14 de dez de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 2

A morena foi embora 



Morto recentemente aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar (São Luís do Maranhão, 10.09.1930; Rio de Janeiro, 04.12.2016) gostava de dizer que muitas pessoas se enganavam ao vê-lo na janela. Nem sempre ele estava olhando a rua, a paisagem – mas sim trabalhando em algum poema. Gostava também de mencionar o episódio de um economista que conheceu durante o seu exílio no Chile dos anos 1970. O sujeito namorava linda morena, que sempre trazia a tiracolo, e seu assunto era só economia, economia, economia. “Um porre”, dizia o poeta. Até que um dia a morena deixou o gajo e ele apareceu meio transtornado e só falava poesia, poesia, poesia. Para o “espanto” de Gullar, ele sabia de cor poemas de Eliot, de Shakespeare, de Whitman e outros, e outros.
Foi quando Gullar se deu conta (antes dele ter descoberto a palavra “espanto” como espécie de motor de seus poemas) de que “a poesia vem quando a morena vai embora”. O samba de Ataulfo Alves parece ter acertado na mosca para autenticar o “surgimento” da poesia pelo poeta: Pois é/ falaram tanto/ que dessa vez/ a morena foi embora./ Disseram que ela era a maioral/ e eu é que não soube aproveitar./ Endeusaram a morena tanto tanto/ que ela resolveu me abandonar. Não sei dizer quantas morenas foram embora da vida do poeta, se é que foram. O que sei é que a poesia às vezes demorava, mas quando vinha era quase sempre de alta qualidade.
Encontrei-me com Gullar poucas vezes nessa vida, quase sempre em seu apartamento de Copacabana, na Rua Duvivier. Lembro-me de uma delas, meados dos anos 1990, quando lá estive ao lado dos poetas Francisco Marcelo Cabral e Suzana Vargas. Gullar iria se apresentar dias depois no CCBB; melhor, apresentar-se com seus poemas-objeto num evento realizado por Suzana. Levamos uma câmera, a do próprio Francisco/Chico Cabral, e um cameraman improvisado, no caso eu mesmo. O poeta dispôs seus poemas na grande mesa da sala e começou a discorrer sobre eles, enquanto eu os enquadrava com a câmera quase em close, passeando em lento travelling sobre sua obra. A coisa ia caminhando bem, até que foquei um poema estranhíssimo, escuro, mais que escuro, preto; mais que preto, pretíssimo e em movimento, com num súbito fade-out.


“Essa é boa – cheguei a pensar – um poema em movimento, um Malevich às avessas: não white on white, mas black on black. Um espanto: sem dúvida a poesia vem do espanto, como diz Gullar”. Antes que me espantasse de vez resolvo tirar o olho do visor e me deparo com o gato de estimação de Gullar passeando preguiçoso, manemolente, sobre os poemas. Brinco com Gullar: “ele é seu melhor poema, pelo menos quem parece compreendê-los melhor”.
O poeta mineiro Francisco Marcelo Cabral, meu saudoso amigo Chiquinho Cabral, me contou certa vez que costumava frequentar nos anos 1950 o apartamento que o maranhense Ferreira Gullar dividia no Rio, na rua do Catete, com o jornalista paraense Oliveira Bastos e com o cronista capixaba Carlinhos de Oliveira.  Amigo de Oliveira Bastos – que foi secretário particular de Oswald de Andrade, além de ter participado do famoso Suplemento Dominical do JB e também ser quem “aplicou” a poesia de Sousândrade nos irmãos Augusto e Haroldo de Campos –, Chico Cabral assistia e quase sempre também participava das longas discussões de “alta cultura” do jornalista com o poeta. Discussões só interrompidas para dar passagem ao barulho infernal de algum bonde que zunia em seus trilhos ali embaixo da janela – e que eram retomadas logo depois, no mesmo e altíssimo tom. A um canto, Carlinhos Oliveira, recém-chegado ao Rio, batia com as mãos na cabeça clamando aos céus: “Gente, como sou burro! Não estou entendendo nada!”.
Quando se mudou do apartamento, Gullar escreveu o “Poema de adeus ao falado 56”, dedicado a Oliveira Bastos e J.C. Oliveira, com passagens como: “Sexta-feira parto/ até outra vez/ Fica de nós, o quarto/ Fica de mim, vocês// (...)// Homens de dia dúplice/ temos um sol verbal/ além desse sol cúmplice/ da guarda-pessoal// Sol que se acende, moço,/ da boca de quem lê/ fogo-fátuo do osso/ do velho Mallarmé// (...)// Meu anjo da guarda não/ levo; livro-me enfim/ desse que como um cão/ me protege de mim.// Deixo-o para a casa/ varrer e defender,/ e sumir sob a asa/ o que quer se perder:// o telegrama, o prato,/ o pente, a citação/ erudita e o vão/ vocábulo exato”.
Avenida Copacabana, 2001. Um meio-dia de sol. Um poeta vem do Leme. O outro pro Leme vai. Um não viu o outro, nem o outro o um. Tamanho o calor e o caminhar, que só depois me dou conta da figura de Gullar. Vem do espanto a poesia: Saberá que, no centro/ de seu corpo, um grito/ se elabora?/.../ Grito, fruto obscuro/ e extremo dessa árvore: galo/ Mas que, fora dele/ é mero complemento de auroras.


O Poeta na Praça
para Ferreira Gullar



findo o seu cantar
                                                                      manhã já no meio
                                            o galo-gullar
                                                        não cisca
                      antes
                                 levanta a crista
                                                            e logo ei-lo
                                                                        esguio
                                                         elegante
                          pela praça do lido
                                                     ereto e no prumo
rumo-leme
                        passa apressado o poeta
                                                                       – ZÁZ!
                                               esbaforido
                                                                       o poema bufa atrás
                        – a poesia freme



Ronaldo Werneck
Rio, 2001




Continua na próxima semana

8 de dez de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 1 Vida não dá meia-sola



      Copacabana, um dia qualquer dos anos 1960: saio pro trabalho e tomo um ônibus E. de Ferro-Leblon (quando criança, de férias no Rio, em vez de “Estrada de Ferro” eu lia “É de Ferro-Leblon” e nada entendia). Dois bancos à minha frente, na diagonal, vejo Ferreira Gullar também indo pro trabalho (na época ele era copidesque da Sucursal do Estadão). O poeta fumava e lia atentamente o Jornal do Brasil quando, de repente, o amassa com raiva e fica olhando para o nada pela janela. Penso até hoje no que teria lido o poeta, qual notícia o teria irritado tanto.
      O mesmo acontecia comigo quando lia (não leio mais, e agora nunca mais) suas crônicas plenas de diatribes na Folha de S.Paulo, que tanto me irritavam. Na época em que ele começou, lembro-me do Alcione Araújo me contar que Gullar lhe perguntara o que ele achava de ele aceitar o convite para escrever as tais crônicas (engraçado como muita gente ia pedir conselhos ao meu saudoso amigo Alcione sobre os mais variados assuntos). Alcione me disse que o desaconselhou. O poeta, naturalmente, não deu ouvidos ao dramaturgo. E meteu os pés pelas mãos, ou coisa que o valha.
    Irritadíssimo ficaria também eu, quase trinta anos depois do episódio do “E. de Ferro/Leblon”, ao ler um texto de Gullar sobre arte moderna no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Mas não rasguei o jornal. Peguei o texto e escrevi outro a partir dele, rebatendo (meio que raivosamente, no calor da hora) as ideias do poeta. Mandei pro Mário Pontes, então editor do Caderno do JB. Mário me ligou, dizendo ser melhor não publicar: embora achando que em parte eu tinha razão, não queria criar polêmica com o poeta. Melhor assim, acabei achando também. E acho ainda hoje ao reler o que escrevi, embora continue a não gostar nada do que o Gullar disse naquele texto. 
    Mas, voltando ao início dos anos 1960, irritado também eu ficara ao ler o seu João Boa Morte, aquela regressão em redondilhas publicada pelos “Cadernos do Povo/ Violão de Rua”, com poemas que buscavam “vender” poesia barata aos operários e homens do campo (literalmente barata: impressos no modelo canoa, grampeados a exemplo da poesia de cordel, os livrinhos eram vendidos a preço de banana, mas nem assim atingiram o alvo). Um saltatrás de Gullar face aos avanços vanguardistas de seu livro A Luta Corporal, que tanto me impressionara.
     Pois é, a gente só se enfurece, a gente só se irrita mesmo, com coisas vindas de quem gostamos. As outras “passam corrido” e nem ligamos ou lhes damos importância. Tempos depois, em “Dentro da Noite Veloz”, e já próximo de seu “Poema Sujo” e da dicção que faria dele um de nossos grandes poetas, Gullar parecia se “redimir” de sua “escorregadela da Boa Morte”, retomando o apuro formal sem deixar de lado o conteúdo “participante”, como se dizia na época: “Poeta fui de rápido destino./ Mas a poesia é rara e não comove/ nem move o pau-de-arara”.
     Corta para hoje, melhor para domingo passado, dia 4 de dezembro. Como sempre acontece nos domingos em que estou em Cataguases, fui almoçar num restaurante de Leopoldina. Não só por gostar de dirigir (cerca de 20 km), como porque ele fica aberto o dia inteiro (o que não acontece com os daqui). Almoço tarde, hábito antigo, e quando dou por mim aqui está tudo fechado aos domingos.
     Levei comigo a Folha de S.Paulo, e foi assim: passei os olhos pelas manchetes do jornal, li o Cony, o Jânio de Freitas e pulei pra Ilustrada. Por acaso, dei de cara com a coluna do Ferreira Gullar, que evito ler faz longo tempo pra não me irritar ainda mais com a “estranha” guinada política do poeta. Mas o título “Solidariedade” me chamou a atenção e acabei lendo. Gullar começa se perguntando “por que pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais”.
    Logo ele avança situando essas pessoas como as que “militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista (ao qual ele mesmo aderiu em 1964), fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana”. Até aí, o mesmo Gullar dos últimos tempos. 
     E já começava a me irritar novamente com suas idiossincrasias quando sou tomado pelo “espanto” (palavra tão cara à definição de poesia usada pelo poeta) ao ler os demais parágrafos. “Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto. Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho – que, na época, eram simplesmente selvagens – mudaram, alcançando as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado”. Mas logo Gullar descamba para sua velha cantilena de maldizer “o sonho marxista e os dogmas ditos revolucionários".
     E, num paradoxo, reafirma obviedades sobre o capitalismo: “Tampouco pode-se negar que o regime capitalista se move essencialmente pela exploração do trabalho e pela acumulação do lucro. A ambição desvairada pelo lucro é o mal do capitalismo que deve ser extirpado. E, creio eu, isso talvez possa ser feito sem violência, uma vez que, de fato, ninguém necessita de acumular fortunas fantásticas para ser feliz”. A crônica é finalizada com um exemplo mais que exemplar: “Sabem por que Bill Gates deixou a presidência de sua empresa capitalista para dirigir a entidade beneficente que criou? Porque isso o faz mais feliz, dá sentido à sua vida”.   
      Fechei o jornal, dessa vez sem o amassar nem jogar fora. Entrei no carro e vim pela estrada afora, meio que “reconciliado” com o poeta: “Vida tenho uma só/ que se gasta com a sola de meu sapato/ a cada passo pelas ruas/ e não dá meia-sola// Perdi-a já/ em parte/ num pôquer solitário,/ mas a ganhei de novo/ para um jogo comum// E neste jogo a jogo/ inteira, a cada lance/ que a vida ou se perde ou se ganha com os demais/ e assim se vive/ que o mais é pura perda”.   
      Eu não levara o celular para o almoço, não sabia das notícias desde a noite anterior. Chego em casa, ligo a tv ao acaso, e sou surpreendido com a morte do poeta. Mais surpreso ainda ao saber que essa sua crônica, a última, fora escrita no hospital onde estava internado há quase vinte dias em Copacabana (não tinha conhecimento disso: eu acabara de chegar do exterior e estava sem notícias do Brasil). Segundo Zuenir Ventura, que o acompanhou internado, suas últimas palavras foram à filha Luciana, pedindo para não prolongarem sua vida com aparelhos: “Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”.
       Coisa de poeta? É, coisa de poeta. Eu mesmo já tive um “desvario marítimo” desses, quando um médico maluco daqui me disse que meu glaucoma (“de estimação”) tinha evoluído tanto que não adiantava mais me receitar colírio algum: eu iria ficar cego em seis meses, um ano no máximo. Voltei pra casa aturdido, é “claro/escuro”, e não dormi a noite toda. Lá pelas tantas pensei que o melhor seria ir pro Rio e ver o mar pela última vez. Foi quando parei de pensar besteira dei uma risada: “Deixa de babaquice, Ronaldo! Procure outro médico amanhã”. Dito e (bem) feito. Hoje, após uma cirurgia, com direito a catarata e tudo o mais, estou enxergando maravilhosamente em technicolor e cinemascope – e até mesmo o mar visto de Cataguases. O mar, o mar azul, o mar-espanto, que iria me proporcionar um longo, imenso poema, e que deu a Gullar esse concreto insight:

mar azul
mar azul marco azul 
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

    Em 1992, Gullar participou de um Ciclo sobre Fernando Pessoa no CCBB/Rio. Depois de sua palestra, fiz longa entrevista com ele, gravada em VHS. Infelizmente, a fita não resistiu ao tempo e a maior parte se perdeu. O que dela restou (as imagens não estão lá essas coisas, mas o áudio é bem razoável) foi usado como material para o vídeo que acabo de editar e que se encontra na abertura desta crônica. O enquadramento também não está perfeito, com a câmera focada em mim, enquanto Gullar ficou meio de lado, olhando pra mim enquanto falava, quase de perfil. Mas vale como registro. Ah, sim: o sujeito travestido de Fernando Pessoa fazia parte da encenação sobre o poeta português.
    Uma curiosidade: na entrevista, Gullar chama Oswald de Andrade de “poeta menor”, embora não deixe de elogiá-lo e de lembrar quando Oswald esteve pessoalmente em sua casa no dia de seu aniversário, dizendo ter lido e gostado de A Luta Corporal. O mesmo episódio que lembraria 25 anos depois, numa de suas crônicas no primeiro semestre deste ano. Aquela “crônica-spaghettilândia” que resultou num spaghetti western dos diabos com o poeta Augusto de Campos. Em 1954, quando da morte de Oswald de Andrade, Gullar escreveria a elegia que se segue pro poeta paulista.   
  “Enterraram ontem em São Paulo/ um anjo antropófago/ de asas de folha de bananeira/ (mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)// As escolas e as usinas paulistas/ não se detiveram/ para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio/ Quanto mais pressa mais vagar// O lenço em que pela última vez/ assoou o nariz/ era uma bandeira nacional” Nota de Gullar, em pé-de-página do poema: “Fez sol o dia inteiro em Ipanema/ Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo/ hoje domingo 24 de outubro de 1954”.
     Repito suas últimas palavras: “Me leva pra Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”. Mar e Ipanema. Nada mais justo que inserir em meu vídeo a canção que Gullar letrou para Caetano Veloso no primeiro álbum tropicalista do baiano: “Onde andarás nesta tarde vazia/ Tão clara e sem fim/ Enquanto o mar bate azul em Ipanema/ Em que bar, em que cinema, te esqueces de mim”.

21 de nov de 2016

Selva Selvaggia 40 anos – 7

     
     Quatro outros poemas de meu primeiro livro, selva selvaggia, em comemoração aos 40 anos de seu lançamento: dialética, semântica, libertarde, dry milk,, around the sixties, noturno do leme.



DRY MILK

a Marcus Vinicius e Vladimir Carvalho (*)

    
dry milk
no mangue
a lata
         escrita com sangue
                   for international development
a lata agency suspensa

dry milk
donated by
american people

a lata de leite
com lixo
dry milk & sangue

a lata suspensa
na camisa o super
roto homem
a cabeça imensa

a super-barriga e sol
e sangue sub-
menino dry
milk do mangue

dry milk no mangue
os olhos dia a dia
dialatados

o lixo no leite
o olho na lata
o luxo a lata
o leite o lixo

dry milk
drink sangue

YEAH!  in god we trust
              submundo way do mangue
YEAH!  in GOLD WE TRUST
              barriga e lixo
              sol & sangue
YEAH!  we trust!
     YEAH! OUR TRUST!
   
  
(*) Quando estava montando no Rio o seu filme “O País de São Saruê”, no início dos anos 70, o cineasta paraibano Vlademir Carvalho, amigo do poeta desde a Bahia de 1964, convidou RW para fazer uma letra pra canção que o compositor Marcus Vinícius estava criando para o filme.  E falou sobre as imagens que tinha captado no Nordeste, pessoas catando no lixo os alimentos doados pela agência norte-americana AID, resquícios da Aliança para o Progresso.  Um horror.  RW e Marcus Vinícius encontraram-se várias vezes para criar a canção. Qual o quê!  A música não se encaixava na letra, a letra não cabia na música. O que Marcus Vinícius acabou gravando foram  mesmo  as palavras que cantarolava enquanto ia compondo. E acabou surgindo a canção-tema do filme, belíssima. Da aventura, restou este poema que, mais de trinta depois, vai dedicado pros amigos Vladimir e Marquinhos.  Ah, sim: “O País de São Saruê” ficou interditado pela censura por quase 30 anos. Só agora este filme de força extraordinária está sendo mostrado ao grande público.





AROUND THE SIXTIES
    
come on
prepare o seu coração
a guitarra dos beatles
comum
let´s twist again
o cabelo dos bichos
pode crer

jimmy ginjanis
drix man hen
barbitóxico´s blue
gin hei man drix
pode crer

jean-luc rochá jeans
vietname´s blue hué
camisa paissandu gin
hoa-mihn my lai khe sahn
pode crer

let´s make marilyn 
mar war love
sex mini quant novu
ar lar ido lib
pode crer

um sol negro beta che gue
gal galo som & segredo
it´s over see sea nau
fragado dream drama vez & voz
pode crer

I want to live to dream
in latin america maria maria
as cãs violão cantinho são
o apagar do velho drama
pode crer

aroma amor romã
ticos de cuba sex libre
it´s over bahia mar 
rio minas meninas
pode crer

a gente estancou de repente
oh I could have dance all night
if I had a hammer an egg
but it´s over the big game
pode crer

era um era dois era cem
a garra dos bichos
it´s over hair head heart
come on let´s twist again
pode crer

pode ler não
ao não por que não
rock barbeatle´s name
a manhã clara clara over
pode crer

em ipanema em que bar em
que cinema como quem
partiu quem blue bleu blau
babau seo nicolau
pode crer 



 NOTURNO DO LEME
    
onze da noite
e o mar bate calmo
no início da praia
contra os rochedos
no início contra
o mar bate o fim
da tarde a noite
contra o início
os rochedos a bandeira
aos quatro ventos tempos
cores a bandeira
                                   tremula às onze
da noite na praia
do leme no início
da noite no início
do fim no início de tudo
a bandeira sobre o rochedo
nos controla

entre carros namorados
luminosos lambuzando a aurora
entre o hot-dog e a coca-cola
a bandeira nos controla

na taberna no real
na fiorentina no recreio
do leme no boca seca
no geneal da esquina

as pessoas falam
bebem chope
com fritas fumam
scotch on the rocks
as pessoas
                        se amam
                        se comem
as pessoas
falam comem
                                   soltam risos
                                   palavrões
consomem
                        pizzas tournedos
                        au poîvre cocquilles
                        saint-jacques polvos
                        ostras lagostas calamares
                        en su tinta e lulas mariscos

os frutos do mar
                                               o mar
bate calmo as pessoas
bebem e falam alto e
comem e riem as pessoas
                                               o mar bate calmo

nenhum temor em toda a orla marítima

vendedores de amendoim
bêbados tropegando na praia
engraxates
namorados
jornaleiros
                        as primeiras notícias
                        pelo telex
                        mas no cabelo
                        só gumex

portugal ainda manchete
            mas os americanos colaboram
            o trade act cai como um fardo
                        sobrenadando sobre sobre latinoamerica

esfacelado pelos bulldozzers
            pelos phantoms
                                               pela corrupção
dos lan nol thieu & cercanias
o sudeste asiático explode
através do telstar
            o cambodja e o vietnam

morreu george stevens
            mas quem se lembra
            de shane e dos heróis
            assexuados do caubói?

são onze da noite
no leme são onze
e morreu shane

o mar bate calmo
contra os rochedos
no início da  noite
no início do leme
no início de tudo

aparentemente nenhum
vento estranho bate
no leme o navio vem
e vai se equilibrando

até quando a bandeira
vai e vem se equilibrando
o navio o leme os bares
os bêbados todo o mundo

vai e vem
o leme vem
e vai todo
o jundo vem
o vento vai
do fim do início
o vento vai e vem

tudo é afável
e terrível
até a perspectiva
da aurora
até o hot-dog
e a coca-cola


14 de nov de 2016

Selva Selvaggia 40 anos – 6


     Quatro outros poemas de meu primeiro livro, selva selvaggia, em comemoração aos 40 anos de seu lançamento: 23.10.43, classroom, zoraya, círculo, construção, aço & estilhaço.


23-10-68
   
hoje tenho 25 anos
e queria escrever ócio
mas minhas palavras são de aço

hoje tenho 25 anos
e a poesia é difícil
mas o poema é meu ofício

hoje tenho 25 anos
e a poesia me chama
faço o poema como quem ama



CLASSROOM

  
comment ça va vôtre anglais, ma chérie?
do you remember, my darling?

trocávamos as línguas
                                   lúdico logro
como se trocam as
línguas lúbrico jogo
                                                           mais oui, I love you!
nossas bocas estrangeiras
nossas bocas
                                   p  e  r  c  o  r  r  e  n  d  o
de um lance
                                                           todo o midi-de-france
nossas bocas
                                   p  e  r  c  o  r  r  e  n  d  o
úmidas
                                                           the british plains
nossas bocas
                                               túmidas
p  e  r  c  o  r  r  e  n  d  o
                                                           espelho convexo
toda a geografia
                                   do sexo
                                                           mais oui
that
                        pour toujours
                                                           I´ll never forget




ZORAYA

  
trocava carícias
como se troca o gado
no campo o pássaro
e a sutileza do canto

zoraya cigana
egípcio mistério
do amor e sua gana
duplo sexo hemisférios

zoraya cigana

de são Jorge e perfume barato
no lençol dente amordido
alazão imenso e solto e largo
a meta do corpo

física batalha entre a cama
e sua saga fogo imenso
entre céu e sexo

zoraya cigana
egíp´cio mistério


DECIFRA-TE OU ME DEVORO!




CÍRCULO


e surge teu dorso dourado
e vem com a aurora teu rosto
e agora e ainda uma vez e outra mais
aqui estamos
no fragor de lençóis
emaranhados

alvos
nus
abandonados
aqui estamos
mar de arranhões

lentas mordidas
e o relógio tique-
tapeando o tempo

alvos
nus emaranhados
aqui estamos

mar de arranhões

lentas mordidas
e o amor truque-
truncando o tédio
e o corpo assimilado

e surge teu dorso dourado
e vem com a aurora teu rosto
e ainda e ainda uma vez e

 


CONSTRUÇÃO

   
é com meus dentes                                       o longo lento
ardentes                                                        lânguido lamento
que vou te morder                                        AMOR
é com minha unha                                                   morto motor
afiada                                                                        lambEND
c corte feito espada                                                              o AMOR
é com minhas coxas                                     e com minha língua
entre tuas coxas                                            e lavra o grito
o jorro                                                                       larva na garganta
o jogo                                     rito ritual
v´entre                                                           tua ávida fruta
a lavra a palavra                                          boca maçã
amor lambEND                                            triângulo
                        O AMOR                               selvagem
luscofuscando a manhã                               penetrada/consumida
é com meu braço                                          amor ROMÃ
lasso o abraço                                                           o longo lamento
laço                                                                e tuas coxas
            onde me desfaço                               lasso entre meus dentes
                                               é com minha língua
                                               e unha afiada
                                               que mordo
                                                                       arranho o espanto
                                               é com minhas coxas
                                               entre tuas coxas
                                               que construo a manhã
                                               e o prazer de meu canto
  



AÇO & ESTILHAÇO

 são ásperas as veredas
do amor
pouco a pouco
despedaçadas

o corpo a corpo
e essa flor esquerda
subitamente despetalada

são ásperas
e o pouco corpo
vencido

são ásperas
e o corpo há pouco
apodrecido
são ásperas
e o amor
natimorto motor
enlouquecido

são ásperas
eu digo

são ásperas
as veredas de aço
motor em pane
tumor tocando
o corpo/estilhaço
são ásperas
e o amor
pouco a pouco
despedaçado

são ásperas
e o amor

essa flor esquerda
subitamente despetalada