27 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 7: Nada vale nada com algemas

Como bônus à série de crônicas sobre a entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontra-se a seguir o famigerado e “impublicável” (pelo menos na época da entrevista) poema “Edital de Demissão e Ponto”, que pertence ao livro de poemas inédito “Creme de Pérolas”. 



Edital de Demissão e Ponto
Entre suas pernas...
se avança o céu dessa estranha boca,
pálida e rosa, feito a concha marinha
Mallarmé
                                                            ... És como a hóstia consagrada no altar:
                                                 realçada por um corte ritual escarlate
                                                                                                   Saint-John Perse


Meu caro poeta:
meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.

O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira, à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.

Erra,
quem pensa
que as palavras valem
hoje em dia
— pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.

São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.

Mede-se a gestação do feto
pelo reto,
como se mede o tempo da trepada
ou da correspondente dor de corno
oriunda
                                                 de vero pendor
por bunda ou impossibilidades tais:

mula/ cistite/ colicistite/ cálculos renais
brochura/ ou câncer/ou cancro no pau.

Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam

o pai/ a mãe/ o irmão/ a irmã/a tia
o tio/os avós/ os vizinhos/ amigos
compadres/comadres/parentes
ou conhecidos gerais, mas,
sobretudo

o teu gorgeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.

Só que
o morcego recebe o ar
dos cosmonautas
...mas sem piar.

Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.

A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
                               omite
                               e
                              demite poetas.


Não tens mais,
como ofício ou serviço,
do que captá-la ou emiti-la pelo(a)

suor/ hálito/ saliva/ mijo/ bosta
soluço/ suspiro/ riso/ porra
lágrima/ masturbações/ peido

mau pensamento
ou arroto na escala das afecções
ou de orduras exportáveis:
do corpo
e da alma.

Não sê mais escroto
ó cantor do perecível
e limitado
                 – pelo quadrado
                              sem raiz
                                   do mundo em liquidação.

Nas futuras próximas galáxias
a ser defloradas
e já quase ao alcance de tuas mãos
veremos,
prezado,
se ainda terás vez.

Não havendo mais segredo,
Dona Inês.

Nem mistério,
nem flor de verdade,
és a pura e simples terceira matéria
metida a sebo no planeta formi-plástico
até que a quarta te destrua

no quarto ou no refúgio anti-aéreo
                                       bomba
aguardando a sexta
                          feira aziaga ou a cesta
em que Deus, puto da vida,
no mindinho
                         globo celestial
pra refugá-lo no
                            grenier:
                                          voilá.

               Por inútil
               fútil
               inconsútil
uma vez que és à semelhança dele...
               — de araque,
                    sua besta.

Se cantas empós de boceta,
ou a fim de punheta,
faz um filho na proveta:
                porque, verso,
qualquer robô já faz.

Zipe na boca, rapaz,
— não poetisa mais.

Repito:
— meta a viola no saco,
                se é que inda tens saco
                ou gana de meter
(do verbo enfiar algo em algum lugar).

Pois-pois
meta em ti mesmo o
resto de pica que tiveres,
se tiveres,
na boca,
no cu
ou nos dois.

Depois...
silencia.

                   Passarinho atolado na merda
                   não janta:
                   — nem canta.


Rosário Fusco

De Creme de Pérolas,
1972 (inédito)


20 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 6: Rilke, Rosa, CDA & etc

Finalizando a série de crônicas sobre a entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontram-se a seguir – e provocadas por nós – algumas das “tiradas fuscais” sobre escritores daqui e dalhures. Semana que vem, como bônus, vamos publicar “Edital de Demissão e Ponto”, o poema “impublicável”, que nem mesmo o Pasquim publicou.   


ALGUNS MEDALHÕES LITERÁRIOS BY FUSCO  

Rosário Fusco: “A regra é considerar ressentida a opinião de um autor sobre outro, outros, principalmente num país em que os leitores são mais autores do que os próprios. Procurem entender. Posso discutir uma ideia: não posso discutir uma afinidade, cujos implicações têm raízes num modo que a lógica desconhece. Em homenagem a vocês, corro o risco de pensar em voz alta, com a lista na mão”.   



GUIMARÂES ROSA – Hábil inventor de palavras: inventor ou restaurador? Numa carta ao seu tradutor alemão, confessou que seu ideal seria escrever nesse idioma, por lhe permitir as mais imprevistas combinações vocabulares. Essa renúncia potencial à língua de origem delata a ambição do candidato à posição de executivo universal de um tempo de romance. Nenhum reparo à determinação: disse-o a ele, quando vivo, cara a cara, muito tempo depois de eu ter escrito sobre Sagarana. Acontece que não creio nos inovadores conscientes. O sucesso de Guimarães Rosa – sempre justificável – é o sucesso do autor difícil daqui ou dalhures. Entre os dalhures, não citarei o sovado Joyce: mas Raymond Russel. Foi um artesão diabólico, maior do que o cordisburguense. Esvaziou-se a ponto de poucos saberem que existiu. Como o nosso patrício se esvaziará, quando a safra de seus pressurosos exegetas não dispuser de mais chaves para abrir portas abertas. Todos querem explicar o escritor: do homem de laboratório ao homem de rua. A obra vai-se alargando, alargando. Um dia, descobrirão alarmados que a leitura de imaginação não é só feita de palavras. Mas sobretudo do concurso de experiências inconscientes que, no ato criador, explodem: aquém ou além da vontade do ajustador de curiosidades verbais às situações que ele se propõe a manipular, sem conhecê-las. Mas até lá (a rosa de Malherbe pode durar um dia ou um século), Guimarães Rosa será lido, discutido, “compreendido” seus neologismos se incorporarão à linguagem corrente, como os aportados pela psicanálise, por exemplo. Alguém em conversa, dirá que sofre do “complexo de Rosa” outro indagará: “Que Rosa?”. Pronta explicação: “da rosa, uai.” É a glória. De passagem: já leram o super-erudito prefácio da tradução francesa do Buriti?  

   
CARLOS DRUMMOND – É o meu poeta, o nosso poeta nacional. Pena a sua repentina, prematura, impermeabilização às louvações, menores, triviais, esquecido do vita brevis, com ou sem ars longa. Em Santo Antônio do Monte (informações do teatrólogo Alexandrino de Souto, a segunda pessoa mais importante nascida na terra, depois de Magalhães Pinto) já distribuem, para marcar livros, a efígie do vate em tiras de cartolina. Recusou o prêmio maior da Academia (nordestina) de Letras. Recusou uma cadeira na dita. Numa cadeira de balanço (leia-se Freud) à espera da vontade de fumar. Toujours fidèle à Nobel. O diabo é que, nesta altura, Jorge Amado já esteve em Estocolmo, para os devidos fins. O diabo é que ir à Canossa não é bossa de mineiro: que ela venha a ele primeiro. Não importa: um dia (certíssimo) Itabira se chamará CDA. Então, os chefes de trens em trânsito, na parada do desvio, gritarão: “CDA, CDA... cinco minutos pro café“. É o Nobel ferroviário: a gloria que fica, honrada e, talvez, acabe consolando. Em termos de ferro, de orgulho e de cabeça baixa.   

FERREIRA GULLAR & DÉCIO PIGNATARI – Só os conheço de ouvido, através de percussões não identificados, vindas daqui e dali. Como percebem, sou um sujeito “por fora”.  

AUGUSTO & HAROLDO DE CAMPOS – Os concretistas de São Paulo só agora descobriram o espaço semântico de Mallarmé, modismo mais velho do que a Sé do Braga, também por ele copiado de bardos (que beleza de palavra) medievais, quando falavam ou escreviam. Não se renova por fora, mas por dentro. 

MALLARMÉ – Interessa mais a vocês, poetas-processo, processualistas (foram, ou continuam?), do que a mim. A teoria do espaço semântico, que ele insinuou, é o alpiste dos que se engasgaram com os dados de 1897 (data da publicação do poema Un Coup de Dés). Os canoros pássaros de hoje já comem affiches: comida de mais fácil ingestão e... digestão quase feita. 

FERNANDO PESSOA – Um chato em e com inumeráveis pseudônimos. Deve sua permanência aos exegetas, aos adidos culturais portugueses, às puxações ingênuas dos poetas provinciais, que não puderam ir além do meu prezado Emílio Moura.  

DALTON TREVISAN – Alquimista dos fatos diversos que, pachorrentamente, trasmuda em pílulas (textos) acridoces, bem licopodiados. Um Nelson Rodrigues (“A vida como ela é”) com melhor dramática e senso de densidade dos corpos (personagens e situações): às vezes estranhas, às vezes, manjadas.

GRACILIANO RAMOS – Foi uma das minhas debilidades literárias, do rol das confessáveis. 

MURILO MENDES – Na minha opinião é maior do que o Carlos: ele inventou no Brasil o que faria a glória de Dylan Thomas e do Cummings, acho que muito depois. Antes ou depois ele fez aqui o que eu chamaria de poedrama, a poesia de situações, que os idiotas começaram depois do Poema Patético (cito este como poderia citar O Caso do Vestido etc) do Drummond. Depois, o onírico em Murilo não precisa de chaves nem de exegetas para utilizálas. Ele sempre viveu estados poéticos, mais sensíveis do que experimentais, o que revela sua genialidade: capacidade constitucional de inventar sem a preocupação de.

MÁRIO DE ANDRADE – Um grande, profuso e torrencial correspondente. (Fusco tem em sua casa “quilos” de cartas enviadas por ele.) Mas suas famosas cartas não dizem o que ele dizia. Quanto a Macunaíma (que o indianista Nunes Pereira poderia ter escrito, dispondo de iguais “fundamentos”) é muito melhor na versão cinematográfica do Joaquim Pedro de Andrade.

FELIPE DE OLIVEIRA – Sócio de um laboratório de produtos farmacêuticos. Nas horas vagas, acendia lanternas verdes em louvor de Orfeu. Não sei se ainda existe uma fundação com o seu nome. Distribuía prêmios literários entre escritores ameaçados de despejo por falta de pagamento. 

GRAÇA ARANHA – Especialista em escrever sobre assuntos dos quais não pescava neca: filosofia, estética... etcétera. Quando seu amigo Tristão de Athayde “interrompeu” sua Viagem Maravilhosa (romance de uma Teresa mais germânica do que tropical), teve duas ameaças sucessivas de enfarte, nos altos de um apartamento da comportada Cinelândia dos bons tempos. Nome de avenida.

RONALD DE CARVALHO – Suplente de Graça Aranha. Nome de rua. 

RIBEIRO COUTO – Não o li para guardar, não o pratiquei pessoalmente: correspondi-me com ele. Era o símbolo do “homem cordial” para Odylo Costa (filho) e Peregrino Júnior, por sua vez, dois homens cordiais. Mas por isso nada tem a ver com a literatura.

GUILHERME DE ALMEIDA – Versejava bem. O JG do seu tempo, guardadas as proporções a favor do paulista. 

ADELINO MAGALHÃES – Tipo do chamado homem de bem. Para Paulo Armando e outros moços “precursor de tudo”, inclusive de boa vizinhança em Santa Tereza.

TASSO DA SILVEIRA – Puxa a lista dos injustiçados de ontem e de hoje, de Eloy Pontes a Francisco Karam. 

RILKE – Tinha tantas perebas psicossomáticas que nem Rodin conseguiu descascá-las a cinzel. 

RIMBAUD – Um mito (aliás, minuciosamente desmontado pelo professor Etiemble) cada vez mais acariciado pelos jovens da poderosa confraria de Verlaine.

OSWALD DE ANDRADE – Morreu de talento... É a urna de cinzas detergentes do modernismo.   

13 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 5: No bidê de Maria Antonieta

 A seguir, a terceira parte da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976.


O ESCRITOR BRASILEIRO É UM SUPERCAMELO 


 PASQUIM – Quais os melhores poetas e romancistas brasileiros?  

    FUSCO – Todos os que pertenceram ou pertencem às Academias de Letras do país, da nacional às municipais, passando pelas estaduais, inclusive o endiabrado mulato que fundou a Academia (nordestina) de Letras.  

   PASQUIM – O que mais te impressionou em tuas andanças por Paris, além de ter dado “solene regada no Sena” como nos disse certa vez?  

    FUSCO – Os legumes daqui (de Paris) têm um cheiro, um suco (abundantíssimo) e um sabor desconhecido para nós. Excusez-moi du peu, mas foi o que mais me impressionou, até agora, na França: porque homens, mulheres, crianças, casa e lugares públicos – café, bares, cinemas, restaurantes, teatros, metrô, ônibus – cheiram mal. Qualquer coisa ardida, entre melão pobre temperado com vinagre e algo de açúcar de beterraba: um horror para o meu afro-nariz, sensível ao micro-cheiro. A vida literária francesa é tão suja quanto a brasileira (os homens são iguais em toda parte, pudera) e os grandes nomes daqui só são grandes nomes aí. J’ai touché Montherlant, Cocteau. Duhamel, Céline (80 anos sem tomar banho) e outros cretinos iguais aos nossos nacionais medalhões. Louis-Férdinand-Céline não concebe (vive miseravelmente, sustentado pela jovem mulher – 30 anos, no máximo – professora de dança) que ele só possa vender 30.000 exemplares de um seu romance qualquer, quando o secretário de Brigitte Bardot vende 300.000 de suas memórias só na chamada área parisiense. Mas é isso: ninguém vive de literatura. Os tipos que a praticam ou são ricos de pai e mãe (Montherlant, por exemplo, é nobre e capitalizado) ou são, de pai e mãe, paupérrimos. Uma lástima. Lástima ou pândega? Meu Deus, como tudo é igual, e a mesma coisa vem ser o inédito aleatório do existente (bonita frase e difícil de entender). Tradição e civilização, não é? Mas não haverá uma hierarquia nas “civilizações”? A França tem, no mínimo, 1.000 museus. Mas terá, no máximo 500 banheiros. E, por aí, vocês podem concluir a diferença entre a civilização e progresso. Acontece, ainda, que civilização é um estágio, um “momento” do progresso. Concluam, se quiserem. No bidê de Maria Antonieta, eu vi com meus olhos, está escrito – laissez venir à moi les petits enfants. Mme. de Montespin escreveu um tratado (300 páginas, composição corrida, cerrada, corpo 8 antigo) sobre a arte de tomar banho com um (sic) copo d’água. Luiz XV só tomou dois banhos: um quando nasceu e outro quando morreu – ou depois de morto. Os grandes museus falam de tudo, menos da autenticidade francesa. A elegância da mulher, aqui, é artigo de exportação: como a cultura, a ciência, a água de cheiro, a indumentária e o resto. No Brasil, a gente gasta um dia inteiro para achar uma feia. Em Paris, vocês gastarão meses para encontrar uma bonita. E as que se podem chamar de “boas” (no argot brasileiro) em geral vieram... da América do Sul. O francês médio é de uma burrice espetacular (não sei se já lhes falei isso) e o culto, ora, o culto não vale o nosso “meio” cultivado. Qualquer anedota de português (como somos injustos com os portugueses) você poderá aplicar, sem susto, ao francês: será sempre exata, justa, correta, adequada e... verdadeira. Para arranjar divisas, o austero De Gaulle chegou a permitir a impressão de selos (não consegui um exemplar, tal a procura universal filatélica) da Brigitte Bardot com o derrière exposto ao vento: voilà.

    PASQUIM – O que você acha da “onda estruturalista” que afoga o ensino de literatura nas universidades? 

    FUSCO – Quando um sujeito, depois de massudo arrazoado sobre um tema “esférico”, já em si e por si difícil, vem com um “o que eu quero dizer é o seguinte”, fazendo o exegeta de si mesmo, o que ele vier a dizer será mais confuso ainda. O negócio é aquilo do vosso Compadre Boileau: “o que se pensa com clareza, com clareza se enuncia”. Um professor de história literária – a literatura é um processo – que se apega a minúcias filatelistas, devia colecionar caixinhas de fósforo e não datinhas que nada significam. O romantismo começou com os Suspiros Poéticos e Saudades? Por quê? A história das letras no Brasil começa com a carta de Pero Vaz? Por quê? A periodologia é coisa de professor universitário e só voga nos compêndios, para provar que a história é uma invenção privada de quem a faz. Cada vez entendo menos essa sucessão de equívocos (estruturalistas, para empregar a palavra da moda) envolvendo e moendo pessoas. Dar nome aos bois não lhes muda a essência ou natureza. Daí a precariedade dos ismos. Basta a comemoração dos gritos que nos entulham os ouvidos: do “Fico” de Pedro I ao “Eu vou” do falecido Getúlio Vargas.  

    PASQUIM – A cultura, a civilização, o caos dos mass-media, o que pensa Rosário Fusco dessa confuzione toda?
 FUSCO – O audiovisual das comunicações cotidianas desmoralizou o mistério das terras e das gentes. Cartões postais, slides, livros e discos desmoralizam, hoje o conceito de cultura. Num excelente artigo no Le Monde, Ionesco perguntava o que é cultura. Se eu o tivesse en face eu diria cultura, sua besta, é informação. Mas informação metabolizada e não apenas codificada em termos de computador (máquina que guarda sem sentir). A poesia “progride” em nós ou fora de nós? É um tema de estética. E em estética o óbvio sempre precisa ser demonstrado. O eterno é o moderno... com apelidos episódicos. Não se modifica o que o grande Barbudo (no alto não há gilete... ou há?) criou. O resto não é apenas o silencio do nosso Shakespeare, mas o elenco de words, words, words, no dito ameno. Não acredito muito no próximo, mas no próspero.  

   PASQUIM – O que diz Rosário Fusco sobre Rosário Fusco? 

    FUSCO – Desse, posso testemunhar sem a pecha de suspeito. Se nada fez que prestasse, até agora, daqui por diante (pra lá dos sessenta – sexappealgenário, como diria o Oswald) nada fará. Com a velhice chegando, estou virando objeto de anedota: sujeito, objeto e (ou) a própria. Outro dia – saiu numa coluna de jornal – me “viram” ou ouviram cantando tango no Zum-Zum. Como gozação, é o máximo. Minha postura permanente é a do Cristo no Corcovado – braços abertos... o que não impede que, de estalo, eu resolva cruzá-los para uma ruidosa e federal banana. A biografia de Rosário Fusco? Quá, quá, quá: homem comum não tem biografia – sobrenada no mar existencial e já é muito. Não o lamentem, por favor. O homem está em estado de dentadura postiça e já não pode rir como antes ria de fazer inveja ao Newton Braga. Mais alguma coisa? Gracias, já estou intoxicado. Vou tomar um necroton. Et voilà!   

Continua na próxima semana



6 de abr de 2016

Fusco no Pasquim 4: Na realidade, “já morri”

A seguir, a segunda parte da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976. 


O ESCRITOR BRASILEIRO É UM SUPERCAMELO 



 PASQUIM – Por que Cataguases? Fora os equívocos, normais, aliás, o que houve realmente? Como explicar uma experiência aparentemente de vanguarda nascida na roça que era a cidade na época, entre esterco, cascos de cavalos, entre as fofocas das comadres, que perduram até hoje, e a vida sem pressa, calma, cotidiana. Onde fica Cataguases nessa chorumela toda? 

    FUSCO – Na inconsciência do verdor de um elenco de rapazes, aspirando à afirmação de seus variados pendores – digamos, artísticos – Cataguases simplesmente cumpriu sua missão didática na época. Como, aliás, inúmeras outras pequenas cidades da província, acionadas por primário espirito de imitação. Premiar Cataguases, a propósito, com dois ou três adjetivos, em mais de uma linha impressa, só pode, a meu ver, “unfanar” sua linha de professoras de grupo aposentadas. Mestras episódicas dos gênios municipais, hoje – quase cinquenta anos depois da aventura – desencantados escribas na faixa do enfarte.


   PASQUIM – Como se explica seu silêncio desde 1961? 

  FUSCO – Na realidade, já “morri”. O que eu gosto mesmo é de ser. Mas ser, como je suis, eu posso ser em Belo Horizonte, Cabobró, Cataguases ou nos cambaus. Ninguém é por estar aí, mas por être en soi. Ninguém sai de si mesmo, ou se aliena de si mesmo, a não ser pelo sexo ou pelo álcool (digo pelo álcool para não ir à droga propriamente dita). Afinal, o que fica na vida de cada um (física ou mental) mais o que o esforço por algo que é a marca ou tara individual? Carga, ônus e pesadelo de nossa passagem (ou estada) no planeta?  

   PASQUIM – Dia do Juízo lhe rendeu quanto? O romancista brasileiro é, antes de tudo, um “duro”? 

   FUSCO – Dia do Juízo me custou três anos de trabalho (com interrupções). De 1954 a 57. Em dinheiro, líquido, o romance me rendeu cinco contos (cruzeiros novos).  O romancista brasileiro não é, antes de tudo, “um duro”: é um supercamelo carente de enzimas digestivas: rumina, mas não digere. Mas há os que digerem até tardes de autógrafos: o meu caro José Condé, p.ex., chegou a “comer” um verão em dezembro; em fevereiro, estará mais gordo do que o Rei Momo. 

    PASQUIM – A gente sabe que você tem, pelo menos, três livros novos, prontos para publicar. O que há, o que houve, o que está havendo? 

    FUSCO – O fato de ter livros prontos, nem chega a “significar”. No Brasil, não há quem não tenha um livro pronto, inclusive vocês. O problema é editar. Nunca tive um livro publicado em “bases comerciais”. Dada a mediocridade consciente do que faço, não ouso mais oferecer a ninguém. Nem oferecer, nem insinuar... etcétera. Duas vezes, cometi tais fraquezas: me mandaram plantar batatas. De fato, rende mais e chateia menos.  

     PASQUIM – O que é o romance, no seu sentido mais forte? 

    FUSCO – No mais forte, não sei. No mais fraco, romance é a vida da gente “dinamizada” pelos outros. Da participação do nascimento ao convite para a missa do sétimo dia (ou a partir desta) você já é fábula, com os ingredientes que cada qual acrescentar ao narrar o que você faz ou deixou de fazer.  

  PASQUIM – O nouveau-roman, segundo seus teóricos, acabou com o romance tradicional. Hoje, já é novidade velha. Novelhíssima. Entretanto Robbe-Grillet, sua peça mais importante, partiu pro cinema, como solução mais válida para suas pesquisas. O cinema vai acabar com o romance? 

   FUSCO – Esse negócio de nouveau-roman. Ou roman du régard é vigarice. Tudo o que é visto – já diziam os escolásticos – tem que passar pela cabeça para ter sentido. A máquina fotográfica não vê: registra. Quem vê sou eu, o fotógrafo. Mas com que autoridade eu posso assegurar que o seu azul, por exemplo, é igual ao meu? O assunto daria para um tratado de estética. O caso é que os franceses são muito sabidos e sua política literária (para exportação) é baseada na conquista de divisas. Pasmem: Gide não é conhecido pelas novas gerações da França. Roger Nimier (morreu, o coitado) confessou em entrevista (1960) que nunca ouvira falar em tal sujeito. Ora, Malraux mandando esses rapazes pra correr mundo (Robbe-Grillet, Butor etc) não fez mais que obedecer ordens de M. Pompidou, que era o Roberto Campos de lá. A Câmara do Livro Francês (saibam) é mais forte que o Pentágono ou do que o homossexualismo (o mais forte ismo do mundo). O chamado novo romance não é um gênero: é uma teoria. Ou um teorema (Pasolini). O assunto é material polêmico. Um cenário cinematográfico não é um romance: é uma agenda de ações plásticas. Na sutil diferença entre a imagem ideada (escrita), a imagem visualizada (lida) e a imagem grafada, montada e projetada (transcrita segundo a interpretação criadora de um sujeito sem o menor compromisso com o autor) é que, a meu ver, reside o busílis. Vejam se entendem. Lido, em termos de leitura dinâmica, Madame Bovary é a redução de vulgar adultério provinciano a dez ou vinte linhas, que poderão dar um filme da duração que o atleta quiser. Por volta de 1929/30, Afrânio Peixoto publicou um romance (Sinhazinha), acompanhado do respectivo roteiro, por ele também assinado. Leiam os dois e me digam com quantos bambus se pode fazer um balaio. Ou com quantos paus se pode fazer uma canoa capaz de romper as correntes barrocas de uma época. Porque do mau romance se pode tirar um filme excelente, a coexistência dos “gêneros” é possível. A debandada do escritor para o cinema é a falta de fôlego, de editor, ou falta de dinheiro. Nunca um script será um best-seller no sentido que dão à expressão – porque best-seller não é o que vende muito, mas o que vende sempre (Adonias filho). Não citarei a Bíblia como exemplo. Escolham outros: à vontade. 

Continua na próxima semana



30 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 3: Miséria por conta e risco

 A seguir, a primeira parte da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976.  

O ESCRITOR BRASILEIRO É UM SUPERCAMELO 



PASQUIM – Que que há, Fusco. Não publica mais no Brasil? 
FUSCO – Mofino autor de livros sem nenhuma significação especial, nesse ou em qualquer gênero, jamais consegui firmar uma clientela fixa (acho que nem mesmo flutuante) quando isso era possível, neste ou em qualquer país. Agora, ignorado por leitores e editores, me resigno, humildemente, a ser, apenas, autor de títulos que nem aos íntimos revelo. Velhice? Velhice. Não posso conceber um mineiro fazendo concessões de nenhuma espécie. Sou do tempo do fio de barba funcionando como firma reconhecida. Não concebo – mas, porém, todavia, contudo – num artista (eu disse artista). Então vocês acham que mineiro tem coragem de escrever sobre si mesmo? Os que escreveram – Afonso Arinos etc – já os excluí da lista das minhas admirações coestaduais. 

PASQUIM – Literatura e vida: são paralelas? 
FUSCO – Não se pode reduzir uma tese “insistente” a simples verbete. Sim, eu tive sempre (e confesso) vontade de durar: o diabo é que entre “duração” e “existência” há abismos que nem de leve pressente a nossa (dos imbecis) vã filosofia. Ora, meus jovens atletas: quando eu era criança já me preocupava com o assunto e outro dia, revendo velhas coisas, fiquei pasmado com a minha “unidade” na incoerência vital: não mudei, não mudo, não mudarei. “Sou uma miséria só” (Livro de João/1944) – sou “miséria por conta e risco” (O Agressor/1939) – “A vaidade imediata não é o forte dele... nem o meu (Amiel, 19... meu Deus, eu tinha vinte anos). E vou cumprindo, com isso, a outra, a terrível vaidade constitucional. A vida me ensinou a conciliar os extremos: perdão, tempo e memória.                             
PASQUIM – O que você entende por romance?        FUSCO – Romance, para mim, é gênero danado e, pois, maior, o maior. Romance só é gênero pequeno, barco de pequena cabotagem, nos compêndios de história literária dos teoristas nacionais. Ou nos volumes dos narradores brasileiros. Você (vocês, eu, qualquer um) pode ler A Imitação e não se santificar. Pode praticar, digamos, Aristóteles e não se tornar filósofo. Mas se ler o Madame Bovary, por exemplo, será fatalmente modificado, perdido: irremediavelmente. Só o romance exige e transmite sensação. Só um artista, um louco varrido, meu Deus do céu, pode escrever um romance – arte do diabo, sábio e adivinho, profeta e canalha, pregador e santo, catalisador e cirurgião, mágico e ordenador do caos, masoquista e infeliz. Bem, já estou caindo na literatura, com perdão da palavra, louco pra escrever depressa e... o negócio é “mergulhar no materialismo histórico”, como dizia Oswald de Andrade. 

PASQUIM – Na sua opinião, a quantas anda o romance brasileiro. Parou em Graciliano ou continuou em Clarice, Guimarães Rosa etc? 
FUSCO  O romance brasileiro, como processo, não parou. Acontece que, com a tentativa atual de desmoralização do mistério (homem indo a lua, pílulas dissolvendo fetos, robôs engendrando filhos, computadores prevendo o futuro) o homem foi levado a esquecer o corpo, única “realidade” que se pode palpar. Assim, não havendo mais lugar para a ficção (tessitura mítica do que se sente, pensa e faz), a transmissão dos dramas (situações) emocionais, através das palavras, não faz mais sentido. E, porque não faz mais sentido, os romancistas, no momento, se mandaram pra glotologia. Mas isso acabará. A literatura (arte de exprimir, gráfica e esteticamente, o outro lado do real) tem passado por fases históricas, barrocas, equivalentes. Os modismos são pendulares.  

PASQUIM – Por falar em “outro lado do real”, como você situa o realismo fantástico, Borges, Cortázar & etc ? 
FUSCO – Vocês podem publicar, para efeito de gozação, que eu sou o precursor do “realismo fantástico” no romance sul-americano. Li recente entrevista de Cortázar dizendo que aprendeu a coisa de Jorge Luis Borges, que começou a coisa na América em 1942, mais ou menos. Ele, Cortázar (aliás um chatíssimo tipo) começou em 47. Ora, em 39 eu escrevi O Agressor, que demorou 4 anos na José Olympio e só saiu em 43. Logo, donc, q.d.o., “realismo fantástico” é besteira (Pawels é que valorizou a chancela, mais velha do que a Sé do Braga, valorizou ou vulgarizou) quando, para efeito estético, já existia o “supra-realismo” de André Breton e Appollinaire, muito mais lógico. E lógico por que? Porque o supra-real, significando algo mais que o real ou o outro lado dele, diz mais do que “realismo” grudado a “fantástico. Por que ainda? Porque o real independe da existência, podendo até – e é o que acontece sempre – precedê-la. Tomás de Aquino já associava a potência e o ato, ou distinguia o ser da existência (coisas que o vosso amigo Sartre explorou às pampas) pois que a essência precede a existência (Heidegger, Husserl etc). Quando penso um romance, o romance já existe (em essência, i.e., em potência) faltando o ato (fazer) para que ele exista. Já lhes disse, mais de uma vez, que vivemos um tempo semântico. A mesma coisa e a mesmice se impondo com outros nomes. Inventa-se uma palavra (Inventa-se ou valoriza-se) e logo vem uma teoria para lhe dar curso. Parapsicologismo (Rhine) é o ocultismo milenar, oriental, com nome novo. Media (Mcluhan) ou hardware – quinquilharia (ambiente ou resto, ou restos, quinquilharias, peneirados do ambiente, media) fazem a fortuna de um autor e as masturbações dos deslumbrados. Tomás de Aquino: ”a realidade transborda do conceito”. Correto, positivo: porque as palavras que nomeiam as coisas combinam, as coisas restam, resistem. Aqui, cabe o nihil novi. Mas acontece que, sem tais transas, como a gente poderia s’amuser, aguentar a carga existencial, arranjar pretexto para beber ou coisas pelas quais morrer? A confusão foi sempre geral, meus caros. E ai de nós se a existência não fosse confusa, fusa, fusional, fissível, fusca, fusco. Amém. 

PASQUIM– A criatura, ou o criador? O que vale mais, o escritor Rosário Fusco ou o Rosárr, como a Annie lhe chama, o homem cotidiano, tributável? 
FUSCO– Quem escreveu o Cântico dos Cânticos? Shakespeare nasceu quando? Era mesmo Shakespeare ou Bacon, ou um francês, Jacques Pierre? Qual é mais importante a criatura ou o criador, Dom Quixote ou Cervantes? As coisas essenciais não são de ninguém: por pensamentos, palavras e obras. Mas há “essenciais” que podem ser analisados e, da análise, acabar não sendo “essenciais”. O sal era ou já foi, um elemento simples, do qual todos os outros sais derivavam. Descobriu-se que o sal (sal de cozinha) não é apenas cloreto de sódio. Mas sódio, cloro e um elenco de mais treze derivados, se submetido à eletrólise. Donde se conclui – mutatis mutandi e pulando daqui prali – que a meia verdade, aplicada a literatura está com o vosso parente e chato Jorge Luis Borges: “cada escritor cria os seus precursores”, ou, trocando a coisa em miúdos para explicação mais larga: cada um é um repetindo a todos. Daí caímos no sovado dito do nosso caro Pitágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”, dito que eu reedito o modifico por conta e risco: “cada homem é a medida de suas coisas” Agora entendam tudo, porque vou parar de lero-puxa-lero. As vogais tinham cor antes de Rimbaud? Não. Passaram a ter: coisa que até a física moderna comprova e já não é mais considerado troço de poeta. Et voilà.  

PASQUIM– Oswald de Andrade x Carlos Drummond de Andrade. 
FUSCO– Não há confronto entre polos de força que se repelem, mas... curto-circuito. Não me meto nessa. Um morto, outro vivo. Me respondam: qual é o vivo, o mais vivo? 

PASQUIM – O que significou o movimento da Revista Verde dentro do modernismo brasileiro? O modernismo valeu? E a Verde? 
FUSCO – As revoluções, todas as revoluções, são românticas. Quando há desgaste – entropia, para os estruturalistas – recorre-se à revolução, i.e., à volta ao que “já era” sempre considerado ideal em relação ao decepcionante atual que vem sendo, ou “está sendo”. Entendam se puderem. As novas gerações cabeludas não estão, inconscientemente, ensaiando repetir a vida grupal, comunitária dos cristãos – e artesãos – do II século, superestrelando Cristo, o estilo de vida primitivo e os cambaus? Nos cambaus vocês podem incluir, se quiserem, as drogas, o zenbudismo, todos os “misticultismos” do macrobiotismo  ao parapsicologismo, do astrologismo desenfreado (“Você é touro? Pois eu sou virgem...”) ao... teste de Cooper. A Verde é folclore e os seus representantes, um episódico (embora pra Cataguases lisonjeiro mas não identificado) equívoco. Já me fizeram igual pergunta, inúmeras vezes. Minha resposta tem sido esta: nada. O próprio “modernismo brasileiro” não passou de uma onda nacional inconsequente, provocada pela maré estética europeia, então montante. Repare que o historiadores do movimento – na maioria, participantes dele – têm certa dificuldade de justificar a “importância” do que acham que fizeram. Leia os depoimentos anedóticos pertinentes assinados pelos senhores Carlos Chiacchio, Peregrino Junior, Murilo Araújo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Raul Bopp... entre outros. Os grupos provincianos só aparecem aí pela sobrevivência, mais ou menos significativa, de alguns nomes. Nomes que, de qualquer modo, se evidenciaram com o tempo, sem que a adesão deles à moda tivesse isso ou aquilo. O historiador, das letras ou não, é um arbitrário “montador” dos epitáfios para enfeitar compêndios.  



                                                                                                            Continua na próxima semana

22 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 2: Malabarista irreverente

Dando continuidade (na verdade, principiando) à publicação da entrevista de Rosário Fusco que eu e Joaquim Branco fizemos pro Pasquim em 1976, encontra-se a seguir o texto de apresentação, que escrevemos em conjunto:   

ROSÁRIO FUSCO PARA PRINCIPIANTES  


De um encontro com Rosário Fusco, muita coisa se perde ou fica esclarecida pela metade (o homem não gosta de gravador), outras se pode tentar ler nas entrelinhas, e a maioria transparece na intenção de resguardar uma intimidade imperturbável. Ao lado de uma irreverência em bom som e sem limites, que não vacila em desfiar os assuntos mais controvertidos, Fusco é o místico terra-a-terra, o calmo-desafiante, o espiritualista-materialista, o malabarista do pensamento e, até, o homem comum. Um dualismo perfeito, como convém a um romancista de sua estirpe. De limpador de vidros de farmácia no interior de Minas a conferencista na Sorbonne, onde fotografou os originais do “Lance de Dados” de Mallarmé, passando o negativo do poema pro papel e sacando dessa inversão uma tese inédita, pelo menos na época: “o importante no Coup de Dés não são os espaços em branco, ao contrário do que pensam os apressadinhos, mas o avesso disso: a posição musical ocupada pelas manchas do texto dentro da página. Mas isso é só pra chatear “los cuprinos” (leia-se Augusto e Haroldo de Campos): se quiserem, ainda tenho os originais da geringonça”.  De ghoswriter de inexpressivos e tresloucados políticos de Cataguases (um deles queria que ele lesse o discurso da torre da igreja e depois se lançasse lá do alto, naturalmente metido na recém-inventada máquina-voadora, obra-prima de outro maluco da cidade: “já pensou no impacto, meus caros?!”) a candidato a deputado na década de 50 (“não fique confuso, fique com Fusco”, era seu slogan), fragorosamente derrotado: “os imbecis não me entenderam, o que, aliás, não é novidade”.  
De fabricante de perfumes e desenhista de modas (“até hoje minha mulher usa a água-de-cheiro que eu faço, os vestidos que eu desenho. Muito antes de as botas compridas estarem na moda em Paris ela já calçava as botas que eu havia bolado) a editor da falecida revista A Cigarra dos bons tempos – onde criou famoso concurso de contos, o primeiro do gênero e onde, jura, o Millôr Fernandes foi seu contínuo: “o rapaz era vivo e levava jeito”. De editor, criador e enfant terrible da Revista Verde, que fez em Cataguases na época do modernismo, com apenas 17 anos (é famosa sua carta a Mário de Andrade: “mandem colaboração, seus bostas!”. E os “bostas” mandaram não só um poema a quatro mãos, assinado Marioswald de Andrade – “todos nós somos rapazes/muito capazes de ir/ver de forde verde/os ases de Cataguases” –, como outro, de Blaise Cendrars, dedicado aux jeunes gens de Catacases), à maturidade do romancista de Dia do Juízo, seu último livro publicado no Brasil (em 1961). Ou do kakfiano O Agressor, de 1939, cujos direitos autorais foram comprados por Orson Welles à editora italiana Mondadori, que o lançou na década de 1960. Aliás, o prefácio italiano (L´Agressore) o compara a Kafka e Joyce (“dois animais que só vim a praticar muito tempo depois”, como ele afirma).  
“Quanto ao Orson Welles, eu o conheci num baile do Quitandinha, quase trinta anos atrás. Mas não me lembro do que falei com o atleta: estava mais interessado na Grace Kelly, com quem, por sinal, acabei dançando, sofrendo o diabo dentro de apertadíssimo smoking alugado “pelos tubos” do Rollas: me custou todo o salário do Instituto dos Marítimos, onde eu trabalhava na época (aqui pra nós: “o sovaco da princesa fedia pacas!”). Agora, o que o Orson Welles vai fazer com o meu romance, nem eu sei. Aliás, acho que nem ele, pois até hoje, ao que parece, a coisa está parada, só soube da transação quando a Mondadori me mandou o dinheiro”. E daí vai. Ou vem. E continua: de menino paupérrimo (“quando lá em casa tinha angu com torresmo... era festa...” e se emociona às lágrimas) ao advogado bem-sucedido, ao procurador do estado aposentado (idem como escritor: como membro da confraria de amigos de Plínio Doyle, de quem partiu a ideia, foi um dos primeiros escritores brasileiros a se aposentar como tal), ao excelente e ferino crítico literário dos anos 1940.  E poderia continuar ad infinitum, tão controvertida e multifária é a vida do homem e do escritor Rosário Fusco de Souza Guerra: “nasci da fusão, ou confusão, de mulata com italiano, daí meu metro e oitenta acima do nível do mar (um gigante dentro do baixo nível estatutístico de Cataguases) e meu saco roxo (faixa azul, cinta encarnada), devidamente provido de aparelhagem funcionando a todo o vapor até o cu da aurora”. (Há ao lado de sua casa no Bairro da Granjaria uma vizinha de nome Aurora. Toda vez que Fusco solta esse “cu da Aurora” ele grita na sequência: “não é o da senhora, não, Dona Aurora!”). 
Hoje com 66 anos, novamente sediado em Cataguases (desde 1968), após longo périplo oropa-frança-bahia (leia-se Rio-ParisFriburgo), Fusco continua uma obra & biografia (qual a mais rica?) no mínimo instigantes. Doze livros publicados no Brasil (além de outros na França, Itália, peça encenada nos EUA), destacando-se, além dos citados, Carta à Noiva, O Livro de João, Amiel, O Viúvo, O Anel de Saturno e uma série de poemas e ensaios, entre eles Introdução à Experiência Estética. A Mondadori, inclusive, já está preparando a edição de Dia do Juízo, ainda sem título 
italiano. Mas, como ele mesmo costuma dizer, “não adulo a dona Glorinha” (leia-se badalações & cercanias). Talvez por isso, por seu isolamento consciente, por sua aversão ao meio literário, estejam inéditos os livros que tem na gaveta desde 1961: um tratado de filosofia, dois novos romances (Vacachuvamor e S.A. – solitários anônimos) e um livro de escatológicos poemas sobre a Lapa, ainda sem título, praticamente impublicáveis. Mas que O PASQUIM, naquele tradicional “furo de reportagem” (“velha chantagem brasileira”, como diria o próprio Fusco) oferece de bandeja para o regalo de seu atônito e indistinto público.  (Nota: Vinte anos após esta entrevista, foi lançada nova edição de O Agressor, pela Editora Francisco Alves, O mesmo romance foi também republicado no ano 2000, pela Bluhum. Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor: “A.S.A. – associação dos solitários anônimos”. Existem ainda outros inéditos, como “Vacachuvamor, romance; “Um jaburu na Tour Eiffel”, livro de viagem. E “Creme de Pérolas”, poemas eróticos, de onde foi extraído o poema “Edital de Demissão e Ponto”, que datilografei ditado pelo próprio Fusco em seu escritório de Cataguases – os originais do poema datilografado, com correções à mão do próprio escritor, estão comigo ainda hoje – e que vai publicado ao final da série de crônicas sobre a entrevista. O Pasquim acabou não publicando o poema, por medo da censura dos anos de chumbo: “se a gente publica vai dar um bode dos diabos”, me disse o Ziraldo).
De sua casa na Granjaria, bairro de Cataguases (aliás, simpaticíssima, projetada por ele mesmo: ”sou o único arquiteto da Granjaria que projeta romances, no fundo um somatório de argamassa, humilhações, suor e tijolos rememorizados”), ao hospital da cidade (onde passa algumas temporadas no inferno, tomando soro & uísque contrabandeado através dos mais incríveis estratagemas com as enfermeiras), Fusco continua vivo e ferino, impressionantemente atualizado com o mundo que lhe chega diariamente pelo telstar ou através de livros, jornais e revistas mandados diretamente de Paris pela família de sua mulher atual: Annie, a francesa.  Na verdade, o homem está sempre atento, vivo, funcionando a todo vapor. Guarda ainda resquícios dos velhos tempos de jornal, o hábito de trabalhar e beber durante toda a noite, rompendo “o cu da aurora” e atravessando de pé toda a manhã. Seu sono é parco e religioso: exatamente de meio-dia às quatro en punto da tarde. É raro o dia em que já não levanta com a dose matutina do litro de uísque que o auxilia a exorcizar os demônios do cotidiano. 
 A noite na biblioteca é consumida no silêncio da leitura, entremeada com o leve ruído das sucessivas doses de uísque (que bebe a caubói) ou com o barulho da pena rombuda da velha Parker 51, anotando trechos ou gravando situações que irão compor um próximo romance. Só escreve à mão: “assim me sinto mais ligado ao que estou escrevendo. Além de péssimo datilógrafo, a máquina me distancia das coisas, da densidade dos corpos”.  “Nada vale nada com algemas”, diz no poema impublicável que nos mandou. Mas de qualquer forma, em Cataguases – no início e origem de tudo, na volta ao útero, trazendo da França Annie, a mulher que entre todas e tantas ficou para sempre (para sempre mesmo: devido a problemas com a separação de uma de suas ex-mulheres, Fusco talvez seja recorde mundial de casamento com a mesma mulher: duas vezes em Paris, duas no Uruguai e a última em Cataguases, onde funcionou como padrinho o próprio François, filho do casal) – apesar das algemas do Doutor Fróes (como ele gosta de dizer, brincando), Fusco consegue se equilibrar. Nós é que titubeamos un peu. Afinal, o homem é incrível: doses sucessivas de uísque, pernod, cinzano com gin (é uma mistura dos diabos!), campari & etc, somadas a um vermute “que vai muito bem”. Tudo isso entremeado com scargots, patê truffée & outros babados, quase sempre à francesa, preparados pela Annie ou pelo próprio, que também manda seu recado nas culinárias da vida.
Mas não houve jeito de convencer o homem ao uso do gravador (“deixa pra lá, sô, tenho pavor desse troço”). A entrevista que vai pela aí é um somatório (ou diminuitório) do que a gente conseguiu filtrar desses contatos dos últimos anos. Acrescida, em parte, do que honestamente roubamos das cartas que Fusco mandou para a escritora e excelente poeta Laís Corrêa de Araújo, cujos fragmentos foram publicados no Suplemento Literário do Minas Gerais, de 25.11.72, à revelia do escritor (perdão, Laís, mas não conseguimos te achar durante tuas férias no Espírito Santo. Santo?). Na verdade, a matéria é uma collage de respostas por escrito a perguntas que formulamos, trechos de livros, frases esparsas, sueltos dentro de noites intensamente etílicas. De qualquer forma, Rosário Fusco fica devendo ao PASQUIM uma entrevista comme il faut, com a patota toda, gravador e os cambaus. Literatura à parte, em termos de folclore & criatividade ele é o Oswald de Andrade redivivo. Agora, não publicarem seus livros é puramente safarnagem dos editores brasileiros.   

                                                Ronaldo Werneck & Joaquim Branco

                                                                    ABERTURA DA ENTREVISTA AO PASQUIM Nº 351 (19 A 25 MARÇO DE 1976)


                                                                                                            Continua na próxima semana

9 de mar de 2016

Fusco no Pasquim 1: 40 anos ainda agora




  “Fernando Pessoa aborrece-me até a morte”, disse recentemente o romancista António Lobo Antunes, um dos escritores portugueses atuais mais lidos, vendidos e traduzidos em todo o mundo. O dito de Lobo Antunes faz reviver quatro décadas depois uma das tiradas de Rosário Fusco sobre alguns mitos da literatura, daqui e dalhures. “Fernando Pessoa é um chato em e com todos os pseudônimos”. “Rilke tinha tantas perebas psicossomáticas que nem Rodin conseguiu descascá-las a cinzel”. Esses são apenas dois dos inúmeros destaques extraídos da bombástica entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com o escritor mineiro Rosário Fusco (1910-1977), publicada pelo Pasquim há exatos 40 anos (nº 351, 19 a 26 de março de 1976). Sarcástico, amargo, ferino, Fusco deixa transparecer na matéria do Pasquim o atento leitor que sempre foi, o arguto pensador e, principalmente, o grande romancista.

“O escritor brasileiro é um supercamelo”, uma de suas frases, que “puxei” pra título da entrevista, foi copidescado por um dos editores do Pasquim (Ziraldo? Jaguar?) e saiu como título da matéria, em letras garrafais, como “O escritor brasileiro é um supercamelô”, o que mudou por completo o seu sentido. Na verdade, o que Fusco dizia era: “O romancista brasileiro não é, antes de tudo, “um duro”: é um supercamelo carente de enzimas digestivas: rumina, mas não digere”. Editada em corpo 8, texto compacto – como o tratado sobre a arte de tomar banho com um copo d´água, escrito por Mme de Montespin, que ele cita em uma de suas respostas (“composição corrida, cerrada, corpo 8 antigo”) –, mesmo assim a entrevista ocupou seis páginas (uma das maiores publicadas pelo Pasquim), com grandes espaços destinados às fotos de Adriana Montheiro, clicadas na casa do escritor em Cataguases. 

 Devidamente ampliadas, as fotos foram perdidas na redação do Pasquim, e os negativos também sumiram com o passar do tempo. Elas foram agora restauradas a partir de uma velha edição do jornal que sobrou em meu acervo, e tratadas no photoshop, mas o resultado deixa a desejar. De qualquer forma, elas vão ilustrar a entrevista que será publicada na íntegra numa série de crônicas a partir desta de agora, ao lado de algumas outras fotos cedidas pelo filho do escritor, Rosário François Fusco. As “fotos do Pasquim” ficam como registro do “momento” das inúmeras falas e papos com Rosário Fusco.
 “Quero que a dona Glorinha vá pra PUC!” (´Pontifícia Universidade Católica´, ressaltava). Eu e Joaquim trabalhamos com anotações de nossos longos papos com Fusco, textos já publicados e respostas por escrito a algumas perguntas. Ele detestava, ou dizia detestar, gravador (pouca coisa da nossa entrevista foi gravada). O que não é bem verdade: da última vez que o Vinicius de Moraes esteve em sua casa em Cataguases, Fusco gravou todo o papo, apesar de visivelmente impressionado com a Gesse. “Vejam vocês, essa baiana que o Vinicius arrumou é sensacional sob todos os aspectos: conseguiu beber aqui, na minha frente, enquanto conversávamos, uma garrafa inteira de cachaça. E pura: enchia um copo desse tamanho e mandava brasa como se fosse água. Bebeu com uma dignidade de fazer gosto: formidable”.
No mesmo dia em que saiu a entrevista, 19.03.76, um Rosário Fusco danado da vida – e sob a chancela “Reservadíssimo” – mandava-me carta de Cataguases: “… o que v. chamou de montagem de textos e o Pasquim divulgou como entrevista é furo jornalístico de foca provinciano”. E por aí seguia o velho e ferino Fusco, ameaçador: “… Mas pode ter consequências, pelas quais o responsabilizarei no momento oportuno, se for o caso”. A entrevista mencionava vários medalhões literários de forma inédita e bem-humorada, entre eles Lawrence Durrel e… Grace Kelly, a própria. Fusco temia inacreditáveis represálias sobre o que havia dito (e dito várias vezes), como se os dois, a “princesa” e “o autor internacional”, fossem algum dia ler o Pasquim. 
Apesar de outros envolvidos no, vamos dizer, quiproquó (o próprio Ziraldo, o Jaguar, o Joaquim, a Adriana, que fizera as fotos), ele não livrava minha cara: “Tirei o Joaquim Branco da jogada porque o estilo dos comentários – inconfundível pelos cacoetes – tenho certeza de que são seus”. O velho bruxo da Granjaria estava realmente fulo da vida. Por absoluto mistério do correio cataguasense, só em abril a carta chegou às minhas mãos no Rio. Devolvi de bate-pronto, numa longa resposta onde mostrava meu espanto com sua reação em cima de coisas já sovadas de tão ditas e repetidas para o fechadíssimo círculo que frequentava sua casa da Granjaria. E sobre as quais nunca se pediu segredo.
Em maio daquele ano não pude ir a Cataguases, tomado pelo nascimento de meu filho Pablo e do lançamento carioca de Selva Selvaggia, meu primeiro livro. No início de junho, recebo carta, agora sim, de meu velho amigo, que merece transcrição:
“Ronaldo: nada de ressentimentos, tanto mais que o dito ficou dito e, o falado, escrito. Velho aposentado não dispõe de tempo pra cartear, pois que o elenco de doenças que carrega lhe consome o tempo: entende? Vai entender, daqui a trinta anos. Parabéns (extensivos à Adriana) pelo duplo parto: do filho de papel e do filho do amor. Ambos são válidos e, às vezes, até se confundem nas nuvens do sonho igual. Estou projetando um artigo comprido sobre sua poesia: mandarei. Não convém que a turma do Pasquim apareça. Pelo menos, por enquanto. Assim que eu melhorar de, ao menos, uma de minhas mazelas (acho que todas já se instalaram em mim pra ficar até o dia do Juízo) avisarei. Annie se junta a mim para abraçar o, agora, quarteto Werneck. Do velho, Rosário (18.06.76).
“Morreu de talento. É a urna de cinzas detergentes do modernismo”, ele dizia sobre seu amigo Oswald de Andrade. Parecia falar de si mesmo, de seu talento, que lembrava o de Oswald.

Continua na próxima semana