar: “Sou um infeliz no mundo. Mas sou muito honesto. Dou muita falta de sorte com as mulheres. Fui noivo, mas casamento não é pra agora, é pra hoje ou amanhã. Mulher é mulher: namorada dá dor no saco. Incha. As mulheres são comerciais de acordo com a frequência do sexo masculino”.
    Solta a fumaça, esvazia o corpo, estende o indicador e completa solenemente: “Mas eu frequento o feminino. Sou um sexual masculino. Sou um cara psicológico, um espetáculo”.
      A vitrola do botequim ataca de Roberto Carlos, mas Ringo rebate de sola: “Esse cara não é bom, bom mesmo é o Waldick Soriano. O Waldick é um grande patriota, como o Presidente João Figueiredo: amou, cresceu e lutou pelo Brasil. Já o Pelé é patriota em despedida. Jango, não sei, foi traído. Mas JK era um bom patriota, como o Getúlio, que foi um espetáculo, o dono do Brasil. Tudo que o Brasil faz é bom porque tem progressão. A democracia sou eu. Amo a terra em que vou morrer.”

Deixa comigo
    “Quando era menino, meu pai me deu uma chicotada por causa de um boi. Mamãe me protegeu. Papai me abandonou no mundo. Gosto muito da mamãe. É uma piranha, mas gosto dela: é mulher patriota, um espetáculo.
     “Meu revólver é silencioso e sou rápido como o Ringo. Puxo mesmo o gatilho. Mas me arrependo das mortes que fiz, é um horror a minha vida. Dormindo, as mortes me sobem pelas pernas, como minhocas. Sou mau, mas não faço maldade. Deus não deixa. As boas amizades é sempre a mim, entanto a maldade não existe entre ambos (põe aí – ambos: plural). Meu passado total é uma tristeza. Sou muito psicológico, eu sou um espetáculo.”
      Nessas alturas, já de porre, Ringo cisma que o dono do botequim está nos olhando de soslaio. Tira os óculos e diz, tão solene quanto lhe permite a voz pastosa: “Deixa comigo”. E dá de alisar a cintura. Percebo que o famigerado 38 esta sob o paletó. Realmente, uma loucura. Só a custo consigo retirar nosso herói do chamado recinto. Ringo some dentro das pradarias da meia-noite, o andar gingado, de caubói bêbado. Um espetáculo cambaleante e para sempre. 

27 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 7: Nada vale nada com algemas

Como bônus à série de crônicas sobre a entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontra-se a seguir o famigerado e “impublicável” (pelo menos na época da entrevista) poema “Edital de Demissão e Ponto”, que pertence ao livro de poemas inédito “Creme de Pérolas”. 



Edital de Demissão e Ponto
Entre suas pernas...
se avança o céu dessa estranha boca,
pálida e rosa, feito a concha marinha
Mallarmé
                                                            ... És como a hóstia consagrada no altar:
                                                 realçada por um corte ritual escarlate
                                                                                                   Saint-John Perse


Meu caro poeta:
meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.

O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira, à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.

Erra,
quem pensa
que as palavras valem
hoje em dia
— pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.

São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.

Mede-se a gestação do feto
pelo reto,
como se mede o tempo da trepada
ou da correspondente dor de corno
oriunda
                                                 de vero pendor
por bunda ou impossibilidades tais:

mula/ cistite/ colicistite/ cálculos renais
brochura/ ou câncer/ou cancro no pau.

Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam

o pai/ a mãe/ o irmão/ a irmã/a tia
o tio/os avós/ os vizinhos/ amigos
compadres/comadres/parentes
ou conhecidos gerais, mas,
sobretudo

o teu gorgeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.

Só que
o morcego recebe o ar
dos cosmonautas
...mas sem piar.

Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.

A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
                               omite
                               e
                              demite poetas.


Não tens mais,
como ofício ou serviço,
do que captá-la ou emiti-la pelo(a)

suor/ hálito/ saliva/ mijo/ bosta
soluço/ suspiro/ riso/ porra
lágrima/ masturbações/ peido

mau pensamento
ou arroto na escala das afecções
ou de orduras exportáveis:
do corpo
e da alma.

Não sê mais escroto
ó cantor do perecível
e limitado
                 – pelo quadrado
                              sem raiz
                                   do mundo em liquidação.

Nas futuras próximas galáxias
a ser defloradas
e já quase ao alcance de tuas mãos
veremos,
prezado,
se ainda terás vez.

Não havendo mais segredo,
Dona Inês.

Nem mistério,
nem flor de verdade,
és a pura e simples terceira matéria
metida a sebo no planeta formi-plástico
até que a quarta te destrua

no quarto ou no refúgio anti-aéreo
                                       bomba
aguardando a sexta
                          feira aziaga ou a cesta
em que Deus, puto da vida,
no mindinho
                         globo celestial
pra refugá-lo no
                            grenier:
                                          voilá.

               Por inútil
               fútil
               inconsútil
uma vez que és à semelhança dele...
               — de araque,
                    sua besta.

Se cantas empós de boceta,
ou a fim de punheta,
faz um filho na proveta:
                porque, verso,
qualquer robô já faz.

Zipe na boca, rapaz,
— não poetisa mais.

Repito:
— meta a viola no saco,
                se é que inda tens saco
                ou gana de meter
(do verbo enfiar algo em algum lugar).

Pois-pois
meta em ti mesmo o
resto de pica que tiveres,
se tiveres,
na boca,
no cu
ou nos dois.

Depois...
silencia.

                   Passarinho atolado na merda
                   não janta:
                   — nem canta.


Rosário Fusco

De Creme de Pérolas,
1972 (inédito)