1 de out. de 2026

ZUENIR VENTURA: CATAGUASES É UMA CIDADE DE MUITO CARÁTER

          ZUENIR VENTURA: CATAGUASES É 

           UMA CIDADE DE MUITO CARÁTER


 Lá se foi meu amigo Zuenir Ventura (Além Paraíba, MG, 01.06.31 – Rio de Janeiro, RJ, 22.09.26), mas deixa conosco seus bem vividos 95 anos. Em sua homenagem, republico aqui matéria que saiu em setembro de 2004 na revista Usina Cultural, da Fundação Ormeo Junqueira Botelho, que eu editava na época. Transcrevo na íntegra toda a sua fala e, ao final, “inveja à parte”, publico também na íntegra o mais que generoso email que ele me enviou já do Rio, no dia seguinte à sua palestra.

  

Sou jornalista em tudo o que faço,

é uma segunda pele.

 

Zuenir Ventura esteve no Centro Cultural Humberto Maurono dia 19 de agosto de 2004: noite de autógrafos e palestra dentro do Projeto TIM/Estado de Minas – Grandes Escritores, que tem em Cataguases a parceria da Fundação Ormeo Junqueira Botelho. Ronaldo Werneck mostrou a cidade ao jornalista-escritor e apresentou a sua palestra.  

Aqui, o relato de Ronaldo e a fala de Zuenir.

 

Zuenir: Acho que a vida é o melhor de tudo.



Mostrei hoje alguns aspectos de Cataguases a ZuenirVentura, em sua primeira visita à cidade. Praças, prédios, casas, o Colégio, traços do modernismo. A seguir, o Museu Chácara Dona Catarina e o Centro das Tradições Mineiras. Ali, Zuenir conversou por um bom tempo com as meninas que fazem dança folclórica e foi por elas “aplicado” nas tramas e mistérios do patchwork. À tarde, estivemos no Bairro Goela Seca, onde a jornalista Vera Maciel desenvolve um projeto com crianças carentes, ensinando-lhes leitura de jornal. Zuenir começou fazendo algumas perguntas às crianças, e logo soltou uma provocação, pedindo que lhe perguntassem qualquer coisa, de modo a passar de entrevistador a entrevistado. Uma das meninas não se fez de rogada: “Quanto anos você tem de jornalismo?”. Ao responder “cinquenta anos”, ela soltou um sonoro “Cruz-credo!”, como quem diz: “Nossa! Isso tudo?”.

 



 

Pois assim tem sido a trajetória profissional de ZuenirVentura, capaz de causar espanto e cruz-credos sem fim. Desde os anos 60, não há como falar de jornalismo neste país sem citar o seu nome. Um texto despido de firulas, extremamente elegante dentro de sua objetividade. Uma referência no jornalismo brasileiro, Zuenir foi da Revista Visão, de Veja, do JB, do Correio da Manhã, de Época, entre tantas outras publicações. Atualmente está no Globo, jornal onde assina uma coluna. Fora isso, o distintíssimo senhor Zuenir Ventura usa meias coloridíssimas e maravilhosas, por sinal citadas hoje pelo Veríssimo em sua coluna. Autor de “1968 – O ano que não terminou”, que foi onde tudo começou, a partir daí o jornalista tornou-se escritor. Surgem “Cidade partida’, ‘Crônicas de um fim de século”, “A Inveja”, o livro de Chico Mendes, entre outros. Com vocês, Zuenir Ventura.

 

“Uma cidade de muito caráter”


Eu queria dizer a vocês que eu sou de Cataguases, porque segundo a teoria do Ronaldo todo mundo é de Cataguases, inclusive os que não são. Eu não conhecia Cataguases, cheguei hoje, mas aí, imagina... tive um cicerone como ele, né?, então dei um mergulho pela cidade e já sei tudo. Vocês podem me perguntar, tomar e tal, que eu já sei tudo sobre Cataguases. Foi realmente engraçado, um encontro muito esperado, ansiado, morei perto e não conhecia, conhecia de fama. Realmente eu senti porque essa cidade é uma cidade tão carismática, tão cosmopolita, culturalmente tão cosmopolita. Tem todas as razões porque é uma cidade de muito caráter, não sei se vocês que moram aqui percebem isso. É uma cidade que tem caráter, que tem identidade, você olha e percebe, não se confunde com outra cidade. 

Eu estou vindo de um circuito desse programa. A primeira cidade foi Valadares, a segunda Ipatinga, depois Ubá, e hoje Cataguases. Amanhã volto pro Rio. Eu sou de Minas, e eu disse que morei aqui perto. Nasci em Além Paraíba e um jornal desses aí falava do “paraibano” ZuenirVentura. De Além Paraíba, e com dias de vida, fui para Friburgo, no Estado do Rio. Meu pai era de lá e minha mãe de Minas. De Friburgo, mais tarde, no final da juventude, fui para o Rio onde estou há 50 anos, o que me levou a dizer que assim como têm pessoas de dupla nacionalidade, eu tenho tripla nacionalidade. Eu sou mineiro, eu sou fluminense, eu sou carioca: e aí já começo a falar um pouco de mim. São 73 anos e sempre que alguém diz isso ou eu mesmo digo, fico olhando pra plateia pra ver se alguém diz isso assim, que eu não pareço. Eu fico olhando pra plateia... pra ver se alguém diz. Houve época em que as pessoas diziam que eu não parecia. 

Na verdade, são 73 anos e 50 de profissão. Hoje à tarde uma menininha de Cataguases perguntou meu nome. Logo viu que meu nome é um terror, Zuenir. Eu sou muito traumatizado com o nome, sobretudo quando estou no aeroporto e em geral o alto-falante diz assim: “Senhora Zuenir Ventura, favor se dirigir...” e aí fico no vou, não vou. Pior só o Alcione Araújo que também é “Senhora”. Estávamos os dois no aeroporto, “Senhora Alcione Araújo dirija-se...”. 

O que tem de bom nesse projeto da Tim, dos escritores, é possibilitar esse encontro: vocês não imaginam que legal que é isso pra gente. É bom estar aqui conversando com vocês, olhando na cara. E hoje as relações são muito virtuais, tudo hoje você faz por telefone... você vê: televisão, rádio, até sexo se faz pela internet. Então quando você tem a chance assim de ver corpo a corpo, na cara, a reação das pessoas, você se toca, enfim, eu acho insubstituível isso. É muito legal. E sem falar que possibilita isso, você fazer amigos. O Ronaldo, a gente se conhecia há 50 anos... não falo 50 anos porque ele é jovem. Amizade não depende de antiguidade, depende de intensidade. Você é capaz de fazer uma amizade de infância em um dia. Essa possibilidade de conhecer gente... tenho sido calorosamente recebido em todas as cidades.

 

Escritor por acaso 


A ideia que o escritor faz do leitor é meio abstrata. Às vezes você cria um personagem, tem uma ideia e acha que a sua leitura é única, daí vem o leitor com uma nova leitura. O leitor já vem com certa curiosidade, é uma troca muito saudável, é um bate-papo, uma conversa muito gostosa. Minha vida tem coisas curiosas, ela é regida pelo acaso. Fui jornalista por acaso, fui escritor por acaso, também devo ter sido feito por acaso, mas aí não deu para conferir, pois meus pais já tinham morrido. Claro que deve ter sido por acaso. 

Fui criado em Friburgo, fui pro Rio pra estudar letras neolatinas, um tipo de curso que não tem mais, em que se estudava de tudo: espanhol, italiano, latim, literatura brasileira, era uma loucura. E lá havia um professor que gostava muito de mim, que trabalhava no arquivo de um jornal, o jornal do Carlos Lacerda, Tribuna da Imprensa. Ele sabia que eu tinha dificuldades na vida. Comecei a trabalhar muito cedo, no início com meu pai, que era pintor de parede. Depois num bar como faxineiro, num banco como boy, numa camisaria. Depois comecei a fazer científico à noite e a dar aula de manhã no primário. Aí descobri por acaso o magistério, para pagar os estudos. Fui professor a vida toda, parei há pouco tempo porque me aposentei.

Voltando ao jornal, trabalhei naquele arquivo da Tribuna recortando jornal, atendendo ao público interno. Depois ia ler os meus livros e fazer os trabalhos para a faculdade e ficava muito feliz achando que aquilo era a melhor coisa do mundo. O exercício da escrita jornalística faz muito bem ao estilo, e é verdade que ele expurga a linguagem de adjetivos, de advérbios, você passa a trabalhar com as categorias fundamentais que são o substantivo, o verbo e o sujeito. Teoricamente eu concordava, mas não tinha a menor ideia, a menor vontade. Até que um dia o Sérgio Lacerda quis que eu escrevesse um artigo sobre Camus. Como ninguém sabia, acabei fazendo o artigo, que teve um relativo sucesso. De repente, eu recebi uma proposta para ir para a redação, ganhando três vezes mais. Não tinha como rejeitar, acabeiindo para a redação e de lá nunca mais saí. Hoje não consigo me imaginar fazendo outra coisa, em tudo o que eu faço eu sou jornalista, é uma segunda pele.

 

30 anos de 68




 Passei por vários jornais, ganhei uma bolsa pra França, fiquei um ano lá estudando e voltei já velhinho, estudando já na chamada terceira idade, com 59 anos. Outro acaso: minha mulher estava conversando com Sérgio Lacerda, que era editor da Nova Fronteira. Era 1997, chegamos à conclusão que iriam fazer 30 anos de 68.  Surgiu a ideia de um livro sobre 68. Eu nunca tinha pensado em fazer livro. Já tinha pensado em plantar árvore, ter filho, mas livro era uma coisa que jamais tinha passado pela minha cabeça. Realmente eu não tinha a menor angústia, ansiedade para escrever livro.  

Eu resisti muito para escrever o livro sobre 68, e o papo do Sérgio, aquele papo carioca... Carioca é aquela coisa, tá tudo certo, tudo certo, quando realmente não está. Ou então assim: tá praticamente pronto, quando nunca vai ficar. Passa lá em casa e tal, depois a gente se encontra. Carioca é muito hospitaleiro, muito simpático, mas não é lá muito sério. Eu não levava muita fé no Sérgio e ele acabou ligando pra mim. Fiz o livro, escrevi, me perguntavam que interesse teria o livro após 68. Cheguei a fazer uma aposta com os dois: a cada edição eu pagaria uma garrafa de uísque e um jantar. O livro já está na trigésima nona ou quadragésima edição... e eu nunca paguei nada. Ele pintou numa hora especial, independente de possíveis méritos. A partir daí eu não podia mais dizer não. 

Voltei para o Jornal do Brasil, onde trabalhava, e o editor, Marcos Sá-Correia, me chama um dia e me faz um convite para a Amazônia. Era um mês e pouco depois da morte do Chico Mendes e a Amazônia, o Acre sobretudo, tinha virado assim a meca do jornalismo mundial. Todos os grandes jornais, revistas, televisão, tudo lá. Ele disse que queria alguém que tivesse os olhos descomprometidos, que não fosse um militante da causa ecológica. Ele queria alguém que tivesse uma visão mais distante, mais isenta. Eu falei, então me dá um mês para eu fazer um curso intensivo de Amazônia. Aí comecei a estudar, fui à biblioteca, li, comecei as conversas, entrevistas. Fui pra lá, ia passar quatro dias no Acre, ia descer, continuar a viagem quando conheci um jornalista, de quem fiquei grande amigo, e que me disse: “Eu, se fosse você, ficaria mais aqui, porque acho que tem pistas no anonimato, você pode descobrir coisas ali”.  Liguei pro jornal e falei que ia ficar mais tempo.


O protomártir ecológico



 

A melhor coisa que fiz naquele momento foi ficar. Fiz uma série de reportagens, ganhei o Prêmio Esso, o Prêmio Vladmir Herzog, isso me deu muita alegria, muita satisfação. Foi o maior prêmio jornalístico. Este segundo prêmio tinha o nome de um querido colega meu, amigoque tinha sido morto na ditadura militar, torturado, o Vlado. Na época, o Luiz Schwarz queria publicar como livro a série de reportagens e eu me senti meio que pegando carona no sucesso de 68, isso eu não acho legal. Há pouco tempo o Luiz Schwarz me encontra no aeroporto e diz: “olha, eu tenho uma coleção chamada jornalismo literário, eu queria publicar agora”. Disse que eu não precisava remexer, o ideal seria publicar da forma que foi feita. Então concordei, achei tudo bem. Uma semana antes de mandar as matérias, eu consegui renegociar o meu retorno ao Acre 15 anos depois. 

Saiu esse livro do Chico Mendes, a primeira parte é a aventura desse “ser urbano” que sou eu, lá no meio do mato. Teve aí uma coisa importantíssima: quando eu fui pro Acre eu já tinha 30 anos de carreira e não conhecia nada do Acre, foi tudo revelação pra mim. Encontrei uma identidade cultural, uma história muito bonita. O Acre é brasileiro porque quis, lutou pra isso, para ser brasileiro e não boliviano. Eu fui pra lá sem saber exatamente quem era o Chico Mendes. Sabia vagamente, o Chico ficou conhecido depois da morte, mas ele era conhecido lá fora, ele era reconhecido pelo congresso americano como um personagem fundamental na luta pelo meio ambiente. E eu não sabia exatamente quem era o Chico Mendes e aí conto a história do Chico que era realmente um bravo brasileiro, uma figura extraordinária, um herói, um protomártir da luta ecológica. 

E aí volto depois e confirmo: a sensação que eu tive nessa última viagem era que o Chico estava vivo, como se ele estivesse lá. Porque a causa dele, todas as ideias estavam frutificando. Só pra se ter ideia da sua importância planetária, ele colocou a causa ecológica na agenda mundial. Hoje se discute no mundo o que o Chico dizia há 15, 20 anos atrás. Então foi uma aventura, não só do ponto de vista profissional mas existencial. Fiz grandes amigos lá, trouxe de lá um garoto, com 13 anos para 14 anos, a principal testemunha de acusação dos assassinos. Graças à coragem dele, os culpados foram condenados. Ele acabou ficando sob a minha tutela até ficar maior de idade, com 20 anos. Uma coisa muito intensa na minha vida, essa experiência.

 

O câncer, a inveja



Depois fiz “Cidade partida”, passei 10 meses frequentando uma favela do Rio de Janeiro, convivendo com traficantes. A seguir, “A inveja, o mal secreto”. Na palestra de ontem me perguntaram de qual deles eu mais gosto... sem dúvida o mais sofrido para mim foi “Inveja”. Não pela feitura, mas pelo que me aconteceu. É que no meio do livro... bem, eu tenho o tipo, o biótipo do meu pai, que morreu com 97 anos, então eu tenho essa mania de imortalidade. Como sou muito parecido com ele, fico achando que vou morrer aos 97. Aí no meio dessa história toda eu descobri que estava com câncer na bexiga. Recebi a notícia de que estava com um tumor que poderia ser benigno ou maligno. 

Daí você se amarra na hipótese de que pode ser benigno, daí vem aquela porrada: não, o câncer é maligno. Aí, olha: tudo aquilo que você pode imaginar, a idéia de morte, minha vez chegou... baratinou a minha cabeça e eu levei dois anos fazendo esse livro por isso. Acabei fazendo o livro e até incorporando o câncer ao livro. Então foi por isso, um livro muito sofrido, na feitura, mas em compensação o livro acabou e o câncer também. 

Para fazer o livro, comecei a ler sobre inveja e descobri que tudo já tinha sido escrito sobre o assunto. Mas é claro, é o primeiro pecado. A inveja é o sentimento mais democrático, porque todo mundo tem. E ela dá em qualquer classe, dá entre os mendigos, entre os reis. E o Lúcifer, que era um cara bonito, o mensageiro da luz, brilhante, iluminado, ele tinha inveja. Tudo já tinha sido escrito e custei muito a encontrar o caminho. Aí comecei a perguntar às pessoas, eu perguntei ao motorista de táxi, você tem inveja? Ele disse “não, mas na minha casa todo mundo tem”, ou então aquele outro dizia assim: “não, eu não sou invejoso, mas sou muito invejado”. Muitas vezes quando alguém vinha falar de inveja, já era inveja transformada em admiração, já sublimada. Quando você diz, eu invejo a capacidade, isso não é inveja. Isso é mentira. Inveja é quando você quer que o cara se arrebente todo. Quando você fica com raiva.

 

Não posso ser totalmente feliz num país injusto



Aí eu falei assim: bom, eu vou ao confessionário dos padres, ao divã dos analistas, ao terreiro de umbanda, ao candomblé. Daí então eu comecei a pesquisar nesses lugares e aconteciam coisas muito engraçadas, fora do que eu buscava. O livro é ficção. Bateu a idéia de alguém escrever um livro sobre alguém escrevendo sobre a inveja, aí eu pensei em colocar tudo o que estava acontecendo, daí surge o câncer e eu fico na dúvida se coloco ou não. Acabei colocando essa coisa mais dramática, daí percebi que a inveja e o câncer são parecidíssimos, nenhum dos dois gosta de dizer o nome. Até hoje as pessoas não dizem, é um estigma muito forte. Comecei a ver uma série de analogias entre os dois, é tudo ficção, a única coisa que não é, infelizmente, é o câncer. 

Tem um personagem, a Kátia, uma menina bonita, interessante, insinuante, sexy, ela acaba seduzindo o narrador que, por acaso, era eu.  Rola um clima, então me perguntam o que a Kátia disse quando viu o livro. O quê que minha mulher achou da Kátia, dessa história? Até que um dia resolvi dizer que a Kátia era uma invenção. Obviamente devo ter tido uma parte da Kátia na vida, tudo no nível do inconsciente. O livro é instigante, pois você fica se perguntando sobre o que é verdade e o que é mentira. Nunca as pessoas achavam que a Kátia pudesse ser uma invenção, as pessoas achavam que era uma menina com quem eu tive uma transa. 

Eu e a Mary, minha mulher, estamos casados há 42 anos, somos animais em extinção. Eu sou uma pessoa feliz, só não sou totalmente feliz porque moro num país injusto. Então você não pode ser totalmente feliz. Não tenho deslumbramentos, nunca tive. Eu acho que a vida é o melhor de tudo e eu tenho recebido muito mais do que mereço, eu conheço pessoas para as quais a literatura está na frente da vida, isso não se coloca comigo. 

Eu gosto de andar, todos os dias eu ando no calçadão de Ipanema. Não é só por saúde: gosto mesmo de andar, é a tal da adrenalina. Acho bom caminhar, é bom pra cabeça, é gostoso, eu fico mais inteligente. Às vezes saio de casa com a idéia de fazer a crônica. O problema são os assuntos, e eu escrevo três por semana. É descobrir o tema. Eu transo bem na minha atividade. Não gosto de escrever, mas gosto da escrita: quando dá certo, a gente acha isso. Uso a frase do Armando Nogueira: “se pudesse, parava de escrever e só ficava lendo”. 

 

 

 

Email de Zuenir Ventura

Rio, 20 de agosto de 2004

 

 

“Ronaldo, meu querido: ia deixar pra responder depois, com calma, comentando cada texto, cada poema, cada surpresa – sim, porque você não se cansa de me surpreender com essa sua polissemia, polivalência, politalento. Que excelente poeta você é, cara, e que cronista (mas isso o Alcione já falou). Como disse, ia deixar pra depois, mas aí vi que, se deixasse, ia acabar não respondendo, porque teria que escrever uma resposta pensada, inteligente, à altura do material que você me mandou. É claro que, gostando como eu não gosto de escrever, isso jamais sairia. 

Então me decidi por essa resposta imperfeita, provisória, uma espécie de rascunho do que gostaria de te dizer. Viajei contigo por uma boa hora à Argélia (o link do Camus já é demais), bebi e bati infindáveis papos com o Rosário Fusco, e te invejei de morte disso (como eu quis conhecê-lo em Friburgo!), até voltar a Cataguases, que você me "aplicou", como se dizia naqueles nossos tempos. Com a dificuldade que tenho de resumir em dedicatória o que sinto quando sinto com intensidade, costumo ser atacado de uma paralisante burrice.

Quando você me passou o Inveja para eu autografar, me deu aquele branco e eu não consegui expressar o que foi aquele dia contigo. Eu queria dizer o quanto curti o privilégio de conhecer sua cidade com você, através de sua leitura amorosa, sensível e reveladora, o quanto mergulhei num passado glorioso que mal vislumbrava à distância. Queria sintetizar tudo numa frase como "você, amigo, foi uma das melhores coisas dessa adorável Cataguases que só precisei de um dia para aprender a amar" e não consegui, só saiu besteira. 

Desculpe a incompetência e perdão pela pressa desse rascunho. Mas voltarei a você e a Cataguases, ah, voltarei, Zuenir. 

Mary acompanhou cada passo do nosso passeio e também adorou. Um fraterno abraço pra você, Zu”.

Nâo sei mais o que respondi, até hoje todo pimpão, orgulho à parte, com as palavras do Mestre Zu, querido amigo que se foi. 

 

13 de ago. de 2026

 

MORRE CARMINHA, A POETA

MARIA DO CARMO FERREIRA


 

Grande, enorme poeta, minha amiga e conterrânea Maria do Carmo Ferreira (Cataguases, 21/12/1938 – Rio,12/08/2026),  a Carminha, morreu ontem na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, onde estava internada há tempos, com sérios problemas de saúde. Não teve tempo sequer de curtir como merecia a abrangente antologia de sua obra poética em três belos volumes de capa dura, lançada em novembro último pela Editora Martelo, organizada pelos poetas Fabrício Marques e Silvana Guimarães – e vencedora do Prêmio da Academia Mineira de Letras em 2025.

No último novembro, estive em Belo Horizonte para o lançamento dessa antologia da Carminha, ocasião em que gravei um breve depoimento sobre minha amiga, que pode ser visto no link https://youtu.be/4oeMWo_P9rg?si=YRgEUKGLK0-iD_E3.

Carminha é uma poeta que precisa urgentemente ser lida. É das grandes, reafirmo. Na contracapa do último dos três volumes da Antologia, há o fragmento de um texto meu sobre Carminha: "Jogando habilmente com suas palavras-malabares, ela é uma poeta das melhores. Inexplicavelmente inédita em livro. Os leitores terão agora a oportunidade de conhecer e se espantar a cada página com os instigantes poemas de Maria do Carmo Ferreira. Carminha é poesia e cor-ação: carme, carma, carmim".  

 


 

Cave, carme, carmim e suas pedras de toque, como nesse fragmento de “Essa Menina”:  “Primeiro sem lugar sem rir sem falar/ de um pé ao outro de uma mãe a outra/ alucinando a corda umbilical./ Em posição de estátua/ pulando amarelinha/ fingindo-se de morta/ no nada feito atou sua autonomia.//(...)// Olho-a através do seu ponto de fuga/ no álbum de família./Quem poderia ser? Por quem se pauta?// Passiva de corpo e alma, errando de alvo,/ a menina dos olhos de outra vida.”. 

A seguir, em sua homenagem republico o texto que escrevi para a Revista Eletrônica Chicos há alguns anos.

 

Revista Chicos, 2020

O ENIGMA MARIA DO CARMO/

CARMINHA FERREIRA

Por Ronaldo Werneck

 

Irmã da poeta cataguasense Celina Ferreira (1928-2012), Maria do Carmo/Carminha Ferreira (Cataguases, 1938) é também poeta, e das grandes, apesar de inédita em livro até hoje. Alguns dados de Carminha, por ela mesma: “Maria do Carmo Ferreira, a Carminha, natural de Cataguases, a princesinha da Zona da Mata mineira. Aos 14 anos se tornou poeta por excesso de amor. Morou em Belo Horizonte, São Paulo, radicou-se no Rio por mais de duas décadas e finalmente mudou-se para Niterói. De 1969 a 1973 morou dois anos na Europa e dois nos Estados Unidos, cursando mestrado em Literatura Comparada e lecionou língua e literatura brasileira no Colégio dos Graduados, Universidade de Illinois. Aposentada da Rádio MEC, onde serviu por mais de 30 anos como criadora, tradutora, redatora, produtora e coordenadora de programas literários e lítero-musicais. Tem um livro de poemas inédito, “Cave Carmen”.  

Carminha e eu éramos vizinhos no Rio, quando morei no bairro do Leme nas décadas de 1960 e 70, mas só nos vimos uma vez, quando fomos jurados de um concurso de poesia organizado pela poeta Kátia Bento, que também não vejo há anos. Carminha sumiu há tempos. Soube que ainda anda pelas bandas de Niterói, está sempre na igreja e só fala com Deus e mais ninguém.  Em 1978 escrevi um poema a partir de um poema dela que fora publicado no ano anterior pelo Suplemento Literário Minas Gerais. Mas ela só soube disse tempos depois, quando desenvolvemos longa troca de emails no ano 2000. Os dois poemas, o meu e o dela, vão a seguir, junto com alguns desses e-mails que ela me mandou na ocasião, na verdade poemas sob a forma de emails, verdadeiros “poemails”. Logo depois, ela sumiu de novo, e não nos falamos desde então. Todos os meus poemas que ela cita nesses “poemails” a seguir estão em meu livro “Revisita Selvaggia”, que seria publicado em 2005.

 

A Quem Interessar Possa (*)

Uma pessoa

do sexo

feminino

38 anos

1,65

66 kg

sem lar

sem filhos

sem família

sem negócios

sem esperança

com 108 contos

na poupança.

 

Garante que possui

matéria-prima

para literatura

teatro

baby-sitter

trabalhos manuais.

Gosta de música.

Chega a tocar

de ouvido.

Conhece inglês

e línguas neo-latinas.

É boa datilógrafa.

Cozinha o trivial.

Prefere a natureza

à vida na cidade.

Amor, quase não faz

porém se adapta sem-

pre ao item men-

cionado.

 

Falta-lhe alma

um sopro que a reanime.

Se veleidades tem

é de sentir-se real.

Vive

por força

de viver

mas corre o risco

de se deixar morrer

sem que se dê

POR ISSO

oferece-se a quem

interessar possa

uma coisa

uma causa

uma pessoa

alguém

um problema social:

o caso dessa moça.

 

Maria do Carmo Ferreira

Publicado no Suplemento

Literário Minas Gerais em 1977

 

(*) Poema que motivou o meu “Esse Moço”

 



Esse Moço

Feroz a um breve contato,

à segunda vista, seco,

à terceira vista, lhano,

dir-se-ia que ele tem medo

de ser, fatalmente, humano

Drummond

um pouco à maneira e para 

maria do carmo ferreira (1)

 

do sexo masculino

uma pessoa

por todos prezada

um bom menino

se apresenta

esquivo

sem bossa

a quem interessar possa

só sozinho

entre todos

um mistério

um troço

um caso sério

o desse moço

 

amar

ama

na rua

no mar

                                          na cama

amar

ama

oferta seu corpo

a meninas

e mulheres-dama

 

amar

ama

 

mesmo fora

da cama

 

tão de dentro

tão fundo

como se gemendo

envolvesse o mundo

 

tudo e todos

saltam do peito

do mais profundo poço

dando forma e fundo

a esse moço

 

pássaros neutrônicos

elefantes levíssimos

patinetes em pânico

balões de neon

nada igual

 

pipas ensandecidas

bolas de gude

num vôo orbital

                                      

                                       entre eros e tanatos

decepado

entre fobos e deimos

largado

 

ao mar

por malasorte

habitado

 

nau

do ocaso

vau

frágil

vendaval

                         em vão

 

duro osso

esse moço.

 

 

Ronaldo Werneck

Rio, 1978

 

(1). Em 1978, o Suplemento Literário Minas Gerais publicava o poema “A quem interessar possa”, de Maria do Carmo Ferreira. Fiquei impressionado com o vigor da poeta, que desconhecia. Escrevi este poema em sua homenagem e absolutamente influenciado por sua dicção.  Só mais tarde soube que ela era minha conterrânea e até mesmo vizinha, no bairro do Leme no Rio.  Ficamos amigos, mas nunca lhe mostrei o poema, que acabou inédito. Carminha só soube dele quase vinte anos depois, ao visitar meu site na internet.

 

V(end)e-se

Ser feliz é ser outro em algum lugar

Abgar reinou!

 

Rende-se

ao saravá/saraivada

metralhadora assestada

de Ronaldo/Ronaldim:

é doido (nasceu assim?).

Como foi que não dei conta

e nem me dou por achada

se sair deste embolada

eu que conheci Vinicius

de Poética & outros vícios

nos quais revejo você

mas pra quem quiser saber

estoy contigo y no abro,

por supuesto, en la distancia,

pra lá de Gabo y Cortázar

Lesama Lima y naranjos:

debaixo de um pé-de-manga

de manga-espada e de ubá

quero mais poder contar

a quem não sabe e não viu

que o verdadeiro ronaldo

(ronaldinho do Brasil)

é werneck – e está na Bíblia:

werneck-melquisedec

cujas oferendas são

muy gratas à divindade:

primícias de vinho, pão...

e poesia de verdade!

P.S.

Era um dia era um dedo era um dado

falo o que sinto & o que sei:

não sou de mandar recado.

Era um dado era um dedo era um dia:

Tu, Lampião? Eu, Maria

(ou Carminha do Ronaldo?)

Era um dia era um dado era um dedo

melhor que tu não topei:

não sou de fazer segredo. (1)

 

Maria do Carmo Ferreira (2)

Niterói, 11.06.2000

 

 

1. Eis que, por emeio, rebato à provocação, em tom meio tonitroante. E se for cum dez pés lá vai: “nos dedos noite-dia aveludados/ reluz tua voz dado-diamante/avante, luz!, sus, sons atordoados”.

2. Maria do Carmo/Carminha, irmã de Celina Ferreira: queridas e sumidas. Duas grandes poetas de Cataguases.  Aparecer/desaparecer parece hábito antigo da poeta, como se vê por esta declaração de Décio Pignatari ao Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, 05.03.2000): “Há mais de 30 anos entusiasmei-me e publiquei um poema dela (“Meretrilho”) na Invenção (revista criada pelos poetas concretos). Sempre gostei de seus poemas e sempre fiquei esperando mais. Quando surgia um novo poema de Maria do Carmo, eu me interessava. Mas ela aparecia e desaparecia, brincando de esconde-esconde com a poesia e com o público. Cada palavra que escreve quer dizer alguma coisa. Ela tem um jeito moderno, forte e agressivo”.  O poema a que Décio se refere, “Meretilho” era “da pá-virada”, um caótico suceder de chocantes palavras-valise em permanente atrito, e que fechava com o quarteto “moscamenisca/meningepúbia/vagipenísola/clitórisputa”. Uma coisa. Ao receber este poema de Carminha, ainda atônito, agradeci com esta surrealista sextilha: “na dobra da manhã/ o céu desanoitece/ e o poeta se curva/ rápido e agradece/ palavras tão louçãs:/ rubor de guarda-chuva”. Jogando habilmente com suas palavras-malabares, Carminha é uma poeta e tanto e no entanto, e inexplicavelmente, inédita em livro. Vejam o poema a seguir e a montagem de “poemails”, pedras-de-toque que rolam, punti luminosi de uma intensa troca eletrônica em meados do ano 2000, após 20 anos de silêncio. Grande poeta, grande talento, grande tradutora. Vejam como ficou o Mallarmé do célebre solitud, récif. Étoile by Carminha: “solidão até – atol – estela”. Salut, “de porre mas de pé: tintim!”.   Pura transcriação. Depois, ela trancou-se de novo em copas, ou em capas de ypacaraí & never more. Rosa, rosácea, carmim, “where are you, polly maggoo?” Onde? Onde anda, por que banda, ó Car´mina Bu(saga)rana?

 

 

Suíte Carmeletrônica: poemails

09 junho 2000/21:58h

Ronaldim

des´en´contra´do

há tantos anos

de mim:

chorar

recua duas casas?

sorrir

avança três? (1)

Me dê sua mão agora:

vou me lançar de

skyflier

kamikase

aqualouca

pra ver se alcanço

você!

 

P.S.

Depois que te li, agorinha,

recuei 20 anos e um mês!

Carminha

 

P.S. 2

em tempo

deu morrer

sem saber

o puta enorme

poeta

que é você

no lastro de um

Vinicius

a Bandeira:

pai, sou;

poeta, sim;

a quem in-te-

ressar possa (2)

ou pre-cisar

de mim!

Avoé, Avoengo

Pai de Ulla & Pablo

e meu padim!

É você, Baco!

Ai de carmins!

 

1. Menção ao meu poema “No Rádio/Na TV/Veja Você”. 

2. Carminha refere-se a um trecho do poema “Esse Moço”, que lhe dediquei nos anos 80.

 

22 de junho 2000/23:27h

 

Ronnydeans: si vous voulez ancim,

seus e-mails, doces pra mim, são hieróglifos,

em grego e latim.


Você me lê aos trancos e barrancos,

Depois toca a perguntar de novo,

Ab ovo. (1)


Si lo que hablo no me lês,

pregunte al Pablo, (2)


Aranjuez,

já basta o desconcerto

do mundo (3)


sem fundo de olho

(pergunte ao Chico) (4)


e não me venhas de lá,

como o Cagiano, (5)


com fícus, oitis,

palmas imperiais.

Eu sou do tempo das acácias,

verídicas (ou virtuais?),

gregas, medas, semitas,

nem sei mais.

E feliz por feliz

antes em Paris,

catanga, ocê? (6)


catando o quê?

Miçangas, não tem mais...

Acácias reais, no más.

Fico com a Espanca,

flor bela entre as demais,

carnívora, incestuosa,

tudo o que se permite

e iu

a que ousava o que disse

(ninguém sabe, ninguém viu)

la prima entre fra ternos

arroubos juvenis...

Mas, xarpalá, (7)


que temos nós com iis?

Já Camões, ah Camões,

salvou seu manu´scrito

mas morreu Dinamene

que foi sua musa e mito,

mas não mais favorita

do que o livraço seu.

Para que você me ouça,

e me desafie a galope

ou martelo,

eu antes salvava a moça

e deixava ir pro inferno

ou profundo do mar

le livre... esse flagelo

por quem passou fome

e frio

sem cuidados sem cuitelos

no exílio desse inexílio (8)


sempiterno.

Mas virando pro Rimbaud:

peguei do Fabrício (9) um mote

e aqui vai, ou eu vô:

 

RIMBAUD ET L´AIR

 

Poeta sou

mas pelo avesso.

Cheguei ao extremo:

não faço versos.

 

Verti ao olho e al dente

uma estação no inferno.

Não vou nessa de Dante:

 

É sem acompanhante

que trafego

pelas profundas de mim mesmo.

 

               ***

E como me disse o Chico

cheio de cabeça e mãos:

O coração, sem-razões,

É o único a ter razão.

 

E mais não digo ou desdigo

Se não for a sós comigo.

Fica o não dito por dito

Que, desdita, não re´pito!

 

Com Deus, J.Joyce, digo, J.Deans

Ronny Deans, Ronalwinnwnner!

um carma, um carme, um carmim

 

 

1. Eram emeios, emeios, emeios sem ter fim. Carmim não dava tempo pra mim.

2. Meu filho Pablo

3. Referência a uma peça teatral que escrevi: “O Mundo em Desconcerto: Camões a Florbela Espanca”, encenada no Museu Chácara Dona Catarina (Cataguases, 2001).

4. O poeta Francisco Marcelo Cabral.

5. O poeta Ronaldo Cagiano.

6. “Catanga” é como sempre brinquei de chamar Cataguases desde o assassinato do líder nacionalista Patrice Lumumba no Congo Belga, em 1961. Talvez pelo que tenha ficado em minha memória do poema de Geir Campos dos tempos do “Violão de Rua” (n.º 1, Rio, 1962): “Patrice negro e congolês Lumumba!/Bambo bambu, molambo/de infinitas bandeiras/no céu da África acesa,/.../em Catanga, em Catanga/colho a estrela madura/ de um sonhar amarelo,/ e em Catanga, em Catanga/ abro a boca da noite/ com  meu grito mais belo”.  Como no Congo, também em Minas, na Zona da Mata dos anos 60, havia grandes escaramuças, pelo menos no futebol, entre as por mim denominadas cidades de Cataguases/Catanga e Leopoldina/Leopoldville.

7. Palavra-valise by Carminha (deixar parlar/deixa falar/deixa pra lá) que adaptei como “xaparlá” para o poema “Catar-se”, dedicado ao Francisco Marcelo Cabral, a ela e a mim

8. Referência ao poema-livro “Inexílio”, de Francisco Marcelo Cabral.

9. O poeta Fabrício Marques, que organizou o número especial do Suplemento Literário do Minas Gerais (Belo Horizonte, março de 2000, n.º 57), quase que exclusivamente dedicado a Maria do Carmo Ferreira.

 

Werneck´s Riverruns

 

Menino dentre os doutores

não caminha sobre as águas.

As águas é que se aninham

entre as linhas de sua mão

em mil pequenos lavores

de cortejos espaciais

e amores mais-que-perfeitos:

Menino do Rio Pomba

que traz mais pontes no peito

do que garças nos beirais.

Meia-pataca entrevista

a um privilegiado olhar

que jamais outros veriam

pois não voltara a se dar.

Pai, amigo, poeta, irmão

sem se saber quem precede

pela simultaneidade:

o espírito? o coração?

afetos? inteligência?

Vocação pela existência:

viver e deixar viver.


Dura, Ronaldo Werneck,

neste terno, quadra, quina

de quem tirou sorte grande

por te conhecer aos trinta

rever-te aos cinqüenta e sete

com a mesma pinta que nina

(Santa Maria!) o moleque!

Maria do Carmo Ferreira

Niterói, 17.07.2000

 

 

Maria do Carmo Ferreira

Por email – Trechos

Niterói, julho de 2000

17.07/ 09h54

 

Ronaldo,

Ontem terminei de reler Selva Selvaggia e O Mar em Minas, ambos excelentes, maduros, embora com décadas de distância espaço/temporal, e eu me pergunto se os 3 concretos conhecem de perto o que você escreve, vi até certas coincidências em nós dois (nan ja essa espuma, virgem verso…)¹ mas a sua vocação espacial nas páginas não é coisa nostra, é coisa muito sua e muito bem réssiste. (…) Quem teve o privilégio de conviver com um Humberto Mauro, um Rosário Fusco e um padrinho Geraldo Kneip (fiquei fã dele) tem mais é que amadurecer sabiamente, sem os protocolos dos sábios do Sião…

¹. Referência à sua tradução do poema “Salut”, de Mallarmé, publicada pelo Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, Belo Horizonte, março de 2000).

17.07/16h33

Ronaldo,

sou Ferreira, e não de ferro. Se eu tivesse instrução e vervê faria uma matéria sobre os seus poemas-livros de longo fôlego. Sobretudo Minas em mim e o mar esse trem azul… Não tenho, não me cobre isso, por favor, fico emocionada, rateando, engasgada, ultravaidosa e orgulhosa de você ter chegado tão longe e com uma aparente displicência rosariofusqueana de quem faz tudo isso (inclusive filhos, amores, amigos, contatos) com um pé nas costas. Beato Lei!

Como se não bastasse, viaja que Deus dá, sai toda noite, escreve matérias as mais diversificadas todo dia pra todo jornal e revista que te dê uma brecha, faz conferências pras lindas normalistas, orienta teatro estudantil, que sei eu? Faz cinema, ah faz cinema, principalmente quando escreve!

22 julho de 2000/17:14h

 

                        Roneck

meu anjo

Rô Rô

Você me provocou:

“Quem mais, oh menina,

quem mais me alucina,

quem mais,

de ter mina”

(o coração

nas mãos

– haj´as´as –)

sob os pés?

 

Nem herpes

pé-de-atleta

joanete

cravo (calo)

me afeta

quando escarvo

touro desembestado

o solo em que nasci:

sou mercúrio ligeiro

hermes o mensageiro

tarzan pós-tudo

empós

da mata onde campeio

princesinhas

              na zona (1)

emails greeting cards

cariocas

lys-do-campo

sites links relâm/

pagos

hologramas poéticos...

Ainda, peri-patético,

atravesso os brasis

pondo os pingos

nos iis

e ocupando

              meu espaço

até que o dia grame

comme il faut, como o fiz

do tell (star) catanga

urbi et orbi

e tal:

da taba onde soul rei

(geo´grafia: sorrio)

cacique catauá

para a aldeia global.

 

Car´mina Bu(saga)rana

 

1. Cataguases é também conhecida como a “Princesinha da Zona da Mata”.  Um dia, num programa radiofônico, saí com uma brincadeira idiota. Falava-se que a mata estava em extinção. Bati firme: “Se mata não há mais, nem mesmo cataguais. Sem mata, ela vira ´Princesinha da Zona´, uais!”.  Logo depois, me redimi. E para sempre. Hoje, só chamo Cataguases de “Paris da Zona da Mata”. Não há controvérsias.

26 de julho de 2000/04:08h

                                  

 e agora, num tête-à-tête,

seo Werneck, me responda

sem tirar casquinha

em onda minha

por que a prosa do Rosa

e tã pedregosa?

 

Com este, eis dois claros enigmas

que lhe proponho,

era um era dois era três

que vou dormir de vez, e tome-o:

 

A flor com que a menina sonha

está no sonho ou na fronha?

 

Vai, segue em paz, figlio, amoroso giglio,

Rô da Rua,

Do vento, do tempo, do frio,

Das altas madrugas,

Um deus dormiu lá em casa

(teatro, tradução de um figueiredo)

um poeta em cataguases

dorme onde jazem os seus

(primus inter pares)

já nem dorme

alucina

sem porre, na porrada,

e em sua lazy mir´hada

me ilumina:

benza-o Deus!

                                                              q.q.isso, meu?

 

28 de julho de 2000/06:49h

 

Agora amoito, anoito:

De manhã escureço

de dia tardo

de tarde anoiteço

de noite ardo.

Do teu sósia em poesia, quer mais?

Menino, me bota um verso

Bem cheio de comoção:

Era uma vez um poeta

Mas não digo o nome não.

Tantas fez que a dor de corno

atirou ele no chão

machucou ele nas pedras

espremeu seu coração.

Que pensa usted que saiu?

Saiu cachaça e limão.

E assim caminha a humanidade.

Em ritmo de mango tree, poe!

Não vou perguntar nunca mais

Por que calou o bico.

Agora sou Dialógica:

- Como vais?

- Comovida!

Comoção as tuas garotas de Ipanema (1)

É ou não é coincidência com o meu

Oldfashion poemiseta?

Até mais longe, além muito além daquela serra

Que ainda azula no horizonte...

Carminha

1.  Referência ao meu poema “Verão”


Meia-Pataguá

 WERNECK/CAGIANO:

ESTE MANO-A-MANO

VAI DAR QUE FALAR.

QUERER DE VOCÊS??

QUEM VI VERVER AH

Q SERTÃO É TANTOS

DONDE (QUI SABRÁ?)

YA NO VUELVO MÁS!

 

MI BOLETO, AMIGOS,

NOTIENE-REGRESOS:

FIZ AS PAZES, SINTO,

CO’UM PASSADO EX-

TINTO, MAIS DE SAN-

GUE E CORTES - QUE

NÃO CICA/TRIZ/AM Y

NEM ME DE\MO\VEM.

 

Q’EROS GANG NOVA

CORRENDO N/AVEIA

E RON/ALVOS OVOS

PARA A MINHA CEIA

CHEIA DE CARÊNCIA

NESTE XEQUE-MATE

Q NÃO DESSEDENTA

TAL FOME DEVERDE!

 

Maria do Carmo Ferreira

Niterói, julho 2000