28 de abr de 2017

Humberto Mauro: plano geral & poesia




Ele captou a luz de Minas em grandes
e poéticos planos, e fez os melhores filmes da fase pioneira de nosso cinema

Além Paraíba, Minas Gerais, outubro de 1983. O velho cineasta acorda num hospital, a família em volta: “Ué, eu já morri?”. Como todos os iluminados pela inteligência, o cineasta mineiro Humberto Mauro (Volta Grande, 1897-1983) era muitíssimo bem-humorado, um eterno curioso, atento ao mundo à sua volta. Foi o que o levou a fazer cinema. Primeiro, atraído pela técnica; logo, senhor dela, criando com seu grande talento uma linguagem própria e sempre inovadora. Um rio, uma ponte, uma praça, uma igreja. Seis mil habitantes, se tanto. Essa a Cataguases do início do século XX, na Zona da Mata de Minas Gerais, aonde a família do imigrante italiano Caetano Mauro chega em 1910. É ali que seu filho, o jovem Humberto Mauro, vai viver até o início da década de 1930. Viver e iniciar o universo de inquietações que o faria sucessivamente goleiro de futebol, remador, jogador de xadrez, de sinuca, fotógrafo, eletricista, radioamador, músico, dramaturgo, ator, autor, roteirista, montador, diretor e arauto do cinema.
     A paixão pelo cinematógrafo surgiu da fotografia. Nos tempos de sua mocidade, Humberto Mauro trocou sua valiosa coleção de selos por uma máquina fotográfica, como ele mesmo narra: “Dona Lucília Taveira tinha uma Kodak que já me emprestara e eu fiquei doido por aquela máquina. Perguntei-lhe se não queria trocar por minha coleção de selos e ela aceitou. Foi assim que consegui minha primeira máquina fotográfica, que me ligou a vários fotógrafos, um deles o Seu Pedro Comello. 

Humberto Mauro em Volta Grande (1975)

     A coleção de selos foi o princípio de tudo, a causa do meu começo no cinema lá em Cataguases”. Esse “Seu Pedro Comello” era um imigrante italiano (Novara, 1874-Cataguases, 1954), “pintor talentoso, retratista por excelência, dotado de grande habilidade artesanal”, como descreve Paulo Emílio Salles Gomes in Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte. Mauro junta-se então a Comello e – com uma Pathé-Baby 9,5 mm, pequena câmera utilizada à época para registro dos chamados  “ABCs” (Aniversários, Batizados, Casamentos) – já se inicia no cinema como autor.  Ao invés de filmarem as famílias, eles partem logo para uma fita de ficção.

Foi essa curiosidade que o levou a fazer cinema, criando com seu grande talento uma linguagem própria e sempre inovadora

Valadião, o Cratera, curta-metragem de 1925, foi um filme-piloto que atraiu o comerciante Homero Cortes para “esse negócio de fazer cinema”. Conquistado, Homero vai ao Rio com Mauro e voltam de lá com uma Ernemann 35 mm, câmera profissional. Logo, junta-se a eles outro comerciante, Agenor de Barros, e fundam uma produtora, a Phebo Sul America Film. Com Pedro Comello na câmera, o cineasta inicia ainda em 1925 seu primeiro longa-metragem, “Na Primavera da Vida”, que estreia em Cataguases em 1926.  Como protagonistas, Francisco Mauro, irmão de Humberto (que atua com o nome de Bruno Mauro) e Eva Comello (a heroína do filme anterior, que adota o nome de Eva Nil). Mocinha dessas duas fitas, Eva fica mais conhecida pelas fotos estampadas em várias revistas da época, que a transformaram na “estrelinha de Cataguases” – perenizada pela câmera do pai, Pedro Comello.


Cataguases, anos 1920: a atriz Eva Nil em três tempos
(fotos de Pedro Comello)
“Humberto? ele era dernier-cri” – disse um dia Maria Vilela de Almeida, moça de uma ‘beleza extremamente fina’, a dona Bêbe, que nunca se esqueceu da primeira vez que o viu, “passeando a cavalo, a camisa de lã grossa com bolsos pregueados”. Moço da moda, popular, querido, Humberto Mauro se destacava na cidade. O casamento dos dois realizou-se em 1920, e durou a vida inteira. Aos olhos sentimentais da cidade, Humberto e Bêbe apareciam como o Romeu e Julieta de Cataguases: era o casal mais belo da região da Mata. Em 1926, com a saída de Eva Nil, que resolve não mais filmar com a Phebo, Mauro tem que providenciar às pressas outra estrela. Com o nome artístico de Lola Lys, Bêbe é a mocinha de Thesouro Perdido, sua nova realização.

Mauro e Dona Bêbe em Volta Grande (1975)

Das centenas de filmes que iria realizar, este ficou como o seu predileto. Não só por contar com vários familiares como por ser a fita também uma prova do bom emprego de algumas técnicas absorvidas do contato no Rio com o cinéfilo Adhemar Gonzaga, editor de Cinearte, prestigiada revista de cinema. Gonzaga criticara o excesso de letreiros da fita anterior de Mauro, que a partir daí passa a “falar por imagens”, essência da linguagem cinematográfica – e como o cinema mudo se fazia entender. Mauro já demonstrava rara inventividade: na sequência de uma tempestade, feita com chuva de regador, os raios são riscados na película virgem. Nas cenas de um galope, o close das patas dos cavalos é feito com uma lata de farinha pintada de preto por dentro. Duas lentes, uma de foco longo outra comum. E Mauro inventa assim uma espécie de teleobjetiva. Impulsionado pelo frescor da iniciação, Thesouro Perdido já é verdadeiramente uma fita de cinema – e recebe o Troféu Cinearte como Melhor Filme Brasileiro de 1927. Humberto Mauro passa a ficar falado como homem de cinema. Por enquanto, do cinema mudo. 
Em meados de 1927, a Phebo Sul America abre-se a acionistas, passa a denominar-se Phebo Brasil Filme, e elege seu presidente Agenor Cortes de Barros, tendo como secretário Homero Cortes Domingues. O diretor técnico é Humberto Mauro, o único assalariado – e primeiro cineasta a ter carteira assinada no Brasil. Terceira produção do Ciclo de Cataguases, Braza Dormida já representa um princípio de profissionalização.  São contratados no Rio não só o fotógrafo – Edgar Brasil, que logo seria o melhor iluminador do cinema brasileiro – como o casal protagonista, Nita Ney e Luiz Soroa. “De qualquer maneira precisas apresentar agora um film mais bilheteria. Não são beijos nem farras, mas um sensualismo elegante. Todo film deve ter uma boa dose pelo menos de mocidade”, dizia Adhemar Gonzaga em 1929, quando Mauro começava a elaborar seu novo roteiro.

Alex Viany (óculos escuros), Dona Bêbe e Paulo Emilio.
Ao fundo, David Neves e Humberto Mauro (1975)

Quarta e última produção da Phebo, com externas realizadas no Rio e em Belo Horizonte, Sangue Mineiro já mostra um Humberto Mauro senhor de si – e sua evolução de um filme para outro é precisa, rápida, surpreendente. A fita foi viabilizada pela participação de Carmen Santos – como protagonista e principalmente co-produtora. Esta foi a estreia de Carmen Santos como estrela: apesar de ter feito outros três filmes no Rio, seus fãs – como os de Eva Nil – só a conheciam de fotografia. Sua entrada na Phebo significou prestígio e injeção de capital, mas não o suficiente para a produtora continuar em atividade. A atriz portuguesa vai ter grande importância na trajetória de Humberto Mauro em sua fase carioca.  
Com o fim da Phebo, Mauro vai para o Rio a convite de Gonzaga, que acabara de fundar sua produtora, a Cinédia. Com pouco mais de 30 anos, e revelando-se nas várias funções assumidas dentro e fora do set de filmagens, Mauro era quem mais entendia de cinema no Brasil dos anos 30. Na Cinédia, realiza Lábios sem Beijos, Ganga Bruta, Voz do Carnaval. Trabalha depois na Brazil Vita Filmes, produtora de Carmen Santos, onde dirige Favella dos Meus Amores, Cidade Mulher e Argila. Em 1937, realiza O Descobrimento do Brasil, produção do Instituto do Cacau da Bahia. No ano anterior, a convite de Edgar Roquette-Pinto, inicia seus trabalhos no Ince-Instituto Nacional de Cinema Educativo – onde irá dirigir cerca de 300 documentários (grande parte com fotografia primorosa de seu filho, Zequinha Mauro) até se aposentar, em 1967. Retornando à sua cidade natal, Volta Grande, faz seu último longa-metragem, O Canto da Saudade (1952), e uma pequena obra-prima, o curta A Velha a Fiar (1964).
1975: em seu “canto de cisne”  Mauro faz o roteiro e dirige o curta Carro de Bois, uma retomada a cores de seu Manhã na Roça – O Carro de Bois, da série Brasilianas, que dirigiu para o INCE em 1956. O filme – vencedor do “Troféu Humberto Mauro” na Jornada Brasileira de Curta-metragem realizada na Bahia em 1975 – tem fotografia de Murilo Salles e produção executiva de sua sobrinha-neta, Valéria Mauro.

1975: Mauro filma "Carro de Bois", seu ultimo curta-metragem,
fotografado por Murilo Salles, com produção executiva de Valéria Mauro 


A poesia dos long-shots, sua marca e assinatura. Câmera contra o sol: o morro, a mata, o carro de bois – paisagem por ele perenizada.

A poesia do cinema está nos long-shots, nos grandes planos gerais. A roda d’água, por exemplo, é de uma fotogenia extraordinária. Aquele rodar lento, os musgos, a água batendo contra o sol (...) Pega um carro de bois no topo de um morro, contra o sol, o candeeiro, o carroceiro em cima do cabeçalho – é de uma beleza incrível!” Relendo essas palavras de Humberto Mauro, extraídas da gravação de uma das muitas conversas que tivemos em 1975, relembro agora como o cinema – força tamanha – estava entranhado em sua dicção. Como se nela fluisse num navegar contínuo, sem cortes, na plenitude de um plano-sequência. Melhor: revendo essas palavras, suas palavras-imagens, percebo como o cinema estava nele como se dele nascido, de tal modo que Mauro acabava sempre falando como se filmasse. E, falando, filmasse como gostava de filmar, extraindo beleza daqueles long-shots, daqueles contra-plongés que eram sua marca e assinatura: o carro de bois, o candeeiro, o carroceiro, a câmera baixa apontada contra o sol no alto do morro – paisagem por ele perenizada.
Hospital de Volta Grande. Sábado, 05 de novembro de 1983. Noite. Ao despertar, descobre-se de novo internado. Há uma semana, mas não sabia. A brincadeira do “já morri” não tem mais graça: agora está sozinho. Levanta-se ainda tonto: que ir para casa. É só atravessar a rua: mora ali em frente, na avenida com o seu nome: Cineasta Humberto Mauro. Mas não dá um passo e cai, fulminado, Ali mesmo, sem ver pela última vez a luz da Mata Mineira em sua plenitude – foco de sua paixão, paisagem enquadrada a vida inteira. Minas na memória. Exterior. Dia. Para sempre.



Memorial em Cataguases


No Centro Cultural Humberto Mauro em Cataguases (Rua Coronel Vieira nº 10), a Fundação Ormeo Junqueira Botelho mantém um Memorial onde se toma contato com o mundo de Humberto Mauro. Ali – na cidade-ícone do modernismo no interior mineiro, que conta com grande escultura de Amilcar de Castro em homenagem a Mauro – encontram-se fotos, textos e troféus dispostos nos vários painéis, onde são exibidos dez pequenos filmes que realizei, focalizando a trajetória do cineasta.


Autodidata, e um curioso por excelência – que dizia ser o cinema “cachoeira”, movimento – Humberto Mauro não se contentava em saber como esse mundo se movia: queria mesmo era movê-lo. Em sua Histoire du Cinéma, o crítico francês Georges Sadoul cita Ganga Bruta, de 1933,  como um dos melhores filmes do cinema mundial. Entre suas mais de trezentas realizações, contam-se os preciosos levantamentos da história e cartografia do Brasil, foco central dos documentários realizados para o Ince-Instituto Nacional de Cinema Educativo. Seus filmes despertaram nos cineastas do Cinema Novo uma consciência do país, um voltar de câmeras para um Brasil profundo que se fez conhecer pelas lentes maurianas.
Segundo Glauber Rocha – que re/descobrira Humberto Mauro nos anos 1960 –, estava ali “a raiz do enquadramento brasileiro”, a matriz de um país redescoberto pela autenticidade e pureza da poética de Mauro. Diz ainda Glauber: “Em Cataguases – quando o cinema era mudo e o Brasil era ainda mais selvagem – Humberto Mauro realizou um ciclo cinematográfico, revelando a existência de uma das mais sólidas tradições específicas de nossa cultura. (...) Seu mundo é a paisagem mineira, e Mauro seria o único cineasta capaz de filmar Guimarães Rosa e dar no cinema a mesma dimensão do grande romancista”.



24 de abr de 2017

MOSTRA IMAGÉTICA NO CCBB Poesia Visual Contemporânea Mesa-redonda 15 MARÇO 2017


O olhar de Wlademir Dias-Pino
Ronaldo Werneck



        ave
        ave ave
        ave ave ave
ave voo
        voo
        voo ave
        voo ave ave
        voo ave ave ave
 ave vae

         vae




A importância de 1956 para a história da literatura brasileira pode ser registrada mediante três episódios capitais: o lançamento da poesia concreta, a publicação de Grande sertão: Veredas e o surgimento de A ave, de Wlademir Dias-Pino, livro que se liga(va) às virtualidades gráficas e verbo-visuais do concretismo, mas que apontava para um desdobrar novo nas aventuras composicionais da própria poesia concreta.
Moacy Cirne in Revista Vozes, 1972



Ex-FACHA/Ex-CCBB
Entre os anos 1990 e 1995, fui Assessor de Imprensa e Editor de Textos do CCBB – e para mim não deixa de ser emocionante participar, depois de mais de 20 anos, de um evento neste belo prédio que eu tanto conheço. Principalmente por também se tratar de um projeto promovido pela FACHA, faculdade onde estudei jornalismo na década de 1970.  
Quando aqui trabalhei, havia um poeta barbudo e de longos cabelos à la hippie, um quase demiurgo, que resolveu montar ”seu escritório” ali nas escadas do Foyer, ao lado do Teatro I. De repente, para espanto da direção do CCBB, ele passou a ter vários seguidores, quase diria epígonos.
Um dia sentei-me ao seu lado na escada e ele me disse chamar-se “Ex-Kosta K”.  Não simplesmente Kosta K, mas “Ex-Kosta K”. Uma negação que se transforma e afirma. E firma e se reafirma formidável. Para surpresa minha, ele falava de Maiakóvski, Concretismo, Poema Processo. Ficamos amigos e quase-quase também virei um de seus epígonos. Nunca mais o vi, nunca mais o esqueci. Também, pudera, o “Ex-Kosta K” era primeiro e único. Agora e então, aqui e agora, sou eu quem percebo ter também me transformado em Ex. Ex-FACHA, Ex-CCBB, Ex-Roneck.
Para esta mesa-redonda – com a presença do poeta Sady Bianchin, professor de artes da Facha-Faculdades Integradas Hélio Alonso, e criador de “Um Rio de Versos”, agora em sua nona edição; do poeta Tchello d´Barros, curador da mostra Imagética; e de Regina Pouchain, poeta e artista visual – fui designado a dizer algumas palavras sobre um dos pioneiros do poema visual e meu amigo de longa data, o poeta Wlademir Dias-Pino, que se encontra aqui ao meu lado,

Wlademir Infinito  
Aos 90 anos, Wlademir é finalmente reconhecido como o enorme poeta e artista plástico que é, o que vem acontecendo desde sua grande exposição “O Poema Infinito”, que no ano passado ocupou todo um andar do MAR, o Museu de Arte do Rio, e pelo Prêmio Faz Diferença 2016, recebido do jornal O Globo na categoria artes plásticas.
A exposição no MAR tomou como eixo central quatro poemas: “O dia da cidade”, “Ave”, “Solida” e “Numéricos”. Visando ampliar a experiência sensorial dos trabalhos, esses livros-poemas foram transformados em grandes instalações magnéticas, nas quais os elementos eram construídos e rearranjados pelos visitantes.


    Outro destaque foi a Enciclopédia Visual Brasileira, na qual o artista vem trabalhando nas últimas duas décadas. Composto por 1001 volumes, o trabalho pretende apresentar, por meio de pranchas resultantes da montagem alegórica de referências culturais diversas, a história da construção da imagem no mundo.
       Falar em mundo, Wlademir é um mundo habitado pelo pensador visual que traz dentro de si. Um artista multifário: vitrinista, tipógrafo, designer gráfico, poeta-professor, poeta-inventor, na classificação de Ezra Pound. Para Antonio Houaiss, “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil". Para o crítico Assis Brasil, “Wlademir Dias-Pino é o poeta mais independente na área da poesia experimental”.
      Então, dada a grandeza da tarefa, e se me permitis, permitir-me-ei ler (como já venho fazendo, e com as velhas mesóclises ora em voga) algumas palavras minhas, de outros, e até do próprio poeta e de seu pensar sobre os caminhos do poema.
Mas antes vamos a uma pequena digressão, que tem a ver com o Poema Processo, movimento que ele fundou ao lado dos poetas  Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, seus maiores expoentes.

Libertarde
Meu poema “Libertarde”, que está exposto aqui, na mostra Imagética, foi realizado neste prédio há cerca de 50 anos. Eu trabalhava na Supla, a Superintendência de Planejamento do BB, no terceiro andar. Eram tempos da repressão, embora menos severa do que a que viria no ano seguinte, com o AI-5. Num intervalo do trabalho, comecei a pensar na bandeira de Minas, naquele “Libertas quae sera tamen” envolvendo o triângulo vermelho.


Troquei o dito em Latim (que o poeta-menino Vinicius de Moraes lia como “Libertas que será também”, e nada entendia) por um círculo envolvendo um pequeno triângulo. Aos poucos, o triângulo crescia e já tangenciava o círculo e logo dava o que na minha desvairada cabeça seria um dialético salto qualitativo – até que cercasse o círculo, ultrapassasse totalmente a “prisão” por ele representada. O título “Libertarde” surgiu da junção do “Liberdade” com o “ainda que tardia”.
Wlademir Dias-Pino com a palavra: “Programas que visem a tornar o computador cada vez mais capaz de produzir pinturas, desenhos, sinfonias e textos (aleatórios ou figurativos), reduzem as próprias possibilidades que a eletrônica oferece na pesquisa de vanguarda. É a tentativa de igualar (substituir de modo snob) o computador ao pincel, ao lápis, ao piano e ao dicionário. O uso contínuo de um instrumento torna-o extensão do homem: ´o lápis é a ponta grafitada de seu dedo´. Daí a individualidade do desenho”.
Interessante registrar que “Libertarde” foi inicialmente produzido em minha mesa de trabalho, com o auxílio de uma moeda (de onde saiu o círculo), um lápis (olha o lápis do Wlademir aí!) e o livro de instruções circulares do BB, que me ajudou a traçar o triângulo. Mais que uma época pré-digital, aquele foi um momento sem régua ou compasso. Aliás, se a Bahia deu a Gil régua e compasso, o Banco do Brasil pouco me ofereceu para a realização do poema, fora o livro-esquadro. Bem, na verdade esta não é certamente função de bancos.
Era realmente um tempo pioneiro, artesanal. O poema foi publicado pela primeira vez em livro, em 1972 na obra “Processo: Linguagem e Comunicação”, do próprio Wlademir. No ano seguinte, sairia no Jornal da Poesia, no Caderno B, editado por Affonso Romano de SantAnna, com direito a chamada de capa no então poderoso Jornal do Brasil. Logo, seguiria mundo, publicado em jornais, livros e revista, daqui e do exterior. Já neste século, a poeta e designer Regina Pouchain – que nos honra com sua presença nesta mesa – faria ótimas releituras cromáticas de “Libertarde” e de outros de meus poemas visuais, que podem ser vistas na seção “Trabalhos/Poemas Visuais” de meu site www.ronaldowerneck.com.br. Wlademir não diria “releituras”, mas “versões”. Isso porque, para ele, a versão é criativa: “Eu pego o poema inaugural de um cidadão e faço uma versão. O que eu fiz foi acrescer a minha experiência à conquista daquele poeta”.

Um olhar pra algo além


Pois é, já lá se vão 50 anos. A primeira vez em que vi Wlademir Dias-Pino, foi aí por volta de 1967, não sei bem se em Cataguases, na Mata Mineira, em casa do poeta Joaquim Branco (onde ele concederia em 1977 longa entrevista sobre os rumos da poesia visual para o Totem, jornal que então editávamos em conjunto). Ou, quem sabe, no Rio, em Santa Teresa, numa reunião na casa dos poetas Neide e Álvaro de Sá, já no início dos anos 1970. Ali, onde sempre ao lado de outros companheiros, como o poeta-professor Moacy Cirne, tentávamos estruturar os rumos do Poema Processo. Não sei bem se lá ou cá, mas o importante é que nunca me esqueci do olhar de Wlademir.
Ele nunca nos olhava diretamente, mas sempre enviesado, como se buscasse o infinito. “Quem olha é responsável pelo que vê”, ele nos dizia na entrevista para o Totem, Um olhar pra além, pra algo além. Futuro ou coisa que fosse. Esse olhar assim desencontrado de Wlademir Dias -Pino é tudo o que eu captaria mais tarde como definição do que fosse, seja ou é o que entendemos, ou não, sobre poesia visual. Que eu prefiro chamar de “poema visual”, já que poema é uma coisa, poesia outra. Poema é veículo, poesia reta de chegada.

A vida no meio gráfico
Um rápido flashback sobre a trajetória e o próprio nascimento de Wlademir Dias Pino já nos deixa dúvidas logo de início. É certo que o poeta nasceu em 1927 no Rio (Rua Pareto, na Tijuca). Mas em que mês? Fala-se em fevereiro, mas há registros de abril, outros de maio. Ainda bem que ele está aqui e pode nos dizer a data certa: afinal, já foi comemorado ou ainda vamos comemorar os seus 90 anos?
No Rio dos anos 1930, Luciano Pino, o pai de Wlademir, é militante comunista, jornalista e trabalha como tipógrafo na Imprensa Nacional. Figura marcante em sua formação, sua mãe, Laura, é quem ensina o filho a ler e a escrever. O método didático da mãe é recortar com tesoura palavras dos jornais editados pelo próprio marido. Esse sistema de recorte de palavras e formas é mantido durante toda a vida do poeta, sendo a tesoura o instrumento de realização de várias de suas obras.

Na primeira infância, Wlademir brinca com os tipos gráficos de chumbo: “Vivi no meio gráfico, comecei a lidar com o tipo desde muito cedo e ficou aquele amor pela forma das letras. Convivendo com o alfabeto desde a tenra infância, um dia conclui que a maior arbitrariedade existente na cultura humana é a imposição do código alfabético”.
Em 1937, por razões políticas, Luciano, é forçado a transferir-se com a família para Mato Grosso. Wlademir chega a Cuiabá com 10 anos e lá permanecerá até os 24. Nesse período, costumava ler vorazmente os clássicos na biblioteca pública da cidade. Seu pai foi responsável pela renovação gráfica da imprensa de Mato Grosso e, como jornalista e comentarista, também produzia crítica de cinema e ensaios sobre a vida social. Nessa época, Luciano conhece o poeta Manoel de Barros que vai até sua casa para entregar um exemplar de seu primeiro livro. A visita do jovem poeta mato-grossense marca o pequeno Wlademir que, anos mais tarde, seria um dos responsáveis pelo início da divulgação de sua obra.

“Os Corcundas”: Augusto e Philadelpho
Em 1938, com apenas 11 anos, já escrevia livros de poemas. Sem seu consentimento e em segredo, um dia seu pai, que administrava uma gráfica, publica um livro seu, que retira de um conjunto de manuscritos. Extremamente tímido, quando vê a edição Wlademir revolta-se e coloca fogo nos livros. Alguns exemplares são salvos.
Coincidência ou não, em 1967, para grande espanto dos transeuntes e de tutti quanti, os poetas do movimento do Poema Processo, Wlademir, Álvaro, Neide e Moacyr Cirne à frente, queimam livros de poetas consagrados na Cinelândia. “Espantar pela radicalidade” era seu slogan, a palavra de ordem.
Em 1939, “Os corcundas”, seu primeiro livro conhecido, é impresso por seu pai, agora com sua concordância, como atesta o cólofon na contracapa do único exemplar existente desta edição. Wlademir ainda não completara 12 anos de idade. O universo grotesco dos personagens do poema foi inspirado, segundo ele, na commedia dell'arte, que sua avó apresentava aos netos, além de “forçá-los” a ouvir ópera e ler peças de teatro. 


“Os corcundas e suas deformações linguísticas./ O avesso do muro por toda a parte, o inverso./ Nuvens beliscando o perfil das coisas/ Trapézio com seus dentes catando // arreiam seus olhos e como doadores de sangue/ se nivelam e dormem/ aos pés dos cogumelos/ (ficando suas sombras)/ em ângulos retos borrados/ sobre seus travesseiros de lilases/ macios como o tato/ (cabelos invisíveis)// e a nuvem que desce forma uma jaula/ de manequins tombados”.
“Os corcundas” foi reimpresso em 1954, passando essa data a aparecer equivocadamente como a data em que foi escrito. Nas décadas de 1950 e 1960, a obra é objeto de análises críticas em jornais e publicações nacionais. Em nenhuma delas é apontado o fato absolutamente extraordinário, então desconhecido, de Wlademir tê-la escrito enquanto ainda era criança, e o trabalho é tratado por toda a crítica como obra adulta e plena, precursora formal de sua surpreendente originalidade e capacidade inventiva.
Em 1956, escrevia o poeta Augusto de Campos no Suplemento do Estadão: “A rebeldia de Wlademir se manifesta ainda, ao nível semântico, pela dessacralização do “poético”, através de um sistemático “culto do feio” ou do “mau gosto” em ‘Os Corcundas’, onde ocorre a intromissão de um vocabulário rejeitado em poesia e que pela constante reiteração chega a ser, mais do que prosaico, propositadamente incômodo e perturbador. Nesse monturo de dejetos verbais Wlademir trata de revolver e perseguir uma espécie de fenomenologia do indizível poético, para chegar ao fim das calvas coisas. Ao mesmo tempo sente-se nele a consciência existencial da solidão e da alienação do poeta no mundo moderno".
E também o crítico e poeta Philadelpho Menezes, em seu livro Roteiro de literatura: poesia concreta e visual: "Entre o muito que foi soterrado na história da poesia concreta, há que se dar um destaque especial para o poeta Wlademir Dias-Pino. Em livros como ‘Os corcundas’, do final da década de 1940, (sic) Dias-Pino mostra uma poesia incomum para os padrões brasileiros. Com imagens estranhas, associações imprevisíveis, um vocabulário rebuscado colocado numa sintaxe toda desconjuntada, sua poesia em verso é surpreendente e pede uma reedição cuidadosa. Em ‘Os corcundas’, o tema é a deformação física. Mas a deformação não fica só no tema. Ela invade a própria linguagem, entorta a sintaxe das frases, põe vocábulos antipoéticos nos versos, deforma as palavras".

“A fome dos lados” & “Intensivismo”


 Em “A fome dos lados”, de 1940, Wlademir, com apenas 13 anos, descreve o impacto de ver o corpo de um amigo do pai torturado e assassinado pela polícia de Filinto Müller na ditadura Vargas:” Aqui está a mancha do assassinado/ livre agora era bom e é livre/ sua mancha horizontal e leve/ como são leves as coisas horizontais// Eis o morto livre/ raso e vazio/ em seu ninho de sangue calvo/ (calvo como a bala de fuzil)/ sangue que é escudo/ assim tombado//Esse mesmo sangue cheirando/ ao sopro exausto de seu hálito calvo/ como sombra duma parede lisa/ onde foi fuzilado outro rebelde”.
Em 1948, em Cuiabá, ao lado de outros poetas, como Silva Freire, ele funda o movimento literário de vanguarda “Intensivismo”, trazendo em seu ideário fortes inovações formais que antecipam as tendências mais radicais da poesia visual e das artes plásticas dos anos 50 e 60. Wlademir volta para o Rio de Janeiro em 1952. Nessa década, edita e programa visualmente a Revista da União da Nacional dos Estudantes e participa dos movimentos de vanguarda política e cultural da época. Mas, mesmo distante, está sempre com um pé em Cuiabá, como ainda hoje.
De lá pra cá, é história já bem sabida, ou não: em 1958, o “vitrinista” Wlademir transforma com sua arte o Carnaval do Rio numa grande vitrine. Em 1962, escreve Antônio Olinto em sua coluna Porta de Livraria, no Globo:
“Há quatro anos, fez o poeta Wlademir Dias-Pino, para a então Prefeitura do Distrito Federal, uma série de desenhos concretos para a decoração de rua do Carnaval do Rio. Pela primeira vez em nossa história, entrou esse tipo de desenho em contato com o grande público. Os panos pintados por Wlademir acabaram sendo a inspiração dos carnavais seguintes, e a verdade é esta: não pode mais o carnaval do Rio voltar a ser figurativo, porque o povo se acostumou com os triângulos, os círculos, o tipo geral de desenho, enfim, de Wlademir Dias-Pino”.

Concretismo & SDJB


Um dos seis poetas-pioneiros do movimento da poesia concreta no Brasil (junto a Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e Ronaldo Azeredo), ele participa em 1956 da I Exposição Nacional de Arte Concreta em São Paulo, que chega ao Rio no ano seguinte.  Publica poemas e textos no SDJB-Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o grande veículo que acolheu o concretismo em suas páginas. Em 1967, Wlademir é um dos fundadores do Poema Processo, ao lado de Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, entre outros.
Em 17.02.1957, uma versão gráfico-visual do poema “A Ave” ocupa toda a terceira página do SDJB. Em 23.02.1958 publica no mesmo SDJB artigo intitulado “Da negação e positivação do espaço”, ilustrado por um fragmento em letras garrafais do poema “A Ave”.
Destaco alguns, vamos dizer, “aforismos” de seu texto:
“A arquitetura antes de ser parede é o buraco onde o homem mora. É a arte de organizar vazios”.
“O músculo da máquina é a exatidão, daí o ar abstrato das artes modernas. É como num poema concreto: é tal a sua movimentação interior (em si) que ele passa a ser um poema sem contorno”.
“Um poema escrito é antes de tudo visual e não sonoro – ele não é um instrumento musical. Não se há de confundir lira nem bandolim com um poema. A poesia é silenciosa”.
“A visão completa do poema faz com que ele perca a lógica linear, o tal contorno que é o máximo de continuidade de uma linha”.
“Poesia concreta é o aparecimento máximo dos recursos naturais da palavra, porém não é a palavra flexível e sim os seus movimentos de ligação. Por isso, a poesia concreta não ser confundida com trocadilho”.

ave vae


 Na entrevista que concedeu em 1977 ao Totem, realizada por Joaquim Branco, dizia Wlademir:
“Dentro da poesia concreta a poesia está ligada ao sentido de conteúdo. É importante: não pode existir o poético sem o conteúdo. O conteúdo é o mais importante no sentido de poesia, natural do poético. Agora, quando é o poema independe do conteúdo, quer dizer, o grafismo ou a forma de registro é mais importante do que o conteúdo”.
“O poema pode ser poético ou não, como um quadro pode ser bonito ou não. O poema independe do poético: a inscrição é mais importante que o conteúdo. Então ele está muito mais próximo do sentido de linguagem do que a poesia”.
“O que é importante dentro do poema passa a ser então o processo do poema. Na poesia, o que se lê é a estrutura, como foi estruturada a poesia”. 
“O que importa no poema é o processo que ele encerra. Você vê o processo. Daí a possibilidade da versão. Na poesia se faz tradução do poético. No poema, não. Não se permite uma tradução do poema, mas uma versão”.
Num de seus poemas nascidos ainda Cuiabá, Wlademir registra: “muro gradeado de fuzilaria/ encostado ao limite/ – represa social.// O muro é a tela para todo o poema”. Pound tinha razão: os poetas são as antenas da raça. Esse velho muro de Wlademir, num olhar de hoje, antecipador de uma cena pseudo-paulista, é mais que up-to-date: é o grafite que esplende na integridade de sua arte. 
Perdão Wlad, mesmo sabendo ser o poema visual e não sonoro, não resiste a falar trechos de “A Ave”, como na na abertura dessas minhas palavras. Menos ainda a dizer o poema que cometo a seguir, versão e fecho apressado de meu texto e de seu próprio poema.
                                               


                               
ave
                        vae
                                ave
                                ave voa
                                                 voar
                                é preciso
                        vae
                                é preciso
                                            ir
                                            vae vae
                                mirar
                                ir
                                ave wlad
                        vae
                                ave ave
                                       ave wlademir



Ronaldo Werneck
Cataguases, março 2017

13 de mar de 2017

R.FUSCO por R.WERNECK Sob o signo do imprevisto

      Meu livro “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck/Sob o signo do imprevisto” será lançado em Cataguases, no Centro Cultural Humberto Mauro, no próximo dia 18 de março, a partir de 19 horas, na noite de abertura da exposição “Verde 90 Anos (1927/2017), organizada por Joaquim Branco, P.J.Ribeiro e por mim. Vejam a seguir os textos de orelha e de apresentação do livro, escritos por Luiz Ruffato e Joaquim Branco.




Sob o signo do imprevisto

Luiz Ruffato


      O romancista, ensaísta e poeta Rosário Fusco (1910-1977) enquadra-se naquele limbo em que encontramos os escritores injustiçados da literatura brasileira. Nascido em São Geraldo (MG), mas levado aos seis meses de idade para Cataguases (MG), em vida Fusco chegou a ter sua importância reconhecida – o crítico Antonio Candido, em artigo intitulado “Surrealismo no Brasil”, publicado em 1945 no volume Brigada Ligeira, recomenda a leitura de O Agressor, chamando a atenção para a “habilidade com que é arquitetado e conduzido”. 
     O Agressor, lançado em 1943, tornou-se o mais afamado livro de Fusco – suas raras edições são hoje disputadas pelos leitores mais exigentes. Também aclamado é outro romance do autor, Carta à Noiva, de 1954, listado pelo ficcionista Ivan Angelo como um dos dez mais importantes da nossa história literária. Em boa hora, portanto, o poeta e cronista Ronaldo Werneck nos oferece este excelente Sob o signo do imprevisto.
   Werneck, que teve o privilégio de desfrutar a amizade de Fusco, não tenta compor uma biografia, que seria um retrato de corpo inteiro, mas sim nos brinda com recortes de momentos específicos, que, vistos em conjunto, formam um mosaico capaz de nos revelar a grandeza deste personagem intenso, polêmico e essencial. São lembranças, memórias, evocações e confissões com que Werneck, com sua enorme capacidade de fazer convergir objetividade e subjetividade no mesmo espaço textual, edifica um monumento em tributo a Rosário Fusco.
      O livro inclui ainda a longa e celebérrima entrevista de Fusco ao mitológico jornal Pasquim, em março de 1976, e um conto-homenagem – eu chamo de conto – de Ronaldo Werneck, “Ringo não discute: mata”, que exibe o talento do poeta para a ficção. Em suma: Sob o signo do imprevisto é um título para constar da biblioteca de todos aqueles que cultuam Rosário Fusco e admiram Ronaldo Werneck.
São Paulo, 05.02.2017




"Um Rosário vale três terços"
Joaquim Branco


          Ronaldo Werneck me pede para prefaciar o seu novo livro sobre Rosário Fusco.
       Difícil tarefa, porém tentadora. Impossível deixar de atender. Trata-se de dois grandes amigos (um, já falecido) e em relação aos amigos geralmente não se tem uma dimensão por assim dizer justa de avaliação.
         Por outro lado, nesse caso a empreitada torna-se até fácil. Vejam por quê.
       Não contando, anteriormente, meu conheci­mento de sua obra, convivi com Rosário Fusco por cerca de 10 anos em Cataguases, na sua casa da Granjaria, bairro onde hoje moro.
      Com Ronaldo, desde a infância, tive longa convivência, quando jogamos botão, bafo-bafo, bola, sinuca e, mais tarde, frequentamos escolas, criamos suplementos, antologias, festivais – quase tudo que se pode (e não se pode) esperar de jovens amigos.
         Com Fusco, aprendi o que a universidade não pode dar: o savoir faire literário, o que é um verda­deiro romancista, a coragem, o medo e o desafio da escritura: "com quantos paus de faz uma canoa esté­tica e existencial" (como ele dizia). De vez em quando, sempre pela manhã, bem cedo, me chamava a sua casa. "Abunde-se" – dizia ele. Eu me sentava e ouvia/via sua atuação teatral, abusiva, descentrada e centrada, quando à minha frente desfilava um mundo de literatura, filosofia, arte, ciência e tudo que saía de seu talento fulgurante. Outras vezes, pa­recia nostálgico, misterioso, com seu robe preto, a me receber de cabeça baixa, dostoievisquiano, monossi­lábico. Queria me confessar algo...
       Dividi muitas experiências com Ronaldo, vi­vemos os trepidantes anos 60 da contracultura e das vanguardas, os sonhos dos 20 anos, namoros e festas e farras etc.
          Daí mais do que justo que eu prefacie este seu livro feito de vivências do homem e escritor Rosário Fusco, pois é impossível separar os dois.
     O leitor que se prepare. Aqui conhecerá a (a)ventura imperdível de um romancista que excede o romance e extrapola todas os limites da criação li- terária – e por que não dizer? – humana? Além de farta documentação de uma história de vida, ilustra­ções com fotos, pedaços de poemas, de bilhetes, suas boutades, opiniões sobre outros artistas, onde tudo excede e quase nada se explica.
         O livro registra muito do que Ronaldo presen­ciou, leu e aprendeu – de detalhes pessoais a confis­sões "inconfessáveis", de reuniões noite adentro a tiradas criativas sobre a natureza dos homens e a es­pecificidade das mulheres.
          Portanto, este trabalho de Ronaldo Werneck, que pode ser o pórtico para uma futura biografia do autor (fica a sugestão), vai direto à curiosidade do leitor, que certamente gostará de conhecer algo mais sobre esse "vulcão das gerais" e que, em tom de brin­cadeira, disse certa vez para nós: "Um Rosário vale três terços".

Cataguases, 02/02/2017



Revista VERDE
Expô 90 ANOS



 “Sou de Cataguases, cidadezinha pacata de Minas Gerais, e venho trazer a notícia de que fundamos uma revista moderna aqui. Verde é o nome da baita" – escrevia em 1927 o rapazote Rosário Fusco (17 anos recém-completados) ao escritor Mário de Andrade, um dos expoentes do nosso modernismo literário. Pois é exatamente uma baita exposição a que vai comemorar no próximo dia 18 de março, no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases, os 90 anos do lançamento da revista Verde – o principal baluarte do modernismo no interior de Minas e que, com colaborações recebidas de escritores de vários pontos do país, ajudou a disseminar o movimento Brasil afora.
Organizada pelos poetas Joaquim Branco, Ronaldo Werneck e P.J. Ribeiro, fundadores do Totem, grupo de vanguarda surgido em Cataguases nos anos 1960 – que conviveram e se tornaram amigos de vários dos integrantes da Verde –, a mostra VERDE 90 ANOS é composta por imagens & textos sobre a revista lançada em Cataguases no ano de 1927. Na noite de abertura, a partir de 19 horas, haverá um sarau com poemas dos integrantes da revista pela equipe do Proler e o lançamento de dois livros: “Uma Verde História”, de Fernando Abritta & Joaquim Branco; e “Rosário Fusco por Ronaldo Werneck: Sob o signo do imprevisto”.

Revista Verde
Por que enredos da Providência Divina foi nascer, à beira de um riacho chamado Meia-Pataca, um grupo de poetas interessantes que hão de deixar uma certa marca no momento poético que estamos vivendo?” – perguntava-se o respeitado crítico Tristão de Athayde n´O Jornal, do Rio de Janeiro, em 1928, ao escrever sobre a revista Verde, lançada no ano anterior em Cataguases.
Verde tirou seis edições: as cinco primeiras em 1927; uma em 1928; e a última em 1929, toda dedicada a Ascânio Lopes, o principal poeta do grupo, que acabara de falecer, aos 22 anos. O primeiro número publicava apenas escritores mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura etc – e entre eles os rapazes da cidade, núcleo de resistência da Verde e fundadores da revista: Ascânio Lopes, Cristóphoro Fonte-Boa, Camilo Soares, Enrique de Resende (o mais velho, então com 28 anos), Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino Cesar, Martins Mendes, Oswaldo Abritta e Rosário Fusco, o mais novo deles, com 17 anos.
Já a partir do segundo número, vieram colaborações de escritores dos quatro cantos do país e até do exterior. Principalmente dos modernistas de São Paulo, capitaneados por Mário e Oswald de Andrade, que chegaram mesmo a escrever poema famoso dedicado aos rapazes da Verde, publicado no quarto número da revista, onde diziam: “Todos nós somos rapazes/ muito capazes/ de ir ver/ de forde verde/ os ases de Cataguases”.
No terceiro número da Verde é publicado um “abusado” manifesto, que ficaria famoso e que pode ser resumido nos seguintes itens:

1.º Trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.
2.º Temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.
3.º Nossos processos literários são perfeitamente definidos.
4.º Somos objetivistas, embora diversíssimos uns dos outros.
5.º Não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e o modo literário de outras rodas.
6.º Queremos deixar bem frisada a nossa independência no sentido “escolástico”.
7.º Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.

Lançamentos, sarau, bate-papo
Além do lançamento dos livros de Joaquim Branco e Ronaldo Werneck e do sarau com poemas dos integrantes da revista, a exposição VERDE 90 ANOS vai mostrar fotos individuais e em grupos dos membros do movimento, de várias situações em casa, com a família, as capas das revistas e livros, os textos mais representativos, os logotipos criados por Rosário Fusco, desenhos e caricaturas, e as biografias resumidas de cada um dos “Verdes”. Haverá também um bate-papo com os organizadores, aberto a perguntas do público.
Em 1928, no nº 5 da Verde, ao escrever sobre o reconhecimento em âmbito nacional da revista, dizia entusiasmado o poeta paulista Ribeiro Couto: “Todo o Brasil está surpreso: existe Cataguases! (...) Todo mundo foi ao mapa, roçou o dedo pela superfície, procurando, apertando os olhos, até achar: Cataguases”.
Então, que o público de agora aperte bem os olhos e roce os dedos no googlemap até achar: Cataguases. E que venha ver a mostra VERDE 90 ANOS.
Agradecemos a divulgação.

Joaquim Branco
joaquimb@gmail.com
(32) 98888-2344 e (32)3421-8280

Ronaldo Werneck
roneck@ronaldowerneck.com.br

(32) 98819-0955 e (32) 3422-2671