ZUENIR VENTURA: CATAGUASES É
UMA CIDADE DE MUITO CARÁTER
Lá se foi meu amigo Zuenir Ventura (Além Paraíba, MG, 01.06.31 – Rio de Janeiro, RJ, 22.09.26), mas deixa conosco seus bem vividos 95 anos. Em sua homenagem, republico aqui matéria que saiu em setembro de 2004 na revista Usina Cultural, da Fundação Ormeo Junqueira Botelho, que eu editava na época. Transcrevo na íntegra toda a sua fala e, ao final, “inveja à parte”, publico também na íntegra o mais que generoso email que ele me enviou já do Rio, no dia seguinte à sua palestra.
Sou jornalista em tudo o que faço,
é uma segunda pele.
Zuenir Ventura esteve no Centro Cultural Humberto Maurono dia 19 de agosto de 2004: noite de autógrafos e palestra dentro do Projeto TIM/Estado de Minas – Grandes Escritores, que tem em Cataguases a parceria da Fundação Ormeo Junqueira Botelho. Ronaldo Werneck mostrou a cidade ao jornalista-escritor e apresentou a sua palestra.
Aqui, o relato de Ronaldo e a fala de Zuenir.
Zuenir: Acho que a vida é o melhor de tudo.
Mostrei hoje alguns aspectos de Cataguases a ZuenirVentura, em sua primeira visita à cidade. Praças, prédios, casas, o Colégio, traços do modernismo. A seguir, o Museu Chácara Dona Catarina e o Centro das Tradições Mineiras. Ali, Zuenir conversou por um bom tempo com as meninas que fazem dança folclórica e foi por elas “aplicado” nas tramas e mistérios do patchwork. À tarde, estivemos no Bairro Goela Seca, onde a jornalista Vera Maciel desenvolve um projeto com crianças carentes, ensinando-lhes leitura de jornal. Zuenir começou fazendo algumas perguntas às crianças, e logo soltou uma provocação, pedindo que lhe perguntassem qualquer coisa, de modo a passar de entrevistador a entrevistado. Uma das meninas não se fez de rogada: “Quanto anos você tem de jornalismo?”. Ao responder “cinquenta anos”, ela soltou um sonoro “Cruz-credo!”, como quem diz: “Nossa! Isso tudo?”.
Pois assim tem sido a trajetória profissional de ZuenirVentura, capaz de causar espanto e cruz-credos sem fim. Desde os anos 60, não há como falar de jornalismo neste país sem citar o seu nome. Um texto despido de firulas, extremamente elegante dentro de sua objetividade. Uma referência no jornalismo brasileiro, Zuenir foi da Revista Visão, de Veja, do JB, do Correio da Manhã, de Época, entre tantas outras publicações. Atualmente está no Globo, jornal onde assina uma coluna. Fora isso, o distintíssimo senhor Zuenir Ventura usa meias coloridíssimas e maravilhosas, por sinal citadas hoje pelo Veríssimo em sua coluna. Autor de “1968 – O ano que não terminou”, que foi onde tudo começou, a partir daí o jornalista tornou-se escritor. Surgem “Cidade partida’, ‘Crônicas de um fim de século”, “A Inveja”, o livro de Chico Mendes, entre outros. Com vocês, Zuenir Ventura.
“Uma cidade de muito caráter”
Eu queria dizer a vocês que eu sou de Cataguases, porque segundo a teoria do Ronaldo todo mundo é de Cataguases, inclusive os que não são. Eu não conhecia Cataguases, cheguei hoje, mas aí, imagina... tive um cicerone como ele, né?, então dei um mergulho pela cidade e já sei tudo. Vocês podem me perguntar, tomar e tal, que eu já sei tudo sobre Cataguases. Foi realmente engraçado, um encontro muito esperado, ansiado, morei perto e não conhecia, conhecia de fama. Realmente eu senti porque essa cidade é uma cidade tão carismática, tão cosmopolita, culturalmente tão cosmopolita. Tem todas as razões porque é uma cidade de muito caráter, não sei se vocês que moram aqui percebem isso. É uma cidade que tem caráter, que tem identidade, você olha e percebe, não se confunde com outra cidade.
Eu estou vindo de um circuito desse programa. A primeira cidade foi Valadares, a segunda Ipatinga, depois Ubá, e hoje Cataguases. Amanhã volto pro Rio. Eu sou de Minas, e eu disse que morei aqui perto. Nasci em Além Paraíba e um jornal desses aí falava do “paraibano” ZuenirVentura. De Além Paraíba, e com dias de vida, fui para Friburgo, no Estado do Rio. Meu pai era de lá e minha mãe de Minas. De Friburgo, mais tarde, no final da juventude, fui para o Rio onde estou há 50 anos, o que me levou a dizer que assim como têm pessoas de dupla nacionalidade, eu tenho tripla nacionalidade. Eu sou mineiro, eu sou fluminense, eu sou carioca: e aí já começo a falar um pouco de mim. São 73 anos e sempre que alguém diz isso ou eu mesmo digo, fico olhando pra plateia pra ver se alguém diz isso assim, que eu não pareço. Eu fico olhando pra plateia... pra ver se alguém diz. Houve época em que as pessoas diziam que eu não parecia.
Na verdade, são 73 anos e 50 de profissão. Hoje à tarde uma menininha de Cataguases perguntou meu nome. Logo viu que meu nome é um terror, Zuenir. Eu sou muito traumatizado com o nome, sobretudo quando estou no aeroporto e em geral o alto-falante diz assim: “Senhora Zuenir Ventura, favor se dirigir...” e aí fico no vou, não vou. Pior só o Alcione Araújo que também é “Senhora”. Estávamos os dois no aeroporto, “Senhora Alcione Araújo dirija-se...”.
O que tem de bom nesse projeto da Tim, dos escritores, é possibilitar esse encontro: vocês não imaginam que legal que é isso pra gente. É bom estar aqui conversando com vocês, olhando na cara. E hoje as relações são muito virtuais, tudo hoje você faz por telefone... você vê: televisão, rádio, até sexo se faz pela internet. Então quando você tem a chance assim de ver corpo a corpo, na cara, a reação das pessoas, você se toca, enfim, eu acho insubstituível isso. É muito legal. E sem falar que possibilita isso, você fazer amigos. O Ronaldo, a gente se conhecia há 50 anos... não falo 50 anos porque ele é jovem. Amizade não depende de antiguidade, depende de intensidade. Você é capaz de fazer uma amizade de infância em um dia. Essa possibilidade de conhecer gente... tenho sido calorosamente recebido em todas as cidades.
Escritor por acaso
A ideia que o escritor faz do leitor é meio abstrata. Às vezes você cria um personagem, tem uma ideia e acha que a sua leitura é única, daí vem o leitor com uma nova leitura. O leitor já vem com certa curiosidade, é uma troca muito saudável, é um bate-papo, uma conversa muito gostosa. Minha vida tem coisas curiosas, ela é regida pelo acaso. Fui jornalista por acaso, fui escritor por acaso, também devo ter sido feito por acaso, mas aí não deu para conferir, pois meus pais já tinham morrido. Claro que deve ter sido por acaso.
Fui criado em Friburgo, fui pro Rio pra estudar letras neolatinas, um tipo de curso que não tem mais, em que se estudava de tudo: espanhol, italiano, latim, literatura brasileira, era uma loucura. E lá havia um professor que gostava muito de mim, que trabalhava no arquivo de um jornal, o jornal do Carlos Lacerda, Tribuna da Imprensa. Ele sabia que eu tinha dificuldades na vida. Comecei a trabalhar muito cedo, no início com meu pai, que era pintor de parede. Depois num bar como faxineiro, num banco como boy, numa camisaria. Depois comecei a fazer científico à noite e a dar aula de manhã no primário. Aí descobri por acaso o magistério, para pagar os estudos. Fui professor a vida toda, parei há pouco tempo porque me aposentei.
Voltando ao jornal, trabalhei naquele arquivo da Tribuna recortando jornal, atendendo ao público interno. Depois ia ler os meus livros e fazer os trabalhos para a faculdade e ficava muito feliz achando que aquilo era a melhor coisa do mundo. O exercício da escrita jornalística faz muito bem ao estilo, e é verdade que ele expurga a linguagem de adjetivos, de advérbios, você passa a trabalhar com as categorias fundamentais que são o substantivo, o verbo e o sujeito. Teoricamente eu concordava, mas não tinha a menor ideia, a menor vontade. Até que um dia o Sérgio Lacerda quis que eu escrevesse um artigo sobre Camus. Como ninguém sabia, acabei fazendo o artigo, que teve um relativo sucesso. De repente, eu recebi uma proposta para ir para a redação, ganhando três vezes mais. Não tinha como rejeitar, acabeiindo para a redação e de lá nunca mais saí. Hoje não consigo me imaginar fazendo outra coisa, em tudo o que eu faço eu sou jornalista, é uma segunda pele.
30 anos de 68
Passei por vários jornais, ganhei uma bolsa pra França, fiquei um ano lá estudando e voltei já velhinho, estudando já na chamada terceira idade, com 59 anos. Outro acaso: minha mulher estava conversando com Sérgio Lacerda, que era editor da Nova Fronteira. Era 1997, chegamos à conclusão que iriam fazer 30 anos de 68. Surgiu a ideia de um livro sobre 68. Eu nunca tinha pensado em fazer livro. Já tinha pensado em plantar árvore, ter filho, mas livro era uma coisa que jamais tinha passado pela minha cabeça. Realmente eu não tinha a menor angústia, ansiedade para escrever livro.
Eu resisti muito para escrever o livro sobre 68, e o papo do Sérgio, aquele papo carioca... Carioca é aquela coisa, tá tudo certo, tudo certo, quando realmente não está. Ou então assim: tá praticamente pronto, quando nunca vai ficar. Passa lá em casa e tal, depois a gente se encontra. Carioca é muito hospitaleiro, muito simpático, mas não é lá muito sério. Eu não levava muita fé no Sérgio e ele acabou ligando pra mim. Fiz o livro, escrevi, me perguntavam que interesse teria o livro após 68. Cheguei a fazer uma aposta com os dois: a cada edição eu pagaria uma garrafa de uísque e um jantar. O livro já está na trigésima nona ou quadragésima edição... e eu nunca paguei nada. Ele pintou numa hora especial, independente de possíveis méritos. A partir daí eu não podia mais dizer não.
Voltei para o Jornal do Brasil, onde trabalhava, e o editor, Marcos Sá-Correia, me chama um dia e me faz um convite para a Amazônia. Era um mês e pouco depois da morte do Chico Mendes e a Amazônia, o Acre sobretudo, tinha virado assim a meca do jornalismo mundial. Todos os grandes jornais, revistas, televisão, tudo lá. Ele disse que queria alguém que tivesse os olhos descomprometidos, que não fosse um militante da causa ecológica. Ele queria alguém que tivesse uma visão mais distante, mais isenta. Eu falei, então me dá um mês para eu fazer um curso intensivo de Amazônia. Aí comecei a estudar, fui à biblioteca, li, comecei as conversas, entrevistas. Fui pra lá, ia passar quatro dias no Acre, ia descer, continuar a viagem quando conheci um jornalista, de quem fiquei grande amigo, e que me disse: “Eu, se fosse você, ficaria mais aqui, porque acho que tem pistas no anonimato, você pode descobrir coisas ali”. Liguei pro jornal e falei que ia ficar mais tempo.
O protomártir ecológico
A melhor coisa que fiz naquele momento foi ficar. Fiz uma série de reportagens, ganhei o Prêmio Esso, o Prêmio Vladmir Herzog, isso me deu muita alegria, muita satisfação. Foi o maior prêmio jornalístico. Este segundo prêmio tinha o nome de um querido colega meu, amigoque tinha sido morto na ditadura militar, torturado, o Vlado. Na época, o Luiz Schwarz queria publicar como livro a série de reportagens e eu me senti meio que pegando carona no sucesso de 68, isso eu não acho legal. Há pouco tempo o Luiz Schwarz me encontra no aeroporto e diz: “olha, eu tenho uma coleção chamada jornalismo literário, eu queria publicar agora”. Disse que eu não precisava remexer, o ideal seria publicar da forma que foi feita. Então concordei, achei tudo bem. Uma semana antes de mandar as matérias, eu consegui renegociar o meu retorno ao Acre 15 anos depois.
Saiu esse livro do Chico Mendes, a primeira parte é a aventura desse “ser urbano” que sou eu, lá no meio do mato. Teve aí uma coisa importantíssima: quando eu fui pro Acre eu já tinha 30 anos de carreira e não conhecia nada do Acre, foi tudo revelação pra mim. Encontrei uma identidade cultural, uma história muito bonita. O Acre é brasileiro porque quis, lutou pra isso, para ser brasileiro e não boliviano. Eu fui pra lá sem saber exatamente quem era o Chico Mendes. Sabia vagamente, o Chico ficou conhecido depois da morte, mas ele era conhecido lá fora, ele era reconhecido pelo congresso americano como um personagem fundamental na luta pelo meio ambiente. E eu não sabia exatamente quem era o Chico Mendes e aí conto a história do Chico que era realmente um bravo brasileiro, uma figura extraordinária, um herói, um protomártir da luta ecológica.
E aí volto depois e confirmo: a sensação que eu tive nessa última viagem era que o Chico estava vivo, como se ele estivesse lá. Porque a causa dele, todas as ideias estavam frutificando. Só pra se ter ideia da sua importância planetária, ele colocou a causa ecológica na agenda mundial. Hoje se discute no mundo o que o Chico dizia há 15, 20 anos atrás. Então foi uma aventura, não só do ponto de vista profissional mas existencial. Fiz grandes amigos lá, trouxe de lá um garoto, com 13 anos para 14 anos, a principal testemunha de acusação dos assassinos. Graças à coragem dele, os culpados foram condenados. Ele acabou ficando sob a minha tutela até ficar maior de idade, com 20 anos. Uma coisa muito intensa na minha vida, essa experiência.
O câncer, a inveja
Depois fiz “Cidade partida”, passei 10 meses frequentando uma favela do Rio de Janeiro, convivendo com traficantes. A seguir, “A inveja, o mal secreto”. Na palestra de ontem me perguntaram de qual deles eu mais gosto... sem dúvida o mais sofrido para mim foi “Inveja”. Não pela feitura, mas pelo que me aconteceu. É que no meio do livro... bem, eu tenho o tipo, o biótipo do meu pai, que morreu com 97 anos, então eu tenho essa mania de imortalidade. Como sou muito parecido com ele, fico achando que vou morrer aos 97. Aí no meio dessa história toda eu descobri que estava com câncer na bexiga. Recebi a notícia de que estava com um tumor que poderia ser benigno ou maligno.
Daí você se amarra na hipótese de que pode ser benigno, daí vem aquela porrada: não, o câncer é maligno. Aí, olha: tudo aquilo que você pode imaginar, a idéia de morte, minha vez chegou... baratinou a minha cabeça e eu levei dois anos fazendo esse livro por isso. Acabei fazendo o livro e até incorporando o câncer ao livro. Então foi por isso, um livro muito sofrido, na feitura, mas em compensação o livro acabou e o câncer também.
Para fazer o livro, comecei a ler sobre inveja e descobri que tudo já tinha sido escrito sobre o assunto. Mas é claro, é o primeiro pecado. A inveja é o sentimento mais democrático, porque todo mundo tem. E ela dá em qualquer classe, dá entre os mendigos, entre os reis. E o Lúcifer, que era um cara bonito, o mensageiro da luz, brilhante, iluminado, ele tinha inveja. Tudo já tinha sido escrito e custei muito a encontrar o caminho. Aí comecei a perguntar às pessoas, eu perguntei ao motorista de táxi, você tem inveja? Ele disse “não, mas na minha casa todo mundo tem”, ou então aquele outro dizia assim: “não, eu não sou invejoso, mas sou muito invejado”. Muitas vezes quando alguém vinha falar de inveja, já era inveja transformada em admiração, já sublimada. Quando você diz, eu invejo a capacidade, isso não é inveja. Isso é mentira. Inveja é quando você quer que o cara se arrebente todo. Quando você fica com raiva.
Não posso ser totalmente feliz num país injusto
Aí eu falei assim: bom, eu vou ao confessionário dos padres, ao divã dos analistas, ao terreiro de umbanda, ao candomblé. Daí então eu comecei a pesquisar nesses lugares e aconteciam coisas muito engraçadas, fora do que eu buscava. O livro é ficção. Bateu a idéia de alguém escrever um livro sobre alguém escrevendo sobre a inveja, aí eu pensei em colocar tudo o que estava acontecendo, daí surge o câncer e eu fico na dúvida se coloco ou não. Acabei colocando essa coisa mais dramática, daí percebi que a inveja e o câncer são parecidíssimos, nenhum dos dois gosta de dizer o nome. Até hoje as pessoas não dizem, é um estigma muito forte. Comecei a ver uma série de analogias entre os dois, é tudo ficção, a única coisa que não é, infelizmente, é o câncer.
Tem um personagem, a Kátia, uma menina bonita, interessante, insinuante, sexy, ela acaba seduzindo o narrador que, por acaso, era eu. Rola um clima, então me perguntam o que a Kátia disse quando viu o livro. O quê que minha mulher achou da Kátia, dessa história? Até que um dia resolvi dizer que a Kátia era uma invenção. Obviamente devo ter tido uma parte da Kátia na vida, tudo no nível do inconsciente. O livro é instigante, pois você fica se perguntando sobre o que é verdade e o que é mentira. Nunca as pessoas achavam que a Kátia pudesse ser uma invenção, as pessoas achavam que era uma menina com quem eu tive uma transa.
Eu e a Mary, minha mulher, estamos casados há 42 anos, somos animais em extinção. Eu sou uma pessoa feliz, só não sou totalmente feliz porque moro num país injusto. Então você não pode ser totalmente feliz. Não tenho deslumbramentos, nunca tive. Eu acho que a vida é o melhor de tudo e eu tenho recebido muito mais do que mereço, eu conheço pessoas para as quais a literatura está na frente da vida, isso não se coloca comigo.
Eu gosto de andar, todos os dias eu ando no calçadão de Ipanema. Não é só por saúde: gosto mesmo de andar, é a tal da adrenalina. Acho bom caminhar, é bom pra cabeça, é gostoso, eu fico mais inteligente. Às vezes saio de casa com a idéia de fazer a crônica. O problema são os assuntos, e eu escrevo três por semana. É descobrir o tema. Eu transo bem na minha atividade. Não gosto de escrever, mas gosto da escrita: quando dá certo, a gente acha isso. Uso a frase do Armando Nogueira: “se pudesse, parava de escrever e só ficava lendo”.
Email de Zuenir Ventura
Rio, 20 de agosto de 2004
“Ronaldo, meu querido: ia deixar pra responder depois, com calma, comentando cada texto, cada poema, cada surpresa – sim, porque você não se cansa de me surpreender com essa sua polissemia, polivalência, politalento. Que excelente poeta você é, cara, e que cronista (mas isso o Alcione já falou). Como disse, ia deixar pra depois, mas aí vi que, se deixasse, ia acabar não respondendo, porque teria que escrever uma resposta pensada, inteligente, à altura do material que você me mandou. É claro que, gostando como eu não gosto de escrever, isso jamais sairia.
Então me decidi por essa resposta imperfeita, provisória, uma espécie de rascunho do que gostaria de te dizer. Viajei contigo por uma boa hora à Argélia (o link do Camus já é demais), bebi e bati infindáveis papos com o Rosário Fusco, e te invejei de morte disso (como eu quis conhecê-lo em Friburgo!), até voltar a Cataguases, que você me "aplicou", como se dizia naqueles nossos tempos. Com a dificuldade que tenho de resumir em dedicatória o que sinto quando sinto com intensidade, costumo ser atacado de uma paralisante burrice.
Quando você me passou o Inveja para eu autografar, me deu aquele branco e eu não consegui expressar o que foi aquele dia contigo. Eu queria dizer o quanto curti o privilégio de conhecer sua cidade com você, através de sua leitura amorosa, sensível e reveladora, o quanto mergulhei num passado glorioso que mal vislumbrava à distância. Queria sintetizar tudo numa frase como "você, amigo, foi uma das melhores coisas dessa adorável Cataguases que só precisei de um dia para aprender a amar" e não consegui, só saiu besteira.
Desculpe a incompetência e perdão pela pressa desse rascunho. Mas voltarei a você e a Cataguases, ah, voltarei, Zuenir.
Mary acompanhou cada passo do nosso passeio e também adorou. Um fraterno abraço pra você, Zu”.
Nâo sei mais o que respondi, até hoje todo pimpão, orgulho à parte, com as palavras do Mestre Zu, querido amigo que se foi.










