16 de ago de 2012


Cataguases, 1975:
Ronaldo Werneck, Joaquim Branco e Rosário Fusco


35 anos sem Rosário Fusco

Exatamente há 35 anos, no dia 17 de agosto de 1977, morria em Cataguases o escritor Rosário Fusco. Nascido em 19 de julho de 1910 em São Geraldo (MG), Fusco veio com um mês para a cidade onde se tornaria, com apenas 17 anos, um dos fundadores e enfant terrible da Revista Verde. Lançada em Cataguases em 1927, a Verde foi um dos principais braços do movimento modernista em Minas Gerais. Após longo périplo “oropa-frança-bahia” (Rio-Paris-Nova Friburgo), Rosário Fusco voltou em 1968 para Cataguases, onde ficou até o final da vida. Em 2010, seu centenário de nascimento passou praticamente esquecido.  Escrevi na ocasião um pequeno texto, ainda inédito, que coloco a seguir, junto com um verbete sobre ele e um artigo que publiquei no Suplemento Cataguarte, editado junto com o poeta Joaquim Branco nos anos 1990. Divulgo aqui esses três textos como homenagem e relembrança de meu amigo, trinta e cinco anos após sua morte.  



ROSÁRIO FUSCO 100 ANOS

Fusco para principiantes 

“Não vou dizer que a leitura de seus poemas seja ainda insuficiente para conhecer o poeta, o que seria uma impropriedade. O lugar da literatura não é outro senão a linguagem, e é no texto que a poesia produz ou não o seu impacto. Mas é em matéria de impacto, justamente, que o caso Waly tem que ser pensado de múltiplas formas. (...) A presença de Waly promovia uma chuva ao mesmo tempo premeditada e repentista de brilhações fulgurantes, aliciadoras e hilariantes. (...) Essa intervenções protéicas, exorbitantes, que aconteciam em enxurradas junto de Waly, arriscam-se a passar por uma coleção de anedotas pitorescas e a sair diminuídas, se narradas assim, isoladas e fora do momento insubstituível em que aconteciam”. 

Quem escreveu isso foi o José Miguel Wisnik em sua coluna de hoje no Globo. Ele está falando do poeta Waly Salomão, meu saudoso amigo Waly, que era de tal forma um “vulcão de criatividade instantânea” que muitas vezes sua hiperbólica presença apagava o brilho de seus próprios poemas. Lendo essas palavras do Wisnik, lendo e me lembrando da figura do Waly, foi que me dei conta de como sua presença tomava toda a cena e se assemelhava à de Rosário Fusco. E de como essas palavras do Wisnik sobre o Waly se ajustam perfeitamente ao homem Rosário Fusco.  

Nascido em 1910, este é o ano do centenário de Fusco, que se foi há 33 anos e exatos 25 dias. Mas para quem o conheceu, não há como esquecê-lo.  A seguir, o verbete que escrevi para Os 100 do Século em Cataguases (publicação editada no ano 2000 pela Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho) e outro texto em sua homenagem, que publiquei em 1999 no Suplemento Cultural Cataguarte.

RW/Cataguases, 11 de setembro de 2010


Rosário Fusco de Souza Guerra, escritor e advogado, nascido em São Geraldo, em 19.07.1910. Enfant terrible e talento maior da Revista Verde, correu mundo como embaixador (involuntário) de Cataguases, para onde voltou... e para sempre: 17.08.1977. 

“Lá se foi o velho Rosário Fusco” – escrevia o cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil de 21 de agosto de 1977, quatro dias após a morte do romancista em Cataguases: “um gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se preferirem) a aventura antropofágica proposta pelos modernistas. Cosmopolita, para onde quer que fosse levava um coração provinciano. Teria que terminar em Cataguases, misteriosa cidade com vocação de radioamador – dentro das casas, nos bares, na praça, na modorra da roça é apenas uma prevenção de forasteiro; na verdade, Cataguases está em febril contato com o mundo, é pioneira em cinema, em literatura, em arquitetura”.  

A “Cataguases pioneira em literatura” deve muito a Rosário Fusco – ainda um menino de 17 anos e já fazendo com outros rapazes uma revista que daria o que falar na Capital de Minas, na de São Paulo, em várias outras capitais do Brasil e até no exterior. Fusco foi o motor da Revista Verde, um vulcão que escrevia, ilustrava, diagramava, mandava (e recebia) cartas pra todo mundo, mas principalmente pro modernista Mário de Andrade, descoberta e aprendizado. 

Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira.  Estuda na Escola Maternal Nossa Senhora do Carmo, conclui o primário no Grupo Escolar Coronel Vieira e faz o secundário no Ginásio Municipal. Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho, bedel no Ginásio. Aos 15 anos, já colaborava no “Mercúrio”, jornal dirigido por Guilhermino Cesar, futuro companheiro na Verde, e logo em dois outros jornaizinhos, “Boina” e “Jazz Band”. Com José Spindola Santos, edita “Itinerário” – e juntos fundam a livraria-editora Spindola & Fusco. Aos 17, é um dos criadores da Verde e, aos 18, publica “Poemas Cronológicos”, parceria com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, Verde Editora, 1928. Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937. 

Romancista, funcionário federal, dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista, crítico literário, ensaísta, secretário da Universidade do Distrito Federal e procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um homem só, mesmo um mulato enorme e da melhor qualidade como Rosário Fusco. Melhor dizer, simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque ele foi o primeiro escritor brasileiro a ser reconhecido como tal pelo antigo INPS. Em meados dos anos 1960, ele volta para Cataguases. “Aonde anda Rosário Fusco?” – (se) perguntava em 1996 um poeta da terra, no suplemento Cataguarte: “Aonde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do seu escritório na casa da Granjaria. Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações ´do rol das confessáveis´ (as outras: Machado de Assis, Dostoievski, Beethoven). Mas que coisa é Rosário Fusco, que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.?”. 

De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance “L´Agressore”, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio – Fusco publica inúmeros títulos em vários gêneros: “Fruta de Conde”, poesia, 1929; “Amiel”, ensaio, 1940; “O Livro de João”, 1944, “Carta à Noiva”, 1954, “O Dia do Juízo”, 1961, romances; “Vida Literária”, crítica, 1940; “Introdução à Experiência Estética”, ensaio, 1949; “Anel de Saturno” e “O Viúvo”, de 1949, teatro; e “Auto da Noiva”, farsa, 1961. 

Que coisa é Rosário Fusco? Um escritor e basicamente um romancista, com toda a sua danação e glória: “Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever... Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes... Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protestos de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça, irremovíveis...Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair... Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”.

Na crônica citada, Carlinhos Oliveira brinda à vida e faz de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem dúvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”.
Os 100 do Século em Cataguases, 2000




ROSÁRIO FUSCO 

rosário fusco o que foi físsil rosário fósforo
foi-se de fato fora do rastro do que já foi
sim porque nunca foi
rito rosto rateio ritmo rumo ruminação relíquia.

A tênue densidade dos corpos




Ainda hoje é comum os americanos se indagarem sobre o que faziam no dia em que John Kennedy foi assassinado. Foi um novembro inesquecível, aquele novembro de 63, aquele dia de frente para a morte. Na noite em que Rosário Fusco morreu, falei com o Ziraldo pelo telefone e combinamos que eu faria um artigo pro Pasquim. Estava no Rio – e com a casa cheia: minha mulher ensaiava com outros atores a peça Apaguem os Lampiões, que seria encenada no mês seguinte, setembro, em Cataguases. Desliguei o telefone ainda chorando e ainda chorando tranquei-me no escritório: um maço de Minister, um litro de Cutty Sark e a velha e às vezes infalível Lettera 22.


A mesma Lettera 22 que trouxe do Rio e onde escrevo agora, quase 19 anos depois, longe de Copacabana e do meu PC-486. Daqui da casa de minha irmã, de volta ao passado, mais uma vez cavalgando a imbatível Lettera 22 com seu teclado magicamente ajustado ao ritmo de meus poemas. Daqui deste terraço de frente pro verde, pros verdes matos e montes gerais, nesta manhã de maio em Cataguases, muito, muito perto do velho Rosário que avisto lá naquele morro, aquele lá pra onde vou também juntar-me a ele que ali já se encontra junto com Annie. 

Estamos em agosto de 1977, na virada de 17 pra 18, dia em que Rosário Fusco será enterrado em Cataguases. Eu acabara de chegar do exterior, onde estivera a trabalho durante longo período –  se é que podemos chamar Asunción del Paraguay de “exterior”.  De qualquer forma, estava isolado do país e há mais de três meses não via ou tinha qualquer notícia de Rosário Fusco. Movido a lágrima e uísque a caubói, exatamente como com ele tantas vezes bebi, só consegui sair do escritório no “cu da aurora” (d’aprés R.F.), trazendo debaixo do sovaco um texto emocionado que o Pasquim publicaria na semana seguinte.  Não consegui viajar pro funeral: sem condições. No ano anterior, março de 1976, há exatos vinte anos, portanto, o Pasquim publicava a entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos com Fusco e que vai em parte reproduzida neste jornal. Deu um bode dos diabos. 

No mesmo dia em que saiu a entrevista, 19.03.76, um Rosário Fusco puto da vida    e sob a chancela “Reservadíssimo” –  mandava-me carta de Cataguases: “... o que v. chamou de montagem de textos e o Pasquim divulgou como entrevista é furo jornalístico de foca provinciano”.  E por aí seguia o velho e ferino Fusco, ameaçador: “... Mas pode ter consequências, pelas quais o responsabilizarei no momento oportuno, se for o caso”.  A entrevista mencionava vários medalhões literários de forma inédita e bem-humorada, entre eles Lawrence Durrel e... Grace Kelly, a própria. Fusco temia inacreditáveis represálias sobre o que havia dito (e dito várias vezes), como se os dois, a “princesa” e “o autor internacional” fossem algum dia ler o Pasquim 

Apesar de outros envolvidos no, vamos dizer, quiproquó (o próprio Ziraldo, o Jaguar, o Joaquim, a Adriana Montheiro, que havia feito as fotos), ele não livrava minha cara: “Tirei o Joaquim Branco da jogada porque o estilo dos comentários – inconfundível pelos cacoetes  – tenho certeza de que são seus”. O velho bruxo da Granjaria estava realmente puto da vida. Por absoluto mistério do correio cataguasense, a carta só chegou às minhas mãos em abril.  Devolvi "de bate-pronto" numa longa resposta onde mostrava meu espanto com sua reação em cima de coisas já sovadas de tão ditas e repetidas para o fechadíssimo círculo que frequentava sua casa da Granjaria. E sobre as quais ele nunca pedira segredo.


O dito & o escrito 

O próprio Fusco chegara mesmo a ver grande parte do texto publicado pelo Pasquim: “Foca provinciano – eu dizia em minha resposta – é no mínimo muito engraçado. ‘Foi uma das melhores entrevistas do Pasquim’ (Ziraldo), a única que mereceu seis páginas e todo aquele aparato fotográfico. Certamente (e falando sério) pelo talento & fotogenia do (suposto?) entrevistado. Mas se o ‘foca provinciano’ que editou a matéria (‘com seus comentários inconfundíveis pelos cacoetes’) não tivesse as fotos de primeira qualidade da Adriana, algumas perguntas (respondidas por escrito) do Joaquim Branco ou os fragmentos (já publicados) das cartas de RF para Laís Correia de Araújo, a entrevista possivelmente ficaria esquecida na gaveta de algum pasquim provinciano. O que teria sido melhor: para RF, para RW... A imaginação do romancista (maior) pode – isso sim – ter sido por demais fértil”. 

 Era na verdade uma briga de amor onde eu terminava dizendo que “o Ronaldo manda um abraço pro Fusco (como normalmente nos chamávamos) e pra tribo inteira, como de hábito (isso porque, na carta, ele me chamava de “Ronaldo Werneck” e assinava “Rosário Fusco”, procurando manter total distanciamento). Em maio daquele ano não pude ir a Cataguases, tomado pelo nascimento de meu  filho Pablo e de Selva Selvaggia, meu primeiro livro. No início de junho, recebo carta, agora sim, de meu velho amigo, que merece transcrição: 

Ronaldo: nada de ressentimentos, tanto mais que o dito ficou dito e, o falado, escrito. Velho aposentado não dispõe de tempo pra cartear, pois que o elenco de doenças que carrega lhe consome o tempo: entende? Vai entender, daqui a trinta anos. Parabéns (extensivos à Adriana) pelo duplo parto: do filho de papel e do filho do amor. Ambos são válidos e, às vezes, até se confundem nas nuvens do sonho igual. Você me cita no prefácio do livro do Quincas (Joaquim Branco) e o Cabral (Francisco Marcelo) me cita no prefácio de seu livro. Isso dá a impressão de que existe uma igrejinha cataguasense, mais nordestina do que mineira – o que não é bom. Creio que seu amigo Ezra Pound, na conjuntura, lhe proporia a seguinte charada inconsequente que psicografo por estranha força do astral:  'eu te cito/ você me cita/ na área do consumito/ você apita/ se eu apito/ no mesmo apito/ nada comum/ pois que o dito/ só clama aflito/ o pobre mito/ de cada um'. Abraços do Rosário (02.06.76) 

“Ronaldo: veja, por favor, se descobre o endereço do famoso Dr. Ruper(?), considerado o maior urologista das três Américas... estou projetando um artigo comprido sobre sua poesia: mandarei. Não convém que a turma do Pasquim apareça. Pelo menos, por enquanto. Assim que eu melhorar de, ao menos, uma de minhas mazelas (acho que todas já se instalaram em mim pra ficar até o dia do Juízo) avisarei. Annie se junta a mim para abraçar o, agora, quarteto Werneck. Do velho, Rosário (18.08.76). 

Não me perguntem como, mas devo ter achado o endereço do "famoso Dr. Ruper", pois em 30.09.76 ele me agradecia em meio ao intenso sofrimento físico e a comentários sobre uma revista que lhe enviara. Prometia também terminar um artigo sobre meu livro Selva Selvaggia, que nunca vi: “De pleno acordo com você quanto à paginação da revista (José): limpa e fria, monótona como uma viagem de trem no escuro. Também a matéria não rima com o formato nem com a indicação pomposa da tríplice especialidade: 'literatura, crítica e arte'... Doente outra vez – ou como sempre – mas, desta feita, obrigado a uma viagem diária a J. de Fora (aplicações de raio x  nas mamas), ando sem ânimo pra cuidar das coisas de que mais gosto: ler, escrever e, até, ...beber. Não acabei o artigo sobre Selva: mas  quero publicá-lo até o fim do mês: antes, submeterei o trololó à sua apreciação, ou ao seu entendimento, como diria o mulato Machado”. 


Que coisa é Rosário Fusco? 

Era o velho Fusco que voltava à toda e me fascinava como sempre, como na primeira vez em que o vi, absolutamente só (Annie ficara em Friburgo, enquanto ele construía a casa em que iriam morar no bairro da Granjaria), numa sala nas proximidades do campo de futebol do Colégio Cataguases, lá pelos meados dos anos 1960. A cabeça surgindo imensa e se destacando no cipoal de garrafas sobre a mesa, a cabeçorra de Rosário Fusco que emergia por entre o mar de martinis e gin, muito gin, imaginem. Remexo na memória, num velho envelope escrito "R.F.", que trouxe do Rio.  

 Estão aqui, neste terraço cataguasense, os vestígios do velho Rosário que carrego comigo. Onde anda Rosário Fusco? Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, as lágrimas, o uísque, o cigarro, a imensa caixa de fósforos marca Olho, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do escritório, como a de Van Gogh, o mesmo daquele auto-retrato ali no fundo, primorosa reprodução feita pela Annie. Mas que coisa é Rosário Fusco? Que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.?            

“Jamais descobri porque, aos 17 anos, fiquei sofrendo do peito, por solidariedade a Manuel Bandeira (que deve possuir uma carta minha a respeito)”. 

“Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi  a vontade de escrever”. 

“Amor é doença, como escrever. Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes”. 

“Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protesto de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça irremovíveis”. 

“Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los  sair”.           

“Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”. 

 Começo a futucar essas coisas “fuscais”, esses velhos papéis que me ofuscam e quase planam na memória – não fora a irreversível “densidade dos corpos” que ele gostava sempre de lembrar.  E remexo com a hierática postura que ele me ensinou um dia – solene, entre uma tragada e uma talagada: “Meu caro poeta, para ler, mas ler mesmo, comme il faut, aproveitando o que se lê, aprendendo, é preciso apreender, é preciso estar com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça apoiada em uma das mãos, a caneta na outra, anotando o ‘anotável’, digerindo o ‘digerível’, ou o dirigível, como queira”. É o que eu hoje chamo de  “leitura fuscal cotovelar”    a que fica e nos justifica. 

Então, "cotovelemos" juntos com as palavras de Rosário Fusco: Ronaldo: Lamento sinceramente não me ter encontrado com você. Com um febrão danado (39,5 à sombra), até o sagrado mijo eu o mictava na cama (num ‘compadre’, claro). Obrigado pela trazida do Processo (?): ainda não o abri, nem o abrirei tão cedo, com o rabo ruim e a alma pior. Reli seus poemas: acho que v. já tem idade para editar-se. Não falemos da entrevista nem de O Anunciador (Longa-metragem realizado em Cataguases em 1967, dirigido por Paulo Bastos Martins). Gostaria que  v. me mandasse:   

1 quilo de bacalhau ‘Neptun’s (dinamarquês, em pacote).
6 garrafas de ‘Merlot’ (Granja União).
6 garrafas de ‘Cabernet’ (idem).
Se tiver tipo ‘Medoc’, pode meter 6 também. Pagarei aqui, ou aí, como quiser. Abraços apressados e hemorroidários do R.” (26.08.70).


As mamas do Finnicius 

Era assim, totalmente imprevisto, misturando tudo, poemas, bacalhau e vinho, muito vinho, de uma só ‘cambulhada’, como gostava de dizer. Foi mais ou menos por aí, meados de 1972, que ele esteve no Rio, rumo a Paris. Passou um mês no Apa Hotel, em Copacabana, junto com Annie, a francesa com quem se casou cinco vezes e que o acompanhou sempre – e ainda agora está a seu lado no campo santo do alto daquele morro que avisto daqui. Annie que lhe deu François, o Rosário François Petitjean Fusco de Souza Guerra, então um menino de pouco mais de dez anos. Fusco passou um mês absolutamente de porre, não querendo embarcar por absoluta paúra de voar, “até mesmo de elevador”: hospedou-se no 2º andar e só transitava pelas escadas, sempre para o hall onde bebíamos, onde bebíamos, onde bebíamos. Ele dava generosas gorjetas aos empregados do Apa para levarem François ao circo, ao Tívoli Parque, aos cambaus infanto-juvenis. Nós nos víamos quase todos os dias noite adentro. Annie me pedia, aflita, para convencer o "Rosárr" a pegar o avião logo, pois o dinheiro que haviam trazido para a temporada européia estava indo embora entre garrafas & gorjetas. 

Pouco antes de finalmente embarcada para Paris a tribo Fusco, eu e meu amigo fomos ao tradicional almoço das sextas-feiras na Livraria José Olympio. Rosário queria rever amigos e lá fomos nós, devidamente calibrados, a pé pela praia de Botafogo, após deixarmos Annie e François na Sears. Duas figuras de almanaque: Fusco muito alto, de terno escuro, sem gravata e... sem sapatos (os pés inchados há muito não permitiam essa “modernidade”). Eu muito baixo perto daquele mulato gigantesco, trôpego, possivelmente tropeçando em minhas próprias barbas. Ainda não dera meio-dia e já havíamos bebido “todas” segundo o jargão de hoje. Fusco brilhou, ofuscou a todos no almoço coalhado de literatos de vários calibres. Lá pelas tantas, Zé Olympio me chamou em seu escritório. Queria saber, em particular, sobre as mamas de Rosário, que estavam muito inchadas. Sua preocupação não era infundada: as mamas inchadas já eram um indício do início do fim ou do reinício de tudo, do “finnicius” do, segundo ele, “sovado Joyce”. Mas, antes, vamos a Paris: 

“... Já voltamos da Bretagne. Pra Annie e François, uma festa. Pra  mim, uma bosta. Quinze dias sem comer. Uísque (baratíssimo): um litro por 24 horas... Abraços de tribo pra tribo. Rosário” (Paris, 18.07.72). 

 Corta pra alguns anos depois, talvez 1975.  Eu estava em Cataguases e minha mulher foi internada por causa de uma desidratação. Nada sério.  Relia alguns contos de Machado no quarto do hospital e, engraçado, pensara no Fusco, pois o “mulato” era uma de suas admirações, do “rol das confessáveis” (as outras: Van Gogh, Dostoievski, Beethoven, não necessariamente nessa ordem).  Saí pra fumar no corredor e dei com uma enfermeira que me conhecia (eu, não) e fez a maior festa, pegando-me pela mão, prometendo uma surpresa inacreditável. Era mesmo. 

Ao abrir a porta de um dos quartos, a madrugada em meio, deparamos com a seguinte cena: um enfermeiro, duas enfermeiras, uma garrafa, duas garrafas, várias garrafas, muita fumaça e baforadas e um alegre Rosário Fusco regendo o porre hospitalar.  Ele subornara todos & todas. Abriu nova garrafa pra comemorar minha chegada e... “mergulhamos de vez no materialismo histórico”, como ele gostava de dizer, citando Oswald de Andrade.


Creme de Pérolas 

Foi também aí, meados dos anos 1970, que Fusco me mostrou alguns poemas de um volume inédito sobre a Lapa. Praticamente impublicável na época, o livro (Creme de Pérolas, que ótimo título!) está inédito até hoje. Tenho aqui, à minha frente, um de seus poemas, o de que mais gosto, ainda impublicável em jornal, ditado por ele e datilografado por mim numa manhã etílica da Granjaria. Transcrevo alguns trechos, dos publicáveis. O título é “Edital de demissão e ponto” e foi manuscrito pelo próprio com a velha Parker 51:  



Meu caro poeta:
Meta
a lira no cu
(mesmo que doa)
e vê se te aquieta.
O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.
Erra,
quem pensa que as palavras valem
hoje em dia
– pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.
São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.

(...)

Nada vale nada com algemas,
e os filhos das pílulas,
feitos ou desfeitos pelas ditas,
são tão filhos da puta que
dispensam
o pai
a mãe

( ...)

Sobretudo
o teu gorjeio inútil,
de inusitados sons concretos,
montagens de ruídos antissemânticos.

( ...)

 Não é possível mais cantar:
o canto entope,
engasga e sufoca.
Radar.
A poesia do cosmo chega em vibrações secretas
do telstar:
omite
e
demite poetas.


 Ora, pra quem se acreditava  "somente" romancista (Sempre fui um desprezível poeta    mamãe dizia que versos não enchem barriga) este é um poema que nos chega com a força do grande poeta.  Creme de Pérolas  pede urgente publicação, principalmente por se tratar de uma faceta desconhecida de Rosário Fusco. Meu amigo era também um crítico arguto de poesia, como se vê pelos trechos desta carta, a última que me enviou, em 19.05.77:  

Seu poema não precisa de apresentação (ele falava de uma versão inicial que lhe havia enviado de meu livro “Pomba Poema”, homenagem ao centenário de Cataguases, que seria lançado em setembro de 1977). Ele se apresenta em tons de ‘martelo’ (nordestino) e ‘carretilha’ (mineiro). No que se refere ao ritmo. Quanto à forma é uma explosão subconsciente (supra-realista) dominada, dirigida, como faziam os primeiros modernistas (Mário, principalmente) e, hoje, até o Chico Anísio nos seus poedramas (da TV) sincronizados, acentuando as rimas... No formato pretendido por v. não há economia de papel, custo etc: duas páginas de sua paginação se reduzem a uma, no formato tradicional. Lembre-se da disposição gráfica do Coup de dés. Não siga o conselho de seu amigo (o designer cataguasense Dounê, que fez a programação visual): a estatística só funciona no campo da ciência. O número é restrição, corte de asas. E você está voando, meu poeta. Eu tenho uma edição de Mallarmé que poderá orientá-lo tipograficamente. É de 914 e repete o poema do homem como foi composto e publicado originariamente, em vida do poeta. Não posso me estender mais, com dores tremendas – e sincopadas – em todo o esqueleto (Fusco morreria três meses depois): ossoporose  (sic: ele grafou e grifou ‘osteoporose’ de forma trocada). Venha conversar comigo, ou telefone. Seu velho, quadrado e anti-modernista Rosário”. 

 Ah, sim: no dia 22 de novembro de 1963, enquanto John Kennedy morria em Dallas, eu viajava de ônibus do Rio para Cataguases. Soube na parada de Além Paraíba. Traguei forte meu Luiz XV sem filtro e soltei a fumaça em espiral sobre o rio Paraíba. Tinha exatamente vinte anos e um mês – e a vida parecia uma parada maior que a morte, até mesmo a de Kennedy. Não era.

Suplemento Especial “Cataguarte”, Cataguases, 1996 


10 de ago de 2012



Celina Ferreira: uma palestra que não houve


A poeta cataguasense Celina Ferreira faleceu no Rio de Janeiro no último dia 05 de agosto. Como sempre desejou, ela foi enterrada no dia seguinte em Cataguases, numa comovente cerimônia onde foram falados alguns de seus poemas, como depois me disse o poeta Joaquim Branco. Dessas falhas imperdoáveis, eu acabei não indo ao cemitério, pois li (mal) o comunicado do próprio Joaquim e entendi que a cerimônia seria no Rio.  

Com a morte de Celina Ferreira, perde a poesia brasileira uma de suas grandes vozes. Em novembro de 1998, ela esteve pela última vez em Cataguases, para o lançamento de seu livro Papagaio Gaio, quando da inauguração do Anfiteatro Ivan Müller Botelho e do Café do

Museu da Eletricidade.  Na ocasião, preparei um texto-palestra que iria ler naquela noite, o que acabou não acontecendo, dada à escassez de tempo. O texto permaneceu inédito até hoje e nem mesmo minha amiga Celina dele teve conhecimento. Eu o publico agora, como última homenagem à grande poeta que se foi.  

Poeta de voz maior  

Nada mais justo que hoje, nesta inauguração do Café do Museu, como amanhã, na abertura oficial do Anfiteatro Ivan Müller Botelho, a Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho preste sua mais que merecida homenagem a uma das maiores vozes da poesia cataguasense, Celina Ferreira.


Para o poeta-crítico Mauro Mota, “Celina Ferreira chega a um gabarito onde podia ficar. Não precisa mais crescer para ser grande.”. Efusivamente saudada por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Affonso Romano de SantAnna, a poeta Celina Ferreira permanece ainda hoje pouco divulgada e praticamente desconhecida do grande público. Isso mais de 40 anos após seu primeiro livro, Poesia de Ninguém, publicado em 1954.

Trazê-la aqui esta noite foi a melhor forma de se homenagear a poeta, de manter viva a sua voz. Seja através de alguns de seus trabalhos, que vou ler a seguir, seja por meio da encenação de seus poemas infantis que o Grupo de Teatro aqui do Museu – o jovem, desafiador e sonoro Gesamtkunstwerk – fará durante o lançamento do “Papagaio Gaio”, a mais recente publicação de Celina, que acontecerá amanhã à tarde, quando da inauguração do Anfiteatro.

Os poeminhas de “Papagaio Gaio” são inéditos e premiados – e a palavra poeminhas aparece aqui sem nenhuma conotação pejorativa. Ela simplesmente remete ao universo da literatura infantil, onde tudo é rima, remo, romã, reino de joviais papagaios e reis gaiatos e gaios. Esses lúdicos poeminhas de “Papagaio Gaio” existem há mais de 20 anos e já tiveram seu valor devidamente reconhecido por troféus como o Prêmio Brasília de Literatura Infantil da Fundação Cultural do Distrito Federal, em 1978, e o Prêmio Estadual de Literatura Infantil, do Rio de Janeiro, em 1971.

Premiados e inéditos. Essa parece ser a sina, não lá muito gaia, da maioria de nossos poetas. É difícil escrever e não ser lido. Principalmente escrever poemas, artefato cujo código de leitura apresenta certas dificuldades para o iniciante. Que maravilha, portanto, que os gaios poeminhas deste livro de Celina não tenham permanecido inéditos. Como inédita não ficou a grande maioria dos poemas que escreveu.

Após Poesia de Ninguém, sua estreia em 1954, vieram Nave Incorpórea (1955), Mundo Encantado (Prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Prefeitura do Distrito Federal, 1957), Invenção do Mundo, O Cavalo Encantado, A Princesa Flor-de-Lótus, todos os três de 1958, Poesia Cúmplice (Prêmio Olavo Bilac da Prefeitura do Distrito Federal, 1959) e Espelho Convexo (1973).

Isso sem contar a coletânea Hoje Poemas, editada em 1966, com ilustrações de Guignard, de quem Celina foi a eterna musa. E é exatamente de Hoje Poemas, que ganhei das próprias mãos de Celina em 1970, durante uma das visitas ao seu simpaticíssimo apartamento da Praia do Flamengo, que selecionei alguns dos trabalhos que vou ler. E de onde também, ao que me parece, sua filha Adriana escolheu, por sua vez, seus preferidos, para que eu os lesse.

Celina Ferreira é parte de uma geração cataguasense intermediária entre a eclosão modernista da Revista Verde, nos anos 1920, e a experimentação pós-moderna do concretismo e do poema processo, representada pelos jornais SLD e Totem, que eu e o poeta Joaquim Branco editamos na década de 1960. Embora contemporânea de Francisco Marcelo Cabral e de Lina Tâmega Peixoto, Celina surge para a poesia um pouco depois do lançamento da Revista Meia Pataca, feita por esses dois poetas na Cataguases do final dos anos 1940.

Oswald de Andrade, o grande baluarte do movimento modernista de 22, publicou um livro chamado “Um Homem sem Profissão: Sob as Ordens de Mamãe”. Celina, não. Ao contrário do “Homem” de Oswald, Celina nunca ficou sem profissão. E nem foi homem nem esteve sob as ordens de mamãe. A palavra é sua profissão. Ela nunca deixou de escrever, mesmo afastada por longo período do meio literário. Redatora da Rádio MEC, no Rio, trabalhou também no Jornal do Brasil e no programa “Olho por Olho”, da extinta TV Tupi. Escrevendo, escrevendo, escrevendo.

Mas jamais se descuidando de burilar suas gemas mais preciosas – seus poemas de rara ourivesaria que retomam o verso em toda sua força, muitas vezes resgatando a métrica, o ritmo & melodia que os modernistas haviam abandonado. E com uma dicção extremamente pessoal, única. Trabalho de grande poeta. Como dela falou certa vez o meu amigo Affonso Romano de SantAnna, palavras que assino embaixo: “Nota-se em Celina Ferreira uma constante valorização da palavra, através de colocações do vocábulo em situações únicas, ao sol, à luz, com todas as suas arestas; isto a par de uma revalorização do verso”.

Agora, uma historinha exemplar, só pra eu encerrar este blablablá e passar logo à leitura dos poemas de minha amiga Celina Ferreira. Ainda no mês passado, a Editora Imago, do Rio de Janeiro, lançou uma alentada antologia organizada pelo conceituadíssimo crítico literário Assis Brasil, intitulada “A Poesia Mineira no Século XX”.

Está todo mundo lá. Dos Affonsos, Ávila e Romano, aos Ronaldos: Cagiano, Claver e Werneck. E mais: Drummond, Murilo Mendes, Emílio Moura, Adélia Prado, Henriqueta Lisboa, Francisco Marcelo Cabral, Lina Tâmega Peixoto, Abgar Renault, Laís Correa de Araújo e todos os Verdes – Ascânio Lopes, Enrique de Resende, Guilhermino Cesar, Francisco Inácio Peixoto, Rosário Fusco – e também os Brancos, quer dizer, Joaquim & seus irmãos, o Aquiles e o Pedro, o P.J. Ribeiro.

Enfim, toda a poesia mineira desses mil e novecentos que lá se vão. São 75 poetas, 12 deles de Cataguases – o que não deixa de ser uma glória para a cidade, talvez uma das localidades que tenha fabricado mais poemas & poetas por metro quadrado ao longo deste século. Como no poema de Ezra Pound: “êta penca de gente sabida, sô!”. Pois bem, 12 poetas de Cataguases encontram-se na Antologia, eu inclusive. Mas não Celina Ferreira. E por que não? É bem verdade que Assis Brasil esqueceu-se de poetas como Henry Correa de Araújo, Hugo Pontes, Sebastião Nunes, ou o nosso Plínio Filho. Quer dizer, Celina até que está bem acompanhada no rol dos ausentes. Mas que isso não se faz, isso não se faz Seu Assis! Sim, isso assim não se faz com poetas como esses, esses poetas pra vida inteira, esses assim como Celina Ferreira.


Olha, Celina Ferreira,
como dizia o Drummond
naqueles versos antigos,
o Carlos, o seu amigo:

Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira.
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.


E chega de besteira. Vamos, vamos reler comigo os poemas de Celina Ferreira, poesia da boa, porque verdadeira. 

Primeiro, os escolhidos por Adriana, a filha de Celina. 


Rondó Muito Louco

Sabeis promessa de vento,
viagens que não podeis.
Sabeis a lua impossível
e o corpo que não tereis.
Ai, tivesse alguma espécie
de tudo que me dareis!
Ilha de Capri não tendes,
então como prometeis?
Anel de areia luzente,
onde é que me encontrareis?
Corpo de relva molhada
por que não me inventareis?
Mar de quanta coisa louca
onde me enlouquecereis?
Sabeis promessa de vento,
Onde e quando cumprireis?


Baladilha sem a quem dar 

Quem quiser me peça versos,
que eu darei, seja quem for.
Que não me peça alegria
nem canções de muito amor.
Quem quiser meus versos tristes
eu darei, seja quem for.
Não sei cantigas de riso,
não sei cantares de amor.
Por isso as minhas cantigas
nunca tiveram senhor.
Eu dou, sem mágoa, meus versos
a quem quer, seja quem for.
Eu reparto em cada verso
um pouco da minha dor.
Mas ninguém me pede versos,
ah! se houvesse pedidor...
Eu daria verso e mágoa
a quem quer, seja quem for!


Canção de fazer-de-conta 

Eu quisera ser bem clara
como o dia transparente.
Feito lírio, feito palma,
feito fruto na semente.
Eu quisera ser bem pura
como a flor que ninguém sente.
Faze-de-conta, me achaste
como fui antigamente.
Faze-de-conta, sou neve,
brancura na tua mente.
Faze-de-conta eu sou como
me queres interiormente.
Faze-de-conta, mas faze
que aconteça de repente,
que eu me torne branca, branca
como tu me tens na mente.


Como se vê – ou melhor, se ouve –, Celina trabalha com grande mestria a redondilha maior, o verso de sete sílabas, tão comum e batido em nossa língua, mas que nela surge com o brilho de um raro ritmo, essas redondilhas que ondulam em seus poemas numa cadência nova e altamente melódica. Isso sem contar a beleza de versos como aquele “Eu quisera ser bem clara”. Um pretérito-mais-que-perfeito: perfeitíssimo.  

Pois é, Chance & Choice/Acaso e Escolha, o princípio estatístico da criação, pode aqui ser aplicado para a poesia, um lance do acaso, como queria Mallarmé. Trabalhar o acaso, no caso de Celina, ou o acaso da escolha, como ocorreu comigo ao reler os seus poemas. De início, selecionei um texto sobre Rosário Fusco, que ela enviou para Marginais do Pomba, a antologia que eu, Joaquim Branco e Fernando Cesário organizamos em 1985, com textos de escritores cataguasenses de várias gerações. De certa forma, Celina nunca deixou de estar à margem, como já vimos no caso da Antologia do Assis Brasil. Nada mais justo que ela figurasse com todas as letras em Marginais do Pomba.

Seu texto chama-se P(Rosário), e traz já no título um inventivo jogo de palavras: prosa, prosário, prosa/rio, pro rosário. Lembro-me dela um dia me falando, não sem uma ponta de espanto, de quando conheceu Rosário Fusco, “aquele homem imenso, todo o uísque, todas as palavras desmedidas”. Vamos lá, então ao seu



“P(ROSÁRIO)


“Iam-me prevenindo sobre Rosário, que não me espantasse, não medisse suas palavras ou me desencantasse com os absurdos. Ele, o próprio absurdo, rosa e rio, charada simples para quem leu Freud, mesmo a galope. E dois amigos me amparavam, temendo minha ingenuidade feita de bloqueios e sabidas defesas.

“Nada disso. Eu ia apenas cair num poço de horror e poesia, fezes fluindo morosamente entre palavrões cálidos, no puro texto rosafusco, limpo em sua agressividade humilde, quase pesarosa. Rosário falava num linguajar direto e sem retoques e eu procurava disfarçar meus enganos, decidida a chamar-lhe Fusca, não entendendo meus atos falhos e exclamando a todo instante: “Freud, que que é isso?”. 

“Flor de hemorróidas sangrentas, náusea e pânico, verso branco inserido num contexto sujo, Rosá, rosácea, rosa curtida em puro uísque escocês, que eu me servisse, perdão, eu não desejo beber. 

“E Fusca, desculpe-me, Fusco ousado, usado, agora é fácil entender. Rosário escapa de novo, que Freud vá para o diabo. E foram-se depressa, Freud, Jung, Adler. Rosário ficou, falo imenso exorbitando suas funções, punindo a terra e amando-a, trágico e impotente para desfrutar-lhe todos os horrores. 

“Eu caía de nuvem em nuvem, descobrindo íntimas crateras e receosa de minha vulnerabilidade. E mais: sabendo que em meus sonhos as imagens translúcidas indicariam um único roteiro – o poço escuro, soterrado pelo medo, contendo mil tesouros de luxúria.

Rosário dormia entre demônios louros, o uísque gotejava da garrafa em decúbito, meus amigos me acompanhavam calados ao regresso de mim mesma.”.


Como podem ver, o texto da Celina é prosa-poema, proeza, proesia. Vamos agora aos poemas que selecionei, por minha conta e risco. Chance & Choice. Sorte & Seleção. Ou Seleção da Sorte?


De
“Morte Menor”
 in
Rio do Sono 

Enquanto a noite, uma rosa
de fina penugem rala
se adensa mais hora em hora
em tempo e vivida fala;
enquanto rosa, essa noite
que a todo tempo se gasta
e em vivência não pode
construir sua clara
estrutura de silêncio
quase sempre fragmentada,
se noite ou rosa a um tempo
mais se adensa e mais se aclara:
enquanto prossegue pouca,
apenas noite, mais nada,
ou simplesmente uma rosa
ou mais ainda: palavra;
não é o tempo que foge
nem a noite que se gasta:
é o corpo escasseando
e a vida ficando rala.
Mais ainda: é nossa pressa
que mais fundo nos desgasta.
É a rosa gente finando
a sua noite tão parca. 

Ainda de
“Morte Menor” 

Tenho de matar meu semelhante.
Mãos à obra.
Quem me lava o espírito,
quem me devolve, intacto,
meu sossego? Quem ouve meu grito
de desespero?
Tenho de matar meu semelhante.
Mãos à obra.
Os bons passarão
pelo fio de prata.
Os maus ficarão.


A Esquecida 

Quando vim a este mundo,
não por mim – eu vim mandada –
trouxe um destino comigo.
Mas passei por tantas nuvens,
me molhei de tanta chuva,
me perdi em muitos ventos,
virei poeira de estrada,
lírio, rosa, espinho, terra,
que esqueci minha mensagem.
Procuro renovar:
pedra, sangue, cal, areia,
preciso de definir-me
e encontrar o meu perdido.
Choro sangue todo o sempre
quando estou entre oprimidos.
Sinto a fome dos famintos,
sofro a dor dos humilhados,
me consumo no momento.
Minha mensagem é dor.
Eis-me na areia que invento,
areia de um mar profundo:
mar de mistério. Eu, enigma,
consigo descer ao fundo.
Meu corpo verde flutua,
minha alma sobe, incolor.
E no fundo, outro infinito,
mais mergulho, mais atinjo
alturas desconhecidas.
Asas brancas me tocaram.
De folhas faço meu ninho
pelo prazer de fugir.
Nesse voo ilimitado,
humano não me corrompe.
Quem me busca, não me atinge,
quem me atinge é perseguido
como irmão, foge comigo.
A chuva cai. Vai lavando
tanto pó acumulado
do tempo que me antecede.
As imagens vão gritar
e eu, lembrada de mim mesma,
serei humana de novo.
Quero cumprir meu destino.
Não por mim. Eu vim mandada.


Embalo 

Serra serra meu menino
serra serra teu destino
serra a tua professora
serra a escola serra o pássaro
serra a gaiola vazia
serra serra já serrou.
Serra a estrela vespertina
a cabeça do fantoche
os brinquedos do gigante
serra o São Jorge da lua
serra a tua namorada
serra serra já serrou.
Serra a mão que escandaliza
serra o pé que pisa torto
serra a cabeça funesta
serra o doido pensamento
serra a fome serra o corpo
serra o lótus serra o abismo
serra serra não serrou.


Anunciação 

O verbo, crio-o devagar, no corpo,
como a flor e a palavra: pouco a pouco.
Protegido em redoma não de vidro,
mas de angústia e de sangue o seu tecido.
Vestimenta de carne, pois de corpo
é o verbo que anuncio, hoje tão novo
como o primeiro homem foi nascido
da palavra semente, do seu grito.
Como o primeiro homem no seu lodo
é o verbo resolvido no meu corpo.
Verbo crescendo lesto, arredondado
como o primeiro fruto sazonado.
Corpo e navio, levo uma pergunta
que é palavra, destino, e coisa, e fruta.
Palavra, pois é verbo do meu verbo
que humilde e pressurosa hoje percebo
e guardo aflita, e exausta, e tensa, enquanto
não romper minha carne seu quebranto
de verbo libertado do meu ser,
pronto para a aventura de viver.


E foi com o verbo libertado do seu ser – digo agora, após sua morte – que Celina Ferreira se foi. Pronta para a aventura de desviver.