3 de out de 2018

A liberdade de um comunista

1966: em visita aos jornais Marighella
aponta orifício da bala policial que o
atingiu num cinema em 1964.
   Em Brasília, maio de 2015, vejo Caetano cantar a música que fizera para Carlos Marighella e lembro-me que também eu tinha realizado em 1970 um poema onde mencionava o assassinato do poeta-guerrilheiro, e logo pensei em escrever alguma coisa sobre isso. Mas acabei me esquecendo. Acontece que em maio de 2017 vi no Canal Brasil o belo filme que Isa Grinspum, sobrinha de Marighella, realizou sobre seu tio.  Fiz algumas anotações, mas também não avancei no texto.   
Fui novamente despertado em outubro daquele ano pela leitura de um livro sobre Hélio Oiticica, que de certa forma me remeteu (erroneamente, como veria depois) a Marighella. Foi quando comecei a “editar” todas as anotações e o texto começou a sair. Militante comunista desde a juventude, deputado federal constituinte e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar, o mulato baiano Carlos Marighella teve vida tão frenética quanto surpreendente. Era também um profícuo poeta, irreverente e brincalhão. 
Aos 18 anos, respondeu em versos a uma prova de física no Ginásio da Bahia: Doutor, a sério falo, me permita,/Em versos rabiscar a prova escrita// Espelho é a superfície que produz,/ Quando polida, a reflexão da luz.// Caso primeiro: um ponto é que se tem; /Ao segundo um objeto é que convém.// (...) // No prolongado, luminoso raio, /Que o refletido encontra de soslaio/Dois triângulos então o espelho faz/ Retângulos os dois, ambos iguais.//Iguais porque um cateto tem comum/ Dois ângulos formando um//Iguais também, porque seus complementos/Iguais serão, conforme seus argumentos”.


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Ainda em 2017, e de novo em Brasília, encontro o livro “Marighella/O guerrilheiro que incendiou o mundo”, de Mário Magalhães (Cia das Letras, 2012). Com mais de 700 páginas, a obra mergulha com larga abrangência na trajetória de vida e luta do guerrilheiro. E tem uma abertura empolgante, como se fosse um thriller cinematográfico, ao narrar como em maio de 1964 ele foi baleado dentro do cinema Eskye-Tijuca, no Rio, e preso por agentes do Dops após muita resistência. Não por acaso, o livro foi roteirizado pelo ator Wagner Moura para o filme que realiza sobre o poeta-guerrilheiro. “Eu quero fazer um filme de ação”, diz Moura. “Marighella é um personagem fundamental de nossa história recente, que foi apagado pela ditadura militar. Meu filme é sobre ele, sobre a luta armada, mas é sobretudo um filme sobre a infâmia, sobre a forma mentirosa como a história pode ser contada”.
Já tinha dado meu texto como “quase” pronto quando assisti no Canal Arte1 ao filme de Ninho Moraes sobre o Tropicalismo, onde lá pelas tantas Marighella é também e mais uma vez citado. Tudo a ver. Coloco essas anotações no liquidificador, sacudo e sacudo e saúdo o texto que surge.  

Momento ético
Outubro de 2017, meu aniversário, ganho de minha filha Ulla o livro “A asa branca do êxtase”, escrito pelo argentino Gonzalo Aguilar sobre o artista plástico Hélio Oiticica.  Professor de Literatura Brasileira e Portuguesa na Universidade de Buenos Aires, Aguilar articula na introdução um super erudito ensaio sobre a arte dos anos 60 – a poesia concreta e o tropicalismo em destaque – povoada pelos bólides & parangolés de Oiticica & outras & outras de suas criações.
Ao falar do artista brasileiro, o professor argentino destaca a questão do “momento ético”, aquele que “envolve o sujeito em sua integridade, já não como portador de um olhar estético, e sim como ser político e vital. Mais ainda, comove-o em sua própria existência, porque momento ético significa que o sujeito deve abrir-se para o outro, até diluir-se no impessoal e no coletivo, levando sua arte até os limites da invenção”. E, logo depois: “a violência já não pode ser contida (representada) pela arte, e sim somente sua presença questiona a arte, abre-a e até pode chegar a diluí-la ou despedaçá-la”. 

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    Quando aborda o “Bólide caixa 18 Poema caixa 2, Homenagem a Cara de Cavalo”, Gonzalo Aguilar traz informações que eu desconhecia: “a foto que aparece na bandeira ´Seja Marginal, seja herói´ não foi tirada, como se diz frequentemente, de Cara de Cavalo, e sim do bólide de Mineirinho (embora não se trate de uma foto do próprio Mineirinho, mas que Oiticica tirou de um jornal). Outra obra que inclui um cadáver é um dos ´Subterranean projects´. Trata-se do cadáver de Carlos Lamarca, guerrilheiro assassinado pela ditadura em 1971, em montagem com o poema ´Calidouescapo´, de Augusto de Campos”.

Vanguarda & repressão
Este meu texto estava correndo certinho até agora, até mesmo com a coincidência de meu nascimento com o de Lamarca, 23 de outubro, o que me dava mais um gancho para o seu desenrolar. Mas, de repente, percebi que a data do assassinato não conferia: Carlos Marighella, que era/é o protagonista deste texto, de mais essa “controvérsia”, foi também morto pela truculência policial, mas em 1969. Ia então corrigir a “falha” do professor Gonzalo Aguilar quando dei por mim. Havia trocado os Carlos, Lamarca por Marighella. Mas, de certa forma, os três parágrafos aí de cima também cabem na trajetória do poeta e guerrilheiro Carlos Marighela (1911-1969). Oiticica bem que poderia ter usado em um de seus bólides a icônica foto de Marighela mostrando o furo de uma bala em seu peito.
O nome Tropicália surgiu de uma relação entre a obra homônima de Hélio Oiticica e a canção de Caetano Veloso, que na verdade ia se chamar “Mistura Fina”, e não “Tropicália”. A instalação Tropicália, de Oiticica, passava da cultura popular para a erudita e vice-versa, sem privilegiar uma ou outra. No 1º semestre de 1967 acontecem três eventos seminais para a eclosão do movimento tropicalista: o livro “Pan América”, de José Agripino de Paula, a ambientação de Hélio Oiticica e o filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Logo depois, em setembro, a montagem de “O Rei da Vela”, aquele Oswald de Andrade definitivamente reinventado por Zé Celso Martinez Correa. E, em outubro, o Festival da Record, com a apresentação de “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, e “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso.


José Miguel Wisnik: Tropicália Now

     Para o músico e escritor José Miguel Wisnik – em depoimento de 2011 para o filme “Futuro do Pretérito: Tropicália Now”, de Ninho Moraes e Isabel Teixeira (ver link ao final do texto) –, “tudo isso foi mostrando uma consonância, uma circulação de ideias e processos críticos, significando uma articulação entre inconformismo estético e inconformismo social. Difícil desligar a experimentação tropicalista do momento político. Vanguarda e massa faziam parte da vida contemporânea dos anos 60 e isso não era uma questão de uma aliança de estudantes e trabalhadores com camponeses. Esta conjunção não era suficiente para enfrentar o que estava acontecendo”.
     Em 1992, quando do lançamento de seu livro “Verdade Tropical", Caetano Veloso afirmaria: “Não me interessa saber o que o socialismo faria do Brasil, mas o que o Brasil faria do socialismo”. Também no filme “Tropicália Now” – que conta com uma inventiva direção/recriação musical de André Abujamra para alguns standards da canção tropicalista, não por acaso com locação concentrada no mítico Teat(r)o Oficina Usyna Uzona –, diz o sociólogo Marcelo Ridenti:  “Os tropicalistas faziam na cultura algo similar ao que o Marighella fazia na política. O inimigo do Marighella era, de um lado, a ditadura; e, do outro, uma certa posição estabelecida de uma esquerda comunista que ele achava que estava esclerosada, que fazia muita teoria e pouca ação”.  

A ternura e a ira


Clara Charf: "Provocações".

“Quando você quer bem a uma pessoa, você sempre acha que ela é ótima, tem todas as qualidades”, dizia em 2011 no programa “Provocações”, de Antônio Abujamra (ver link ao final do texto), a companheira de vida e militância de Marighella, Clara Charf.  “Mas Marighella era um ser excepcional mesmo. Além de homem forte, charmoso, ele era uma pessoa de uma ternura muito grande. Tanto é que ao longo de toda a militância dele todas as pessoas que com ele militaram, viveram juntos, guardam dele uma lembrança” (...) Abujamra interrompe a frase de Clara e diz: “Inclusive, Jorge Amado dizia que ele ´era a ternura e a ira´. Ele acertou?”.  Clara: “acertou”. Abu faz a pergunta tradicional com que encerra todos os seus programas: “Clara, o que é a vida?”. Clara: “É difícil de definir. É tudo que pulsa, tudo o que você pode realizar, fazer.  Vida pra mim é luta”.
Mito ou maldito? Tido como o “inimigo nº 1” da ditadura militar, luta foi o que não faltou ao guerrilheiro comunista, mestiço & poeta, ao mulato baiano Carlos Marighela durante toda a sua vida – apagada com seu assassinato em uma rua de São Paulo em 04.11.1969. Se por um período tornou-se deputado constituinte pelo Partido Comunista, em outros muito mais longos viveu na clandestinidade. Nas palavras do antropólogo e também poeta baiano Antônio Risério, no filme “Marighella”, de Isa Grinspum Ferraz (ver link ao final do texto), “ele era um homem inquieto, alto, forte, corajoso, valente”.

Por que Marighella?
É de Antonio Candido a voz que ouço agora no mesmo documentário: “Simbolicamente ele tinha em sua constituição biológica o povo dele. Ele encarnava esse povo biologicamente; por uma grande sorte, ele o encarnava também moral e psicologicamente. Ele sentiu a necessidade desse povo. Era um homem pobre, um homem realmente do povo. Ele não abandonou a sua classe. Como membro de sua classe é que imaginou para seu país uma situação em que a miséria acabasse, em que a justiça social se instalasse”. 
Mas, por que Marighella? Por que agora? Visto e revisto há pouco tempo, o comovente documentário de sua sobrinha Isa Grinspum me fez lembrar de algumas anotações feitas em Brasília ao assistir em 2015 ao show “Abraçaço”, quando onde ouvi pela primeira vez Caetano cantar “Um comunista”, a canção que escreveu para Carlos Marighella: “Um mulato baiano,/ muito alto e mulato/ filho de um italiano/ e de uma preta hauçá// foi aprendendo a ler/ olhando mundo à volta/ e prestando atenção/ no que não estava à vista./ Assim nasce um comunista”.


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Caetano: Abraçaço.

    Ouvindo Caetano eu pensava na coincidência de eu ter escrito ainda no início dos anos 70 um longo poema, “Telstar” – um poema, vamos dizer, “est/ético”, sobre o momento político e o Vietnam, onde o assassinato de Marighella emergia metaforicamente: “da-nang/ exclamo/ eu te amo/ quer sangue/ exclamo/ da nang/  khe sangue// 58 anos/ um mestiço/ metralhado/ amortalhado/ na metrópole// 58 anos/ amor/ talhado/ 58 anos/ um mestiço/ mestraçalhado/ na metrópole”.  
E vinha a voz de Caetano, mesclada ao meu pensar: “O mulato baiano, mini e manual/ do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas/ depois por Magalhães/ por fim, pelos milicos/ sempre foi perseguido nas minúcias das pistas. / Como são os comunistas?// (...) O baiano morreu/ Eu estava no exílio/ E mandei um recado:/ ´eu que tinha morrido´/ E que ele estava vivo,// Mas ninguém entendia/ Vida sem utopia/ Não entendo que exista/ Assim fala um comunista”.

A opção política
 Em “Os Parceiros do Rio Bonito”, estudo sobre os caipiras paulistas na metade do século 20, Antonio Candido fala dos bens incompressíveis, aqueles que não podem ser reprimidos por qualquer autoridade, os bens fundamentais para a existência: “Não são apenas os que se reputam essenciais à estrita sobrevivência do indivíduo, mas todos aqueles que permitem ao homem tornar-se verdadeiramente humano. Sob esse ponto de vista, são incompressíveis a participação na beleza, a euforia da recreação, o prazer dos supérfluos”.

Antonio Candido: bens incompressíveis

     E é novamente Antonio Candido quem fala no filme de Isa Grinspum: “Antes de 1930, nenhum intelectual brasileiro se achava com obrigação de tomar atitude política. Muitas vezes eles iam ser deputados, funcionários públicos, conservadores, liberais. Depois de 1930, por causa do comunismo e do fascismo, todos intelectuais passaram a sentir a necessidade de opção política. Aí os intelectuais passaram a ser ou fascistas, de direita, ou de esquerda ou liberais. Mas não puderam ficar mais omissos. Depois de 1930, Getúlio Vargas representa isso, o trabalhador urbano começou a falar. O Brasil estava passando da democracia de poucos para a democracia de todos. E a gente não podia ficar de braços cruzados”.
E logo, plena de bom humor, revém a companheira de Marighella, Clara Charf, também no documentário de sua sobrinha Isa: “Você sabe como o comunismo chegou na Bahia? Em 1935 os integralistas estavam felizes da vida, achavam que Hitler ia dominar o mundo, as ideias hitleristas. Eles foram fazer um encontro na Bahia. E o Marighella, que já tinha despertado para as lutas libertárias, chamou um grupo de jovens e eles compraram cartolinas e desenharam a foice e o martelo. Na noite anterior, subiram nos postes e colocaram lá os cartazes.  Na manhã seguinte, quando o povo despertou e viu aquilo, foi logo gritando: ´o comunismo chegou na Bahia!´. Ele era audacioso assim, muito jovenzinho. Ele era muito da coisa visual. Como fazer as coisas que as pessoas olhassem e vissem, se dessem conta. E aí ele ganhou a juventude de lá, todo mundo queria trabalhar com ele”.

Afetados de comunismo
Em 1937, Marighela vai para o Rio organizar o partido comunista que fora severamente reprimido em função do levante de 1935. No Rio, ele é preso. E a Gazeta de Notícias, jornal muito lido na época, faz um registro hilário, se não fosse trágico, de como os comunistas eram vistos e tratados naquela época: “Três cavaleiros afetados de comunismo acabam de ser afastados do público pelas pessoas que zelam pela boa profilaxia social”. Pois é, “afetados de comunismo”, possivelmente essa “doença” que vai produzir aqueles seres capazes de “comer criancinhas”.  


Marighella fotografado na prisão em São Paulo, 1939.

“Eu estive na cadeia do Distrito Federal, de Fernando de Noronha, de São Paulo e Ilha Grande” – diz Marighella em registro recuperado por Isa Grinspum para seu filme.  “Sofri mais de sete anos de prisão. As torturas a que fui submetido foram: depois dos murros, pontapés e outros golpes que me aplicaram, eu fui queimado por todo o corpo com pontas de cigarros que os próprios investigadores fumavam. Além disso, o investigador Galvão tirou o alfinete de sua gravata e enfiou debaixo de minhas unhas, deixando-as em sangue”.
Em 1939, no presídio em São Paulo, o poeta Carlos Marighella escrevia os decassílabos do poema Liberdade: “Não ficarei tão só no campo da arte/ e, ânimo firme, sobranceiro e forte,/ tudo farei por ti para exaltar-te,/ serenamente, alheio à própria sorte.// Para que eu possa um dia contemplar-te/ dominadora, em férvido transporte,/ direi que és bela e pura em toda parte,/ por maior risco em que essa audácia importe.// Queria-te eu tanto, e de tal modo em suma,/ que não exista força humana alguma/ que uma paixão embriagadora tome.// E que eu por ti, se torturado for,/ possa feliz, indiferente à dor,/ morrer sorrindo a murmurar teu nome”.

Liberdade: somos multidão


    Três anos após Marighella ter realizado seu soneto, o poema “Liberté”, de Paul Éluard, poeta francês e também comunista, é lançado em janeiro de 1942 por aviões ingleses sobre a França. Milhares de exemplares, contendo os versos mais famosos de Éluard, chegam às mãos da Resistência francesa e fornecem um novo alento na luta pela libertação da ocupação nazista. Éluard naturalmente não conhecia o soneto de Marighella, mas a “atmosfera” dos dois poemas se assemelha, e muito, como se vê nesses excertos da tradução feita a quatro mãos por Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira:
“Nos meus cadernos de escola/ Nesta carteira nas árvores/ Nas areias e na neve/ Escrevo teu nome// (...) Nas maravilhas das noites/ No pão branco da alvorada/ Nas estações enlaçadas/ Escrevo teu nome//Em toda página lida/ Em toda página branca/ Pedra sangue papel cinza/ Escrevo teu nome // (...) Nas veredas acordadas/ E nos caminhos abertos/ Nas praças que regurgitam/ Escrevo teu nome// Na lâmpada que se acende/ Na lâmpada que se apaga/ Em minhas casas reunidas/ Escrevo teu nome// (...) Em toda carne possuída/ Na fronte de meus amigos/ Em cada mão que se estende/ Escrevo teu nome// (...) Em meus refúgios destruídos/ Em meus faróis desabados/ Nas paredes do meu tédio/ Escrevo teu nome//Na ausência sem mais desejos/ Na solidão despojada/ E nas escadas da morte/ Escrevo teu nome// (...) E ao poder de uma palavra/ Recomeço minha vida/ Nasci pra te conhecer/ E te chamar// Liberdade”.
Sobre Paul Éluard, uma curiosa dúvida que vem de longe, uma controvérsia mais que controvertida. Desde os idos de minha mocidade, tempos de recusa e engajamento, de busca pelos “bens incompressíveis”, tinha pra mim um verso que não sei por que cargas d´água acreditava ter traduzido de Éluard, talvez induzido pelo poema “Liberté”: “somos um, somos multidão”. Em francês, deveria ser qualquer coisa como “nous sommes un, nous sommes foule”. Já vasculhei todo o Éluard e nada encontro. Será que esse octossílabo meio de pé (al)quebrado, “somos um” (eu e vocês, num só uníssono), “somos multidão” (o um que são todos, em marcha) é na verdade criação minha e eu nunca me dei conta ?

Links
Para o programa Provocações, com Clara Charf https://www.youtube.com/watch?v=e_KG3PC64pI
Para o filme Marighella, de Isa Grinspum  Ferraz https://www.youtube.com/watch?v=1cbe8G4G-_g
Futuro do Pretérito: Tropicalismo now

31 de ago de 2018

O olhar de Wlademir Dias-Pino

(1927-2018)



                                      ave
                        vae
                                ave
                                ave voa
                                                 voar
                                é preciso
                        vae
                                é preciso
                                            ir
                                            vae vae
                                mirar
                                ir
                                ave wlad
                        vae
                                ave ave
                                       ave wlademir


A importância de 1956 para a história da literatura brasileira pode ser registrada mediante três episódios capitais: o lançamento da poesia concreta, a publicação de Grande sertão: Veredas e o surgimento de A ave, de Wlademir Dias-Pino, livro que se liga(va) às virtualidades gráficas e verbo-visuais do concretismo, mas que apontava para um desdobrar novo nas aventuras composicionais da própria poesia concreta.

Moacy Cirne in Revista Vozes, 1972


Wlademir Infinito  
     Aos 90 anos, Wlademir Dias-Pino é finalmente reconhecido como o enorme poeta e artista plástico que é, o que vem acontecendo desde sua grande exposição “O Poema Infinito”, que no ano passado ocupou todo um andar do MAR, o Museu de Arte do Rio, e pelo Prêmio Faz Diferença 2016, recebido do jornal O Globo na categoria artes plásticas. 
      A exposição no MAR tomou como eixo central quatro poemas: “O dia da cidade”, “Ave”, “Solida” e “Numéricos”. Visando ampliar a experiência sensorial dos trabalhos, esses livros-poemas foram transformados em grandes instalações magnéticas, nas quais os elementos eram construídos e rearranjados pelos visitantes.

    Outro destaque foi a Enciclopédia Visual Brasileira, na qual o artista vem trabalhando nas últimas duas décadas. Composto por 1001 volumes, o trabalho pretende apresentar, por meio de pranchas resultantes da montagem alegórica de referências culturais diversas, a história da construção da imagem no mundo.
     Falar em mundo, Wlademir é um mundo habitado pelo pensador visual que traz dentro de si. Um artista multifário: vitrinista, tipógrafo, designer gráfico, poeta-professor, poeta-inventor, na classificação de Ezra Pound. Para Antonio Houaiss, “um dos mais perspicazes pesquisadores visuais no Brasil". Para o crítico Assis Brasil, “Wlademir Dias-Pino é o poeta mais independente na área da poesia experimental”.
     
 Um olhar pra algo além

     Pois é, já lá se vão 50 anos. A primeira vez em que vi Wlademir Dias-Pino, foi aí por volta de 1967, não sei bem se em Cataguases, na Mata Mineira, em casa do poeta Joaquim Branco (onde ele concederia em 1977 longa entrevista sobre os rumos da poesia visual para o Totem, jornal que então editávamos em conjunto). Ou, quem sabe, no Rio, em Santa Teresa, numa reunião na casa dos poetas Neide e Álvaro de Sá, já no início dos anos 1970. Ali, onde sempre ao lado de outros companheiros, como o poeta-professor Moacy Cirne, tentávamos estruturar os rumos do Poema Processo. Não sei bem se lá ou cá, mas o importante é que nunca me esqueci do olhar de Wlademir.
    Ele nunca nos olhava diretamente, mas sempre enviesado, como se buscasse o infinito. “Quem olha é responsável pelo que vê”, ele nos dizia na entrevista para o Totem, Um olhar pra além, pra algo além. Futuro ou coisa que fosse. Esse olhar assim desencontrado de Wlademir Dias -Pino é tudo o que eu captaria mais tarde como definição do que fosse, seja ou é o que entendemos, ou não, sobre poesia visual. Que eu prefiro chamar de “poema visual”, já que poema é uma coisa, poesia outra. Poema é veículo, poesia reta de chegada.

A vida no meio gráfico
    Um rápido flashback sobre a trajetória e o próprio nascimento de Wlademir Dias Pino já nos deixa dúvidas logo de início. É certo que o poeta nasceu em 1927 no Rio (Rua Pareto, na Tijuca). Mas em que mês? Fala-se em fevereiro, mas há registros de abril, outros de maio. Ainda bem que ele está aqui e pode nos dizer a data certa: afinal, já foi comemorado ou ainda vamos comemorar os seus 90 anos?
    No Rio dos anos 1930, Luciano Pino, o pai de Wlademir, é militante comunista, jornalista e trabalha como tipógrafo na Imprensa Nacional. Figura marcante em sua formação, sua mãe, Laura, é quem ensina o filho a ler e a escrever. O método didático da mãe é recortar com tesoura palavras dos jornais editados pelo próprio marido. Esse sistema de recorte de palavras e formas é mantido durante toda a vida do poeta, sendo a tesoura o instrumento de realização de várias de suas obras.

     Na primeira infância, Wlademir brinca com os tipos gráficos de chumbo: “Vivi no meio gráfico, comecei a lidar com o tipo desde muito cedo e ficou aquele amor pela forma das letras. Convivendo com o alfabeto desde a tenra infância, um dia conclui que a maior arbitrariedade existente na cultura humana é a imposição do código alfabético”.
      Em 1937, por razões políticas, Luciano, é forçado a transferir-se com a família para Mato Grosso. Wlademir chega a Cuiabá com 10 anos e lá permanecerá até os 24. Nesse período, costumava ler vorazmente os clássicos na biblioteca pública da cidade. Seu pai foi responsável pela renovação gráfica da imprensa de Mato Grosso e, como jornalista e comentarista, também produzia crítica de cinema e ensaios sobre a vida social. Nessa época, Luciano conhece o poeta Manoel de Barros que vai até sua casa para entregar um exemplar de seu primeiro livro. A visita do jovem poeta mato-grossense marca o pequeno Wlademir que, anos mais tarde, seria um dos responsáveis pelo início da divulgação de sua obra.

“Os Corcundas”: Augusto e Philadelpho
     Em 1938, com apenas 11 anos, já escrevia livros de poemas. Sem seu consentimento e em segredo, um dia seu pai, que administrava uma gráfica, publica um livro seu, que retira de um conjunto de manuscritos. Extremamente tímido, quando vê a edição Wlademir revolta-se e coloca fogo nos livros. Alguns exemplares são salvos.
     Coincidência ou não, em 1967, para grande espanto dos transeuntes e de tutti quanti, os poetas do movimento do Poema Processo, Wlademir, Álvaro, Neide e Moacyr Cirne à frente, queimam livros de poetas consagrados na Cinelândia. “Espantar pela radicalidade” era seu slogan, a palavra de ordem.
  Em 1939, “Os corcundas”, seu primeiro livro conhecido, é impresso por seu pai, agora com sua concordância, como atesta o cólofon na contracapa do único exemplar existente desta edição. Wlademir ainda não completara 12 anos de idade. O universo grotesco dos personagens do poema foi inspirado, segundo ele, na commedia dell'arte, que sua avó apresentava aos netos, além de “forçá-los” a ouvir ópera e ler peças de teatro. 

     “Os corcundas e suas deformações linguísticas./ O avesso do muro por toda a parte, o inverso./ Nuvens beliscando o perfil das coisas/ Trapézio com seus dentes catando // arreiam seus olhos e como doadores de sangue/ se nivelam e dormem/ aos pés dos cogumelos/ (ficando suas sombras)/ em ângulos retos borrados/ sobre seus travesseiros de lilases/ macios como o tato/ (cabelos invisíveis)// e a nuvem que desce forma uma jaula/ de manequins tombados”.
     “Os corcundas” foi reimpresso em 1954, passando essa data a aparecer equivocadamente como a data em que foi escrito. Nas décadas de 1950 e 1960, a obra é objeto de análises críticas em jornais e publicações nacionais. Em nenhuma delas é apontado o fato absolutamente extraordinário, então desconhecido, de Wlademir tê-la escrito enquanto ainda era criança, e o trabalho é tratado por toda a crítica como obra adulta e plena, precursora formal de sua surpreendente originalidade e capacidade inventiva.
     Em 1956, escrevia o poeta Augusto de Campos no Suplemento do Estadão: “A rebeldia de Wlademir se manifesta ainda, ao nível semântico, pela dessacralização do “poético”, através de um sistemático “culto do feio” ou do “mau gosto” em ‘Os Corcundas’, onde ocorre a intromissão de um vocabulário rejeitado em poesia e que pela constante reiteração chega a ser, mais do que prosaico, propositadamente incômodo e perturbador. Nesse monturo de dejetos verbais Wlademir trata de revolver e perseguir uma espécie de fenomenologia do indizível poético, para chegar ao fim das calvas coisas. Ao mesmo tempo sente-se nele a consciência existencial da solidão e da alienação do poeta no mundo moderno".
     E também o crítico e poeta Philadelpho Menezes, em seu livro Roteiro de literatura: poesia concreta e visual: "Entre o muito que foi soterrado na história da poesia concreta, há que se dar um destaque especial para o poeta Wlademir Dias-Pino. Em livros como ‘Os corcundas’, do final da década de 1940, (sic) Dias-Pino mostra uma poesia incomum para os padrões brasileiros. Com imagens estranhas, associações imprevisíveis, um vocabulário rebuscado colocado numa sintaxe toda desconjuntada, sua poesia em verso é surpreendente e pede uma reedição cuidadosa. Em ‘Os corcundas’, o tema é a deformação física. Mas a deformação não fica só no tema. Ela invade a própria linguagem, entorta a sintaxe das frases, põe vocábulos antipoéticos nos versos, deforma as palavras".

“A fome dos lados” & “Intensivismo”

     Em “A fome dos lados”, de 1940, Wlademir, com apenas 13 anos, descreve o impacto de ver o corpo de um amigo do pai torturado e assassinado pela polícia de Filinto Müller na ditadura Vargas:” Aqui está a mancha do assassinado/ livre agora era bom e é livre/ sua mancha horizontal e leve/ como são leves as coisas horizontais// Eis o morto livre/ raso e vazio/ em seu ninho de sangue calvo/ (calvo como a bala de fuzil)/ sangue que é escudo/ assim tombado//Esse mesmo sangue cheirando/ ao sopro exausto de seu hálito calvo/ como sombra duma parede lisa/ onde foi fuzilado outro rebelde”.
     Em 1948, em Cuiabá, ao lado de outros poetas, como Silva Freire, ele funda o movimento literário de vanguarda “Intensivismo”, trazendo em seu ideário fortes inovações formais que antecipam as tendências mais radicais da poesia visual e das artes plásticas dos anos 50 e 60. Wlademir volta para o Rio de Janeiro em 1952. Nessa década, edita e programa visualmente a Revista da União da Nacional dos Estudantes e participa dos movimentos de vanguarda política e cultural da época. Mas, mesmo distante, está sempre com um pé em Cuiabá, como ainda hoje.
     De lá pra cá, é história já bem sabida, ou não: em 1958, o “vitrinista” Wlademir transforma com sua arte o Carnaval do Rio numa grande vitrine. Em 1962, escreve Antônio Olinto em sua coluna Porta de Livraria, no Globo:
     “Há quatro anos, fez o poeta Wlademir Dias-Pino, para a então Prefeitura do Distrito Federal, uma série de desenhos concretos para a decoração de rua do Carnaval do Rio. Pela primeira vez em nossa história, entrou esse tipo de desenho em contato com o grande público. Os panos pintados por Wlademir acabaram sendo a inspiração dos carnavais seguintes, e a verdade é esta: não pode mais o carnaval do Rio voltar a ser figurativo, porque o povo se acostumou com os triângulos, os círculos, o tipo geral de desenho, enfim, de Wlademir Dias-Pino”.

Concretismo & SDJB


     Um dos seis poetas-pioneiros do movimento da poesia concreta no Brasil (junto a Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e Ronaldo Azeredo), ele participa em 1956 da I Exposição Nacional de Arte Concreta em São Paulo, que chega ao Rio no ano seguinte.  Publica poemas e textos no SDJB-Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, o grande veículo que acolheu o concretismo em suas páginas. Em 1967, Wlademir é um dos fundadores do Poema Processo, ao lado de Moacy Cirne, Álvaro e Neide Sá, entre outros.
     Em 17.02.1957, uma versão gráfico-visual do poema “A Ave” ocupa toda a terceira página do SDJB. Em 23.02.1958 publica no mesmo SDJB artigo intitulado “Da negação e positivação do espaço”, ilustrado por um fragmento em letras garrafais do poema “A Ave”.
Destaco alguns, vamos dizer, “aforismos” de seu texto:
     “A arquitetura antes de ser parede é o buraco onde o homem mora. É a arte de organizar vazios”.
“O músculo da máquina é a exatidão, daí o ar abstrato das artes modernas. É como num poema concreto: é tal a sua movimentação interior (em si) que ele passa a ser um poema sem contorno”.
“Um poema escrito é antes de tudo visual e não sonoro – ele não é um instrumento musical. Não se há de confundir lira nem bandolim com um poema. A poesia é silenciosa”.
     “A visão completa do poema faz com que ele perca a lógica linear, o tal contorno que é o máximo de continuidade de uma linha”.
     “Poesia concreta é o aparecimento máximo dos recursos naturais da palavra, porém não é a palavra flexível e sim os seus movimentos de ligação. Por isso, a poesia concreta não ser confundida com trocadilho”.

ave vae

     Na entrevista que concedeu em 1977 ao Totem, realizada por Joaquim Branco, dizia Wlademir:
     “Dentro da poesia concreta a poesia está ligada ao sentido de conteúdo. É importante: não pode existir o poético sem o conteúdo. O conteúdo é o mais importante no sentido de poesia, natural do poético.  Agora, quando é o poema independe do conteúdo, quer dizer, o grafismo ou a forma de registro é mais importante do que o conteúdo”.
     “O poema pode ser poético ou não, como um quadro pode ser bonito ou não. O poema independe do poético: a inscrição é mais importante que o conteúdo. Então ele está muito mais próximo do sentido de linguagem do que a poesia”.
     “O que é importante dentro do poema passa a ser então o processo do poema. Na poesia, o que se lê é a estrutura, como foi estruturada a poesia”. 
     “O que importa no poema é o processo que ele encerra. Você vê o processo. Daí a possibilidade da versão. Na poesia se faz tradução do poético. No poema, não. Não se permite uma tradução do poema, mas uma versão”.
     Num de seus poemas nascidos ainda Cuiabá, Wlademir registra: “muro gradeado de fuzilaria/ encostado ao limite/ – represa social.// O muro é a tela para todo o poema”. Pound tinha razão: os poetas são as antenas da raça. Esse velho muro de Wlademir, num olhar de hoje, antecipador de uma cena pseudo-paulista, é mais que up-to-date: é o grafite que esplende na integridade de sua arte. 
     Perdão Wlad, mesmo sabendo ser o poema visual e não sonoro, não resiste a falar trechos de “A Ave”, como na na abertura dessas minhas palavras. Menos ainda a dizer o poema que cometo a seguir, versão e fecho apressado de meu texto e de seu próprio poema.

                                ave
                        vae
                                ave
                                ave voa
                                                 voar
                                é preciso
                        vae
                                é preciso
                                            ir
                                            vae vae
                                mirar
                                ir
                                ave wlad
                        vae
                                ave ave
                                       ave wlademir

19 de jul de 2018

O goleiro em vão: a bola não vem por onde devia


A perfeição é uma meta/ 
defendida pelo goleiro.
 Gilberto Gil

Maldito é o goleiro. 
No lugar onde ele pisa nunca mais nasce grama.
Dom Rossé Cavaca

O goleiro deve dormir com a bola. 
Se for casado, dorme com as duas.
Neném Prancha


“Nada me ensinou mais na vida do que o fato de ter sido goleiro” – disse um dia o grande romancista franco-argelino Albert Camus (1913-1960), que foi goleiro do time da Universidade de Argel no início dos anos 1930. Ele era alto, magro e de aspecto físico frágil. Não virou profissional, mas refletiu sobre a função de goleiro. “Depois de muitos anos em que vivi numerosas experiências – afirmou numa entrevista de 1957 – seguramente tudo o que sei sobre moral e responsabilidade eu devo ao futebol. Aprendi que a bola nunca vem para a gente por onde se espera que venha. Isso me ajudou muito na vida, principalmente nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente pensa que são”.


Camus: "Tudo que sei devo ao futebol."

Na Folha de S. Paulo do último domingo, 15 de julho, Tostão – que não foi goleiro, mas craque no campo e agora também na crônica – filosofou: “As transformações no futebol ocorrem aos poucos e passam despercebidas. De repente, enxergamos o óbvio, que muitas coisas estão diferentes, como nos últimos 15 anos, e que, no Brasil, só se deu importância após os 7 a 1. Assim ocorre também na história e na vida. Quando olhamos no espelho, levamos um susto ao constatarmos que envelhecemos, e que temos de correr atrás da vida, antes que ela acabe”.

Guevara & o papa
O goleiro não corre atrás da vida, mesmo porque sua função é esperar a vida feito a bola que corre contra ele – e às vezes até por ele passa. Isso quando não faz milagres, a exemplo do “São Castilho” do Fluminense da década de 1950. E, no Brasil, goleiro milagreiro logo vira santo. Talvez, seja porque um papa que teve seus dias de goleiro foi canonizado. Karol Wojtyla, o papa João Paulo II, virou santo em 2014. Amigos dizem que, na infância, a posição preferida do papa era a de goleiro nas peladas em Wadowice, na Polônia. Contam que ele era robusto e corajoso: “Quando ele atuava como goleiro, era como um leão em frente à meta”.


João Paulo, "o leão", e o Che que se joga atrás da bola.


Como se sabe, o argentino e “revolucionário cubano” Ernesto Che Guevara tinha problemas respiratórios – e havia restrições médicas à prática de esporte. Mas ele não abria mão de usar o futebol como oxigênio para as cruzadas. Atuar no gol era um santo remédio, segundo relata o amigo Alberto Granado: “Em 1963, em Santiago de Cuba, fizemos um jogo de futebol. El Che era ministro das Indústrias e uma figura muito popular. Mas, quando estava no gol, não se lembrava do cargo nem de nenhuma outra coisa. Enfrentávamos uma equipe da universidade que era treinada por Arias, um espanhol. Durante o jogo, Arias recebeu a bola e avançou, mas Guevara saiu do gol e lhe deu o bote. Ninguém podia imaginar que o ministro iria se jogar aos pés de alguém por causa de uma bola. Mas ele era assim”.  
Outro político que também jogou no gol foi o brasileiro Café Filho, presidente da República de 1954 a 1955, depois do suicídio de Getúlio Vargas. Único chefe de estado na história do Brasil a ser jogador de um time de futebol, ele fundou o Alecrim Futebol Clube de Natal, do qual foi goleiro nos anos 1918 e 1919 – mesmo porque não tinha a mínima habilidade com os pés. Em sua autobiografia, referindo-se à histórica derrota do Alecrim por 22 x 0 para o América-RN, Café Filho ironizou:  “O arqueiro que certa vez me substituiu deixou que os adversários fizessem 12 gols, enquanto eu deixara a bola passar nas traves apenas 10 vezes”.

Louco pra ser goleiro
Há outros também que ficaram apenas na vontade de ver realizado o sonho de ser goleiro ao menos uma vez na vida, como o poeta e romancista russo Vladimir Nabokov. “Eu era louco para ser goleiro. Na Rússia e nos países latinos, esta arte altaneira sempre esteve cercada de um halo de fascínio singular. O trabalho do goleiro é como o de um mártir. É a águia solitária, o homem misterioso. Os fotógrafos se ajoelham em reverência para imortalizá-lo em pleno salto espetacular. Distante, solitário, impassível, o grande goleiro é seguido nas ruas pela meninada em transe. Rivaliza com o toureiro e os aviadores como objeto de emocionada veneração. A camisa, o boné, as joelheiras, as luvas saltando dos bolsos da calça o distinguem do resto do time. É a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor”.


Marinato: de Cataguases para a Rússia. Nabokov: louco pra ser goleiro.

E olha que em Cataguases – onde tudo é espanto –também afloram goleiros que, vamos dizer assim, a “projetam para o mundo”. Comentando minha crônica anterior, disse José Nêumanne Pinto, escritor e colunista do Estado de São Paulo: “Meu poeta e prosador, Cataguases é a Atenas (em função de seus poetas e escritores) de Minas e a Islândia (por causa do goleiro-cineasta) das Gerais”. E não é? Esta “arte altaneira” atraiu ainda agora ninguém menos que o cataguasense Guilherme Alvim Marinato, atual goleiro reserva da Seleção Russa que disputou esta Copa do Mundo. Ainda no time de escritores goleiros, também jogou Arthur Conan Doyle. Antes de publicar As aventuras de Sherlock Holmes, ele entrou para a história como primeiro goleiro do Portsmouth, da Inglaterra. Já outros escritores, como o uruguaio Eduardo Galeano e o nosso Nelson Rodrigues, se não foram goleiros, elaboraram as melhores definições sobre eles.
Diz Galeano: “Carrega nas costas o número 1. Primeiro a receber, primeiro a pagar.  O goleiro sempre tem a culpa. E, se não tem, paga do mesmo jeito”. E Nelson:Amigos, eis a verdade eterna do futebol: o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes, num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota”.


Julio Iglesias: no início, goleiro do Real Madrid. 

Embora não tenha se destacado sob as traves, outro goleiro que ficou famoso mais tarde foi o espanhol Julio Iglesias... mas como cantor. Seu sonho era jogar futebol e ele viveu bons momentos defendendo a meta do Real Madrid, desde que ali ingressou aos 16 anos. Aos 19 já era titular, mas sua carreira no futebol terminou após um acidente de automóvel que o deixou de cama por mais de um ano. Ganhou na época um violão, começou a tocar, e mudou de carreira.

O culpado foi o Juvenal
“Um dia as pessoas vão ver que eu não tive culpa. No Brasil, a maior pena é de 30 anos, por homicídio. E já cumpri mais de 40 anos de punição por um crime que não cometi” – declarou Barbosa, o goleiro da Seleção Brasileira de 1950, ao ser proibido de entrar na concentração da Seleção Brasileira de 1994 para uma visita de cortesia.
No Rio de Janeiro dos 1970 eu almocei várias vezes ao lado do craque Ademir Menezes, o Queixada, no velho Oxalá da Cinelândia.  Mas não tinha coragem de falar com meu ídolo no meio daquele mundo de carurus & vatapás.  Uma tarde, já naqueles anos 80 pré-internet, fui levar meu texto na redação do Pasquim, que na época funcionava na Ladeira Saint Roman, em Copacabana. Na volta, resolvi tomar um chope na Avenida Atlântica, no Alcazar, aonde não ia há tempos. A varanda do restaurante estava vazia àquela hora. Só eu e outro freguês. Adivinhem quem. 


Ademir Menezes: Barbosa não teve culpa.
    Depois do terceiro chope e dos correspondentes steinhaggers, tomei coragem e abordei o Ademir. Que nem um uruguaio dos anos 50. Mas o Queixada não me driblou. Pelo contrário, foi simpaticíssimo e nós conversamos até o anoitecer. A chopada valeu até um depoimento inédito sobre o gol de Gighia em 50, devidamente datado e assinado por meu velho ídolo numa comanda do Alcazar, e que vai reproduzido a seguir.
Pô, Juvenal, então foi você o culpado? Todos achávamos que fora o Barbosa, o inexpugnável goalkeeper do meu Vasco (dos anos 50, antes de eu virar Flamengo, que sou via-casaca assumido), o Barbosa que não foi naquela bola meio marota, vindo assim meio chocha da linha de fundo, como quem não quer nada, aquele chutinho furreca do Gighia que botou o Brasil em prantos. Vamos dizer, então, como o Chico Buarque, que o culpado foi o Maracanã. Mesmo que o Ademir lance certas controvérsias sobre o pobre do Juvenal, coitado, “que esqueceu da cobertura". É menos doloroso. Pois é, estamos com o Maracanã entalado até hoje na garganta, por mais que cantemos as Toradas em Madrid.


“Ao Ronaldo, com um abraço,
Ademir Meneses.
Copa de 50:
não há culpado, mas pela lógica,
 quem poderia ter salvo foi Juvenal,
que esqueceu da cobertura.
 Rio de Janeiro, Dezembro de 1982.
Ademir Meneses”.

In Jornal Olé nº 21
16 a 30/06 de 1998



O início e o fim: vilão & heroi
Ser goleiro é ser herói e vilão exatamente ao mesmo tempo – disse alguém um dia. Quem? Não importa. É querer evitar o inevitável sempre achando, lá no fundo, que dava pra defender o mais indefensável dos chutes. É jogar um jogo coletivo de  forma quase individual e depois de uma grande defesa, ainda que não te agradeçam, saber que você é tão ou mais importante que o artilheiro. É saber dizer, mesmo quando todos achem o contrário, que não houve falha, pois só quem joga lá embaixo das traves sabe o quanto as defesas que parecem simples às vezes são bem mais difíceis que os pulos vistosos. É ser o início e o fim do time. É querer acertar quando o time inteiro já errou... Enfim, ser goleiro é ser a alma do time, mesmo num jogo onde o principal objetivo é passar  por você.
    Ao que parece, esse beabá do goal-keeper não foi assumido pelo argentino Muslera na Copa da Rússia, ao engolir aquele frangaço no gol de Griezmann. Aquele chute fracote do francês que vinha onde Muslera estava, no centro da meta, aquela bola que ele deixou escapar de sua mãos e ir pro fundo das redes.  Exatamente como aconteceu comigo numa tarde de Cataguases, lá pelos anos 1950. Uma tarde inesquecível. Também pudera. Eu sob as traves do Operário Futebol Clube e no alto de um muro, como se debruçadas sobre o campo, minha mãe, minha tia e minha suposta namorada (que disso não sabia).


Muslera: bola que escapa e estufa as redes.

Um goleiro, qualquer goleiro, só existe enquanto existe o ataque adversário. Tem hora que a gente reza pra que chutem, chutem muito, chutem sempre. É a única chance de assinar o ponto o infeliz que apesar de todos os entraves busca resguardar o sacrossanto espaço entre as traves. Naquela tarde, nós já ganhávamos de um a zero, e nada da bola chegar à minha meta. Lá bem no alto das arquibancadas, ali bem em cima do gol onde me encontrava – sou surpreendido por três inesperadas figuras, tão raras quanto amadas e queridas e distantes como agora.
Os fundos da casa do pai de minha amada dava pro campo do Operário, exatamente como uma perpendicular que descesse sobre as traves onde me encontrava sob. Às vezes durante os treinos, e quase sempre em todos os jogos, minha amada lá se postava encarapitada na amurada. Diga-se, a bem da verdade, que “minha amada” é força de expressão, pois “ela não sabia que o era”, se me permitem as palavras truncadas. Nem precisa dizer que eu tinha um olho no campo e outro acima da arquibancada. Acho mesmo que devo debitar na conta desses olhares os únicos e pouquíssimos gols que sofri em minha exemplar carreira. Bem, na verdade, não foi muito uma carreira, porque jogava parado, embora em constante movimento, coisa de goleiro, não sei se me entendem.

Pede demissão!
Quem não me entendia era eu mesmo naquele jogo, esse que vemos agora, sob aquelas traves aonde não chegava sequer uma mísera bola. Nada chegava à minha cidadela, fora os olhares ansiosos lá de cima. De quem? Sim, dela é claro, mas também, e pela primeira vez vendo a atuação deste herói, de minha tia Carmem, a Cacai, que me acolchoava os calções, costurava as joelheiras e as meias, e dava a maior força para minhas arremetidas ao evitar os gols desta vida. Estava lá Cacai, que guardava e acho que guarda ainda agora os voos impossíveis deste inacreditável goleiro que com amor buscava agarrar seus sonhos. Os meus e os dela. A terceira criatura era de todas a mais improvável, a mais impossível de ali estar.
Dona Maria José Werneck Silva, Dona Zeca, la mamma. Lá estava quem eu menos esperava, a mamãe que odiava só de pensar no seu rebento transformado num “desses vagabundos que viviam de bicho e bola”. Bola, era a bola mesmo, futebol. Bicho, aquele mimo, aquele dinheirinho passado pelos dirigentes após as vitórias. Séria, atenta entre Cacai e minha amada, lá estava ela, a Dona Zeca: quem diria, quem eu mais temia. E o atleta aqui suava frio e sem graça, mesmo porque a bola, essa danada, não vinha nem por nada. Nosso adversário era formado por inacreditáveis pernas de pau e sequer mandavam um mísero chute pro meu gol.


Anos 50:  à frente do Juvenil. Mas eu jogava atrás. 

Eu parado, eu nervoso, eu inútil. Eu, Tarzan; você, Jane, minha amada. Onde anda meu cipó, como fugir dessa grama, como escapar dessas traves, como sair dessa selva selvaggia? Eis que de repente, e não mais, numa falta besta qualquer lá no campo deles, um jogador adversário chuta aquela bola que vem lá de tão longe, de mim distante. O sujeito havia chutado a grama e a bola lá vem vindo dos confins onde me desavim, murcha e chocha que nem ela – enquanto toda a defesa de meu time vira as costas, esperando que eu pegue a dita cuja e distribua pro ataque, num desses lances corriqueiros de qualquer partida.
Era a minha vez, a vez de mostrar minha competência para as três “figuras murais”. Dei uma última olhada assim de viés lá pra cima – para aquelas que eu acreditava minhas fãs forever, e me preparei para “a” defesa. Na verdade, não precisava de defesa nenhuma, a bolinha vinha boba e mansa, como se saísse dos pés de um moleque, rumo ao meio do gol, onde eu estava. Quer dizer, era só ali ficar, encaixar cômoda e tranquilamente no peito e distribuir a jogada. Não seria nem contra-ataque, já que não havia ataque, pois aquele chutinho suburbano não representava nenhum perigo. Ledo engano.
Não imaginavam os companheiros, não imaginavam os adversários, não imaginava a nobre torcida nem o trio de fãs o que arquitetava este nobre atleta. Aos poucos, meio de banda, fui dando uns passos pra fora do centro e do gol. Assim, quando a danada chegasse, e chegou, era só fingir um mergulho que era um mergulho mesmo, pois agora eu estava fora do centro, de mim, do campo, do gol e do mundo. Foi um voo daqueles antológicos, uma ponte belíssima à la Pompeia, daquelas pontes de “quero palmas”, onde agarrei a menina-bola como se agarra e se domina o mundo quando jovem. Só que o impulso de meu salto foi demasiado e incontrolável. Fomos parar, eu e minha redonda amada, no fundo do gol. Santa palhaçada! É quando, ainda no chão, preso à rede e ao vexame, ouço o grito inesquecível de mamãe: – PEDE DEMISSÃO, MEU FILHO!
Não pedi, mas deveria. Tempos depois, veio a glória (não, o nome da suposta namorada era outro), ou quase. Na Cataguases da época, como “no resto do mundo”, fazíamos o chamado footing na Praça Rui Barbosa: os meninos andando pra cá, as meninas pra lá. Foi quando ouvi, numa noite de domingo, meu nome citado pelo locutor e comentarista Celso Motta num dos alto falantes que transmitia, do alto de uma árvore, a programação da Rádio Cataguases. Eu fora eleito o melhor jogador em campo numa partida realizada naquela tarde entre o Juvenil do Operário e o do Flamenguinho, nosso grande rival. Imaginei então que minha amada – que rodava pela praça no sentido inverso ao meu – tivesse escutado a transmissão. Mas em seu footing sem fim, ela já estava do outro lado da praça. E, como sempre, não estava nem aí pra mim e pras minhas mirabolantes defesas.