13 de mar de 2017

R.FUSCO por R.WERNECK Sob o signo do imprevisto

      Meu livro “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck/Sob o signo do imprevisto” será lançado em Cataguases, no Centro Cultural Humberto Mauro, no próximo dia 18 de março, a partir de 19 horas, na noite de abertura da exposição “Verde 90 Anos (1927/2017), organizada por Joaquim Branco, P.J.Ribeiro e por mim. Vejam a seguir os textos de orelha e de apresentação do livro, escritos por Luiz Ruffato e Joaquim Branco.




Sob o signo do imprevisto

Luiz Ruffato


      O romancista, ensaísta e poeta Rosário Fusco (1910-1977) enquadra-se naquele limbo em que encontramos os escritores injustiçados da literatura brasileira. Nascido em São Geraldo (MG), mas levado aos seis meses de idade para Cataguases (MG), em vida Fusco chegou a ter sua importância reconhecida – o crítico Antonio Candido, em artigo intitulado “Surrealismo no Brasil”, publicado em 1945 no volume Brigada Ligeira, recomenda a leitura de O Agressor, chamando a atenção para a “habilidade com que é arquitetado e conduzido”. 
     O Agressor, lançado em 1943, tornou-se o mais afamado livro de Fusco – suas raras edições são hoje disputadas pelos leitores mais exigentes. Também aclamado é outro romance do autor, Carta à Noiva, de 1954, listado pelo ficcionista Ivan Angelo como um dos dez mais importantes da nossa história literária. Em boa hora, portanto, o poeta e cronista Ronaldo Werneck nos oferece este excelente Sob o signo do imprevisto.
   Werneck, que teve o privilégio de desfrutar a amizade de Fusco, não tenta compor uma biografia, que seria um retrato de corpo inteiro, mas sim nos brinda com recortes de momentos específicos, que, vistos em conjunto, formam um mosaico capaz de nos revelar a grandeza deste personagem intenso, polêmico e essencial. São lembranças, memórias, evocações e confissões com que Werneck, com sua enorme capacidade de fazer convergir objetividade e subjetividade no mesmo espaço textual, edifica um monumento em tributo a Rosário Fusco.
      O livro inclui ainda a longa e celebérrima entrevista de Fusco ao mitológico jornal Pasquim, em março de 1976, e um conto-homenagem – eu chamo de conto – de Ronaldo Werneck, “Ringo não discute: mata”, que exibe o talento do poeta para a ficção. Em suma: Sob o signo do imprevisto é um título para constar da biblioteca de todos aqueles que cultuam Rosário Fusco e admiram Ronaldo Werneck.
São Paulo, 05.02.2017




"Um Rosário vale três terços"
Joaquim Branco


          Ronaldo Werneck me pede para prefaciar o seu novo livro sobre Rosário Fusco.
       Difícil tarefa, porém tentadora. Impossível deixar de atender. Trata-se de dois grandes amigos (um, já falecido) e em relação aos amigos geralmente não se tem uma dimensão por assim dizer justa de avaliação.
         Por outro lado, nesse caso a empreitada torna-se até fácil. Vejam por quê.
       Não contando, anteriormente, meu conheci­mento de sua obra, convivi com Rosário Fusco por cerca de 10 anos em Cataguases, na sua casa da Granjaria, bairro onde hoje moro.
      Com Ronaldo, desde a infância, tive longa convivência, quando jogamos botão, bafo-bafo, bola, sinuca e, mais tarde, frequentamos escolas, criamos suplementos, antologias, festivais – quase tudo que se pode (e não se pode) esperar de jovens amigos.
         Com Fusco, aprendi o que a universidade não pode dar: o savoir faire literário, o que é um verda­deiro romancista, a coragem, o medo e o desafio da escritura: "com quantos paus de faz uma canoa esté­tica e existencial" (como ele dizia). De vez em quando, sempre pela manhã, bem cedo, me chamava a sua casa. "Abunde-se" – dizia ele. Eu me sentava e ouvia/via sua atuação teatral, abusiva, descentrada e centrada, quando à minha frente desfilava um mundo de literatura, filosofia, arte, ciência e tudo que saía de seu talento fulgurante. Outras vezes, pa­recia nostálgico, misterioso, com seu robe preto, a me receber de cabeça baixa, dostoievisquiano, monossi­lábico. Queria me confessar algo...
       Dividi muitas experiências com Ronaldo, vi­vemos os trepidantes anos 60 da contracultura e das vanguardas, os sonhos dos 20 anos, namoros e festas e farras etc.
          Daí mais do que justo que eu prefacie este seu livro feito de vivências do homem e escritor Rosário Fusco, pois é impossível separar os dois.
     O leitor que se prepare. Aqui conhecerá a (a)ventura imperdível de um romancista que excede o romance e extrapola todas os limites da criação li- terária – e por que não dizer? – humana? Além de farta documentação de uma história de vida, ilustra­ções com fotos, pedaços de poemas, de bilhetes, suas boutades, opiniões sobre outros artistas, onde tudo excede e quase nada se explica.
         O livro registra muito do que Ronaldo presen­ciou, leu e aprendeu – de detalhes pessoais a confis­sões "inconfessáveis", de reuniões noite adentro a tiradas criativas sobre a natureza dos homens e a es­pecificidade das mulheres.
          Portanto, este trabalho de Ronaldo Werneck, que pode ser o pórtico para uma futura biografia do autor (fica a sugestão), vai direto à curiosidade do leitor, que certamente gostará de conhecer algo mais sobre esse "vulcão das gerais" e que, em tom de brin­cadeira, disse certa vez para nós: "Um Rosário vale três terços".

Cataguases, 02/02/2017



Revista VERDE
Expô 90 ANOS



 “Sou de Cataguases, cidadezinha pacata de Minas Gerais, e venho trazer a notícia de que fundamos uma revista moderna aqui. Verde é o nome da baita" – escrevia em 1927 o rapazote Rosário Fusco (17 anos recém-completados) ao escritor Mário de Andrade, um dos expoentes do nosso modernismo literário. Pois é exatamente uma baita exposição a que vai comemorar no próximo dia 18 de março, no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases, os 90 anos do lançamento da revista Verde – o principal baluarte do modernismo no interior de Minas e que, com colaborações recebidas de escritores de vários pontos do país, ajudou a disseminar o movimento Brasil afora.
Organizada pelos poetas Joaquim Branco, Ronaldo Werneck e P.J. Ribeiro, fundadores do Totem, grupo de vanguarda surgido em Cataguases nos anos 1960 – que conviveram e se tornaram amigos de vários dos integrantes da Verde –, a mostra VERDE 90 ANOS é composta por imagens & textos sobre a revista lançada em Cataguases no ano de 1927. Na noite de abertura, a partir de 19 horas, haverá um sarau com poemas dos integrantes da revista pela equipe do Proler e o lançamento de dois livros: “Uma Verde História”, de Fernando Abritta & Joaquim Branco; e “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck: Sob o signo do imprevisto”.

Revista Verde
Por que enredos da Providência Divina foi nascer, à beira de um riacho chamado Meia-Pataca, um grupo de poetas interessantes que hão de deixar uma certa marca no momento poético que estamos vivendo?” – perguntava-se o respeitado crítico Tristão de Athayde n´O Jornal, do Rio de Janeiro, em 1928, ao escrever sobre a revista Verde, lançada no ano anterior em Cataguases.
Verde tirou seis edições: as cinco primeiras em 1927; uma em 1928; e a última em 1929, toda dedicada a Ascânio Lopes, o principal poeta do grupo, que acabara de falecer, aos 22 anos. O primeiro número publicava apenas escritores mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura etc – e entre eles os rapazes da cidade, núcleo de resistência da Verde e fundadores da revista: Ascânio Lopes, Cristóphoro Fonte-Boa, Camilo Soares, Enrique de Resende (o mais velho, então com 28 anos), Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino Cesar, Martins Mendes, Oswaldo Abritta e Rosário Fusco, o mais novo deles, com 17 anos.
Já a partir do segundo número, vieram colaborações de escritores dos quatro cantos do país e até do exterior. Principalmente dos modernistas de São Paulo, capitaneados por Mário e Oswald de Andrade, que chegaram mesmo a escrever poema famoso dedicado aos rapazes da Verde, publicado no quarto número da revista, onde diziam: “Todos nós somos rapazes/ muito capazes/ de ir ver/ de forde verde/ os ases de Cataguases”.
No terceiro número da Verde é publicado um “abusado” manifesto, que ficaria famoso e que pode ser resumido nos seguintes itens:

1.º Trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.
2.º Temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.
3.º Nossos processos literários são perfeitamente definidos.
4.º Somos objetivistas, embora diversíssimos uns dos outros.
5.º Não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e o modo literário de outras rodas.
6.º Queremos deixar bem frisada a nossa independência no sentido “escolástico”.
7.º Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.

Lançamentos, sarau, bate-papo
Além do lançamento dos livros de Joaquim Branco e Ronaldo Werneck e do sarau com poemas dos integrantes da revista, a exposição VERDE 90 ANOS vai mostrar fotos individuais e em grupos dos membros do movimento, de várias situações em casa, com a família, as capas das revistas e livros, os textos mais representativos, os logotipos criados por Rosário Fusco, desenhos e caricaturas, e as biografias resumidas de cada um dos “Verdes”. Haverá também um bate-papo com os organizadores, aberto a perguntas do público.
Em 1928, no nº 5 da Verde, ao escrever sobre o reconhecimento em âmbito nacional da revista, dizia entusiasmado o poeta paulista Ribeiro Couto: “Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases! (...) Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases”.
Então, que o público de agora aperte bem os olhos e roce os dedos no googlemap até achar: Cataguases. E que venha ver a mostra VERDE 90 ANOS.
Agradecemos a divulgação.

Joaquim Branco
joaquimb@gmail.com
(32) 98888-2344 e (32)3421-8280

Ronaldo Werneck
roneck@ronaldowerneck.com.br

(32) 98819-0955 e (32) 3422-2671

10 de jan de 2017

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 5

Pomba Poema sujo  




    “A experiência da poesia é hors-concours./ Aterro no Poema Sujo. Meto o dedo no cujo:/espirra luz.// (...) Navegar na poesia: reduzir, redundar.../ Em Ferreira Gullar as nuvens nuvem./ Murilo Mendes manda o luar luar”, escrevia em 1982 Carminha Ferreira, a injustamente esquecida poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, até hoje inédita em livro. O poema de Ferreira Gullar marcou época – e Gullar, o poeta, foi objeto de várias controvérsias, como se percebe no texto a seguir, publicado por meu amigo, o também poeta e jornalista Carlos Ávila, em sua coluna na Revista Eletrônica Dom Total.
    “Segue-se o Poema sujo, de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. Poema Sujo ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte). Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, ´IrreGullar´, num comentário anterior), o poeta maranhense criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil”.
    Gullar começou a escrever o Poema sujo em maio de 1975. Ele achava que seria o derradeiro poema de sua vida, já que vivia exilado e sem passaporte (negado pela Embaixada brasileira) numa Buenos Aires às vésperas do golpe militar e sem ter pra onde ir, rodeado por uma série de ditaduras em grande parte da América Latina. Não sabia como iria desenvolver o poema, que começa a sair (“vomitado”, segundo ele) de modo estranho e sem sentido, para espanto do próprio poeta: turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que  escuro/ menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo/ escuro/ mais que escuro:/ claro...”. Mas Gullar deixou a abertura assim, incompreensível até mesmo para ele. O poema só teria seu real começo à frente: um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.
    E se encadearia na sequência “modernista”, como fala de dicção cotidiana – e flutuaria na cabeça do poeta e em sua escrita incessante, como febre, obsessão, por quase sete meses: eu não sabia tu/ não sabias/ fazer girar a vida/ com seu montão de estrelas e oceano/ / bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela? perdeu-se na profusão de coisas acontecidas// (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?/ / quanta coisa se perde/ nesta vida// Como se perdeu o que eles falavam ali/ mastigando/ misturando feijão com farinha e nacos de carne assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada/ ou a tosse da tia no quarto/ e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela/ tão reais que/ se apagaram para sempre/ Ou não?

De tarde, prata. De noite, mata
    Na antevéspera deste Ano Novo, conversava sobre as muitas mangas de dezembro com Dona Alva, avó de minha mulher, Patrícia. E logo me lembrei de minha Tia Carmem-Cacai e de suas superstições: “Manga com leite, manga com banana: é tudo muito perigoso. De noite, então, é morte certa”. Quando falei em banana, Dona Alva logo articulou os versos folclóricos da “maldição” da banana: “De manhã, ouro./ De tarde, prata./ De noite, mata”. O que me remeteu de imediato ao Poema sujo e à sua profusão de bananas podres: Uma banana/ não apodrece do mesmo modo/ que muitas bananas/ dentro de/ uma tina// no quarto de um sobrado/ na Rua das Hortas, a mãe/ passando roupa a ferro/ fazendo vinagre//(...) // e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx –/ ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais/ grosso) que o do relógio/ fazendo vinagre// um rio/ não faz vinagre/ mesmo que um quitandeiro o ponha para apodrecer/ numa tina// um rio não apodrece como as bananas//...//E como nenhum rio apodrece/ do mesmo jeito que outro rio/ assim o rio Anil/ apodrece a seu modo/ naquela parte da ilha de São Luís.



    Hoje, dia 4 de janeiro de 2017, percebo que fiquei um mês exato entregue ao “barato” de escrever sobre Gullar, 30 dias inteiros a contar de sua morte – tomado por meu texto quase como ele por seu poema. Um mês em que passei também como se em transe a falar sobre o poeta com quem, apesar de tudo, tenho afinidades e um curioso rol de coincidências. Como, por exemplo, o fato de ter trabalhado na redação do Diário de Notícias junto com o também poeta Lago Burnett, grande amigo de Gullar desde os tempos de juventude em São Luís. Lago e eu também nos tornamos bons amigos – longos papos sobre poesia e quejandos, não por acaso regados a queijos e cachaças da melhor qualidade numa queijaria ao lado do jornal, na Rua do Riachuelo – e senti muito quando soube de sua morte em São Luís, em 1995. Troquei email com Gullar na época, que se confessou arrasado: “éramos muito amigos, começamos a escrever juntos”.
      Já falei em crônicas anteriores de poemas de Gullar e meus, de tônica assemelhada: Guevara, Vietnam etc. O livro “Toda Poesia”, de 1980, comentado ao longo dessas crônicas, tem capa de meu amigo (e hoje vizinho aqui no prédio em Cataguases), o designer Dounê Spínola, que fizera antes a capa da primeira edição do Poema Sujo, de 1976 (da Civilização Brasileira, meu exemplar tem o nº 712) e, coincidência das coincidências, também de outros livros meus (Cataminas pomba & outros rios, de 2012), inclusive o Pomba Poema, de 1977.  Aliás, foi do Dounê a sugestão para fazermos a diagramação do Pomba Poema no formato horizontal – como fizera a Léa Caulliraux com o livro do Gullar –, o que o tornou ainda mais parecido, pelo menos graficamente, com o Poema sujo. Nessa primeira edição do poema, que tenho em minhas mãos, escreve Otto Maria Carpeaux: “Poema sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ´sujos´ e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente”.

Polvilho, pedreira, palavras
    Ainda não sabia do Poema sujo, que seria lançado meses depois, quando em janeiro de 1976 me mudei para Itaipu, em Niterói. Certo domingo, numa praia das proximidades, Itacoatiara, comendo o indefectível biscoito de polvilho, meu distraído olhar desviou-se das ondas e fixou-se numa pedreira defronte, com inscrições que não conseguia identificar. Ita-ipu, Ita-coatiara, tudo pedra: polvilho, pedreira, palavras. Tudo remetia a Cataguases: o biscoito de polvilho da infância, as inscrições na velha pedreira: e já janeiro/ bate/ intensamente lá/ nas escarpas/de ita/ coatiara/ ali/ na areia/ frente ao mar/ o biscoito/ de polvilho estala/ na memória/ e sabe/ a padaria cabral/ ao pão quente/ do vitória/ nesse domingo/ azul de itaipu/ surgem são soam/ estranhas/ as palavras/ polvilhadas/ e s p a l h a d a s/ espelhadas/ na pedracoatiara/ remetem a/ itacat'agua'ses/ pomba/ pedra/ palavras grafadas/ a esmo no mesmo/ traço traçadas/ a seco no pó/ emaranhadas/ arranhadas/ na pedra/ no tempo/ esparso.
    Então, ao contrário do poema de Gullar, com seu início “vomitado”, mas que ficou como saiu, o meu surgiu “pelo meio” – um fragmento que só apareceria mais à frente no corpo do poema, deflagrado por aquele proustiano biscoito de polvilho, pura madeleine.  O poema foi tomando corpo aos poucos, mas eu ainda sem saber no que aquilo iria dar: surgia a cidade, a história, a minha história na cidade, a cidade dentro de mim. Até que, já com o poema em andamento, o livro do Gullar foi lançado e vi como parecia com o poema que eu estava fazendo (“o homem está na cidade como a cidade está no homem”). Muitas semelhanças, embora a motivação de meu poema, o que o conduziria a partir de certo ponto (ele acabaria focando o centenário de Cataguases, que se daria no ano seguinte, 1977) não fosse bem a mesma: no Pomba Poema a história da cidade era vista/atravessada pelo rio Pomba, supostamente claro e clean na memória, não pelo rio Anil do Poema sujo, “solidário com a miséria, com a vida suja”, como diria depois Gullar, “apodrecido” em meio à gente humilde e “encardida” de São Luís): Ah, minha cidade suja/ de muita dor em voz baixa/ de vergonha que a família abafa/ em suas gavetas mais fundas/ de vestidos desbotados/ de camisas mal cerzidas/ de tanta gente humilhada.



   Como Gullar, também fiquei um longo tempo (talvez até mais que ele: quase ano e meio) “atravessado”, tomado por meu poema. E desde seu real início, logo depois do episódio da praia de Itacoatiara, só aproveitado mais à frente, foi um só pensar exclusivamente no poema, a exemplo do acontecido com Gullar: nesgas neblina manhã/ ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada// o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ há? não há?/ não sabíamos/ não sabemos/não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola/ do tempo/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.
    “Mas a poesia não existia ainda”, escreveria Gullar em determinado ponto de seu poema. Confesso que me assustei, pois essa ideia estava também em meu poema, quase da mesma forma, embora em outro contexto:
    Poema Sujo – Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade/ sob/ as sombras da guerra// Stalingrado resiste.// A cada nova manhã/ nas janelas nas esquinas na manchete dos jornais// Mas a poesia não existia ainda// (...) Muitos/ muitos dias há num dia só/...//coberto pela sombra quase pânica/ das árvores/ de galhos que subiam mudos/ como enigmas/ tudo parado/ feito uma noite verde ou vegetal/ e de água/ muito embora em cima das árvores/ por cima/ lá no alto/ revelando seu costado luminoso nas folhas/ passasse o dia (o século XX).// (...)  muitos são os dias num só dia/ fácil de entender/ mas difícil de penetrar.
   Pomba Poema – ainda não existia a poesia/ ou antes/ estava/ toda ali/ roubando pães na rua/ do sobe‐e‐desce/ anunciando a manhã/ como o leite/ escorrendo/ circunspecta/ pelo relógio/ imenso/ entrevisto pelas frestas/ da casa e do tempo/ onde laura do carmo/ ensaiava acordes para o jazz‐band/ o violino mesclado/ aos cascos da manhã/a poesia/ nas árvores/ pendurada/ nos galhos/ não no papel/ impressa/ opressa/mas saltando livre/ sem pressa/ escorrendo das folhas/ como gerânios/ se debruçando/ explodindo/ em arco/ sobre o rio/ sangrando suada/ veloz singrando/ num só arremesso/ singrando/ como bola de pano/ estava ali/a poesia/ antes/ da poesia.
    Também o sexo se assemelhava na noite, nas ruas, a céu aberto. Meio descritivo, no Poema sujo (de prosa), como no primeiro modernismo; paradoxalmente entrecortado por enjambements com menções aos poetas concretos em Pomba Poema.
      Poema sujo – A noite adormece as galinhas/ e põe a funcionar os cinemas/ aciona/ os programas de rádio, provoca/ discussões à mesa do jantar, excessos/ entre jovens que se beijam e se esfregam/ junto à cancela/ no escuro// Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/ o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.// E todos buscavam/ num sorriso num gesto/ nas conversas da esquina/ no coito em pé na calçada escura do Quartel/ no adultério/ no roubo/ a decifração do enigma/ – Que faço entre coisas?/ – De que me defendo?
    Pomba Poema – era engraçado/ o sexo/ engraxado por brancos jatos/ lubrificado/ por amplos amplexos/ curtos‐tardos/ despojados/ longos‐lentos/ soltos a cada momento/ despejados/ no negro sexo de jânio quadros/ negra jânio viva negra vulva/ noite exímia/ preta preta/ pretíssimas/ retas augustas/ em M fortuitas suas coxas/ fartas sujas concretas pignatrizes/ as cujas crespas carnudas cornucópias/ duro penhor desce o pignatário piche puro pendor/ torpor anteparando paus pernas espermas/ vorazes varando sexos afoitos/ campos adubados induzindo/ ao infinito conduzindo/ em M despertam suas pernas/ enroscadas no infinito/ em 8 pós‐coito o torto corpo.
    Ou ainda a metáfora do tanque a “jorrar manhã” de Gullar e a minha do leiteiro também a “jorrar a manhã”.

    Poema sujo – quando a gente acorda cedo e fica/ deitado assuntando/ o processo do amanhecer:/ os primeiros passos na rua/ os primeiros/ ruídos na cozinha/ até que de galo em galo/ um galo/ rente a nós/ explode/ (no quintal)/ e a torneira do tanque de lavar roupas/ desanda a jorrar manhã.
   Pomba Poema – tal/ vez que agora é finda a missa/ o leiteiro jorra a manhã em cada porta/ lavada a alma/ – torta?/ descemos em bando famintos da pá‐virada moleques/ a inaugurar o domingo/ sobe‐e‐desce afora/ é quando/ mais belo se faz o pão nas janelas/ pescado/ triturado/ a cada dentada/ esquentando o vazio/ entre a alma e o nada/ era deixado o jornal/ como prêmio/ mas esse não interessa/ estava longe o grêmio/ a palavra impressa.
  E ainda o sobe-desce das ruas, os olhares estrangeiros pelas janelas: São Luís de Cataguases?
     Poema sujo – Descendo ou subindo a rua,/ mesmo que vás a pé,/ verás que as casas são praticamente as mesmas/ mas na janelas / surgem rostos desconhecidos/como num sonho mau.
    Pomba Poema – Descendo/ a rua/ do/ sobe/ e/ desce/ pressinto/cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade do exterior/ mineiro// que passo é esse apressado?/ que luz é essa amarela?/ quando quem o quê como por quê?/de quem são esses olhos/ quem por trás da janela?
Ainda em Buenos Aires, de maio a julho de 1975, Gullar debruçou-se sobre seu poema de forma frenética, como se tomado por uma força estranha. Ríamos, é certo,/ em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas/ de hortelã enroladas em papel de seda colorido,/ ríamos, sim,/ mas/ era como se nenhum afeto valesse/ como se não tivesse sentido rir/ numa cidade tão pequena. De repente, a fonte secou. Não saía mais nada, mas ele sentia que o poema não estava terminado. Como já disse numa das crônicas anteriores, só em setembro, já angustiado, Gullar lembrou-se de um livro de Lênin, que lera quando estava no Chile, onde havia uma citação de Hegel: “a árvore está no ramo da árvore”. A partir desse conceito, de uma coisa estar em outra, o poeta finalmente consegue terminar seu livro em outubro daquele ano, com dicção e octossílabos a lá João Cabral de Melo Neto:
O homem não está na cidade/ como uma árvore num livro// (...) a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa// cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas.
      No livro “Sobre arte, sobre poesia”, publicado em 2006, dizia Gullar: “Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da rua do Coqueiro, da rua dos Afogados, da quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da rua do Sol e da praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Norma, de Leda, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem de Bosta.  Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento interior, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços; a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem história”.



    Dar voz a esse mundo sem história foi uma das proezas do poeta Ferreira Gullar.

2 de jan de 2017

Rota: Fellini




CENA 1

que música assim lontana e dolce
que fontana que veio de vita
afoito e em meio de mim me toma
e me inunda dessa melodia
que assoma e se assume plena
e me assombra e surge assim
e salta de um cinema
e enfim me acalma
e me leva-e-traz malabarista
de azares muitos
e poucos malabares?

noctâmbulo artista suspenso
em fio frágil e saltimbanco
no derradeiro arco de um vôo
imenso e sem louvor
de um salto em branco
de vadio desequilibrista
no picadeiro vazio e sem fervor
de vida esta dolce lontana vita
que oscila e vibra nessa melodia
que de novo flui e vem de muito antes
e me preenche e me traz
descoloridos semblantes
caras e doloridas faces
vagos disfarces visões
de vida dolce vita e malencolia
que noite-dia se formam
e me confortam
e me transportam
e me transformam

em passado-presente e magia
e miragens de entes perdidos
elos de um tempo semi-escondido
de amigas-amigos e amadas
e mal-amadas belas
belas estrelas belas donas
em seu andor em sua pose
e langor que às escuras seduz
em meio a unguentos em close
e serenos planos plenos de luz

mas sem sinecura sem beladona
que me cure da beleza
impura da dura trama que me rende
e sai desse mergulho de câmera
e me atrai e prende
a fragmentos de fotogramas
restos de rostos remontados

essa aquela imagem que faísca
no escuro e se cristaliza
no clarão da tela

                                            
                                                   giulietta 
                                       magali 
                                                 caterina 
                                                             cardinale 
                                                                            milo 
                                               anouk 
                                                       amada 
                                                                 anita 
                                              anitona 



CENA 2


tudo que em mim criança
e circo e clowns e dança
tudo que em mim convida

para a festa da vida
e roda roda-rota
rota-rota de acordes

tudo que me recorde
tutto che me a m’arcord
ch’è una festa la vita

os pés sujos de infância
têm-pó e água límpida
as mãos sujas de dolce

 vita em meio: estrada
rota-receio-ponte
de vida e vitelloni

alegria que dança
tutto tutto que em mim
 rimini-relembrança

minas não mais oprime
tudo que em mim menino
rota-rito-fellini


Ronaldo Werneck

Cataguases, março de 2001

26 de dez de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 4

Por você por mim   

           
            “Consumiste o dia numa sala fechada,/ lidando com papéis e números./ Telefonaste e escreveste,/ irritações e simpatias surgiram e desapareceram/ no fluir dessas horas. E caminhas,/ agora, vazio,/ como se nada acontecera.// (...) Tua casa está ali. A janela/ acesa no terceiro andar. As crianças/ ainda não dormiram./ Terá o mundo de ser para eles/ este logro? Não será/ teu dever mudá-lo?// Apertas o botão da cigarra./ Amanhã ainda não será outro dia”.  Neste poema, “Volta para casa”, Ferreira Gullar parece render homenagem a um de seus poetas preferidos, Carlos Drummond de Andrade. Há nele toda uma dicção dummondiana e, ao mesmo tempo, toda uma preocupação com as andanças e esquivanças do mundo.
            Em 1967, a morte de Ernesto Che Guevara me levou a um poema escrito no calor da hora (e que sairia na capa do SLD, o Suplemento Literatura Difusão que eu editava com o poeta Joaquim Branco), como se vê por esses fragmentos: “à morte azul-/ piscina/ frouxa colcha de retalhos/ surge súbita/ a pré-fabricada/ nas oficinas/ da américa latina/ das oficinas da américa/ das oficinas de sombra e medo/ suja morte em selva vida/ lidalívida lediviva/ la muerte sem arcanjos/ sujo de selva/ e sangue/ fora do encantamento/ o corpo-roto/ de selva & sangue/ o mito-morto/em higueras, os andes vulcânicos/ a morte risco na vida/ meridiano da sorte// de selva e sangue/ faz-se o mito-morto/ de selva e sangue/ tão junto da verdade/como o sangue do corpo/o céu avermelha/sol & selva/ el cielo rojo de higueras/ torna rubra a pálida face/ do herói tombado/y el cielo baja/rojo de espanto/ sobre mi caballero”.
Muitos outros poetas também escreveram sobre a morte de Guevara. Poucos com a força das palavras de Gullar, sua emocionante e épica narrativa: “Em Buenos Aires há sol/ nas alamedas arborizadas, um general maquina um golpe./ Uma família festeja bodas de prata num trem que se aproxima/ de Montevidéu. À beira da estrada/ muge um boi da Swift. A Bolsa/ no Rio fecha em alta/ ou baixa./ Inti Peredo, Benigno, Urbano, Eustáquio, Nato/ castigam o avanço/ dos rangers./ Urbano tomba/ Eustáquio,/ Che Guevara sustenta/ o fogo, uma rajada o atinge, atira ainda, solve-se-lhe/ o joelho, no espanto/ os companheiros voltam/ para apanhá-lo. É tarde. Fogem./ A noite veloz se fecha sobre o rosto dos mortos”.
“(...) Não está morto, só ferido./ Num helicóptero ianque/ é levado para Higuera/ onde a morte o espera/ Não morrerá das feridas/ ganhas a céu no combate/ mas de mão assassina/;que o abate./ Não morrerá das feridas/ ganhas a céu aberto/ mas de um golpe escondido/ ao nascer do dia// Assim o levam pra morte/ (sujo de terra e de sangue)/ subjugado no bojo/ de um helicóptero ianque// É o seu último voo/ sobre a América Latina/ sob o fulgor das estrelas/ que nada sabem dos homens// que nada sabem do sonho,/ da esperança, da alegria,/ da luta surda do homem/ pela flor de cada dia”.
“(...) Súbito vimos ao mundo/ e nos chamamos Ernesto/ Súbito vimos ao mundo/ e estamos/ na América Latina/ Mas a vida onde está/ nos perguntamos/Nas tavernas?/ nas eternas/ tardes tardas?/ nas favelas/ onde a história fede a merda?/ no cinema?/ na fêmea caverna de sonhos/ e de urina?/ ou na ingrata/ faina do poema? /(...) A vida muda como a cor dos frutos/ lentamente/ e para sempre/ A vida muda como a flor em fruto/ velozmente/ A vida muda como a água em folhas/ o sonho em luz elétrica/ a rosa desembrulha do carbono/ o pássaro da boca/ mas/ quando for tempo/ E é tempo todo tempo/ mas/ não basta um século para fazer a pétala/ que um só minuto faz/ ou não/ mas/ a vida muda/ a vida muda o morto em multidão”.

Na Gávea, no Vietnam  

     Em 1968 comecei a namorar uma portuguesinha – “bela, recatada & etc” – que morava na Gávea e estudava na escola mais famosa do bairro, o Colégio Estadual André Maurois. Dirigido por Dona Henriette Amado, o André Maurois adotava o lema Liberdade com Responsabilidade como princípio de educação, tendo por base a prática da escola de Summerhill, na Suíça, a primeira democracia infantil do mundo. Dona Henriette acreditava que Summerhill seria um ponto de partida para uma educação que formasse pessoas seguras, onde houvesse uma verdadeira troca de experiências entre alunos e professores. 
    Pois foi ali no André Maurois, numa tarde do segundo semestre de 1968, que vi minha portuguesinha em cena. Mamãe portuguesa era bravíssima e na época só nos era permitido encontros vespertinos. Às vezes conseguíamos pegar um cineminha no Leblon, mas escondidos, mãos tímidas se encontrando no claro/escuro. Anos depois, ela sairia seminua na Revista Ele/Ela e logo seu nome estaria em letras garrafais nas fachadas dos cinemas, já que ficara famosa, imagina!, como atriz de pornochanchadas. Pois é, acontece. Então, para minha surpresa, minha tímida portuguesinha estava ali em cena, no palco do Colégio, e atuava ao lado de vários colegas na montagem de “Por Você Por Mim” (logo depois, aqueles rapazes e moças encenariam a peça também no Teatro Opinião), o belo-terrível poema de Ferreira Gullar sobre a Guerra do Vietnam, que eu acabara de ler/reler. O poema fora publicado naquele mesmo ano, e saíra num livro fino, de corte vertical, muito bem diagramado, com fantásticas fotos solarizadas das batalhas no Sudeste Asiático – livro que anda há tempos sumido entre os muitos de minha biblioteca.  
    Minha portuguesinha me dissera somente que ela e seus colegas iriam fazer a apresentação de um poema, e como eu era (era?) “o seu poeta”, deveria gostar. Ao ver que era o poema de que tanto gostava, e muito bem apresentado por aqueles “meninos e meninas” (eu já me considerava um velho de quase 25 anos frente aos 16, 17 anos dos jovens “atores”) me emocionei de vez, como me emocionara várias vezes nas várias leituras e releituras que já fizera do poema de Gullar. O mesmo poema que reencontro agora, nesta edição do “Toda Poesia”, com várias e antigas marcações feitas por mim. E que acabo de gravar em vídeo que se encontra em meu canal do youtube. 



     Em 1968, com a escalada americana no Sudeste Asiático, o Vietnam nos chegava pelo telstar, escorria sangue pelo videotape e era manchete diária em todo o mundo. Também eu acabara de escrever um poema tendo a guerra como pano de fundo e que sairia em meu primeiro livro, “Selva Selvaggia”. O eu-lírico de meu poema Telstar estava na cama com sua amada enquanto a televisão exibia imagens sangrentas do Vietnam. A seguir, um fragmento de Telstar, que ganharia mais tarde o Prêmio Carlos Drummond de Andrade: “exclamo/ eu te amor/ tecendo/ o B-52/ lenta/ lentamente/ p e n e t r a/ mente/ lenta/ p e n e t r a/ lenta/ lentamente/ brilhuzindo/ no ventre da manhã/ não a clara/ ensolarada/ manhã de todos/ mas a rubra/ ensanguentada/ manhã/ de todos os B-52/ vagina/ entreabrir/ parir/ bull-pups/ púbis/ bulldozers/ parir/ phantoms/ napalm/ thunderchiefs/ lazy-dogs/ parir/ a manhã/ de todos/ os B-52/do vietnam”.
      Já o poema de Gullar, “Por Você Por Mim”, coincidentemente com temática parecida, e que só conheci depois que terminara o meu, abordava as atrocidades da guerra como uma surpresa que explodia em meio à coloquialidade do cotidiano, e daí vinha o impacto de sua força: “É dia feito em Botafogo/ Homens de pasta, paletó, camisa limpa,/dirigem-se para o trabalho./ (...)/ Nenhuma ameaça/ pesa sobre a cidade/ Os barulhos apitos baques rumores/ se decifram sem alarma. O avião no céu/ vai para São Paulo./ O avião no céu não é um Thunderchief da USAF/ que chega trazendo a morte/ como em Hanói./ Não é um Thunderchief da USAF que chega/ seguido de outros/ e outros/ da USAF/ carregados de bombas e foguetes/ como em Hanói/ que chega lançando bombas e foguetes/ como em Hanói/ como em Haiphong/ incendiando o porto/ destruindo as centrais elétricas”.
    “A noite, a noite, que se passa? diz/ que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta/ pantera lilás, de carne/ lilás, a noite, esta usina/ no ventre da floresta, no vale,/ sob lençóis de lama e acetileno, a aurora/ o relógio da aurora, batendo, batendo/ quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão/ batendo/ Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien./ Mas amanhece. // (...)// As águas explodem como granadas, os arrozais/ se queimam em fósforo e sangue/ entre fuzis/ as crianças/ fogem dos jardins onde açucenas pulsam/ como bombas-relógios, os jasmineiros/ soltam gases, a máquina/ da primavera/ danificada/ não consegue sorrir.” 
     “(...) O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos/ da morte, o motor/ da vida gira ao contrário, não/ para sustentar a cor da íris,/ a tessitura da carne, gira/ ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho/ do corpo, gira/ ao contrário das constelações, a vida/ ao contrário, dentro/ de blusas, de calças, dentro/ de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira/ ao contrário a vida feita de morte”.  
      “(...) Surdo/ sistema de álcool, gira/ gira, apaga rostos, mãos,/ esta mão jovem/ que sabia ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos/ demais, há mortes/ demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos/ do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada/ aquela tarde clara tudo/ tudo se dissolve nas águas marrons/ e entre nenúfares e limos/ a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul”.  
      “(...) Próximo à base de Da Nang/ que tudo escuta e tudo vê,/ próximo à base de Da Nang, esgueira-se/ entre árvores um homem,/ próximo à base cheia de soldados,/ metralhadoras, bombas,/ aviões, cheia/ de ouvidos e de olhos/ eletrônicos, um homem, chamado Tram/ entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,/ cauteloso se move/ entre as folhas da noite, Tram Van Dam,/ cautelo se move/ entre as flores da morte/ Tram Van Dam/ quinze anos se move/ entre as águas da noite/ dentro da lama/ onde bate a aurora/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ Tram Van Dam/ com sua granada/ entre cercas de arame/ entre as minas no chão/ Tram Van Dam/ com o seu coração/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ por você por mim/ sob o fogo inimigo/ com o grampo no dente/ com o braço no ar/ por você por mim/ Tram Van Dam/ onde bate a aurora/ por você por mim/ no Vietnam”. 
      Pois não é que até hoje, até mesmo agora, ao digitar esses trechos do poema, ao sentir o ritmo incessantemente marcante dessa sequência de “Tram Van Dans”, me comovo quase às lágrimas? 
Continua na próxima semana