24 de abr de 2017

MOSTRA IMAGÉTICA NO CCBB Poesia Visual Contemporânea Mesa-redonda 15 MARÇO 2017


O olhar de Wlademir Dias-Pino
Ronaldo Werneck



        ave
        ave ave
        ave ave ave
ave voo
        voo
        voo ave
        voo ave ave
        voo ave ave ave
 ave vae

         vae




A importância de 1956 para a história da literatura brasileira pode ser registrada mediante três episódios capitais: o lançamento da poesia concreta, a publicação de Grande sertão: Veredas e o surgimento de A ave, de Wlademir Dias-Pino, livro que se liga(va) às virtualidades gráficas e verbo-visuais do concretismo, mas que apontava para um desdobrar novo nas aventuras composicionais da própria poesia concreta.
Moacy Cirne in Revista Vozes, 1972



Ex-FACHA/Ex-CCBB
Entre os anos 1990 e 1995, fui Assessor de Imprensa e Editor de Textos do CCBB – e para mim não deixa de ser emocionante participar, depois de mais de 20 anos, de um evento neste belo prédio que eu tanto conheço. Principalmente por também se tratar de um projeto promovido pela FACHA, faculdade onde estudei jornalismo na década de 1970.  
Quando aqui trabalhei, havia um poeta barbudo e de longos cabelos à la hippie, um quase demiurgo, que resolveu montar ”seu escritório” ali nas escadas do Foyer, ao lado do Teatro I. De repente, para espanto da direção do CCBB, ele passou a ter vários seguidores, quase diria epígonos.
Um dia sentei-me ao seu lado na escada e ele me disse chamar-se “Ex-Kosta K”.  Não simplesmente Kosta K, mas “Ex-Kosta K”. Uma negação que se transforma e afirma. E firma e se reafirma formidável. Para surpresa minha, ele falava de Maiakóvski, Concretismo, Poema Processo. Ficamos amigos e quase-quase também virei um de seus epígonos. Nunca mais o vi, nunca mais o esqueci. Também, pudera, o “Ex-Kosta K” era primeiro e único. Agora e então, aqui e agora, sou eu quem percebo ter também me transformado em Ex. Ex-FACHA, Ex-CCBB, Ex-Roneck.
Para esta mesa-redonda – com a presença do poeta Sady Bianchin, professor de artes da Facha-Faculdades Integradas Hélio Alonso, e criador de “Um Rio de Versos”, agora em sua nona edição; do poeta Tchello d´Barros, curador da mostra Imagética; e de Regina Pouchain, poeta e artista visual – fui designado a dizer algumas palavras sobre um dos pioneiros do poema visual e meu amigo de longa data, o poeta Wlademir Dias-Pino, que se encontra aqui ao meu lado,

Wlademir Infinito  
Aos 90 anos, Wlademir é finalmente reconhecido como o enorme poeta e artista plástico que é, o que vem acontecendo desde sua grande exposição “O Poema Infinito”, que no ano passado ocupou todo um andar do MAR, o Museu de Arte do Rio, e pelo Prêmio Faz Diferença 2016, recebido do jornal O Globo na categoria artes plásticas.
A exposição no MAR tomou como eixo central quatro poemas: “O dia da cidade”, “Ave”, “Solida” e “Numéricos”. Visando ampliar a experiência sensorial dos trabalhos, esses livros-poemas foram transformados em grandes instalações magnéticas, nas quais os elementos eram construídos e rearranjados pelos visitantes.


    Outro destaque foi a Enciclopédia Visual Brasileira, na qual o artista vem trabalhando nas últimas duas décadas. Composto por 1001 volumes, o trabalho pretende apresentar, por meio de pranchas resultantes da montagem alegórica de referências culturais diversas, a história da construção da imagem no mundo.
       Falar em mundo, Wlademir é um mundo habitado pelo pensador visual que traz dentro de si. Um artista multifário: vitrinista, tipógrafo, designer gráfico, poeta-professor, poeta-inventor, na classificação de Ezra Pound. Para Antonio Houaiss, “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil". Para o crítico Assis Brasil, “Wlademir Dias-Pino é o poeta mais independente na área da poesia experimental”.
      Então, dada a grandeza da tarefa, e se me permitis, permitir-me-ei ler (como já venho fazendo, e com as velhas mesóclises ora em voga) algumas palavras minhas, de outros, e até do próprio poeta e de seu pensar sobre os caminhos do poema.
Mas antes vamos a uma pequena digressão, que tem a ver com o Poema Processo, movimento que ele fundou ao lado dos poetas  Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, seus maiores expoentes.

Libertarde
Meu poema “Libertarde”, que está exposto aqui, na mostra Imagética, foi realizado neste prédio há cerca de 50 anos. Eu trabalhava na Supla, a Superintendência de Planejamento do BB, no terceiro andar. Eram tempos da repressão, embora menos severa do que a que viria no ano seguinte, com o AI-5. Num intervalo do trabalho, comecei a pensar na bandeira de Minas, naquele “Libertas quae sera tamen” envolvendo o triângulo vermelho.


Troquei o dito em Latim (que o poeta-menino Vinicius de Moraes lia como “Libertas que será também”, e nada entendia) por um círculo envolvendo um pequeno triângulo. Aos poucos, o triângulo crescia e já tangenciava o círculo e logo dava o que na minha desvairada cabeça seria um dialético salto qualitativo – até que cercasse o círculo, ultrapassasse totalmente a “prisão” por ele representada. O título “Libertarde” surgiu da junção do “Liberdade” com o “ainda que tardia”.
Wlademir Dias-Pino com a palavra: “Programas que visem a tornar o computador cada vez mais capaz de produzir pinturas, desenhos, sinfonias e textos (aleatórios ou figurativos), reduzem as próprias possibilidades que a eletrônica oferece na pesquisa de vanguarda. É a tentativa de igualar (substituir de modo snob) o computador ao pincel, ao lápis, ao piano e ao dicionário. O uso contínuo de um instrumento torna-o extensão do homem: ´o lápis é a ponta grafitada de seu dedo´. Daí a individualidade do desenho”.
Interessante registrar que “Libertarde” foi inicialmente produzido em minha mesa de trabalho, com o auxílio de uma moeda (de onde saiu o círculo), um lápis (olha o lápis do Wlademir aí!) e o livro de instruções circulares do BB, que me ajudou a traçar o triângulo. Mais que uma época pré-digital, aquele foi um momento sem régua ou compasso. Aliás, se a Bahia deu a Gil régua e compasso, o Banco do Brasil pouco me ofereceu para a realização do poema, fora o livro-esquadro. Bem, na verdade esta não é certamente função de bancos.
Era realmente um tempo pioneiro, artesanal. O poema foi publicado pela primeira vez em livro, em 1972 na obra “Processo: Linguagem e Comunicação”, do próprio Wlademir. No ano seguinte, sairia no Jornal da Poesia, no Caderno B, editado por Affonso Romano de SantAnna, com direito a chamada de capa no então poderoso Jornal do Brasil. Logo, seguiria mundo, publicado em jornais, livros e revista, daqui e do exterior. Já neste século, a poeta e designer Regina Pouchain – que nos honra com sua presença nesta mesa – faria ótimas releituras cromáticas de “Libertarde” e de outros de meus poemas visuais, que podem ser vistas na seção “Trabalhos/Poemas Visuais” de meu site www.ronaldowerneck.com.br. Wlademir não diria “releituras”, mas “versões”. Isso porque, para ele, a versão é criativa: “Eu pego o poema inaugural de um cidadão e faço uma versão. O que eu fiz foi acrescer a minha experiência à conquista daquele poeta”.

Um olhar pra algo além


Pois é, já lá se vão 50 anos. A primeira vez em que vi Wlademir Dias-Pino, foi aí por volta de 1967, não sei bem se em Cataguases, na Mata Mineira, em casa do poeta Joaquim Branco (onde ele concederia em 1977 longa entrevista sobre os rumos da poesia visual para o Totem, jornal que então editávamos em conjunto). Ou, quem sabe, no Rio, em Santa Teresa, numa reunião na casa dos poetas Neide e Álvaro de Sá, já no início dos anos 1970. Ali, onde sempre ao lado de outros companheiros, como o poeta-professor Moacy Cirne, tentávamos estruturar os rumos do Poema Processo. Não sei bem se lá ou cá, mas o importante é que nunca me esqueci do olhar de Wlademir.
Ele nunca nos olhava diretamente, mas sempre enviesado, como se buscasse o infinito. “Quem olha é responsável pelo que vê”, ele nos dizia na entrevista para o Totem, Um olhar pra além, pra algo além. Futuro ou coisa que fosse. Esse olhar assim desencontrado de Wlademir Dias -Pino é tudo o que eu captaria mais tarde como definição do que fosse, seja ou é o que entendemos, ou não, sobre poesia visual. Que eu prefiro chamar de “poema visual”, já que poema é uma coisa, poesia outra. Poema é veículo, poesia reta de chegada.

A vida no meio gráfico
Um rápido flashback sobre a trajetória e o próprio nascimento de Wlademir Dias Pino já nos deixa dúvidas logo de início. É certo que o poeta nasceu em 1927 no Rio (Rua Pareto, na Tijuca). Mas em que mês? Fala-se em fevereiro, mas há registros de abril, outros de maio. Ainda bem que ele está aqui e pode nos dizer a data certa: afinal, já foi comemorado ou ainda vamos comemorar os seus 90 anos?
No Rio dos anos 1930, Luciano Pino, o pai de Wlademir, é militante comunista, jornalista e trabalha como tipógrafo na Imprensa Nacional. Figura marcante em sua formação, sua mãe, Laura, é quem ensina o filho a ler e a escrever. O método didático da mãe é recortar com tesoura palavras dos jornais editados pelo próprio marido. Esse sistema de recorte de palavras e formas é mantido durante toda a vida do poeta, sendo a tesoura o instrumento de realização de várias de suas obras.

Na primeira infância, Wlademir brinca com os tipos gráficos de chumbo: “Vivi no meio gráfico, comecei a lidar com o tipo desde muito cedo e ficou aquele amor pela forma das letras. Convivendo com o alfabeto desde a tenra infância, um dia conclui que a maior arbitrariedade existente na cultura humana é a imposição do código alfabético”.
Em 1937, por razões políticas, Luciano, é forçado a transferir-se com a família para Mato Grosso. Wlademir chega a Cuiabá com 10 anos e lá permanecerá até os 24. Nesse período, costumava ler vorazmente os clássicos na biblioteca pública da cidade. Seu pai foi responsável pela renovação gráfica da imprensa de Mato Grosso e, como jornalista e comentarista, também produzia crítica de cinema e ensaios sobre a vida social. Nessa época, Luciano conhece o poeta Manoel de Barros que vai até sua casa para entregar um exemplar de seu primeiro livro. A visita do jovem poeta mato-grossense marca o pequeno Wlademir que, anos mais tarde, seria um dos responsáveis pelo início da divulgação de sua obra.

“Os Corcundas”: Augusto e Philadelpho
Em 1938, com apenas 11 anos, já escrevia livros de poemas. Sem seu consentimento e em segredo, um dia seu pai, que administrava uma gráfica, publica um livro seu, que retira de um conjunto de manuscritos. Extremamente tímido, quando vê a edição Wlademir revolta-se e coloca fogo nos livros. Alguns exemplares são salvos.
Coincidência ou não, em 1967, para grande espanto dos transeuntes e de tutti quanti, os poetas do movimento do Poema Processo, Wlademir, Álvaro, Neide e Moacyr Cirne à frente, queimam livros de poetas consagrados na Cinelândia. “Espantar pela radicalidade” era seu slogan, a palavra de ordem.
Em 1939, “Os corcundas”, seu primeiro livro conhecido, é impresso por seu pai, agora com sua concordância, como atesta o cólofon na contracapa do único exemplar existente desta edição. Wlademir ainda não completara 12 anos de idade. O universo grotesco dos personagens do poema foi inspirado, segundo ele, na commedia dell'arte, que sua avó apresentava aos netos, além de “forçá-los” a ouvir ópera e ler peças de teatro. 


“Os corcundas e suas deformações linguísticas./ O avesso do muro por toda a parte, o inverso./ Nuvens beliscando o perfil das coisas/ Trapézio com seus dentes catando // arreiam seus olhos e como doadores de sangue/ se nivelam e dormem/ aos pés dos cogumelos/ (ficando suas sombras)/ em ângulos retos borrados/ sobre seus travesseiros de lilases/ macios como o tato/ (cabelos invisíveis)// e a nuvem que desce forma uma jaula/ de manequins tombados”.
“Os corcundas” foi reimpresso em 1954, passando essa data a aparecer equivocadamente como a data em que foi escrito. Nas décadas de 1950 e 1960, a obra é objeto de análises críticas em jornais e publicações nacionais. Em nenhuma delas é apontado o fato absolutamente extraordinário, então desconhecido, de Wlademir tê-la escrito enquanto ainda era criança, e o trabalho é tratado por toda a crítica como obra adulta e plena, precursora formal de sua surpreendente originalidade e capacidade inventiva.
Em 1956, escrevia o poeta Augusto de Campos no Suplemento do Estadão: “A rebeldia de Wlademir se manifesta ainda, ao nível semântico, pela dessacralização do “poético”, através de um sistemático “culto do feio” ou do “mau gosto” em ‘Os Corcundas’, onde ocorre a intromissão de um vocabulário rejeitado em poesia e que pela constante reiteração chega a ser, mais do que prosaico, propositadamente incômodo e perturbador. Nesse monturo de dejetos verbais Wlademir trata de revolver e perseguir uma espécie de fenomenologia do indizível poético, para chegar ao fim das calvas coisas. Ao mesmo tempo sente-se nele a consciência existencial da solidão e da alienação do poeta no mundo moderno".
E também o crítico e poeta Philadelpho Menezes, em seu livro Roteiro de literatura: poesia concreta e visual: "Entre o muito que foi soterrado na história da poesia concreta, há que se dar um destaque especial para o poeta Wlademir Dias-Pino. Em livros como ‘Os corcundas’, do final da década de 1940, (sic) Dias-Pino mostra uma poesia incomum para os padrões brasileiros. Com imagens estranhas, associações imprevisíveis, um vocabulário rebuscado colocado numa sintaxe toda desconjuntada, sua poesia em verso é surpreendente e pede uma reedição cuidadosa. Em ‘Os corcundas’, o tema é a deformação física. Mas a deformação não fica só no tema. Ela invade a própria linguagem, entorta a sintaxe das frases, põe vocábulos antipoéticos nos versos, deforma as palavras".

“A fome dos lados” & “Intensivismo”


 Em “A fome dos lados”, de 1940, Wlademir, com apenas 13 anos, descreve o impacto de ver o corpo de um amigo do pai torturado e assassinado pela polícia de Filinto Müller na ditadura Vargas:” Aqui está a mancha do assassinado/ livre agora era bom e é livre/ sua mancha horizontal e leve/ como são leves as coisas horizontais// Eis o morto livre/ raso e vazio/ em seu ninho de sangue calvo/ (calvo como a bala de fuzil)/ sangue que é escudo/ assim tombado//Esse mesmo sangue cheirando/ ao sopro exausto de seu hálito calvo/ como sombra duma parede lisa/ onde foi fuzilado outro rebelde”.
Em 1948, em Cuiabá, ao lado de outros poetas, como Silva Freire, ele funda o movimento literário de vanguarda “Intensivismo”, trazendo em seu ideário fortes inovações formais que antecipam as tendências mais radicais da poesia visual e das artes plásticas dos anos 50 e 60. Wlademir volta para o Rio de Janeiro em 1952. Nessa década, edita e programa visualmente a Revista da União da Nacional dos Estudantes e participa dos movimentos de vanguarda política e cultural da época. Mas, mesmo distante, está sempre com um pé em Cuiabá, como ainda hoje.
De lá pra cá, é história já bem sabida, ou não: em 1958, o “vitrinista” Wlademir transforma com sua arte o Carnaval do Rio numa grande vitrine. Em 1962, escreve Antônio Olinto em sua coluna Porta de Livraria, no Globo:
“Há quatro anos, fez o poeta Wlademir Dias-Pino, para a então Prefeitura do Distrito Federal, uma série de desenhos concretos para a decoração de rua do Carnaval do Rio. Pela primeira vez em nossa história, entrou esse tipo de desenho em contato com o grande público. Os panos pintados por Wlademir acabaram sendo a inspiração dos carnavais seguintes, e a verdade é esta: não pode mais o carnaval do Rio voltar a ser figurativo, porque o povo se acostumou com os triângulos, os círculos, o tipo geral de desenho, enfim, de Wlademir Dias-Pino”.

Concretismo & SDJB


Um dos seis poetas-pioneiros do movimento da poesia concreta no Brasil (junto a Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e Ronaldo Azeredo), ele participa em 1956 da I Exposição Nacional de Arte Concreta em São Paulo, que chega ao Rio no ano seguinte.  Publica poemas e textos no SDJB-Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o grande veículo que acolheu o concretismo em suas páginas. Em 1967, Wlademir é um dos fundadores do Poema Processo, ao lado de Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, entre outros.
Em 17.02.1957, uma versão gráfico-visual do poema “A Ave” ocupa toda a terceira página do SDJB. Em 23.02.1958 publica no mesmo SDJB artigo intitulado “Da negação e positivação do espaço”, ilustrado por um fragmento em letras garrafais do poema “A Ave”.
Destaco alguns, vamos dizer, “aforismos” de seu texto:
“A arquitetura antes de ser parede é o buraco onde o homem mora. É a arte de organizar vazios”.
“O músculo da máquina é a exatidão, daí o ar abstrato das artes modernas. É como num poema concreto: é tal a sua movimentação interior (em si) que ele passa a ser um poema sem contorno”.
“Um poema escrito é antes de tudo visual e não sonoro – ele não é um instrumento musical. Não se há de confundir lira nem bandolim com um poema. A poesia é silenciosa”.
“A visão completa do poema faz com que ele perca a lógica linear, o tal contorno que é o máximo de continuidade de uma linha”.
“Poesia concreta é o aparecimento máximo dos recursos naturais da palavra, porém não é a palavra flexível e sim os seus movimentos de ligação. Por isso, a poesia concreta não ser confundida com trocadilho”.

ave vae


 Na entrevista que concedeu em 1977 ao Totem, realizada por Joaquim Branco, dizia Wlademir:
“Dentro da poesia concreta a poesia está ligada ao sentido de conteúdo. É importante: não pode existir o poético sem o conteúdo. O conteúdo é o mais importante no sentido de poesia, natural do poético. Agora, quando é o poema independe do conteúdo, quer dizer, o grafismo ou a forma de registro é mais importante do que o conteúdo”.
“O poema pode ser poético ou não, como um quadro pode ser bonito ou não. O poema independe do poético: a inscrição é mais importante que o conteúdo. Então ele está muito mais próximo do sentido de linguagem do que a poesia”.
“O que é importante dentro do poema passa a ser então o processo do poema. Na poesia, o que se lê é a estrutura, como foi estruturada a poesia”. 
“O que importa no poema é o processo que ele encerra. Você vê o processo. Daí a possibilidade da versão. Na poesia se faz tradução do poético. No poema, não. Não se permite uma tradução do poema, mas uma versão”.
Num de seus poemas nascidos ainda Cuiabá, Wlademir registra: “muro gradeado de fuzilaria/ encostado ao limite/ – represa social.// O muro é a tela para todo o poema”. Pound tinha razão: os poetas são as antenas da raça. Esse velho muro de Wlademir, num olhar de hoje, antecipador de uma cena pseudo-paulista, é mais que up-to-date: é o grafite que esplende na integridade de sua arte. 
Perdão Wlad, mesmo sabendo ser o poema visual e não sonoro, não resiste a falar trechos de “A Ave”, como na na abertura dessas minhas palavras. Menos ainda a dizer o poema que cometo a seguir, versão e fecho apressado de meu texto e de seu próprio poema.
                                               


                               
ave
                        vae
                                ave
                                ave voa
                                                 voar
                                é preciso
                        vae
                                é preciso
                                            ir
                                            vae vae
                                mirar
                                ir
                                ave wlad
                        vae
                                ave ave
                                       ave wlademir



Ronaldo Werneck
Cataguases, março 2017

2 comentários:

Mauricio Rosa disse...

Parabéns Ronaldo, adorei o trabalho do Wlademir Dias. Precioso este texto sobre sua trajetória. Grato.
Maurício Rosa

Fernando Abritta disse...

Ave, RW.
Voei no teu texto q nem ave
Vou agora
pousar
pensar apenso
neste voo
Ave ruminando
lavras & palavras