10 de jan de 2017

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 5

Pomba Poema sujo  




    “A experiência da poesia é hors-concours./ Aterro no Poema Sujo. Meto o dedo no cujo:/espirra luz.// (...) Navegar na poesia: reduzir, redundar.../ Em Ferreira Gullar as nuvens nuvem./ Murilo Mendes manda o luar luar”, escrevia em 1982 Carminha Ferreira, a injustamente esquecida poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, até hoje inédita em livro. O poema de Ferreira Gullar marcou época – e Gullar, o poeta, foi objeto de várias controvérsias, como se percebe no texto a seguir, publicado por meu amigo, o também poeta e jornalista Carlos Ávila, em sua coluna na Revista Eletrônica Dom Total.
    “Segue-se o Poema sujo, de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. Poema Sujo ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte). Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, ´IrreGullar´, num comentário anterior), o poeta maranhense criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil”.
    Gullar começou a escrever o Poema sujo em maio de 1975. Ele achava que seria o derradeiro poema de sua vida, já que vivia exilado e sem passaporte (negado pela Embaixada brasileira) numa Buenos Aires às vésperas do golpe militar e sem ter pra onde ir, rodeado por uma série de ditaduras em grande parte da América Latina. Não sabia como iria desenvolver o poema, que começa a sair (“vomitado”, segundo ele) de modo estranho e sem sentido, para espanto do próprio poeta: turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que  escuro/ menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo/ escuro/ mais que escuro:/ claro...”. Mas Gullar deixou a abertura assim, incompreensível até mesmo para ele. O poema só teria seu real começo à frente: um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.
    E se encadearia na sequência “modernista”, como fala de dicção cotidiana – e flutuaria na cabeça do poeta e em sua escrita incessante, como febre, obsessão, por quase sete meses: eu não sabia tu/ não sabias/ fazer girar a vida/ com seu montão de estrelas e oceano/ / bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela? perdeu-se na profusão de coisas acontecidas// (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?/ / quanta coisa se perde/ nesta vida// Como se perdeu o que eles falavam ali/ mastigando/ misturando feijão com farinha e nacos de carne assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada/ ou a tosse da tia no quarto/ e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela/ tão reais que/ se apagaram para sempre/ Ou não?

De tarde, prata. De noite, mata
    Na antevéspera deste Ano Novo, conversava sobre as muitas mangas de dezembro com Dona Alva, avó de minha mulher, Patrícia. E logo me lembrei de minha Tia Carmem-Cacai e de suas superstições: “Manga com leite, manga com banana: é tudo muito perigoso. De noite, então, é morte certa”. Quando falei em banana, Dona Alva logo articulou os versos folclóricos da “maldição” da banana: “De manhã, ouro./ De tarde, prata./ De noite, mata”. O que me remeteu de imediato ao Poema sujo e à sua profusão de bananas podres: Uma banana/ não apodrece do mesmo modo/ que muitas bananas/ dentro de/ uma tina// no quarto de um sobrado/ na Rua das Hortas, a mãe/ passando roupa a ferro/ fazendo vinagre//(...) // e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx –/ ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais/ grosso) que o do relógio/ fazendo vinagre// um rio/ não faz vinagre/ mesmo que um quitandeiro o ponha para apodrecer/ numa tina// um rio não apodrece como as bananas//...//E como nenhum rio apodrece/ do mesmo jeito que outro rio/ assim o rio Anil/ apodrece a seu modo/ naquela parte da ilha de São Luís.



    Hoje, dia 4 de janeiro de 2017, percebo que fiquei um mês exato entregue ao “barato” de escrever sobre Gullar, 30 dias inteiros a contar de sua morte – tomado por meu texto quase como ele por seu poema. Um mês em que passei também como se em transe a falar sobre o poeta com quem, apesar de tudo, tenho afinidades e um curioso rol de coincidências. Como, por exemplo, o fato de ter trabalhado na redação do Diário de Notícias junto com o também poeta Lago Burnett, grande amigo de Gullar desde os tempos de juventude em São Luís. Lago e eu também nos tornamos bons amigos – longos papos sobre poesia e quejandos, não por acaso regados a queijos e cachaças da melhor qualidade numa queijaria ao lado do jornal, na Rua do Riachuelo – e senti muito quando soube de sua morte em São Luís, em 1995. Troquei email com Gullar na época, que se confessou arrasado: “éramos muito amigos, começamos a escrever juntos”.
      Já falei em crônicas anteriores de poemas de Gullar e meus, de tônica assemelhada: Guevara, Vietnam etc. O livro “Toda Poesia”, de 1980, comentado ao longo dessas crônicas, tem capa de meu amigo (e hoje vizinho aqui no prédio em Cataguases), o designer Dounê Spínola, que fizera antes a capa da primeira edição do Poema Sujo, de 1976 (da Civilização Brasileira, meu exemplar tem o nº 712) e, coincidência das coincidências, também de outros livros meus (Cataminas pomba & outros rios, de 2012), inclusive o Pomba Poema, de 1977.  Aliás, foi do Dounê a sugestão para fazermos a diagramação do Pomba Poema no formato horizontal – como fizera a Léa Caulliraux com o livro do Gullar –, o que o tornou ainda mais parecido, pelo menos graficamente, com o Poema sujo. Nessa primeira edição do poema, que tenho em minhas mãos, escreve Otto Maria Carpeaux: “Poema sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ´sujos´ e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente”.

Polvilho, pedreira, palavras
    Ainda não sabia do Poema sujo, que seria lançado meses depois, quando em janeiro de 1976 me mudei para Itaipu, em Niterói. Certo domingo, numa praia das proximidades, Itacoatiara, comendo o indefectível biscoito de polvilho, meu distraído olhar desviou-se das ondas e fixou-se numa pedreira defronte, com inscrições que não conseguia identificar. Ita-ipu, Ita-coatiara, tudo pedra: polvilho, pedreira, palavras. Tudo remetia a Cataguases: o biscoito de polvilho da infância, as inscrições na velha pedreira: e já janeiro/ bate/ intensamente lá/ nas escarpas/de ita/ coatiara/ ali/ na areia/ frente ao mar/ o biscoito/ de polvilho estala/ na memória/ e sabe/ a padaria cabral/ ao pão quente/ do vitória/ nesse domingo/ azul de itaipu/ surgem são soam/ estranhas/ as palavras/ polvilhadas/ e s p a l h a d a s/ espelhadas/ na pedracoatiara/ remetem a/ itacat'agua'ses/ pomba/ pedra/ palavras grafadas/ a esmo no mesmo/ traço traçadas/ a seco no pó/ emaranhadas/ arranhadas/ na pedra/ no tempo/ esparso.
    Então, ao contrário do poema de Gullar, com seu início “vomitado”, mas que ficou como saiu, o meu surgiu “pelo meio” – um fragmento que só apareceria mais à frente no corpo do poema, deflagrado por aquele proustiano biscoito de polvilho, pura madeleine.  O poema foi tomando corpo aos poucos, mas eu ainda sem saber no que aquilo iria dar: surgia a cidade, a história, a minha história na cidade, a cidade dentro de mim. Até que, já com o poema em andamento, o livro do Gullar foi lançado e vi como parecia com o poema que eu estava fazendo (“o homem está na cidade como a cidade está no homem”). Muitas semelhanças, embora a motivação de meu poema, o que o conduziria a partir de certo ponto (ele acabaria focando o centenário de Cataguases, que se daria no ano seguinte, 1977) não fosse bem a mesma: no Pomba Poema a história da cidade era vista/atravessada pelo rio Pomba, supostamente claro e clean na memória, não pelo rio Anil do Poema sujo, “solidário com a miséria, com a vida suja”, como diria depois Gullar, “apodrecido” em meio à gente humilde e “encardida” de São Luís): Ah, minha cidade suja/ de muita dor em voz baixa/ de vergonha que a família abafa/ em suas gavetas mais fundas/ de vestidos desbotados/ de camisas mal cerzidas/ de tanta gente humilhada.



   Como Gullar, também fiquei um longo tempo (talvez até mais que ele: quase ano e meio) “atravessado”, tomado por meu poema. E desde seu real início, logo depois do episódio da praia de Itacoatiara, só aproveitado mais à frente, foi um só pensar exclusivamente no poema, a exemplo do acontecido com Gullar: nesgas neblina manhã/ ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada// o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ há? não há?/ não sabíamos/ não sabemos/não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola/ do tempo/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.
    “Mas a poesia não existia ainda”, escreveria Gullar em determinado ponto de seu poema. Confesso que me assustei, pois essa ideia estava também em meu poema, quase da mesma forma, embora em outro contexto:
    Poema Sujo – Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade/ sob/ as sombras da guerra// Stalingrado resiste.// A cada nova manhã/ nas janelas nas esquinas na manchete dos jornais// Mas a poesia não existia ainda// (...) Muitos/ muitos dias há num dia só/...//coberto pela sombra quase pânica/ das árvores/ de galhos que subiam mudos/ como enigmas/ tudo parado/ feito uma noite verde ou vegetal/ e de água/ muito embora em cima das árvores/ por cima/ lá no alto/ revelando seu costado luminoso nas folhas/ passasse o dia (o século XX).// (...)  muitos são os dias num só dia/ fácil de entender/ mas difícil de penetrar.
   Pomba Poema – ainda não existia a poesia/ ou antes/ estava/ toda ali/ roubando pães na rua/ do sobe‐e‐desce/ anunciando a manhã/ como o leite/ escorrendo/ circunspecta/ pelo relógio/ imenso/ entrevisto pelas frestas/ da casa e do tempo/ onde laura do carmo/ ensaiava acordes para o jazz‐band/ o violino mesclado/ aos cascos da manhã/a poesia/ nas árvores/ pendurada/ nos galhos/ não no papel/ impressa/ opressa/mas saltando livre/ sem pressa/ escorrendo das folhas/ como gerânios/ se debruçando/ explodindo/ em arco/ sobre o rio/ sangrando suada/ veloz singrando/ num só arremesso/ singrando/ como bola de pano/ estava ali/a poesia/ antes/ da poesia.
    Também o sexo se assemelhava na noite, nas ruas, a céu aberto. Meio descritivo, no Poema sujo (de prosa), como no primeiro modernismo; paradoxalmente entrecortado por enjambements com menções aos poetas concretos em Pomba Poema.
      Poema sujo – A noite adormece as galinhas/ e põe a funcionar os cinemas/ aciona/ os programas de rádio, provoca/ discussões à mesa do jantar, excessos/ entre jovens que se beijam e se esfregam/ junto à cancela/ no escuro// Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/ o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.// E todos buscavam/ num sorriso num gesto/ nas conversas da esquina/ no coito em pé na calçada escura do Quartel/ no adultério/ no roubo/ a decifração do enigma/ – Que faço entre coisas?/ – De que me defendo?
    Pomba Poema – era engraçado/ o sexo/ engraxado por brancos jatos/ lubrificado/ por amplos amplexos/ curtos‐tardos/ despojados/ longos‐lentos/ soltos a cada momento/ despejados/ no negro sexo de jânio quadros/ negra jânio viva negra vulva/ noite exímia/ preta preta/ pretíssimas/ retas augustas/ em M fortuitas suas coxas/ fartas sujas concretas pignatrizes/ as cujas crespas carnudas cornucópias/ duro penhor desce o pignatário piche puro pendor/ torpor anteparando paus pernas espermas/ vorazes varando sexos afoitos/ campos adubados induzindo/ ao infinito conduzindo/ em M despertam suas pernas/ enroscadas no infinito/ em 8 pós‐coito o torto corpo.
    Ou ainda a metáfora do tanque a “jorrar manhã” de Gullar e a minha do leiteiro também a “jorrar a manhã”.

    Poema sujo – quando a gente acorda cedo e fica/ deitado assuntando/ o processo do amanhecer:/ os primeiros passos na rua/ os primeiros/ ruídos na cozinha/ até que de galo em galo/ um galo/ rente a nós/ explode/ (no quintal)/ e a torneira do tanque de lavar roupas/ desanda a jorrar manhã.
   Pomba Poema – tal/ vez que agora é finda a missa/ o leiteiro jorra a manhã em cada porta/ lavada a alma/ – torta?/ descemos em bando famintos da pá‐virada moleques/ a inaugurar o domingo/ sobe‐e‐desce afora/ é quando/ mais belo se faz o pão nas janelas/ pescado/ triturado/ a cada dentada/ esquentando o vazio/ entre a alma e o nada/ era deixado o jornal/ como prêmio/ mas esse não interessa/ estava longe o grêmio/ a palavra impressa.
  E ainda o sobe-desce das ruas, os olhares estrangeiros pelas janelas: São Luís de Cataguases?
     Poema sujo – Descendo ou subindo a rua,/ mesmo que vás a pé,/ verás que as casas são praticamente as mesmas/ mas na janelas / surgem rostos desconhecidos/como num sonho mau.
    Pomba Poema – Descendo/ a rua/ do/ sobe/ e/ desce/ pressinto/cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade do exterior/ mineiro// que passo é esse apressado?/ que luz é essa amarela?/ quando quem o quê como por quê?/de quem são esses olhos/ quem por trás da janela?
Ainda em Buenos Aires, de maio a julho de 1975, Gullar debruçou-se sobre seu poema de forma frenética, como se tomado por uma força estranha. Ríamos, é certo,/ em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas/ de hortelã enroladas em papel de seda colorido,/ ríamos, sim,/ mas/ era como se nenhum afeto valesse/ como se não tivesse sentido rir/ numa cidade tão pequena. De repente, a fonte secou. Não saía mais nada, mas ele sentia que o poema não estava terminado. Como já disse numa das crônicas anteriores, só em setembro, já angustiado, Gullar lembrou-se de um livro de Lênin, que lera quando estava no Chile, onde havia uma citação de Hegel: “a árvore está no ramo da árvore”. A partir desse conceito, de uma coisa estar em outra, o poeta finalmente consegue terminar seu livro em outubro daquele ano, com dicção e octossílabos a lá João Cabral de Melo Neto:
O homem não está na cidade/ como uma árvore num livro// (...) a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa// cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas.
      No livro “Sobre arte, sobre poesia”, publicado em 2006, dizia Gullar: “Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da rua do Coqueiro, da rua dos Afogados, da quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da rua do Sol e da praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Norma, de Leda, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem de Bosta.  Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento interior, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços; a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem história”.



    Dar voz a esse mundo sem história foi uma das proezas do poeta Ferreira Gullar.

2 de jan de 2017

Rota: Fellini




CENA 1

que música assim lontana e dolce
que fontana que veio de vita
afoito e em meio de mim me toma
e me inunda dessa melodia
que assoma e se assume plena
e me assombra e surge assim
e salta de um cinema
e enfim me acalma
e me leva-e-traz malabarista
de azares muitos
e poucos malabares?

noctâmbulo artista suspenso
em fio frágil e saltimbanco
no derradeiro arco de um vôo
imenso e sem louvor
de um salto em branco
de vadio desequilibrista
no picadeiro vazio e sem fervor
de vida esta dolce lontana vita
que oscila e vibra nessa melodia
que de novo flui e vem de muito antes
e me preenche e me traz
descoloridos semblantes
caras e doloridas faces
vagos disfarces visões
de vida dolce vita e malencolia
que noite-dia se formam
e me confortam
e me transportam
e me transformam

em passado-presente e magia
e miragens de entes perdidos
elos de um tempo semi-escondido
de amigas-amigos e amadas
e mal-amadas belas
belas estrelas belas donas
em seu andor em sua pose
e langor que às escuras seduz
em meio a unguentos em close
e serenos planos plenos de luz

mas sem sinecura sem beladona
que me cure da beleza
impura da dura trama que me rende
e sai desse mergulho de câmera
e me atrai e prende
a fragmentos de fotogramas
restos de rostos remontados

essa aquela imagem que faísca
no escuro e se cristaliza
no clarão da tela

                                            
                                                   giulietta 
                                       magali 
                                                 caterina 
                                                             cardinale 
                                                                            milo 
                                               anouk 
                                                       amada 
                                                                 anita 
                                              anitona 



CENA 2


tudo que em mim criança
e circo e clowns e dança
tudo que em mim convida

para a festa da vida
e roda roda-rota
rota-rota de acordes

tudo que me recorde
tutto che me a m’arcord
ch’è una festa la vita

os pés sujos de infância
têm-pó e água límpida
as mãos sujas de dolce

 vita em meio: estrada
rota-receio-ponte
de vida e vitelloni

alegria que dança
tutto tutto que em mim
 rimini-relembrança

minas não mais oprime
tudo que em mim menino
rota-rito-fellini


Ronaldo Werneck

Cataguases, março de 2001