1 de jul. de 2020

O apocalipse como hipótese

FESTIVAL DE CATAGUASES 50 ANOS


Maria Alcina hoje: cores da glória.

     Em junho de 1969 a equipe do SLD – Suplemento Literatura Difusão realizou o “1º Festival de Música Popular Brasileira de Cataguases”. Na Comissão Organizadora: Lila Carneiro Gonçalves, Geraldo Ramos Santos, Joaquim Branco, Paulo Dalforne, Milton Barbosa e Ronaldo Werneck.
     No júri, presidido pelo poeta Francisco Marcelo Cabral, nomes como Lúcio Alves, Nelson Motta, Mariozinho Rocha, o filósofo Jorge Roux, o crítico (na verdade, de cinema) Alberto Silva e os poetas-processo Álvaro de Sá, Nei Leandro de Castro e Moacy Cirne. Cinquenta anos depois – imortais, mas nem tanto – não estão mais entre nós Geraldo Ramos Santos, Francisco Marcelo Cabral, Lúcio Alves, Jorge Roux, Alberto Silva, Álvaro de Sá, Moacy Cirne.
     No palco do Cine-Teatro Edgar em 1969, belas toadas como “Virandeiro”, do também saudoso Messias dos Santos e Eugênio Malta (cantada por Luely Figueiró, aquela eterna “certinha do Lalau”), mesclavam-se a experiências de vanguarda: “Trânsito Livre”, de Aquiles Branco, e a vencedora, “Apocalipopótese, a paz depois”, do paraibano Marcus Vinícius de Andrade.
     Mais tarde parceiro de Paulinho da Viola e de Augusto de Campos, Marcus Vinícius lançaria nos anos 70 dois belos “LPs de autor”, com uma penca de músicas experimentais. Hoje é maestro, compositor de trilhas para cinema (“A Hora da Estrela”, entre várias outras), arranjador de renome em São Paulo e Diretor-Geral da AMAR/SOMBRAS, e entidade que cuida dos direitos autorais dos músicos. Sua canção “Apocalipopótese” remetia à hipótese do Apocalipse segundo o neologismo criado pelo artista plástico-tropicalista Hélio Oiticica.

Marcus Vinícius: Apocalipopótese.

     Em cena (ou sina), havia ainda a cataguasense Maria Alcina, estreando no showbiz com a eletrizante “Pesadelo Refrigerado”, de Alfredo Condé, um saque sagaz de Carlos Moura, naquela letra ainda hoje up-to-date: “Uma fazenda no Texas/ um rifle na porta aberta/ em Nova York uma cabala/ um buquê de flor em Dallas/.../ Há sempre um lado incendiado/ um John queimado e um metralhado”. “Pesadelo” ficou em 2º lugar e Alcina, melhor intérprete, ganhou de Nelsinho Motta a promessa de lança-la no Rio (de Janeiro, seus sacanas!). Logo no ano seguinte, 1971, início da carreira e da fama, Maria Alcina grava seu primeiro disco, um compacto com as canções “Azeitonas verdes”, de Marcus Vinícius, o próprio, e “Mamãe, coragem, de Caetano Veloso e Torquato Neto.Em 1972, a consagração no Festival Internacional da Canção com “Fio Maravilha”, de Jorge (ainda) Ben: o Maracanãzinho em peso fascinado com seu gestual, sua elétrica interpretação. Hoje minha amiga, vejam só!, é nome de rua em Cataguases.


Maria Maravilha: Alcina e o Maracanãzinho a seus pés.

Zooilógico
     Em julho de 1970, lá se vão 50 anos, seria a vez do grande frisson performático-musical da história de Cataguases. A repercussão do evento anterior fora excelente, com ampla divulgação na mídia de BH e do Rio – e as frequências do meio musical estavam antenadas em Cataguases. Como o próprio nome já indicava, o “2º Festival Audiovisual de Cataguases” era um outro tipo de proposta feita pela turma do SLD, no sentido de mostrar a música de vanguarda com uma roupagem cenográfica, trazer o poema-processo para o palco, representar visualmente o som & coisas quetais. Pois é, aquele “papo-cabeça” dos anos 60 deu o maior ibope em Cataguases e em todo o país. Nunca, nem nos áureos tempos de Verde ou de Humberto Mauro, a cidade ocupou tanto espaço na mídia nacional.
     Com uma Comissão Organizadora formada por Geraldo Ramos Santos, Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Ernesto Guedes e Carlo del Prete Silveira, o Festival trazia a Cataguases, como concorrentes, nomes já conhecidos no cenário nacional: Rildo Hora, Ruy Maurity, Carlos Imperial, João Medeiros, Gutemberg Guarabira, Luiz Carlos Sá (o trio “Sá-Rodrix-Guarabira” foi formado a partir do Festival de Cataguases), José Carlos Capinam, Ronaldo Tapajós, Bia Bedran, Trio Yrakitan, Equipe Mercado e até mesmo Gilberto Gil, que mandara de Londres uma parceria inédita com Capinam. “Zooilógico” seria defendida por ninguém menos que Gal Costa, depois por Jards Macalé e depois por ninguém, já que os dois não puderam vir a Cataguases por motivos – quais mesmo? – vamos dizer, “ilógicos”. Gal acabaria gravando “Zooilógico” num de seus LPs da época: “Zoo, Zoo, Zoo, Zoológico/ Ilógico/  Logo sou/ Zoológico/ Ilógico/ Logo sou/ Logo sou a feros o zero a cidade/ Logo sou a ferocidade”. Vocês se lembram? Eu sim eu não: zooilogicamente que sim-não.

Comissão organizadora: Geraldo Santos, Carlos del Prete, Ronaldo Werneck, 
Lila Gonçalves, Sebastião Carvalho, Joaquim Branco.

Meio dia, doze mortes
     Quem veio foi José Carlos (Soy Loco por Ti América) Capinam, um dos letristas-ícones do tropicalismo. Mas por conta da outra música que classificara, “Gás Paralisante”, em parceria com o pernambucano Aristides Guimarães: “Falamos/ Depois falimos/ Respiramos/ Depois paramos/ Só vão ficar as estrelas/ E o mar batendo nas pedras/ Dos bujões/ Para as canções/ Dos bujões/ Aos corações/ O gás do Orgasmo/ Agônico/ O pânico Orgânico/ Das paixões/ E o mar batendo nas pedras”. Capinam acabou ganhando o Festival e me disse que com o dinheiro iria comprar, imaginem!, uma máquina elétrica para escrever seus poemas. Quais? Perdemos o contato e não os li jamais. Bons tempos aqueles, quando os poetas ainda buscavam calar os letristas de ocasião, empunhando seus eletromágicos teclados contra guitarras nem sempre plugadas no novo.
     Na verdade, mesclando compassos fortes a fugas dissonantes, a 2ª colocada, “Meio-dia, doze mortes” (“Cheque verde cheque mate cheque morte/ Choque/ Chocolate/ As locomotivas se locomovendo se movendo loucas/ A cidade devorando, devorando, devorando tudo”), do mesmo Marcus Vinícius que ganhara o Festival de 1969, era bem superior à canção de Guimarães & Capinam. Como também “Harpa Selvagem ou Nero Revisitado”, de Jadir de Sousa/Aquiles Branco, defendida com grande garra por Maria Alcina (de novo, melhor intérprete): um delírio que mesclava Roma & Wall Street, tendo o poeta maranhense Sousândrade como referencial & (porta) bandeira. Ou ainda “Chevrolet’s Go Home”, de Francisco Condé, com uma letra daquelas endiabradas de Antônio Jaime Soares: “O final, o fim, a nau/  O sinal, o sim, o não/ Chevrolet’s go home/ No fim da noite/.../ Som de plastibeijos a ferir/ A carne viva estremecer/ No sul sem fim/ O sul sem cor/.../ Chevrolet’s go home/ No fim da noite/ No fim do mundo”.

Tango terrível
     Isso sem contar a outra composição de Marcus Vinícius, “Se for com dez pés lá vai”, um bem-humorado rock sobre tema de cordel (“Você me deixa espantado/ Na luz mansa dessa tarde/ Meu amor escorregado/.../ Eu fico anestesiado, assim/ Teu riso desaba sobre mim/.../ Você cai/ Se eu cair, caio por cima/ Dos olhos desta menina/ E se for com dez pés lá vai”). Ou o delírio bélico/psicodélico de “Cristycaia”, de Messias dos Santos e Carlos Sérgio Bittencourt (“Pra ver a nave de Marte/ E contar pra todo mundo/ Que vi o avião de Plutão/ Talvez ir no cais/ Esperar o caos/ Que vem do Laos/ Talvez esperar Cristycaia que vem”. Ou a explosiva manemolência do “Tango Terrível” de Alfredo Condé e Carlos Moura, um momento totalmente tropicalista que o júri não entendeu. O poeta Affonso Romano de Sant´Anna, um dos jurados, veio me perguntar se seria válido votar em um tango num “festival de vanguarda”! Era sim, Affonso, principalmente quando cantado pelo Turi-trajando-Turi, de branco-malandro, Seu Mané!, de branco-sambista, um paradoxo tropical, em contraposição à letra de vários achados: “Tango terrível/ Madrugada/ Gardel Gardênia/ Média luz/ Cama de lona/ Sob a mata/ Luvas, polainas/ e capuz”. E, finalmente, “Marina Belair”, que não cabe neste parágrafo.

Manicure do Escândalo
      “Manicure/ Escândalo dos dedos/ Dédalus /.../ Lapa ofegante Ofélia /.../ Vidrilhos olh’eyes/ Yes olh’eyes /.../ Esmalte mickey mouse para os dedos da lapa/ Thomas de la rue and company limited london” – martelava a letra do poeta-processo Ronaldo Periassu para a marginal melodia (?) de seu parceiro Ricardo Guinsburg, autêntica desarmonia-heavy-metal-avant-la-lettre. No palco do Cine-Teatro Edgar, a performática Equipe Mercado fazia seu happening marcado pela guitarra de Stul e pela voz rascante da band-leader Diana, um furacão em cena. A apresentação do grupo era uma das mais esperadas daquela segunda noite do Festival, pois eles haviam participado do famoso “Show da Sucata”, no Rio, junto com Caetano, Gil & toda a tropicália. Além disso, o Mercado estava entre os finalistas do Festival Universitário da TV-Tupi, que acabaria vencendo com a bem-humorada “Mary-K no Esgoto das Maravilhas”.


2° FAC: O teatro superlotado.
     Meu amigo Ronaldo Periassu, que viajara de carona comigo para Cataguases, me perguntara onde achar carne para cachorro. Distraído (na verdade, pensando num piano que teríamos de colocar no palco), disse qualquer coisa como “num açougue desses aí”. Só quando a Equipe subiu ao palco, com meros trapos sobre os corpos seminus, brilhantes, lambuzados de óleo (óleo?), é que vi a “função” da carne pra cachorro: Diana, Stul & Co. entrecortavam acordes, scats & dentadas na carne, depois atirada a esmo na plateia. Nunca Cataguases viu nada assim, a chamada nata da sociedade recebendo na cara e onde mais pintasse grandes nacos de carne crua, numa canina caosticidade realçada pela estridência dos instrumentos e pelos rugidos de Diana: “Manicure do escândalo/ Marina Belair/  Afunda da furunculosidade”: e a bunda explícita voltada pro público atônito.

Apocalipopótese  
     Caos/ carne /carnaval. Anitta, essa de agora, perderia feio para o esplendor de Diana, a de outrora, caçadora que lançava sua presa aos quatro ventos. Quer dizer, até mesmo em Clementina de Jesus, a própria, que estava no palco, e foi premiada com um sangrento naco logo nos reluzentes sapatos que ela estava exato estreando.  “Um presente trazido de Paris por ´meu filho branco´ Hermínio Bello de Carvalho” –, como confessaria ainda no Rio, a mim e ao poeta Francisco Marcelo Cabral, quando a convidamos a vir a Cataguases.  A debutante Clementina: um misto suburbano de ingenuidade, timidez e favelado orgulho. Na noite da final, Clementina (en)cantou e magnetizou todos nós com aquela voz rascante, a voz de Quelé – sua força, sua doçura, sua resistência. Ah, sim, esqueci de dizer: as grandes vedetes do Festival estavam na verdade em cena, mas não eram propriamente concorrentes. Tantas foram as celebridades trazidas para o júri, que resolvemos colocá-las no avantajado palco do Cine-Edgard, cenografado com belos e funcionais praticáveis pelo artista plástico pernambucano Raul Córdula. Ali com certeza “nossas estrelas” iriam brilhar melhor. E não era pra menos.

O Juri de 1970 em cena: entre outros, na primeira fila, Luiz Carlos Maciel,
Clementina de Jesus, Francisco Marcelo Cabral. 
Atrás, Marina Colasanti; atrás dela, Neide e Álvaro de Sá.
 Atrás deles, Affonso Ávila. No fundo,Lúcio Alves.

     Acredito que jamais houve um Festival de Música com jurados daquele jaez: de BH, o casal de poetas Laís Correa de Araújo e Affonso Ávila; do Rio, além de Clementina de Jesus, presidente de honra, o poeta Affonso Romano de SantAnna, acompanhado da Editora do Caderno B do Jornal do Brasil,  Marina Colasanti (os dois começaram a namorar em Cataguases e estão juntos até hoje, evoé!), o crítico underground do Pasquim e colunista de Última Hora, Luiz Carlos Maciel, o crítico musical de Veja, Antônio Chrysóstomo, o do Globo e da TV Tupy, Nelson Motta, o então poeta-processo Walter Carvalho – hoje cineasta e um dos maiores fotógrafos do cinema nacional –, além do estado maior do poema processo: o casal de poetas Neide e Álvaro de Sá e mais Moacy Cirne e o papa Wlademir Dias-Pino. Álvaro, Moacy e Wlademir não estão mais aqui. Mas seus poemas resistem em processo.  
     O júri votou na música da Equipe Mercado como a melhor daquela noite e criou-se o chamado quiproquó. Joaquim Branco e eu fomos convocados pelo prefeito para uma reunião com o eminente delegado de polícia e o advogado oficial da comarca, ou coisa que o valha. Tínhamos que decidir: ou a Equipe Mercado voltava pro Rio ou o Festival terminava ali. Acabamos ficando com o Festival – e o Mercado (eu e Periassu somos amigos até hoje) e quase todo mundo compreendeu. Quase, porque a Veja, a Manchete e os jornais do Rio esbravejaram até mais não poder, principalmente o Carlinhos Oliveira, que desceu o pau na “arbitrariedade” durante vários dias em sua coluna do Jornal do Brasil. Ou meu saudoso amigo Luiz Carlos Maciel, que mesmo com seu estilo soft & elegante, cobriu de elogios o Festival, mas chiou a mais não poder com a malasorte da Equipe Mercado. Mais do que nunca, Cataguases foi o cais, o caldeirão de onde caía o caos da criatividade – pra nunca mais. Ciao, apocalipopótese!  
     Ficou/ficaram para mim as muitas amizades feitas naqueles dois festivais. Muitas delas para sempre, como as de Maria Alcina e Marcus Vinícius, dois caríssimos que me deram a honra da presença quando lancei meu livro Há Controvérsias 2 em São Paulo.

Maria Alcina e RW, Lançamento Há Controvérsias 2,
São Paulo, 2011. 

Livraria Martins Fontes, São Paulo, 2011: RW olha para 
Maria Alcina que olha para  um Marcus Vinícius distraído com a fotógrafa, 
a escritora Eltânia André.



26 de jun. de 2020

APITOS DE NOEL EM CATAGUASES



     Dias desses, meu amigo e parceiro Eduardo Henriques me encomendou um pequeno texto sobre a canção Três Apitos de Noel Rosa, uma das selecionadas para a live que iria fazer em companhia do tecladista Dé.  Foi quando lembrei-me dos apitos da fábrica de tecidos da Cataguases de minha infância. Ao chamarem os operários em plena madrugada, os apitos acordavam a cidade e eram nosso mais certo relógio. Às duas da tarde a fábrica voltava a apitar para a troca de operários. Era quando mamãe gritava: “Ronaldo, Rosa, venham que está na hora do café... a fábrica já apitou!”. Como tudo começa e acaba em Cataguases, foi também aqui que a Fina, a musa-operária de Noel – a que era “mesmo artigo que não se imita” –, acabou se finando.
Vejam o vídeo no link a seguir:
https://www.youtube.com/watch?v=tOVvYXnnOx4

4 de jun. de 2020

A residência das rugas


      Cachaça, Cartola e Cavaquinho. Foi num bamboleio de embriaguez e delicadeza, na musicalidade e manemolência dos compassos surgidos desse soberbo trio de criadores que o samba-no-pé desceu da Mangueira e evoluiu pela cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um tripé de bambas, onde Cachaça é Carlos, Cartola é o próprio e Cavaquinho é naturalmente Nelson – dramático, soturno, definitivo: “Se eu for pensar muito na vida/ morro cedo, amor./ Meu peito é forte/ nele tenho acumulado tanta dor./ As rugas fizeram/ residência no meu rosto/ não choro pra ninguém/ me ver sofrer de desgosto”.
       O corpo emborcado, como se aconchegasse aquele violão que acariciava de forma estranha, com o polegar e o indicador, dando margem ao indefectível cigarro preso entre os dois próximos dedos. O olhar entre sério e desprotegido, mesmo quando sob grossas lentes, a pele parda-quase-cobre realçando a cabeleira branca. Nelson Cavaquinho fazia bela figura em cena, assumindo a voz devastada por noitadas (“Ela é rouca como a daquele americano, o Armstrong – mas eu tenho sentimento!”). Bom de boemia, de música, de amores, ele viveu em permanente dificuldade e não viu em vida a retribuição financeira por seu talento. “Me dê as flores em vida/ um carinho, a mão amiga/ para aliviar meus ais./ Depois que eu me chamar saudade/ não preciso de vaidade/ quero preces e nada mais”. 
     Na música, como na vida, Nelson casou muitas vezes. Fora Guilherme de Brito, co-autor de alguns de seus maiores sucessos, foram inumeráveis os parceiros e é sempre temerário afirmar quem fez o quê, letra ou música – num tempo em que as parcerias eram quase sempre por partes: “Faz aí a primeira (letra e música) que eu completo”. E fica ainda mais difícil com Nelson, acostumado a vender com a maior desfaçatez suas criações, como no caso daquela imortal parceria com Cartola, aquela de “Não quero mais/ amar a ninguém./ Não fui feliz/ o destino não quis...”. Pois é, Nelson vendeu, mas justificou-se com Cartola: “Bem, eu vendi a ´minha´ parte, né?”. Ainda bem.
     Na verdade, Nelson era maior que tudo isso. As ideias eram sempre dele e sua marca está gravada em cada um de seus mais que antológicos sambas. São composições que oscilam entre a morte e a amargura, mas com tiradas de um inesperado humor – a nata da malandragem gingando em capoeira com a vida. “Em Mangueira/ quando morre/ um poeta/ todos choram./ Vivo tranquilo/ em Mangueira porque/ sei que alguém/ há de chorar/ quando eu morrer”. 
     Morto em fevereiro de 1986, Nelson Cavaquinho era mangueira, escorpião e carioca de 1910: no próximo 28 de outubro iria completar 110 anos. Isso se não tivesse dado mais uma daquelas escapulidas de boêmio inveterado, daqueles que só voltam quando o carnaval se for. “Vou partir/ não sei se voltarei/ tu não me queiras mal/ hoje é carnaval./ Partirei para bem longe/ não precisas te preocupar/ só voltarei pra casa/ quando o carnaval acabar”. Bem, espera-se que o carnaval acabe logo. Volta pra casa, Nelson!

19 de mai. de 2020

O Haver & A Hora Íntima: as namoradas de Vinicius



     Passa rápido: no próximo dia 9 de julho, há 40 anos, perdemos o poetinha maior Vinicius de Moraes.  O poeta namorou a morte em vários momentos, em vários poemas de sua vida. Como neste “A Hora Íntima”:

Quem pagará o enterro e as flores
se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral,
dirá de mim: – Nunca fez mal...
Quem, bêbado, chorará em voz alta
de não ter me trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
 no meu túmulo de poeta?”


     Namoro esse que se configura melhor em O Haver, um terrível, mas ao mesmo tempo compassivo, balanço “contábil” no livro de deves e haveres de sua vida – face à morte-namorada. Foi um de seus últimos e também um de seus melhores poemas – o meu preferido entre todos que escreveu.
   A seguir alguns fragmentos de O Haver, esse pungente encontro com a morte, falsa passionária:  

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura 
Essa intimidade perfeita com o silêncio 
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo 
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... 
...
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento 
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade 
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 
...
Resta esse coração queimando como um círio 
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria 
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história... 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza 
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido 
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil. 
...
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. 
...
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.




     Muito antes, naquela célebre canção com o Carlinhos Lyra, inícios da Bossa Nova, Vinicius já parecia antever a morte-namorada, aquela que virá abrir a porta como velha amante sem saber que é a nova namorada: “Se você quer ser minha namorada/ Ah, que linda namorada/ Você poderia ser/ Se quiser ser somente minha/ Exatamente essa coisinha/ Essa coisa toda minha/ Que ninguém mais pode ser/ Você tem que me fazer um juramento/ De só ter um pensamento/ Ser só minha até morrer.”
     Mas o poetinha parecia não morrer nunca. Seu tempo é quando: ontem, hoje, amanhã. Como no poema escrito em Nova York, 1950 – 30 anos antes de sua morte. É verdade: Vinicius parece imune até ao coronavírus – morre ontem, nasce amanhã: 

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.


Ronaldo Werneck
Direto do  Shangri-lá:
Cataguases, 13 de maio
56 dias de quarentena

27 de abr. de 2020

A PESTE PEDE PASSAGEM

Os perigos que Clara temia
 eram a gripe, o calor, os insetos.
Carlos Drummond de Andrade

Magritte by Pury

                             
                                                    curva a cada curva
                                             nos espera a sorte
                                      nos espreita a morte
                            turva turva turva
 sinaliza a peste
               a peste nos pede
                             e damos carona
                                        e abrimos a porta
                                            e insidiosa
                                                 ela vem e vem
                                                                 dona de si dona
                                                                 de todo esse mal
                                                                 dona má madona
                                                       torna quase torta
                                                                               a morte corona

                                           nesse mundo agreste
                                                                  nascerá a flor
                                                                                    após a peste?

                                                havia manhãs
                                                 havia jardins
                                                                 já drummond dizia
                                                         
                                                           agora haverá?
                                                                    haverá namorados
                                   de mãos dadas
   após a peste?
                                             do outro afastados
                                                                 hoje até quando?
                                                 resistir até
                                             até até quando?
                                                         haverá o mar
                                                                  o verde a montanha
                                             será qu´ haverá
                                             beleza tamanha?
                                                             
                                                                  a vida haverá
                                                                               após a peste?
                                               haverá a peste
   após a peste?
                                        casais de mãos dadas
                     namorados beijos
                                          beijos e abraços
                                                        abraços e beijos
                                           haverá namoro
                                                                     haverá após
                                                                               após a peste?

                                               nada de flanar
                                     a casa é o lar
                                                nada desse andar
                                                                       ficar e ficar

                                               dia é bom aqui
                                                tarde boa aqui
                                                noite boa aqui
                                                               aqui que é bom

                                       lá fora a morte
                                                 a morte à espreita
                          muitos mortos vivos
                                               já não há o ar
                                                           tempo de afogar
                                                                        o ar qu´eu respiro

                                          muitos vivos-mortos
                                           muitas pás reluzem
                                           muitas pás se apagam
                                                        pás pás ao sol torto
                                                 pás pás ao sol posto
                                       pás a paz enfim

                                           morte a sorte enfim?
                             não sim não sim-sim
                                              o sol só se solta
                                                 sol que se apaga
                                                                         e desilumina
                                                     sol que some e não
                                                     mais dá cor ao mundo

                                                        sol qu´aprisiona
                                                   sol qu´abandona

a peste pede passagem
               a morte pede carona
       
                                      sim – fechar as portas
                                                                   pra febre malsã
                                                              sua carantonha
                                                           sua  cor corona
                                           dia após dia
                                                     haverá manhãs
                                                                    haverá jardins


Ronaldo Werneck
Cataguases, abril 2020



20 de abr. de 2020

P.J. RIBEIRO: POETA & MESTRE DO MICROCONTO

Estou cada vez mais do lado dos injustiçados, dos oprimidos, dos nervosos,
dos ludibriados, dos medrosos. Estou inteiramente do meu lado.
P.J. Ribeiro (1942-2020)




Pois é, a gente vai envelhecendo, os amigos partindo – e os necrológios vão crescendo, pipocando aqui no blog. O século, este, nem bem chegou a duas décadas e lá se foi, lá se foram, vários nomes homenageados aqui neste Há Controvérsias, entre amigos e conhecidos: Baden Powell, Fernando Sabino, Francisco Marcelo Cabral, Afonso Vieira, Ferreira Gullar, Paulo Fialho, Wlademir Dias-Pino, Wanda Pimentel, Bibi Ferreira, Bernardo Bertolucci, Rubens Gerchman, Anna Maria Maiolino, Slotti, Elke Maravillha, Cairo Trindade, Cauby Peixoto, Celina Ferreira, Nuno Rebocho ... epa! Só agora vejo que não registrei no meu blog a morte de meu amigo, o poeta e jornalista português Nuno Rebocho.
Na época do lançamento de meu livro em Portugal, em outubro passado, Nuno mandou mensagem dizendo que não poderia ir pois estava adoentado. Já em Lisboa, combinei com o poeta Ronaldo Cagiano de irmos visitar o Nuno em Mafra, a 40 km da capital portuguesa. Mas os preparativos do lançamento impediram nossa visita. Em 12 de janeiro, Cagiano me comunicava a morte de nosso amigo. Nuno morou longo tempo em Cabo Verde e, em 15 de janeiro, o Ministério da Cultura e a Embaixada de Cabo Verde em Portugal lamentaram sua morte e divulgaram nota de pesar, descrevendo Nuno Rebocho como “um homem de ´causas justas´ que lhe custaram vários ´amargos na vida´, entre eles a liberdade no regime da ditadura do Estado Novo”. Quando publiquei aqui um texto sobre os 50 anos do maio de 1968 em Paris, Nuno me mandou um depoimento sobre seus anos de cárcere em Lisboa no período salazarista, que incluí em minha postagem. Agora, me vejo em débito com meu amigo, mas pretendo ainda escrever sobre a nossa amizade e o grande poeta e escritor que foi Nuno Rebocho – um ser generoso, que chegou a escrever um poema-prefácio para meu livro minerar O branco.

Peter White? Não! P.J. Ribeiro!



Então – e retomando o “departamento de necrológios século XXI”, que parece não ter fim. Ainda há pouco, entre os que se foram, estava a Tânia Diniz (vejam postagem anterior no meu facebook), e agora vai o P.J. Ribeiro, meu amigo Pedro Branco. Como ela, também Pedro foi levado por um câncer logo no dia seguinte da morte de Tânia, 04 de abril.
Eram três irmãos. Três poetas na Cataguases dos anos 1960: Joaquim Branco, Aquiles Branco e o Pedro. Que era o irmão do meio e também, com todo o direito, “do meio”: além de poeta, contista, dramaturgo e compositor. Editávamos na época o SLD-Suplemento Literatura Difusão, um dos vários jornais literários que faríamos dali para a frente, e fizemos contato com o pessoal do concretismo paulista e do poema processo, que acontecia no Rio. Com seus instigantes poemas visuais, Pedro se tornaria um dos ases do movimento.
 Em 1967, Joaquim Branco, Mauro Sérgio Fernandes e eu escrevemos uma peça a seis mãos em homenagem aos 90 anos da Revista Verde, “Carta aos Ases”. Ali surgia uma canção do Pedro, cantada por seu parceiro Messias dos Santos. Havia na canção uma frase que dizia qualquer coisa como “e verás, digoverás”. Que diabos seria aquele “digoverás”, eu me perguntava, sem coragem de perguntar ao Pedro, pois pensava ser uma palavra-valise daquelas inventadas pelo pessoal do concretismo.
Só depois, vendo a frase escrita, percebi que uma coisa é a frase musical, outra a escrita. Na verdade, apenas uma vírgula ausente na pontuação musical: “E verás, digo, verás”.  Assim também iria acontecer anos depois com “Meu primeiro amor”, quando cantada por Gal Costa, aquele “Na estrada longada vida/ eu vou chorando a minha dor”, que eu vivia me perguntando o que seria essa tal de “longada”, sem atinar para a simplicidade de “na estrada longa da vida/ eu vou chorando a minha dor." Pois é, seu Zé Mané. Acontece com ouvidos incautos como os meus.
Naquele momento, década de 60, já o Pedro despontava com seus mais que criativos poemas, inclusive visuais, que formariam mais tarde seu primeiro livro, lançado em 1976. Foi quando falei pra ele: acho que é Branco demais – Aquiles, Joaquim e agora você. Que tal “Peter White”? – eu disse, brincando. Mas logo lembrei-me do Ribeiro de seu nome, Pedro José Branco Ribeiro – tirei o Branco da jogada e completei: P. J. Ribeiro!

Uma vasta obra



E P.J. Ribeiro ficou, Na verdade, não um pseudônimo, mas um nome que saltava de seu próprio nome: marca, chancela autoral. Assim nasceu P.J. Ribeiro, o escritor que passou a produzir sob esse nome uma série impressionante de marcantes obras em vários gêneros: poemas, contos, minicontos, livros infanto juvenis. Desde seu primeiro livro, Abstrações de um Tigre, 1976, foram vários os títulos publicados: Aturdências (1º de contos), Envidraçados, Um terno tirado do fundo do armário, Besouros falantes, Kiki, a coelhinha festeira, Céu azul de cobalto, Duelo de emoções, Vida Rebelde, O estrangulador de estrelas, Interlocutando, Água solitária, Poemas educados, Coração em festa (o último deles, de 2018) e outros e outros, que o Pedro não parava de publicar.
Já em Abstrações de um Tigre, com trabalhos realizados a partir de 1962, surgiam, ao lado de surpreendentes poemas visuais que fechavam o volume, uma série de poemas-insights, registros de uma sólida trajetória em formação. Destaco alguns exemplos: “Se o que te ama/ não for chama/ não ama”. Ou a assonância-impacto desses dois fragmentos, que remetem a Platão e à dicotomia essência/aparência: “As sombras vivem soprando coisas/ pra dentro da gente”. “O azul aparece/ antes que a gente sinta./ Tinta”. Ou, até mesmo, antecipando os mórbidos tempos de hoje, esse poder visionário de artistas atentos, “... nos olhos fugidios da morte/ existe um adeus/ longo/ longe/ como um canto/ de deus”. E, ainda, “As palavras são feitas de metal/ e têm uma força desconhecida./ O robô não sabe falar./ A peste bubônica fala com a morte/ de seu nome-palavra”. E a pedra-de-toque desse poema “Gerais” de que gosto tanto desde a primeira vez que o li, ainda na década de 60: “minas trabalha em silêncio:/ MINASMORE”.

Dichten = Condensare



Tinha toda razão o irmão Joaquim Branco ao escrever sobre Água solitária: “Quando P. J. Ribeiro, de repente, resolveu botar pra fora todo um arsenal de textos guardado há cerca de 20 anos, ninguém esperava que houvesse tanta coisa boa. Isso o surpreendeu também.Leitores e críticos, não sabendo que aquela avalanche de bons textos vinha de muitos anos atrás, estão recebendo os livros como produções atuais. Tanto melhor”.
Críticos do calibre do poeta Francisco Marcelo Cabral, que afirmou no prefácio de Vida Rebelde: “Os textos densos, concentrados, de P.J. Ribeiro, têm essa característica essencial da obra de arte: uma tensão interna que se resolve na leitura, um desfecho marcado pelo humor, pela reflexão, pela ironia. Nos textos de P.J. Ribeiro experimento o mesmo tipo de fagulha – que, no meu entender ocorre quando prosa e poesia se cruzam – num efeito perturbador de humor artístico, ´modernista´, descarnado!”.
E Chico Cabral cita o próprio P.J. ao escrever sobre suas minipeças: “É que tudo depende essencialmente da estrutura e densidade do texto, emocionalmente falando. Quanto menos, mais emoção. Portanto, a fórmula seria a sintetização da fala, a substituição do excesso, do dispensável, pela sublimação da emoção trabalhada, o biscoito fino, o coito”. É como se ele descrevesse em toda a plenitude aquela definição poundiana para poesia, dichten=condensare, leia-se “poesia é condensação”.

Highlights


E aqui cabe citar ainda alguns highlights, alguns desses flashes que se destacam entre essas short-short-stories – exemplos por excelência do total despojamento dessa mini-micro-proesia. Lembra Dalton Trevisan, lembra Oswald de Andrade, mas é P.J. Ribeiro em toda a sua plenitude: “A vida/ É uma porrada só/ A vida/ É uma porra só/ A vida/ É pó”. Ou “Quero morrer!/ Você tem alguma ideia melhor?”. Suas agudas observações, extratos do cotidiano à la Nelson Rodrigues & A vida como ela é, como nos exhibits a seguir.  
“Tenho dois amigos inseparáveis/ que me atormentam de dia/e que à noite sempre brigam/ quase levando-me ao desespero:/ eu e mim mesmo”. Ou “Areia da grossa/ Areia da fina/ Areia me faça/ Ficar pequenina./ Arraial da roça/ Arraial das minas/ Arraial me cala/ E me arruína”. “Vida e morte/ eis a razão./ Morte ou vida/ eis a canção”. “Opaco/ é o palco/ polaco”. Ou esse bem-apanhada “Coisa de Mineiro: Por trás do morro há outro morro, outro morro, depois mais outro morro, até chegar num lugar sem morro, sem mais morro, sem outro morro. Então morro”.
Ou ainda quando revela um absoluto domínio da enumeração, do encadeamento das palavras substantivas, formando uma espécie de ondulação poética de grande densidade. E ainda com uma profusão de assíndetos, zeugmas e outros artifícios, propositais ou não, essas figuras de linguagem de quem sabe o que está fazendo: “E que o mar devia estar sendo fotografado por alguém naquele momento pra depois ir parar na rede da sala de uma casa qualquer, numa moldura, tanajura, aí eu fico danado, mas vejo que todos gostam e que ninguém vai notar absolutamente nada, é isso aí, minha gente, é isso aí, tudo isso é vida, concha, sal, peixe, mar”.

Poemas educados


Uma de minhas lembranças de meu amigo Pedro Branco na verdade são duas: o seu recato, a sua aparente timidez, que súbito se transformava ao ver uma pista de dança, qualquer uma. Ele era um emérito pé-de-valsa, com um balanço de quem sentia música como poucos. E, no fundo, um romântico incurável, atropelado pela vida, como nesses fragmentos  extraídos de Poemas educados (2018), seu penúltimo livro: “Passei meus tempos de/ infância aturdido/ completamente./ Mas sei que no céu existem nuvens que falam/ umas com as outras,/ confidencialmente./ Majestade, paradeiro ignorado para onde vão/ todas as coisas (boas ou más), não importa./ O necessário é que vão./  Destino incerto, e esta é minha vida:/ cheia de mistérios/ que eu mesmo tento produzir-me/ Espectro que vaga,/ numa noite/ enluarada”. Ou essa súbita constatação: “não tenho/ (nem nunca tive)/ nada a ver com a vida” .
Ou nesse poema sinalizando um metapoema, que remete a Ezra Pound e rebate seu emblemático conceito de serem os poetas as antenas da raça: “Nós, poetas, somos seres/ feitos de carne e osso/e de uma matéria estranha./ .../ No entanto, se por acaso choramos,/não é por conta da felicidade/ que bate à nossa porta./ É que, às vezes, somos vítimas de/ acachapantes dores-de-cabeça/por sermos considerados as antenas da raça”. Mas olhem que P.J. Ribeiro acaba nos trazendo acachapantes dores-de- cabeça quando assume ao acaso o papel de antena da raça e parece prever o que passamos agora com o Covid-19: “Quando eles forem embora/ não restará mais ninguém/ por esses lados./ E os corpos dos que aqui estão/ há muito estarão enterrados/ em pequenas valas./ Que importa? Quem mais importa?/ Quem fica ou quem não volta?”.
E o inusitado de alguns dos ‘poemas educados”, por exemplo o que há de premonitório no de nº III: “– A pena pertence/ apenas/ ao condenado./ – Que deus te livre/ (e guarde)/ do enfarte./ – Quero te ver amanhã:/depois da manhã./– Ao som de banjos/ sonhe com anjos./ – Melhor ficar calado/a falar demasiado”. Ou na surpresa desse quase haicai que foge aos parâmetros e se impõe: “Céu embaçado/ Nuvens carregadas de significados/ Luz fugidia/ Paisagem de prata”.
Destaco ainda o emaranhado de pedras & perdas, nesse exhibit de perfeita concreção: “P E T L A S/ P É T A L A S/ P E D R A S/ P E R D A S”.

Life is very short



“O certo é que tô perdendo a alegria de viver,/ com esse meu coração em férias”, constata P.J. Ribeiro num dos poemas de Coração em férias (seu último livro, de 2018). No prefácio deste livro, o poeta e crítico Ricardo Alfaya escreve – parecendo de certa forma remeter àquele Life is very short, and there's no time da canção We Can Work It Out, de Lennon & McCartney: “O tempo, a questão da finitude, o tempo curto, a urgência de se fazer as coisas enquanto as coisas não acabem, ou nós mesmo não acabamos”. E observa: “Este é um livro escrito por um homem que já completou 76 anos. Alguém que, durante uma longa existência, não encontrou outro sentido para a vida que não fosse o da própria busca desse sentido”.
Há quase em todos os textos um premonitório encontro com a morte, um se acabar de vez, uma intensa angústiamargura. Possivelmente assomado pelo câncer que o matou, o bom humor de P.J. Ribeiro parece ter ficado esquecido: “Já não tenho a resistência de antes./ Hoje, bastante enfraquecido, não suporto mais/ o que suportava tempos atrás./ Daqui pra frente, quero fazer somente o que/ me der na telha, curtindo a vida como todo mundo./É o mínimo a que tenho direito”. Ou “Quando poderei me esquecer de/ tudo e de todos de uma só vez?/ Quando poderei tirar da minha cabeça essa/ ideia cabalística de morrer?”.
E ainda, na mesma tecla, e lembrando os aflitivos poemas pré-morte de Ascânio Lopes: “Essa tosse me trombando, o pulmão entupido/ de nicotina, essa calma nervosa, a par de/ uma manhã que quase me sufoca. Tudo isso,/ acontecendo ao mesmo tempo, me confunde./ Mais tarde, quando as horas chegarem ao/ clímax, lágrimas me descerão dos olhos, que/ antes eram inatingíveis e ainda não sofridos./ E, aos poucos, a vida baterá suave em meu rosto./ Como um leque sopra o vento calmamente/ nas faces dos mais idosos./ Será que ainda valho alguma coisa?”. Ou a secura dessa constatação: “Atualmente, pressinto que eu e todos estamos/ no mesmo barco./ Todavia, nessa hora difícil e tenebrosa, faço-me/ em trapos que, mais tarde, se/ transformarão em outros trapos, os quais/ deverão anunciar meu derradeiro fim”.


MELHORES MICROCONTOS

Joaquim e Pedro Branco, irmãos na vida e na arte”


Aqui, e para terminar, volto ao texto de Francisco Marcelo Cabral, que compara P.J. Ribeiro a Jules Renard, quando ele é mencionado por Gilbert Sigaux no prefácio da edição de seu Journal “...nós nos deparamos com essa qualidade realmente rara num escritor: ele não amplia, ele reduz”. E é exatamente essa capacidade de reduzir, de condensar, que podemos ver em alguns dos melhores microcontos de P.J. Ribeiro que se encontram a seguir, selecionados por seu irmão, o poeta Joaquim Branco.

Clínica
Por favor,
aguarde na recepção.
Pode ser grande
a decepção.

Montanhas de Minas
Olhe, só depois de passar por certas coisas e de notar esta chuva caindo de mansinho e que só aumenta com o tempo é que finalmente tomo coragem, passo as mãos nos móveis da sala e sinto como estão frios. Então percebo lá fora aquelas montanhas de Minas que continuam caladas estupidamente geladas
 olhando para mim.

Cópula astral
Um dia
eu peguei minha luneta
e fui olhar
a lua preta.

Loteria
Se
eu ganhar na loteria
te levo
pra mostrar minha poesia.

Quem quiser o céu que o procure
Quem quiser o céu que o procure,
pois atualmente não ando querendo nada.
Digo o céu real, o firmamento, o finito palpável;
quanto ao impalpável, é outra conversa.

O bem e o mal
Chamaram o Bem para uma partida de futebol.
Quando o Bem deu a saída na bola, o Mal com outra bola fez um gol.
O Bem disse que não valeu; o Mal disse que sim e ficaram naquilo até resolver chamar um juiz pra acabar com o impasse. Quando o juiz chegou disse que valeu sim, que aquele gol era perfeitamente válido.
Só aí o Bem começou a entender o lado mau das coisas.

Situação
Havia duas famílias em Drogary.
Uma pobre, outra rica.
Na rica, tinha poucas pessoas e muita comida.
Na pobre, muitas pessoas e pouca comida.
Pena que só depois de muito tempo os pobres descobriram isto.
Então, já sem forças, quiseram comer os ricos.
Mas não conseguiram.

Misterim
Dom Blake tinha o bigode ralo, raras vezes ia ao banheiro, pois sofria de prisões. Fumava o seu cigarro solitário, deitado naquela cadeira de balanço, vendo tv, relendo o jornal. A empregada chegava, Dom Blake sorria. A empregada saía, Dom Blake olhava de banda. E ficava o dia inteiro pensando naquilo tudo, olhando, pensando...

Bem acima do meu quarto
Bem acima do meu quarto mora uma viúva, com dois filhos pequenos, que atende 24 horas por dia. É só marcar.
Logo abaixo dessa viúva moro eu num quarto cujo telhado é todo, todo-todo, de vidro.

Duas vidas
Artur pensava que podia ter duas vidas.
Casou-se com Joana e Joaquina.
Só depois é que sentiu que só dava pra ter uma.
Largou Joana e Joaquina.

Futuro ao molho pardo
Não sabia que era sua filha, oh, Trude, não almejo tanto, se soubesse garanto que não insistiria.
Agora os dias irão se fazendo como o barro faz telhas e, os pedreiros, casas.
Não me pergunte, Trude, aonde pretendo chegar qu´eu não saberia lhe responder mesmo.
Vamos levando a coisa assim, desse jeito, temperando, preparando um caldo especial.
Pra depois jogar por cima, bem por cima, do nosso futuro ao molho pardo.

Gatilho
Quando vi o revólver encostado na cabeça daquele pobre homem,
gritei:
- Cuidado, vão matá-lo! Não atirem!
Mas eles nem ligaram, acionaram o gatilho e dispararam.
O que não sabiam é que aquele homem se transformara há muito num velho boneco de seda e cortiça.
Que vivia disfarçado de mendigo implorando a morte.

Brasileiros, casados
Do peito de Humberto Barroso desciam lamúrias, perdões, choros e desconsolos. Da face de Marli Castelo nasciam rugas, caminhos, arrependimentos, todos juntos, marcadamente. Do coração de Humberto brotavam paixões, fogos, gelos e cicatrizes.
Da cabeça de Marli subiam conhaques, martinis, sopas e cogumelos inconfessáveis em que se viam envolvidos alguns membros da família. Eles, brasileiros, casados com separação de bens, de muitos bens, nunca realmente se importaram com os outros brasileiros, casados ou não, que passavam fome, que eram tratados como escravos, que jamais teriam a oportunidade de ter um dia uma vida melhor etc. etc.

Acerto de contas
O que Sandra queria mesmo era acertar as contas comigo, e em seguida bater em retirada, não sem antes impingir-me derrotas. Isso eu sempre soube, mas só tive certeza agora quando ela tentou me matar pela segunda vez. Só não adianto mais nada por enquanto, porque senão depois, na hora do julgamento, a coisa pode se complicar. E, caso isso aconteça, não posso jamais cair em contradição.

Cavalaria
Estou entre déspotas.
Com o carro em movimento, penetro por lugares nunca dantes navegados.
Apesar do medo, ainda trago comigo a incrível capacidade de captar milhares de faróis vindos em minha direção ao mesmo tempo.
Mas, se acaso me deparasse com uma cavalaria à minha frente, pronta pra me dizimar, não saberia o que dizer.
Muito menos me defender.