29 de mai de 2019

Chico, Camões & meus botões



          Tem dias que a gente se sente a cismar: o que será, que será que andam combinando no breu das tocas? Dias em que não tem discussão, não, a minha gente falando de lado e olhando pro chão. Mas você que inventou esse estado e inventou de inventar a escuridão: eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia. Como vai proibir quando o galo insistir em cantar. Amanhã há de ser outro dia: inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria.  Outros e outros dias em que a gente vai contra a corrente até não poder resistir. Outros em que a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar. Você vai se amargar vendo o dia raiar sem pedir licença.
Mas não é dessa collage apressada de trechos de duas das canções emblemáticas de Chico Buarque de Hollanda que quero falar aqui. Talvez de um tempo, página infeliz de nossa história, os olhos (indevidamente) embotados de cimento e lágrima. Difícil esquecer, mas vamos tentar não falar de “pedras-de-toque” como aquele “Se entornaste a nossa sorte pelo chão/ Se na bagunça do teu coração/ Meu sangue errou de veia e se perdeu/ Como, se na desordem do armário embutido/ Meu paletó enlaça o teu vestido/E o meu sapato inda pisa no teu”.
Ou de pontos luminosos como os daquela construção de alexandrinos com cesura perfeita, realçados pela profusão de proparoxítonos, de quem ergueu no patamar quatro paredes mágicas. De quem tropeçou no céu como se fosse um bêbado e flutuou no ar como se fosse um pássaro. Ou, ainda, da bela e injustiçada  Sabiá, uma elaborada canção de “in-exílio”: “Vou voltar/ Sei que ainda vou voltar/Para o meu lugar/ Foi lá e é ainda lá/Que eu hei de ouvir cantar/  Uma sabiá”.
Chico vai voltar sempre, que aqui é o seu lugar. E sempre e sempre nos surpreender com novas canções e romances. É também muito em função desses que ele acaba de se tornar o mais novo laureado com o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante da língua portuguesa. Tanto mar. Por mares de nunca de antes navegados, diz de lá o vate, são muitos os Chicos num só Chico Buarque de Hollanda. Muitos Chicos em perigos e guerra esforçados, mais do que prometia a força humana.
Instituído em 1988, o Prêmio Camões tem o objetivo de reconhecer um autor de língua portuguesa que tenha "contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural" do idioma através de seu conjunto da obra. Chico foi logo saudado pela multidão de fãs, e até mesmo pelo presidente: “pelo empenhamento político, pelo amor ao Rio de Janeiro e ao Brasil, pelo trabalho sobre uma língua que, atravessando tanto mar, nos une”. Pelo presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, diga-se de passagem, porque – aqui, ó! – o ex-Capitão Talkey fez cara de paisagem. E paisagem nebulosa. Quer dizer, cara de escuro como no breu das tocas onde inventou de inventar a escuridão,como não podia deixar de ser. O Prêmio Camões ganho por Chico foi um tapa de luva (de boxe, claro, um jab mais-que-perfeito) na ignorância que grassa nos gramados do Planalto.

Budapeste: o livro, o filme



Eu li a maioria dos romances de Chico Buarque, livros significativos que lhe valeram o Prêmio Camões: Benjamin, Estorvo, Leite Derramado. Mas o que chamou mais minha atenção, aquele ao qual me debrucei quase magnetizado pela sutileza do enredo, por seus ardis na escrita e pela trama das palavras urdidas com rara beleza, foi mesmo Budapeste. José Miguel Wisnik diz melhor do que eu: “Chico Buarque teceu uma variação inusitada (poderíamos dizer diabólica, se considerarmos que o húngaro é a única língua do mundo que, segundo as más línguas, ´o diabo respeita´), sobre o escritor e seu duplo, sobre a fama e o anonimato, sobre identidade e impostura, sobre quem-é-quem e ninguém”.  E Wisnik finaliza: “É que há romances que, no exato momento em que terminam, transformam-se em poesia. O romance esconde a versão oculta de si mesmo, e se soletra todo, num flash extremo, como uma língua-música, que se desse de uma vez, por inteiro”. 
A leitura de Budapeste me levou também à minha infância, ao jogo de botões (uma das especialidades do próprio Chico), pois os nomes dos personagens do livro homenageiam a lendária seleção da Hungria dos anos 1950. Exatamente como meus botões entravam em campo, acompanhando as partidas como se ao vivo, com aquela escalação diabólica comandada por Ferenc Puskás, meu melhor botão, além, naturalmente, de astro maior do scratch magiar. Na ocasião, publiquei uma crônica falando do livro Budapeste e de meus botões. Foi quando meu amigo Walter Carvalho, que filmava o romance, me disse que  gostara muito do texto e que iria mostrar pro Chico.
Tempos depois, Waltinho me convidou para uma exibição privê no Rio, pré-lançamento do filme, uma sessão matinal num cinema de Botafogo. Na verdade, o filme Budapeste me deixou gratamente surpreso pela condução da trama e pela qualidade das imagens, o que não é lá muito novidade quando se trata de um filme com a grife Walter Carvalho, possivelmente nosso melhor diretor de fotografia. Isso além de meu amigo, o cineasta húngaro Miklós Palluch, aparecer subitamente numa ponta. Ao que soube, Miklós auxiliou a produção na transposição para o húngaro de alguns diálogos. O filme de Waltinho é “mortífero” – e vocês vão entender o que quero dizer quando lerem minha citada crônica, publicada em meu livro “Há Controvérsias 2”, que reproduzo a seguir, em homenagem ao Chico e aos dois Waltinhos: o Carvalho, e o Jones Walter Melo, meu parceiro dos jogos de botões da infância em Cataguases.

 

Chico, Puskás, Jones:  

sempre mortíferos




     Comecei a ler “Budapeste” no Rio, há cerca de dois meses.  Quase viro a noite, não fora o cansaço do dia-noite de viagem & trabalho e a já nova madrugada & dia e seus compromissos: algumas reuniões cariocas e textos & mais textos por fazer – lá e em acá/taguases. Abraçado ao mais novo romance de Chico Buarque, dormi sonhando com o time da Hungria na Copa de 1954, o famoso scratch húngaro entronizado por Armando Nogueira, com seus Ferenc Puskás, Kocsis, Hidegkuti, Zoltan Czibor e outros craques cujos nomes Chico embaralha no Rio-Budapeste de sua trama e faz personagens de seu livro. Mais dias-noites em trânsito, mais textos em transe madrugadas afora & compromissos noite-dia adentro – e só agora retomo Budapeste, semanas após a primeira empreitada.
     “Aí eu estou chegando quase”, diz o escritor “fantasma” José Costa, ou Zsoze Kósta, tentando “falar” húngaro para a namorada magiar, que sorri imaginando sua chegada “em pedaços”, ou quase.  O personagem de Chico Buarque voltava de um “encontro anual de autores anônimos em Melbourne, encontro de profissionais que, por princípio, princípios não têm” e, no Rio, passa a criar “autobiografias, mercadoria com farta demanda reprimida”. No romance de Chico nomes e lugares remetem a lugares e nomes reais ou fictícios, mas interligados a cada virar de página, e acabamos às vezes até fazendo associações onde talvez não existam.
    É o caso de Teresa, que lembra Manuel Bandeira. Zsoze Kósta: “A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa”. Bandeira: “A primeira vez que vi Teresa/ Achei que ela tinha pernas estúpidas/Achei também que a cara parecia uma perna”. É intencional a perna de Teresa ou mera coincidência?
     Seria como dizer com sofisticação eu te amo: “Me diz pra onde é que inda posso ir/ Se nós, nas travessuras das noites eternas/ Já confundimos tanto as nossas pernas/ Diz com que pernas eu devo seguir”. E, língua nativa ou não, pernas pra lá e pra cá, Bandeira ou não, Chico acaba passando poesia: “Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa”.
     “Mortífero”. No jargão da juventude húngara vista pela ficção de Chico, a palavra significa “o máximo’, que tanto pode ser “o máximo de bom, como o máximo de mau”. Alguém lê o livro que Zsose Kósta escrevera, livro dentro do livro, e diz “Mortífero”! Mortífero bom ou mau? “Mortífero assim-assim”, é a resposta. Pois é, Budapeste é mortífero de muito bom. “Agora eu lia o livro ao mesmo tempo em que o livro acontecia”, diz Chico-Zsose Kósta lá pelas tantas. “Da língua que não estima”, diz ele sobre seu personagem-escritor-anônimo, “ele mastigará as palavras bastantes ao seu ofício e ao dia-a-dia, sempre as mesmas palavras, nem uma a mais. E mesmo essas haverá de esquecer no fim da vida, para voltar ao vocabulário da infância”. E Budapeste acontecia em mim, como se num repente eu voltasse à infância.
     Os craques húngaros adentram o gramado de Budapeste sem que se diga quem são nem de onde surgiram esses nomes: o poeta Kocsis Ferenc (Kocsis, era atacante do scratch; Ferenc, o primeiro nome de Puskás, o mais famoso craque húngaro de todos os tempos, que acabou defendendo a seleção espanhola e que vi atuar no Maracanã nos anos 60, numa noite de um inesquecível Santos x Real Madrid. Vi mesmo ou foi sonho meu?); o escrivão Puskás Sándor (o meia-armador Sándor era o primeiro nome de Kocsis), o prosador Hidegkuti István (o centro-avante da equipe de 54); a praça Czibor (Zoltan Csibor, extrema-esquerda), a avenida Bozsik (József Bozsik, o genial meio-de-campo), “com suas bétulas em flor”, segundo Kósta.  A cada nome, o nome de Jones Walter Melo me surgia. A cada craque relembrado por Chico, Waltinho aparecia como se sorrisse, o sorriso morto de meu velho amigo recém-falecido. 
    Os anos 50 sobrevinham em mim, marcados pelo mover dos botões mágicos e de nomes idênticos manipulados por Jones Walter Melo na varanda da casa de meus pais na Rua Dr. Sobral.  Também em Cataguases o nosso scratch húngaro era “mortífero”. Eu e Jones, o meu amigo Waltinho, formávamos o mais invejável cartel de botões da cidade. Ele vinha do Bairro Granjaria para somar seus craques aos meus, no mais poderoso button´s association da história catuauá. Tão “mortíferos”, tão imbatíveis éramos que acabamos não mais dando colher-de-chá aos outros meninos: só enfrentávamos a nós mesmos, pois com os outros era pura covardia.
     Acompanhávamos a Copa enquanto ela acontecia, jogávamos os botões de nossa Copa, enquanto a varanda da rua Dr. Sobral transformava-se na Suíça onde corriam os outros craques em tempo real. Quem eram os craques verdadeiros, os de Melbourne ou os de Cataguases?  Há controvérsias ainda hoje, pelo menos entre esses marmanjos que às vezes reencontro pelas ruas da memória, de volta ao vocabulário, sempre mortífero, da infância. Olhaí, Waltinho, como é que você foi fazer uma coisa dessas, abandonar o campo assim sem se despedir, sem sequer dar uma volta olímpica? Mortífero, esse seu jogo. Bem, assim-assim: aí eu estou chegando quase.
23.05.2004



21 de mai de 2019

Paris proibida? Viva a imaginação no poder


     E ponto final. Assim abro eu este texto, com um ponto que não fecha, pois vai de encontro a qualquer argumento. Exatamente como faz o desarticulado Capitão Talkei, que solta um “e ponto final” cortando perguntas que o incomodam e para as quais não tem argumentos. “Ponto final uma pinoia: o Brasil não é quartel”, diz Mario Sergio Conti em sua coluna do último sábado na Folha de S.Paulo, quando solta uma série de pontos e vírgulas: “O governo é integrado por beócios; aventureiros; idiotas inúteis; tratantes; bobalhões; Sérgio Moro; pintores de rodapé”.
Semana passada, os estudantes brasileiros em marcha por cerca de 200 cidades contra a (des)educação governamental, acompanhados por uma massa popular de mais de dois milhões de pessoas me levou de volta à Paris de 1968. Tal e qual. “Sejam realistas, busquem o impossível” foi um dos muitos slogans grafitados nos muros parisienses pelos jovens estudantes comandados por Daniel Conh-Bendit.  
“Era então maio e todas as tevês, todos os livros, jornais, revistas, toda a mídia, toda, todos, todos eles, toda Paris – só se falava daquele maio de 50 anos atrás. Daquele maio de 68 – daquele “carnaval”, daquele chienlit segundo De Gaulle – da força da palavra de (des)ordem de Daniel Cohn-Bendit. A Paris do maio de 1968, com os estudantes e operários tomando as ruas, as ruas que repercutiam com toda a força aquele ´é proibido proibir´: a imaginação no poder”.
      Com esse parágrafo eu terminava uma série de crônicas escritas em junho do ano passado, ao voltar de Paris, a maioria tendo a cidade e o maio de 68 como foco. Não sem antes reservar alguns tópicos para o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, sobre quem encontrara num dos buquinistas das margens do Sena uma extensa e bem apanhada biografia escrita por sua filha. Cendrars acabou conectado a Cataguases, pois escrevera um poema em 1927 dedicado “aux jeunes gens de Catacases” (sic), aqueles companheiros de Rosário Fusco na aventura da Revista Verde.
Lembro que na época meu amigo Angelo Oswaldo, então Secretário de Cultura de Minas, mandou-me um poemail registrando minha crônica: “Caro Ronaldo,/ não só rosário/ ofusca paris/ de jeunes gens/ de catacases/ continuam a/ brilhar na cidade/ de cendrars/ e o rio pomba/ deságua na cena/ em que o poeta/ roneck atravessa/ o sena e acena/ para os que daqui/ aplaudimos o ás/ de cataguases”.

Jazer: o livre prazer


Gréco - Zaz - Montand

Mas, como disse Cendrars, “jazz vient de jaser” – das muitas vozes em dissonante andamento, às vezes em algaravia, em contínuo improviso – e Paris, digo eu, vem de lazer. Melhor, de “jazer” que é jazz e prazer. Turistas transgressores, deixemos – como no maio de 2018 – um pouco a cultura “oficial” de lado. Agora, nada de Louvre, nada de Versailles, nada de Beaubourg, apenas uma rápida passada pelo Orsay, que está no caminho,  e vamos lá, que Paris é também e ainda La Paris Canaille de Léo Ferré. A velha canção que ouvi primeira vez lá pelos anos 50 com Juliette Gréco e depois tantas e tantas vezes num velho vinil dos anos 60 de Yves Montand – e que volto a ouvir agora numa relativamente recente (2014) e vibrante gravação pop da jovem chanteuse Zaz (Isabelle Geffroy):
Paris marlou/ Aux yeux de fille/ Ton air filou/ Tes vieilles guenilles/ Et tes gueulantes/ Accordéon/ Ça fait pas d'rentes/ Mais c'est si bon // (...) // Paris flon flon/ T'as l'âme en fête/ Et des millions/ Pour tes poètes/ Quelques centimes/ A ma chanson/ Ça fait la rime/ Et c'est si bon”. Arrisco uma tradução “de prima” para esses dois fragmentos da canção, que é imensa: “Paris parasita/ Vista pela menina/  Seu ar que hesita/ Velho trapo que desafina/ E sua gana/ Acordeon/ Isso não gera grana/ Mas isso é bom// (...)// Paris cafetão/  Sua alma em festa/ E milhões/ Pra seus poetas/ Trocados em cima/ Pra minha canção/ Que tem rima/ Acordeon/ E isso é bom”.

Crazy Horse & rue des Ecoles



E foi nesse embalo que resolvemos encarar o show do Crazy Horse. O famigerado cabaré parisiense e seu strip-tease inaugural ficou conhecido mundialmente pelo filme Europa di notte (1959), de Alessandro Blasetti, que assisti com 17 anos – e, confesso, devidamente deslumbrado – aqui na Cataguases do início dos anos 60. Quer dizer, o Crazy Horse ainda estava num lugar meio difuso do imaginário. Tempos atrás havíamos assistido ao espetáculo do Lido, puro circo, salvando-se as piruetas no gelo ao som de Nino Rota e, mais recente, ao famigerado can-can do Moulin Rouge, absolutamente enfadonho.
“Totally Crazy”, o espetáculo em cartaz no Crazy Horse é um belo “divertissement”, termo que uso aqui em homenagem ao grande Erik Satie, com um número de sapateado dos irmãos gêmeos Roman & Slava simplesmente sensacional. Mas a grande vedete do show é mesmo a iluminação – o jogo de claro-escuro, de cores e luzes – delineando à la OP ART e dando forma aos corpos (e que corpos!) das apolíneas dançarinas, com o perdão da rima. Isso porque o desenho daquelas luzes moldando aqueles corpos de vedetes com nomes plenos de alusões & malícia como Kika Revolver, Enny Gmatic, Dekka Dance, Tina Tobago, me deixaram assim meio obnubilado.
O que de certa forma me remete a um porno-show da pesada visto em 1979 num pequeno teatro da rue des Ecoles, nas proximidades da Sorbonne – i.e., um pornógrafo literalmente de “escol/ástica”.  Havia uma rede, sob a qual ficavam as poltronas onde o público se sentava. No pequeno palco, atores começavam pudicamente a representar fragmentos de uma peça de Molière. Súbito, todos se despiam e começava uma endiabrada orgia sobre a rede e a cabeça dos extasiados espectadores. Uma loucura como só mesmo na Paris daqueles tempos. Não me lembro mais o nome do show, talvez “A rede de Molière”, ou coisa que o valha, só sei que ficou em cartaz por longos anos.
Acabei fazendo um poema sobre o show da rede, chamado “35 rue des écoles”, que está em meu livro “Doris Day by Night”. Um porno-poema a exemplo de outros que permeiam o livro, a ponto de Affonso Romano de Sant´Anna, a quem dediquei um deles, me escrever dizendo: “Você está virando o poeta mais sacana de nossa poesia, indo além do Bernardo Guimarães com esse "ELIXIR" de Copacabana. Coisa de doido, sô! como dizia o Hélio Pelegrino! No mais é província ideal fluindo dentro de nós. Abraço, ars”.
Para deleite dos distintos leitores, se é que los hay, reproduzo a seguir o “35 rue des écoles”:
no petit théâtre/ trinta étrangers/ & a porosa solidão do quartier/ sobre nós/ a rede/ nos transmuda em peixes/ sobrenadando/  sobre o nada/ no palco/ um vaudeville qualquer/ claro: molière!/ tout-à-coup/ coxas/ caras/ tout court tout/  há coup/  pernas/ paus/ tu/ tá/ coup/ vaginas varam o vau/ & trepam em vão/ sans cesse/ jusqu´à l´îvresse/ escorre/ sêmen/ mil migalhas entre mim e as malhas/  tout-à-coup/ pernas/  paus/  língua/  tu/  tá/ cu/  pinga porra nos espanhóis que pulam/ olé!

Jazz no Jardim e em Montparnasse


Bianca - Bechet

       Mas Paris gosta mesmo é de jazz. Há poucos anos, assistimos no Le Petit Journal Saint-Michel, um clube de jazz localizado no Quartier Latin, nas proximidades do Jardim do Luxemburgo, a uma fantástica apresentação de jazzistas em homenagem ao grande clarinetista e compositor americano Sidney Bechet (1897-1959), que morou e morreu em Paris. Foi uma noitada com direito a Petite Fleur, seu maior sucesso, e a uma retomada de Summertime, que Bechet gravou em 1952 com Armstrong e o grande violonista Django Reinhardt. De quebra, alguns sets com o Take Five de Paul Desmond, imortalizado por Dave Brubeck,  e ainda o Duke Ellington de Take the A Train, e o não menos Thelonious Monk de Round Midnight.
        Em maio passado, foi a vez de um ótimo show no Café Jazz Montparnasse com um grupo de jazzistas da pesada e a surpresa da jovem cantora parisiense Bianca Gallice. Com seu jazz manouche, um estilo de jazz cigano que se caracteriza pela liberdade, pluralidade e quebra de padrões, Bianca domina a noite e me lembrou muito Elis Regina, talvez por seu cabelo curtinho, à la homem. 
      No intervalo fui conversar com Bianca e disse isso, que ela estava parecida não só com Elis Regina (também pela movimentação em cena),  como com a Jean Seberg do Acossado de Godard. Para minha surpresa, ela adorou as comparações, pois também gostava muito do filme de Godard, e se mostrou “cheia de si”, quando me perguntou pela terceira vez se eu achava mesmo isso, pois era fã de Elis Regina.  

Rebocho, a Pide e 68 em Paris


Os estudantes e os slogans: maio de 68 em Paris.

Jazz manouche, liberdade, quebra de padrões, tudo isso me leva de volta ao maio de 1968, quando era “proibido proibir” e a imaginação estava no poder. Meu amigo, o poeta e jornalista português Nuno Rebocho (como ele mesmo diz, “português nascido em Moçambique, tendo vivido largos anos em Cabo Verde”), que esteve preso no Porto, na sede da Pide, enviou-me depoimento sobre aqueles tempos. É outra visada dos acontecimentos do período. Transcrevo alguns trechos a seguir.
“Maio de 68 apanhou-nos na prisão - era a sede da sinistra Pide no Porto, onde se entrava pela Rua do Heroísmo e saía pelo cemitério do Prado do Repouso (hoje é Museu Militar). Tinham acabado os interrogatórios pidescos e aguardávamos ser “julgados” no Tribunal Plenário de S. João Novo. Foramos detidos em novembro de 67 e seríamos o primeiro julgamento político da era de Marcelo Caetano. Recebíamos, sem censura, o Paris Match e uma revista espanhola. E, por elas, fomos acompanhando os acontecimentos na capital francesa, onde viviam muitos portugueses exilados, fugidos ao salazarismo, à tropa e às guerras coloniais. 
“Ocorrido dois anos depois do início da chamada ´revolução cultural proletária´ chinesa, o Maio de 68 estilhaçava a superestrutura cultural europeia (e não só), desbaratava mentalidades estabelecidas, despertava novas mentalidades e paradigmas. Era a sociedade dominante que estava em causa, embora a não subvertesse na sua essência. Na esquerda, questionava ferozmente o sovietismo que esbarrara na miserável acusação de “juif allemand” que o líder comunista francês, Georges Marchais, fizera a Bendit (estaremos disso esquecidos?). 
“O Maio de 68 – fundindo, num amplo movimento, o movimento sindical, a juventude estudantil e uma parte da intelectualidade –, ao não atacar diretamente as relações sociais estabelecidas, autolimitou-se, comprometeu-se e falhou. Mas fez abalar o sistema, rebentou com “princípios feitos” e “verdades estabelecidas” (“é proibido proibir” foi regra então emergente), espoletou novas mentalidades. Parecia confirmar teses que vínhamos defendendo. Estávamos entusiasmados”.
Rebocho possui também um blog de poesia, http://ibnmucanapoesia.blogspot.com/, onde destaca trabalhos de inúmeros poetas que escrevem na língua portuguesa. Vários poemas de poetas brasileiros foram ali publicados, inclusive alguns meus.  Mais recentemente, ele escreveu, a pedidos, um texto sobre nossa amizade e minha trajetória literária para a Revista “Olhares Amazônicos”, editada em Roraima por Roberto Ramos. Nos dados que enviou ao editor, diz Rebocho: “envio-lhe meu texto sobre Ronaldo Werneck – um bom poeta brasileiro que faz o favor de ser um dos meus amigos. Escrevi ao correr dos dedos e num modo simples, com o engulho de não dominar o português-brasileiro”. Vejam o texto de Nuno Rebocho a seguir.

REMOENDO BALDROCAS
SOBRE RONALDO WERNECK



Já lá vão anos que encontrei e conheci Ronaldo Werneck. Foi no sul de Portugal, em Lagos, durante o Festival de Cinema Lusófono que entre nós  começou duradoira amizade. Demorada correspondência e novo frente-a-frente em João Pessoa (lindíssima cidade) vincaram a amizade com o poeta de Cataguases. Os laços criados cimentaram-se.
Com Werneck, estreitaram-se ainda mais as muitas cumplicidades que já tinha em terras brasileiras. Haverei de delas vos falar, revelando amizades que construíram o meu mundo, incluindo os encontros com o saudoso Jorge Amado, tanto em Salvador da Baía como no Estoril português. Por enquanto, é o autor de “Há controvérsias” o motivo desta conversa convosco.
Ligava-nos o facto de ambos sermos jornalistas e poetarmos por desporto, embora eu sempre atirasse o taco fora nas questões do concretismo, velho ou neo. Ensaiara umas coisitas imitando-lhe o modo, mas cedo arrumara a manta no que toca tais aventuras. Outro era o meu fado, ao contrário de Werneck que eu vinha tratando por “Ronaldinho Mineirão”, para o destrinçar de outro Ronaldinho, o Gaúcho. E tínhamos ambos a mesma paixão pelo cinema, mais acentuada nele, não fora da terra de Humberto Mauro (com quem convivera) e já lhe ter espirrado para o sangue o cinéfilo vício.
Além de integrar a equipa responsável pelo Festival de Cinema Lusófono, Werneck corria léguas, mundo afora, com a sua máquina fotográfica, clicando em Paris, em Itália e sei lá onde mais. Volta não volta, choviam mensagens suas dando-me conta das paragens que cirandava: Ronaldo, como eu, era “viageiro de mundos”, vício que por certo também lhe viera trazido pela profissão.
Os livros que Werneck destilava ia-mos enviando pelo correio. Por eles, descobri a sua excelente poesia e, certa feita, chegámos a uma troca de galhardetes a pretexto de um poema meu, “Canto Finissecular”. Pena que me tenha desenvencilhado da obra sua, deixada nas ilhas de Cabo Verde na doação a uma biblioteca que ajudei a criar em S. Martinho Grande (Ribeira Grande de Santiago). Mas adoro o seu poetar feito de subtilezas e de associação de ideias que, de algum modo, me confortou com o concretismo.
Afinidade outra foi a do gosto que ambos mostrámos pelos textos de crónica: prosa livre a sua, em contraste com o sincopado tom da poética, escorrendo o convívio com grandes músicos quer em S. Paulo, na Baía ou no Rio de Janeiro. Ronaldinho ia dando azo, com génio, à sua muita criatividade, desforrando-se da vida nas bancas dos jornais e publicações por onde trabalhava. Também nisso achava na amizade nossa também algo em comum.
Enfim, Werneck deleita-me, com o seu rico linguajar que sempre me confundiu, escrevendo mesmo para um poema (publicado em Piracicaba) sobre o estranho significado que as mesmas palavras, redigidas no português desta riba do Atlântico, ganham nas bandas das terras de Santa Cruz. É um português sambado, divertido, molhado e doce – é, afinal, um português bem brasileiro.
Através de Werneck conheci outros vates do Brasil que entraram pelo meu mundo. Mas isso será tema para outras conversas se, eventualmente, houver para  elas oportunidade.
Nuno Rebocho
Lisboa, abril de 2018 


10 de abr de 2019

Lina Tâmega Peixoto: delicadas cambalhotas


 Na próxima sexta-feira, 12 de abril, Lina Tâmega Peixoto lança seu mais recente livro de poemas, “Alinhavos do tempo”, no Centro Cultural Humberto Mauro, em Cataguases. Na ocasião, ela fará palestra intitulada “As projeções do Barroco na poesia de Cecília Meireles”, poeta de quem foi amiga. “Alinhavos do tempo” já foi lançado com grande sucesso em Brasília no final de 2018 e, em janeiro deste ano, na Casa do Brasil em Lisboa.
A lembrança do Planalto Central leva-me a dezembro de 2017, quando de uma palestra sobre poema visual que fiz na Biblioteca Nacional de Brasília – com a honrosa presença de Lina. O diretor da Biblioteca, Carlos Alberto Ribeiro, a acompanhou até à porta quando ela estava de saída. E depois se desculpou comigo por ter deixado a sala por alguns minutos. Carlos Alberto disse então uma coisa que me deixou orgulhoso de minha querida amiga: “Lina Tâmega é uma entidade aqui em Brasília, foi uma honra tê-la conosco nesta noite”. Não me lembro ao certo se o que ele disse foi mesmo “entidade”, o que parece coisa do astral, mas se não foi deve ter sido alguma palavra afim, que Lina é mesmo “alto astral”.
Ela sempre me maravilhou com sua escrita delicada, elegante, escrita de fino trato – quer surgida de seus belos poemas, quer adornando um mero email do cotidiano: “Um abraço quase de sombra que o spot constrói entre meus dedos. Lina”. “Desejo que tudo em você fique subordinado à verticalidade e ao horizonte do mundo físico e às operações da inteligência emocional. E permaneça com a extraordinária lucidez de torcer as nuvens do desencanto para o clarão  do imaginário”. “Escrevo-lhe para deixar o cisco da letra, já que não houve o som do espírito. Depois, mando palavras. Cambalhotas de abraços, Lina”.

Fala, escreve, respira poesia
Cataguasense moradora em Brasília desde os primórdios de sua construção, a professora universitária e ensaísta Lina Tâmega Peixoto é poeta de longo curso, e das grandes. Cidadã do mundo, na verdade nunca se desprendeu totalmente do mundo-Cataguases, como afirma: “Ser mineira de Cataguases é o que não me faz ser estrangeira em Brasília, é o que me faz ser habitante de qualquer rua do mundo e nunca ser traída no meu jeito de viver”.
Sua trajetória literária inicia-se em 1949 ainda em Cataguases, com a edição da Revista Meia-Pataca, ao lado do poeta Francisco Marcelo Cabral, seu (e meu também) grande amigo. Em 1953, surge o primeiro livro “Algum dia”. Somente 30 anos depois, o segundo, “Entretempo”, 1983.  Mais duas décadas sem publicar, quando em 2005 lança “Dialeto do corpo”. E, na sequência, num só ritmo, “Água polida”, 2007; “50 poemas escolhidos pelo autor”, 2008; “Prefácio de vida”, 2008; “Os bichos da vó”, 2008; “Entre desertos”, 2014.



“Alinhavos do tempo”, de 2018, seu mais recente livro, aportou aqui em casa – na Cataguases margeada pelo Rio Pomba, tão caro a mim quanto à minha amiga poeta – em dezembro último. E, como sempre, trazendo a sutileza das metáforas tão características até mesmo em suas dedicatórias: “Para o querido amigo Ronaldo, os ruídos do coração que alinhavam o abraço de admiração e amizade que leva estas palavras até você, Lina”. A poesia assoma em cada gesto, em cada um de seus escritos – não só na força, nos muitos punti luminosi de seus poemas, motor por excelência da poesia, mas num ensaio, numa carta, num bilhete, numa postagem qualquer. “Qualquer”, palavra errada: tudo nela indica extremo cuidado, emana resplendor, halos impregnados de uma poética de grande intensidade. Lina fala, escreve, respira poesia.

O boi (e a noite) no quadrado
Tão logo pude, registrei por email o recebimento de “Alinhavos do tempo”: seu livro chegou às minhas mãos já há vários dias, mas ainda não agradeci porque queria ler antes, e ler pausadamente, como sempre degustando sua poesia, que me é muito cara. Assim, ele andou comigo já algumas vezes durante breves e recentes viagens. E eu viajei em suas páginas com grande prazer.
Como, por exemplo, na narrativa para a construção do poema “O boi no quadrado”, num enquadramento em contra plongée que remete ao cinema de Humberto Mauro. O cineasta gostava de enquadrar bois no alto dos morros de Minas, na contraluz do sol. Em sua infância, certamente você, Lina, nunca ouvira falar de Mauro, menos ainda dessa sua preferência por enquadrar bois no alto dos morros. Mas o alumbramento parece o mesmo, quase uma epifania: “Uma menina canta alguma coisa. Súbito, entra no canto palavras sobre um boi no quadrado. A imagem deste boi, sozinho no alto do morro, dentro de um quadrado de arame farpado, visto há muitos anos, solta-se de sua prisão e vem ser o lamento da tristeza retido nos ossos da solidão. Esquecida a música por instantes, fica o poema. A percepção do mundo que me havia sido doada, foi um deslumbramento. (...) A partir daquele momento, a poesia segurou minha mão: ´... não mexas no boi´ ´não batas no boi/ que o boi quer dormir/ sonhando que a noite/ subindo das noites/ sobe-lhe nas costas./ E lá se vão eles/ o boi e a noite/ atrás da saudade”.  



Que coisa mais perfeita – disse ainda em meu email (sim, “papai trabalha por email”, como diz minha filha Ulla) – isso que você escreve no “pré-prefácio”! Isso: “preciso envelhecer o presente para recriar as coisas que se escondem dentro de mim e que resistem às delicadas sutilezas da imaginação, no fazer-se obra literária”. E, na sequência, a citação do poema: “Piso descalça histórias envelhecidas/ no ranger das tábuas”.
Acho que aí está, em perfeita conjunção, uma síntese de todo o seu livro, de toda essa delicada, sutil viagem “para dentro de seu quintal”, de sua casa às margens do Pomba, ali onde o presente é envelhecido com a imagem da infância-joaninha da menina aturdida com o desconcerto do mundo. (...) “Perguntei à minha mãe como fora possível eu ter mamado na joaninha. Ela riu muito e, me afagando a cabeça, revelou que Dona Joaninha, a mulher que morava em frente à nossa casa, havia me amamentado por uma semana. O estranhamento de antes se transformou no sopro da via possível de ser inventada e carreguei o mundo para dentro de um casulo... e me transformei em herança e poesia”.

Criação do mundo e seu naufrágio
Aliás, ao falar na casa de sua infância na rua do Pomba, no quintal que se debruça sobre o rio, e na Ponte Velha, surge logo aquela imagem belíssima: “uma carcaça de estrela, tombada do azul que o céu sustenta”.  E falar no “seu” quintal me leva (você nos leva) ao impacto da imagem (como se nós a víssemos enquanto lemos) daquelas formigas, cogumelos e etc que se abrigam “para que a água do regador/ venha cabisbaixa em sua fúria/ e não alveje a criação do mundo e seu naufrágio”. A criação do mundo e seu naufrágio: que força têm essas palavras-imagem no universo daquela menina que apreende o mundo a partir do quintal que é “seu mundo”. Seus poemas respiram poesia a cada página, Lina. E nos encantam, como mágica! Sim, que encantamento tamanho salta dessas (suas) palavras que adejam sobre “a clara, linda, alta e fina fala” (que belo e altissonante decassílabo!).



“Aquela escrita de coisa, coração e susto/ é o encanto faminto que entra entre falas adentro”. Drummond disse um dia ao ler um poema de “O Centauro” do então jovem Francisco Marcelo Cabral, o nosso Cabruxa: “aqui tem coisa”. Não é preciso que eu repita o dizer de Drummond, pois sei que sempre vou encontrar muitas e belas “coisas” (como esses versos) em seus poemas. Mas quando me deparo com uma pedra-de-toque como “Volteio o corpo/e a saia abre-se em varanda” sinto que a força dessa imagem só pode me levar a dizer que aqui tem não só “coisa”, mas um constructo de muitas e muitas belas coisas.
Ótima e mais que oportuna citação a que você faz de Walter Benjamin, aquilo da importância de se rememorar a vida (para o poeta) ser mais importante que a própria vida vivida. O filósofo Benjamin, pelo menos aqui, me remete de certo modo (paradoxal, ou não?) ao lema que Mário Faustino colocava como epígrafe de sua página “Poesia-Experiência” no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil: “Poesia e vida minha seguirão sempre paralelas”. 
Ah, sim: não posso me esquecer de mencionar o belo estribilho de Cantiga IV: “Vou a cuidar da razão/ que do amor cuida o coração/ Ai, coitada de mim!”. Pois é, minha amiga, conduzida pelo poema, a literatura assoma de cada palavra que você escreve. Repito: você respira poesia – e da mais alta qualidade. Parabéns pelo novo livro e receba daqui das margens do Pomba (infelizmente não do seu quintal), o beijabraço mais afetuoso do admirador de sempre, Ronaldo.

Emoções da inteligência
Sobre a poesia de Lina Tâmega Peixoto, escreve o poeta Joaquim Branco: “Ler um livro de Lina requer tempo. Não o tempo normal que se gasta para leituras cotidianas, mas um tempo para se concentrar mais, pois ele exige do leitor mais do que a fruição de palavras que vão puxando palavras. Seu discurso requer um silêncio dentre desse tempo para se buscar. (...) Fui dirigindo meu voo por penetráveis porém surpreendentes vias – que é assim o caminho dos bons livros – deparando ora com o recurso da metalinguagem, ora com a difícil música de alguns versos ou com a ligeireza do pensamento”.
O mesmo Joaquim – meu grande amigo e companheiro de aventuras literárias que já vão para quase meio século – citado por Lina num dos e-mails que me enviou: “Caríssimo amigo: acabei de ver o que se maravilha da vida. E estive aí no Centro Cultural Humberto Mauro para os 90 anos da Verde e escutei você narrando Humberto Mauro e falando no Mac. Voltarei depois para ouvir mais coisas de seu gesto de coração de poeta e mais, pedaços de sonhos que modificaram seu acordar em Cataguases. A cidade precisa de pessoas como você e o Joaquim, capazes de por à superfície a memória definindo o Rio Pomba e cheia de estrelas refazendo a luminosidade do pensamento. Não pude deixar de registrar aqui as emoções da inteligência que tive. Esta a mais perfeita e profunda que vive no espírito. Peço que receba meu abraço de afeto por suas palavras e que o coloque na jarra como uma flor. Lina”.




Cagiano com a palavra
Presente ao lançamento de “Alinhavos do tempo” em Lisboa, o escritor cataguasense Ronaldo Cagiano, que vive atualmente na capital portuguesa, enviou, a meu pedido, o seguinte depoimento:
“Caro Ronaldo, foi uma ótima noite o lançamento da Lina na Casa do Brasil aqui em Lisboa: bom público, apresentação da escritora Vania Chaves, um belo ensaio lido por uma professora da Universidade de Lisboa e depois as palavras da Lina. No evento, houve a fala dessa professora contextualizando toda a obra da Lina, seguida de leituras de poemas por alguns dos presentes – inclusive eu li dois e fiz um pequeno comentário, depois houve um pequeno coquetel. Em minha opinião foi um evento marcante, principalmente porque reuniu amigos, colegas, leitores e conterrâneos de Lina e todos tiveram oportunidade de percorrer esse panorama sobre sua vida e obra, buscando a gênese de seu processo criativo, desde os primórdios da estudante que criou com Francisco Marcelo Cabral a revista Meia-Pataca; do estímulo do tio-poeta Francisco Inácio Peixoto; do sopro literário de Hernâni Cidade, um primo materno e um dos reconhecidos críticos literários de Portugal que, do outro lado do Atlântico, trouxe-lhe informações, conselhos e dicas técnicas sobre o fazer poético; das influências e amizade de Cecília Meireles, da presença de Cataguases e Brasília na sua trajetória existencial e criativa, dos tantos tempos, entretempos & alinhavos que constituem sua tessitura e culminam no polimento estético de sua arte.
“Enfim, entre desertos que constituem o ser e estar no mundo de qualquer indivíduo, a poesia de Lina chegou a Lisboa  como um prefácio de vida, abriu-se aos leitores, como as asas da cidade que escolheu para seu escreviver. A poesia de Lina, que tem uma profunda inflexão imagética e sensorial, carregada de símbolos e metáforas, cristalina e diáfana na forma e na linguagem, sem dúvida a coloca entre as melhores vozes da poesia que se faz em todo o mundo lusófono, uma palavra carregada de simbologias e afetos, que é fruto de um esmerado senso de observação do mundo, das coisas; de captura da memória e da geografia ancestral; que, entre o rigor e a sofisticada elaboração, faz uma ponte dialética entre o lírico e o metafísico, entre o passado e o presente, com um sopro de inegável humanismo. É isso, meu caro. Lina merece uma grande acolhida em Cataguases e uma recepção para o novo livro. Abraço do Ronaldo Cagiano”.









8 de mar de 2019

Mangueira de Hollanda: O avesso do mesmo lugar



“Brasil, meu nego/ Deixa eu te contar/ A história que a história não conta/
O avesso do mesmo lugar/ Na luta é que a gente se encontra”. Este texto é da hora: eu o inicio exatamente às 18:32 h do dia 06 de março e a Mangueira acaba de ser consagrada campeã do carnaval carioca de 2019. E assim, e não por acaso, meu texto abre assim-assim, propositadamente em cima da hora com o samba-enredo campeão, de Ronnie Oliveira, Márcio Bola e Syvio Mamma (compositores de Volta Redonda) e dos cariocas Deivid Domenico, Tomaz Miranda e Danilo Firminio. “História para ninar gente grande” é um belo e corajoso samba que fez vibrar e lavou a alma do público, não só o que estava no Sambódromo do Rio, mas o que vem sendo sufocado pelas sandices do tal “viés ideológico” e outras maluquices que chegaram aos borbotões desde que o Brasil viu raiar não a liberdade, mas tenebrosas trevas desde o alvorecer (melhor, anoitecer) deste 2019.
     Mas vamos prosseguir, que a comissão de frente já passou e não podemos atrasar o andamento de nossa querida Escola. Sem partido? Não; isto é, sim. Com o coração como partido. “Brasil, chegou a vez/ De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”. Dá um nó na garganta ver a efígie de Marielle Franco (Presente!) estampada naquelas bandeiras que esvoaçam pela passarela. O que me leva – sempre, ainda agora – àquela noite de 14 de março do ano passado, noite de seu assassinato, noite em que escrevi “A voz da morta”, aquele poema para ela, aquele poema depois musicado por minha amiga Thaylis Carneiro: “a voz que vaza/ em todas casas/ cale-se não/cale-se não/ a voz que porta/ tudo que importa/ a voz da morta/ cale-se não/ cale-se não”.



E o Brasil, meu dengo, meu realengo, palpável, real, esse Brasil lindo e trigueiro, esse Brasil brasileiro que não é imaginário, que não é coisa de coiso algum, tá oukei? Esse Brasil que agora ovaciona a Estação Primeira, aquela em que penso na minha escola quando piso em folhas secas caídas de uma mangueira: “Brasil, meu dengo/ A Mangueira chegou/ Com versos que o livro apagou/ Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento/ Tem sangue retinto pisado/ Atrás do herói emoldurado/ Mulheres, tamoios, mulatos/ Eu quero um país que não está no retrato”.
Neste exato agora trocava email com minha amiga Ana de Hollanda sobre a emocionante vitória da Mangueira. Disse Ana: “Ronaldo, estou eufórica com a Mangueira. Acho que foi o desfile mais impactante e bem realizado que já assisti. Sem contar que o samba-enredo, que geralmente é aquela colcha de retalhos, é lindo, já nasceu antológico, não acha?”.Mandei de cá: “Viva a Mangueira, a valentia, a garra daquela bandeira que acaba de virar nossa verdadeira bandeira. Sim, Ana, o samba-enredo é antológico, um banho de verdades que todos precisavam ouvir, coisa de grande coragem e luz em meio a essas tenebrosas trevas”.
Não demorou nadica para Ana responder, e com grande autoridade: “Em relação à Mangueira, vai aqui um texto que escrevi há dois anos”. Gostei logo e de pronto do texto de minha amiga – pleno de musicalidade e delicadeza, não fosse ela também compositora de grande talento. O texto da Ana me pegou assim, de supetão, exatamente na hora – agora! – em que estou escrevendo esta coluna para a Rio Total. Um texto premonitório das grandes vitórias da Mangueira, um texto de quem verdadeiramente ama a Estação Primeira. E que se encaixa perfeitamente, e com muita propriedade, dentro desta minha coluna, razão pela qual ele vai como “fecho de ouro” de meu texto. Evoé, “Mangueira de Hollanda”!

Fala, Mangueira! Fala, Ana de Hollanda!


      "Mangueira entrou na minha vida como música. Eram muitos os sambas que lá em casa se cantava, sempre com a mais absoluta familiaridade: Mangueira teu cenário é uma beleza que a natureza criou... Não há, nem pode haver, como Mangueira não há, o samba vem de lá alegria também... Lá em Mangueira aprendi a sapatear, lá em Mangueira é que o samba tem seu lugar... Aquele mundo de zinco, que é Mangueira, desperta com o apito do trem...
      “E foi de dentro do trem noturno, entre Rio e São Paulo, que tive o impacto de ver pela primeira vez a placa da Estação Primeira de Mangueira. Foi também quando me mostraram, criança, que era aquela, a tal Mangueira cantada em memoráveis sambas. Acho que desde o Coliseu, ao qual fui apresentada, por assim dizer, na minha primeira infância, eu não havia conhecido um lugar tão carregado de memórias e referências.
     “Morava em São Paulo, mas as férias passávamos no Rio onde viviam minhas avós, tios, primos, e infinitos aderentes. Era praia todo dia, muito sol, quitutes raros em casa, sem hora para dormir, brincadeira solta com os primos, escaladas de morro, passeios na mata e aquela lindeza de cidade!
“Hora de voltar era inevitavelmente deprimente. Aliás, passei boa parte da vida com essa sensação desagradável quando deixava o Rio de Janeiro. Mas, para piorar, o que me esperava, então, era o regime rigoroso de hora pra acordar, hora pra dormir, escola cedinho, lição de casa, ovo com arroz e chuchu às segundas feiras, frio e a cidade que não acabava, nem chegava à praia alguma. 
     “Só restava um lampejo de euforia nessa partida: o trem da Central, carregando boa parte da família que, por sua vez, ocupava várias cabines, saía da estação em baixa velocidade e a única concessão que nós, as três menores, conquistamos de Mamãe era a de só ir pra cama depois de passar pela Mangueira.
    “Nessa passagem lenta eu tinha chance de ver pela janela a placa ESTAÇÃO PRIMEIRA DA MANGUEIRA, com o morro e a comunidade mais adiante. Era o momento comovente da nossa despedida em que cantávamos e homenageávamos com todo vigor a Cidade e a Escola adorada (com a licença de Christina): “Mangueira teu cenário é uma beleza que a natureza criôôô...”.
     “Fim de férias, desce a cortina e apaga-se a luz”. (Ana de Hollanda)
     Pois é, Ana, agora sim: também fim de férias, as águas de março novamente “inundando” o verão, mas há uma luz que se acende.  A Mangueira abre a cortina do passado desse Brasil tão brasileiro e deixa entrar na avenida – pra que não nos esqueçamos – rasgos da “ditadura assassina”. A partir de agora nossa bandeira é verde, de esperança, e rosa – cor de meninos que não têm medo dessas coisas de coiso algum: E olha cá: não tá nada oukei, cara! “Mangueira, tira a poeira dos porões/ Ô, abre alas pros teus heróis de barracões/ Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões/ São verde e rosa, as multidões”.
Ronaldo Werneck
Cataguases, 06 de março 2019/22:37 h

15 de fev de 2019

Dona Bibi, não respire: a senhora está morta!


Havia uma mesa de sinuca, sempre um ótimo uísque e um papo da melhor qualidade. Era um apartamento numa ruazinha transversal no Leme e depois um outro em Copacabana, se não me engano na Rodolfo Dantas – isso faz muito tempo. Os donos, a atriz Bibi Ferreira e seu marido, o dramaturgo Paulo Pontes. Era aí pelos anos 70 e muitas e muitas vezes batíamos ponto naquele reduto de paraibanos como nosso amigo Paulinho: o compositor e hoje maestro Marcus Vinícius de Andrade, o cineasta Vladimir Carvalho e seu irmão, o fotógrafo e hoje também cineasta Walter Carvalho. Às vezes, pintava também o Ipojuca, irmão de Paulinho. Entre os não-paraibanos, estávamos eu, minha então mulher Adriana Montheiro e naturalmente a Bibi.

A segunda montagem da peça “Brasileiro Profissão Esperança”, escrita por Paulinho e dirigida por Bibi, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, estava para entrar em cartaz no ano seguinte no Canecão. Adriana, que já trabalhara com Bibi no Programa dela na TV Tupi, seria a assessora de imprensa do espetáculo (eu iria escrever o release). Na estreia, Chico Buarque iria declarar: "Um trabalho inteligentíssimo de Paulo Pontes. Não é preciso dizer nada sobre o espetáculo: é maravilhoso. Prefiro falar mais às quatro forças deste show, diretamente: Gracindo, Clara, Bibi e Paulinho. Uma beleza”.
O papo rolava solto noite adentro, ritmado pelo tocar dos tacos nas bolas da sinuca e o tilintar das pedras de gelo nos copos de uísque. Ali sobressaía a voz, a inteligência de Paulinho Pontes, uma de minhas admirações de cabeceira – e que se foi tão jovem. Meu amigo Paulinho, que escreveria pouco depois, junto com Chico Buarque, a peça Gota D´Água, um dos grandes momentos da história de nosso teatro, que daria a Bibi a oportunidade de interpretar o maior papel de sua carreira: Joana, a moderna Medeia. Não por acaso, Bibi considerava a peça “a maior obra dramatúrgica brasileira”.

A mãe que se abruma
O país vivia os tempos brabos da ditadura de Médici, dias de censura, torturas e muito medo e apreensão. No ano anterior, Adriana e eu estivéramos presos no DOI-Codi. É claro que política era o prato forte de nossos papos. Mas havia também o humor, quando Paulinho falava dos “saudáveis loucos” da Paraíba. Loucos como o poeta Mané Caixa D´Água, que fez um poema sobre sua mãe e nele colocou o famoso verso “e quando minha mãe se abruma”. Indagado sobre que diabos era aquele “se abruma”, Mané não se deu por achado: “É coisa de mãe mesmo”. Ou quando ele, Paulinho, organizou o embrião nordestino do CPC, o Centro Popular de Cultura que seria fundado mais tarde no Rio e do qual ele seria um dos membros mais ativos. Pois bem: numa dessas reuniões, os estudantes ensaiavam incentivar os camponeses a se postarem em frente ao Palácio do Governo em João Pessoa, até que o governador se dignasse a atender determinada exigência.


      Qual? Há controvérsias, afinal lá se vão décadas e mais décadas. Importante foi como Paulinho convenceu os nobres colegas a desistirem da ideia. Ele simplesmente perguntou o óbvio: “Onde, diabos, os mais de cinco mil camponeses previstos na manifestação vão fazer seus xixis & cocozinhos, já que a praça do Palácio não possui sequer um mísero botequim?”.  A vigília cívica foi abortada na hora. Além de românticas, as revoluções, como as diarreias têm lá seus caprichos.
 Lembro que uma noite toquei o interfone lá do Leme e ouvi a voz do Paulinho me dizendo que ele não estava funcionando, mas já iam abrir. Logo depois alguém desceu e veio abrir a porta do edifício. O hall estava meio escuro e levei um susto, pois a figura era meio fantasmagórica, com grossos óculos escuros e uma toca ou coisa parecida na cabeça. Achei que fosse talvez uma nova empregada. Só quando entramos no elevador vi que era a Bibi. “Puxa, Bibi, desculpe a hora”, falei meio sem graça por não tê-la reconhecido, “o Paulinho está acordado?”.  “Que nada, Ronaldo, é cedo ainda, a turma toda está lá em cima”.
Foi numa noite dessas que Bibi e Paulinho entraram numa discussão acalorada sobre Elizeth Cardoso. A pedido de Bibi, Paulinho estava escrevendo, meio a contragosto, o texto de um espetáculo que ela iria dirigir, com Elizeth e Baden Powell. Paulinho gritava de lá “Elizeth pode cantar muito, mas não sabe dizer texto, não tem vocação para isso”. Bibi rebatia ainda mais alto: “Deixa comigo, isso é problema meu, que vou dirigir o espetáculo”. E a discussão ia esquentando enquanto eu e Waltinho Carvalho íamos dando nossas tacadas e fingindo não escutar nada: afinal, em briga de casal, vocês sabem... Paulinho acabou escrevendo o texto e o espetáculo estreou no Canecão ainda naquele ano de 1973. Foi um grande, enorme sucesso.

Villa-Lobos e o quatro
“Numa das entrevistas que fiz com Abigail Izquierdo Ferreira, a pedi em casamento. Não havia outra maneira de demonstrar minha paixão por Bibi Ferreira” – escreveu recentemente Jô Soares em sua autobiografia.  Para se ter ideia  do mundo fascinante que foi a vida de Bibi, registre-se pequeno trecho do livro de Jô, lembranças de quando ele estava dirigindo Bibi numa peça de Juca de Oliveira: “A dada altura das conversas sobre a montagem, eu, pensando em usar a beleza da voz da Abigail na peça, cometi a asneira de perguntar pra ela se ela conhecia as Bachianas brasileiras nº 5, do Villa-Lobos. Ela me respondeu com genuína simplicidade: “Conheço, sim. Eu cantei essa música com a Filarmônica de Londres”.


“Quando estávamos na mesa de leitura – possegue o Jô – a Bibi, do alto de seus 85 anos, falou: ´Tem uma coisa ótima que eu faço, que é o ´quatro´. Eu me equilibro numa perna só, formando o número quatro. Vai dar muito certo na cena em que estou bêbada´. Eu disse pra ela: “Abigail, você é um patrimônio, você está acima dessas coisas de equilibrismo. Vamos deixar isso de lado´. Bibi concordou, mas um belo dia, espetáculo rodando redondinho, ela fez o quatro e a plateia delirou. Meu assistente de direção disse pra ela: ´Bibi, foi ótimo, mas o Jô disse pra você não fazer o quatro, e você fez. E se alguém contar pra ele?´. Ela disse na hora: ´Eu morro negando´”.
Poucas vezes Bibi sentava-se conosco naquelas noites dos anos 70. Mas quando fazia contava histórias e mais histórias de teatro, do palco e dos bastidores, o verdadeiro porquê de sua vida. Lembro dela falando com entusiasmo de uma apresentação que tinha assistido do Laurence Olivier (em Nova York? Em Londres?), a maneira de ele ganhar o público com um gesto, uma alternância vocal. E também de casos hilários que presenciou em sua longa trajetória teatral.
Como numa apresentação em Portugal, quando um dos atores (um português do elenco) tinha que bater numa porta cênica, segundo a marcação. E o gajo não fez por menos: esmurrou com tal força que o cenário veio abaixo. E também abaixo veio o público de tanto rir. Ou numa apresentação de sua companhia numa cidade do interior do Brasil (ela não mais se lembrava qual). Como de costume, a companhia chegava na cidade e “arregimentava” algumas pessoas para “interpretarem” papeis absolutamente secundários nos espetáculos, quase sempre sem fala. Uma forma de economizar nas viagens, levando menos pessoal e também de “fazer um agrado” no povo das cidades onde as peças eram encenadas.
Muito bem, a cena era a seguinte, conforme a rubrica: Bibi, que fazia uma vetusta senhora, encontra-se sentada à mesa e pergunta pelo chá. O “garçom” entra, serve o chá e sai de cena sem proferir uma palavra. Só que o “artista” da cidade entrou em cena já falando e falando sempre enquanto caminhava: “Assim que a senhora pede o chá o garçom entre no palco e caminha em direção a ela, sem olhar para o público por um momento sequer. Serve o chá e sai da mesma forma, sem nada falar e sem se virar sequer por um minuto para a plateia”. Quer dizer, o sujeito não ficou satisfeito de não ter “voz na peça” (imagina, na frente de todos os amigos da cidade!) e se soltou falando alto e bom som o texto da rubrica. Claro que esse foi o momento “maior” do espetáculo, com o público caindo literalmente na risada.

Dona Bibi, a senhora está morta!

Bibi e Luiz Linhares: Gota d'Água.

      Vi Bibi em cena anos depois em Gota d´Água, que assisti várias vezes, a convite de meu amigo Luiz Linhares, que contracenava com ela. E em vários dos belos musicais, principalmente ela fazendo a Piaf. De emocionar. Lembrei-me dela e de Paulinho no espetáculo de Artur Xexéo sobre a sua vida – meio qualquer coisa no primeiro ato, mas que cresce no segundo ato quando surge a figura de Paulo Pontes, o amor, a arte, o engajamento político. E Amanda Costa está perfeita como Bibi. Aliás, foi de arrepiar ver Amanda sendo acompanhada do palco por uma Bibi na plenitude de seus 96 anos, cantando Piaf lá da plateia, em sua derradeira e brilhante aparição. 
A última vez em que estive com ela foi no camarim do Teatro Tereza Raquel, nos anos 90. Era uma nova montagem de “Brasileiro Profissão Esperança”, que Bibi dirigia e atuava ao lado de Gracindo Jr. Mais do que isso, ela às vezes fazia tanto o papel de Dolores Duran quanto o de Antônio Maria. Coisa que só mesmo uma atriz com a bagagem e o talento enorme de Bibi poderia fazer. Eu a abracei forte, emocionado, e nada falamos. Não havia necessidade: não nos víamos desde a morte de Paulinho e parecia que o espírito dele pairava sobre nós, como se profissionais da esperança também fôssemos.



Ao sair do teatro lembrei-me de uma das histórias hilárias contadas por Bibi. Foi nos tempos do Grande Teatro Tupi, idealizado por Sérgio Britto, que era exibido pela TV Tupi nas noites de segunda-feira. Bibi “morria em cena” no espetáculo, que era ao vivo, num tempo ainda sem video-tape. E lá estava ela, deitada no chão do estúdio, “mortinha da silva”, esperando o corte do diretor. Foi quando um dos câmeras chegou perto e sussurrou: “Dona Bibi, Dona Bibi, tá me escutando? A câmera dois pifou e a senhora está em close na câmera 1. Não respire, Dona Bibi, não respire, a senhora está morta!”.  Ela não sabia se continha o riso ou se morria de vez, sem poder respirar. Anteontem, grande atriz, profissional por excelência, Bibi Ferreira cedeu ao apelo daquele câmera e parou de respirar, agora para sempre.