13 de jul de 2018

Goleiro faz cinema




                                                         o mundo
em suas mãos
                 gira
em torno
   do sol
                solta-se
                              além
                dos pontas e dos pés
    e volta
                  num só revés
          gol
 dolo
       tento
                  súbito e violento.

  Durante a Copa do Mundo de 1978, aquela da Argentina, fiz este poema que gira em torno da aflição do goleiro no exato momento que antecede o chute a gol: qualquer chute, contra qualquer gol. Não por acaso, o nome do poema é “O Goleiro Atônito”. Tem tudo a ver com o que eu e milhões de espectadores da aldeia global (vi)víamos pela TV naquele tempo, via satélite. Dentro de casa – como agora, 40 anos depois – a Copa intensificava a angústia.
  E nesta Copa da Rússia vejo goleiros fazendo cinema, às vezes até literalmente. Olhem só: além de goleiro, Hannes Halldórsson – o camisa 1 da Seleção da Islândia que esteve na Rússia – é também cineasta.  Pela segunda vez, “encaixa-se” (palavra certa, tratando-se de goleiros) à perfeição aquela tirada de Ary Barroso, citada por Humberto Mauro: “goleiro faz cinema”.
      A primeira vez deve-se ao próprio Mauro, de quem ouvi o dito de Ary Barroso. Foi numa partida em Volta Grande, num dos intervalos das filmagens de “A Noiva da Cidade”. Carlos Imperial era um dos goleiros e “aceitava todas”, não conseguia segurar nenhum dos chutes dos adversários. Mauro virou-se pra mim: “o Imperial está me oferecendo não sei quantos contos para eu fazer um filme com ele. Pois é, se o Imperial ´faz cinema´ como agarra no gol aí é que eu não vou mesmo filmar com ele”. 
Atuando pelo Flamenguinho de Cataguases, Humberto Mauro foi considerado um dos melhores goleiros da Zona da Mata e acabou literalmente “fazendo cinema”. Já Ary Barroso – grande compositor, mas não cineasta – não passou de um goleiro assim-assim do Aimorés Futebol Clube de Ubá e, para espanto da torcida, jogava de óculos. Face à sua miopia, Ary foi o único goleiro da história a jogar de óculos e, talvez por isso, eu nunca soube que ele “fazia cinema”. Com “fazer cinema”, Ary queria dizer fazer aquelas pontes, aqueles voos, aquelas defesas espetaculares para gáudio do (in)distinto público. Aquelas pontes inacreditáveis que o goleiro Pompeia, um dos meus ídolos, fazia quando goleiro do América nos anos 1950/60.


Pompeia, a Ponte Aérea & Ary Barroso e seus óculos.

Também, pudera: Pompeia – apelidado de Constellation, Ponte Aérea, Caravelle, Fortaleza Voadora – foi trapezista de circo antes de ser o histórico goleiro do América. E certa vez afirmou: “Quem mais gosta da bola é o goleiro. Todo mundo a chuta, só o goleiro a abraça”. Modestamente, entro na história: o treinador do Pompeia quando ele ainda era do Bonsucesso, o técnico Alfinete, acabou vindo parar em Cataguases na década de 50, e foi meu treinador quando eu era goleiro do juvenil do Operário Futebol Clube. Pois é, não sou cineasta, mas já andei “fazendo cinema”. Depois eu conto.
Mas antes fica outro “registro cataguasense”: o primeiro goleiro da seleção brasileira não era cineasta, mas historiador e escritor. Seu nome, Marcos Carneiro de Mendonça (pai da crítica teatral e tradutora Bárbara Heliodora), nascido em Cataguases em 25.12.1894. No Rio, ele jogou pelo América e pelo Fluminense e detém até hoje o título de goleiro mais jovem a atuar pela Seleção Brasileira, pois tinha 19 anos quando de seu primeiro jogo, contra o Exeter City, da Inglaterra, no 21 de julho de 1914. Marcos foi titular da Seleção por nove anos e conquistou os campeonatos sul-americanos de 1919 e 1922.


O cataguasense Marcos Carneiro de Mendonça,
             primeiro goleiro da Seleção Brasileira.

Cinemascope em Juiz de Fora

     Existe um dia do goleiro, se é que vocês não sabem: 26 de abril. Isso porque é o aniversário do Manga, o histórico goleiro do Botafogo e da Seleção. Segundo ele, a homenagem “foi um reconhecimento depois do que passei após a Copa de 1966. Foi difícil lidar com as críticas depois de substituir o Gilmar e falhar contra Portugal”. Então, vejam o que diz “o goleiro que virou dia”: "Habilidoso com os pés, líder e artilheiro, Rogério Ceni foi um dos grandes goleiros que vi jogar, é o sonho de qualquer treinador. Não podemos nos esquecer do Taffarel, o melhor goleiro de todos os nossos cinco títulos mundiais. Foi o mais decisivo de todos eles. Mas, na atualidade, o melhor do mundo é o Neuer, da Alemanha. É frio, tem o respeito da defesa e muita sorte, que não pode faltar a um goleiro”.


O alemão Neuer & Manga: o Dia do Goleiro 

     Também eu achava, e acho ainda, o Neuer um formidável goleiro, que tinha tudo para ser o melhor de todos na Copa da Rússia. Mas o futebol tem suas mumunhas e acabou dando no que deu. A Alemanha não só foi pro brejo como levou o Neuer de cambulhada. Ele às vezes parecia o Rogério Ceni ao atuar até como líbero e distribuir jogadas com os pés dentro de seu campo. No desespero de ver sua equipe desclassificada contra a Coreia do Sul, partiu célere pro campo do adversário, levou um drible e permitiu que a Alemanha levasse o segundo gol com as traves vazias. Acontece com os melhores goleiros.
     Mas vários goleiros andaram “fazendo cinema” nessa Copa da Rússia, uma competição que contou com outros grandes goal-keepers. Não cabe falar do brasileiro Alisson, acho que o menos vazado na Copa, com apenas três gols sofridos. Não teve oportunidade de grandes defesas, pois foram raras as vezes em que a bola chegou às suas mãos em todas as partidas. Sem saber, ele acabou “testado” no último sábado, 7 de julho, em Juiz de Fora. Num jogo pela Série C do Campeonato Brasileiro entre o Tupi e o Cuiabá aconteceu um fato, vamos dizer, histórico.
Em menos de oito segundos, num lance em sequências, o goleiro do Tupi, Ricardo Vilar, fez quatro defesas consecutivas e espetaculares. Vilar fez cinema dos grandes na partida, diria mesmo “cinemascope”. De quebra, ainda defendeu um pênalti. Apesar de o Tupi ter sido derrotado por 3 x 1, a façanha de Ricardo Vilar viralizou e mereceu notícia até mesmo em jornais estrangeiros. Comentaristas locais chegaram a dizer que ele devia estar na Copa, pois foi melhor que o Alisson. Menos, gente, menos!


Pickford & Courtois
Já o inglês Jordan Pickford foi um dos mais exigidos na Rússia, o herói da classificação nas quartas de final, quando a Inglaterra venceu a Colômbia por 4 a 3. Na disputa por pênaltis, Pickford defendeu uma cobrança efetuada por Bacca, acertou o lado em outras duas e ainda viu um chute explodir no travessão. O jovem goleiro inglês, de 24 anos, fechou o gol em quase todos os jogos, principalmente contra a Suécia, com defesas espetaculares, como quando espalmou a cabeçada à queima-roupa do sueco Marcus Berg. Ou ao defender um tirambaço de Claesson vindo da marca do pênalti, ou ainda quando Berg dominou dentro da pequena área, girou bem, chutou e Pickford, com muito reflexo, esticou o braço e jogou a bola para escanteio. Isso sim foi “fazer cinema”.


Pickford numa grande defesa.

    Destaque para o francês Lloris, que espalmou a cabeçada à queima-roupa do argentino Cáceres quando a França vencia ainda por um a zero, numa das defesas mais difíceis da Copa. Também para Igor Akinfeev, da Rússia, que já foi apontado como sucessor do lendário Lev Yashin, o Aranha Negra, um dos maiores goleiros de todos os tempos. Sua fama de grande goleiro, porém, recebeu forte baque quando sofreu um frango histórico na estreia da Rússia na Copa do Mundo de 2014. Uma primeira impressão apagada, agora que Akinfeev é o novo herói russo: em duas defesas nos pênaltis, ele eliminou a Espanha da Copa do Mundo. Tinha razão Raul Plassmann, o comentarista e também goleiro de dois de meus times, o  Cruzeiro e o Flamengo: “Não se deve dizer que o sujeito perdeu o pênalti, ora pois! O certo é dizer que o goleiro defendeu o pênalti”.


Courtois salva a Bélgica no chute de Neymar.

    Sem esquecer o grande (e alto: quase dois metros) Thibaut Courtois, da Bélgica – que, se olharmos bem, é igualzinho ao general De Gaulle; e, se olharmos mal, também. O ótimo goal-keeper Courtois, que fechou o gol contra o Brasil e fez cinema com aquela grande defesa, aquele voo de trapezista que impediu o gol de Neymar no último minuto, o gol que seria de empate e poderia ter virado o jogo.  Pois é, o Neymar, que um comentarista classificou, para espanto da plebe rude, como “inteligência sinestésica” – o que quer que isso signifique: nada, e nada mais que isso. Thibaut desprezou a vitória do time francês na semifinal: “Preferia ter perdido para o Brasil que para a França. Ao menos, eles eram um time que queria jogar futebol. A França foi um time de antifutebol".


O improvável acontece


O Aranha Negra Yashin & Gilmar: o melhor de todos.

Yashin, o grande goal-keeper da seleção russa de 1958, disse certa vez que o melhor goleiro que vira jogando foi o brasileiro Gilmar. O grande goleiro do Corinthians, depois do Santos e bicampeão mundial com a seleção brasileira em 1958 e 1962. E que ficou também conhecido, vejam só, por tomar o histórico primeiro gol de Pelé num jogo entre Corinthians e o Santos. Acontece. Aconteceu também que num amistoso no Maracanã entre a seleção do Brasil e a da Rússia Gilmar bateu um tiro de meta e acertou a cabeça do centro-avante russo (que estava de costas). A bola não só acertou o russo como voltou de uma só vez para dentro das traves, num dos gols mais improváveis da história do futebol. O que Gilmar fez? Foi pra dentro das redes, pegou a bola com toda a calma e, num semi- sorriso, devolveu a pelota pro meio de campo. Ele não teve culpa alguma do gol e a coisa foi tão inusitada que só mesmo um sorriso de quem se garante como goleiro, mas não pode se garantir quando o improvável torna-se subitamente provável.
Pois bem, agora na Copa da Rússia aconteceram dois momentos improváveis, de amargar para os goleiros. Um deles, com o argentino Willy Caballero. Na estreia contra a Islândia, ele por pouco não entregou um gol ao tabelar errado com Rojo. No primeiro tempo contra os croatas deu passe curto para Tagliafico, que foi esperto e sofreu falta. No terceiro vacilo, não teve jeito. Levou azar no toque para Mercado, que saiu todo errado e caiu nos pés de Rebic. O croata respondeu com um chutaço marcando o gol. Sim, Caballero teve mais azar que propriamente culpa. Mas, ao contrário de Gilmar, se desesperou e levou as mãos à cabeça, desatinado.


O desespero de Caballero e o frango de Muslera.
    Também o uruguaio Fernando Muslera andou rateando, até mesmo antes da Copa, com “estranhos“ gols sofridos, um deles muito semelhante ao feito pelo craque francês Griezmann agora na Rússia.  Um frango que selou a vitória da França e o adeus do Uruguai nas quartas de final. O chute veio meio sem força em cima dele, e Muslera nem espalmou nem segurou a bola, que resvalou em suas mãos e foi parar no fundo das redes. Abalado, ele recebeu o apoio dos companheiros. Mas foi só na volta para casa que o jogador de fato se emocionou, ao ver a torcida gritar seu nome no aeroporto.
Esse “frango” do uruguaio Muslera me lembrou, e muito, um acontecimento antológico que se deu comigo quando eu atuava “sob as traves”, defendendo a cidadela do Operal, campeão local. Mas isso fica pra próxima semana, quando vou falar ainda de grandes nomes que atuaram como goleiros, do Papa João Paulo II ao escritor e filósofo Albert Camus, do romancista e poeta russo Vladimir Nabokov ao cantor Júlio Iglesias.

A Copa da Rússia atropelou a sequência
 de minhas crônicas.
Assim, só “retornamos a Paris” 
depois da próxima semana.

5 de jul de 2018

Na Toscana e em Paris: Cendrars & dos Passos


Logo após o fim de semana em que assistimos ao show de Caetano com seus filhos em Juiz de Fora e ao Rei da Vela no Rio, Patrícia e eu voamos pra Londres, na segunda-feira, 23 de abril, início de um giro pelas Oropas. Pintou a primavera, pintou sol e vento no Hyde Park, pintou poema:

             o sol no hyde park


Lá em Londres vez em quando me sentia                     longe daqui
(Gilberto Gil)


um só sol de soslaio havia assim
havia um vento só um vento que cortava
um só vento que vinha e ali só havia

vinha ventando lá de paddington station
encanava em sussex garden vento dobrando
de novo na bayswater road em vendaval

esse vento fortíssimo que nos levava
pra lá pra cá pra lá pro sol de hyde park
como gil para os verdes gramados de lá

como em antonioni num longo blow-up
paisagem que se amplia em desencontro
sol que cega de luz e ver de tanto verde

nada de vento aqui só sol e claridade
a primavera invade o sol de hyde park
o verde o lago cinza o sol os cisnes brancos.

Dias depois, em Florença, jantamos com meu amigo, o jornalista e escritor Alberto Villas. Não nos víamos há quase 40 anos: a última vez foi em Paris, 1979. Alberto estava em trânsito pela Europa “livrando-se de um livro”, se é que me explico bem: a gente se livra de um livro quando ele está pronto – o encargo passa ao leitor. Três dias entre Medicis, Michelangelos, diante de David e Dante e de um pôr de sol de não se pôr defeito – um pôr de sol porreta e circunflexo que só quando sobre o Arno em Florença: Nessuna meraviglia dura più di tre giorni, diz o ditado. Rebato eu: Ma tre giorni possono essere l'eternità.


Ana Paula Farnzoia, Alberto Villas, RW e Patrícia Barbosa: Florença, abril 2018

     Deixamos a eternidade fiorentina para trás e alugamos um carro, a bravíssima Giulietta (Masina!) – e giramos Toscana aforadentro por uns bons e belos quatro dias.


A Torre torta e o Tirreno: de novo o Arno e sua foz, o sol da tarde que cinzazula a Marina de Pisa, esse mar que não afoga, esse mar que afaga as brancas pedras da praia. Arezzo, Vinci, Siena,San Gimignano:


       

         a lua na toscana




num plano geral
num largo longuíssimo
longshot
o sol se desensolara
escapa na linha de fuga
sol que some
e azula a paisagem

no ar um odor de almíscar
em plano próximo americano
namorados se lambuzam de beijos
e chianti e fartos afagos

é primavera e essa lua
essa lua-lua tamanha
lua que explode companheira
e nos segue nos acompanha
pelas tortas trilhas toscanas.


Flanando por Saint-Germain
Em meados de maio, Beaudelaire a tiracolo, flanamos mais uma vez por Paris. Não, desta vez não fomos ao Café de Flore – e por isso novamente, como sempre, me desencontrei do Chico Buarque. Com quem, aliás, nunca me encontrei em Paris. Parece que ele e seu show “Caravanas” andavam por Lisboa na época.  Soube que há poucos dias, já em Paris, Chico e sua nova namorada foram mais uma vez molestados por aquele bando de brasileiros babacas que vivem enchendo o seu saco. Mas Chico é maior que isso.


     Caminhamos mais uma vez pela calçada onde havia a pequena La Hune, minha livraria preferida em Paris, destruída por um incêndio em 2017. Há logo ali uma mega livraria, L´écume des pages. Passamos pela espuma de sofisticadas páginas, pelo Deux Magots, pelo Flore. Não paramos: a livraria e os dois cafés estavam lotados. Mas perambulamos novamente por Saint Germain-des-Près, rumo ao Museu Delacroix, agora para “cumprir a missão” comandada por minha filha Ulla: comprar uma daquelas gravuras dos tigres do grande pintor francês. Aqueles tigres que ficaram como assinatura do mesmo Delacroix  que dizia nem sempre necessitar a pintura de um tema – o que de certa forma abriu caminho para a arte de vanguarda que viria na virada do século XIX.
Depois de Delacroix, parada estratégica na Rue de Buci.  Café de Paris: “un verre de vin et un filet tartare” – esses bocados de felicidade que esquentam, invadem, deliciam a alma. Fomos "fazer o quilo” às margens do Sena, em meio à floresta de estampas, bugigangas  e livros dos buquinistas. Encontrei um Fellini que desconhecia Les propos de Fellini (Éditions Buchet/Chastel/Paris, 1980), escrito pelo próprio; e o Les Mots de Sartre, na edição francesa de 1964 da Galimard. É o meu Sartre preferido, mais um que sumiu de minhas estantes, lido em português na Bahia de 1964 quando de sua primeira publicação no Brasil pela Difusão Europeia do Livro.

Dos Passos: Cendrars



Sartre me leva ao poeta e romancista norte-americano John dos Passos (1896-1970), de quem ele dizia ser, simplesmente, “le plus grand écrivain de notre époque”. E John dos Passos me leva ao poeta franco-suíço Blaise Cendrars (1887-1961): de outra feita em Paris, há coisa de uns dois anos, encontrei na Shakespeare Library uma tradução para o inglês realizada em 1931 por Dos Passos para Le Panama ou les Aventures de mes sept oncles, que foi acrescida de novos poemas de Cendrars em 1959.
Publicado em 1994, o livro traz ainda belas ilustrações a cores do próprio John dos Passos. São histórias mirabolantes das aventuras dos sete tios de Cendrars, contadas pela mãe do poeta, e que povoaram sua infância, como quando ela recebia, devidamente deslumbrada, as cartas de seus irmãos, com selos “exotiques” e envelopes com versos de Rimbaud: ces lettres avec les beaux timbres exotiques que portent les vers de Rimbaud en exergue.
Poeta influenciado e influenciador do cubismo, romancista, eterno globe-trotter (quase tudo que escreveu girou em torno de suas constantes viagens pelo mundo), malabarista de palavras e até de music-hall (num deles conheceu em Londres um “promissor palhaço” chamado Charlie Chaplin), Blaise Cendrars foi mesmo um intelectual de peso e um ser fascinante.
No prefácio de sua tradução, escreve John dos Passos: “Poetas como Cendrars e Apollinaire (os dois eram grandes amigos) formam a linha de frente, bandeiras das barricadas cubistas num grupo onde despontavam Picasso, Modigliani, Marinetti, Chagall (que tinha Cendrars como seu melhor amigo) e que influenciou profundamente Maiakovski, Meyerhol, Eisenstein e as ideias que continuaram com Joyce, Gertrude Stein e T.S. Eliot”.

Aux jeunes gens de Catacazes
Não é pouco. Mas, como eu já disse certa vez, “todo mundo é de Cataguases. Inclusive quem não é”. Cendrars, como todo mundo, acabou virando cataguasense. Amigo de Oswald de Andrade, de Tarsila, de Paulo Prado, Cendrars veio várias vezes ao Brasil e numa delas acabou escrevendo em 1927 um poema para os rapazes da revista Verde: Aux jeunes gens de Catacazes.

Araras, São Paulo, 1924: Blaise Cendrars entre Olívia Penteado e Tarsila do Amaral.
 Mãos no bolso, chapéu na cuca, Oswald de Andrade.

    Possivelmente influenciado por conversas com Oswald, um dos entusiastas da revista de Cataguases, Cendrars acabou trocando as bolas, ao citar em seu poema a modernista Klaxon em lugar de Verde. Um poema publicado com orgulho pelos cataguAses em sua revista, repeitando os “erros” do poeta: Tango vient de tanguer/  Et jazz vient de jaser/  Qui importe l´etymologie/ Si ce petit klaxon m´amuse? Blaise saudava com entusiasmo a “buzina dos catacazes” – não importando se vinda de um soturno e triste tango ou do brilho, da alegre algaravia do jazz.
Então, se de outra feita em Paris encontrei o livro de Dos Passos/Cendrars na Shakespeare, desta vez encontro-me novamente com Cendrars num dos buquinistas do Sena. Ali dou de cara com a alentada (750 páginas) e ilustradíssima segunda edição da biografia de Cendrars escrita por sua filha Miriam: Blaise Cendrars – la Vie, le Verbe, l´Écriture (Éditions Denoel, Paris, 2006). Como introdução, Miriam Cendrars colocou um texto do próprio Blaise escrito no Brasil, datado do Guarujá em 15 de março de 1926, onde o poeta reafirma não gostar lá muito da paz de espírito: Je me reserve le droit de tout réveiller. Acordar, despertar para a aventura foi mesmo um dos emblemas seguidos à risca por Cendrars.



Miriam transcreve parte da intensa troca de cartas de Cendrars com escritores brasileiros, particularmente Paulo Prado. E naturalmente refere-se ao excelente estudo de Alexandre Eulálio “A aventura brasileira de Blaise Cendrars”, de 1978 (há uma edição mais recente, de 2001, da Edusp). Por intermédio de nosso amigo em comum, o poeta Francisco Marcelo Cabral, eu encontrei-me algumas vezes com Alexandre Eulálio (primo do também meu amigo, o saudoso cineasta David Neves) no Rio – e estive inclusive com ele quando do lançamento desse seu livro numa galeria do Shopping da Gávea.
Como ressalta Miriam, citando o livro de Eulálio, “as viagens de Cendrars ao Brasil entre 1924 a 1929 foram em número de cinco, com estadas mais ou menos longas dependendo das circunstâncias. Duas outras, em 1934 (à Amazônia) e em 1935 (por Buenos Aires), como correspondente da imprensa parisiense, foram completadas por uma última, em 1953, seu adeus ao país amado”. Desde Paris, estou lendo aos poucos e gostando aos muitos do livro de Miriam sobre seu pai Blaise Cendrars.

Apollinaire e a Ponte Mirabeau
    Como no diálogo do filme Casablanca, “nós sempre teremos Paris”.  Então mais uma vez “tivemos Paris” – e era mais uma vez uma primavera de clima ameno e azul intenso. Havíamos por coincidência tomado um café na Rue Apollinaire quando descemos para o Sena, o Sena sempre a correr sob a Ponte Mirabeau, onde encontra-se incrustado o  decassílabo famoso do poeta: Sous le pont Mirabeau coule la Seine. E, trazida pelas águas, a voz de Apollinaire (quem sabe refletida na de Cendrars) mesclava-se numa velha gravação à do também poeta e músico Léo Ferré: Sous le pont Mirabeau coule la Seine/ Et nous  amours/ Faut-il qu´il m´en souvienne/ La joie venait toujours après la peine// Passent les jours et passent les semaines/ Ni temps passé/ Ni les amours reviennent/ Sous les pont Mirabeau coule la Seine// Vienne la nuit sonne l´heure/ Les jours s´en vont je demeure.




Ou na precisa tradução de Décio Pignatari: “Que venha a noite e soe a hora/ Os dias se vão não vou embora/ Os dias passam passam mas que pena/ Passado amor/ Nenhuma volta acena/ Na ponte Mirabeau se vai o Sena/ A noite venha sem demora/ Eu fico e o tempo vai embora”. Pois é, eu fico, nós ficamos, afinal era, é ainda, primavera em Paris – toda aquela claridade, aquela luz intensa de não se acabar. Ficamos, fiquemos então com Cole Porter: I love Paris in the spring time/ I love Paris every moment/Every moment of the year/ I love Paris, why oh why do I love Paris/Because my love is here.
Era então maio e todas as tevês, todos os livros, jornais, revistas, toda a mídia, toda ela, todos, todos eles, toda Paris – só se falava daquele maio de 50 anos atrás. Daquele maio de 68 – aquele “carnaval”, aquele chienlit segundo De Gaulle – da força da palavra de (des)ordem de Daniel Cohn-Bendit. A Paris do maio de 1968, com os estudantes e operários tomando as ruas, as ruas que repercutiam com toda a força aquele “é proibido proibir”: a imaginação no poder. Não havia como não me lembrar da voz do Caetano ecoando desde 1968, renovada desde dias atrás em Juiz de Fora: “É proibido proibir! Marielle Presente! Lula Livre!”.

Continua na proxima semana.

22 de jun de 2018

Caetano & Zé Celso: Lula Ausente? Marielle Vive! Marielle Presente! Lula Livre!


     Na segunda-feira, 28 de maio, Caetano Veloso postou em seu facebook um convite para que assistíssemos ao programa Roda Viva, onde Ciro Gomes, seu candidato a presidente da República, seria entrevistado. Foi o bastante para que a turma dos ANTAgonistas caísse de pau, lembrando até mesmo de uma “estrondosa vaia” que ele teria recebido ao gritar “Marielle Presente! Lula Livre!” num espetáculo realizado no mês de abril em Juiz de Fora. Não foi bem assim. Eu estava no Theatro Central naquela noite – e o que aconteceu foi que ele acabou dando o troco aos que tentavam vaiá-lo, que Caetano não é de levar desaforos pra casa.
Sobre sua opção por Ciro Gomes, Caetano falou em recente entrevista: "Acho que Lula deveria estar livre e concorrer à eleição. Meu candidato é Ciro porque, embora eu adore Marina, ele é politicamente mais sólido e representa realmente uma alternativa à superstição neoliberal. Acho até que é por isso que a imprensa o enterra tanto, finge que ele está muito menos no páreo do que de fato está. Estou pagando pra ver um neodesenvolvimentismo experimentalista e audaz.Tudo é complicado num mundo complicado. A América Latina é campeã de assassinatos violentos. Precisamos superar isso. Para começar, não esquecer Marielle”. Fica como registro: ao contrário de Caetano, eu ainda não tenho candidato. A não ser que Lula emplaque.

É vida e alguma coisa a mais
Visto antes, no início de dezembro de 2017, em Brasília (“essa temerosa capital do país”, como Caetano disse em cena), assisti pela segunda vez na noite do último 21 de abril, em Juiz de Fora, ao show “Ofertório” estrelado por Caetano e seus filhos Zeca, Moreno e Tom. De Brasília a Juiz de Fora, o show dos Velosos amadureceu sem perder a verdura da vanguarda, a inovadora criatividade, a invenção – marcas registradas que as apresentações de Caetano sempre trouxeram desde o seu princípio.
“Quis isso, fazer esse show”, disse Caetano, “porque meus filhos são a coisa que mais amo no mundo e eu intuía que seria preciso um exercício de luz nesses tempos e na minha velhice. Estar com eles significa felicidade e aprofundamento da experiência da vida. Estar com meus filhos não é só música. Ou melhor, estar com meus filhos nem é música. É vida e alguma coisa mais”.


Já quase no final da apresentação, Caetano soltou um “Marielle, Presente!”, seguido de um “Lula Livre!”, que repercutiu em aplausos e vários gritos de “Lula-Lula!” por parte da plateia. Parte da plateia, pois ao retornarem para o bis Moreno Veloso entrou em cena soltando também um “Lula Livre!”, no que viu a plateia se dividir entre vaias e aplausos.
Foi a vez de Caetano retomar as rédeas: “eu gosto desse Lula Livre!, dessa aliteração e do que ela representa. Esse arremedo de vaia representa bem essa classe média que tem dinheiro para pagar ingresso num teatro como esse. Quando fizemos o show no Ceará, que era gratuito, ao mencionarmos o nome de Lula o povo repercutiu em uníssono sob aplausos. É isso aí: Lula Livre!”. Foi quando os aplausos calaram as vaias.

Pois é, pra quê
E foi ao ouvir aquelas vaias, mesmo sufocadas pelos aplausos, que eu pensei na coincidência de o golpe de 1964 ter começado em Juiz de Fora. Nada a ver, mas quem sabe? Aqueles tanques de triste história, tanques comandados pelo desastrado General Mourão Filho. Recentemente, em 02 de junho, em sua coluna da Folha de S. Paulo, André Singer escreveu:“O então capitão Olympio Mourão Filho – futuro detonador do golpe de 64 – foi chefe do estado-maior integralista em 1955”.
Pois é, houve um tempo, lá pelos anos 60, que eu olhava Juiz de Fora (nada!) assim meio de soslaio, pensando que dali tinha vindo tudo o que jamais desejávamos. E salvava somente Murilo Mendes e Pedro Nava, sem esquecer a boutade de Drummond: “Pedro Nava saiu de Juiz de Fora. Parabéns para Juiz de Fora. Parabéns pra Pedro Nava”. Bobagens da juventude, a cidade não tem culpa do tresloucado avanço surrealista daquele general de opereta. Hoje eu até gosto de JF, onde tenho vários amigos. Afinal, é aqui perto e com mais recursos que Cataguases: saúde, gastronomia, cultura. Nada (ou tudo?) a ver.
E aqueles tanques vindos de Juiz de Fora há mais de 50 anos foram também lembrados dias antes de Singer por Luis Fernando Veríssimo em 31 de maio, em sua coluna do Globo: “A farsa de 64 começou com um general de opereta, impaciente com a demora das conspirações, decidindo comandar seus tanques contra o governo Jango sem esperar por ninguém. Foi a faísca que incendiou o resto. Muito cuidado com faíscas e generais impacientes, portanto”. De novo: pois é. Ou “Pois é, pra quê?”, como na canção de Sidney Miller: “A revolta latente que ninguém vê/ E nem sabe se sente, pois é, pra quê?”

Vocês não estão entendendo nada!


            Naquela noite, ao sairmos do Theatro Central em Juiz de Fora, vimos que havia uma van aguardando Caetano e seus filhos e vários admiradores que os esperavam. Passávamos por eles quando ouvimos do outro lado pequeno grupo que ainda gritava: “que absurdo! Ele vem em nossa cidade pra falar bem do Lula!”. Pois é, eu pensava, “em nossa cidade, de triste memória”.  Foi aí me lembrei do exaltado, ferino discurso feito por Caetano em 1968, quando da apresentação da música “É Proibido Proibir” naquele Festival da Canção. Não, “É Proibido Proibir” não estava no repertório do show daquela noite, mas 50 anos depois a voz do jovem Caetano repercutia lá do palco, viva, vibrante voz daquele novelhíssimo senhor que jamais perdeu a garra da juventude.
“Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de musica que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado! São a mesma juventude que vão sempre, sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada! Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender! Mas que juventude é essa? Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram no Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, em nada”.

O Rei da Vela: Lula livre!


No dia seguinte, domingo, já no Rio, assistimos também à nova montagem que José Celso Martinez Corrêa fez do Rei da Vela de Oswald de Andrade (assisti à primeira montagem há 50 anos, em 1968, no Teatro João Caetano, e ainda hoje ela permanece como das melhores coisas que já vi em teatro). “A cultura teatral brasileira está no fundo de um precipício", desabafou Fernanda Montenegro, emocionada, ao fim da estreia carioca do espetáculo. “Há muito tempo os nossos palcos não apresentam nada igual. Há uma comoção geral na plateia, silenciosa, porque há uma necessidade de renascermos. Nós temos que renascer nos nossos palcos.”
Da oitava fileira, voz empostada, dirigindo-se a Zé Celso Martinez e ao elenco do Teatro Oficina, que permaneciam no palco, a maior dama do teatro brasileiro resumiu o sentimento geral que tomou a Grande Sala da Cidade das Artes. Foi emocionante rever o Rei da Vela, mesmo sem Renato Borghi no papel principal. Com 80 anos, mesma idade de Zé Celso, Borghi foi o Rei da Vela na montagem original de 1968 e fez novamente o personagem agora, durante a temporada paulista. No Rio, foi substituído por Marcelo Drummond, que eu vira atuando em 2011 anos em Paraty, na Flip que homenageava Oswald de Andrade. 
    Absolutamente nu, na “Macumba Antropofágica”: outra daquelas desconcertantes apresentações do Teatro Oficina – ele e todo o elenco, Zé Celso inclusive, nuzinhos da silva, numa frenética, desenfreada antropofagia de dar inveja a Oswald de Andrade. Vinho e frutas, índios canibais, Napoleão Bonaparte, o compositor Carlos Gomes, a Revolução Francesa, bolcheviches... Teve de tudo no caldeirão lotado, ou seja, cerca de duas mil pessoas na tenda do telão da Flip. Uma verdadeira apoteose Uzyna Uzona.



Lembro-me também que houve uma outra montagem do Rei da Vela no ano 2000, no CCBB/Rio, dirigida por Enrique Diaz, com seu grupo, a Cia dos Atores. Por acaso, na estreia sentei-me ao lado de Renato Borghi. Na saída, conversamos um pouco e Borghi me disse ter gostado dos dois atores que interpretaram o Rei da Vela: Marcelo Olinto (Abelardo I) e Marcelo Valle (Abelardo II) e também da Drica Moraes fazendo a Heloísa de Lesbos.  Um pouco daquela gentileza entre confrades, pensei na hora, pois eles nem chegavam perto de sua própria interpretação dos dois Abelardos na montagem dos anos 1960, nem do fascínio da Heloísa de Lesbos da Ítala Nandi, ou mesmo daquela de Dina Sfat, que a substituiu com grande garra. Na época, Enrique Diaz fez uma declaração no mínimo “esquisita”:"Cortei tudo que dava o tom excessivamente marxista, que descrevia o modus operandi do capitalismo, para ficar só a dramaturgia". Pois é, pra quê?



Zé Celso não só manteve o texto original como colocou inúmeros e hilários cacos, numa atuação impagável como a aristocrática Dona Polaca – cantando, dançando, discursando e incluindo no texto referências atuais e ironias a Silvio Santos, João Doria, Geraldo Alckmin, Marcelo Crivella, Janaína Paschoal e até à série “O mecanismo”. Gostei também de Camila Mota como João dos Divãs, talvez por me lembrar daquela surpreendente tirada, que me faz rir desde que vi a montagem dos anos 60: “Eu sou uma Lady, porra!”
A criatividade da primeira montagem foi mantida no cenário de agora, com o palco giratório e painéis artísticos que foram reproduzidos por seu criador original, Hélio Eichbauer. O mesmo Eichbauer que desenhou o cenário para o show de Caetano com seus filhos e também o do recente show de Chico Buarque. Eichabauer já é uma grife quando se fala em cenários de nossos palcos. Aliás, um dos painéis criados por ele para a montagem do Rio Vela acabou virando capa do disco “Estrangeiro”, de Caetano. 
Ao final, como na estreia, Zé Celso fez um  pequeno-grande discurso também gritando Lula Livre! Marielle Presente! Só que dessa vez, ao contrário de Juiz de Fora, o público aplaudiu de pé, num só uníssono que dominou o imenso teatro da Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. Saímos com a alma lavada.

Continua na próxima semana

8 de jun de 2018

CÂNDIDO DE MAIO PUBLICA QUATRO POEMEUS INÉDITOS

     
     Um dos mais conceituados jornais literários do país, o jornal “Cândido”, da Biblioteca Pública do Paraná, editado por Luiz Rebinski e Rogério Pereira, publica em sua edição de maio quatro poemas inéditos que vão compor meu novo livro (ainda sem título definido), que deve sair este ano. Entre vários outros artigos, “Cândido” de maio traz também ótima matéria sobre Waly Salomão e crônica do grande e saudoso poeta e ensaísta José Paulo Paes. 
     Vejam meus quatro poemas na edição virtual (link a seguir), onde eles aparecem sem a minha diagramação original, com os jogos de espaços em branco que costumo imprimir. Na versão impressa de Cândido, que acabo de receber, eles foram publicados na íntegra, como enviei aos editores.


Link para edição virtual de Cândido:
Capa Jornal Cândido (Clique na imagem para ver maior)

Jornal Cândido página 18 (Clique na imagem para ver maior)

Jornal Cândido página 19 (Clique na imagem para ver maior)

27 de mar de 2018

Show do Chico 2: a veia que salta





         O disco Caravanas está rolando no meu carro já há algum tempo. Fora “Tua Cantiga”, fora a própria canção “Caravanas”, há de Havana (de e sobre) um suave, quase melancólico bolero cubano, “Casualmente”, composto com Jorge Helder: “No volverá nunca más/ La canción sentimental/ Que casualmente em La Habana/ escuché cantar/ A uma mujer/ Como ya no veré/ Outra vez nada igual/ (...)/ La canción, la mujer/ El crepúsculo, la catedral/ Hasta el mar de La Habana es lo mismo, pero/ No es igual/ No es igual”. E “A Moça do Sonho”, canção-constatação, belíssima, em parceria com Edu Lobo: “Súbito me encantou/ A moça em contraluz/ Arrisquei perguntar: quem és?/ Mas fraquejou a voz/ (...)/ Há de haver algum lugar/ Um confuso casarão/ Onde os sonhos serão reais/ E a vida não/ (...)/ Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar”.  
   Tem também “Massarandupió”, uma coisa, uma dessas pedras-de-toque tão Chico Buarque, feita com e para o “parceiro mais amado”, seu neto Chico Brown. O mar, o menino, a areia, o tempo. Areia que se faz de ampulheta como se regesse o passar da vida que não volta. É quando no palco as linhas arquitetadas por Hélio Eichbauer se transformam em teias que se movimentam no ritmo das ondas: “No mundaréu de areia à beira-mar/ de Massarandupió/ Em volta da massaranduba-mor/ de Massarandupió/ Aquele piá/ Aquele neguinho/ Aquele psiu/ Um bacuri ali sozinho/ (..)/ É o xuá/ Das ondas a se repetir/ Como é que eu vou saber dormir/ Longe do mar/ (...)/ Devia o tempo de criança ir se/ arrastando até escoar, pó a pó/ Num relógio de areia o areal de/ Massarandupió”.
Em seu livro “Letra e Música 1”, Humberto Werneck registra que “para trás de ´Tem mais samba´, ficou o que Chico chama de sua pré-história musical”: ´Tem mais samba no homem que trabalha/ Tem mais samba no som que vem da rua/ Tem mais samba no pranto de quem vê/ Que o bom samba não tem lugar nem hora/ Vem que passa/ teu sofrer/ se todo mundo sambasse/ seria tão fácil viver´. Mas entre essas canções “pré-históricas” existem coisas como ´Marcha para um dia de sol´, que já prenunciava uma certa participação social: ´Eu quero ver um dia/ numa só canção/ o pobre e o rico/ andando mão em mão/ que nada falte/ que nada sobre/ o pão do rico/ o pão do pobre”.
            Canções que saltam da pré-história para toda a história musical de Chico Buarque, suas recorrentes “assinaturas”, como “Caravanas”, que dá título ao disco e ao show e onde ele ironiza seus vizinhos da Zona Sul carioca: “É um dia de real grandeza, tudo azul/ Um mar turquesa à la Istambul/ enchendo os olhos/ Um sol de torrar os miolos/ Quando pinta em Copacabana/ (...)/ A caravana do Arará/ A caravana do Irajá, o comboio da Penha/ Não há barreira que retenha esses estranhos/ Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho/A caminho do Jardim de Alá/ (...)/Com negros torsos nus deixam em polvorosa/ A gente ordeira e virtuosa que apela/ Pra polícia despachar de volta/O populacho pra favela/Ou pra Benguela, ou pra Guiné// Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ (...)/ Tem que bater, tem que matar, / engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ Ou doido sou eu que escuto vozes/ Não há gente tão insana/ Nem caravana do Arará/ Não há, não há”.

Gumes aguçados


Mas ouvir ao vivo e a cores o cantar de Chico é mais, muito mais, “quase uma epifania”. Ah, as cores, as muitas cores reinventadas pela iluminação de Maneco Quinderé, que se harmonizam com o tom de cada canção. Cores que dialogam com a fantástica cenografia de Hélio Eichbauer, cordas que se entrecruzam no fundo e no alto do palco, onde surge uma espécie de astrolábio como a direcionar as caravanas que intitulam o disco e o show.
Escreve Arthur Dapieve, com rima e tudo: “Passada a polêmica da internet em torno do suposto machismo de ´Tua Cantiga´, ela pode ser apreciada pelo que é: uma linda canção de amor. Os anos me tornaram uma manteiga derretida, sei, sei, mas ao final da última estrofe (´E quando o nosso tempo passar/ Quando eu não estiver mais aqui/ Lembra-te, minha nega/ Desta cantiga/ Que fiz pra ti´) tive de secar o canto dos olhos com os dedos indicadores”.
Quando fez a letra de “João e Maria” para a música de Sivuca, Chico não entendeu o que ele mesmo tinha querido dizer com aquele “e o meu cavalo só falava inglês”. Levou o enigma a Francis Hime, que arriscou: “Acho que é um cavalo muito educado”. Como a canção falava de heróis e caubóis, eu arrisco outra coisa: cavalo de caubói em faroeste (clima de sonho da música) tinha mesmo era que falar inglês. Mas a gente às vezes não sabe mesmo o que quis dizer com determinados versos. Quando escrevi um poema em homenagem a João Cabral, disse lá pelas tantas: “a canção/ a praça/ o perfume/ tudo resta/ incólume/ imantado/ fotograma de gumes aguçados”. Canção, praça (infância), perfume estão presos ao passado, imantados acionadores da memória. OK. Mas, “fotograma de gumes aguçados”? Ah, sim: seria o cinema? Ou “gumes” era uma referência à “faca só lâmina” de Cabral? Vá lá saber. Não tente entender muito o poema, qualquer poema. Nem letras de música. A graça é mesmo o mistério.
Disse um dia Ney Matogrosso: “Eu dançava, embora não seja dançarino. Eu cantava, embora não fosse cantor. E eu atuava porque eu achava que era ator. Nunca subi no palco como uma pessoa. Sempre subi como um personagem”. Chico, ao contrário, diz sobre sua suposta timidez no palco: “Eu percebo que me exponho muito, fico muito vulnerável. Quase todo artista está lá como personagem, esse personagem o protege – a própria roupa de artista é uma máscara. Eu, não, eu estou no palco como pessoa física”.

Fecho com Tom


Pois foi essa pessoa física, de extrema delicadeza e sofisticação, que mais uma vez me encantou naquela noite no Rio de janeiro, ou vice-versa: de janeiro no Rio. Canções acionam a memória, fixam momentos, impulsionam o passado. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta. Vou voltar. Sei que ainda vou voltar. Vou deitar à sombra de uma palmeira. Que já não há. Não vai ser em vão que fiz tantos planos. De me enganar. Como fiz enganos. De me encontrar. Pretendo descobrir no último momento. Um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo sentimento. E bota no corpo uma outra vez. “Gota d´água”, “Sabiá”, “Todo o sentimento”, me emocionavam como da primeira vez – e quase tive que “secar o canto dos olhos”, como Arthur Dapieve. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água.
Quando Chico mandou de lá todo aquele blues de “A história de Lily Braun” (há uma gravação antológica da Gal, mas esse entoar de Chico não fica a dever), Patrícia, “a minha patroa”, a “Patrícia do poeta” – que como eu também adora essa música – me abraçou perguntando se eu estava feliz. Não consegui emitir qualquer som: segurei seu abraço em minhas mãos, meus olhos embotados de silêncio quase lágrimas.Pode serque passe o nosso tempo como qualquer primavera.
Espera. Me espera. Eu vou voltar. No palco, a voz de Chico: “Como num romance/ Era mais um/ Só que num relance/ Os seus olhos me chuparam/Feito um zoom”.
Fecho com Rubem Braga: “A coisa mais importante no momento em matéria de música popular é mesmo Chico Buarque de Hollanda. Sem desfazer em ninguém, porque o Brasil é grande, saudemos Chico Buarque de Hollanda como a bela novidade. Até assusta ver um rapaz tão novo fazendo as coisas tão boas e tão certas. Que a glória, que lhe vem tão fácil, não o atrapalhe”. (in Diário de Notícias, Rio, 13.10.1966).
Fecho com Caetano: “Chico foi, em todas as oportunidades, o mais elegante, discreto e generoso de todos os nossos colegas. Conheço-o bem e sempre soube que é isso que ele é, além de um virtuoso das rimas e dos ritmos verbais”. (in Verdade Tropical, 1997).
E fecho finalmente (nos dois sentidos) com Tom Jobim, o parceiro e maestro soberano, naquele memorável bilhete enviado de Nova York, outubro de 1989:
 “Chico Buarque meu herói nacional. Chico Buarque gênio da raça. Chico Buarque salvação do Brasil. A lealdade, a generosidade, a coragem. Chico carrega grandes cruzes, sua estrada é uma subida pedregosa. Seu desenho é prisco, atlético, ágil, bailarino. Let´s dance! Eterno, simples, sofisticado, criador de melodias bruscas, nítidas, onde a Vida e a Morte estão sempre presentes, o Dia e a Noite, o Homem e a Mulher, tristeza e alegria, o modo menor e o modo maior, onde o admirável intérprete revela o grande compositor, o sambista, o melômano inventivo, o criador, o grande artista, o poeta maior Francisco Buarque de Hollanda, o jogador de futebol, o defensor dos desvalidos, dos desatinados, das crianças que só comem luz, que mexe com os prepotentes, que discute com Deus e mora no coração do povo. Chico Buarque de Hollanda Rosa do Povo, seresteiro poeta e cantor que aborrece os tiranos e alegra a tantos, tantos”.
E Tom termina parodiando o famoso poema que Drummond dedicou a Charles Chaplin: “Ó Francisco, meu querido amigo/Tuas chuteiras caminham numa estrada de pó e esperança.”.