15 de jun. de 2022

Três quartos de melancolia


Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada


É dia claro quando chego ao hotel na Paraíba. Venho da Cidade do Cinema montada na Usina Cultural Saelpa, de João Pessoa. Mais uma noite em (preto e) branco a digitar e editar textos para o jornal eletrônico do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, o “Cineport na Tela”. Nove e meia da matina e caio na cama, exausto de lutar com palavras noite aforadentro.

Ligo a tevê só pra ver. Pra ver se durmo. Mas minha atenção é despertada por um documentário finlandês num canal a cabo, “3 Quartos de Melancolia”, realizado em 2004 por Pirjo Honkasalo (Helsinque, 1947), responsável pela direção, câmera e edição do filme.  Tomo de meu noteboook e anoto com minha caneta Cineport

     Aqui pra nós, o notebook é um caderno sem pauta (por isso sempre desafino) comprado ano passado em Veneza. Tá escrito na capa Notebook, e alguém duvida? Depois, a textura do papel é uma beleza. A Cine/pen/port corre macia por meu Note.  E anoto o que se segue em meu Book, que fica assim mesmo como se segue, pois assim saiu e assim segue. Pois.

Um mundo de silêncio e perplexidade. As sequelas da guerra da Chechênia vistas pelos pequenos grandes olhos de meninos russos na Academia Militar de Kronstadt. Parecem atores-personagens, tal a força dramática dessa pequena gente de carne e osso e amargura. As panorâmicas, a madrugada sanguínea (palavra certa) e fresca sobre as montanhas – tudo lembra pombas e céu escarlate e Raimundo Correa: 

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...


 


     O cavalo na bruma. Os silêncios. Os travellings verticais belíssimos.  Construir um filme. Câmera fechada sobre o silêncio. Sobre o pequeno Aslam, 11 anos, o menino estuprado pelos soldados russos. Close em Adam, 12 anos, que perdeu o pai. Em Milana, 19 anos, estuprada aos 13. Câmera ainda em close sobre Milana, agora abraçada à irmã Kiki, de uns dois anos. Silêncio constrangedor. Milana começa a rezar: “Salva-me da vergonha, meu Deus, bendiga todos os órfãos, ouça minha prece, salva-me da vergonha!”.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais

     A câmera em close sobre os dedos dos meninos. Dos pés, das mãos, desses dedos de crianças que se espreguiçam num acordar para o nada. Choro matinal. Um galo canta ao longe. Um jato risca o céu vermelho. Ao ouvir o barulho, os “olhos estuprados” de Aslam são puro estupor, puro medo e apreensão. Silêncio.


     Tudo no mais perfeito silêncio, que escorre em contrapono às notas de rara pungência da música-tema. A banda sonora corretíssima como elemento de tensão. Pastores e cabras. Câmera passeia em lenta panorâmica sobre montanhas e vales, agora azulados pela semiclaridade, e vai ao encontro de pastores.
 

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

     Exausto, fecho os olhos. Mas custo a dormir, vigiado por olhares infantis que vagam sobre o nada – e mesmo assim me questionam. 

 

João Pessoa, 01.07.2007
in Há Controvérsias 2, 2011

8 de jun. de 2022

Gotas de sangue & poesia

 


Give me the gun, Pumpy! Vociferava o grandalhão-marfim John Wayne – o protótipo do “herói” americano – para o ébano-gigante Woody Strode, o Pump, na sequência-chave do filme de John Ford “O homem que matou o facínora” (The man who shot Liberty Valance, 1962).  “The gun” era o rifle, pedido e passado por Pump a Tom Doniphon (Wayne) segundos antes dele liquidar Liberty Valance (Lee Marvin), o facínora do título em português.  Tempos em que a América-mundo girava em ritmo de faroeste – onde caubóis nem sempre do bem matavam índios nem sempre do mal. E por “índios” entenda-se qualquer bandido, mesmo bandidos não sendo.Tempos que perduram ainda hoje.

A recente tragédia americana com os estudantes de Virginia Tech, em Blacksburg, lembrou-me que exatamente em abril de 1998 – quando de meu retorno a Cataguases, há quase dez anos – eu escrevia em minha coluna “Há Controvérsias” no Jornal do Marcos uma crônica intitulada “Deserto Aborrecido”, que girava sobre o mesmo tema. Não de homens que matam facínoras. Mas de meninos que simplesmente matam o que estiver pela frente.


Nos EUA, mais que em qualquer outro lugar, o mundo realmente gira sobre si mesmo, como balas no tambor de um revólver. E disparates como esse de agora voltam sempre, como se disparassem (palavra certa) em cima da(s) gente(s).  Bush, esse ser presidencialmente inacreditável, declarou que os estudantes “estavam no lugar errado na hora errada”. Parece autorreferência. 

Ao escrever minha crônica, rifles e demais símbolos fálicos abundavam, com licença da palavra.O presidente americano era Bill Clinton, na época às voltas com o escândalo Monica Lewinsky, a moça do charuto, lembram-se? Em 24 de março de 1998, em Jonesboro, Arkansas, os meninos Andrew Golden, 11 anos, e Mitchell Johnson, 13, mataram a tiros quatro estudantes e uma professora durante um treinamento contra incêndio na escola onde estudavam. Um ano depois, aconteceria outra tragédia de grandes proporções numa escola americana, tratada por Michael Moore em filme memorável, Bowling for Columbine/ Tiros em Columbine (2002). Em 20 de abril de 1999, no Instituto Columbine, Colorado, Eric Harris de 18 anos, e Dylan Klebold, 17, atiraram e atiraram e atiraram a esmo – e mesmo a esmo mataram mesmo muitos mestres e colegas.

Perguntas que ainda hoje perduram: como Harris e seu amigo conseguiram levar para a Columbine High School quatro armas pesadas e dezenas de quilos de explosivos? Por que atiraram a esmo, enquanto explodiam quatro bombas, e depois executaram com tiros na cabeça alguns dos melhores atletas da escola? Queriam mesmo comemorar o aniversário de Adolf Hitler, nascido há 110 anos, num mesmo 20 de abril? Não por caso, os matadores de Columbine foram incensados como heróis por Cho Seung-Hui, o atirador enlouquecido que agora em 16 de abril matou 30 estudantes na Universidade Virginia Tech, em Blacksburg.  


April is the cruelest month, escrevia o poeta T.S. Eliot (Saint Louis, 1888; Londres, 1965) em The Wasteland, um dos poemas-marco do século XX. Ezra Pound (que leu The Wasteland no original e fez a mais célebre revisão da história da literatura, totalmente aceita por Eliot) dizia que os poetas são as antenas da raça. Fica então mais uma pergunta: a reincidência desses massacres americanos em abril, este “mês mais que cruel”, contribui para confirmar o poder de antecipação da poesia? 

Fica a pergunta e suas controvérsias. Há uma gota de sangue em cada poema, dizia Mário de Andrade em 1917, muito antes do “modernismo” desses massacres. Matança tá na moda. O mundo, “esse deserto aborrecido”, continua a confirmar o título de minha crônica anterior, dito pelo pai de meu amigo, o escritor Carlos Alberto Castelo Branco, que nesse entretempo se foi para sempre. O pai e o filho. Sim, “pela morte de Deus”. Não “por tiro lá no sertão”, como soava a canção de Sérgio Ricardo com a letra que Glauber Rocha fez para Deus e o Diabo na Terra do Sol.  Nos EUA, antes como agora, a morte vem mesmo de bala encontrada, de tiros acertados por facínoras que matam os homens.  Tiros delivery, certeiros – entregues no/pelo destino, a domicílio. E a vinte e quatro quadros por segundo. Cinema-verdade é isso aí.  A América (não) muda.

29.04.2007


 

 


10 de mai. de 2022

ROBERTO KIMURA SESSENTÃO: ABRE A CORTINA DO PASSADO

Meu amigo Roberto Pereira Filho, o Roberto Kimura – epíteto herdado do pai, o (des)temido chefe de disciplina do Colégio Cataguases nos anos 1950 – acabou de completar 60 anos no último dia 3 de maio. O que me remete às várias de nossas aventuras nos quarenta anos de uma sólida amizade.

Era aí pela metade dos anos 1980 em Copacabana. Kimura morava comigo no apartamento da Constante Ramos e estávamos sempre inventando festas, a casa cheia de amigos e amigas. Uma delas, eu me lembro agora, uma festa natalina em pleno mês de junho. Um triste junho de chuva e frio, climinha que tinha tudo a ver com o Natal. E foi o que fizemos. Chovia lá fora e a noite estava tão ou ainda mais triste quanto na canção. Mas logo a alegramos com o Papai Noel antecipado, aquele Natal de improviso, quando choveram amigos e presentes. Éramos jovens e quase sempre alegres e festeiros como nunca.

 

Cantoras habitués na Constante

Sábado à tarde na Constante. Praia e feijoada: eu já meio dormindo,
o indefectível cigarro sempre nas mãos. Kimura aciona amigos,
cantoras e fãs para mais uma de nossas tradicionais festas. 

Kimura cantava, compunha, tocava violão e acabou por atrair para o apartamento de Copa várias jovens cantoras que ficaram habitués, constantes na Constante. Lembro-me de Eduarda Fadini, que participou comigo –  acompanhada pelo quarteto do maestro Sérgio Botto e do próprio Kimura na voz e violão – do show Tônica com Guaraná, que dirigi no Botanic, espaço “lítero-musical” do Jardim Botânico, então na moda.

Há alguns anos Eduarda fez no Teatro Maison de France o espetáculo Andança, sobre Beth Carvalho, no papel da própria. Quando ao final ela me viu, já no hall do teatro, veio correndo ao meu encontro. Eu já estava de saída, tinha um compromisso, e depois havia muita gente querendo cumprimentá-la. Eduarda me abraçou, perguntou pelo Kimura e disse: “Nunca mais me esqueci de você, Ronaldo, foi com você que fiz meu primeiro show!”. E lembrou-se do Botanic. Confesso que pintou uma certa emoção. Não pensava que a Eduarda ainda se lembrasse de mim, e menos ainda daquele show no Botanic.

Quem também marcou presença no apartamento da Constante foi Mariana Leporace, que praticamente saiu lá de casa direto para  Los Angeles onde foi cantar com a banda de Sérgio Mendes, que é casado com sua irmã, Gracinha Leporace. De volta ao Rio, Mariana faz ainda hoje grandes apresentações na noite carioca e tem vários discos gravados. Encontrei-me com ela há alguns anos no show que fez na Lapa, no antigo Bar Semente, acompanhada pelo piano de minha amiga Sheila Zagury. Primeira pergunta: cadê o Kimura?

E ainda Andréa Bogossian – “de voz belíssima”, segundo meu saudoso amigo e grande ator Luiz Linhares.  Minha grande e querida amiga Andréa, hoje Andréa Dutra, minha parceira na canção Corpo Ausente, que ela gravou em seu primeiro disco e regravou agora em 2021 em seu novo  álbum. Cantora de jazz como poucas, ela fez shows memoráveis com seu quarteto na antológica Modern Sound, e hoje atua com raro brilho no Arranco de Varsóvia. Ao lado de Kimura, Andréa abriu o show de meu amigo e também parceiro (na canção Serigrafia) Carlinhos Vergueiro, que produzi em Cataguases no final dos anos 1980.

Todas elas, essas belas cantoras, só surgiram lá em casa e na minha vida por meio da amizade com o Kimura, que as atraiu com aquele jeito afável, aquele afeto, aquele violão que deixava fascinadas moças, moçoilas & quejandos. Havia, sempre houve, um quê de ingenuidade em Kimura, qualquer coisa de pureza, de encantamento. Que se conservava em nossas nem assim tão puras noitadas.

 

Abrindo a cortina do passado


Na verdade, nosso “escritório” mesmo era o Bar do Nogueira no Baixo Copa, onde assinávamos ponto noite sim, noite também, em meio à infinidade de notívagas damas, músicos, jornalistas, escritores, dramaturgos, atores, cineastas, travestis, bambinas bambambãs no striptease e coisas quetais. Foi naquelas mesas que escrevi grande parte dos poemas-estilhaços-da-noite  de meu livro Doris Day Night. No foco, day by night, a “noite americana”, fácil e falsa, como no cinema.

O Nogueira era a salvação da madrugada de Copa. Quando terminavam os shows das boates da Prado Jr & redondezas o Nogueira se enchia da flora e da fauna da noite. Era uma só festa: nas noitadas daqueles tempos a rua Ministro Viveiros de Castro não ficava nada a dever àquela via Veneto da Dolce Vita. Fellini daria tudo para estar lá, alguém duvida?

“Apliquei no Nogueira” várias de minhas amigas, que sempre comigo ali estavam: as cantoras Andréa Dutra e Neti Szpilman; a poeta e hoje atriz de sucesso Elisa Lucinda; a artista plástica e gravadora Anna Carolina; a fotógrafa Mônica Botkay. Quem eu encontrava sempre no Nogueira era meu saudoso amigo, o cineasta David Neves. Numa daquelas noites, tomado por súbita nostalgia, David me confessou: “Sabe, Werneck, gostaria de fazer um filme chamado Abre a cortina do passado, a partir da Aquarela do Ary Barroso”. Pena que não fez. Mas foi ali, na Prado Jr & cercanias, com direto a tomadas no Bar do Nogueira, que David rodou o filme Fulaninha,estrelado por minha amiga Kátia d´Angelo.

 

Bebel do Tiro

Pois é, meu caro David, vamos então abrir a cortina do passado. E, cortina aberta, há que nos lembrarmos da bela Beatriz, a Bebel do Tiro. Nós a conhecemos numa daquelas noitadas do Nogueira – e Kimura a atraiu fingindo-se de tarólogo, mágico, leitor de mãos, essas coisas. Leu as mãos de Bebel e a conquistou para nossa mesa. Noite seguinte, ela apareceu com, vamos dizer, “um de seus pares de ocasião”– e fingiu que não nos viu. Não era pra menos. Sentaram-se numa mesa ao lado da nossa e logo percebemos que estavam discutindo. De repente, o cara sacou de um revólver e atirou em Bebel, sentada ao seu lado.

Sorte pura: Bebel estava comendo uma pizza e o tiro aconteceu na hora exata em que levava uma fatia à boca, a cabeça abaixada. O estrondo foi assustador: a bala passou por cima da cabeça de Bebel e estilhaçou o imenso vidro que ficava ao lado do caixa do Nogueira. O bar ficou paralisado. O sujeito, que conseguiu a façanha de errar um tiro à queima-roupa,  levantou-se calmamente, foi até o Nogueira, que estava pálido atrás do balcão, sacou de um cartão de visitas e gritou: “Pode ligar e mandar a conta”.

Virou-se, pegou Bebel pelas mãos, entraram num táxi e sumiram Copacabana afora, noite adentro. Kimura tremia, eu tremia, Nogueira estava a ponto de desmaiar. Nunca mais Bebel, nunca mais romance, nunca mais drink no dancing, diria Chico Buarque. Nunca mais aquele sujeito que também nunca mais apareceu para pagar o estrago do espelho. Noites depois, o Nogueira me diria: “melhor assim, Werneck, um cara como esse tem mesmo é que sumir”.

Essa é apenas uma das muitas histórias de nossas noitadas no Baixo Copa. Poderia estar em meu livro Doris Day by Night – não por acaso dedicado também ao amigo Kimura e ao impagável Zé Maria, a figuraça que sempre nos acompanhava Copacabana aforadentro – mas não, não havia como a história tragicômica de Bebel do Tiro virar poema.

 

Cantando parece menino

Sempre que vínhamos a Cataguases, Kimura se apresentava com voz e violão num bar que havia na Rodoviária, de nossa bela amiga Isabel, também Bebel. A Bebel de Cataguases, que acabou partindo pra Espanha (soube há pouco que mora ainda hoje em Madri). Levou o Memórias Póstumas de minha coleção do Machado que eu emprestara – e desapareceu pra nunca mais. O bar da Bebel – essa, esse –, ficava aberto a noite toda. Várias e várias vezes saímos de lá com o sol já adentrando Cataguases lá pelos píncaros da pedreira. E Kimura mandava de lá: “Salve/ Como é que vai?/ Amigo há quanto tempo/ Um ano ou mais/A vida é um dilema/ Nem sempre vale a pena”. Aquela canção do Aldir Blanc de que eu gostava e gosto tanto.

 

Na Cataguases de 1994, ele lança com sucesso seu cd “Espelho do Tempo”, que se destacou na época como a primeira gravação independente na Zona da Mata Mineira. Nas palavras de seu padrinho musical, o compositor Paulinho Pedra Azul, "Kimura cantando parece menino/ e eu escutando e sendo menino/ e o povo das mesas, todos, menino/ e a pequena rima repete menino".

Como um adivinho, Pedra Azul vasculha na memória e encontra o Kimura de 1975, com seu primeiro violão. E, logo em seguida, autodidata, curtindo os progressivos e se desmanchando diante do som de mineiros do calibre de Milton, Beto Guedes, Toninho Horta, Flávio Venturini, Lô Borges, e dele próprio, Paulinho Pedra Azul. Enfim, aqueles que um dia, meninos como ele, sonhavam em fazer seu som correr mundo, correr perigo.

 

Amigo, há quanto tempo

Depois, Kimura sumiu por uns tempos pras bandas de Belo Horizonte. Eu estava lá lançando um de meus livros e, ao passar por ele numa noite de Belô, não o reconheci. Só vi que era o próprio quando ele cantarolou de lá: “Salve, como é que vai?”. Estava de terno e gravata o meu amigo, e ainda por cima cortara a longa cabeleira. Havia casado, virara executivo, trabalhava numa grande estatal, era técnico em informática, ou coisa que o valha.

Durou pouco. Na virada deste século voltamos praticamente juntos pra Cataguases e ele, já descasado e ex-executivo, veio trabalhar comigo, me auxiliando nas edições de vídeo-poemas que eu começava a fazer. Isso durou um bom tempo. Ele estava sempre aqui em casa, almoçava, e comia sempre umas bananinhas: “banana é essencial pra saúde, meu poeta”, dizia Kimura. Ele era e sempre foi “de casa”. Kimura e suas tiradas, sua bananal filosofia, como na dubiedade da marcha carnavalesca do Braguinha: “Yessss, nós temos bananas! Bananas pra dar e vender. Banana, menina, contém vitamina. Banana engorda e faz crescer”.

 

Kimura, Maikóvski & Dilma

 


Nestes últimos vinte anos/ Nada de novo há/ No rugir das tempestades./ Não estamos alegres/ É certo./ Mas por que haveríamos/ De estar tristes? Num de seus últimos shows aqui em Cataguases, realizado em 2015 no antigo Bar Confrarias, Kimura me convidou para falar esse poema de Maiakóvski – “E então, o que quereis?”– na abertura da canção que ele iria cantar. Isso porque ele servia como introdução à música Corsário, de João Bosco & Aldir Blanc. Exatamente como Bosco fez, indicado por Aldir, na gravação de 1986 (composta em 1975, em plena época da repressão militar). Na verdade, os versos de Maiakóvski dialogam em surdina com a letra de Aldir Blanc.

Maikóvski: O mar da história/ é agitado. As ameaças /e as guerras/ havemos de atravessá-las/ rompê-las ao meio/ cortá-las/ como uma quilha/ corta/ as ondas”. Aldir Blanc: Meu coração tropical está coberto de neve, mas/ ferve em seu cofre gelado/ e a voz vibra e a mão escreve mar./ Bendita lâmina grave que fere a parede e traz/  as febres loucas e breves/ que mancham o silêncio e o cais.

Um ano depois do show de Kimura, sou surpreendido pelo discurso de despedida de Dilma Roussef em 2016, que ela fecha com trechos do mesmo poema de Maiakósvki: “Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski”, diz Dilma:Não estamos alegres, é certo,/ Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?/O mar da história é agitado/As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,/Rompê-las ao meio,/Cortando-as como uma quilha corta.".

 

O apreço não tem preço

Sou agora tomado de espanto com esses seus sessenta anos, meu caro Kimura. Como, amigo? Há quanto tempo! Uns 40 anos ou mais. É sempre assim. Eu desejava um trago. Não sei quando eu lhe pago. Se vê depois. Estou desempregado. Ê, vida ruim. Você está bem disposto. Também sofri. Mas não se vê no rosto. Pode ser. Você foi mais feliz. Dei mais sorte com a Beatriz.

A Beatriz? Será a Bebel do Tiro, a Bebel da Rodoviária,  ou essa Beatriz do Aldir?  Pois é, tudo bem. Pra frente é que se anda. Você se lembra dela? Não. Minha memória é fogo. E o l´argent? Defendo algum no jogo. E amanhã? Toma mais um. Já amolei bastante. De jeito algum.  Muito obrigado, amigo. Não tem de quê. Por você ter me ouvido. Amigo é pra essas coisas. Sua amizade basta. O apreço não tem preço. Eu vivo ao Deus dará. Pois é, o apreço não tem preço. Nós vivemos ao Deus dará, agora e sempre.

Amigo é pra essas coisas, querido Kimura. O apreço não tem preço. Salve, salve todas as Bebeis e seus decibeis. Salve meu sexagenário amigo em plena juventude de seu violão e de suas bananas. Bananas que é bom a gente dar assim, os braços cruzados sobre o cotovelo, como me disse certa vez Rosário Fusco: “À noite, o Cristo Redentor cruza os braços para uma banana carioca”. Braços bananais devidamente cruzados para a vida que nos sufoca – pra vida quando é ruim. Salve-se quem puder, inclusive a Marieta,  “que a coisa aqui tá preta”.

Copa, 23.10.1988. Finda a festa dos 45 e já
de pernas pro ar: sempre da pá-virada. Foto Kimura


Ronaldo Werneck

Cataguases, 05/05/22

 

17 de mar. de 2022

HÁ EXATOS 50 ANOS: UH Revista/ Rio, 17.03.72

 

 

O primeiro show de Caetano Veloso depois da volta,
no Teatro João idem, foi uma loucura. Gilberto Gil
repetiu a dose semana passada. Mas a mocidade vai
ficar mais louca amanhã quando o mano Cae e Gil
vão juntar o som no Teatro Municipal. Nem os preços
altíssimos espantaram a moçada. Aqui um papo com Gil.



 Quem atende a porta do apartamento no Flamengo é Sandra, mulher de Gil: “Ah, você quem telefonou... Entre. O Gil está descansando lá no quarto. Sabe... ele está muito cansado, muito rouco, sabe, o show do Teatro João Caetano...”. Enquanto isso, Pedrinho, o filho de Gil, está transando pela sala: “Eu agora não tô mais com medo/ Tô com Pedro”.
   Gil está deitado no quarto, lendo uma revista. Os cabelos são outros, eriçados, black-power, e o corpo também é outro: exatamente 23 quilos mais magro do que quando foi para Londres, em 69. Jogado sobre a cama, um livro de macrobiótica-zen. Mas o sorriso é o mesmo de antes, aberto, baiano: “ O que que há, ô cara, tudo legal?”.

 

Aquele abraço

 


    Fala dos shows do João Caetano, como ele encontrou o público carioca três anos depois, principalmente após os espetáculos feitos “em casa”, em Recife (2, 3,4 de março) e na Bahia (6, 7, 8), com um público já conhecido, já amigo

     – Pois é, cara, o Rio de Janeiro continua sendo, a gente sente na plateia carioca aquela expectativa, aquela conscientização e ao mesmo tempo aquele entusiasmo que só se encontra aqui no Rio, aquela  vibração que acaba se transformando em uma forma de contribuir, de apoiar o que é novo, como por exemplo o que representa Gilberto Gil – após três anos de ausência – cantar 10 músicas inéditas em um espetáculo.  No fundo, o público carioca é quem sabe clicar a coisa, é o exemplo vivo de um happening que só o Chacrinha consegue alcançar em termos de Brasil.

 

Nonsense


     Gil fala em televisão e eu pergunto até que ponto ele seria capaz de botar música nas novelas que estão sendo feitas na televisão brasileira, aquele negócio de o sujeito encarar a coisa em termos profissionais: “Eu quero a música assim-assim, porque o tema da novela é assim-assim”.
      – Pois é, como experiência, eu acho isso muito bom, muito profissional. É quase um teste: o sujeito pede uma música de tal jeito e você faz. Minha experiência com esse tipo de coisa é em cinema. E sempre foi um troço muito honesto. Agora, em televisão, o negócio não dá pé. De vez em quando, dou uma olhada nas novelas da televisão brasileira e realmente sinto que a jogada não é essa: é puro nonsense, de um baixo astral incrível.
    – Claro, em determinadas circunstâncias econômicas, envolvido pelo esquema, o compositor brasileiro acaba por ceder, por conceder. Mas não acredito que ele possa se satisfazer com o produto final, acabado. Pronta, a novela acaba por deturpar a ideia inicial e a trilha sonora termina se perdendo dentro do nonsense geral. Eu não seria capaz de me arriscar numa aventura desse tipo.

 

Cae, Municipal, ingressos

 


     – Você vê, eu e Caetano assinamos um contrato com a Globo para fazermos um show de televisão. Isso ainda em Londres. Pois bem, eu já estou por aqui, Cae está fazendo um espetáculo na Bahia, deve chegar na sexta-feira, e só agora tomo conhecimento – através da imprensa – de que o negócio não é bem esse, de que o espetáculo vai ser realizado no Municipal, com o público pagando preços altíssimos, o que acho incrível.

     – Quer dizer, o show vai ser no sábado e ainda não se fez nada. Inclusive, preciso dar uma ensaiada com o Caetano, pois devemos cantar juntos, ver como fica a coisa, as músicas, sabe como é. E o público, pagando o olho da cara, vai acabar saindo prejudicado, pois o contrato é para a gente fazer um “show de televisão”, onde o timming é diferente, a marcação é outra, essas coisas. Não vai ser um show ao vivo, um espetáculo para o público, como por exemplo esse que fiz no João Caetano.

 

Como antes, nas feiras

 


 Gil esteve recentemente em Pernambuco, fugindo da “loucura da confusão turística” em que se transformou a Bahia: “O negócio todo começou com Beira-Mar, uma canção de parceria com Caetano, que gravei em meu primeiro disco, uma música que nós gostamos muito. A partir daí, e quase sem querer, Caetano se transformou numa espécie de arauto da Bahia. Mas a Bahia é muito forte. Ela resiste”.
 A verdade, no entanto, não é bem assim. Gil saiu da Bahia para ver/rever a Banda de Pífanos de Caruaru e principalmente os cantadores nordestinos, a quem está ligado afetivamente. Mais do que isso:eles representam uma “tradição viva”. E Gil reconhece a importância do cantador, tem a intuição exata de como sacar o novo em cima da tradição. Aquele negócio de “rever para aprender, aprender para renovar”.
– O ideal seria o próprio compositor cantar suas músicas. Como antes, nas feiras medievais: o povo chamava o poeta de cantor. A palavra é soma, caráter & som. No caso de uma parceria, por exemplo, colocar música em determinada letra transforma-se em um processo dialético onde o compositor (cantor) joga com o ritmo, com a melodia exata das palavras com que está trabalhando. Um negócio muito cantabile. O compositor é o homem da praça, o cantor da feira. E sob esse aspecto o cantador é o que existe de mais sofisticado, de mais autêntico. O improviso faz com que a canção fique mais densa. Sacando as palavras na hora, descobrindo seu som, sua música ganha mais substância e se realiza melhor.

 

Safra espanhola


     Pedrinho entra no quarto, Gil começa a brincar com o filho, o fotógrafo aproveita para umas fotos, eu me lembro de Volks-Volkswagen Blues, Com Medo, Com Pedro, pergunto pelas músicas mais chegadas a ele, aquele negócio.

     – Volks-Volkswagen Blues é a música aqui de casa, da família, eu falo em todo mundo, um troço muito afetivo, como Com Medo, Com Pedro. Engraçado é que fiz esta música pensando que a Sandra estivesse grávida. Mas era alarme falso, Pedrinho só nasceu depois, quando a música já estava pronta. Pois é, das músicas antigas, gosto muito de Beira-Mar, que já falei, de Domingo no Parque, Luzia Luluza. Ah, gosto também de Bat-Macumba, resultado do meu contato com os concretistas de São Paulo, uma tentativa de musicar o poema concreto, a funcionalidade do bloco (graficamente), o jogo de palavras, a fragmentação das sílabas, essas coisas. Hoje, minha música é Oriente, Crazy Pop Rock, todas elas feitas durante o verão espanhol.

 

Satélites artificiais



     Depois do Municipal, Gil faz um show em São Paulo e em maio volta a Londres onde tem compromissos. Em agosto, Nova York: ali vai terminar o disco que começou a gravar na Inglaterra, e fazer um espetáculo com Caetano e Gal. Pergunto pela música popular brasileira hoje, como ele vê a coisa agora, depois de tanto tempo no exterior.
     – Sabe, eu estou muito na minha, meu caminho hoje é muito solitário. Meu trabalho é uma coisa muito minha. Inclusive, estive discutindo isso com o Caetano em Londres. Continuamos tão ou mais amigos quanto antes, continuamos morando juntos, mesmo agora na Bahia. Mas nosso trabalho é outra coisa. Há muito tempo não compomos juntos. Cada um está na sua. Em Londres, tentamos repensar a realidade econômica, política, as coisas que aconteceram, o mercado brasileiro, tudo isso.
     – Agora no Brasil, tenho ouvido pelo rádio a música de consumo. Engraçado como são as coisas: ficou o que já existia, o Chico Buarque, o Paulinho da Viola, mais um ou outro. O resto é diluição: são meros satélites artificiais a serviço do sistema de telecomunicações. 
      Deixo também com vocês o link para um programa de tevê de 1972, onde Gil apresenta um arrasador “Back in Bahia”, com direito a uma participação relâmpago de Caetano. Tudo muito no clima do show que os dois fizeram no Municipal. E botaram a mocidade louca, inclusive o jovem entrevistador daquela época:

2 de fev. de 2022

MONICA VITTI , Profissão: escritora.

 Maria Andrea Muncini

e Ronaldo Werneck




       Marcante musa da incomunicabilidade na famosa trilogia de Michelangelo Antonioni – A Aventura, A Noite, O Eclipse –  Monica Vitti, atriz e escritora italiana, é na realidade uma pessoa  sociável, extremamente divertida, que busca  entender e estar “com o outro”, que adora e necessita de uma roda de amigos. É com muito humor que Monica  administra a solidão, melhor forma de ficar de bem com a vida.

       Antonioni a viu pela primeira vez no teatro (“se não me engano, interpretando Feydeau: ela fazia um papel de raro brilho”) e sentiu-se logo atraído: “era uma atriz absolutamente profissional, que sustentava maravilhosamente personagens dramáticos ou cômicos, seja no teatro, no cinema ou na televisão. Convidei-a logo a fazer um teste e assim nasceu A Aventura. Monica Vitti vinha de uma experiência clássica, nunca interpretara nada de moderno. Seria um pecado não lhe dar o papel, pois Monica é um personagem moderno tanto no cinema como na vida”.

       Maria Andrea Muncini encontrou-se com Monica Vitti em Roma no final de 1995, ano em que a atriz  recebeu o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Mas a escritora Monica Vitti estava na verdade contentíssima por outra honraria que acabara de receber do governo francês, o título de Officier des arts et des lettres

  Nesta entrevista, a eterna musa da incomunicabilidade nos comunica suas experiências com os grandes diretores do cinema italiano,  a necessidade que tem do convívio diário com seus amigos e que hoje gostaria mesmo de ser reconhecida é  como escritora. E de grande sucesso: Il letto è una rosa, seu segundo livro, editado pela Mondadori, está desde o seu lançamento entre os mais vendidos na Itália.  Monica Vitti não para. Ainda no ano passado  fez uma série de programas de grande repercussão para a rádio italiana.


Maria Andrea MunciniComo foi essa sua recente experiência radiofônica?

Monica Vitti – No último verão, fui convidada a fazer uma série de programas radiofônicos na Radio 2 e foi uma experiência maravilhosa. Foram 55 programas diários, de uma hora de duração, escritos em conjunto com Roberto Russo e Luciana Lanzarotti e dirigidos e interpretados por mim. O título era Insieme quasi al mare (“Juntos, quase na praia”) e eram programas  culturais, mesclando variedades, música e muita ironia. Recebíamos inúmeros telefonemas, a aceitação era ótima. Foi uma experiência muito importante, que me permitiu passar, somente com minha voz, toda a minha verve artística, cômica, toda a minha alegria. Foi uma aventura muito bonita. Gostaria muito de fazer mais programas radiofônicos.


MAMQual o enfoque de seu último livro?

Monica Vitti –  Está aqui o livro. Il letto è una rosa é, como diz a contracapa, “um rio, um lugar de amores, de abandonos, onde se fala, onde se deixa estar, onde se ama, se odeia, se trai, se chora, se ri, se lembra, se esquece...”, fico meio envergonhada de ler este texto, de repeti-lo. Ele está indo muito bem, foi reeditado recentemente, é um dos mais vendidos no momento. É um livro de certa forma de memórias, ilustrado com alguns desenhos meus. Um relato  sincero que agrada muito aos homens. Mas acho que as mulheres se encontram muito mais em seu contexto, porque ele é muito dirigido para elas, mesmo não abordando exclusivamente o mundo feminino, mesmo que eu me detenha por vezes no relacionamento homem-mulher. Acredito que Il letto è una rosa deixe os leitores com uma espécie de ânsia, mas também de esperança que alguma coisa chegue, que alguma coisa que você tinha imaginado, esperado, salte da janela para dentro de sua casa. A espera é uma coisa bela, é um espaço de tempo muito frutífero. Meu livro fala de espera e esperança na espera.



MAM –  Parece que ultimamente a literatura tem absorvido muito de suas  energias criativas. Com isso você não está deixando o cinema meio de lado? 

MV – Não, claro que não!  O cinema é meu amante, meu zen, minha terapia, meu trabalho, meu jogo preferido. Tive a grande felicidade de estrear exatamente com L’Avventura, que é um dos cem melhores filmes já feitos. Em meus quatro primeiros filmes tive grande sorte, porque comecei com o máximo. Como dizia Silvio D´Amico (fundador da Academia de Arte Dramática de Roma), “o ator deve saber fazer tanto papéis dramáticos quanto cômicos”. Foi o que fiz quando me pediram para fazer papéis em filmes cômicos, de Ettore Scola,  de Alberto Sordi, de Mario Monicelli.  Para as mulheres, é muito difícil fazer rir sem perder a feminilidade, mantendo o seu pudor. Não deixei o cinema de lado. Eu escrevo também para fazer cinema. Escrevi sempre, desde criança. Quando me pediram pra escrever um livro, eu pulei de felicidade. Il letto è una rosa foi antes de tudo uma alegria, porque a Editora Mondadori é uma segurança, pela qualidade de seu trabalho e pela liberdade que eles dão ao autor. Foi um livro escrito com plena liberdade. Acho que as mulheres vão gostar muito porque ele contém todos os desejos psicológicos, todas as fantasias, todas as revoltas, todas as fraquezas. É um livro para as mulheres. Ao escrevê-lo, não pensei em para quem ele era dirigido, mas só em ser sincera ao máximo, falar com extrema sinceridade do que estava ao meu redor.


MAMMonica, seus livros possuem grande poder de fabulação, de ironia, momentos  engraçados,  atraindo os leitores de forma envolvente. Você é assim na vida real?

MV – Claro que sou assim! Eu sou o bobo da corte, a comediante, o clown  para todos os meus amigos, estou sempre brincando, levanto o astral de todo o mundo. Não consigo ficar sem os amigos, senão enlouqueço. Preciso ter sempre alguém comigo, para rir, para brincar.


MAM – À semelhança de seus livros, você também trata com ironia as coisas que ama, como Roma, o cinema, as pessoas?

MV – Espero que sim. Procuro sempre o lado irônico nas coisas e nas pessoas. Às vezes encontro, às vezes não. Mas isso não é grave.  A vida, sozinha, já nos faz rir.


MAM Com Antonioni você viveu um momento extraordinário de sua vida de atriz. Que recordações você tem daquela experiência?

MV –  Não se esquece uma coisa assim tão forte. Fora o nosso relacionamento, que foi muito profundo e longo, a coisa mais importante estava no fato de ele ter me escolhido como a imagem que ele queria de seus filmes. Isto é, a incomunicabilidade através de meu rosto e através de suas histórias foi uma coisa muito bonita pra mim, uma jóia infinita, porque mesmo com toda a minha  ironia eu era aquela personagem do filme. Aliás, os personagens de Antonioni me pertencem muito, pois são personagens extraídos da própria vida. E, ao mesmo tempo, não. Acredito que um ator tem que fazer todos os papéis, senão não é um ator completo. Eu fiz todos, até os mais cômicos, com Alberto Sordi, atravessando toda uma comicidade de que muito gosto.



MAMApós suas experiências como atriz dramática nos filmes de Antonioni, você protagonizou filmes que mostraram sua verve cômica. Quais outros papéis você gostaria de interpretar?

MV – Tive a sorte de começar com Michelangelo Antonioni, que é o máximo em qualidade. Depois, passei por Scola, Monicelli, Alberto Sordi, Buñuel. Sempre trabalhei com autores maravilhosos. Isso é que faz o cinema, bons autores e diretores.  Sem eles, o ator perde o ponto de referência. Meus encontros com os cineastas sempre foram extraordinários. Não existem papéis específicos que gostaria de interpretar no momento. Se houver afinidade entre mim e o diretor, faço qualquer papel. Gostaria, por exemplo, de filmar com Woody Allen. Recentemente, recebi o convite para fazer um filme policial na França, mas ainda não sei se vou aceitar. Principalmente pela minha conhecida fobia de viagens aéreas.


MAMDe onde vem essa sua capacidade de atuar tanto em filmes dramáticos como nas comédias mais rasgadas?

MV – Acho que do convívio familiar.. Eu era a única filha mulher, e menor, com dois homens prepotentes e fortes como irmãos. Um deles era muito divertido.  O desejo de representar me veio muito cedo, por volta dos sete anos. Junto com meus irmãos, especialmente com Giorgio, o mais novo, que era também o mais simpático, eu fazia espetáculos, brincávamos de teatro. Minha estréia teatral foi aos 14 anos no Teatro Reale, aqui em Roma. Na  peça, eu fazia o papel da inimiga de Nicodemos, uma mulher de 40 anos, a protagonista.  Isso porque já naquela época eu era muito alta, com a voz rouca. Eles só me deram o papel porque fui taxativa: ou fazia a protagonista, a inimiga de Nicodemos, ou não mais se tocava no assunto. Dada a minha determinação, eles resolveram arriscar, dizendo qualquer coisa como ‘vamos ver se você consegue interpretar o papel’.  Consegui – e muito bem. Lembro-me que um jornalista escreveu um artigo dizendo que ‘essa menina excepcional, imprevisível, que fez essa personagem maior que ela,  se não for uma grande atriz no futuro terá sido por falta de sorte ou por muita sorte’. Vou sempre lembrar disso, porque essa frase de certa forma condicionou a minha vida. Ir contra meus pais era muito cansativo, mas sentia que representar me fazia bem, me acalmava, deixava eu sair de uma realidade que não me agradava. 


MAMO trabalho do ator pressupõe uma grande capacidade de fazer sua a vida dos outros. Você se acha uma atriz que é sempre ‘Monica Vitti’ ou cada interpretação significa esquecer um pouco de si mesma para encontrar-se no personagem?

MV – Quem dera... se um personagem pudesse mudar a realidade seria muito cômodo. Mas isso não acontece nunca. Não sei se acontece com os outros. Mas como comecei muito cedo, e desde então tendo entendido que a vida não era tão simples e bela como sonhávamos, senti necessidade de me comunicar. E aquele era o meu meio. Acho que a vida é uma coisa e interpretar é uma outra.



MAM  –  Apesar de ser muito bela, você conseguiu se afirmar em papéis onde o que aparece em primeiro plano é sua capacidade de atriz. Você acha que a beleza de uma atriz atrapalha o seu desempenho?  

MV – Eu não sou nada bonita. Nunca acreditei nisso. Na verdade, era a mais feia em minha família. Isso é muito engraçado. Mesmo assim, tive sorte, pois meu rosto nunca foi bonito. Eu tinha a cara certa para  a época, para Antonioni, para Scola, que acho um diretor excepcional. Queria dizer isso para ele a cada manhã. Quer dizer, minha beleza ou minha não-beleza não foi um fato importante em minha carreira.  Possuía também a voz rouca desde o início e achei que poderia ser um obstáculo. Em vez disso, a voz acabou me dando personalidade, sendo uma de minhas marcas, o que sempre achei muito curioso. No fundo, acho que as anomalias não diminuem, mas enriquecem as pessoas. E, naturalmente, os atores.


MAMCom quais atrizes italianas, ou estrangeiras, você se identifica? Você  tomou alguma delas como modelo?   

MV –  Graças a Deus, nunca imitei ninguém. Isso porque era impossível, devido à minha personalidade física e de trabalho. Não posso inspirar-me em ninguém. Posso amar, como amei muito Anna Magnani ou Katherine Hepburn, que era o meu sonho como atriz.  Amei muito as atrizes italianas, mas não podia inspirar-me nelas, porque eu tinha que utilizar o que eu possuía e não aquilo que era dos outros.



MAM –  O que significou o prêmio recebido no último Festival de Veneza por sua carreira como atriz? 

MV –  Gostei muito, é claro. É sempre gratificante receber essas honrarias. Agora mesmo, acaba de me acontecer uma uma coisa maravilhosa: a França acaba de me conceder uma de suas mais altas condecorações, a de Officier des arts e des lettres. Recebi a honraria no Palácio Farnese, um local incrível, com afrescos michelangelescos, arcadas, cores, uma arquitetura que nos faz sentir em outro mundo. Foi um dia belíssimo. Gostaria que minha mãe lá estivesse. Ela que tanto se preocupava com minha carreira tem agora uma filha Officier des arts e des lettres, não é maravilhoso? A França concede muito raramente este prêmio e o bonito é que eu o ganhei devido à minha maneira de ser, meu modo de viver. Claro, o fato de estar sempre ao lado de  importantes personagens me ajudou. Mas com certeza não joguei fora nenhuma possibilidade. Tenho uma vida muito rigorosa. Procuro aproveitar cada momento de meu dia.  Pelo menos 12 horas de cada dia.


MAM  –  Existe algum diretor especial, com quem você gostaria de trabalhar? É importante filmar com atores e diretores amigos?

MV – Tem muitos, todos extraordinários. Espero encontrar o Woody Allen, que conheço, é meu amigo, um homem muito curioso, fora do normal, um artista de uma inteligência construtiva, genial. Um homem muito interessante. Gostaria de fazer um filme com ele. Mas também, vou repetir, com Scola, Monicelli, meus  amigos, com quem sempre me dei bem. Pois a gente se entende com um simples olhar,  já sabe os defeitos e qualidades um do outro, é tudo mais simples.. Os amigos são importantíssimos. Preciso muito de afeto. A amizade é um sentimento extremamente construtivo e necessário. Não posso passar um dia inteiro sem ver alguns amigos. Mas, mesmo não sendo com amigos, às vezes a coisa dá muito certo, como por exemplo meu encontro com Buñuel e André Cayatte, com Roger Vadim e muitos outros.


MAMO cinema italiano atual é carente de bons papéis femininos. A que você atribui isso? Os diretores não têm confiança nas atrizes, os roteiristas enfocam mais o mundo masculino ou as mulheres têm dificuldade em se impor, em falar delas próprias?

MV – É preciso pensar que 98% dos filmes italianos são feitos por homens, que naturalmente “contam” o mundo como conhecem, sob a ótica masculina. Alguns como Antonioni e Scola  abordaram o mundo feminino porque eram curiosos, queriam falar de um mundo que não conheciam.  Por outro lado, as pessoas falam do “mundo feminino”, como se existisse um só. A meu ver, existem muitos “mundos femininos”, uma imensa variedade de personalidades femininas. O mundo feminino é ainda um mundo em evolução, um mundo a ser descoberto. A mulher sempre foi importante não só para a família, para o homem que ama, mas para a sociedade. Porque ela é diferente. Uma das  melhores roteiristas do cinema italiano, conhecida mundialmente,  é Suso Cecchi D’Amico. Mas existem poucas mulheres roteiristas. Mesmo nos trabalhos artísticos, o que prevalece é a masculinidade,  porque a mulher tem que abandonar suas aspirações para se limitar a cuidar da casa, dos filhos, da família.


MAMMonica, você nunca fez filmes dirigidos por mulheres. Gostaria de filmar, por exemplo com Jane Campion ou Francesca Archibugi?

MV – Começaria amanhã mesmo. São duas grandes diretoras, muito sensíveis, com o olhar muito atento não só para vida da mulher mas para suas batalhas, suas esperanças. Porque a mulher é ainda uma potencialidade. Claro que do tempo de minha mãe até hoje as mulheres tiveram muitas conquistas. Se formos hoje a Milão encontraremos muitas mulheres executivas, chefiando indústrias, destacando-se nas ciências, na política. Papéis impensáveis há quarenta anos.



Pré-seleção de perguntas, texto de abertura e tradução de Ronaldo Werneck

O ESTADO DE SÃO PAULO, CADERNO 2 – CAPA

12 DE ABRIL DE 1996