17 de ago. de 2015

1 - AfonSim/AfonSom: distância/altura/atenção


Show do Trio Afonso/ Alessio/ Írio – Auditório da RAI – Nápoles / 1976






Era o primeiro dia de outubro de 1975, lá se vão 40 anos, quando bateu uma saudade imensa do “prezado amigo Afonsinho”, meu querido baterista que tinha ido para Roma acompanhando a Elza Soares e por lá ficara. Nós não nos víamos há alguns anos e acabei escrevendo um poema imenso pra ele, “Bilhete pra Roma”, publicado no ano seguinte em meu livro “Selva Selvaggia”. Começava assim: afonsim/ meu meninim/ tupiniquim/ depois de tanto tempim/segue este bilhetim/ só pra dizer que sim/ estamos bem-muito bem/ loucos como sempre/ de porre às vezes/ sós com saudades.
 E depois de falar de filhos (pois não é que anos e anos mais tarde minha filha Ulla ficaria casada por oito anos com o filho dele, Riccardo?), mulheres, gatos, spaghetti carbonara (umas das especialidades culinárias de meu amigo) & os cambaus, eu finalizava citando um poema de Giuseppe Ungaretti: essas as notícias/ que passo/ ainda com sono/ e pigrizia/ são oito da mattina/ e lá fora/ a manhã/ se descortina/ guarda com´è bella!/ filtrando/ luzes/ pela janela/ paola/ riccardo/ simona/ e tutti quanti/ carbonara & chianti/ às vezes penso/ e/ m´illumino d´immenso.
 Pois é, eu estava lançando livro em Brasília no início de maio quando soube das mortes de Sebastião Cândido da Cruz, o Tião, e de Afonso Alcântara Vieira, o Afonsinho. Um seguido do outro, quase ao mesmo tempo, dois belos e bravos bateristas, meus queridos amigos que se foram. Não pude ir ao Rio para o enterro do Tião, nem vir a Cataguases para o do Afonsinho. Mas, a pedido do Trajano Cortez, editor do jornal “Atual”, eu escrevi lá de Brasília um rápido depoimento:
“Afonsinho, AfonSim era o irmão que não tive e que agora se foi.
Amigo e companheiro da vida inteira, não me deu tempo de sair de Brasília para o último abraçadeus, oh seu apressado! Moramos juntos em Botafogo e Copacabana. Muitas vezes fui uma espécie de seu holder, levando em meu carro ele e sua bateria para os shows e bailes cariocas, só pra aplaudir seus solos mágicos,  fenomenais.
“No apartamento de Copacabana morava também conosco outro baterista, o Tião Cruz. Uma semana antes do acontecido, o Tião partiu, também apressadíssimo, como que para preparar um rufo triunfal de bateria no aguardo da entrada de nosso amigo, que chegou, quem duvida?, ao som de um elegante compasso três por quatro. AfonSim, AfonSom que se cala. E cala fundo em nossos corações”.
 No sábado à tarde, 10 de maio, ainda em Brasília, havia recebido telefonemas de seu primo Mauro Sérgio Fernandes e de minha irmã Rosa: “Afonsinho está na UTI, e nada bem – teve dois AVCs”. À noite, o domingo já vindo, enquanto eu e Patrícia assistimos ao show Abraçaço, do Caetano, é em meu amigo que penso o tempo todo. Afonsinho não gostava muito dos baianos, daquele negócio dos doces bárbaros cantarem correndo no palco, entre outras coisas. Exatamente o que vejo Caetano fazendo agora. Esperava que ele cantasse “Desde que o samba é samba”, essa sim, música de que Afonsim gostava muito e que chegou mesmo a gravar com a Elza Soares no disco “Carioca da Gema”.
















  Mas, não. O show acaba e nada. Nem no bis ela surgiu. Mas aí Caetano cantou “Força Estranha”, uma das preferidas do saudoso poeta Francisco Marcelo Cabral e do Afonsinho e minha também – e me emociono mais uma vez com essa canção, uma das mais belas do baiano. E parecia que Chico Cabral, Afonsim e eu cantávamos juntos com Caetano: “A vida é amiga da arte/ É a parte que o sol me ensinou/ Por isso uma força me leva a cantar/ Por isso essa força estranha/ Por isso que eu canto, não posso parar/ Por isso essa voz tamanha”. Cantava junto com Caetano enquanto a voz do Chico Cabral já sumia, o Afonsinho morria e eu não sabia.

   Agora, já em Cataguases, lembro-me do que me disse certa vez meu também saudoso amigo, o romancista Rosário Fusco: “A gente só se recorda de nossas mancadas, das besteiras que fizemos em nossas vidas, jamais das coisas do dia a dia”. Como naquela manhã, aquele jovem estudante de filosofia vindo da Faculdade para o trabalho no Centro do Rio. Terno, gravata, as mãos atulhadas de livros, ele não viu a cordinha do estacionamento e tibum! – estatelou-se no meio do asfalto, livros voando estacionamento afora. Sinal fechado, toda a gente dos carros e dos ônibus de olho na cena. Morto de vergonha, ele catou os livros e tentou sair impávido, empertigando-se como pode, sem sequer notar a calça rasgada nos joelhos. Era 1968 e aconteceu comigo. Nunca mais esqueci. Agora me perguntem os acontecimentos daquela semana, da outra, das outras, das anteriores, das posteriores, um só acontecido que seja. Neca de pitibiribas.
 Falar do Tião e do Afonsinho, mesmo agora que se foram, é então tentar amenizar a coisa toda, como se não houvesse morte em nossas vidas – mas só o insólito, os fatos pitorescos que vivemos. É relembrar todo um leque de inacreditáveis “acontecimentos acontecidos” conosco vida afora. É o que fica, o que ficou, as mancadas, as pequenas besteiras, loucuras de que nos lembrávamos às gargalhadas – e que eu vou recordar para sempre. Mais ainda que seus shows no Brasil e no exterior, ao lado de grandes cantoras, de grandes nomes do jazz internacional, mais ainda que suas belas performances, seus solos impagáveis. Isso para eles dois, para Afonsinho principalmente, era o arroz com feijão, ou feijão com arroz – que a gente também prima pela rima.
     Acompanhar Vinicius, Baden Powell, Chico Buarque, Elza Soares, Astrud Gilberto, Alcione. Participar com seu grupo instrumental dos maiores festivais de jazz europeus durante os vintes anos em que viveu em Roma. Tocar e gravar com Gato Barbieri, inclusive na trilha do filme "O último tango em Paris"; e com Tony Scott, Archie Shepp, George Adams, Sal Nistico, Enrico Pieranunzi, Don Pullen, com o poeta-pianista Léo Ferré e tantos outros grandes nomes do jazz – tudo isso era o prato do dia a dia, os pratos e bumbos de sua cotidiana bateria.
E o Afonsinho sabia bem lidar com isso, não tivesse ele, e até eu mesmo, seguido à risca o conselho do inacreditável goleiro cataguasense Luiz Prata, o Luiz Careta, que lhe disse um dia, assim como quem filosofa: “O importante na vida de um baterista é distância, altura e atenção”. E nada mais disse, e nem explicou o que era aquilo de distância/altura/atenção – e nunca ficamos sabendo se ele falava de bateria ou das agruras de um goleiro, ou de como levar a própria vida. Seria distância da bateria, altura do banquinho, atenção na entrada da música? Chi lo sa?  Vejo agora uma foto daqueles tempos, nós dois ainda muito magros, caminhando numa tarde pela Praia de Ipanema.  Exatamente quando Afonsinho – com as feições imitando o cômico italiano Totó – vira-se para a fotógrafa (nossa amiga Tânia Horta) e solta um daqueles “distância/altura/atenção”. Na verdade, controvérsias à parte, a enigmática tirada do Luiz Careta serve como lema para tudo em nossas vidas, ou não? 

Continua na próxima semana

Um comentário:

figbatera disse...

Essa estória com o Luiz Careta aconteceu no antigo Palácio das Danças onde aquela turminha - Ironil, Ivan, Afonsinho e, depois também eu, com o Conjunto Spala - tocávamos uns bailinhos, no começo de nossa aventura musical; o Luiz Prata também gostava de tocar bateria e, pra nos dar uma de "mestre", disse-nos essa famosa frase, ensinando o que era preciso para se tocar bem: altura (do banquinho), distância (dos tambores em relação ao nosso corpo) e muita atenção, claro!
Nós (eu, Zé Adilson e Afonsinho) sempre repetíamos isso - longe do Careta - morrendo rir...