30 de jul de 2014

RONALDO WERNECK e A MOVEABLE FEAST

                                                       
                                                      W. J. Solha





Acho que se poderia dizer que CATAMINAS POMBA & OUTROS RIOS, de Ronaldo Werneck, é uma prova de que o lema russo, caro a Tolstói, fale de sua aldeia e estará falando do mundofunciona,comoRONALDO REVISITA WERNECK SELVAGGIAprova que também estava certo o oráculo de Delfos no igualmente célebre, Conheça-se a si mesmo, e conhecerá os deuses e o universo. Confiram-se as fotos com que estão intensamente ilustrados os dois volumes. No primeiro, sóCataguases. No segundo, não apenas o autorse mantém o tempo todo como astro principal de seu “filme”, como nele é exaustivamente fotografado, depois do que se veem, reproduzidos, muitos, muitos poemas alheios a seu respeito, ...e não é só: no meio dabrochura,lá está, incluída,enorme fortuna crítica sobre a obra, toda de VIPs.

Não sem razão, Alcione Araújo, logo de cara, põe como títulodo próprio texto, a proclamação: “Pessoal, é tudo. Tudo é pessoal”. E é tudo, e é pessoal, mesmo. Como se Leopold Bloom se assumisse Joyce, mais ou menos o que fez Hemingway ao deixar a ficção de lado, pra contar sua parte na riquíssima época etílico/literária francesa, em Paris é uma Festa- A MoveableFeast. O melhor exemplo disso, no caso Werneck, é o intenso poema Cinerama/68, em que, pela nota de rodapé, fica-se sabendo que esse era o nome de um bar muito frequentado por ele e tantos outros fanáticos cinéfilos, que ficava ao lado do Cine Paissandu, Rio. Masquem é esse Werneck - poeta e autor de livros e documentários importantes sobre seu conterrâneo Humberto Mauro – se não o garoto Ronaldo, como ele mesmo se define no poema Esse Moço?:

do sexo masculino/ uma pessoa/ por todos prezada/ um bom menino/ se apresenta/ esquivo/ sem bossa/ a quem interessar possa.

Esse verso “um bom menino”, devolve-nos ao seu tempo de Cataguases, que conhecemos em Cataminas Pomba. Logo adiante, ele acrescenta, confirmando-se atento à séria, oracular recomendaçãoGnothiSeauton – KnowYourself:

–  tudo e todos/ saltam do peito/ do mais profundo poço/ dando forma e fundo/a esse moço/ pássaros neutrônicos/ elefantes levíssimos/ patinetes em pânico/ balões em neón/  nada igual.

E aí flagramos puro cinema, muitas e muitas vezes. Como em Cerrado´s Sentimental Express, onde ele resume a visão de Petrópolis na névoa, dizendo que o rio e o mar/ tudo em si/ encerrado/ tudo fora/ em cerração. Em seguida, em Plano Piloto:

futurontem/ a cidade/ pulsa/ enquanto o 707/ desacelera/ e plana/ sobre/ o / planalto / a cidade/ sidérea/ intrincada/ na ferocidade/ de artérias/ de encruzilhadas/ enredada/ em vida vias vasos/ no coração/ do planalto.

Mais adiante, o poema À la Papita começa, imensamente vivo, graças à presença de Etchichury:

meio dia em ponto/ e o grito ressoa pela casa/ toma de assalto/ o centro do planalto/ à lapapi à lapaiii/ à lapaapiiiitaaaa!!!! /// é etc é etchichury/ a plenos pulmões/ é meio dia/ e estão todos à mesa/ esses dez marmanjos/ subitamente presos/ no coração do planalto/ subitamente/ amigos de infância/ subitamente juntos / esses dez marmanjos/ no coração de cada um.

E o longo poema termina, contrastando com a alegria inicial, na constatação de que amanhã/ ao meio-dia/ a dezoras/ a qualquer hora/ não haverá lapapita // estará vazia a casa/ os quartos despidos/ o jardim em si encerrado/ por flores do cerrado// à mesa nenhum/ marmanjo/ para o suflê/ pratos/ talheres/ para a janta/ travessas / para dez fantasmas/ espinhas / atravessadas/ na garganta.

É um belo poema sobre alguém que esteve no paraísoe o viu se ir- “jardim em si encerrado”. Jardim Cerrado, ou, como diz o texto bíblico: hortusconclusus.

O cotidiano se ressalta quando “o poeta lê na varanda de sua casa em Itaipu – como ele mesmo conta no rodapé de Carpintaria - e, a seus pés, a filha Ulla, quatro anos, larga dados e reinações e lança-se toda no poema, reino do acaso”:

 - papi/ tô muito peocupada
 - mas ulla/ o que houve? (...)
 – a lua tá quebada.

Tenho um ensaio, “Em arte, o todo é sempre menor que sua melhor parte”, no qual destaco A Criação do Homem sobre todo o resto enorme do teto da Sistina;ou, sobre todo o Em Busca do Ouro, de Chaplin, destaco a cena em que Carlitos mete os garfos emdois pãezinhos, tornando-os sapatos, e faz com eles uma dança de Pinóquio; ou, sobre todo o Hamlet, destaco omonólogo Ser ou não ser;e sobre todo o Grande Sertão: Veredas, destaco o julgamento de ZéBebelo. Pois bem. No SelvaSelvaggia propriamente dito, dou com isto, no primeiro dos Três haicais à la carte:

Os brancos impressos
entre as letras são tetas
leite submerso

É incrível, esse momento em que o poeta esquece as letras e enfoca seus intervalos, como um músico que trabalha com silêncios, não com sons, ou –como o personagem de Cortázar e Antonioni–descobre um crime nasfrenéticas ampliações,blowups, de uma foto.
E o livro é todo assim. Como neste trecho de Coordenadas:
de desordenada vivência / & convivência (...)
Ou neste:
umpassionário em tudo
E em Círculo:
e o relógio tique-/tapeando o tempo

Dali amplia um detalhe do Napoleão em Friedland, de Meissonier (fantasticamente parecido com o Grito do Ipiranga do Pedro Américo), e mostra as riquezas abstratas que a tela – extremamente realista –contém.

E Werneck, em Full-time:
em cada fonema/  uma explosão em falsete/ uma explosão contida/ em cada letra.

Isso confirma a intenção revelada no começo de Cardeais de Poema:
minerar o poema/ de profundo/ essencial poço.

E em Viagem:
Vai meu poema/ é livre o campo/ a batalha é o canto/ espada cortante ritmo/ rompante audaz// vai meu poema/ massacra a floresta/ sinistra de meu lado/esquerdo.

Essa imagem: Floresta sinistra”, devolve-nos à epígrafe que explica o título do livro, e que diz muito sobre o autor:

Ah quanto a dir qual era è cosa dura
Questa selva selvaggia e aspra e forte
Che nel pensier rinnova la paúra.

Repetindo: Massacra a floresta / sinistra de meu lado /esquerdo. “Sinistra”com seu outro sentindo, joga com “meu lado esquerdo”. Com isso, o poeta revela seu coração como a selva selvaggia do título do livro, e que é dele que sua poesia trata.

Em dois poemas seguidos, dois lances geniais, bem ao estilo Escher. No início de Caminho, numa atitude própria de menino que vai ao Rio pela primeira vez, vindo de seu estado interior, de Minas, ele escreve:
o mar o campo / primeiro espanto / verde-amplo.

E, no final de Moonlight:
nunca tanta lua / para tão pouco //// marenoite

No final de Vergetais, vemos vincular-se esse coração, que é uma selva selvaggia, a uma natureza-morta:
sobre a mesa / descubro / a selvagem / tristeza // do tomate rubro
E eis Ulla de volta, em Vigília, numa réplica do pai:

ulla corre grita chispa / se mela remela / clama reclama / “perfuminho é meu  /
máquina é meu tinta / é meu é meu o mundo /é meu”

Obcecado pela vida, Werneck diz, em Verão, que é verão/ e são / comoção belas / as mulheres,e, caramba,  há costas/ a areia as coxas / o colo reluzindo, mas – ele retruca –há tanto Joyce para ler, tanto Pound, os gregos, os provençais...
havia tanto/ tanto tempo perdido,
e ele arremata, lá no final, numa negação do Tudo vale a pena / se a alma não é pequena”, de Fernando Pessoa, como se dissesse OK,
mas de que vale o poema / ante a mulher de ipanema?

Isso tem a ver com uma das paixões dele, naquele tempo: Amarcord. Tem a ver com a cena em que a multidão sai do cinema, ante o grito, lá fora, de que está nevando.Tem a ver com seu próprio poema Telstar, produto dessa mesma época, que é também a do Faça amor não faça a guerra, como no Makelove, notwar, de Lennon, em que Werneck faz seu Guerra e Paz, seu Hiroshima meu amor:

exclamo / eu te amo / e uma bomba / explode/ lá fora
(...) meu amor(...) uma bomba / estraçalhando / teu corpo (... )quan tri / chu thaun/ tay mihn / my lai

Nesse contexto, ele fala de uma separação, no poema Carta:
Sofro/ mas isso passa / que diabo / um profissional da dor / não sofre de graça.

Já no final, em Once upon a time, contrariando a visão inicial, dantesca, do mundo, ele usa como epígrafe uma frase do Oito e meio (de novo Fellini ):
 – “é una festa lavita”
Exato:
viver resplandece/ lantejoulas festa / no abismo do sono/ lantejoulas festa

Mas... aqueles anos são, ainda, os de As Mãos Sujas, de Sartre (1972) e de sua filosofia de liberdade com responsabilidade. Feito a sonâmbula rainha Machbeth, Werneck diz:
mãos sujas eu as lavo  / duetrevoltiognigiorno

Lá pelo final dos anos 80 vi uma deslumbrante série de tv, AMÉRICA, de João Moreira Salles, estupenda fotografia de Walter Carvalho, em que Robert Longo, um dos muitos grande artistasentrevistados, fala sobre o próprio espírito do filme:
– Produzir arte é relatar para o futuro como era viver hoje. É importante que meu trabalho represente o que eu sou, o que eu faço e o ponto em que estou no tempo.

Pois bem, SELVA SELVAGGIA, de 76, é isso. Fruto –em forma e conteúdo –de sua época e sobre ela, como oHomem com uma Câmera, de DzigaVertov(de 1929 e, portanto, também prisioneiro da circunstância: em branco, preto e mudo ).

Ciente disso e da importância do que fez, o poeta, ...vinte e nove anos depois, lançou, em busca do tempo perdido, esse RONALDO REVISITA WERNECK SELVAGGIA.
E aí?
– é una festa la vita?
- A MoveableFeast.

18 de jun de 2014

Mauro-Werneck em BH

Vejam a  minha entrevista na Rede Minas,  por ocasião da palestra sobre Humberto Mauro que fiz no Palácio das Artes, em Belo Horizonte MG.


13 de jun de 2014

O som de Solha ao redor



No verão de 2013, de passagem pelo Recife, assisti por acaso, sem qualquer indicação, ao filme “O Som ao Redor”, de Kléber Mendonça Filho. Não sabia nada do filme nem do diretor, mas como a trama acontecia no Recife acabei “arriscando”, já que ali estava. Grata surpresa: “O Som ao Redor” é um dos melhores filmes que vi nos últimos anos, e aí entram também os estrangeiros. De volta ao hotel, na Praia da Boa Viagem, me vi subitamente dentro do cenário de “O Som ao Redor” e lembrei-me do personagem Francisco (chefe de uma família que domina alguns quarteirões da Zona Sul do Recife) entrando no mar à noite, bem ali onde eu me encontrava.
Nos créditos do filme, lembrava-me de ter notado o nome de um dos atores, W.J. Solha, mas não sabia qual o seu papel. Pensei já ter visto o nome, talvez até em meus contatos de email, já ter lido alguma coisa dele, mas não ligava o nome à pessoa, ou vice-versa. Qual não foi minha surpresa quando há pouco tempo, por ocasião da morte de um amigo em comum, o escritor cearense Nilto Maciel, vi novamente o nome W.J. Solha assinando um texto sobre o Nilto na web. Havia uma foto dele e identifiquei de imediato o “Senhor Francisco” do Som ao Redor. Logo depois, li um excelente texto do Solha na Revista Eletrônica Rio Total, onde falava en passant do Guernica de Picasso visto no Museo Reina Sofia, em Madri, mas voltava os olhos com maior atenção para a mostra de um fotógrafo canadense, Jeff Wall, que ali se encontrava.  Também eu vira por duas vezes o Guernica no Reina Sofia, inclusive quando de uma grande exposição sobre Picasso, em 2010. E me detivera, e me detivera, e me detivera e vou me deter sempre ante o quadro trágico e monumental.
Mas a atenção de Solha naquele dia – Guernica à parte – fixou-se nas fotos de Jeff Wall – em transparência, de grande porte e retroiluminadas –, principalmente uma intitulada “Um brusco golpe de vento (a partir de Hokusai, de 1993”). Fora a dinâmica, o que mais deslumbrou Solha foi saber que a foto remetia a uma imagem que o japonês Hokusai (Katsushika Hokusai, 1760-1849) flagrara 200 anos antes. Daí, mostrando grande erudição, Solha parte para a influência da arte oriental na Europa, marcando trabalhos de Manet, Van Gogh, Cèzanne e outros mais. Seu texto, acuradíssimo, estava eivado de tal argúcia e propriedade que não me contive: acabei enviando ao Solha longo email elogiando o primor de suas palavras.  
Logo, seguiram-se outros e-mails de cá pra lá, de lá pra cá, e descobrimos vários e vários amigos em comum. Enviei também alguns de meus livros, enquanto aguardava/aguardo o envio de seus livros (o Solha poeta ganhou o prêmio João Cabral de Melo Neto e foi finalista no Jabuti), que ainda não chegaram. Qual não foi o meu espanto há algumas semanas, quando estava em Nova York – e pensara nele naquele mesmo dia, ao ver um quadro de Van Gogh no MoMa (o título de um dos livros de poemas de Solha, “Trigal com Corvos”, remete ao quadro de Van Gogh) –, qual não meu espanto, repito ainda espantado, ao ler no meu facebook dois textos do Solha sobre meus livros. Sou um analfabeto nos mistérios do facebook e não consegui enviar mensagem pra ele de meu i-phone, instrumento que manejo com total deficiência, com a imperícia de um matuto manobrando nave espacial.
Agora sim, “acá y ahora”, direto da base/Cataguases, prestidigito essas linhas de agradecimento. “Paraibano” desde 1982, embora nascido em Sorocaba, o escritor, poeta, dramaturgo, roteirista, ator e artista plástico W.J. Solha é desses seres multifários que fazem de tudo um muito e um muito de tudo, com argúcia e grande competência. Mais que agradecido, sinto-me honrado com suas palavras. Parece cabotinismo (e é), mas não resisto a divulgar aqui os seus textos sobre meus livros. Gracias, Solha!


Ronaldo Werneck em
cataminas pomba & outros rios
W. J. Solha


A obra tem substancial fortuna crítica. Fábio Lucas define-a como um suave percurso pela estória, pela História, pelas partes do Ser. Articulando confidências da memória e da memória coletiva. Mas Délson Gonçalves parece alertar, em versos, que se trata disso tudo, mas também de poesia, ao acrescentar a essa definição algo essencial, quando diz que “o rio caminha fora de mim/ e o mesmo Pomba me navega por dentro”. Não é à toa a citação que o próprio Werneck faz de Neruda: “– Sé lo que dicen / todos los rios. (...) Hay secretos míos/ que el rio se há llevado. (...) Reconocí en la voz del Arno entonces/ viejas palabras que buscaban mi boca”. Recapitulando: “Confidências da memória e da memória coletiva”. “Secretos míos”.
Tem a ver, que numa reedição futura, por isso mesmo, talvez o livro venha a se encher de notas de rodapé, como o “The Waste Land” do Eliot, desnecessárias para os de Cataguases e – em alguns casos – somente para o autor, pois a obra acaba tendo alguma coisa muito pessoal, claro que não hermética como no “Finnegans Wake”, mas tendo. Exemplo: “como numa fotografia/ como num stop no tempo/ como num apanhado do landóes”. Felizmente o volume é fartamente ilustrado e se vê, no verso de uma foto de 1911, reproduzida justamente nesse ponto: “Atelier Photográphico Alberto Landóes”. Como diz o Manoel de Barros, numa das inúmeras epígrafes do livro: “Imagens são palavras que nos faltaram”.
 Mas isso fez com que eu só fosse conquistado totalmente pela obra quando – no final dela – Werneck fala de rios com que não tem a mesma intimidade, como o Tajo, o Tâmisa, o Sena, que me fizeram voltar ao Cataminas e ao Pomba com outros olhos. E por falar em fotos, realmente cataminas pomba & outros rios tem a beleza extra de muita, muita fotografia de Cataguases e de sua gente, o que, com o que afirma Fábio Lucas – seu ritmo é cinemático – mais o fato de que o poeta é apaixonado pelo cinema, me fazem ver, nele, por um momento, um belo roteiro devidamente ilustrado com todas as suas locações no tempo e no espaço.
Por que, então, se não lhe faltavam engenho & arte, Werneck não fez um filme? Porque, parafraseando Manoel de Barros, palavras são imagens que nos faltaram. Como quando o mesmo Werneck, genialmente, diz: “Pressinto/ cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade/ do exterior/ mineiro”. Uau! Mais adiante, ele descreve o Tibre como “fio presente ausente/ nas glórias de outrora/ não se vê não se sente”. Mas “não se vê, não se sente” o quê? “faces flashes de outrora/ estilhaços de fausto/ tênues fragmentos/ sombras sobre a história”. Claro. História!
Ele é novamente genial quando diz, em El tajo/tejo:toledo: “Miúdo /em toledo el tajo é tudo/ el cid el greco”.  Exato. Senti isso ao parar na pista, fora da cidadela fortificada pelo rio franzino que a rodeia no fundo do vale, eu exatamente onde o pintor excepcional fincara o cavalete para pintar a bela Vista de Toledo, cheia do espírito místico da cidade e dele mesmo. Werneck me faz pensar novamente nela, quando descreve Ouro Preto: “chove sobre a cidade encarcerada em sabão e pedra”, finalizando assim: “chove água que escorre sobre o ouro dos pretos e leva sua memória”. Não “lava”, como seria de se esperar. “Leva”. É impressionante como ele venera sua terra, como ama a História.
Ele diz, em L´arno a firenze: “Como antes/ la luna / a mesma/ de dante/ & petrarca/ a mesma se via/ sobre a água/ refluxos de poesia”. E vai fundo, em El manzanares en madri: “Um rio/ fechado em si/ um rio/ lago/ um rio/ del cante-jondo/ pardo-tardo-redondo”. Fluem, assim, os versos de Werneck, sobre o rio que cruza Cataguases “correndo corroendo/ um século em cada minuto”. “Correndo corroendo”. “A preta prata madrugada”. “Gretas grutas”. Nesses desdobramentos de palavras – que me lembram o glauberiano poeta recifense Jomard Muniz de Brito –, ele mostra o quanto cuida de cada detalhe do que compõe, quase como um outro grande mineiro, Guimarães Rosa, mas empenhado na multiplicação dos enfoques, como os cubistas faziam, trabalhando sempre com vários ângulos simultâneos, como numa quarta dimensão.
“O bafo da railway bufando com bazófia/ entre nostálgicas indústrias/ se acendendo se ascendendo se/ movendo-se movendo se/ como loucas se locomovendo se”.  Cinema? Quase. Veja a decupação que ele faz desta cena: “O rio envolve/ esse tropel de burros/ bicicletas/ meninos soltos/ no pó/ no pé descalço/ nos galhos/ pendurada no ar/ nas árvores”. Mas aí se segue o pulo do gato: “a poesia / se desmanchando/ se amarelando/ se dissolvendo”.


Humberto Mauro revisto
por Ronaldo Werneck
W. J. Solha

Acredito que Humberto Mauro esteja para Minas como Linduarte Noronha para a Paraíba. O documentário “Aruanda” – paraibano – foi, segundo Glauber, a estreia do Cinema Novo brasileiro, o primeiro filme nacional feito apenas “com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Graças a esse enorme elogio, eu e o José Bezerra Filho, quando fundamos a Cactus Produções Cinematográficas Ltda, lá em Pombal, no alto sertão paraibano, em 1969, onde éramos funcionários do Banco do Brasil, o convidamos para dirigir aquele que foi o primeiro longa de ficção, do estado, em 35 mm – “O Salário de Morte” – no qual fiz a direção de produção e o papel de um pistoleiro.

Foi uma loucura: vendi a casa e um caminhão para investir no filme, de que praticamente toda a cidade foi acionista. Essa coisa épica eu acabo de reencontrar no monumental “Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck”, de fascinante leitura, pelo conteúdo gigantesco e pelas mil formas – coisa pra o “Ulisses” de Joyce – encontradas por Werneck para narrar e narrar e narrar o que foi tudo aquilo que aconteceu em Cataguases, engrandecendo Minas no nascedouro do cinema brasileiro, lá pelos anos 1920, quarenta anos antes do famoso documentário do Linduarte. Gostoso, no livro, ver Glauber assistindo quatro vezes ao “Ganga Bruta” do Mauro, enquanto o resto da turma de cineastas estava numa festa, naquele interior mineiro. Não é à toa que sinto no ambiente escolhido para “Terra em Transe” muito do que se vê nesse longa de 1933.
Gostoso ver o quanto o paraibano Walter Carvalho comparece no livro, inclusive no enterro do Humberto. Gostoso ver o Werneck entrevistando seu velho ídolo, com toda a intimidade que só os conterrâneos têm. Gostoso ver as primeiras divas brasileiras irrompendo lá de Cataguases. Gostoso ver a coisa simples que é flagrar Humberto vendo um filme americano e dizendo a um amigo “Isso eu também faço”, e fazer. Gostoso ver os primeiros investidores desse cinema que brotava da terra, comerciantes da cidade pequena, como fizeram os de Pombal. Gostoso ver o rico manancial de imagens fotográficas com que o volume ilustra o que conta. Quem gosta de cinema não sabe o que está perdendo: “Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck”.

João Pessoa, 22 de maio de 2014






16 de ago de 2012


Cataguases, 1975:
Ronaldo Werneck, Joaquim Branco e Rosário Fusco


35 anos sem Rosário Fusco

Exatamente há 35 anos, no dia 17 de agosto de 1977, morria em Cataguases o escritor Rosário Fusco. Nascido em 19 de julho de 1910 em São Geraldo (MG), Fusco veio com um mês para a cidade onde se tornaria, com apenas 17 anos, um dos fundadores e enfant terrible da Revista Verde. Lançada em Cataguases em 1927, a Verde foi um dos principais braços do movimento modernista em Minas Gerais. Após longo périplo “oropa-frança-bahia” (Rio-Paris-Nova Friburgo), Rosário Fusco voltou em 1968 para Cataguases, onde ficou até o final da vida. Em 2010, seu centenário de nascimento passou praticamente esquecido.  Escrevi na ocasião um pequeno texto, ainda inédito, que coloco a seguir, junto com um verbete sobre ele e um artigo que publiquei no Suplemento Cataguarte, editado junto com o poeta Joaquim Branco nos anos 1990. Divulgo aqui esses três textos como homenagem e relembrança de meu amigo, trinta e cinco anos após sua morte.  



ROSÁRIO FUSCO 100 ANOS

Fusco para principiantes 

“Não vou dizer que a leitura de seus poemas seja ainda insuficiente para conhecer o poeta, o que seria uma impropriedade. O lugar da literatura não é outro senão a linguagem, e é no texto que a poesia produz ou não o seu impacto. Mas é em matéria de impacto, justamente, que o caso Waly tem que ser pensado de múltiplas formas. (...) A presença de Waly promovia uma chuva ao mesmo tempo premeditada e repentista de brilhações fulgurantes, aliciadoras e hilariantes. (...) Essa intervenções protéicas, exorbitantes, que aconteciam em enxurradas junto de Waly, arriscam-se a passar por uma coleção de anedotas pitorescas e a sair diminuídas, se narradas assim, isoladas e fora do momento insubstituível em que aconteciam”. 

Quem escreveu isso foi o José Miguel Wisnik em sua coluna de hoje no Globo. Ele está falando do poeta Waly Salomão, meu saudoso amigo Waly, que era de tal forma um “vulcão de criatividade instantânea” que muitas vezes sua hiperbólica presença apagava o brilho de seus próprios poemas. Lendo essas palavras do Wisnik, lendo e me lembrando da figura do Waly, foi que me dei conta de como sua presença tomava toda a cena e se assemelhava à de Rosário Fusco. E de como essas palavras do Wisnik sobre o Waly se ajustam perfeitamente ao homem Rosário Fusco.  

Nascido em 1910, este é o ano do centenário de Fusco, que se foi há 33 anos e exatos 25 dias. Mas para quem o conheceu, não há como esquecê-lo.  A seguir, o verbete que escrevi para Os 100 do Século em Cataguases (publicação editada no ano 2000 pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho) e outro texto em sua homenagem, que publiquei em 1999 no Suplemento Cultural Cataguarte.

RW/Cataguases, 11 de setembro de 2010


Rosário Fusco de Souza Guerra, escritor e advogado, nascido em São Geraldo, em 19.07.1910. Enfant terrible e talento maior da Revista Verde, correu mundo como embaixador (involuntário) de Cataguases, para onde voltou... e para sempre: 17.08.1977. 

“Lá se foi o velho Rosário Fusco” – escrevia o cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil de 21 de agosto de 1977, quatro dias após a morte do romancista em Cataguases: “um gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se preferirem) a aventura antropofágica proposta pelos modernistas. Cosmopolita, para onde quer que fosse levava um coração provinciano. Teria que terminar em Cataguases, misteriosa cidade com vocação de radioamador – dentro das casas, nos bares, na praça, na modorra da roça é apenas uma prevenção de forasteiro; na verdade, Cataguases está em febril contato com o mundo, é pioneira em cinema, em literatura, em arquitetura”.  

A “Cataguases pioneira em literatura” deve muito a Rosário Fusco – ainda um menino de 17 anos e já fazendo com outros rapazes uma revista que daria o que falar na Capital de Minas, na de São Paulo, em várias outras capitais do Brasil e até no exterior. Fusco foi o motor da Revista Verde, um vulcão que escrevia, ilustrava, diagramava, mandava (e recebia) cartas pra todo mundo, mas principalmente pro modernista Mário de Andrade, descoberta e aprendizado. 

Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira.  Estuda na Escola Maternal Nossa Senhora do Carmo, conclui o primário no Grupo Escolar Coronel Vieira e faz o secundário no Ginásio Municipal. Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho, bedel no Ginásio. Aos 15 anos, já colaborava no “Mercúrio”, jornal dirigido por Guilhermino Cesar, futuro companheiro na Verde, e logo em dois outros jornaizinhos, “Boina” e “Jazz Band”. Com José Spindola Santos, edita “Itinerário” – e juntos fundam a livraria-editora Spindola & Fusco. Aos 17, é um dos criadores da Verde e, aos 18, publica “Poemas Cronológicos”, parceria com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, Verde Editora, 1928. Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937. 

Romancista, funcionário federal, dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista, crítico literário, ensaísta, secretário da Universidade do Distrito Federal e procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um homem só, mesmo um mulato enorme e da melhor qualidade como Rosário Fusco. Melhor dizer, simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque ele foi o primeiro escritor brasileiro a ser reconhecido como tal pelo antigo INPS. Em meados dos anos 1960, ele volta para Cataguases. “Aonde anda Rosário Fusco?” – (se) perguntava em 1996 um poeta da terra, no suplemento Cataguarte: “Aonde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do seu escritório na casa da Granjaria. Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações ´do rol das confessáveis´ (as outras: Machado de Assis, Dostoievski, Beethoven). Mas que coisa é Rosário Fusco, que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.?”. 

De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance “L´Agressore”, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio – Fusco publica inúmeros títulos em vários gêneros: “Fruta de Conde”, poesia, 1929; “Amiel”, ensaio, 1940; “O Livro de João”, 1944, “Carta à Noiva”, 1954, “O Dia do Juízo”, 1961, romances; “Vida Literária”, crítica, 1940; “Introdução à Experiência Estética”, ensaio, 1949; “Anel de Saturno” e “O Viúvo”, de 1949, teatro; e “Auto da Noiva”, farsa, 1961. 

Que coisa é Rosário Fusco? Um escritor e basicamente um romancista, com toda a sua danação e glória: “Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever... Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes... Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protestos de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça, irremovíveis...Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair... Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”.

Na crônica citada, Carlinhos Oliveira brinda à vida e faz de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem dúvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”.
Os 100 do Século em Cataguases, 2000




ROSÁRIO FUSCO 

rosário fusco o que foi físsil rosário fósforo
foi-se de fato fora do rastro do que já foi
sim porque nunca foi
rito rosto rateio ritmo rumo ruminação relíquia.

A tênue densidade dos corpos




Ainda hoje é comum os americanos se indagarem sobre o que faziam no dia em que John Kennedy foi assassinado. Foi um novembro inesquecível, aquele novembro de 63, aquele dia de frente para a morte. Na noite em que Rosário Fusco morreu, falei com o Ziraldo pelo telefone e combinamos que eu faria um artigo pro Pasquim. Estava no Rio – e com a casa cheia: minha mulher ensaiava com outros atores a peça Apaguem os Lampiões, que seria encenada no mês seguinte, setembro, em Cataguases. Desliguei o telefone ainda chorando e ainda chorando tranquei-me no escritório: um maço de Minister, um litro de Cutty Sark e a velha e às vezes infalível Lettera 22.


A mesma Lettera 22 que trouxe do Rio e onde escrevo agora, quase 19 anos depois, longe de Copacabana e do meu PC-486. Daqui da casa de minha irmã, de volta ao passado, mais uma vez cavalgando a imbatível Lettera 22 com seu teclado magicamente ajustado ao ritmo de meus poemas. Daqui deste terraço de frente pro verde, pros verdes matos e montes gerais, nesta manhã de maio em Cataguases, muito, muito perto do velho Rosário que avisto lá naquele morro, aquele lá pra onde vou também juntar-me a ele que ali já se encontra junto com Annie. 

Estamos em agosto de 1977, na virada de 17 pra 18, dia em que Rosário Fusco será enterrado em Cataguases. Eu acabara de chegar do exterior, onde estivera a trabalho durante longo período –  se é que podemos chamar Asunción del Paraguay de “exterior”.  De qualquer forma, estava isolado do país e há mais de três meses não via ou tinha qualquer notícia de Rosário Fusco. Movido a lágrima e uísque a caubói, exatamente como com ele tantas vezes bebi, só consegui sair do escritório no “cu da aurora” (d’aprés R.F.), trazendo debaixo do sovaco um texto emocionado que o Pasquim publicaria na semana seguinte.  Não consegui viajar pro funeral: sem condições. No ano anterior, março de 1976, há exatos vinte anos, portanto, o Pasquim publicava a entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com Fusco e que vai em parte reproduzida neste jornal. Deu um bode dos diabos. 

No mesmo dia em que saiu a entrevista, 19.03.76, um Rosário Fusco puto da vida    e sob a chancela “Reservadíssimo” –  mandava-me carta de Cataguases: “... o que v. chamou de montagem de textos e o Pasquim divulgou como entrevista é furo jornalístico de foca provinciano”.  E por aí seguia o velho e ferino Fusco, ameaçador: “... Mas pode ter consequências, pelas quais o responsabilizarei no momento oportuno, se for o caso”.  A entrevista mencionava vários medalhões literários de forma inédita e bem-humorada, entre eles Lawrence Durrel e... Grace Kelly, a própria. Fusco temia inacreditáveis represálias sobre o que havia dito (e dito várias vezes), como se os dois, a “princesa” e “o autor internacional” fossem algum dia ler o Pasquim 

Apesar de outros envolvidos no, vamos dizer, quiproquó (o próprio Ziraldo, o Jaguar, o Joaquim, a Adriana Montheiro, que havia feito as fotos), ele não livrava minha cara: “Tirei o Joaquim Branco da jogada porque o estilo dos comentários – inconfundível pelos cacoetes  – tenho certeza de que são seus”. O velho bruxo da Granjaria estava realmente puto da vida. Por absoluto mistério do correio cataguasense, a carta só chegou às minhas mãos em abril.  Devolvi "de bate-pronto" numa longa resposta onde mostrava meu espanto com sua reação em cima de coisas já sovadas de tão ditas e repetidas para o fechadíssimo círculo que frequentava sua casa da Granjaria. E sobre as quais ele nunca pedira segredo.


O dito & o escrito 

O próprio Fusco chegara mesmo a ver grande parte do texto publicado pelo Pasquim: “Foca provinciano – eu dizia em minha resposta – é no mínimo muito engraçado. ‘Foi uma das melhores entrevistas do Pasquim’ (Ziraldo), a única que mereceu seis páginas e todo aquele aparato fotográfico. Certamente (e falando sério) pelo talento & fotogenia do (suposto?) entrevistado. Mas se o ‘foca provinciano’ que editou a matéria (‘com seus comentários inconfundíveis pelos cacoetes’) não tivesse as fotos de primeira qualidade da Adriana, algumas perguntas (respondidas por escrito) do Joaquim Branco ou os fragmentos (já publicados) das cartas de RF para Laís Correia de Araújo, a entrevista possivelmente ficaria esquecida na gaveta de algum pasquim provinciano. O que teria sido melhor: para RF, para RW... A imaginação do romancista (maior) pode – isso sim – ter sido por demais fértil”. 

 Era na verdade uma briga de amor onde eu terminava dizendo que “o Ronaldo manda um abraço pro Fusco (como normalmente nos chamávamos) e pra tribo inteira, como de hábito (isso porque, na carta, ele me chamava de “Ronaldo Werneck” e assinava “Rosário Fusco”, procurando manter total distanciamento). Em maio daquele ano não pude ir a Cataguases, tomado pelo nascimento de meu  filho Pablo e de Selva Selvaggia, meu primeiro livro. No início de junho, recebo carta, agora sim, de meu velho amigo, que merece transcrição: 

Ronaldo: nada de ressentimentos, tanto mais que o dito ficou dito e, o falado, escrito. Velho aposentado não dispõe de tempo pra cartear, pois que o elenco de doenças que carrega lhe consome o tempo: entende? Vai entender, daqui a trinta anos. Parabéns (extensivos à Adriana) pelo duplo parto: do filho de papel e do filho do amor. Ambos são válidos e, às vezes, até se confundem nas nuvens do sonho igual. Você me cita no prefácio do livro do Quincas (Joaquim Branco) e o Cabral (Francisco Marcelo) me cita no prefácio de seu livro. Isso dá a impressão de que existe uma igrejinha cataguasense, mais nordestina do que mineira – o que não é bom. Creio que seu amigo Ezra Pound, na conjuntura, lhe proporia a seguinte charada inconsequente que psicografo por estranha força do astral:  'eu te cito/ você me cita/ na área do consumito/ você apita/ se eu apito/ no mesmo apito/ nada comum/ pois que o dito/ só clama aflito/ o pobre mito/ de cada um'. Abraços do Rosário (02.06.76) 

“Ronaldo: veja, por favor, se descobre o endereço do famoso Dr. Ruper(?), considerado o maior urologista das três Américas... estou projetando um artigo comprido sobre sua poesia: mandarei. Não convém que a turma do Pasquim apareça. Pelo menos, por enquanto. Assim que eu melhorar de, ao menos, uma de minhas mazelas (acho que todas já se instalaram em mim pra ficar até o dia do Juízo) avisarei. Annie se junta a mim para abraçar o, agora, quarteto Werneck. Do velho, Rosário (18.08.76). 

Não me perguntem como, mas devo ter achado o endereço do "famoso Dr. Ruper", pois em 30.09.76 ele me agradecia em meio ao intenso sofrimento físico e a comentários sobre uma revista que lhe enviara. Prometia também terminar um artigo sobre meu livro Selva Selvaggia, que nunca vi: “De pleno acordo com você quanto à paginação da revista (José): limpa e fria, monótona como uma viagem de trem no escuro. Também a matéria não rima com o formato nem com a indicação pomposa da tríplice especialidade: 'literatura, crítica e arte'... Doente outra vez – ou como sempre – mas, desta feita, obrigado a uma viagem diária a J. de Fora (aplicações de raio x  nas mamas), ando sem ânimo pra cuidar das coisas de que mais gosto: ler, escrever e, até, ...beber. Não acabei o artigo sobre Selva: mas  quero publicá-lo até o fim do mês: antes, submeterei o trololó à sua apreciação, ou ao seu entendimento, como diria o mulato Machado”. 


Que coisa é Rosário Fusco? 

Era o velho Fusco que voltava à toda e me fascinava como sempre, como na primeira vez em que o vi, absolutamente só (Annie ficara em Friburgo, enquanto ele construía a casa em que iriam morar no bairro da Granjaria), numa sala nas proximidades do campo de futebol do Colégio Cataguases, lá pelos meados dos anos 1960. A cabeça surgindo imensa e se destacando no cipoal de garrafas sobre a mesa, a cabeçorra de Rosário Fusco que emergia por entre o mar de martinis e gin, muito gin, imaginem. Remexo na memória, num velho envelope escrito "R.F.", que trouxe do Rio.  

 Estão aqui, neste terraço cataguasense, os vestígios do velho Rosário que carrego comigo. Onde anda Rosário Fusco? Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, as lágrimas, o uísque, o cigarro, a imensa caixa de fósforos marca Olho, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do escritório, como a de Van Gogh, o mesmo daquele auto-retrato ali no fundo, primorosa reprodução feita pela Annie. Mas que coisa é Rosário Fusco? Que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.?            

“Jamais descobri porque, aos 17 anos, fiquei sofrendo do peito, por solidariedade a Manuel Bandeira (que deve possuir uma carta minha a respeito)”. 

“Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi  a vontade de escrever”. 

“Amor é doença, como escrever. Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes”. 

“Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protesto de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça irremovíveis”. 

“Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los  sair”.           

“Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”. 

 Começo a futucar essas coisas “fuscais”, esses velhos papéis que me ofuscam e quase planam na memória – não fora a irreversível “densidade dos corpos” que ele gostava sempre de lembrar.  E remexo com a hierática postura que ele me ensinou um dia – solene, entre uma tragada e uma talagada: “Meu caro poeta, para ler, mas ler mesmo, comme il faut, aproveitando o que se lê, aprendendo, é preciso apreender, é preciso estar com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça apoiada em uma das mãos, a caneta na outra, anotando o ‘anotável’, digerindo o ‘digerível’, ou o dirigível, como queira”. É o que eu hoje chamo de  “leitura fuscal cotovelar”    a que fica e nos justifica. 

Então, "cotovelemos" juntos com as palavras de Rosário Fusco: Ronaldo: Lamento sinceramente não me ter encontrado com você. Com um febrão danado (39,5 à sombra), até o sagrado mijo eu o mictava na cama (num ‘compadre’, claro). Obrigado pela trazida do Processo (?): ainda não o abri, nem o abrirei tão cedo, com o rabo ruim e a alma pior. Reli seus poemas: acho que v. já tem idade para editar-se. Não falemos da entrevista nem de O Anunciador (Longa-metragem realizado em Cataguases em 1967, dirigido por Paulo Bastos Martins). Gostaria que  v. me mandasse:   

1 quilo de bacalhau ‘Neptun’s (dinamarquês, em pacote).
6 garrafas de ‘Merlot’ (Granja União).
6 garrafas de ‘Cabernet’ (idem).
Se tiver tipo ‘Medoc’, pode meter 6 também. Pagarei aqui, ou aí, como quiser. Abraços apressados e hemorroidários do R.” (26.08.70).


As mamas do Finnicius 

Era assim, totalmente imprevisto, misturando tudo, poemas, bacalhau e vinho, muito vinho, de uma só ‘cambulhada’, como gostava de dizer. Foi mais ou menos por aí, meados de 1972, que ele esteve no Rio, rumo a Paris. Passou um mês no Apa Hotel, em Copacabana, junto com Annie, a francesa com quem se casou cinco vezes e que o acompanhou sempre – e ainda agora está a seu lado no campo santo do alto daquele morro que avisto daqui. Annie que lhe deu François, o Rosário François Petitjean Fusco de Souza Guerra, então um menino de pouco mais de dez anos. Fusco passou um mês absolutamente de porre, não querendo embarcar por absoluta paúra de voar, “até mesmo de elevador”: hospedou-se no 2º andar e só transitava pelas escadas, sempre para o hall onde bebíamos, onde bebíamos, onde bebíamos. Ele dava generosas gorjetas aos empregados do Apa para levarem François ao circo, ao Tívoli Parque, aos cambaus infanto-juvenis. Nós nos víamos quase todos os dias noite adentro. Annie me pedia, aflita, para convencer o "Rosárr" a pegar o avião logo, pois o dinheiro que haviam trazido para a temporada européia estava indo embora entre garrafas & gorjetas. 

Pouco antes de finalmente embarcada para Paris a tribo Fusco, eu e meu amigo fomos ao tradicional almoço das sextas-feiras na Livraria José Olympio. Rosário queria rever amigos e lá fomos nós, devidamente calibrados, a pé pela praia de Botafogo, após deixarmos Annie e François na Sears. Duas figuras de almanaque: Fusco muito alto, de terno escuro, sem gravata e... sem sapatos (os pés inchados há muito não permitiam essa “modernidade”). Eu muito baixo perto daquele mulato gigantesco, trôpego, possivelmente tropeçando em minhas próprias barbas. Ainda não dera meio-dia e já havíamos bebido “todas” segundo o jargão de hoje. Fusco brilhou, ofuscou a todos no almoço coalhado de literatos de vários calibres. Lá pelas tantas, Zé Olympio me chamou em seu escritório. Queria saber, em particular, sobre as mamas de Rosário, que estavam muito inchadas. Sua preocupação não era infundada: as mamas inchadas já eram um indício do início do fim ou do reinício de tudo, do “finnicius” do, segundo ele, “sovado Joyce”. Mas, antes, vamos a Paris: 

“... Já voltamos da Bretagne. Pra Annie e François, uma festa. Pra  mim, uma bosta. Quinze dias sem comer. Uísque (baratíssimo): um litro por 24 horas... Abraços de tribo pra tribo. Rosário” (Paris, 18.07.72). 

 Corta pra alguns anos depois, talvez 1975.  Eu estava em Cataguases e minha mulher foi internada por causa de uma desidratação. Nada sério.  Relia alguns contos de Machado no quarto do hospital e, engraçado, pensara no Fusco, pois o “mulato” era uma de suas admirações, do “rol das confessáveis” (as outras: Van Gogh, Dostoievski, Beethoven, não necessariamente nessa ordem).  Saí pra fumar no corredor e dei com uma enfermeira que me conhecia (eu, não) e fez a maior festa, pegando-me pela mão, prometendo uma surpresa inacreditável. Era mesmo. 

Ao abrir a porta de um dos quartos, a madrugada em meio, deparamos com a seguinte cena: um enfermeiro, duas enfermeiras, uma garrafa, duas garrafas, várias garrafas, muita fumaça e baforadas e um alegre Rosário Fusco regendo o porre hospitalar.  Ele subornara todos & todas. Abriu nova garrafa pra comemorar minha chegada e... “mergulhamos de vez no materialismo histórico”, como ele gostava de dizer, citando Oswald de Andrade.


Creme de Pérolas 

Foi também aí, meados dos anos 1970, que Fusco me mostrou alguns poemas de um volume inédito sobre a Lapa. Praticamente impublicável na época, o livro (Creme de Pérolas, que ótimo título!) está inédito até hoje. Tenho aqui, à minha frente, um de seus poemas, o de que mais gosto, ainda impublicável em jornal, ditado por ele e datilografado por mim numa manhã etílica da Granjaria. Transcrevo alguns trechos, dos publicáveis. O título é “Edital de demissão e ponto” e foi manuscrito pelo próprio com a velha Parker 51:  



Meu caro poeta:
Meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.
O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.
Erra,
quem pensa que as palavras valem
hoje em dia
– pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.
São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.

(...)

Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam
o pai
a mãe

( ...)

Sobretudo
o teu gorjeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.

( ...)

 Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.
A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
omite
e
demite poetas.


 Ora, pra quem se acreditava  "somente" romancista (Sempre fui um desprezível poeta    mamãe dizia que versos não enchem barriga) este é um poema que nos chega com a força do grande poeta.  Creme de Pérolas  pede urgente publicação, principalmente por se tratar de uma faceta desconhecida de Rosário Fusco. Meu amigo era também um crítico arguto de poesia, como se vê pelos trechos desta carta, a última que me enviou, em 19.05.77:  

Seu poema não precisa de apresentação (ele falava de uma versão inicial que lhe havia enviado de meu livro “Pomba Poema”, homenagem ao centenário de Cataguases, que seria lançado em setembro de 1977). Ele se apresenta em tons de ‘martelo’ (nordestino) e ‘carretilha’ (mineiro). No que se refere ao ritmo. Quanto à forma é uma explosão subconsciente (supra-realista) dominada, dirigida, como faziam os primeiros modernistas (Mário, principalmente) e, hoje, até o Chico Anísio nos seus poedramas (da TV) sincronizados, acentuando as rimas... No formato pretendido por v. não há economia de papel, custo etc: duas páginas de sua paginação se reduzem a uma, no formato tradicional. Lembre-se da disposição gráfica do Coup de dés. Não siga o conselho de seu amigo (o designer cataguasense Dounê, que fez a programação visual): a estatística só funciona no campo da ciência. O número é restrição, corte de asas. E você está voando, meu poeta. Eu tenho uma edição de Mallarmé que poderá orientá-lo tipograficamente. É de 914 e repete o poema do homem como foi composto e publicado originariamente, em vida do poeta. Não posso me estender mais, com dores tremendas – e sincopadas – em todo o esqueleto (Fusco morreria três meses depois): ossoporose  (sic: ele grafou e grifou ‘osteoporose’ de forma trocada). Venha conversar comigo, ou telefone. Seu velho, quadrado e anti-modernista Rosário”. 

 Ah, sim: no dia 22 de novembro de 1963, enquanto John Kennedy morria em Dallas, eu viajava de ônibus do Rio para Cataguases. Soube na parada de Além Paraíba. Traguei forte meu Luiz XV sem filtro e soltei a fumaça em espiral sobre o rio Paraíba. Tinha exatamente vinte anos e um mês – e a vida parecia uma parada maior que a morte, até mesmo a de Kennedy. Não era.

Suplemento Especial “Cataguarte”, Cataguases, 1996