15 de ago de 2017

Chico Cabral 1930-2014: faz falta o que poeta fez


Foto: Victor Giudice                                    Foto: Adriana Montheiro


Escrevo a língua do meu avô
sem sua permissão,
por isso apenas busco seduzir
os fantasmas que me visitam
por isso venho até o rio
para olhá-lo nos olhos
e numa canção inaudível
berçar os seres amáveis que o habitam.

Marquei meu campo ali lavado pelos rios
onde a curta vida se escoa  
                                            – transferindo
o ouro do meu viço ao vórtice das palavras,
– e a mina da poesia vai-se exaurindo.


Há exatos três anos, em 20 de agosto de 2014, morria no Rio meu grande amigo, o poeta cataguasense Francisco Marcelo Cabral. Faz falta o que o poeta fez, o que o homem Chico Cabral nos ensinou ao longo de sua existência. Sua fala, seu bom-humor, seus poemas vão ficar para sempre.
Publico a seguir o texto-homenagem que escrevi quando de seus 80 anos, lido em cerimônia realizada no Rio, na sede do Pen Clube do Brasil, em 5 de novembro de 2010.

CHICO CABRAL 80 ANOS
  
Senhoras e Senhores, boa noite. E um boa noite especial para meus amigos, os poetas Cláudio Murilo Leal, atual presidente do Pen Clube do Brasil, e Marcus Vinicius Quiroga, que me fizeram o convite – e portanto totalmente responsáveis pelo que sair daqui, dessa fala desajeitada, afetuosa e sem qualquer compromisso sobre o poeta Francisco Marcelo Cabral, aqui a meu lado, que completa 80 anos no próximo dia 18.
No Brasil, é tempo de grandes poetas oitentões, esses eternos meninos-poetas como ele e Ferreira Gullar, que já completou os seus em 10 de setembro. E ainda do grande Mário Faustino, que seria também octogenário a partir do último 22 de outubro. 
Mas é do poeta Francisco Marcelo que venho falar, do Chico, Chiquinho Cabral, meu grande amigo, padrinho (de meu primeiro casamento), compadre (padrinho de meu filho Pablo) e conterrâneo. Nascemos na mesma rua Dr. Sobral – os dois da mesma parteira, a Dona Alzira, avó do Chiquinho Cabral, o filho de Dona Jandira e do Seu Pedro Álvares Cabral. Sim, o Brasil foi mesmo descoberto em Cataguases: o Seu Pedro apenas disfarçava, fingindo ser dono da Padaria Cabral, mas eu-menino bem sabia de seu “achamento”: Padeiro artesão, meu pai, Pedro,/nas artes duras da vida/com as mãos que espantavam medos/cozia sossego e sono.//Sonhos, não.
No final dos anos 1940, com os lançamentos da revista Meia Pataca, editada em parceria com a poeta cataguasense Lina Tâmega Peixoto, sua grande amiga, e de O Centauro, seu primeiro livro de poemas, Chico Cabral já era, aos 19 anos, o melhor poeta da Rua Dr. Sobral, cuíca da cidade e de todas as Minas Gerais. Pelo menos entre aqueles que “não primavam por tirar ouro do nariz”. Na época, e no Rio, o escritor Rosário Fusco, em depoimento a José Conde, dizia ser seu preferido no Brasil um jovem poeta de Cataguases, um moço chamado Francisco Marcelo Cabral. E estamos conversados.
Anos depois, com toda a saudável inveja, eu me questionava: “E pensar que numa cidade pequena como Cataguases não consegui sequer ser o melhor poeta de minha rua!”. Isso porque a fábrica de pães de Seu Pedro fermentou e produziu Francisco Marcelo Cabral, um poeta sem igual. Ele que me perdoe, mas vale a rima. 

A magia do café com leite
É de Francisco Marcelo Cabral então que me lembrei enquanto tomava meu café da manhã num hotel carioca. E não por ser hoje cinco de novembro, o dia da Cultura, e ser ele o meu grande referencial nessa área. Mas sim pelos mistérios infindáveis do café com leite, dos 38 gostos do café com leite, grande descoberta de Cabral, que também redescobriu o Brasil, pelo menos para mim. Mas isso é outra história, ou a própria. Menos café, mais leite. Mais café, um tiquinho de leite. Meio a meio. Com açúcar, sem açúcar. Puro. Não havia adoçante na época, hoje então podemos acrescentar mais uns dez novos tipos de café com leite, esse multifário mistério que nos aquece e, como o sol, é novo a cada manhã.
Café com leite também é cultura, e o café com leite cultural é mais uma das surpreendentes tiradas surgidas da curiosidade diante do mundo e do permanente bom humor de Francisco Marcelo Cabral. Curiosidade e bom humor, sinônimos de inteligência. Uma inteligência fulgurante, um bem falar sobre tudo e qualquer coisa mais e mais ainda, que sempre me deixou (e acho que a todos que o conhecem) literalmente fascinado.
Logo que me mudei pro Rio, meados dos anos 60, eu o visitava sempre no apartamento da Rua Paissandu e era com o maior orgulho que apresentava o eruditíssimo poeta pras minhas namoradas e demais amigos. E penso agora como é paradoxal a gente não se ater muito nas obras dos amigos, principalmente dos mais chegados. Parece ser a amizade coisa maior, a encobrir a própria obra.
O afeto, o amor mesmo, parece nos preencher de tal forma que o texto, o poema do amigo, resta esquecido, em segundo plano. Comigo, foi assim com Rosário Fusco, que não li enquanto “o pratiquei”, como ele dizia, enquanto frequentava sua casa de Cataguases e me tornava cada vez mais seu amigo. Só fui descobrir o grande escritor que foi Rosário Fusco depois de sua morte.
Acontece o mesmo com Francisco Marcelo Cabral, e ainda bem que essa minha redescoberta “cabralina” ocorre com ele vivo – vivíssimo e pimpão às vésperas de seus “oitentão”.  “Chico Cabral chegou, o Chiquinho já está aí!” – me ligava sempre o Joaquim Branco, sempre mais ligado que eu. Para nós, jovens provincianos metidos a poetas, Francisco Marcelo Cabral, o Chiquinho Cabral, era “a voz” (e como falava!), referência, conexão com o Rio-metrópole, com o fascínio do mundo-exterior.

Sabia de tudo um muito
Era início dos anos 1960 e ele gostara de nossas primeiras experiências literárias, veiculadas no Muro, um jornalzinho mimeografado e metido a besta. Chico Cabral sabia de tudo um muito e mais um pouco. Perspicaz, sempre bem humorado, de transbordante inteligência, sua cultura, seus conhecimentos de largo espectro, nos deixavam literalmente boquiabertos. No Rio, onde morava, ele conhecia nossos ídolos de então, e a turma do SDJB, o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Conhecia de conhecer mesmo, de frequentar, de falar com eles, de ter (ou ter tido) amizade até mesmo com Mário Faustino, o poeta de quem mais gostávamos, morto pouco antes num desastre aéreo.
Cerro de los Cruces/ 97 mortos/ E a cauda intacta, como dizia o poema-homenagem a Faustino, o “aeromorto”, publicado na revista Invenção pelo poeta paulista Augusto de Campos, outra de nossas maiores referências. Augusto, o “augusto”. Conhecido de quem? Claro que do Chiquinho Cabral, que era também muito amigo de seu cunhado, o também poeta concreto Zé Lino Grunewald que mais tarde lançaria um livro chamado “Pedras-de-toque da Poesia Brasileira”, com vários poemas de Francisco Marcelo Cabral em destaque. O Zé Lino, para quem Chico Cabral levaria os originais de um livro de poemas escrito a quatro mãos pelo Joaquim Branco e por mim. Tempos depois, o Zé Lino nos enviou o livro de volta, com uma surpreendente e ferina anotação na página de abertura: “Plenamente publicável ao nível de mercado. Bem melhor que os lépidos e ledos ivos que graçam por aí”.
Chico Cabral era também amigo de Guimarães Rosa, com quem trabalhara no Itamaraty. O “Doutor Rosa”, que lhe dedicara alguns poemas e lera e anotara correções e elogios à margem dos novos poemas de Pedra de Sal, o livro de Cabral então inédito, a exemplo do que também fizera o não menos Mário Faustino. E como também Ezra Pound fez com o Waste Land de Eliot, correções depois transformadas em livro, numa bela edição da Faber & Faber, que ganhei nos anos 1970 do próprio Chico Cabral. Bons tempos, em que não havia o computador para “deletar” nossas correções, que permaneciam visíveis à espera de futuros e presumíveis exegetas.
Enfim, para os jovens basbaques do interior, o Chiquinho Cabral tornava real o mundo que conhecíamos mal e mal, e apenas de livros e jornais. Ele nos levava a metrópole, e a tornava um ser vivo, pulsante caleidoscópio cultural.  Sempre que adentrava a Ponte Velha de Cataguases, Cabral trazia dentro do charme de seu volks preto anos 1950, modelito alemão, sua mala carregada de cultura, informações fresquíssimas e uma alegria que nos contagiava e nos contagiou pela vida afora.

Que fazer? Cantar.
Seus poemas? Eu mesmo os conhecia muito pouco. Tinha lido assim-assim O Centauro, lançado em 1949, seu primeiro e único livro até aquela data. Lembro-me até hoje do fragmento de um dos poemas, que me despertou logo a atenção: É hora de sol/ lá fora/ e noite, no coração.// Milhares de estrelas,/borrões/ que as nuvens carregarão.// Mas a noite existe/ açoite/ que retalha o sonho, e então// o verso, que vinha/ terso/ se perde na negação. Mas o Cabral de todo O Centauro, o Cabral poeta, eu só iria ler com atenção mais tarde. Ler, reler e admirar profundamente, como merece o grande poeta que ele é. Que lucrei? Um verso./ Que fazer? cantar./ Mas se há dor? que importa!/A dor é só instrumento.
“A dor é só instrumento”, verso que Carlos Drummond de Andrade já destacara em carta para o poeta, de 19 de dezembro de 1949: “Creio que você tem coisas a nos dizer. Elas já estão anunciadas neste Centauro. Quando você usa expressões como “as dobras do não dizer”, quando, para descrever um homem sob a chuva, diz que ele vai “vestido de água corrente”. Sinto que aí tem coisa. Não jogue fora essa coisa, Francisco Marcelo Cabral. Cultive-as, apure-as, dê-nos boa poesia; estamos tão precisados!”.
O poeta do Centauro trazia e traz na verdade a sutileza de um Poeta-Pégaso: asa, ave, voo são suas maiores marcas, temas que se alçam – um ligeiro adejar de asa acesa – recorrentes em sua poética. Paisagem que do alto avista o Poeta-Pégaso, como num de seus versos-exemplares, aquele sagaz octossílabo, pleno de junções silábicas do poema Água Forte, do livro “Campo Marcado: o sol o chão cobre de ouro e ocre.
E a boa poesia pedida por Drummond espalhou-se vida afora, como nessa pequena montagem que me permiti fazer de alguns fragmentos de poemas dos vários livros de Francisco Marcelo Cabral e com a qual encerro esta minha fala.

Francisco M. Cabral:
        fragmentos/collage

Homem, cavalo, centauro
trindade do ser incerto
esta a minha natureza.

Possa a poesia evolar-se
homem, cavalo, centauro,
do meu pobre ser confuso

Outros lábios me repitam.
Meus versos fiz para dar.
Buscando incerto infinito,
Misto, centauro, aqui fico.

NADA, Cataguases, em teu rio pobre
Pomba sem vida, mudo e sujo
nada, nem a completa
destruição da paisagem da minha infância

NADA ME FAZ
lembrar um porto de diamantes

TE AMAR
Berço, seio, colo, braço, calor e umidade
é um ato simples
como nadar, anulando-se, na corrente limpa do rio

AMAR MENOS
é morrer
como o rio sendo freado pela areia
como tirar os óculos, desligar o telefone,
guardar a máquina de escrever e sair de casa
para nada

MENOS
que nada
é o pó do poema
que aqui sobrenada

NADA ME FAZ
TE AMAR MENOS
           
Temo jamais ter merecido
as asas dos meus versos.
Às vezes eu as desprendo – é noite, é Minas –
E como quem espreguiça
num largo espasmo
alço-as e me vou, ou sou levado
voando, me vou.

Meu mestre dança como os pássaros.
E canta com os claros tímpanos da aurora.

Meu mestre planta um par de asas no meu dorso
e prende meus pés no chão:
assim meu voo não se perde
E é puro deslumbramento
e gozo

Encher de vinho a tarde, como se faz com a vida.
Encher de tarde a vida, como se faz com o vinho.
Encher de vida o vinho, como se faz com a tarde.
Encher de vinho a vida, como se faz com a tarde.
Encher de vida a tarde, como se faz com o vinho.
Encher de tarde o vinho, como se faz com a vida.

O leitor se assenta
O poeta puxa a cadeira
a poesia é o tombo

Escrevemos
Porque sabemos
Que vamos morrer.

Escrevemos
porque não sabemos
por quê.

Para encerrar, leio na íntegra cinco poemas exemplares, highlights, pedras-de-toque de seus dois últimos livros, Cidade Interior e deste Campo Marcado, que o poeta está lançando aqui e agora.  Drummond estava certo: agora e aqui continua “tendo coisa”. E coisa muito boa, sempre que vinda do poeta Francisco Marcelo Cabral. De Cidade Interior, dois poemas lisboetas e um parisiense, plenos de bom humor. De Campo Marcado: “Este momento tem nome”, de fatura nitidamente drummondiana, e “Hora Nenhuma”, um dos punti luminosi do novo livro de Francisco Marcelo Cabral, que me lembrou, e muito, desde a estrofe inicial, aquele flash back de "misterioso mistério" do menino Guido no filme Fellini Otto e Mezzo. E o fecho do poema, que coisa mais perfeita, com aquela fantástica sacada do "par de asas sem ave", trouvaille do poeta mais alto.
 
LISBOA 1
Manhã cedo no Rocio
Madame em seda e boá
sussurra surpreendente convite
“C’est pas par l’argent, m’sieur, mais par vôtre compagnie…”
No Tejo, velas e mastros se eriçam ao jovem sol do outono.

LISBOA 2
Que é que nos falam
de modo tão familiar e carinhoso
mas na verdade
– estrangeiros aqui também –
não entendemos?

 PLACE DES VOSGES
Metido em lãs me esgueiro pelas arcadas
Pouco sol, uma névoa de outono.
Em frente à Maison de Victor Hugo
alguém grita  o meu nome
– em francês !
surpresa e  mistério
logo desfeito em riso

O turismo tem disso:
colega de colégio …
louca para ser vista ali.

HORA NENHUMA
Pelas frestas do soalho,
coam-se as crinas oblíquas do cavalo do vento.
Tremem as velas e as roupas finas
ao sopro dessa luz sem sombra
que tanto medo me dá.
A mãe sussurra não olhes o piso nem as telhas.
Nas paredes nuas o sono os aguarda
entre as manchas de mofo e seus desenhos
de limo verde.

Aqui mora a noite
e seu bafo de roupa guardada,
suas lãs descoradas e ásperas.
como peles selvagens mal curtidas.

Essas coisas velhas recendem a calor suado.

Debaixo da cama arfa um cachorro cego
e um jarro de miosótis tinge com sua morte azul 
          a penumbra e o silêncio.
O medo não abre os olhos do menino
que apenas pressente o abismo do universo 
e embarca no seu bote de flanela.

O sono se abate sobre o peito
como um par de asas sem ave.
uma rajada de brisa adocicada e morna,
uma persiana que desce nos fios.

A mãe já não diz mais nada que se ouça.
apenas nela vibra a delicada respiração do menino
– fonte e sinal da vida que prossegue.


ESTE MOMENTO TEM NOME
Este momento tem nome: êxtase.
A luz dura do sol no teu olho cerrado
o zumbido de insetos delicados,
o ácido sal da vida,
o pulso e o ritmo ofegante do ar que te penetra

Submerges nesta fresta do tempo
e sentes o universo tocando o teu ser,
tão íntimo que o podes separar em fruto e semente
tão sem limites em suas onze membranas
que nele tudo cabe inumeravelmente,
tão diversamente o mesmo que não te contém e contém.
      
Não estás morrendo, sossega.
Apenas navegas em estilhaços
como a estrela que explode na constelação do Centauro.





24 de jul de 2017

A lágrima do morto


A Paulo Fialho, em seu velório




a morte esse cavalo
pégaso solto no ar
a noite esse halo
o corpo o não lugar

no foco um só plongée
cavalo alado torto
enquadra a cena e vê
em decúbito o corpo

corpo o corpo esquálido
por mais que a vida chame
face amarelo pálido
branco branco origami

e como se esculpida
a lágrima do morto
surge súbito e tímida
vida a dobrar em dobro

lágrima esse cristal
vida que vem da morte
e só dela só se alça
solta-se em malasorte

da vida para a morte
da morte para a vida
a lágrima esculpida
vida que estanca a morte

e não escorre a lágrima
vã pulsão que se fixa
lá para sempre lá
vida e morte vívida

não é de malasorte
a lágrima da morte
antes sopro de vida
que jorra esquecida

vida a correr da morte
esse animal cevado
vida esse cavalo
a dobra o dobro: corte

Ronaldo Werneck
maio/julho de 17


19 de jul de 2017

Therezinha Castro: Esse sempre obsclaro prazer



    Desde o início o trabalho dessa admirável artista plástica que é Therezinha Castro voltou-se para um arenoso espaço de indagações transcendentais sobre o tempo, a persona, o être-en-soi existencial e outras mumunhas & cositas más. Um profundo mergulho de onde agora emerge a sua criança, essa menina inesperada. A Therezinha de hoje é reflexo da simplicidade imantada de sua infância, do prazer de ser menina, o riso solto – não me lembro de nada assim tão puro, tão cristalino –, o riso pleno dessa obsclara liberdade.


 A partir de sua primeira mostra individual, na Galeria Spac – Ipanema, 1980 – ou, se, quisermos maior precisão, de sua primeira coletiva no Salão Nacional de Belas Artes – Rio, 1973 –, a artista atravessou etapas de extrema coerência na busca de uma linguagem própria, sempre marcada por rica densidade pictórica. Aqui uma primeva e fugaz pincelada, um rápido primitivismo logo tomado pela sofisticada simbologia de máscaras e ampulhetas, o tempo e a persona aflorando. Ali um expressionismo que explode amadurecido em figurações & fulgurações de pássaros e fetos, crianças e cores, cores e crianças e crianças e cores.


    No princípio, era plena de amarelo a sua paleta, clara referência à luminosidade de Van Gogh. Mas ao longo do percurso Therezinha redescobriu e reincorporou ao seu universo suaves texturas em ocre, em marinho – tramas que ela tanto ama. Vale a rima: a polissêmica & policrômica. Desde Vitória do Espírito Santo às Minas Gerais, estrada & trilho inicial, tudo é cíclico e simples e magnífico. Tudo está onde sempre esteve, principalmente Cataguases e sua ancestral mineiridade. A luz da Mata volta aqui – e para sempre. Soma de muitas cores, Therezinha é por excelência uma refinada colorista que tem na criança o seu obsclaro objeto de prazer.


 “Ils ont oublié leur propre enfance”, exclamava atônito, na virada dos anos 50, o Sartre da Critique de la Raison Dialectique (Paris, 1960). Ao recuperar a infância, Therezinha Castro nos doa a sua redescoberta e faz com que nossa criança não se obscureça no oblívio. Que são essas garatujas senão garatujas? Esses rabiscos parecem saltar de seu suporte com a força de um resgate da pureza. Um retorno com a sabedoria de agora, um retomar da criança com a plenitude do adulto. Tem uma força estranha essa Therezinha de hoje, um poder de menina, um poder que tudo pode, sem amarras, um lúdico despojamento que só se consegue com muito sacrifício.


   Foram muitas as voltas para que a artista pudesse finalmente expressar-se com essa economia, com a difícil simplicidade desses traços, dessas figuras atávicas que surgem assim, como se por acaso. Aqui, nada vem do acaso. É como se a arte de Therezinha Castro fosse fabrico de mágica artesania, de uma pureza em construção. Melhor, esses trabalhos são na verdade uma desconstrução consciente em busca do expressar-se de sua criança. Sua feitura é um eterno retorno no tempo – e sua fruição quase uma epifania. Escorre a areia da ampulheta, caem as máscaras. Nasce a verdadeira persona em sua plenitude, manhã primeira. O mundo é macio e perigoso. Mas que pode o mundo face a esse riso, a esse obsclaro prazer?





Ronaldo Werneck/1997-2017












28 de abr de 2017

Humberto Mauro: plano geral & poesia




Ele captou a luz de Minas em grandes
e poéticos planos, e fez os melhores filmes da fase pioneira de nosso cinema

Além Paraíba, Minas Gerais, outubro de 1983. O velho cineasta acorda num hospital, a família em volta: “Ué, eu já morri?”. Como todos os iluminados pela inteligência, o cineasta mineiro Humberto Mauro (Volta Grande, 1897-1983) era muitíssimo bem-humorado, um eterno curioso, atento ao mundo à sua volta. Foi o que o levou a fazer cinema. Primeiro, atraído pela técnica; logo, senhor dela, criando com seu grande talento uma linguagem própria e sempre inovadora. Um rio, uma ponte, uma praça, uma igreja. Seis mil habitantes, se tanto. Essa a Cataguases do início do século XX, na Zona da Mata de Minas Gerais, aonde a família do imigrante italiano Caetano Mauro chega em 1910. É ali que seu filho, o jovem Humberto Mauro, vai viver até o início da década de 1930. Viver e iniciar o universo de inquietações que o faria sucessivamente goleiro de futebol, remador, jogador de xadrez, de sinuca, fotógrafo, eletricista, radioamador, músico, dramaturgo, ator, autor, roteirista, montador, diretor e arauto do cinema.
     A paixão pelo cinematógrafo surgiu da fotografia. Nos tempos de sua mocidade, Humberto Mauro trocou sua valiosa coleção de selos por uma máquina fotográfica, como ele mesmo narra: “Dona Lucília Taveira tinha uma Kodak que já me emprestara e eu fiquei doido por aquela máquina. Perguntei-lhe se não queria trocar por minha coleção de selos e ela aceitou. Foi assim que consegui minha primeira máquina fotográfica, que me ligou a vários fotógrafos, um deles o Seu Pedro Comello. 

Humberto Mauro em Volta Grande (1975)

     A coleção de selos foi o princípio de tudo, a causa do meu começo no cinema lá em Cataguases”. Esse “Seu Pedro Comello” era um imigrante italiano (Novara, 1874-Cataguases, 1954), “pintor talentoso, retratista por excelência, dotado de grande habilidade artesanal”, como descreve Paulo Emílio Salles Gomes in Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. Mauro junta-se então a Comello e – com uma Pathé-Baby 9,5 mm, pequena câmera utilizada à época para registro dos chamados  “ABCs” (Aniversários, Batizados, Casamentos) – já se inicia no cinema como autor.  Ao invés de filmarem as famílias, eles partem logo para uma fita de ficção.

Foi essa curiosidade que o levou a fazer cinema, criando com seu grande talento uma linguagem própria e sempre inovadora

Valadião, o Cratera, curta-metragem de 1925, foi um filme-piloto que atraiu o comerciante Homero Cortes para “esse negócio de fazer cinema”. Conquistado, Homero vai ao Rio com Mauro e voltam de lá com uma Ernemann 35 mm, câmera profissional. Logo, junta-se a eles outro comerciante, Agenor de Barros, e fundam uma produtora, a Phebo Sul America Film. Com Pedro Comello na câmera, o cineasta inicia ainda em 1925 seu primeiro longa-metragem, “Na Primavera da Vida”, que estreia em Cataguases em 1926.  Como protagonistas, Francisco Mauro, irmão de Humberto (que atua com o nome de Bruno Mauro) e Eva Comello (a heroína do filme anterior, que adota o nome de Eva Nil). Mocinha dessas duas fitas, Eva fica mais conhecida pelas fotos estampadas em várias revistas da época, que a transformaram na “estrelinha de Cataguases” – perenizada pela câmera do pai, Pedro Comello.


Cataguases, anos 1920: a atriz Eva Nil em três tempos
(fotos de Pedro Comello)
“Humberto? ele era dernier-cri” – disse um dia Maria Vilela de Almeida, moça de uma ‘beleza extremamente fina’, a dona Bêbe, que nunca se esqueceu da primeira vez que o viu, “passeando a cavalo, a camisa de lã grossa com bolsos pregueados”. Moço da moda, popular, querido, Humberto Mauro se destacava na cidade. O casamento dos dois realizou-se em 1920, e durou a vida inteira. Aos olhos sentimentais da cidade, Humberto e Bêbe apareciam como o Romeu e Julieta de Cataguases: era o casal mais belo da região da Mata. Em 1926, com a saída de Eva Nil, que resolve não mais filmar com a Phebo, Mauro tem que providenciar às pressas outra estrela. Com o nome artístico de Lola Lys, Bêbe é a mocinha de Thesouro Perdido, sua nova realização.

Mauro e Dona Bêbe em Volta Grande (1975)

Das centenas de filmes que iria realizar, este ficou como o seu predileto. Não só por contar com vários familiares como por ser a fita também uma prova do bom emprego de algumas técnicas absorvidas do contato no Rio com o cinéfilo Adhemar Gonzaga, editor de Cinearte, prestigiada revista de cinema. Gonzaga criticara o excesso de letreiros da fita anterior de Mauro, que a partir daí passa a “falar por imagens”, essência da linguagem cinematográfica – e como o cinema mudo se fazia entender. Mauro já demonstrava rara inventividade: na sequência de uma tempestade, feita com chuva de regador, os raios são riscados na película virgem. Nas cenas de um galope, o close das patas dos cavalos é feito com uma lata de farinha pintada de preto por dentro. Duas lentes, uma de foco longo outra comum. E Mauro inventa assim uma espécie de teleobjetiva. Impulsionado pelo frescor da iniciação, Thesouro Perdido já é verdadeiramente uma fita de cinema – e recebe o Troféu Cinearte como Melhor Filme Brasileiro de 1927. Humberto Mauro passa a ficar falado como homem de cinema. Por enquanto, do cinema mudo. 
Em meados de 1927, a Phebo Sul America abre-se a acionistas, passa a denominar-se Phebo Brasil Filme, e elege seu presidente Agenor Cortes de Barros, tendo como secretário Homero Cortes Domingues. O diretor técnico é Humberto Mauro, o único assalariado – e primeiro cineasta a ter carteira assinada no Brasil. Terceira produção do Ciclo de Cataguases, Braza Dormida já representa um princípio de profissionalização.  São contratados no Rio não só o fotógrafo – Edgar Brasil, que logo seria o melhor iluminador do cinema brasileiro – como o casal protagonista, Nita Ney e Luiz Soroa. “De qualquer maneira precisas apresentar agora um film mais bilheteria. Não são beijos nem farras, mas um sensualismo elegante. Todo film deve ter uma boa dose pelo menos de mocidade”, dizia Adhemar Gonzaga em 1929, quando Mauro começava a elaborar seu novo roteiro.

Alex Viany (óculos escuros), Dona Bêbe e Paulo Emilio.
Ao fundo, David Neves e Humberto Mauro (1975)

Quarta e última produção da Phebo, com externas realizadas no Rio e em Belo Horizonte, Sangue Mineiro já mostra um Humberto Mauro senhor de si – e sua evolução de um filme para outro é precisa, rápida, surpreendente. A fita foi viabilizada pela participação de Carmen Santos – como protagonista e principalmente co-produtora. Esta foi a estreia de Carmen Santos como estrela: apesar de ter feito outros três filmes no Rio, seus fãs – como os de Eva Nil – só a conheciam de fotografia. Sua entrada na Phebo significou prestígio e injeção de capital, mas não o suficiente para a produtora continuar em atividade. A atriz portuguesa vai ter grande importância na trajetória de Humberto Mauro em sua fase carioca.  
Com o fim da Phebo, Mauro vai para o Rio a convite de Gonzaga, que acabara de fundar sua produtora, a Cinédia. Com pouco mais de 30 anos, e revelando-se nas várias funções assumidas dentro e fora do set de filmagens, Mauro era quem mais entendia de cinema no Brasil dos anos 30. Na Cinédia, realiza Lábios sem Beijos, Ganga Bruta, Voz do Carnaval. Trabalha depois na Brazil Vita Filmes, produtora de Carmen Santos, onde dirige Favella dos Meus Amores, Cidade Mulher e Argila. Em 1937, realiza O Descobrimento do Brasil, produção do Instituto do Cacau da Bahia. No ano anterior, a convite de Edgar Roquette-Pinto, inicia seus trabalhos no Ince-Instituto Nacional de Cinema Educativo – onde irá dirigir cerca de 300 documentários (grande parte com fotografia primorosa de seu filho, Zequinha Mauro) até se aposentar, em 1967. Retornando à sua cidade natal, Volta Grande, faz seu último longa-metragem, O Canto da Saudade (1952), e uma pequena obra-prima, o curta A Velha a Fiar (1964).
1975: em seu “canto de cisne”  Mauro faz o roteiro e dirige o curta Carro de Bois, uma retomada a cores de seu Manhã na Roça – O Carro de Bois, da série Brasilianas, que dirigiu para o INCE em 1956. O filme – vencedor do “Troféu Humberto Mauro” na Jornada Brasileira de Curta-metragem realizada na Bahia em 1975 – tem fotografia de Murilo Salles e produção executiva de sua sobrinha-neta, Valéria Mauro.

1975: Mauro filma "Carro de Bois", seu ultimo curta-metragem,
fotografado por Murilo Salles, com produção executiva de Valéria Mauro 


A poesia dos long-shots, sua marca e assinatura. Câmera contra o sol: o morro, a mata, o carro de bois – paisagem por ele perenizada.

A poesia do cinema está nos long-shots, nos grandes planos gerais. A roda d’água, por exemplo, é de uma fotogenia extraordinária. Aquele rodar lento, os musgos, a água batendo contra o sol (...) Pega um carro de bois no topo de um morro, contra o sol, o candeeiro, o carroceiro em cima do cabeçalho – é de uma beleza incrível!” Relendo essas palavras de Humberto Mauro, extraídas da gravação de uma das muitas conversas que tivemos em 1975, relembro agora como o cinema – força tamanha – estava entranhado em sua dicção. Como se nela fluisse num navegar contínuo, sem cortes, na plenitude de um plano-sequência. Melhor: revendo essas palavras, suas palavras-imagens, percebo como o cinema estava nele como se dele nascido, de tal modo que Mauro acabava sempre falando como se filmasse. E, falando, filmasse como gostava de filmar, extraindo beleza daqueles long-shots, daqueles contra-plongés que eram sua marca e assinatura: o carro de bois, o candeeiro, o carroceiro, a câmera baixa apontada contra o sol no alto do morro – paisagem por ele perenizada.
Hospital de Volta Grande. Sábado, 05 de novembro de 1983. Noite. Ao despertar, descobre-se de novo internado. Há uma semana, mas não sabia. A brincadeira do “já morri” não tem mais graça: agora está sozinho. Levanta-se ainda tonto: que ir para casa. É só atravessar a rua: mora ali em frente, na avenida com o seu nome: Cineasta Humberto Mauro. Mas não dá um passo e cai, fulminado, Ali mesmo, sem ver pela última vez a luz da Mata Mineira em sua plenitude – foco de sua paixão, paisagem enquadrada a vida inteira. Minas na memória. Exterior. Dia. Para sempre.



Memorial em Cataguases


No Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases (Rua Coronel Vieira nº 10), a Fundação Ormeo Junqueira Botelho mantém um Memorial onde se toma contato com o mundo de Humberto Mauro. Ali – na cidade-ícone do modernismo no interior mineiro, que conta com grande escultura de Amilcar de Castro em homenagem a Mauro – encontram-se fotos, textos e troféus dispostos nos vários painéis, onde são exibidos dez pequenos filmes que realizei, focalizando a trajetória do cineasta.


Autodidata, e um curioso por excelência – que dizia ser o cinema “cachoeira”, movimento – Humberto Mauro não se contentava em saber como esse mundo se movia: queria mesmo era movê-lo. Em sua Histoire du Cinéma, o crítico francês Georges Sadoul cita Ganga Bruta, de 1933,  como um dos melhores filmes do cinema mundial. Entre suas mais de trezentas realizações, contam-se os preciosos levantamentos da história e cartografia do Brasil, foco central dos documentários realizados para o Ince-Instituto Nacional de Cinema Educativo. Seus filmes despertaram nos cineastas do Cinema Novo uma consciência do país, um voltar de câmeras para um Brasil profundo que se fez conhecer pelas lentes maurianas.
Segundo Glauber Rocha – que re/descobrira Humberto Mauro nos anos 1960 –, estava ali “a raiz do enquadramento brasileiro”, a matriz de um país redescoberto pela autenticidade e pureza da poética de Mauro. Diz ainda Glauber: “Em Cataguases – quando o cinema era mudo e o Brasil era ainda mais selvagem – Humberto Mauro realizou um ciclo cinematográfico, revelando a existência de uma das mais sólidas tradições específicas de nossa cultura. (...) Seu mundo é a paisagem mineira, e Mauro seria o único cineasta capaz de filmar Guimarães Rosa e dar no cinema a mesma dimensão do grande romancista”.