30 de jul de 2014

RONALDO WERNECK e A MOVEABLE FEAST

                                                       
                                                      W. J. Solha





Acho que se poderia dizer que CATAMINAS POMBA & OUTROS RIOS, de Ronaldo Werneck, é uma prova de que o lema russo, caro a Tolstói, fale de sua aldeia e estará falando do mundofunciona,comoRONALDO REVISITA WERNECK SELVAGGIAprova que também estava certo o oráculo de Delfos no igualmente célebre, Conheça-se a si mesmo, e conhecerá os deuses e o universo. Confiram-se as fotos com que estão intensamente ilustrados os dois volumes. No primeiro, sóCataguases. No segundo, não apenas o autorse mantém o tempo todo como astro principal de seu “filme”, como nele é exaustivamente fotografado, depois do que se veem, reproduzidos, muitos, muitos poemas alheios a seu respeito, ...e não é só: no meio dabrochura,lá está, incluída,enorme fortuna crítica sobre a obra, toda de VIPs.

Não sem razão, Alcione Araújo, logo de cara, põe como títulodo próprio texto, a proclamação: “Pessoal, é tudo. Tudo é pessoal”. E é tudo, e é pessoal, mesmo. Como se Leopold Bloom se assumisse Joyce, mais ou menos o que fez Hemingway ao deixar a ficção de lado, pra contar sua parte na riquíssima época etílico/literária francesa, em Paris é uma Festa- A MoveableFeast. O melhor exemplo disso, no caso Werneck, é o intenso poema Cinerama/68, em que, pela nota de rodapé, fica-se sabendo que esse era o nome de um bar muito frequentado por ele e tantos outros fanáticos cinéfilos, que ficava ao lado do Cine Paissandu, Rio. Masquem é esse Werneck - poeta e autor de livros e documentários importantes sobre seu conterrâneo Humberto Mauro – se não o garoto Ronaldo, como ele mesmo se define no poema Esse Moço?:

do sexo masculino/ uma pessoa/ por todos prezada/ um bom menino/ se apresenta/ esquivo/ sem bossa/ a quem interessar possa.

Esse verso “um bom menino”, devolve-nos ao seu tempo de Cataguases, que conhecemos em Cataminas Pomba. Logo adiante, ele acrescenta, confirmando-se atento à séria, oracular recomendaçãoGnothiSeauton – KnowYourself:

–  tudo e todos/ saltam do peito/ do mais profundo poço/ dando forma e fundo/a esse moço/ pássaros neutrônicos/ elefantes levíssimos/ patinetes em pânico/ balões em neón/  nada igual.

E aí flagramos puro cinema, muitas e muitas vezes. Como em Cerrado´s Sentimental Express, onde ele resume a visão de Petrópolis na névoa, dizendo que o rio e o mar/ tudo em si/ encerrado/ tudo fora/ em cerração. Em seguida, em Plano Piloto:

futurontem/ a cidade/ pulsa/ enquanto o 707/ desacelera/ e plana/ sobre/ o / planalto / a cidade/ sidérea/ intrincada/ na ferocidade/ de artérias/ de encruzilhadas/ enredada/ em vida vias vasos/ no coração/ do planalto.

Mais adiante, o poema À la Papita começa, imensamente vivo, graças à presença de Etchichury:

meio dia em ponto/ e o grito ressoa pela casa/ toma de assalto/ o centro do planalto/ à lapapi à lapaiii/ à lapaapiiiitaaaa!!!! /// é etc é etchichury/ a plenos pulmões/ é meio dia/ e estão todos à mesa/ esses dez marmanjos/ subitamente presos/ no coração do planalto/ subitamente/ amigos de infância/ subitamente juntos / esses dez marmanjos/ no coração de cada um.

E o longo poema termina, contrastando com a alegria inicial, na constatação de que amanhã/ ao meio-dia/ a dezoras/ a qualquer hora/ não haverá lapapita // estará vazia a casa/ os quartos despidos/ o jardim em si encerrado/ por flores do cerrado// à mesa nenhum/ marmanjo/ para o suflê/ pratos/ talheres/ para a janta/ travessas / para dez fantasmas/ espinhas / atravessadas/ na garganta.

É um belo poema sobre alguém que esteve no paraísoe o viu se ir- “jardim em si encerrado”. Jardim Cerrado, ou, como diz o texto bíblico: hortusconclusus.

O cotidiano se ressalta quando “o poeta lê na varanda de sua casa em Itaipu – como ele mesmo conta no rodapé de Carpintaria - e, a seus pés, a filha Ulla, quatro anos, larga dados e reinações e lança-se toda no poema, reino do acaso”:

 - papi/ tô muito peocupada
 - mas ulla/ o que houve? (...)
 – a lua tá quebada.

Tenho um ensaio, “Em arte, o todo é sempre menor que sua melhor parte”, no qual destaco A Criação do Homem sobre todo o resto enorme do teto da Sistina;ou, sobre todo o Em Busca do Ouro, de Chaplin, destaco a cena em que Carlitos mete os garfos emdois pãezinhos, tornando-os sapatos, e faz com eles uma dança de Pinóquio; ou, sobre todo o Hamlet, destaco omonólogo Ser ou não ser;e sobre todo o Grande Sertão: Veredas, destaco o julgamento de ZéBebelo. Pois bem. No SelvaSelvaggia propriamente dito, dou com isto, no primeiro dos Três haicais à la carte:

Os brancos impressos
entre as letras são tetas
leite submerso

É incrível, esse momento em que o poeta esquece as letras e enfoca seus intervalos, como um músico que trabalha com silêncios, não com sons, ou –como o personagem de Cortázar e Antonioni–descobre um crime nasfrenéticas ampliações,blowups, de uma foto.
E o livro é todo assim. Como neste trecho de Coordenadas:
de desordenada vivência / & convivência (...)
Ou neste:
umpassionário em tudo
E em Círculo:
e o relógio tique-/tapeando o tempo

Dali amplia um detalhe do Napoleão em Friedland, de Meissonier (fantasticamente parecido com o Grito do Ipiranga do Pedro Américo), e mostra as riquezas abstratas que a tela – extremamente realista –contém.

E Werneck, em Full-time:
em cada fonema/  uma explosão em falsete/ uma explosão contida/ em cada letra.

Isso confirma a intenção revelada no começo de Cardeais de Poema:
minerar o poema/ de profundo/ essencial poço.

E em Viagem:
Vai meu poema/ é livre o campo/ a batalha é o canto/ espada cortante ritmo/ rompante audaz// vai meu poema/ massacra a floresta/ sinistra de meu lado/esquerdo.

Essa imagem: Floresta sinistra”, devolve-nos à epígrafe que explica o título do livro, e que diz muito sobre o autor:

Ah quanto a dir qual era è cosa dura
Questa selva selvaggia e aspra e forte
Che nel pensier rinnova la paúra.

Repetindo: Massacra a floresta / sinistra de meu lado /esquerdo. “Sinistra”com seu outro sentindo, joga com “meu lado esquerdo”. Com isso, o poeta revela seu coração como a selva selvaggia do título do livro, e que é dele que sua poesia trata.

Em dois poemas seguidos, dois lances geniais, bem ao estilo Escher. No início de Caminho, numa atitude própria de menino que vai ao Rio pela primeira vez, vindo de seu estado interior, de Minas, ele escreve:
o mar o campo / primeiro espanto / verde-amplo.

E, no final de Moonlight:
nunca tanta lua / para tão pouco //// marenoite

No final de Vergetais, vemos vincular-se esse coração, que é uma selva selvaggia, a uma natureza-morta:
sobre a mesa / descubro / a selvagem / tristeza // do tomate rubro
E eis Ulla de volta, em Vigília, numa réplica do pai:

ulla corre grita chispa / se mela remela / clama reclama / “perfuminho é meu  /
máquina é meu tinta / é meu é meu o mundo /é meu”

Obcecado pela vida, Werneck diz, em Verão, que é verão/ e são / comoção belas / as mulheres,e, caramba,  há costas/ a areia as coxas / o colo reluzindo, mas – ele retruca –há tanto Joyce para ler, tanto Pound, os gregos, os provençais...
havia tanto/ tanto tempo perdido,
e ele arremata, lá no final, numa negação do Tudo vale a pena / se a alma não é pequena”, de Fernando Pessoa, como se dissesse OK,
mas de que vale o poema / ante a mulher de ipanema?

Isso tem a ver com uma das paixões dele, naquele tempo: Amarcord. Tem a ver com a cena em que a multidão sai do cinema, ante o grito, lá fora, de que está nevando.Tem a ver com seu próprio poema Telstar, produto dessa mesma época, que é também a do Faça amor não faça a guerra, como no Makelove, notwar, de Lennon, em que Werneck faz seu Guerra e Paz, seu Hiroshima meu amor:

exclamo / eu te amo / e uma bomba / explode/ lá fora
(...) meu amor(...) uma bomba / estraçalhando / teu corpo (... )quan tri / chu thaun/ tay mihn / my lai

Nesse contexto, ele fala de uma separação, no poema Carta:
Sofro/ mas isso passa / que diabo / um profissional da dor / não sofre de graça.

Já no final, em Once upon a time, contrariando a visão inicial, dantesca, do mundo, ele usa como epígrafe uma frase do Oito e meio (de novo Fellini ):
 – “é una festa lavita”
Exato:
viver resplandece/ lantejoulas festa / no abismo do sono/ lantejoulas festa

Mas... aqueles anos são, ainda, os de As Mãos Sujas, de Sartre (1972) e de sua filosofia de liberdade com responsabilidade. Feito a sonâmbula rainha Machbeth, Werneck diz:
mãos sujas eu as lavo  / duetrevoltiognigiorno

Lá pelo final dos anos 80 vi uma deslumbrante série de tv, AMÉRICA, de João Moreira Salles, estupenda fotografia de Walter Carvalho, em que Robert Longo, um dos muitos grande artistasentrevistados, fala sobre o próprio espírito do filme:
– Produzir arte é relatar para o futuro como era viver hoje. É importante que meu trabalho represente o que eu sou, o que eu faço e o ponto em que estou no tempo.

Pois bem, SELVA SELVAGGIA, de 76, é isso. Fruto –em forma e conteúdo –de sua época e sobre ela, como oHomem com uma Câmera, de DzigaVertov(de 1929 e, portanto, também prisioneiro da circunstância: em branco, preto e mudo ).

Ciente disso e da importância do que fez, o poeta, ...vinte e nove anos depois, lançou, em busca do tempo perdido, esse RONALDO REVISITA WERNECK SELVAGGIA.
E aí?
– é una festa la vita?
- A MoveableFeast.