27 de mar de 2018

Show do Chico 2: a veia que salta





         O disco Caravanas está rolando no meu carro já há algum tempo. Fora “Tua Cantiga”, fora a própria canção “Caravanas”, há de Havana (de e sobre) um suave, quase melancólico bolero cubano, “Casualmente”, composto com Jorge Helder: “No volverá nunca más/ La canción sentimental/ Que casualmente em La Habana/ escuché cantar/ A uma mujer/ Como ya no veré/ Outra vez nada igual/ (...)/ La canción, la mujer/ El crepúsculo, la catedral/ Hasta el mar de La Habana es lo mismo, pero/ No es igual/ No es igual”. E “A Moça do Sonho”, canção-constatação, belíssima, em parceria com Edu Lobo: “Súbito me encantou/ A moça em contraluz/ Arrisquei perguntar: quem és?/ Mas fraquejou a voz/ (...)/ Há de haver algum lugar/ Um confuso casarão/ Onde os sonhos serão reais/ E a vida não/ (...)/ Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar”.  
   Tem também “Massarandupió”, uma coisa, uma dessas pedras-de-toque tão Chico Buarque, feita com e para o “parceiro mais amado”, seu neto Chico Brown. O mar, o menino, a areia, o tempo. Areia que se faz de ampulheta como se regesse o passar da vida que não volta. É quando no palco as linhas arquitetadas por Hélio Eichbauer se transformam em teias que se movimentam no ritmo das ondas: “No mundaréu de areia à beira-mar/ de Massarandupió/ Em volta da massaranduba-mor/ de Massarandupió/ Aquele piá/ Aquele neguinho/ Aquele psiu/ Um bacuri ali sozinho/ (..)/ É o xuá/ Das ondas a se repetir/ Como é que eu vou saber dormir/ Longe do mar/ (...)/ Devia o tempo de criança ir se/ arrastando até escoar, pó a pó/ Num relógio de areia o areal de/ Massarandupió”.
Em seu livro “Letra e Música 1”, Humberto Werneck registra que “para trás de ´Tem mais samba´, ficou o que Chico chama de sua pré-história musical”: ´Tem mais samba no homem que trabalha/ Tem mais samba no som que vem da rua/ Tem mais samba no pranto de quem vê/ Que o bom samba não tem lugar nem hora/ Vem que passa/ teu sofrer/ se todo mundo sambasse/ seria tão fácil viver´. Mas entre essas canções “pré-históricas” existem coisas como ´Marcha para um dia de sol´, que já prenunciava uma certa participação social: ´Eu quero ver um dia/ numa só canção/ o pobre e o rico/ andando mão em mão/ que nada falte/ que nada sobre/ o pão do rico/ o pão do pobre”.
            Canções que saltam da pré-história para toda a história musical de Chico Buarque, suas recorrentes “assinaturas”, como “Caravanas”, que dá título ao disco e ao show e onde ele ironiza seus vizinhos da Zona Sul carioca: “É um dia de real grandeza, tudo azul/ Um mar turquesa à la Istambul/ enchendo os olhos/ Um sol de torrar os miolos/ Quando pinta em Copacabana/ (...)/ A caravana do Arará/ A caravana do Irajá, o comboio da Penha/ Não há barreira que retenha esses estranhos/ Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho/A caminho do Jardim de Alá/ (...)/Com negros torsos nus deixam em polvorosa/ A gente ordeira e virtuosa que apela/ Pra polícia despachar de volta/O populacho pra favela/Ou pra Benguela, ou pra Guiné// Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ (...)/ Tem que bater, tem que matar, / engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ Ou doido sou eu que escuto vozes/ Não há gente tão insana/ Nem caravana do Arará/ Não há, não há”.

Gumes aguçados


Mas ouvir ao vivo e a cores o cantar de Chico é mais, muito mais, “quase uma epifania”. Ah, as cores, as muitas cores reinventadas pela iluminação de Maneco Quinderé, que se harmonizam com o tom de cada canção. Cores que dialogam com a fantástica cenografia de Hélio Eichbauer, cordas que se entrecruzam no fundo e no alto do palco, onde surge uma espécie de astrolábio como a direcionar as caravanas que intitulam o disco e o show.
Escreve Arthur Dapieve, com rima e tudo: “Passada a polêmica da internet em torno do suposto machismo de ´Tua Cantiga´, ela pode ser apreciada pelo que é: uma linda canção de amor. Os anos me tornaram uma manteiga derretida, sei, sei, mas ao final da última estrofe (´E quando o nosso tempo passar/ Quando eu não estiver mais aqui/ Lembra-te, minha nega/ Desta cantiga/ Que fiz pra ti´) tive de secar o canto dos olhos com os dedos indicadores”.
Quando fez a letra de “João e Maria” para a música de Sivuca, Chico não entendeu o que ele mesmo tinha querido dizer com aquele “e o meu cavalo só falava inglês”. Levou o enigma a Francis Hime, que arriscou: “Acho que é um cavalo muito educado”. Como a canção falava de heróis e caubóis, eu arrisco outra coisa: cavalo de caubói em faroeste (clima de sonho da música) tinha mesmo era que falar inglês. Mas a gente às vezes não sabe mesmo o que quis dizer com determinados versos. Quando escrevi um poema em homenagem a João Cabral, disse lá pelas tantas: “a canção/ a praça/ o perfume/ tudo resta/ incólume/ imantado/ fotograma de gumes aguçados”. Canção, praça (infância), perfume estão presos ao passado, imantados acionadores da memória. OK. Mas, “fotograma de gumes aguçados”? Ah, sim: seria o cinema? Ou “gumes” era uma referência à “faca só lâmina” de Cabral? Vá lá saber. Não tente entender muito o poema, qualquer poema. Nem letras de música. A graça é mesmo o mistério.
Disse um dia Ney Matogrosso: “Eu dançava, embora não seja dançarino. Eu cantava, embora não fosse cantor. E eu atuava porque eu achava que era ator. Nunca subi no palco como uma pessoa. Sempre subi como um personagem”. Chico, ao contrário, diz sobre sua suposta timidez no palco: “Eu percebo que me exponho muito, fico muito vulnerável. Quase todo artista está lá como personagem, esse personagem o protege – a própria roupa de artista é uma máscara. Eu, não, eu estou no palco como pessoa física”.

Fecho com Tom


Pois foi essa pessoa física, de extrema delicadeza e sofisticação, que mais uma vez me encantou naquela noite no Rio de janeiro, ou vice-versa: de janeiro no Rio. Canções acionam a memória, fixam momentos, impulsionam o passado. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta. Vou voltar. Sei que ainda vou voltar. Vou deitar à sombra de uma palmeira. Que já não há. Não vai ser em vão que fiz tantos planos. De me enganar. Como fiz enganos. De me encontrar. Pretendo descobrir no último momento. Um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo sentimento. E bota no corpo uma outra vez. “Gota d´água”, “Sabiá”, “Todo o sentimento”, me emocionavam como da primeira vez – e quase tive que “secar o canto dos olhos”, como Arthur Dapieve. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água.
Quando Chico mandou de lá todo aquele blues de “A história de Lily Braun” (há uma gravação antológica da Gal, mas esse entoar de Chico não fica a dever), Patrícia, “a minha patroa”, a “Patrícia do poeta” – que como eu também adora essa música – me abraçou perguntando se eu estava feliz. Não consegui emitir qualquer som: segurei seu abraço em minhas mãos, meus olhos embotados de silêncio quase lágrimas.Pode serque passe o nosso tempo como qualquer primavera.
Espera. Me espera. Eu vou voltar. No palco, a voz de Chico: “Como num romance/ Era mais um/ Só que num relance/ Os seus olhos me chuparam/Feito um zoom”.
Fecho com Rubem Braga: “A coisa mais importante no momento em matéria de música popular é mesmo Chico Buarque de Hollanda. Sem desfazer em ninguém, porque o Brasil é grande, saudemos Chico Buarque de Hollanda como a bela novidade. Até assusta ver um rapaz tão novo fazendo as coisas tão boas e tão certas. Que a glória, que lhe vem tão fácil, não o atrapalhe”. (in Diário de Notícias, Rio, 13.10.1966).
Fecho com Caetano: “Chico foi, em todas as oportunidades, o mais elegante, discreto e generoso de todos os nossos colegas. Conheço-o bem e sempre soube que é isso que ele é, além de um virtuoso das rimas e dos ritmos verbais”. (in Verdade Tropical, 1997).
E fecho finalmente (nos dois sentidos) com Tom Jobim, o parceiro e maestro soberano, naquele memorável bilhete enviado de Nova York, outubro de 1989:
 “Chico Buarque meu herói nacional. Chico Buarque gênio da raça. Chico Buarque salvação do Brasil. A lealdade, a generosidade, a coragem. Chico carrega grandes cruzes, sua estrada é uma subida pedregosa. Seu desenho é prisco, atlético, ágil, bailarino. Let´s dance! Eterno, simples, sofisticado, criador de melodias bruscas, nítidas, onde a Vida e a Morte estão sempre presentes, o Dia e a Noite, o Homem e a Mulher, tristeza e alegria, o modo menor e o modo maior, onde o admirável intérprete revela o grande compositor, o sambista, o melômano inventivo, o criador, o grande artista, o poeta maior Francisco Buarque de Hollanda, o jogador de futebol, o defensor dos desvalidos, dos desatinados, das crianças que só comem luz, que mexe com os prepotentes, que discute com Deus e mora no coração do povo. Chico Buarque de Hollanda Rosa do Povo, seresteiro poeta e cantor que aborrece os tiranos e alegra a tantos, tantos”.
E Tom termina parodiando o famoso poema que Drummond dedicou a Charles Chaplin: “Ó Francisco, meu querido amigo/Tuas chuteiras caminham numa estrada de pó e esperança.”.

21 de mar de 2018

Show do Chico 1: epifania & futebol


“Chico Buarque vive no tempo próprio da delicadeza, sem deixar de dar pernada a três por quatro se alguém lhe desafia, como diz em 'Partido Alto'. A música está presente no show Caravanas, baseado em seu disco mais recente, que inicia temporada em São Paulo” – dizia o texto “paulista” de divulgação do show do Chico. Foi quando o imponderável, repentino Tom Zé mandou um recado:
“Chico, ´Tua Cantiga´, que coisa! Chico, que Deus lhe abençoe! Quando Chico cantou essas canções parecia a voz dele quando era jovem. Parece um homem que depois de chegar aos 80 anos (não sei se ele tem 80 anos, eu tenho 81)... um homem quando chega aos 80 anos o Tai-Chi diz, a concepção oriental de vida diz que nasceu de novo, está começando tudo de novo. Novamente cantando como se fosse criança, capaz de se apaixonar. Ter visto esse renascimento seu, que coisa pra nossa vida, que bênção! Que maravilha!”.
Danuza Leão escreveu outro dia que estava certa vez tomando uma chá em Paris, no Flore (como, íntima que só ela, chama o famoso Café de Flore de Saint-Germain-des-Prés), quando lembrou-se de uma canção da Piaf e começou a “cantarolar em silêncio”, pra dentro de si – se é que me faço (ou ela me fez) entender. Ela estava “em êxtase”. Mas, pra quê! Logo sentiu que rolavam insistentes lágrimas por suas faces. E percebeu que eram lágrimas de alegria, um momento único. Uma amiga lhe disse depois que ela havia tido uma epifania.  Danuza foi então ao dicionário procurar por epifania. Se vocês não sabem o que é, sugiro fazerem o mesmo. De certa forma, foi o que aconteceu comigo em janeiro ao ver no Rio o show Caravanas.
Um alumbramento, diria Manuel Bandeira. Mas existem também alumbrados outros, como o sujeito que confessou (è vero!) ter visto Chico Buarque em Paris, sentado numa mesa do Café de Flore. Ele estava numa mesa atrás daquela do Chico e ficou ali de vigia até que seu ídolo foi embora. O cidadão levantou-se de um jato e sentou-se na cadeira que o Chico ocupava. “Só pra sentir o quentinho do Chico”, como declarou depois. Haja!

Nunca cheguei a tanto, mesmo porque nas raras vezes em que estive em Paris, e algumas no “Flore” (olha a intimidade aí!), jamais vi o Chico sentado em uma de suas mesas (quem sabe um dia?). Mas me orgulho de um autógrafo que recebi dele em 1990, no livro “Letra e Música 1”, organizado pelo escritor Humberto Werneck (que me chama de “primo rico”, ora vejam só!). Na época, andei agarrando no gol do time do Chico, o Politheama, daí o porquê do autógrafo: “Para o grande poeta e goal-keeper Ronaldo Werneck, um grande abraço do center-forward Chico Buarque”. 


Comunhão & castigo
Chico estudou como interno no Colégio Cataguases durante o segundo semestre de 1959, mas me lembro muito pouco dele nessa época, pois éramos de turmas diferentes: ele estava no quarto ano do ginásio e eu já no primeiro científico. E Chico também não tem lá muitas lembranças daquele tempo em Cataguases, mesmo porque veio para cá de castigo. Como escreve Humberto Werneck, um pouco antes Chico e seu amigo Joaquim de Alcântara Machado embarcaram num movimento religioso, os Ultramontanos, que viviam ancorados na Idade Média e anunciavam para já o Juízo Final, quando a espada justiceira dos anjos do Senhor não pouparia mais que uns poucos eleitos. Para merecer ingresso nessa reduzida elite de sobreviventes, Chico e seus colegas puseram-se a comungar desenfreadamente.
Nas férias de julho de 1959, passadas na fazenda dos Alcântara Machado, os dois amigos empreendiam caminhadas de oito quilômetros, verdadeira peregrinação, para assistir à missa – todos os dias. Alarmados, os pais acharam que já era demais tamanha santidade. Os de Chico foram buscá-lo e o despacharam para o internato em Cataguases. É possível avaliar a irritação que tomava conta de sua mãe, dona Maria Amélia, ao preencher a ficha de inscrição do filho no Colégio: “De modo geral: influenciabilidade – desordem – faroleiro. Nas circunstâncias atuais: falta de solidariedade humana. Desinteresse pelas ocupações próprias do estado e da idade”.
Mas em Cataguases o aluno Chico Buarque iria logo se destacar. Havia no pátio do Colégio um quadro de honra onde eram colocados no final de cada mês os nomes dos alunos com as melhores notas. Nunca o nome de um interno surgiu ali. Até que um dia um tal de Francisco Buarque de Hollanda apareceu em primeiro lugar entre todos os alunos do Colégio. Lembro que eu estava olhando o quadro de honra, rodeado por um bando de alunos curiosos. Foi quando um deles soltou sua máxima: “Também, pudera, o cara é filho do homem do dicionário!”. Contei isso pro Chico quando voltávamos de um jogo do Politheama. Ele estava dirigindo e quase bateu com o carro de tanto rir. Na verdade, seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, não tinha nenhum parentesco com o “homem do dicionário”, o filólogo Aurélio Buarque de Holanda.


Footing & futebol
Ainda em Cataguases, sob o pseudônimo “Bananal”, Chico escreveu crônicas para o jornalzinho O Pirilampo, “que não guardou”, segundo Humberto Werneck. Mas eu consegui uma coleção do Pirilampo com seu editor, Eduardo Lunardelli, e cheguei mesmo a publicar algumas dessas crônicas do Chico (autorizadas por ele) na edição especial sobre Cataguases que organizei em 2013 para o Suplemento Literário Minas Gerais.   Naquela época do Colégio, como nós todos, também Chico fazia o footing nos fins de semana na Praça Rui Barbosa   é possivel que tenha visto a Banda do maestro Rogério Teixeira desfilar pela cidade. E não perdia jogo do Flamenguinho, onde nosso colega, o também interno Alfredo Napoleão, enfiava sucessivos gols no “Operal, Campeão local”, o meu pobre Operário Futebol Clube. “Mui modestamente”, é claro, foi no juvenil do Operal que eu “despontei” para a minha esporádica carreira de goal-keeper, finalizada décadas depois num fatídico jogo do Politheama do Chico.
 Meu contato com o Chico nos anos 1990 foi em face do futebol. E deveu-se ao meu querido amigo, o compositor Carlinhos Vergueiro, médio-apoiador e um dos destaques do Politheama, ao lado do Vinicius França, empresário do Chico, que nasceu aqui do lado, em Leopoldina. Foi Carlinhos quem me indicou como goleiro do Politheama. “Ali está o goal-keeper, fazendo cinema”, disse um dia o também goal-keeper Ary Barroso, que atuava portando impávido seus óculos – e não sei como conseguia enxergar aqueles cocos chutados do coqueiro que dava os próprios.
E foi “fazendo cinema” que eu defendi um dia um potente tirambaço num dos jogos do Politheama. Mas quebrei duas costelas naquela “magnífica ponte”, o que só percebi quando cheguei em casa: o corpo quente escondera a dor. Dias depois, num show do Carlinhos Vergueiro, eu estava em uma mesa com uma amiga quando alguém bateu às minhas costas: “E aí, você não aparece mais no Politheama?”. Era o Chico, o próprio. Minha amiga falou depois, com cara de espanto: “Ronaldo, o Chico Buarque levantou da mesa dele só pra vir falar com você!”. Foi quando disse pra ela que aquele não era o Chico Buarque que ela pensava, o compositor. Quem veio falar comigo foi o center-forward Chico Buarque.  


Apoteose




“O show do Chico tem sido uma apoteose atrás da outra. O público ovaciona o talento do Chico e o outro Brasil que ele representa”, escreveu Luis Fernando Veríssimo no Globo. E também Zélia Duncan, no mesmo jornal: “Chico andou passando poucas e boas apenas por se colocar, mas o que nos devolve dessas fases sombrias é um sol que, como sempre foi, ilumina e aquece. Os cães ladram e o Caravanas de Chico passa... e sempre vai passar”.
Chico já disse que gosta de caminhar e, "por onde caminho, nos bairros chiques do Rio, as pessoas finas passam com seus carros grandes e gritam: ´viado filho da puta!´, ´viado, vai pra Cuba´, vai pra Paris, viado. O único consenso é o viado”. No show do Rio, ao cantar ´Partido Alto´ – quando diz “Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio/ Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio/ Que eu já tô de saco cheio!” –, Chico dá uma pausa, meio que um breque. E frisa e repete umas duas vezes: “e bota a mãe no meio”. A plateia vem abaixo.
Como registrou o crítico Carlos Marcelo em dezembro, quando da estreia do show em Belo Horizonte: "Vai pra Cuba!", ordenam os críticos do cantor nas redes sociais. Pois Chico foi. Voltou de lá para o novo show com a tabelinha entre ´Iolanda´ e ´Desaforos´, resposta enviesada aos agressores virtuais (´Custo a crer que meros leros-leros de um cantor possam te dar tal dissabor´), reforçada pela inclusão de ´Injuriado´ (´Não entendo/ Porque anda agora falando de mim´). Durante ´As vitrines´, na qual surge o vigia que tanta polêmica histérica rendeu na linda ´Tua Cantiga´, a moça ao meu lado, não mais do que 20 anos, tira os óculos e enxuga as lágrimas. Como ele já dizia em Jorge Maravilha: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.
Fecho com a voz rediviva de Vinicius de Moraes, surgida há exatos 50 anos: “Outro dia saímos em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco, estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil. E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda”. (Prefácio do livro O jornal de Antônio Maria, julho de 1968).
Continua na próxima semana


20 de fev de 2018

Deserto aborrecido?



“O mundo, meu filho, é um deserto aborrecido”, já dizia o pai de meu amigo, o contista Carlos Alberto Castelo Branco. Um deserto aborrecido! Que bela sacada essa do patriarca das figuras castelares, do Castelão-mór! Um tédio só, esse mundo. Les événements m’ennuient, lembrava Drummond na epígrafe de Claro Enigma, citando o poeta Paul Valéry. Sim, os acontecimentos me entendiam. Ou, mais simples e sucinto, como o Castelo-pai: me aborrecem, tout court. “Nada de novo sob o sol”: o mundo hoje se repete como no novelhíssimo Eclesiastes. Pelo menos esse mundo que me chega por satélite ou pelo Correio. Falar nisso, palmas pro Correio de Cataguases – por enquanto, e desde que voltei, infalível na entrega de minha correspondência, dos jornais, livros, revistas & quejandos. Mas, vamos aos fatos que povoam esse deserto aborrecido.
“Armados & Perigosos” é a manchete de capa da Revista Time que recebi hoje, com data de 6 de abril: sorridente dentro de sua “roupinha pueril”, cópia debilóide de um uniforme do exército americano – semelhante em tudo ao traje de qualquer soldadinho desse mundão aborrecido –, um menino que mal mudou as fraldas segura em suas “inocentes” mãozinhas um rifle imenso.
O molecote é o espelho ideal para a matéria que começa na página 11 da Time, onde ele rides again com a carinha matreira, seu chapéu de caubói, a camisa xadrez & o longo capote à la John Wayne. Um protótipo de pistoleiro que se confirma quando percebemos estar a figurinha displicentemente apoiada em uma de suas três pernas, na clássica pose dos mocinhos do faroeste: a terceira perna é, naturalmente, um rifle maior que as outras duas.
Notem que chamo indiscriminadamente as duas armas de “rifle”. porque delas nada entendo, nem nunca por elas me interessei. Chamo isso de rifle, boa rima para patife. Ao lado do nosso fedelho que imita John Wayne – o mesmo que já vimos na capa da revista – em foto de igual porte, ocupando 2/3 da página, encontra-se um robusto pré-adolescente, com as faces extremamente rosadas de um típico little boy americano. Seus cabelos estão no rigor da moda, esse corte de marginais idiotas, ditado pela máquina de raspar nº 4 e copiada em toda a “aborrecida & aborrecente” aldeia global. Mas o que salta mesmo à vista é que, ao contrário do fedelho que vemos na página ao lado, nós não o olhamos; somos, ao contrário, mero objeto de seu olhar. Esse menino nos olha com olhos frios, com uma inesperada arrogância que brota de seu sorriso rosado e desafiante.


Esse olhar fixo e penetrante agora nos dá medo. Agora que sabemos pertencer a Mitchell Johnson, um adolescente de 13 anos que, com seu “fiel companheiro” Andrew Golden, 11 anos – o frangote do rifle, o little patife da capa – foi o responsável pela chacina de várias colegas e de uma de suas professoras na escola onde estudavam em Jonesboro, no Arkansas.
The Hunter and the Choirboy é o título que Time dá a matéria sobre a matança. “O caçador e o menino do coro”. Quer dizer, o “patife do rifle”, já nosso conhecido, e o gordote de olhar frio, o “menino do coro”, assim chamado porque acabara de “aceitar Jesus e sua salvação”, segundo o jovem pastor Christopher Perry, ministro da Igreja Batista de Jonesboro. O jovem Mitchell – que gracinha! – deleitava os fiéis da congregação Batista de Jonesboro com a suavidade de sua voz de menino do coro.
“Eu era como um menino diante de um palco/Odiando a cortina como se ela vedasse meu sonho”. Time usa como epígrafe de sua matéria esses dois versos extraídos de “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire, que ouso “transcriar” do inglês da revista, pois meu original de Les Fleurs du Mal de Baudelaire ainda está perdido entre as caixas de livros que trouxe do Rio e sequer comecei a abrir.
Uma epígrafe mais que expressiva, iluminada como se sob a luz de um spot sobre a cena onde explode a raiva do jovem Mitchell Johnson ao receber um fora da namorada – pano que fecha rápido, bloqueando o palco de seus anseios. Junte-se essa raiva à facilidade cotidiana no manejo das armas, qualquer arma, possibilitada a qualquer frangote, a qualquer american (cow)boy. Junte-se ainda essa raiva, esses rifles, ao encontro com o outro little patife e teremos o script mais do que óbvio da nova tragédia americana.



Nova tragédia americana? Não, que bobagem! Ela é novelhíssima, como o surrado Eclesiastes aqui citado. A mesma Time constata em outra matéria (“Através da Rota do Diabo”) a aberração representada por esses massacres escolares e repete a velha e inquietante pergunta: “Por que crianças matam?”, Ora, direis, para ver estrelas! Para ver reluzindo as estrelas dos xerifes do faroeste que fizeram de suas mentes.
Pearl, Mississipi, 1º de outubro de 1997: Luke Woodham, 16 anos, mata a própria mãe e dois colegas de classe com um rifle calibre 22. West Paducah, Kentucky, 1º de dezembro de 1997: armado com uma pistola Ruger calibre 22, Michael Carneal, 14 anos, abre fogo sobre os participantes de um culto religioso em sua escola, momentos antes do início das aulas. Ao ser empurrado contra uma parede por um colega que tentava impedir o massacre, Carneal lhe diz: “Mate-me, por favor. Não posso acreditar que fiz isso”. Stamps, Arkansas, 15 de dezembro de 1997: Joseph Todd, 14 anos, apelidado de “Colt”, é acusado de atirar “casualmente em dois colegas de escola”. O xerife da localidade disse que Todd atirara a esmo, não se importando com quem pudesse atingir: “o que ele queria era ferir alguém, qualquer alguém”.


      Pois é, esses mal resolvidos meninos americanos & seus rifles – pênis sub-reptícios mais que simbólicos. Time aborda também a venda indiscriminada de armamento americano usado por países que praticam a tortura; o susto & a gafe do presidente Bill Clinton ao temer um ataque da negritude de Gana, que na verdade tentava aclamá-lo; a inesperada compra da Random House, a mais tradicional editora norte-americana, pela Bertesman AG alemã, um dos gigantes da mídia mundial. E saúda ainda em página inteira três poetas & seus novos livros: JD. McClatchy, Yusef Komunyakaa e Deborah Garrison. Deserto aborrecido? Há controvérsias.



Ronaldo Werneck
Jornal Cataguases/12-04-98


16 de fev de 2018

A VIDA QUE “AVOA” COM SEUS MITOS


A capa do Catálogo da exposição-homenagem de 1995 no CCBB
 e os criadores da mostra realizada no Museu de Arte Moderna do Rio,
 em 1965: a critica de arte Ceres Franco e o marchad Jean Boghici.
     
     “A jovem pintura pretende ser independente, polêmica, inventiva, denunciadora, crítica – social e moral. Ela se inspira tanto na natureza urbana imediata como na própria vida com seu culto diário de mitos”. O ano era 1965 e o enfoque de contestação que salta dessas palavras da marchande Ceres Franco – no catálogo da mostra “Opinião 65” que se realizava no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – reflete bem o contexto de uma época que encontrava a nação ainda atônita e sufocada pelo golpe de 64.
     Nunca mais “JK-65”, nunca mais eleições, nunca mais liberdade de opinião, nunca mais sonho, nunca mais. Era “um tempo de guerra, um tempo sem paz”, ameaçado pela censura surrealista, pelas perseguições indiscriminadas, pelos números sub-reptícios da economia, pelo terror cultural – densas nuvens pairando sobre a manhã já em si obscura. Mas eram jovens e rebeldes os artistas que se apresentavam na “Opinião 65” – e queriam sustentar o sonho e reviver a arte e revolucionar o mundo. Como na voz-bandeira-de-protesto de sua musa Nara Leão: “tudo o que eu sei é viver/e vivendo é que eu vou morrer/toma a decisão, tá na hora/que um dia o céu vai mudar/quem não tem mais nada a perder/só vai poder ganhar”.

Wesley Duke-Lee

     E foi da canção e do protesto que se originaram o nome e a tônica de crítica social da mostra do MAM: os artistas agrupados em torno da “Opinião 65” tomavam emprestado o nome do show realizado no ano anterior em Copacabana e empunhavam sua bandeira, como na voz de Zé Keti: “podem me prender/podem me bater/podem até deixar-me sem comer/que eu não mudo de opinião”. “Opinião 65” foi a facção plástica de um tempo pleno de protesto – já antecipado em 1963 pelo cangaceiro-ícone do “Deus e o Diabo”, de Glauber Rocha (“só me entrego na morte/de parabellum na mão”, pois “mais fortes são os poderes do povo”), ou pelo retirante do “Vidas Secas” de Nelson Pereira, na contenção característica de Graciliano Ramos: “Governo é governo”.
     A idéia da exposição veio do marchand Jean Boghici, ao encontrar-se com Ceres Franco em Paris: reunir no Rio os artistas internacionais que trabalhavam no Novo Realismo europeu e os brasileiros que contestavam a exaurida pintura abstrata via “Nova Figuração” (a Nouvelle Figuration da Escola de Paris), com rescaldos esparsos da pop art norte-americana. Inaugurada em 12 de agosto, “Opinião 65” apresentava trabalhos de constatação/contestação realizados por 17 artistas brasileiros de vanguarda, a grande maioria na faixa dos 20 anos, e de 13 estrangeiros, naturalmente “apartidários”.

Roberto Magalhães

     Em 1966, a comparação com a arte que vinha do exterior seria colocada em cheque por Hélio Oiticica, um dos destaques da exposição de 65 com as cores vibrantes de seus “Parangolés” vestindo cinco sambistas da Mangueira em pleno MAM – num revolucionário movimento vivo. “Chega da anti-arte. Com as apropriações descobri a inutilidade da chamada elaboração da obra de arte. Está na capacidade do artista declarar se isso é ou não uma obra tanto faz se seja uma coisa ou uma pessoa viva”.

Rubens Gerchman
     Estão todos de novo aqui, nesta mostra  onde o Centro Cultural Banco do Brasil comemora os 30 anos da “Opinião 65”, os mesmos trabalhos, agora acrescidos de obras atuais. O que, em muitos casos, permitirá ao espectador o acompanhamento da trajetória de alguns desses artistas, muitos deles transformados hoje em emblemas contemporâneos da criação plástica brasileira. Ao reviver um momento muito específico da história nacional, esta mostra faz-se ao mesmo tempo retrospectiva e prospectiva: um mergulho no passado para entender o presente e, quem sabe, pintar o pássaro do amanhã – “bicho que avoa que nem (g) avião”.

Hélio Oiticica & seus parangolés.

Ronaldo Werneck
CCBB/Rio, 1995
17 maio a 16 julho


8 de fev de 2018

A MULTIDÃO EM GERCHMAN


   



     É como se fosse uma sinfonia, em quatro movimentos que se interpenetram: Povos da Floresta, Bichos da Floresta, Sonho Brasileiro e Clorofila. Obra-síntese, o imenso painel circular de 25x5 metros montado por Rubens Gerchman no Foyer do Centro Cultural é um caleidoscópio dos ícones por onde o homem comum transita atônito, entre o nada e o nada mais que isso.  Sustentada por uma estrutura metálica semicircular, Clorofila é uma instalação pictórica que obriga o visitante a mergulhar na multidão retratada, envolvendo-o em gestos e cores, rostos e silhuetas de um Brasil imaginário e paradoxalmente amarrado no real.


   A multidão é um tema cíclico no fabulário iconográfico de Rubens Gerchman. Rostos desconhecidos, imagens extraídas do noticiário dos jornais, ou dos porões da repressão, o povo explode na tela como quem acusa. Up-to-date com seu tempo, Gerchman revê o cotidiano com um olhar entre o kitsch & o crítico, misto de mau-gosto & concreto malarmado.


     Esta obra anuncia & denuncia um mini-universo violentamente ampliado, gráfico & textual, à semelhança de assinaturas antes patenteadas pelo RG de Gerchman, como Lindoneia (que acabou musa do tropicalismo, via Caetano Veloso) ou Tarsilú, retomada da “Negra” de Tarsila com a Lou-Mona Lisa, Barba Azul às avessas, sacada das páginas policiais.


       Clorofila é um painel que instaura a inquietação, gatilho da verdadeira arte, que é detonado pela vida. Gerchman com a palavra: “O que a meu ver caracteriza o homem moderno é a multidão. Acredito que a minha principal responsabilidade é a de dizer: quero pessoalmente uma arte de conteúdo em que o homem seja sempre medida”.


Ronaldo Werneck
CCBB/Rio, 1993
16 a 28 de junho


6 de fev de 2018

ANNA MARIA MAIOLINO: ANTROPOFAGIA & ARTE

Anna Maria Maiolino entre a mãe e a filha em "Por Um Fio"

     Leio na “Ilustrada” da Folha de S.Paulo do último domingo que a artista plástica Anna Maria Maiolino faz no Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles a maior mostra de seus trabalhos já realizada nos Estados Unidos. Foi quando me lembrei de um texto de apresentação para o catálogo de uma de suas exposições, que eu escrevi para o CCBB/Rio em 1993. Lá se vão 25 anos, mas aproveito para republicar.
     A trajetória de seis décadas como artista mostra a fuga de Anna Maria Maiolino e da família de uma Itália destruída pela Segunda Guerra, a passagem pela Venezuela, primeira migração, seus anos nova-iorquinos e o momento em que fincou raízes em São Paulo, onde vive hoje.
     “Fui uma andarilha”, diz Maiolino. “E fui criar um alfabeto, um discurso na arte por não pertencer a nada e a tudo ao mesmo tempo. É uma coisa muito paradoxal. Mas quando os brasileiros querem me ver como uma artista de fora, fico ofendida. Tenho plena consciência que sou um produto da arte brasileira. Todo artista é um antropófago”.
A seguir, meu texto sobre ela.

A MÃO DE
MAIOLINO


     Desde o início de sua trajetória artística, existiu sempre em Anna Maria Maiolino uma latente inquietação pelo ato de fazer em si e, mais ainda, pela estrutura da “cousa” onde aplicava suas criações. Daí um constante interrogar-se com relação aos próprios suportes de sua arte, como no tempo da Nova Figuração, quando buscava revitalizar as potencialidades formais da gravura e do próprio objeto.
     Essa preocupação manteve-se mesmo em fases posteriores, ao lançar-se – já no final dos anos 60, em Nova York – na desconstrução do suporte da gravura e do desenho, interferindo na aparente neutralidade do papel através das incisões, fendas, perfurações. Já então, como agora, Maiolino “tateava” a metáfora maior de sua obra: um discurso preso ao fazer matérico, extraído do manuseio do objeto, da mão operante, da mão que emprega, que se entrega, da mão que obra a matéria e que, ao preservar o seu “estar-no-mundo”, afasta-se definitivamente da ilusão.
     Anna Maria Maiolino foi buscar em Pirandello o título dessa exposição. Nada melhor que “Um, Nenhum, Cem Mil” para dar sentido a suas cobrinhas, a esses rolinhos que são um e nenhum, pois ao mesmo tempo que preservam sua identidade, o que há de intrinsecamente matérico em si mesmo, somam-se a outras formas parecidas, repetindo-se na composição desses objetos-cousas. São iguais e diferentes, esses objetos. É a mesma a argila em que são modelados. É semelhante o gesso que se aplica ao molde, quando retirada a argila. É a mesma a dualidade pleno-vazio-negativo-positivo, oco-cheio com que trabalham as mãos de Maiolino.
      A artista substitui a argila pelo gesso, mas mantém a essência do material, seu peso e temperamento. Anna Maria Maiolino não quer ocas essas cousas, meros simulacros. O que ela nos propõe é o ato de “cousar” - sinônimo de reflexão e mistério. Ao abrir espaço para essas matérias vivas, o Centro Cultural Banco do Brasil quer devolver ao público um pouco do fascínio primitivo do trabalho de mãos simples – padeiros, ceramistas – frutos de paciência e prazer. Aqui, não se esculpe – mas se modela à imagem e semelhança da memória, do acaso que vem da mão.

Ronaldo Werneck
CCBB/Rio, 1993




1 de fev de 2018

Oscuro amore: Cego na Ficção




Em meados de 1978 fui diagnosticado com glaucoma. O oftalmologista com a palavra: “tem que pingar esse colírio de 12 em 12 horas, senão a coisa fica preta”. Literalmente preta, pensei. Nunca mais o mar, nunca mais o amarelo de Van Gogh. Da aflição, do temor, surgiu um esboço de conto, o primeiro e único que escrevi. Tempos depois, num almoço no restaurante da Manchete com os saudosos Salim Miguel e Victor Giudice, acabei mostrando o texto já pronto. Salim, então um dos editores da Revista Ficção, junto com Cícero Sandroni, botou meu texto no bolso e nada mais disse. Dias depois me ligou: gostou de meu conto, pediu pequena biografia literária e uma foto, pois iria publicá-lo.
Em dezembro daquele ano, em sua edição de nº 36, com direito a chamada de capa, Ficção publica Oscuro amore Esse o título de meu “conto”. Afinal, como já disse Mário de Andrade, “conto é tudo o que o autor chama de conto”. E estamos conversados. Com minhas sucessivas mudanças, a Ficção com Oscuro Amore acabou sumindo, inclusive os originais. Ele não é era lá essas coisas, mas era também todas essas coisas de um ainda jovem Werneck tateando na ficção, totalmente sem jeito, sem saber onde o troço ia parar. Literalmente: tanto que meio à moda do Finnegans Wake de James Joyce (não à toa eu citava o finnicius joyceano) ele iniciava e findava com as mesmas palavras, como num eterno retorno.
Aos poucos, eu me esqueci dessa minha primeira e única aventura ficcional. E também do colírio: às vezes ficava meses, às vezes até anos sem pingar o maledeto. Cada vez que voltava ao oftalmologista carioca levava uma bronca daquelas. Pingava então durante um, dois meses... e relaxava. Passaram anos, muitos anos – não tantos como aquele pasarán más de mil años, muchos más/ yo no sé si tenga amor la eternidad ”de “Sabor a mí”, aquele eterno bolero de muitos anos. E a minha melódia do glaucoma lembrava mesmo um tristíssimo e esquecido bolero.
Em 2007, já em Cataguases, consulto um “oftal”, pois o grau de meus óculos já não atendia à demanda. Surpresa: ele não conseguiu acertar de modo algum o meu grau: o glaucoma estava avançado e a catarata “obnubilava” que nem a Niagara Falls (menos, menos: vamos dizer, as Cataratas do Iguaçu). Indicado, procurei outro médico, que desconhecia completamente. O sujeito foi taxativo (na verdade, de uma grossura sem par): “não adianta colírio, não adianta mais nada. Em menos de seis meses você estará cego”. Saí dali às cegas, e não era pra menos. Voltei pra casa arrasado, meio que no desespero – e não consegui dormir.
De noite na cama eu não pensava se “você me ama”, mas sim no meu amigo, o pianista Paulinho Cego, cegueta mesmo que só ele, mas sempre bem-humorado. Lembrei de uma  noite em que faltou luz no famigerado Edifício 200, em Copacabana, onde eu morava nos anos 60 com os bateristas Tião e Afonsinho. Paulinho estava lá, pois tinha um show com o Afonsinho numa boate das redondezas. Desciam os dois pela escuridão da escada quando Paulinho soltou sua máxima: “segura no ceguinho, que agora é a minha vez de guiar”.
Tentava rir, ao rememorar o episódio. Mas só pensava numa coisa: pegar o carro e partir pro Rio na manhã seguinte. Pra ver outro médico? Não, pra ver o mar pela última vez. Aí me levantei, e já ia pegar um inexistente cigarro (não fumo há mais de 20 anos), quando cheguei até a varanda, olhei as sombras da noite, o vazio, o silêncio da cidade do interior. Foi quando “parei com o mar” e soltei pra mim mesmo: “Deixa de nostalgia poética, Ronaldo. Deixa de frescura: você tem sim que ir pro Rio, mas pra fazer uma consulta com um especialista”. Dito e feito: nada tão grave assim: Fui operado de catarata e glaucoma, e hoje estou enxergando tudo em cinemascope & technicolor.
E Oscuro amore? Não ficou esquecido. Com o “susto do quase cegueta”, lembrava-me cada vez mais dele. Em 2016, logo após minha cirurgia de glaucoma, pensei em procurar o Salim Miguel (Victor Giudice já havia morrido há quase 20 anos), mas fiquei sabendo que ele também morrera alguns meses antes. Lembrei então que podia procurar o Cícero Sandroni na Academia, quem sabe ele não possuía a coleção completa de Ficção? Mas sempre que fui ao Rio nesses últimos dois anos para revisões médicas, ou mesmo para flanar como Baudelaire em Paris, ou  cariocamente “bundear”, acabava me  esquecendo do Cícero e de Oscuro amore.
Eis que, no final do ano passado, em função de meu livro sobre Rosário Fusco, o professor, mestre em Literatura e escritor baiano Valdomiro Santana fez contato comigo. Logo percebemos ter vários amigos em comum, muitos deles escritores de quando morei em Salvador na década de 60, mortos a maioria, outros de quando ele e eu moramos no Rio. Mas Valdomiro disse também algo que me despertou: ele fora do Conselho Editorial de Ficção. Foi quando retomei mais uma vez a busca por meu conto. Falei que acreditava que ele tivesse sido publicado no número 10 de Ficção. Ele me disse que tinha em casa uma coleção, embora incompleta, mas que iria procurar.
Dias depois, recebo email do Valdomiro: nada. O número 10 não tinha nenhum conto meu. Perguntou se eu tinha certeza de que ele havia sido publicado. Disse que sim, que tinha um exemplar que havia sumido. Ele ficou de fazer outra busca. Logo a seguir, recebo outro email dele. Não é que Valdomiro, que agora chamo de meu “Sherlock baiano”, havia investigado minuciosamente e acabara encontrando um professor em Brasília que... é melhor reproduzir o email do Valdomiro, que diz melhor:

“Werneck, 
            Lembrei-me do Wander Piroli, velho e saudoso amigo. Se fosse ele, aquele filho da mãe, para lhe escrever esta mensagem, começaria dizendo: "Puta que pariu, seu conto foi achado". A história do achamento: comecei a pesquisar na internet os autores publicados por Ficção. Nada. Já ia desistir quando bateu a sorte: encontrei um link de um cara chamado Alcmeno Bastos, professor da Universidade de Brasília, que publicou numa revista de literatura de lá um artigo sobre a história de Ficção. Descobri que tem um blog e escrevi pra ele. Relembrei a revista e falei de seu conto. Ele foi de uma atenção imediata e de rara gentileza. Achou e me enviou as cópias anexadas: capa (dezembro de 1978, nº 36), sumário e páginas em que aparecem os dados biográficos e o texto do conto "Oscuro amore", que vou ler em casa, à noite, com calma, pois estou trabalhando na universidade. Dizem que tudo é possível, menos duas coisas: Deus pecar e dar gorgulho em sal. Então, agora, junte seu pessoal de casa e cupinchas para contar esta novidade de 39 anos, o que é muito tempo para quem estava esperando debaixo da chuva, e abra uma garrafa respeitável para comemorar. Abraço do Valdomiro”.

            Que dizer, senão comemorar o “achamento” como me sugere o meu sherlockiano professor e amigo Valdomiro Santana? E dar três vivas de agradecimentos ao também professor Alcmeno Bastos, ora pois. Na verdade, Oscuro amore não é propriamente uma grande joia (vejam o texto de abertura-apresentação que escrevi na época, cheio de dedos e hesitações). Embora, de certa forma, seja uma pequena joia: não importa a qualidade literária, é um texto que vou guardar para sempre, lembrança de um tempo de quase cegueira. São assim os ceguetas, né mesmo? Memória de elefante.
            Vejam então a seguir a cópia do conto Oscuro amore que me foi enviada por Valdomiro Santa via professor Alcmeno Bastos,meus dois sherlockianos professorese tal como foi publicado na Revista Ficção.

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