31 de ago de 2015

3 - Para Mané, para Elza, para Chico, para Pelé e Afonsim

Show do trio Afonso/ Alessio/ Írio  com a Orquestra Pino Calvi

Nápoles/1976


Ano seguinte, 1966, Carlos Sérgio foi prum apartamento no Leme (que nós dividiríamos tempos depois) e Afonsinho e eu pra Copacabana, pro famigerado Edifício 200 da Rua Barata Ribeiro. O 200 é o seguinte, bicho. Sabe, gente, é tanta coisa, tanta gente, não dá pra contar ou cantar. Tanta coisa que a gente nem sabe ou quer mais saber. Foi quando surgiu o Tião, que veio morar conosco. Quer dizer, um à época bancário – este aqui – e dois bateras. Enquanto eu dormia, os dois tocavam pela boates de Copa e dessa vida afora. Eu acordava com eles chegando, cansadíssimos. Só nos falámos mesmo à noite quando, de volta do trabalho, saíamos juntos: eu pra jantar, os dois ainda pra almoçar. 
Pelo apartamento do 200 passaram vários e vários músicos. Alguns “passavam de passagem”, ficavam só dois, três dias; outros, até mesmo três meses, como aconteceu com o Wagner Tizo, então um jovem pianista iniciante na noite. Muita gente, tanta, tantos músicos: Martinho da Vila, os também bateristas Robertinho Silva, o saudoso Milton Banana, João Batista Stockler (meu querido amigo Juquinha, que também já se foi – o baterista que acompanhou João Gilberto e Tom Jobim no emblemático álbum inicial da Bossa Nova, o Canção do Amor Demais, além de ter sido parceiro de Tom em sua primeira canção, Faz uma Semana), o pianista Paulinho Cego (onde andará?), o guitarrista Írio de Paula, Djavan e outros e outros. Até mesmo o atazanado saxofonista e arranjador Tranka (cadê você?), que fez ali mesmo, na sala, o arranjo para uma canção que o Martinho da Vila iria colocar num dos festivais da época (detalhe: Martinho preocupadíssimo, pois o violão onde o Tranka fazia o arranjo tinha uma corda a menos). Nosso apartamento parecia mesmo um estúdio. De malucos – e mais que talentosos.  
Eu chegava de terno do trabalho e era um corpo estranho. Lembro que o baterista Milton Banana sempre me perguntava pelas cotações, pois achava que eu era um broker da Bolsa de Valores. Afonsinho, Tião e eu mal segurávamos o riso (“hoje não foi nada bom, as ações estão em queda”, dizia eu a sério). Um dia, faltou luz. Sexto andar, sem elevador. Showtime: hora de descer para o trabalho nas boates. Paulinho Cego vira-se pro Afonsinho: “Segura aí nas minhas costas, que hoje o Ceguinho é que vai conduzir a parada!”. É, não dá mesmo pra contar. Vivenciamos ali quase tudo que meu amigo, o dramaturgo Paulinho Pontes, que morava nas redondezas, iria contar depois em sua peça, “Um Edifício Chamado 200”. Houve um tempo, anos à frente, quando o Paulinho estava casado com a Bibi Ferreira, em que eu ia muito à casa deles, junto com meus amigos paraibanos – o compositor Marcus Vinicius, hoje maestro e arranjador, e o Waltinho Carvalho, então estudante da Esdi e agora fotógrafo e cineasta de merecida fama. Às vezes me pergunto: será que muitas daquelas inacreditáveis histórias do 200 que eu contava não teriam servido como motivação para o Paulinho Pontes escrever sua peça?
Mas, voltemos ao Afonsinho. Sozinho, ele era uma bateria em sua plenitude. Com uma levada que substituía toda a bateria de uma Escola de Samba. Morando juntos, às vezes eu o acompanhava e assistia aos shows. De todos, lembro particularmente de um com a Elza Soares e os Originais do Samba, que na época contava com Almir Guineto e o Mussum pré-Trapalhões no reco-reco. Foi uma temporada num teatro do final do Leblon e a bateria-escola-de-samba do Afonsinho quase abafava o Samba dos Originais. Vi o show várias vezes – tantas que lá pelas tantas nem entrava mais no teatro. Esperava o meu amigo num boteco em frente. Eu e o Mané Garrincha que, por sua vez, esperava a Elza.
Vamos e venhamos – mas não muito rápido, senão o barco balan-balançando balança todo pra lá e pra cá e ficamos definitivamente borrachos: enquanto eu bebia um ou outro modesto uisquinho, o Mané derramava sucessivos copos de conhaque. Copos mesmo, daqueles americanos, dos grandes. Nunca vi coisa igual. Final do show, atravessávamos a rua para “pegar o pessoal” – o Mané impávido, como se tivesse bebido guaraná. Ufa! Anos, muitos anos depois, eu o veria entrar num botequim de Laranjeiras, nove da manhã, o rosto inchado, os olhos que não olhavam mais para nada. Mané nem me viu: sem condições. Virou num só lance uns três copos de conhaque, daqueles de sempre, e saiu cambaleando pela calçada, as tortas pernas trôpegas. Nunca mais o vi.  
Pois é, o Mané Garrincha, companheiro do Afonsinho em várias peladas romanas, ao lado do mesmo Chico Buarque com quem meu amigo gravou, na Roma dos anos 1970, um disco antológico, Per un pugno di samba, com a Orquestra de Ennio Morricone. No encarte, diz o produtor Sergio Bardotti, também autor das versões das letras do Chico pro italiano (faço aqui uma tradução apressada do final do texto de Bardotti): “É provavelmente (o disco) o menos comercial, o menos vendável, o menos “gosto médio” que jamais produzi, mas quem ainda tem um tico de sensibilidade nos ouvidos, quem resistiu ao assalto de baterias e guitarras a 400 decibéis, o amará como nós que o fizemos, como a dona música bem o manda.”
A bateria de Afonsinho (il bambino Affonso, como está nos créditos do encarte) permeia quase todas as faixas na base da vassourinha, assim meio cool, segurando sóbrio a “cozinha” pra voz de Chico (como queria Sergio Bardotti). Quase, porque em Sogno di um carnevale (“Sonho de um Carnaval”) e Ora dico sul serio (“Agora falando sério”) il bambino se solta e manda ver como num prenúncio de suas melhores performances, que ainda estavam por vir. É um belo disco esse do Afonsinho acompanhando Morricone & Chico Buarque, o mesmo Chico que faria bem mais tarde a canção “Futebol”, aquela que termina com “Para Mané, para Didi, para Pagão, para Pelé e Canhoteiro”.
Pagão, do Santos, e Canhoteiro, do São Paulo, eram ídolos do menino Chico Buarque. Tempos depois, canção pronta e já famosa, Pagão chegou a jogar uma partida no Politheama, o time do Chico. Mané, Didi e Pelé, vocês sabem quem são, ou não? Pelé, pois é. Ninguém acredita, e nem mesmo sei como eu e Afonsinho fomos parar na arquibancada do Maracanã, atrás das redes do goleiro Andrada, do Vasco, naquela noite de uma quarta-feira de 1969, quando o santista Pelé faria seu milésimo gol. Apesar de flamenguistas, nós só íamos ao Maracanã quando Pelé jogava, e mesmo assim muito raramente. Mas estávamos lá, atrás daquele gol, o Andrada quase pegando o pênalti cobrado por Pelé. Explodir de flashes, foguetes, gritos de gol – e nós, como sempre, testemunhas “auricularesdessa e de outras histórias.
   

Mas, antes, houve o segundo “porre negro”. Ainda a falta de cigarro na madrugada. Já morava no Leme: desci e peguei o carro, o nosso Gordini, o imbatível bólido que, além do apartamento, também dividia com o Carlos Sérgio. Mal liguei o Gordini, lembrei-me que podia ir a pé, pois o Bar do Careca, a salvação da madrugada, ficava logo ali, no início do Leme. Mas chuviscava, e bateu preguiça. Nem bem passei a terceira e já chegava ao bar, ao lado das boates onde fervilhavam os jovens músicos da época – do Chico Buarque, que fazia show com a Odete Lara no Arpège, ao pessoal do Grupo Manifesto, Gutemberg Guarabira & Cia. Todos saíam das boates e terminavam a noite no Careca.
Nem bem cheguei, o Afonsinho e sua bateria desceram de um táxi, vindos de um baile na Zona Norte. Um encontro desses, assim na madrugada, merecia um chope, né mesmo? Uns dez chopes depois, resolvi dar uma carona pro meu amigo e sua bateria. Nem bem entramos no carro e perguntei (de onde fui tirar isso?) se ele já tinha ido alguma vez ao Cristo Redentor. Pois é, nós morávamos no Rio há uns quatro anos e nunca subimos  ao Corcovado – “o Redentor, que lindo”, da canção do Tom . “Ora, ora, Afonsinho, então vamos lá”. E fomos, em meio à chuva, os chopes ainda chacoalhando em nós. No final do Cosme Velho, paramos numa padaria, o dia já querendo vir, e compramos uma garrafa de Fogo Paulista. Até hoje, só de ouvir esse nome já me sinto meio nauseado.  

Na subida, Fogo Paulista rolando, o Gordini ia também rolando na pista molhada, em meio a curvas e mais curvas (pra quê tanta curva, meu Cristo?) – e nada do Redentor surgir. Lá pelas tantas, o Gordini deu uma rabeada, pura imperícia de motorista iniciante, e Afonsinho se assustou. Tudo bem, eu disse: tamo subindo, mas já tô testando o freio pra descida. Não sei se Afonsinho acreditou na tirada surrealista, mas lá fomos nós até el cumbre del Corcovado. Nem bem os faróis bateram no platô vi dois fuscas e um punhado de gente estranha parecendo dividir drogas, roubo, coisas da malandragem. Reduzi o bólido num só lance, dei meia volta e desci desabalado.   
Pelo retrovisor, vi os fuscais faróis dos dois fuscas (o)fuscando ensandecidos atrás de nós. Não sei mais como fiz todas aquelas curvas, o coração aos saltos. Num lance de sorte, dobrei numa estrada vicinal. Os dois fuscas sumiram do retrovisor. Parecia perseguição de cinema. E não era? Como os fuscas, também o porre passou. Percebi que estávamos em Santa Teresa. Pegamos alguma outra descida, ainda meio perdidos, e nos vimos nas proximidades da Avenida Brasil. Levado pelos fuscas, o susto sumiu. Ufa!
Virei pro Afonsinho, mais branco que eu devia estar, e soltei de uma só vez: “vamos pra Vila da Penha fazer uma surpresa pra Marilda”. Acho que esse era o nome da sobrinha do pianista que tocava com ele, e que eu andava meio que namorando. Na Vila da Penha, deixei o Afonsinho num boteco e bati na casa da moça. Ela estava saindo pra missa das sete e me olhou assustada, pois eu estava mesmo de assustar. Mal me cumprimentou e partiu a passos firmes pra igreja. Eu voltei pro boteco, pedimos um pão com salame e uma cerveja pra rebater. Fim de noite, de susto, de “Redentor, que lindo”, de namoro infindo. Pão com salame parecia ser o “gran finale” de todos nossos porres.
Continua na próxima semana

24 de ago de 2015

2 - O show que não houve: chuva, chope e salame

      show do trio Afonso/ Alessio/ Írio    Auditório da RAI – Roma/1976




    Rosário Fusco tinha razão: o que ficou mesmo na lembrança de minhas histórias com o Afonsinho foi o inesperado, nossas pequenas maluquices, nossos porres homéricos, quando ainda se tomavam porres e ainda se dizia homéricos. Como homérico foi aquele imbróglio quando Afonsinho arrumou de tocar num Clube da Zona Norte. Era para fazer a abertura de um show do Martinho da Vila em Campo Grande, num tempo sem GPS e nem sequer Campo Grande, eu acho. Nem mesmo, quem sabe?, Martinho da Vila. Pudera: era 1965 e aquilo era muito, muito longe. Nós morávamos numa pensão na Praia de Botafogo e, como quase sempre, fomos juntos em busca dos músicos num velho táxi americano, dos grandões, acho que um Chevrolet daqueles mafiosos dos anos 1940. 
   Lembro de termos apanhado o baixista na Tijuca – qual era mesmo o nome? Um negão gordo e risonho. Atenção, periferia, nada de “afrodescendente”: era “negão” mesmo, como dizíamos nos anos 1960, absolutamente incorretos e sem qualquer resquício de culpa. Ele sentou ao meu lado no banco de trás e sentou junto seu enorme contrabaixo: um par perfeito, ele e seu instrumento. E fomos Avenida Brasil afora rumo a Campo Grande. Só que havia uma conexão Bangu, que o taxista não sabia. Era para pegar o Írio, o grande guitarrista Írio de Paula, que logo depois iria para Roma com o Afonsinho e a Elza Soares e lá ficou até hoje, fazendo enorme sucesso com aquele seu jeitão Jimmy Hendrix. Todos a bordo – agora Afonsinho, eu e o taxista na frente; atrás, Írio e sua guitarra, o baixista e seu baixo; no porta-malas, toda a parafernália da bateria –, o táxi rolou novamente pela Avenida Brasil até Campo Grande. Já era pra mais de desoras quando chegamos – e nada de acharmos o tal Clube. 
    O endereço “não batia”. Com muito custo, encontramos um desgarrado da noite que nos indicou o lugar. Surpresa: o Clube estava fechado, só um vigia que disse não saber de show nem de “Martinho da Vila nenhum”. E decepção: tivemos que dar meia-volta ou uma grande volta de volta de Campo Grande. Num tempo sem celular, não havia sequer orelhão por perto, e o Afonsinho não teve como falar com o produtor do show. Era noite de sábado e os músicos, Afonsinho inclusive, tocavam em boates de Copacabana e haviam “mandado o Lima” – a velha gíria pra dizer que não iam, mas mandavam “o Lima”; na verdade, um inexistente substituto. Mas, dessa vez, haviam mandado mesmo: tanto que agora estavam preocupados em como pagar os colegas que foram em seus lugares. 
     Bandeira baixa desde que saímos de Botafogo, preço tratado por corrida, o táxi rolava agora cabisbaixo, pois de bandeira baixa e cabisbaixos estávamos todos nós, até mesmo o taxista, talvez preocupado com seu pagamento. E ele ainda precisou, meio a contragosto, se desviar de novo da rota para levar o Írio em Bangu. Ao nos despedirmos, Afonsinho disse pro Írio que não se preocu-passe, nem ele nem o baixista, pois o cachê combinado iria ser pago, nem que ele tirasse do próprio bolso. Mais uma meia hora, e uns três “nens” depois, e já deixávamos o baixista e seu baixo na Tijuca (ele ainda nos convidou para descermos para um café, o que achamos “de bom alvitre” não aceitar, dada a cara de poucos amigos de nosso taxista). 
     Mais uns quinze minutos e estávamos na porta da pensão em Botafogo. Quando o taxista deu o preço, acima do combinado (“sabe como é, tive que ir e voltar a Bangu, fora do nosso caminho”), levamos um susto. O táxi ia ser pago com o dinheiro do cachê, que não rolou. Juntamos os caraminguás e mesmo assim ficou faltando. Foi quando me lembrei do nosso amigo, Carlos Sérgio Bittencourt, que morava conosco na pensão. O futuro dramaturgo foi quem nos salvou, inteirando a grana do táxi. Ufa! Uma aventura, mesmo decepcionante como essa, a gente não esquece, não é mesmo? 
     Na sequência das “pequenas e inesquecíveis maluquices” vividas por mim e pelo Afonsinho, chega a vez do primeiro dos imbatíveis “porres negros”. Deu-se que ficamos sem cigarro no meio de uma noite de domingo. Morávamos ainda na pensão da Praia de Botafogo: Afonsinho, Carlos Sérgio e eu. O papo estava bom, mas nossos cigarros haviam acabado e nos anos 1960 sem cigarro nada funcionava. Descemos eu e Afonsinho rumo ao bar ao lado do Cine Ópera, quatro prédios após a nossa pensão. Mal compramos os cigarros começou a chuviscar e resolvemos tomar um chope. Afinal, quem não está na chuva é mesmo pra não se molhar, não é mesmo? A chuva foi descendo mais forte, os chopes e nosso papo também. 
     Foi então que o bar fechou, bem pra lá de meia-noite. E agora? A chuva chovia choverando (evoé, Oswald de Andrade!) por todo o Rio. Voltar pra pensão era chover no molhado. Era preciso alguma coisa mais forte, mais quente, quem sabe um conhaque com mel, mortífero anti-gripal de toda a gente? Lembrei-me de um botequim que costumava ficar aberto na rua Voluntários, quase esquina com a Praia. Vencemos as três quadras até lá enfrentando com galhardia os pingos de chuva em nossos rostos, e navegando em meio a uma ainda incipiente enxurrada. O botequim estava aberto. Saravá! Sentamos nos banquinhos do balcão e comandamos duas batidas de limão para recomeço dos trabalhos. A chuva chovendo forte lá fora. Solidão apavora. Não, Afonsinho, o samba ainda vai nascer, mas já estamos juntos, copos na mão, tamborim na marcação. 
     De repente, senta-se a meu lado um simpático e bem-falante negão (volto a repetir: não, não era um hoje “afrodescendente”, mas um velho negão anos 1960). Papo vem, papo vai, ele me conta que andou trabalhando em cinema, às vezes ainda trabalhava como maquinista. E disse, pra meu espanto, que estava nas filmagens de Os Cafajestes, naquela cena do nu frontal da Norma Bengell. E começou a contar detalhes das filmagens, daquele famoso travelling circular na praia de Cabo Frio: “na verdade a câmera estava em cima de um jipe, que rodava na areia em volta da Norma e...”. Aí ele sumia por uns bons minutos. Logo reaparecia: “...e então ela peladona e...”. E o negão sumia de novo. Eu imaginei que ele estava indo ao banheiro, mas desconfiei que era banheiro demais pra tão pouco tempo. Virei-me pro Afonsinho: “Que diabos faz esse negão, que some assim no meio do papo?”. 
    Chope e mais chope, o banheiro me chama. Desço do banquinho e sinto a água subindo pelas canelas: o botequim já tinha mais água que o Rio Pomba . Ressurge súbito o negão e me diz que está faturando uma nota empurrando vários carros inundados pela enchente na Voluntários (“coisa de cinco merréis cada empurrada, bicho!”). Só aí nos demos conta do caos. Amanhece, a chuva esmaece. Convoco o Afonsinho para uma retirada estratégica. E lá vamos nós, praia de Botafogo afora, água nas canelas. Paramos num padaria da Visconde de Ouro Preto: afinal era hora do café da manhã. 
     
Sanduíches de pão com salame nas mãos, calças arregaçadas, água nas canelas, caminhamos impávidos rumo à pensão. Bem verdade que às vezes um sanduíche caía em meio à enxurrada, mas nós o recuperávamos com impassível classe. Eis que chegamos. Havia uma escada que levava da rua à porta principal. A enchente tomara bem mais da metade dos degraus. Foi quando avistamos lá no alto o Carlos Sérgio, de terno, pronto para o trabalho, espremido entre algumas pensionistas, dignas funcionárias de algum órgão público. Todo mundo sem poder sair para o trabalho, todo mundo olhando enviesado pra mim e pro Afonsinho, nós dois atônitos, sanduíches de pão com salame equilibrando-se nas mãos trêmulas. 
     Do alto de seu terno, Carlos Sérgio nos deu um pito: “É uma catástrofe, tem gente morrendo, o Rio está inundado, a enchente impede qualquer um de trabalhar e vocês chegam assim, completamente bêbados em plena manhã de segunda-feira!”. Eu e Afonsinho desmontamos em nossas camas enquanto o Rio era inundado por outro rio: imenso e imundo. E percebemos então – moços bem-comportados de Minas Gerais – que havíamos perdido o cartaz com as senhoras funcionárias públicas. Nada mais de paparicos. Nada mais de ovos extras nas refeições. Nada de goiabada.
Continua na próxima semana 

17 de ago de 2015

1 - AfonSim/AfonSom: distância/altura/atenção


Show do Trio Afonso/ Alessio/ Írio – Auditório da RAI – Nápoles / 1976






Era o primeiro dia de outubro de 1975, lá se vão 40 anos, quando bateu uma saudade imensa do “prezado amigo Afonsinho”, meu querido baterista que tinha ido para Roma acompanhando a Elza Soares e por lá ficara. Nós não nos víamos há alguns anos e acabei escrevendo um poema imenso pra ele, “Bilhete pra Roma”, publicado no ano seguinte em meu livro “Selva Selvaggia”. Começava assim: afonsim/ meu meninim/ tupiniquim/ depois de tanto tempim/segue este bilhetim/ só pra dizer que sim/ estamos bem-muito bem/ loucos como sempre/ de porre às vezes/ sós com saudades.
 E depois de falar de filhos (pois não é que anos e anos mais tarde minha filha Ulla ficaria casada por oito anos com o filho dele, Riccardo?), mulheres, gatos, spaghetti carbonara (umas das especialidades culinárias de meu amigo) & os cambaus, eu finalizava citando um poema de Giuseppe Ungaretti: essas as notícias/ que passo/ ainda com sono/ e pigrizia/ são oito da mattina/ e lá fora/ a manhã/ se descortina/ guarda com´è bella!/ filtrando/ luzes/ pela janela/ paola/ riccardo/ simona/ e tutti quanti/ carbonara & chianti/ às vezes penso/ e/ m´illumino d´immenso.
 Pois é, eu estava lançando livro em Brasília no início de maio quando soube das mortes de Sebastião Cândido da Cruz, o Tião, e de Afonso Alcântara Vieira, o Afonsinho. Um seguido do outro, quase ao mesmo tempo, dois belos e bravos bateristas, meus queridos amigos que se foram. Não pude ir ao Rio para o enterro do Tião, nem vir a Cataguases para o do Afonsinho. Mas, a pedido do Trajano Cortez, editor do jornal “Atual”, eu escrevi lá de Brasília um rápido depoimento:
“Afonsinho, AfonSim era o irmão que não tive e que agora se foi.
Amigo e companheiro da vida inteira, não me deu tempo de sair de Brasília para o último abraçadeus, oh seu apressado! Moramos juntos em Botafogo e Copacabana. Muitas vezes fui uma espécie de seu holder, levando em meu carro ele e sua bateria para os shows e bailes cariocas, só pra aplaudir seus solos mágicos,  fenomenais.
“No apartamento de Copacabana morava também conosco outro baterista, o Tião Cruz. Uma semana antes do acontecido, o Tião partiu, também apressadíssimo, como que para preparar um rufo triunfal de bateria no aguardo da entrada de nosso amigo, que chegou, quem duvida?, ao som de um elegante compasso três por quatro. AfonSim, AfonSom que se cala. E cala fundo em nossos corações”.
 No sábado à tarde, 10 de maio, ainda em Brasília, havia recebido telefonemas de seu primo Mauro Sérgio Fernandes e de minha irmã Rosa: “Afonsinho está na UTI, e nada bem – teve dois AVCs”. À noite, o domingo já vindo, enquanto eu e Patrícia assistimos ao show Abraçaço, do Caetano, é em meu amigo que penso o tempo todo. Afonsinho não gostava muito dos baianos, daquele negócio dos doces bárbaros cantarem correndo no palco, entre outras coisas. Exatamente o que vejo Caetano fazendo agora. Esperava que ele cantasse “Desde que o samba é samba”, essa sim, música de que Afonsim gostava muito e que chegou mesmo a gravar com a Elza Soares no disco “Carioca da Gema”.
















  Mas, não. O show acaba e nada. Nem no bis ela surgiu. Mas aí Caetano cantou “Força Estranha”, uma das preferidas do saudoso poeta Francisco Marcelo Cabral e do Afonsinho e minha também – e me emociono mais uma vez com essa canção, uma das mais belas do baiano. E parecia que Chico Cabral, Afonsim e eu cantávamos juntos com Caetano: “A vida é amiga da arte/ É a parte que o sol me ensinou/ Por isso uma força me leva a cantar/ Por isso essa força estranha/ Por isso que eu canto, não posso parar/ Por isso essa voz tamanha”. Cantava junto com Caetano enquanto a voz do Chico Cabral já sumia, o Afonsinho morria e eu não sabia.

   Agora, já em Cataguases, lembro-me do que me disse certa vez meu também saudoso amigo, o romancista Rosário Fusco: “A gente só se recorda de nossas mancadas, das besteiras que fizemos em nossas vidas, jamais das coisas do dia a dia”. Como naquela manhã, aquele jovem estudante de filosofia vindo da Faculdade para o trabalho no Centro do Rio. Terno, gravata, as mãos atulhadas de livros, ele não viu a cordinha do estacionamento e tibum! – estatelou-se no meio do asfalto, livros voando estacionamento afora. Sinal fechado, toda a gente dos carros e dos ônibus de olho na cena. Morto de vergonha, ele catou os livros e tentou sair impávido, empertigando-se como pode, sem sequer notar a calça rasgada nos joelhos. Era 1968 e aconteceu comigo. Nunca mais esqueci. Agora me perguntem os acontecimentos daquela semana, da outra, das outras, das anteriores, das posteriores, um só acontecido que seja. Neca de pitibiribas.
 Falar do Tião e do Afonsinho, mesmo agora que se foram, é então tentar amenizar a coisa toda, como se não houvesse morte em nossas vidas – mas só o insólito, os fatos pitorescos que vivemos. É relembrar todo um leque de inacreditáveis “acontecimentos acontecidos” conosco vida afora. É o que fica, o que ficou, as mancadas, as pequenas besteiras, loucuras de que nos lembrávamos às gargalhadas – e que eu vou recordar para sempre. Mais ainda que seus shows no Brasil e no exterior, ao lado de grandes cantoras, de grandes nomes do jazz internacional, mais ainda que suas belas performances, seus solos impagáveis. Isso para eles dois, para Afonsinho principalmente, era o arroz com feijão, ou feijão com arroz – que a gente também prima pela rima.
     Acompanhar Vinicius, Baden Powell, Chico Buarque, Elza Soares, Astrud Gilberto, Alcione. Participar com seu grupo instrumental dos maiores festivais de jazz europeus durante os vintes anos em que viveu em Roma. Tocar e gravar com Gato Barbieri, inclusive na trilha do filme "O último tango em Paris"; e com Tony Scott, Archie Shepp, George Adams, Sal Nistico, Enrico Pieranunzi, Don Pullen, com o poeta-pianista Léo Ferré e tantos outros grandes nomes do jazz – tudo isso era o prato do dia a dia, os pratos e bumbos de sua cotidiana bateria.
E o Afonsinho sabia bem lidar com isso, não tivesse ele, e até eu mesmo, seguido à risca o conselho do inacreditável goleiro cataguasense Luiz Prata, o Luiz Careta, que lhe disse um dia, assim como quem filosofa: “O importante na vida de um baterista é distância, altura e atenção”. E nada mais disse, e nem explicou o que era aquilo de distância/altura/atenção – e nunca ficamos sabendo se ele falava de bateria ou das agruras de um goleiro, ou de como levar a própria vida. Seria distância da bateria, altura do banquinho, atenção na entrada da música? Chi lo sa?  Vejo agora uma foto daqueles tempos, nós dois ainda muito magros, caminhando numa tarde pela Praia de Ipanema.  Exatamente quando Afonsinho – com as feições imitando o cômico italiano Totó – vira-se para a fotógrafa (nossa amiga Tânia Horta) e solta um daqueles “distância/altura/atenção”. Na verdade, controvérsias à parte, a enigmática tirada do Luiz Careta serve como lema para tudo em nossas vidas, ou não? 

Continua na próxima semana