26 de mar. de 2024

FERLINGHETTI & CITY LIGHTS


 

Ulla me liga da Califórnia: “Papi, estou em San Francisco. O que você quer daqui?”.  “De San Francisco? Bem, querida, vamos dizer... uma foto sua com a Golden Gate Bridge ao fundo. Você bem sabe como o papai adora pontes: a Ponte Velha daqui, sobre o Pomba; a Ponte Vecchio sobre o Arno em Florença; as do Porto sobre o Douro em Portugal; e até a do poeta Sá-Carneiro, aquele “qualquer coisa de intermédio”, aquele “pilar da ponte do tédio”. 



“De San Francisco?” – volto a repetir. “Fora a Golden Gate, não deixe de visitar a livraria fundada por Lawrence Ferlinghetti, um de meus poetas preferidos, a City Lights Books”. No outro dia, Ulla de novo: “Papi, estou na City Lights, maravilhada, que bela livraria! Praticamente um andar só de poesia (vejam acima o vídeo que Ulla fez na livraria). Qual livro do Ferlinghetti você quer de presente?” – Algum de seus livros de poemas, Ulla. Menos A Coney Island of the Mind, que já li e tresli.

     Autêntica MP, de um só jato (palavra certa) Ulla deixa San Francisco e já está no Canadá. MP? Sim, “Mala Pronta”, pois ela curte mesmo é viajar, que nem nossa prima Regina – essa sim, a reconhecida e internacional rainha das MPs. E logo Ulla me liga do Panamá. “Do Panamá? Mas o que você está fazendo aí, minha filha?” “Meu voo de volta faria uma conexão aqui, mas houve um problema e vou ter que dormir no Panamá, pois só voo amanhã.  O que você quer do Panamá, papi?” Brinquei com ela: “Vai ver o Canal, e já que não há ponte à vista me traga um chapéu, pois ninguém sai daí sem trazer um dos famosos chapéus do Panamá. 


Dias depois, meus filhos Ulla e Pablo e minha nora Juliana chegam para o fim de semana aqui no Shangrilá. Surpresa: Ulla não só me trouxe dois livros de Ferlinghetti como um Panamá autêntico, um chapéu impecável: um sombrero de alta calidad.  Pra ninguém botar defeito.  Chapéu na cuca, Ferlinghetti nas mãos, começo a folhear os livros que me presenteou: A Far Rockaway of the Heart e Ferlinghetti a Life, uma edição ampliada de sua biografia, por  Neeli Cherkovski. 

Na verdade, já li e tenho ainda hoje a edição bilíngue da Mondadori (inglês-italiano, 2000) de A Far Rockaway of the Heart/ Un luna park del cuore – que comprei em Roma, em 2006, e foi tema de uma crônica que está em meu livro “Há Controvérsias 2”, de 2009, republicada em 2021 por ocasião da morte do poeta em  22 de fevereiro de 2021, aos 101 anos. Vejam link para essa crônica, que está aqui em meu blog, ao final deste texto. 

Ali, eu me arrisco até mesmo a traduzir um dos poemas de que mais gosto, exatamente o de abertura do livro: Everything changes and nothing changes/ Centuries end/ and all goes on/ as if nothing ever ends. “Tudo muda e nada muda/ séculos findam/ tudo continua/ como se nada findasse”. Que no italiano do livro que eu trouxe de Roma resultou em Tutto cambia e niente cambia/ Finiscono secoli/ e tutto continua/ come nulla finisse. 

Poema que desde aquela primeira leitura romana me lembrou o Eliot de “East Coker”: In my beginning is my end. Now the light falls./ You say I am repeating/ something I have said before. I shall said it again./ In my beginning is my end. Now the light falls. Palavras que também não sei bem o porquê me levam àquele Caetano Veloso de “Tudo ainda é tal e qual/ e, no entanto, nada igual”. 

Aliás, Eliot era um dos muitos poetas “do coração’ de Ferlinghetti, como diz seu biógrafo Cherkovski, a páginas tantas do livro que a Ulla me trouxe – que leio numa rápida passada e que repasso a vocês nessa tradução apressada: “Para sua tese La Cité: Symbole dans la poesie moderne: À la recherche d´une Tradition Metropolitaine (“The City as a Symbol in Modern Poetry: In Search of a Metropolitain Tradition”), Ferlinghetti leu centenas de textos, concentrando-se em T.S. Eliot (The Waste Land), no Hart Crane de The Bridge, no poema de Maiakovski sobre a Ponte do Brooklyn, em García Lorca (The Poet in New York), no Whtman de Leaves of Grass.”.

Ferlinghetti escreveu essa sua tese quando morou por um tempo em Paris. Foi nos anos 1940, e em Montparnasse, a alguns quarteirões do Boulevard St. Germain, que chamava de “terra de Hemingway”, onde frequentava o Café Dôme, um dos preferidos do romancista. 

Face a seu profundo interesse por Ezra Pound e Eliot, além de outros poetas americanos (e aqui acrescento Allen Ginsberg, de quem lançou em 1957 a primeira edição de seu famoso poema Howl/ “O Uivo”), além de vários poetas da beat generation, Ferlinghetti pesquisou sobre poesia em praticamente toda a literatura mundial, não somente para sua tese, mas também para subsidiar seu próprio desenvolvimento como poeta.  

Um poeta com a força de versos como os que traduzi na abertura de seu A far Rockaway of Mind que a Ulla me trouxe e que releio agora aqui no Shangrilá, sob a sombra de meu elegante chapéu Panamá:


Link para a crônica publicada em meu blog quando da morte de Lawrence Ferlinghetti:

https://ronaldowerneck.blogspot.com/2021/05/tudo-muda-nada-muda-na-cabeca-e-no.html




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