9 de set. de 2015

4 - Fernet Branca/ Vermelho Cais




No link a seguir o áudio completo de Vermelho Cais no cd

“Dentro & Fora da Melodia”


O terceiro porre negro Werneck/Vieira começou naquela tarde de 1979 em que cheguei a Roma vindo de Argel. E bebendo durante todo o voo. Na época, voar pela Alitália era como trafegar num mercado persa: as aeromoças vendiam de tudo e mais um pouco – e uísque é o que não faltava. Detalhe: estava há cerca de 40 dias na Argélia, a pão e água. Perdão, a pão com poulet (sanduíche de galinha), quase a única coisa que comia, pois não conseguia encarar (literalmente) o boureck (batatas com atum), o kebab (frango com fritas) e outras, vamos dizer, “guloseimas” da gastronomia argelina.
O couscus marocain (tradicional também na Argélia), então, nem se fala: era só bater o olho para eu “desencarar” de imediato. Ficava mesmo no pão com poulet, que descia assim-assim com cerveja Nouas – nome de um poeta argelino que só poetava devidamente embriagado. Nouas quente, é claro: o calor era Rio 40º, mas os árabes colocavam a cerveja em cima da geladeira, nunca dentro, vá entender. Às vezes, no cardápio do hotel, aparecia uma massa, regada a Peau d´Oignon, um vinho argelino bem razoável. Mas nada de destilados: estávamos em pleno Ramadán. Então, o uísque “que se me faltou” em Argel, veio a calhar no voo da Alitália. 

No aeroporto de Fiumicino esperavam-me a Adriana, minha mulher na época, que acabara de chegar do Brasil, e nossa amiga, a aeromoça italiana Paola, recém-separada do Afonsinho. Ele estava fazendo show na Alemanha, e só voltaria a Roma no dia seguinte. Dormimos na casa da Paola, nas proximidades de Fiumicino, e no outro dia fomos pra Roma, onde nos encontramos com Afonsinho. Nós não nos víamos há uns bons cinco anos, ou mais. Como eu queria cortar cabelo, ele levou-me a um barbeiro seu amigo, nas vizinhanças de Viale di Villa Pamphili, onde iríamos ficar, no apartamento onde ele havia morado com a Paola. Foi quando começamos a beber num bar ao lado, enquanto eu esperava a vez no barbeiro.  A beber e conversar e a conversar e beber e quase nos esquecemos do barbiere  – que acabou fazendo um corte sem dor, mesmo porque eu já estava devidamente anestesiado: nossos copos adentraram conosco a barbearia. 
Vai daí que a noite veio e quando a noite vem, vem a saudade, vocês bem sabem. E nós dois resolvemos ir pro apartamento onde o Afonsinho estava morando: ele queria me mostrar umas gravações que andara fazendo com grupos de jazz europeus. Telefonamos pras “respectivas” e ficamos de nos encontrar com elas só no outro dia, apesar dos protestos. Imagina! Não via minha mulher há 40 dias, é certo; mas também não via meu amigo há cinco anos.  Certo? Chi lo sà? Pegamos outra garrafa de uísque e fomos pro apartamento do Afonsinho, onde ouvimos suas gravações, e vários outros discos de jazz.
Ele falou-me daqueles anos em Roma, de shows na RAI, muitas vezes apresentados pelo literalmente grande Vittorio Gassman, de um programa sobre música brasileira, ao lado de nossa ídala, a não menos Lea Massari, por nós adorada desde que vimos L´Avventura, do Antonioni, e Le Souflle au coeur, do Louis Malle.  De quebra, contou-me de uma colazione, um café da manhã, com ninguém menos que Sophia Loren, no pallazo onde ela morava na Piazza Navona. É que Afonsinho tocou durante um tempo com o pianista Romano Mussolini (filho do próprio), que era casado com a irmã da Sophia. Pois é, daí “o porquê” da colazione na casa de La Loren. De repente, Afonsinho tirou da estante meu livro “Selva Selvaggia”, que eu lhe enviara três anos antes, e onde havia aquele poema que fiz pra ele, “Bilhete pra Roma”. Leu o poema, devidamente emocionado, nós dois afogados em talagadas de uísque e baforadas de cigarros.
Depois, Afonsinho falou-me da gravação que fizera com Gato Barbiere para a trilha sonora do filme “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci. Algumas semanas à frente, eu veria em Paris o “Tango” de Bertolucci (na época, proibido no Brasil) num cineminha praticamente vazio do Chatêlet (o filme, de 1972, estava há anos em cartaz). Foi quando lembrei-me  da letra que o próprio Gato Barbiere fizera para a canção-tema do filme, que acabou não aparecendo no corte final, onde ela surge apenas instrumental: “We don't exist/ We are nothing but shadow and mist/ In the mirror we look as we pass/ No reflection's revealed in the glass”. Nada somos, só sombra e névoa, Pois é, eu e Afonsinho já estávamos devidamente enevoados por névoas e névoas de nada, de nada mais que toneladas de uísque caubói enquanto a noite se esvaía.
Quando vimos, estava amanhecendo. Saímos rumo ao Trastevere, que nós também temos direito à nossa colazione. Afonsinho encarou um tramezzino, mas meu estômago não estava pra sanduíches e lembrei-me que, no Brasil, costumava curar minhas ressacas com uma dose de Fernet e um chope. O amargo do Fernet me parecia “medicinal” – e não era? Mas, às vezes funcionava. No terceiro chope com Fernet já estava aprumado pra enfrentar o dia. Foi só falar em Fernet que o Afonsinho me disse que eu ia beber então o melhor Fernet do mundo, o Fernet Branca, o preferido do Chico Buarque quando estava em Roma, onde, entre outras coisas, gravou Per um pugno di samba – disco que acabáramos de ouvir no apartamento, com il bambino Affonso, o próprio, na bateria.

Fernet Branca é o seguinte: não dá pra tomar uma dose só. Na quarta, ou quinta, tomamos coragem e – facciamo un giro sul Trastevere – nós dois a girar, devidamente girados, Trastevere afora. Foi quando, dessas coisas que só aconteciam com a gente, demos de cara com as madames: Adriana e Paola também andavam por ali, a fazer a feira matinal, e quase trombam com a gente. Foi bronca pra lá, bronca pra cá. Fernet Branca pra lá, Fernet Branca pra cá nos dois “irresponsáveis”. Começou mal nosso giro europeu, a cabeça a girar, a girar.


 girar, a girar está aqui ainda agora o meu cd “Dentro & Fora da Melodia”, com o solo mais que grandioso de Afonsinho na música “Vermelho Cais”, única parceria nossa. A canção pode ser ouvida na voz de Maria Júlia no nicho “Trabalhos/Canções” do meu site www.ronaldowerneck.com.br. Ali, meu amigo ataca até de voz & berimbau: não por acaso na faixa “Berimbau”, de Baden & Vinicius. De onde surgiu “Vermelho Cais”? Nós dois gostávamos muito de Take Five, um dos clássicos do jazz, composição escrita por Paul Desmond e apresentada de forma magistral pelo quarteto de Dave Brubeck no álbum Time Out, de 1959, com um belo solo de bateria de Joe Morello e aquele inusitado compasso 5/4.
Para alguns, vem daí o nome da composição, desse estranho compasso. Mas há controvérsias: outros atribuem o “take five” a dar um tempo de descanso, parar a gravação por uns cinco minutos;  outros ainda a reservar uns minutinhos de atenção que seja ao que o outro está dizendo. Time out foi, aliás, um dos discos que eu e Afonsinho ouvimos mais de uma vez naquela noite romana. E também ouvimos uma outra versão de Take Five, com o mesmo Brubeck Quartet e a voz de Carmen McRae: Won't you stop and take/ A little time out with me/ Just take five/  Stop your busy day/ And take the time out/ To see - I'm alive// Wouldn't it be better not to be so polite, you could offer a light;/ Start a little conversation now, it's alright, just take five / just take five”.

Ainda em Roma, Afonsinho escreveu uma composição, “Casinha Pequenina” – gravada pelo trio formado por ele, mais Alessio Urso, no baixo e Írio de Paula, na guitarra – cujo tema, não sei bem o porquê, sempre me remeteu ao Take Five. Pois é, “reservar uns minutinhos de atenção que seja ao que o outro está dizendo”. Acredito haver nas duas músicas uma atmosfera que as aproxima. Já no Brasil, década de 1990, eu coloquei letra em trechos da música do Afonsinho, que acabou se transformando em nossa canção “Vermelho Cais”, defendida por minha amiga Neti Szpilman num Festival de Música aqui em Cataguases, em 1993, com Marco Carvalho na guitarra e meu amigo como sempre arrasando na batera. Não era nem bem uma “letra”, mas palavras soltas, lançadas na melodia em contraponto ao tema: “sol/sal/cais/caos”, “voz/que já partiu/ não volta mais/paixão fugaz/ gás do amor se esvai/ vai, coração/vermelho cais”. Ouvindo agora, e “novamente de novo”, vejo que tem a ver com isso tudo que aconteceu com meu amigo e sua voz que já partiu e não volta mais.

Continua na próxima semana

Um comentário:

Anônimo disse...

Sarava, sêu Afonsinho!
Poizé... o Brasil ta assim...
* Marionetes do Sistema
As cordas, que prendem os marionetes,
Tais caminhos do sangue até o coração,
São veias que servem aos poetas
Nas estradas tortuosas da razão.
São continuos tuneis obscuros,
Onde a clarividência da vida anuncia
Veras historias além de quaisquer muros,
Que ultrapassam o limiar dos nossos dias.
... é o marionete locutor de leis do mundo.
Um traste imundo manejado por sistemas,
Reviravoltas que se impõem a alguns poemas.
Pensando bem... é um poço não profundo,
Sem sutilezas, sem bordas, ou sem fundo...
Um vivo-morto mal perdido em teoremas.
*** Heitor de Pedra Azul - Saint Julien les Villas, 19/01/2009
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