19 de jul de 2018

O goleiro em vão: a bola não vem por onde devia


A perfeição é uma meta/ 
defendida pelo goleiro.
 Gilberto Gil

Maldito é o goleiro. 
No lugar onde ele pisa nunca mais nasce grama.
Dom Rossé Cavaca

O goleiro deve dormir com a bola. 
Se for casado, dorme com as duas.
Neném Prancha


“Nada me ensinou mais na vida do que o fato de ter sido goleiro” – disse um dia o grande romancista franco-argelino Albert Camus (1913-1960), que foi goleiro do time da Universidade de Argel no início dos anos 1930. Ele era alto, magro e de aspecto físico frágil. Não virou profissional, mas refletiu sobre a função de goleiro. “Depois de muitos anos em que vivi numerosas experiências – afirmou numa entrevista de 1957 – seguramente tudo o que sei sobre moral e responsabilidade eu devo ao futebol. Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente pensa que são”.


Camus: "Tudo que sei devo ao futebol."

Na Folha de S. Paulo do último domingo, 15 de julho, Tostão – que não foi goleiro, mas craque no campo e agora também na crônica – filosofou: “As transformações no futebol ocorrem aos poucos e passam despercebidas. De repente, enxergamos o óbvio, que muitas coisas estão diferentes, como nos últimos 15 anos, e que, no Brasil, só se deu importância após os 7 a 1. Assim ocorre também na história e na vida. Quando olhamos no espelho, levamos um susto ao constatarmos que envelhecemos, e que temos de correr atrás da vida, antes que ela acabe”.

Guevara & o papa
O goleiro não corre atrás da vida, mesmo porque sua função é esperar a vida feito a bola que corre contra ele – e às vezes até por ele passa. Isso quando não faz milagres, a exemplo do “São Castilho” do Fluminense da década de 1950. E, no Brasil, goleiro milagreiro logo vira santo. Talvez, seja porque um papa que teve seus dias de goleiro foi canonizado. Karol Wojtyla, o papa João Paulo II, virou santo em 2014. Amigos dizem que, na infância, a posição preferida do papa era a de goleiro nas peladas em Wadowice, na Polônia. Contam que ele era robusto e corajoso: “Quando ele atuava como goleiro, era como um leão em frente à meta”.


João Paulo, "o leão", e o Che que se joga atrás da bola.


Como se sabe, o argentino e “revolucionário cubano” Ernesto Che Guevara tinha problemas respiratórios – e havia restrições médicas à prática de esporte. Mas ele não abria mão de usar o futebol como oxigênio para as cruzadas. Atuar no gol era um santo remédio, segundo relata o amigo Alberto Granado: “Em 1963, em Santiago de Cuba, fizemos um jogo de futebol. El Che era ministro das Indústrias e uma figura muito popular. Mas, quando estava no gol, não se lembrava do cargo nem de nenhuma outra coisa. Enfrentávamos uma equipe da universidade que era treinada por Arias, um espanhol. Durante o jogo, Arias recebeu a bola e avançou, mas Guevara saiu do gol e lhe deu o bote. Ninguém podia imaginar que o ministro iria se jogar aos pés de alguém por causa de uma bola. Mas ele era assim”.  
Outro político que também jogou no gol foi o brasileiro Café Filho, presidente da República de 1954 a 1955, depois do suicídio de Getúlio Vargas. Único chefe de estado na história do Brasil a ser jogador de um time de futebol, ele fundou o Alecrim Futebol Clube de Natal, do qual foi goleiro nos anos 1918 e 1919 – mesmo porque não tinha a mínima habilidade com os pés. Em sua autobiografia, referindo-se à histórica derrota do Alecrim por 22 x 0 para o América-RN, Café Filho ironizou:  “O arqueiro que certa vez me substituiu deixou que os adversários fizessem 12 gols, enquanto eu deixara a bola passar nas traves apenas 10 vezes”.

Louco pra ser goleiro
Há outros também que ficaram apenas na vontade de ver realizado o sonho de ser goleiro ao menos uma vez na vida, como o poeta e romancista russo Vladimir Nabokov. “Eu era louco para ser goleiro. Na Rússia e nos países latinos, esta arte altaneira sempre esteve cercada de um halo de fascínio singular. O trabalho do goleiro é como o de um mártir. É a águia solitária, o homem misterioso. Os fotógrafos se ajoelham em reverência para imortalizá-lo em pleno salto espetacular. Distante, solitário, impassível, o grande goleiro é seguido nas ruas pela meninada em transe. Rivaliza com o toureiro e os aviadores como objeto de emocionada veneração. A camisa, o boné, as joelheiras, as luvas saltando dos bolsos da calça o distinguem do resto do time. É a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor”.


Marinato: de Cataguases para a Rússia. Nabokov: louco pra ser goleiro.

E olha que em Cataguases – onde tudo é espanto –também afloram goleiros que, vamos dizer assim, a “projetam para o mundo”. Comentando minha crônica anterior, disse José Nêumanne Pinto, escritor e colunista do Estado de São Paulo: “Meu poeta e prosador, Cataguases é a Atenas (em função de seus poetas e escritores) de Minas e a Islândia (por causa do goleiro-cineasta) das Gerais”. E não é? Esta “arte altaneira” atraiu ainda agora ninguém menos que o cataguasense Guilherme Alvim Marinato, atual goleiro reserva da Seleção Russa que disputou esta Copa do Mundo. Ainda no time de escritores goleiros, também jogou Arthur Conan Doyle. Antes de publicar As aventuras de Sherlock Holmes, ele entrou para a história como primeiro goleiro do Portsmouth, da Inglaterra. Já outros escritores, como o uruguaio Eduardo Galeano e o nosso Nelson Rodrigues, se não foram goleiros, elaboraram as melhores definições sobre eles.
Diz Galeano: “Carrega nas costas o número 1. Primeiro a receber, primeiro a pagar.  O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito”. E Nelson:Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes, num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota”.


Julio Iglesias: no início, goleiro do Real Madrid. 

Embora não tenha se destacado sob as traves, outro goleiro que ficou famoso mais tarde foi o espanhol Julio Iglesias... mas como cantor. Seu sonho era jogar futebol e ele viveu bons momentos defendendo a meta do Real Madrid, desde que ali ingressou aos 16 anos. Aos 19 já era titular, mas sua carreira no futebol terminou após um acidente de automóvel que o deixou de cama por mais de um ano. Ganhou na época um violão, começou a tocar, e mudou de carreira.

O culpado foi o Juvenal
“Um dia as pessoas vão ver que eu não tive culpa. No Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. E já cumpri mais de 40 anos de punição por um crime que não cometi” – declarou Barbosa, o goleiro da Seleção Brasileira de 1950, ao ser proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira de 1994 para uma visita de cortesia.
No Rio de Janeiro dos 1970 eu almocei várias vezes ao lado do craque Ademir Menezes, o Queixada, no velho Oxalá da Cinelândia.  Mas não tinha coragem de falar com meu ídolo no meio daquele mundo de carurus & vatapás.  Uma tarde, já naqueles anos 80 pré-internet, fui levar meu texto na redação do Pasquim, que na época funcionava na Ladeira Saint Roman, em Copacabana. Na volta, resolvi tomar um chope na Avenida Atlântica, no Alcazar, aonde não ia há tempos. A varanda do restaurante estava vazia àquela hora. Só eu e outro freguês. Adivinhem quem. 


Ademir Menezes: Barbosa não teve culpa.
    Depois do terceiro chope e dos correspondentes steinhaggers, tomei coragem e abordei o Ademir. Que nem um uruguaio dos anos 50. Mas o Queixada não me driblou. Pelo contrário, foi simpaticíssimo e nós conversamos até o anoitecer. A chopada valeu até um depoimento inédito sobre o gol de Gighia em 50, devidamente datado e assinado por meu velho ídolo numa comanda do Alcazar, e que vai reproduzido a seguir.
Pô, Juvenal, então foi você o culpado? Todos achávamos que fora o Barbosa, o inexpugnável goalkeeper do meu Vasco (dos anos 50, antes de eu virar Flamengo, que sou via-casaca assumido), o Barbosa que não foi naquela bola meio marota, vindo assim meio chocha da linha de fundo, como quem não quer nada, aquele chutinho furreca do Gighia que botou o Brasil em prantos. Vamos dizer, então, como o Chico Buarque, que o culpado foi o Maracanã. Mesmo que o Ademir lance certas controvérsias sobre o pobre do Juvenal, coitado, “que esqueceu da cobertura". É menos doloroso. Pois é, estamos com o Maracanã entalado até hoje na garganta, por mais que cantemos as Toradas em Madrid.


“Ao Ronaldo, com um abraço,
Ademir Meneses.
Copa de 50:
não há culpado, mas pela lógica,
 quem poderia ter salvo foi Juvenal,
que esqueceu da cobertura.
 Rio de Janeiro, Dezembro de 1982.
Ademir Meneses”.

In Jornal Olé nº 21
16 a 30/06 de 1998



O início e o fim: vilão & heroi
Ser goleiro é ser herói e vilão exatamente ao mesmo tempo – disse alguém um dia. Quem? Não importa. É querer evitar o inevitável sempre achando, lá no fundo, que dava pra defender o mais indefensável dos chutes. É jogar um jogo coletivo de  forma quase individual e depois de uma grande defesa, ainda que não te agradeçam, saber que você é tão ou mais importante que o artilheiro. É saber dizer, mesmo quando todos achem o contrário, que não houve falha, pois só quem joga lá embaixo das traves sabe o quanto as defesas que parecem simples às vezes são bem mais difíceis que os pulos vistosos. É ser o início e o fim do time. É querer acertar quando o time inteiro já errou... Enfim, ser goleiro é ser a alma do time, mesmo num jogo onde o principal objetivo é passar  por você.
    Ao que parece, esse beabá do goal-keeper não foi assumido pelo argentino Muslera na Copa da Rússia, ao engolir aquele frangaço no gol de Griezmann. Aquele chute fracote do francês que vinha onde Muslera estava, no centro da meta, aquela bola que ele deixou escapar de sua mãos e ir pro fundo das redes.  Exatamente como aconteceu comigo numa tarde de Cataguases, lá pelos anos 1950. Uma tarde inesquecível. Também pudera. Eu sob as traves do Operário Futebol Clube e no alto de um muro, como se debruçadas sobre o campo, minha mãe, minha tia e minha suposta namorada (que disso não sabia).


Muslera: bola que escapa e estufa as redes.

Um goleiro, qualquer goleiro, só existe enquanto existe o ataque adversário. Tem hora que a gente reza pra que chutem, chutem muito, chutem sempre. É a única chance de assinar o ponto o infeliz que apesar de todos os entraves busca resguardar o sacrossanto espaço entre as traves. Naquela tarde, nós já ganhávamos de um a zero, e nada da bola chegar à minha meta. Lá bem no alto das arquibancadas, ali bem em cima do gol onde me encontrava – sou surpreendido por três inesperadas figuras, tão raras quanto amadas e queridas e distantes como agora.
Os fundos da casa do pai de minha amada dava pro campo do Operário, exatamente como uma perpendicular que descesse sobre as traves onde me encontrava sob. Às vezes durante os treinos, e quase sempre em todos os jogos, minha amada lá se postava encarapitada na amurada. Diga-se, a bem da verdade, que “minha amada” é força de expressão, pois “ela não sabia que o era”, se me permitem as palavras truncadas. Nem precisa dizer que eu tinha um olho no campo e outro acima da arquibancada. Acho mesmo que devo debitar na conta desses olhares os únicos e pouquíssimos gols que sofri em minha exemplar carreira. Bem, na verdade, não foi muito uma carreira, porque jogava parado, embora em constante movimento, coisa de goleiro, não sei se me entendem.

Pede demissão!
Quem não me entendia era eu mesmo naquele jogo, esse que vemos agora, sob aquelas traves aonde não chegava sequer uma mísera bola. Nada chegava à minha cidadela, fora os olhares ansiosos lá de cima. De quem? Sim, dela é claro, mas também, e pela primeira vez vendo a atuação deste herói, de minha tia Carmem, a Cacai, que me acolchoava os calções, costurava as joelheiras e as meias, e dava a maior força para minhas arremetidas ao evitar os gols desta vida. Estava lá Cacai, que guardava e acho que guarda ainda agora os voos impossíveis deste inacreditável goleiro que com amor buscava agarrar seus sonhos. Os meus e os dela. A terceira criatura era de todas a mais improvável, a mais impossível de ali estar.
Dona Maria José Werneck Silva, Dona Zeca, la mamma. Lá estava quem eu menos esperava, a mamãe que odiava só de pensar no seu rebento transformado num “desses vagabundos que viviam de bicho e bola”. Bola, era a bola mesmo, futebol. Bicho, aquele mimo, aquele dinheirinho passado pelos dirigentes após as vitórias. Séria, atenta entre Cacai e minha amada, lá estava ela, a Dona Zeca: quem diria, quem eu mais temia. E o atleta aqui suava frio e sem graça, mesmo porque a bola, essa danada, não vinha nem por nada. Nosso adversário era formado por inacreditáveis pernas de pau e sequer mandavam um mísero chute pro meu gol.


Anos 50:  à frente do Juvenil. Mas eu jogava atrás. 

Eu parado, eu nervoso, eu inútil. Eu, Tarzan; você, Jane, minha amada. Onde anda meu cipó, como fugir dessa grama, como escapar dessas traves, como sair dessa selva selvaggia? Eis que de repente, e não mais, numa falta besta qualquer lá no campo deles, um jogador adversário chuta aquela bola que vem lá de tão longe, de mim distante. O sujeito havia chutado a grama e a bola lá vem vindo dos confins onde me desavim, murcha e chocha que nem ela – enquanto toda a defesa de meu time vira as costas, esperando que eu pegue a dita cuja e distribua pro ataque, num desses lances corriqueiros de qualquer partida.
Era a minha vez, a vez de mostrar minha competência para as três “figuras murais”. Dei uma última olhada assim de viés lá pra cima – para aquelas que eu acreditava minhas fãs forever, e me preparei para “a” defesa. Na verdade, não precisava de defesa nenhuma, a bolinha vinha boba e mansa, como se saísse dos pés de um moleque, rumo ao meio do gol, onde eu estava. Quer dizer, era só ali ficar, encaixar cômoda e tranquilamente no peito e distribuir a jogada. Não seria nem contra-ataque, já que não havia ataque, pois aquele chutinho suburbano não representava nenhum perigo. Ledo engano.
Não imaginavam os companheiros, não imaginavam os adversários, não imaginava a nobre torcida nem o trio de fãs o que arquitetava este nobre atleta. Aos poucos, meio de banda, fui dando uns passos pra fora do centro e do gol. Assim, quando a danada chegasse, e chegou, era só fingir um mergulho que era um mergulho mesmo, pois agora eu estava fora do centro, de mim, do campo, do gol e do mundo. Foi um voo daqueles antológicos, uma ponte belíssima à la Pompeia, daquelas pontes de “quero palmas”, onde agarrei a menina-bola como se agarra e se domina o mundo quando jovem. Só que o impulso de meu salto foi demasiado e incontrolável. Fomos parar, eu e minha redonda amada, no fundo do gol. Santa palhaçada! É quando, ainda no chão, preso à rede e ao vexame, ouço o grito inesquecível de mamãe: – PEDE DEMISSÃO, MEU FILHO!
Não pedi, mas deveria. Tempos depois, veio a glória (não, o nome da suposta namorada era outro), ou quase. Na Cataguases da época, como “no resto do mundo”, fazíamos o chamado footing na Praça Rui Barbosa: os meninos andando pra cá, as meninas pra lá. Foi quando ouvi, numa noite de domingo, meu nome citado pelo locutor e comentarista Celso Motta num dos alto falantes que transmitia, do alto de uma árvore, a programação da Rádio Cataguases. Eu fora eleito o melhor jogador em campo numa partida realizada naquela tarde entre o Juvenil do Operário e o do Flamenguinho, nosso grande rival. Imaginei então que minha amada – que rodava pela praça no sentido inverso ao meu – tivesse escutado a transmissão. Mas em seu footing sem fim, ela já estava do outro lado da praça. E, como sempre, não estava nem aí pra mim e pras minhas mirabolantes defesas.


13 de jul de 2018

Goleiro faz cinema




                                                         o mundo
em suas mãos
                 gira
em torno
   do sol
                solta-se
                              além
                dos pontas e dos pés
    e volta
                  num só revés
          gol
 dolo
       tento
                  súbito e violento.

  Durante a Copa do Mundo de 1978, aquela da Argentina, fiz este poema que gira em torno da aflição do goleiro no exato momento que antecede o chute a gol: qualquer chute, contra qualquer gol. Não por acaso, o nome do poema é “O Goleiro Atônito”. Tem tudo a ver com o que eu e milhões de espectadores da aldeia global (vi)víamos pela TV naquele tempo, via satélite. Dentro de casa – como agora, 40 anos depois – a Copa intensificava a angústia.
  E nesta Copa da Rússia vejo goleiros fazendo cinema, às vezes até literalmente. Olhem só: além de goleiro, Hannes Halldórsson – o camisa 1 da Seleção da Islândia que esteve na Rússia – é também cineasta.  Pela segunda vez, “encaixa-se” (palavra certa, tratando-se de goleiros) à perfeição aquela tirada de Ary Barroso, citada por Humberto Mauro: “goleiro faz cinema”.
      A primeira vez deve-se ao próprio Mauro, de quem ouvi o dito de Ary Barroso. Foi numa partida em Volta Grande, num dos intervalos das filmagens de “A Noiva da Cidade”. Carlos Imperial era um dos goleiros e “aceitava todas”, não conseguia segurar nenhum dos chutes dos adversários. Mauro virou-se pra mim: “o Imperial está me oferecendo não sei quantos contos para eu fazer um filme com ele. Pois é, se o Imperial ´faz cinema´ como agarra no gol aí é que eu não vou mesmo filmar com ele”. 
Atuando pelo Flamenguinho de Cataguases, Humberto Mauro foi considerado um dos melhores goleiros da Zona da Mata e acabou literalmente “fazendo cinema”. Já Ary Barroso – grande compositor, mas não cineasta – não passou de um goleiro assim-assim do Aimorés Futebol Clube de Ubá e, para espanto da torcida, jogava de óculos. Face à sua miopia, Ary foi o único goleiro da história a jogar de óculos e, talvez por isso, eu nunca soube que ele “fazia cinema”. Com “fazer cinema”, Ary queria dizer fazer aquelas pontes, aqueles voos, aquelas defesas espetaculares para gáudio do (in)distinto público. Aquelas pontes inacreditáveis que o goleiro Pompeia, um dos meus ídolos, fazia quando goleiro do América nos anos 1950/60.


Pompeia, a Ponte Aérea & Ary Barroso e seus óculos.

Também, pudera: Pompeia – apelidado de Constellation, Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora – foi trapezista de circo antes de ser o histórico goleiro do América. E certa vez afirmou: “Quem mais gosta da bola é o goleiro. Todo mundo a chuta, só o goleiro a abraça”. Modestamente, entro na história: o treinador do Pompeia quando ele ainda era do Bonsucesso, o técnico Alfinete, acabou vindo parar em Cataguases na década de 50, e foi meu treinador quando eu era goleiro do juvenil do Operário Futebol Clube. Pois é, não sou cineasta, mas já andei “fazendo cinema”. Depois eu conto.
Mas antes fica outro “registro cataguasense”: o primeiro goleiro da seleção brasileira não era cineasta, mas historiador e escritor. Seu nome, Marcos Carneiro de Mendonça (pai da crítica teatral e tradutora Bárbara Heliodora), nascido em Cataguases em 25.12.1894. No Rio, ele jogou pelo América e pelo Fluminense e detém até hoje o título de goleiro mais jovem a atuar pela Seleção Brasileira, pois tinha 19 anos quando de seu primeiro jogo, contra o Exeter City, da Inglaterra, no 21 de julho de 1914. Marcos foi titular da Seleção por nove anos e conquistou os campeonatos sul-americanos de 1919 e 1922.


O cataguasense Marcos Carneiro de Mendonça,
             primeiro goleiro da Seleção Brasileira.

Cinemascope em Juiz de Fora

     Existe um dia do goleiro, se é que vocês não sabem: 26 de abril. Isso porque é o aniversário do Manga, o histórico goleiro do Botafogo e da Seleção. Segundo ele, a homenagem “foi um reconhecimento depois do que passei após a Copa de 1966. Foi difícil lidar com as críticas depois de substituir o Gilmar e falhar contra Portugal”. Então, vejam o que diz “o goleiro que virou dia”: "Habilidoso com os pés, líder e artilheiro, Rogério Ceni foi um dos grandes goleiros que vi jogar, é o sonho de qualquer treinador. Não podemos nos esquecer do Taffarel, o melhor goleiro de todos os nossos cinco títulos mundiais. Foi o mais decisivo de todos eles. Mas, na atualidade, o melhor do mundo é o Neuer, da Alemanha. É frio, tem o respeito da defesa e muita sorte, que não pode faltar a um goleiro”.


O alemão Neuer & Manga: o Dia do Goleiro 

     Também eu achava, e acho ainda, o Neuer um formidável goleiro, que tinha tudo para ser o melhor de todos na Copa da Rússia. Mas o futebol tem suas mumunhas e acabou dando no que deu. A Alemanha não só foi pro brejo como levou o Neuer de cambulhada. Ele às vezes parecia o Rogério Ceni ao atuar até como líbero e distribuir jogadas com os pés dentro de seu campo. No desespero de ver sua equipe desclassificada contra a Coreia do Sul, partiu célere pro campo do adversário, levou um drible e permitiu que a Alemanha levasse o segundo gol com as traves vazias. Acontece com os melhores goleiros.
     Mas vários goleiros andaram “fazendo cinema” nessa Copa da Rússia, uma competição que contou com outros grandes goal-keepers. Não cabe falar do brasileiro Alisson, acho que o menos vazado na Copa, com apenas três gols sofridos. Não teve oportunidade de grandes defesas, pois foram raras as vezes em que a bola chegou às suas mãos em todas as partidas. Sem saber, ele acabou “testado” no último sábado, 7 de julho, em Juiz de Fora. Num jogo pela Série C do Campeonato Brasileiro entre o Tupi e o Cuiabá aconteceu um fato, vamos dizer, histórico.
Em menos de oito segundos, num lance em sequências, o goleiro do Tupi, Ricardo Vilar, fez quatro defesas consecutivas e espetaculares. Vilar fez cinema dos grandes na partida, diria mesmo “cinemascope”. De quebra, ainda defendeu um pênalti. Apesar de o Tupi ter sido derrotado por 3 x 1, a façanha de Ricardo Vilar viralizou e mereceu notícia até mesmo em jornais estrangeiros. Comentaristas locais chegaram a dizer que ele devia estar na Copa, pois foi melhor que o Alisson. Menos, gente, menos!


Pickford & Courtois
Já o inglês Jordan Pickford foi um dos mais exigidos na Rússia, o herói da classificação nas quartas de final, quando a Inglaterra venceu a Colômbia por 4 a 3. Na disputa por pênaltis, Pickford defendeu uma cobrança efetuada por Bacca, acertou o lado em outras duas e ainda viu um chute explodir no travessão. O jovem goleiro inglês, de 24 anos, fechou o gol em quase todos os jogos, principalmente contra a Suécia, com defesas espetaculares, como quando espalmou a cabeçada à queima-roupa do sueco Marcus Berg. Ou ao defender um tirambaço de Claesson vindo da marca do pênalti, ou ainda quando Berg dominou dentro da pequena área, girou bem, chutou e Pickford, com muito reflexo, esticou o braço e jogou a bola para escanteio. Isso sim foi “fazer cinema”.


Pickford numa grande defesa.

    Destaque para o francês Lloris, que espalmou a cabeçada à queima-roupa do argentino Cáceres quando a França vencia ainda por um a zero, numa das defesas mais difíceis da Copa. Também para Igor Akinfeev, da Rússia, que já foi apontado como sucessor do lendário Lev Yashin, o Aranha Negra, um dos maiores goleiros de todos os tempos. Sua fama de grande goleiro, porém, recebeu forte baque quando sofreu um frango histórico na estreia da Rússia na Copa do Mundo de 2014. Uma primeira impressão apagada, agora que Akinfeev é o novo herói russo: em duas defesas nos pênaltis, ele eliminou a Espanha da Copa do Mundo. Tinha razão Raul Plassmann, o comentarista e também goleiro de dois de meus times, o  Cruzeiro e o Flamengo: “Não se deve dizer que o sujeito perdeu o pênalti, ora pois! O certo é dizer que o goleiro defendeu o pênalti”.


Courtois salva a Bélgica no chute de Neymar.

    Sem esquecer o grande (e alto: quase dois metros) Thibaut Courtois, da Bélgica – que, se olharmos bem, é igualzinho ao general De Gaulle; e, se olharmos mal, também. O ótimo goal-keeper Courtois, que fechou o gol contra o Brasil e fez cinema com aquela grande defesa, aquele voo de trapezista que impediu o gol de Neymar no último minuto, o gol que seria de empate e poderia ter virado o jogo.  Pois é, o Neymar, que um comentarista classificou, para espanto da plebe rude, como “inteligência sinestésica” – o que quer que isso signifique: nada, e nada mais que isso. Thibaut desprezou a vitória do time francês na semifinal: “Preferia ter perdido para o Brasil que para a França. Ao menos, eles eram um time que queria jogar futebol. A França foi um time de antifutebol".


O improvável acontece


O Aranha Negra Yashin & Gilmar: o melhor de todos.

Yashin, o grande goal-keeper da seleção russa de 1958, disse certa vez que o melhor goleiro que vira jogando foi o brasileiro Gilmar. O grande goleiro do Corinthians, depois do Santos e bicampeão mundial com a seleção brasileira em 1958 e 1962. E que ficou também conhecido, vejam só, por tomar o histórico primeiro gol de Pelé num jogo entre Corinthians e o Santos. Acontece. Aconteceu também que num amistoso no Maracanã entre a seleção do Brasil e a da Rússia Gilmar bateu um tiro de meta e acertou a cabeça do centro-avante russo (que estava de costas). A bola não só acertou o russo como voltou de uma só vez para dentro das traves, num dos gols mais improváveis da história do futebol. O que Gilmar fez? Foi pra dentro das redes, pegou a bola com toda a calma e, num semi- sorriso, devolveu a pelota pro meio de campo. Ele não teve culpa alguma do gol e a coisa foi tão inusitada que só mesmo um sorriso de quem se garante como goleiro, mas não pode se garantir quando o improvável torna-se subitamente provável.
Pois bem, agora na Copa da Rússia aconteceram dois momentos improváveis, de amargar para os goleiros. Um deles, com o argentino Willy Caballero. Na estreia contra a Islândia, ele por pouco não entregou um gol ao tabelar errado com Rojo. No primeiro tempo contra os croatas deu passe curto para Tagliafico, que foi esperto e sofreu falta. No terceiro vacilo, não teve jeito. Levou azar no toque para Mercado, que saiu todo errado e caiu nos pés de Rebic. O croata respondeu com um chutaço marcando o gol. Sim, Caballero teve mais azar que propriamente culpa. Mas, ao contrário de Gilmar, se desesperou e levou as mãos à cabeça, desatinado.


O desespero de Caballero e o frango de Muslera.
    Também o uruguaio Fernando Muslera andou rateando, até mesmo antes da Copa, com “estranhos“ gols sofridos, um deles muito semelhante ao feito pelo craque francês Griezmann agora na Rússia.  Um frango que selou a vitória da França e o adeus do Uruguai nas quartas de final. O chute veio meio sem força em cima dele, e Muslera nem espalmou nem segurou a bola, que resvalou em suas mãos e foi parar no fundo das redes. Abalado, ele recebeu o apoio dos companheiros. Mas foi só na volta para casa que o jogador de fato se emocionou, ao ver a torcida gritar seu nome no aeroporto.
Esse “frango” do uruguaio Muslera me lembrou, e muito, um acontecimento antológico que se deu comigo quando eu atuava “sob as traves”, defendendo a cidadela do Operal, campeão local. Mas isso fica pra próxima semana, quando vou falar ainda de grandes nomes que atuaram como goleiros, do Papa João Paulo II ao escritor e filósofo Albert Camus, do romancista e poeta russo Vladimir Nabokov ao cantor Júlio Iglesias.

A Copa da Rússia atropelou a sequência
 de minhas crônicas.
Assim, só “retornamos a Paris” 
depois da próxima semana.

5 de jul de 2018

Na Toscana e em Paris: Cendrars & dos Passos


Logo após o fim de semana em que assistimos ao show de Caetano com seus filhos em Juiz de Fora e ao Rei da Vela no Rio, Patrícia e eu voamos pra Londres, na segunda-feira, 23 de abril, início de um giro pelas Oropas. Pintou a primavera, pintou sol e vento no Hyde Park, pintou poema:

             o sol no hyde park


Lá em Londres vez em quando me sentia                     longe daqui
(Gilberto Gil)


um só sol de soslaio havia assim
havia um vento só um vento que cortava
um só vento que vinha e ali só havia

vinha ventando lá de paddington station
encanava em sussex garden vento dobrando
de novo na bayswater road em vendaval

esse vento fortíssimo que nos levava
pra lá pra cá pra lá pro sol de hyde park
como gil para os verdes gramados de lá

como em antonioni num longo blow-up
paisagem que se amplia em desencontro
sol que cega de luz e ver de tanto verde

nada de vento aqui só sol e claridade
a primavera invade o sol de hyde park
o verde o lago cinza o sol os cisnes brancos.

Dias depois, em Florença, jantamos com meu amigo, o jornalista e escritor Alberto Villas. Não nos víamos há quase 40 anos: a última vez foi em Paris, 1979. Alberto estava em trânsito pela Europa “livrando-se de um livro”, se é que me explico bem: a gente se livra de um livro quando ele está pronto – o encargo passa ao leitor. Três dias entre Medicis, Michelangelos, diante de David e Dante e de um pôr de sol de não se pôr defeito – um pôr de sol porreta e circunflexo que só quando sobre o Arno em Florença: Nessuna meraviglia dura più di tre giorni, diz o ditado. Rebato eu: Ma tre giorni possono essere l'eternità.


Ana Paula Farnzoia, Alberto Villas, RW e Patrícia Barbosa: Florença, abril 2018

     Deixamos a eternidade fiorentina para trás e alugamos um carro, a bravíssima Giulietta (Masina!) – e giramos Toscana aforadentro por uns bons e belos quatro dias.


A Torre torta e o Tirreno: de novo o Arno e sua foz, o sol da tarde que cinzazula a Marina de Pisa, esse mar que não afoga, esse mar que afaga as brancas pedras da praia. Arezzo, Vinci, Siena,San Gimignano:


       

         a lua na toscana




num plano geral
num largo longuíssimo
longshot
o sol se desensolara
escapa na linha de fuga
sol que some
e azula a paisagem

no ar um odor de almíscar
em plano próximo americano
namorados se lambuzam de beijos
e chianti e fartos afagos

é primavera e essa lua
essa lua-lua tamanha
lua que explode companheira
e nos segue nos acompanha
pelas tortas trilhas toscanas.


Flanando por Saint-Germain
Em meados de maio, Beaudelaire a tiracolo, flanamos mais uma vez por Paris. Não, desta vez não fomos ao Café de Flore – e por isso novamente, como sempre, me desencontrei do Chico Buarque. Com quem, aliás, nunca me encontrei em Paris. Parece que ele e seu show “Caravanas” andavam por Lisboa na época.  Soube que há poucos dias, já em Paris, Chico e sua nova namorada foram mais uma vez molestados por aquele bando de brasileiros babacas que vivem enchendo o seu saco. Mas Chico é maior que isso.


     Caminhamos mais uma vez pela calçada onde havia a pequena La Hune, minha livraria preferida em Paris, destruída por um incêndio em 2017. Há logo ali uma mega livraria, L´écume des pages. Passamos pela espuma de sofisticadas páginas, pelo Deux Magots, pelo Flore. Não paramos: a livraria e os dois cafés estavam lotados. Mas perambulamos novamente por Saint Germain-des-Près, rumo ao Museu Delacroix, agora para “cumprir a missão” comandada por minha filha Ulla: comprar uma daquelas gravuras dos tigres do grande pintor francês. Aqueles tigres que ficaram como assinatura do mesmo Delacroix  que dizia nem sempre necessitar a pintura de um tema – o que de certa forma abriu caminho para a arte de vanguarda que viria na virada do século XIX.
Depois de Delacroix, parada estratégica na Rue de Buci.  Café de Paris: “un verre de vin et un filet tartare” – esses bocados de felicidade que esquentam, invadem, deliciam a alma. Fomos "fazer o quilo” às margens do Sena, em meio à floresta de estampas, bugigangas  e livros dos buquinistas. Encontrei um Fellini que desconhecia Les propos de Fellini (Éditions Buchet/Chastel/Paris, 1980), escrito pelo próprio; e o Les Mots de Sartre, na edição francesa de 1964 da Galimard. É o meu Sartre preferido, mais um que sumiu de minhas estantes, lido em português na Bahia de 1964 quando de sua primeira publicação no Brasil pela Difusão Europeia do Livro.

Dos Passos: Cendrars



Sartre me leva ao poeta e romancista norte-americano John dos Passos (1896-1970), de quem ele dizia ser, simplesmente, “le plus grand écrivain de notre époque”. E John dos Passos me leva ao poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961): de outra feita em Paris, há coisa de uns dois anos, encontrei na Shakespeare Library uma tradução para o inglês realizada em 1931 por Dos Passos para Le Panama ou les Aventures de mes sept oncles, que foi acrescida de novos poemas de Cendrars em 1959.
Publicado em 1994, o livro traz ainda belas ilustrações a cores do próprio John dos Passos. São histórias mirabolantes das aventuras dos sete tios de Cendrars, contadas pela mãe do poeta, e que povoaram sua infância, como quando ela recebia, devidamente deslumbrada, as cartas de seus irmãos, com selos “exotiques” e envelopes com versos de Rimbaud: ces lettres avec les beaux timbres exotiques que portent les vers de Rimbaud en exergue.
Poeta influenciado e influenciador do cubismo, romancista, eterno globe-trotter (quase tudo que escreveu girou em torno de suas constantes viagens pelo mundo), malabarista de palavras e até de music-hall (num deles conheceu em Londres um “promissor palhaço” chamado Charlie Chaplin), Blaise Cendrars foi mesmo um intelectual de peso e um ser fascinante.
No prefácio de sua tradução, escreve John dos Passos: “Poetas como Cendrars e Apollinaire (os dois eram grandes amigos) formam a linha de frente, bandeiras das barricadas cubistas num grupo onde despontavam Picasso, Modigliani, Marinetti, Chagall (que tinha Cendrars como seu melhor amigo) e que influenciou profundamente Maiakovski, Meyerhol, Eisenstein e as ideias que continuaram com Joyce, Gertrude Stein e T.S. Eliot”.

Aux jeunes gens de Catacazes
Não é pouco. Mas, como eu já disse certa vez, “todo mundo é de Cataguases. Inclusive quem não é”. Cendrars, como todo mundo, acabou virando cataguasense. Amigo de Oswald de Andrade, de Tarsila, de Paulo Prado, Cendrars veio várias vezes ao Brasil e numa delas acabou escrevendo em 1927 um poema para os rapazes da revista Verde: Aux jeunes gens de Catacazes.

Araras, São Paulo, 1924: Blaise Cendrars entre Olívia Penteado e Tarsila do Amaral.
 Mãos no bolso, chapéu na cuca, Oswald de Andrade.

    Possivelmente influenciado por conversas com Oswald, um dos entusiastas da revista de Cataguases, Cendrars acabou trocando as bolas, ao citar em seu poema a modernista Klaxon em lugar de Verde. Um poema publicado com orgulho pelos cataguAses em sua revista, repeitando os “erros” do poeta: Tango vient de tanguer/  Et jazz vient de jaser/  Qui importe l´etymologie/ Si ce petit klaxon m´amuse? Blaise saudava com entusiasmo a “buzina dos catacazes” – não importando se vinda de um soturno e triste tango ou do brilho, da alegre algaravia do jazz.
Então, se de outra feita em Paris encontrei o livro de Dos Passos/Cendrars na Shakespeare, desta vez encontro-me novamente com Cendrars num dos buquinistas do Sena. Ali dou de cara com a alentada (750 páginas) e ilustradíssima segunda edição da biografia de Cendrars escrita por sua filha Miriam: Blaise Cendrars – la Vie, le Verbe, l´Écriture (Éditions Denoel, Paris, 2006). Como introdução, Miriam Cendrars colocou um texto do próprio Blaise escrito no Brasil, datado do Guarujá em 15 de março de 1926, onde o poeta reafirma não gostar lá muito da paz de espírito: Je me reserve le droit de tout réveiller. Acordar, despertar para a aventura foi mesmo um dos emblemas seguidos à risca por Cendrars.



Miriam transcreve parte da intensa troca de cartas de Cendrars com escritores brasileiros, particularmente Paulo Prado. E naturalmente refere-se ao excelente estudo de Alexandre Eulálio “A aventura brasileira de Blaise Cendrars”, de 1978 (há uma edição mais recente, de 2001, da Edusp). Por intermédio de nosso amigo em comum, o poeta Francisco Marcelo Cabral, eu encontrei-me algumas vezes com Alexandre Eulálio (primo do também meu amigo, o saudoso cineasta David Neves) no Rio – e estive inclusive com ele quando do lançamento desse seu livro numa galeria do Shopping da Gávea.
Como ressalta Miriam, citando o livro de Eulálio, “as viagens de Cendrars ao Brasil entre 1924 a 1929 foram em número de cinco, com estadas mais ou menos longas dependendo das circunstâncias. Duas outras, em 1934 (à Amazônia) e em 1935 (por Buenos Aires), como correspondente da imprensa parisiense, foram completadas por uma última, em 1953, seu adeus ao país amado”. Desde Paris, estou lendo aos poucos e gostando aos muitos do livro de Miriam sobre seu pai Blaise Cendrars.

Apollinaire e a Ponte Mirabeau
    Como no diálogo do filme Casablanca, “nós sempre teremos Paris”.  Então mais uma vez “tivemos Paris” – e era mais uma vez uma primavera de clima ameno e azul intenso. Havíamos por coincidência tomado um café na Rue Apollinaire quando descemos para o Sena, o Sena sempre a correr sob a Ponte Mirabeau, onde encontra-se incrustado o  decassílabo famoso do poeta: Sous le pont Mirabeau coule la Seine. E, trazida pelas águas, a voz de Apollinaire (quem sabe refletida na de Cendrars) mesclava-se numa velha gravação à do também poeta e músico Léo Ferré: Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nous  amours/ Faut-il qu´il m´en souvienne/ La joie venait toujours après la peine// Passent les jours et passent les semaines/ Ni temps passé/ Ni les amours reviennent/ Sous les pont Mirabeau coule la Seine// Vienne la nuit sonne l´heure/ Les jours s´en vont je demeure.




Ou na precisa tradução de Décio Pignatari: “Que venha a noite e soe a hora/ Os dias se vão não vou embora/ Os dias passam passam mas que pena/ Passado amor/ Nenhuma volta acena/ Na ponte Mirabeau se vai o Sena/ A noite venha sem demora/ Eu fico e o tempo vai embora”. Pois é, eu fico, nós ficamos, afinal era, é ainda, primavera em Paris – toda aquela claridade, aquela luz intensa de não se acabar. Ficamos, fiquemos então com Cole Porter: I love Paris in the spring time/ I love Paris every moment/Every moment of the year/ I love Paris, why oh why do I love Paris/Because my love is here.
Era então maio e todas as tevês, todos os livros, jornais, revistas, toda a mídia, toda ela, todos, todos eles, toda Paris – só se falava daquele maio de 50 anos atrás. Daquele maio de 68 – aquele “carnaval”, aquele chienlit segundo De Gaulle – da força da palavra de (des)ordem de Daniel Cohn-Bendit. A Paris do maio de 1968, com os estudantes e operários tomando as ruas, as ruas que repercutiam com toda a força aquele “é proibido proibir”: a imaginação no poder. Não havia como não me lembrar da voz do Caetano ecoando desde 1968, renovada desde dias atrás em Juiz de Fora: “É proibido proibir! Marielle Presente! Lula Livre!”.

Continua na proxima semana.