17 de jul. de 2020

ROSÁRIO FUSCO & SEU FINNICIUS



“Tanto que gastava um século para levar o copo à boca, embebido no mar, bebendo o mar ... de repente copiando o céu de um vertiginoso azul: especial para místicos, invertidos em pane, astronautas e suicidas virtuais em olor de santidade ou de álcool, álcoois, alcaloides”. Assim Rosário Fusco desenhava Fulano, um dos personagens centrais de seu romance “a.s.a. – associação dos solitários anônimos” (Ateliê Editorial, São Paulo, 2003). E Fusco parecia desenhar a si mesmo: também ele, ao acaso, um autêntico “s.a.”. Como diz o narrador do romance: “num continente descoberto por acaso, é natural que o acaso impere”.
Praticamente auto exilado em Cataguases ao longo de seus últimos dez anos, foi esse vulcão de cultura e criatividade que tive o prazer de conhecer e de certa forma “praticar” (como ele gostava de dizer) entre 1968 e 1977. Um tempo jamais esquecido. Tanto que, no momento em que se completavam 40 anos de sua morte (17.08.1977), eu publiquei um livro que primava pelo afeto – Sob o signo do imprevisto (Poemação Produções/ Cataguases, 2017) –, onde falo um pouco de sua trajetória literária e, é claro, um muito sobre nossa amizade. Rosário Fusco estaria completando 110 anos no próximo domingo, 19 de julho. Se vivo fosse estaria brindando como gostava: o sorriso largo e um uísque a caubói. Se vivo fosse? Fusco está aqui ainda agora: o Rosário redivivo.


Escrever: uma fatalidade


Fusco foi certamente grande influência, um norte para leituras, referencial de magna importância em minha trajetória de vida e literatura. Papos que ofuscavam e ofuscaram (vale o óbvio trocadilho) todos os demais tidos e havidos com outros e outros intelectuais ao longo de minha existência. Uma bênção (evoé, Rosário!) que recebi daquele mulato enorme e sagaz e triste e sarcástico e joco-sério – formado por essas porções todas que eram uma só e mágica poção na arquitetura e fascínio da personalidade de meu grande e inesquecível amigo.


“Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever. Vivo – quem não vive? – sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protesto de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça irremovíveis. Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras.” – ele nos dizia na entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos para o Pasquim em 1976, e que se encontra em meu livro.
Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira – vindo de São Geraldo, Zona da Mata de Minas, onde nascera em 19.07.1910.  Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho.  Aos 17 anos é um dos criadores da Revista Verde e, aos 18, publica Poemas Cronológicos, parceria com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, (Verde Editora - Cataguases, 1928). Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937.
De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance L´Agressore, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio – Fusco publica inúmeros títulos: Fruta de Conde, poesia, 1929; Amiel, ensaio, 1940; O Livro de João, 1944, Carta à Noiva, 1954, Dia do Juízo, 1961, romances; Vida Literária, crítica, 1940; Introdução à Experiência Estética, ensaio, 1949; Anel de Saturno e O Viúvo, 1949, teatro; e Auto da Noiva, farsa, 1961.

 O que fica é o esforço



     No domingo, 23 de outubro de 1949, o Suplemento “Letras e Artes” do Diário de Notícias publica um perfil de Rosário Fusco escrito pelo próprio, que também assinava um rodapé de crítica literária no jornal carioca. Entre outras sacadas de grande espírito, a sarcástica menção a Marques Rebelo (desafeto da hora) é simplesmente hilária, surpreendente. O texto é todo Fusco, nem carece de assinatura. E vale reproduzir na íntegra:
     “Nome: Rosário Fusco de Souza Guerra. Nasceu em S. Geraldo (Minas) em 19.07.1910. Tem duas filhas, estando prestes a ser avó e pai pela terceira vez.
Cabelo ondulado e bigodes bastos. Altura: 1,87. Sapato nº 42 e colarinho, idem. Pesa 86 quilos e é moreno carregado. De formação católica, deista e anticristão, 38 anos depois.
     Não toma conhecimento dos seus vizinhos. Não tem hora para dormir, comer ou beber. Tem medo, mas não acredita em almas do outro mundo. Comida de sua predileção: feijão com torresmo e angu. Gosta muito de crianças. Considera-se homem de grande habilidade manual: borda, pinta, cozinha, faz móveis, conserta rádios e relógios.
     Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser Rosário de Souza Guerra. Tem medo de andar em elevador, ônibus e táxis. Não responde a cartas e nem acusa recebimentos de livros. É extremamente vaidoso e por isso mesmo não faz força para a sua permanência atual na literatura.
     Detesta bichos. Nunca jogou. Não sai de casa aos sábados. Fuma uma média de 100 cigarros e bebe quando tem dinheiro 10 uísques por dia. Que é o seu “teto”. Nunca fica “pastoso”. Não faz, mas tem prazer em receber visitas.
     Na mocidade foi servente de pedreiro, lavador de vidros de farmácia e agente de seguros de vida. É louco por dança e bêbado considera-se um grande bailarino. É apolítico por excelência, apesar de Aristóteles.
     O cheiro de incenso lhe causa arrepios místicos. Chora em cinema e ao ler os casos dolorosos da cidade no “Diário de Notícias”. É excessivamente boêmio e ao mesmo tempo absolutamente doméstico.
     Há 5 anos vem escrevendo e reescrevendo o romance “Carta à Noiva”.
Considera-se uma mediocridade completa e acabada. Morre de alegria quando sabe que alguém leu um livro seu ou o conhece literariamente. Preocupa-se com o pecado, e a propósito espera escrever o seu melhor livro “Rodia” ou o problema da liberdade.
     Romancistas brasileiros de sua predileção: Octavio de Faria (mau escritor), Graciliano Ramos (discutível romancista). Poetas de sua predileção: Francisco Marcelo Cabral (poeta de Cataguases – 18 anos), Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Emílio Moura e Alphonsus de Guimarães Filho.
Pintores de sua predileção: Portinari, Santa Rosa (mau pintor) e o próprio. Gosta muito de música. Seus compositores preferidos: Bach, Beethoven, Noel Rosa e Ary Barroso.
     Dos seus livros publicados, prefere “O Livro de João”. Sua maior admiração literária: Dostoiévski. Suas aversões literárias: Gide, Rilke, Sartre, Camus e Proust. Considera a literatura brasileira inexistente, apesar de sua participação. Na crítica nacional só acredita no bom gosto de Tristão de Athayde e Álvaro Lins.
     Gosta de todo mundo, inclusive de Marques Rebelo.
     Todos os seus livros publicados o foram em função de amigos. Considera a crítica uma inutilidade, por isso abandonou-a. Acredita no esforço que a seu ver é o que fica. É otimista e acredita nos homens. Tem amigos entre ministros e contínuos. Gosta muito de dar esmolas e promete emprego a todo mundo.
     Considera o casamento um sacramento e fora dele não admite outras ligações, por isso casou duas vezes.
     Sua leitura predileta: filosofia, por ser poesia pura. O primeiro livro que leu inteiro foi “Bug-Sargal”, de Victor Hugo, emprestado por Ascânio Lopes (tinha 12 anos).
     Foi um dos fundadores da “Revista Verde”, de Cataguases, que logrou repercussão enorme e com os quais, maliciosamente, Joel Silveira confundiu os fundadores do integralismo.
     Não topa a chamada nova geração “coca-cola”.
     Muitas vezes, no início de sua vida, embebedava-se com vinho ordinário para se esquecer das refeições.
     Foi o primeiro diretor da Rádio Nacional e o primeiro a lançar novelas radiofônicas, na extinta Rádio Ipanema, em 1936, com Carlos Frias e Zezé Fonseca.
     Tem pavor da morte, por incapacidade de construir para si mesmo uma teoria do conhecimento moral.
     Espera morrer no momento em que, agonizante há dias, a família considerar o desenlace um descanso para ela e ele.”

Lúcio Cardoso: os passos dos mortos



     Relendo agora esse “perfil fuscal” me lembro que, anos depois, já na década de 1970, ele me disse que gostava muito de um dito de seu grande amigo Lúcio Cardoso: “o que vale é o esforço”. Exatamente o que ele afirma em seu perfil. Coincidência? A frase é mesmo dele ou do Lúcio? Ou o Lúcio nunca disse isso e o dito era dele mesmo, Fusco, que andou trocando as bolas e os esforços?
     Sobre os poemas iniciais de Lúcio, Fusco escreveu certa vez, tecendo considerações sobre a poesia em si: “... Seus poemas de agora... balanceiam-se e constroem uma música de rede que muitos detestam, menos eu. Procure lê-los em voz alta, lápis na mão. Não despreze a pontuação da gramática (é tolice pensar que ela não seja emocional): falando, qualquer sujeito fica entre quintas e oitavas, limite da tonalidade dos sentimentos. Mas que se expressam. Não poesia gritada, nem no grito, nem no barulho. Castro Alves gritou: poeta para surdos. A questão é ouvir passos dos mortos, o ruído que a terra faz em torno do seu eixo.
     “...Quem não dispuser de ouvidos capazes disso não se encontrará, jamais, com a poesia. O teste é mesmo esse, porque a poesia é uma escamoteação do que a gente apalpa. Não há uma só palavra que lhe dê a coisa que você pretende: caderno, palavra, não é o mesmo que caderno, coisa. Tanto que você exige um aprendizado para a utilização da palavra caderno. Caderno é isso assim e assim. Ah, então sei o que caderno”.

Cabral, “o poeta de Cataguases”


Mencionado por Fusco entre os poetas de sua predileção, meu amigo Chico Cabral – o “Francisco Marcelo Cabral , poeta de Cataguases, 18 anos” –,afirma em um de seus depoimentos sobre a Revista Verde,: “Eu mesmo só tomei conhecimento de Verde, conhecimento físico, de ler a Revista, muito depois. Eu convivi com eles já homens de sucesso na literatura. E evidentemente foram muito importantes para mim, principalmente o Fusco com quem mantive correspondência. Aquela coisa do Fusco, aquela exuberância. O Fusco era um homem hiperbólico. Eu publiquei um livro com 19 anos e o Fusco me saudou como ´o poeta´. Aquela coisa exagerada, mas ao mesmo tempo tinha uma atenção naquilo.
“O Fusco – Cabral continua –, com toda a polêmica do Fusco, que é uma figura interessantíssima, o Fusco é um escritor de brasileiro, não é um escritor cataguasense, imagina, não existe isso, nenhum de nós que escreveu em Cataguases quer ser um escritor cataguasense, nem os da Verde. Por que isso? Porque toda cultura em Cataguases é gerada porque somos produtos de exportação. Uma vez eu escrevi que o Fusco era nosso principal produto de exportação. O Fusco me ligou dizendo: “você acertou, porque agora eu estou sendo publicado pela Mondadori na Itália” Ele ria, porque sabia o que eu estava dizendo, quer dizer, de exportação porque fugia ao consumo local. A cidade não consome a obra de arte que é gerada aqui, o que é muito curioso”.

O Livro de João


Também citado por Fusco naquele perfil de 1949 como o romance preferido entre os que publicou – e que meu amigo Bigode, o cineasta Luiz Carlos Lacerda, está roteirizando para filmar em breve –, essa sua “queda” por O Livro de João parece ter continuado até o fim, mesmo após a sucessão de outras obras editadas. Pelo menos foi o que pude ouvir certa noite dos anos 1970 em sua casa de Cataguases, quando um Rosário Fusco emocionado me dizia ser aquele romance, “escrito quando eu estava ainda na faixa dos 30 anos”, o de que mais gostava.
Buscou então um exemplar na estante e leu pra mim um trecho onde mencionava o dia do juízo final (mais de 10 anos antes da publicação de seu romance Dia do Juízo, editado em 1961, mas terminado em 1957). Um trecho coincidentemente citado por nosso amigo em comum, o poeta Joaquim Branco, em artigo relativamente recente. E leu esse e o trecho final do livro. De um só jorro, aos borbotões, quase lágrimas:
“Não colocava o pecado sob o signo do imprevisto: marcava-lhe data, hora e lugar, porque só está fora do tempo e do espaço o Dia do Juízo. Pode ser agora, no momento em que escrevo, pode ser logo mais, talvez amanhã, acaso daqui a milhões de séculos. O relógio que o apontará não fica na parede, nem no bolso, nem no pulso, nem na mesa da cabeceira, nem na escrivaninha do laboratório, nem na torre da igreja, nem na coluna do abrigo de bondes, nem no alto da estação: está dentro de ti, João, dentro de todos, pingando como a torneira da casa do fotógrafo, sem te encher, como a chuva não enche o mar e o volume deste é sempre igual, receba ou não as águas de todos os rios da terra.
“(...) Eu estava solto nos topos da terra, entre gases desconhecidos e poeira, paralelos e meridianos, arranhando a cabeça nas constelações. Testava as mãos nos trópicos e andava de patins nos fios de círculos polares, íntimo dos astros, sem testemunhas e sem ligações. Mas os espíritos dos meus mortos – amigos e conhecidos – não me fiscalizariam porventura?”.

Viver poesia: Vinicius


Cataguases, anos 70: Fusco recebe Vinicius.

     Em sua coluna Vida Literária, Fusco escrevia em 1939 no Diário de Notícias sobre um então jovem poeta: “Vinicius de Moraes, portador de uma linguagem estranha e profundamente lírica, uma espécie de Claudel dos trópicos, com nuanças sexuais disfarçadas por uma delicadeza mística comovente”. Em carta do mesmo ano, enviada de Oxford a Rosita e Thiers Martins Moreira, Vinicius retribuía o afago de Fusco: “Os elogios do Rosário Fusco, o nosso Amiel (o filósofo, poeta e crítico suíco Henri-Frédéric Amiel seria objeto de um ensaio de Fusco, publicado no ao seguinte) ... Fusco é um grande tipo, simpático como ele só. Mesmo o esforço que ele faz para compreender os poetas jovens e inocentes como eu, é muito simpático. Mostra de certo modo que a gente não tomou o Santo Nome da Poesia em vão e ainda há um outro que sai do casulo e bota os óculos por causa da gente".
     O mesmo Rosário Fusco que, em carta de 1945 para Afonso de Guimarães Filho, se dizia “um pobre e medíocre ex-poeta que, a tempo, se descobriu mais frágil e insignificante do que uma casca de ovo. Depois da boa época de Cataguases, acredito que perdi – se é que, de fato, a possui um dia – toda essa pureza que é o chão da alma de vocês, poetas. Deixei de fazer versos aos 20 anos e passei – ai de mim – como compensação, a viver poesia. Acho mesmo que não tenho feito outra coisa nessa minha vida sem rumo”.


Os poetas tendem, a poesia não



    Vale a pena mencionar também trechos da entrevista concedida por Fusco a Mello Mourão publicada pelo Diário de Notícias em 1938, onde parecemos ouvir o tonitroar da voz do  crítico ferino, às vezes amargo:
MM – Quais as tendências mais marcantes da poesia contemporânea?
RF – Os poetas “tendem”, a poesia não. Há poetas de um lado, poetas de outro, a poesia fica no meio. Como a virtude do provérbio romano. A “tendência” de um gênero é uma coisa conceitualíssima. Ainda há pouco um rapaz de Brasília foi descobrir sentidos revolucionários na poesia de Castro Alves. E já houve quem chamasse Jorge de Lima de poeta comunista porque, num verso do “Livro de Poemas”, o meu querido amigo falava de uma operária grávida que não tinha o que comer etc. Como vê, a gente pode descobrir tendências à vontade. Qualquer classificação, neste como em outros casos, é sempre arbitrária.
MM – Qual a contribuição social da poesia?
RF – Nenhuma. A poesia é de curso mais fácil do que a prosa, mais “portátil”, digamos. Seria um excelente veículo de ideias se essa função não a anulasse. Castro Alves soltou “ais” tremendos, enchem os ouvidos do Brasil de lamúrias e exclamações pirotécnicas. A publicidade das ideias abolicionistas, entretanto, impressionava mais nos discursos.  “A Cabana do Pai Thomaz” foi muito mais eficiente como veículo ideológico do que a poesia nos Estados Unidos. Depois, a poesia, como expressão, cedeu mesmo lugar à pesquisa, ao documento. O que adianta você publicar poemas ou escrevê-los se ninguém os lê? A poesia é como os lírios bíblicos: medra melhor à sombra.


Romance: uma frautinha




“Romance, para mim, é gênero danado e, pois, maior, o maior. Romance só é gênero pequeno, barco de pequena cabotagem, nos compêndios de história literária dos teoristas nacionais. Ou nos volumes dos narradores brasileiros”, nos dizia RF em 1976 na entrevista do Pasquim. “Dia do Juízo me custou três anos de trabalho (com interrupções). De 1954 a 57. Em dinheiro da época, líquido, o romance me rendeu cinco contos. O romancista brasileiro não é, antes de tudo, “um duro”: é um supercamelo carente de enzimas digestivas: rumina, mas não digere".
De acordo com o editor José Olympio, no texto de orelha de Dia do Juízo, “as bruscas intervenções do romancista (não há história sem narrador) na tragédia  da provinciana Primavera (que se perde e se mata, porque nasceu assinalada para uma espécie de amor e uma espécie de morte) concedem a este romance  – escrito para adultos de corpo e alma – ´um tom orquestral absolutamente estranho ao gênero, tal como é concebido e realizado pela maioria dos autores brasileiros´, segundo a opinião de seu primeiro leitor, o Revisor da Casa.
Toda a razão a José Olympio e ao Revisor: a primeira descrição da personagem Primavera é na verdade uma teorização/interferência do autor, que de repente filosofa sobre o mundo e a existência. Bem Rosário Fusco: “Nas circunstâncias em que Primavera nasceu, a qualquer seria fácil profetizar-lhe o futuro: mas... e o do mundo? (...) Tudo o que existe, existe para o seu contrário, a que corresponde como a outra face da mesma coisa: céu e terra, fogo e água, quente e frio, luz e treva (...) O dualismo não é lei, mas jogo de existir diferentes. O dualismo não é lei, mas jogo de palavras que se opõem: o ser é um, a substância é uma, tudo o que existe é um, porque uma é a lei que rege o universo dos mundos e das almas.”
“Sem consciência do ontem, do hoje e do amanhã, para ela o globo se reduzia às proporções do útero faminto: refúgio, balanço e berço de amantes”. (...) “– Bom dia, moço, quero dizer, boa noite: eu sou a completa que o senhor pediu”. (...) “Pecado gera pecado, vício gera vício, ou há uma escala de pecados e vícios, uma hierarquia na abominação?”. Ao se referir à frágil, esquálida, atarantada Primavera nesses trechos de Dia do Juízo, Fusco me lembra de uma história (verídica ou fantasia do romancista?) que ele mesmo me contou como acontecida no fórum de Cataguases. Menor de idade, moça “que se perdeu”, é interrogada sobre o estupro pelo promotor: – Então, minha filha, o sujeito introduziu o órgão? – Não, senhor. – Como não, ele não introduziu o órgão? – Num era órgão não, dotô. Era só uma “frautinha”. Pano rápido.


Adelino: um presente cotovelar





Meu caro poeta – me dizia Fusco em carta dos anos 70 –, para ler, mas ler mesmo, comme il faut, aproveitando o que se lê, aprendendo, é preciso apreender, é preciso estar com os cotovelos sobre a mesa, a cabeça apoiada em uma das mãos, a caneta na outra, anotando o ‘anotável’, digerindo o ‘digerível’, ou o dirigível, como queira”. É o que eu hoje chamo de “leitura cotovelar” – a que fica e nos justifica.
E RF continuava: “Você me cita no prefácio do livro do Quincas (“Consumito”, de Joaquim Branco) e o Cabral (Francisco Marcelo) me cita no prefácio de seu livro (“Selva Selvaggia”). Isso dá a impressão de que existe uma igrejinha cataguasense, mais nordestina do que mineira – o que não é bom. Creio que seu amigo Ezra Pound, na conjuntura, lhe proporia a seguinte charada inconsequente que psicografo por estranha força do astral: 'eu te cito/ você me cita/ na área do consumito/ você apita/ se eu apito/ no mesmo apito/ nada comum/ pois que o dito/ só clama aflito/ o pobre mito/ de cada um'. Abraços do Rosário (02.06.76)”.
Foi quando ele me presenteou com uma preciosa primeira edição (1918) do livro Visões, Scenas e Perfis, de Adelino Magalhães, um modernista avant la lettre, de prosa despojada, à margem do cânone (que Fusco um dia me disse ser um precursor de Joyce). Adelino é até hoje um de nossos escritores de grande importância, arrolado entre os eternos “esquecidos”. Na dedicatória, RF me dizia: “Veja, sinta e leia – meu caro Ronaldo – como o Adelino é mito maior do que Céline. Abraços, Fusco”.  Nunca entendi o porquê da comparação de Adelino com o francês Céline, escritor que foi cultuado por alguns e outros e aqueloutros pelo valor de suas obras, mas que se se tornou maldito por seus textos anti-semitas. 

Onde anda Rosário Fusco?


 Em 1976, sai nova edição de O Agressor, pela Francisco Alves Editora.  O mesmo livro é também republicado em 2000, pela Bluhum.  Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor, a.s.a. – associação dos solitários anônimos. Existem ainda outros inéditos, como Vachachuvamor, romance; Um Jaburu na Tour Eiffel, livro de viagem; e Creme de Pérolas, poemas eróticos.
     Em meados dos anos 60, ele volta para Cataguases. “Onde anda Rosário Fusco?” – eu me perguntava em 1996. “Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a lustradíssima bota do menino Rosário sobre a mesa do seu escritório na casa da Granjaria. Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações, “do rol das confessáveis” (as outras: Machado de Assis, Dostoiévski, Beethoven).
     Em 21 de agosto de 1977, quatro dias após seu falecimento, em crônica no Jornal do Brasil, Carlinhos Oliveira brindava à vida e fazia de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem dúvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”.
     Ainda agora me pergunto: onde anda Rosário Fusco? Lá pelas tantas, na entrevista que Joaquim Branco e eu fizemos com ele pro Pasquim em 1976, Fusco nos dizia: “Na realidade, já morri”. Que nada, sô! O velho Fusco está aqui e continua ainda agora ofuscando a rapaziada como nos tempos em que era o enfant terribe da Revista Verde.
PASQUIM – Como se explica seu silêncio desde 1961?
FUSCO – Na realidade, já “morri”. O que eu gosto mesmo é de ser. Mas ser, como je suis, eu posso ser em Belo Horizonte, Cabrobó, Cataguases ou nos cambaus. Ninguém é por estar aí, mas por être en soi. Ninguém sai de si mesmo, ou se aliena de si mesmo, a não ser pelo sexo ou pelo álcool (digo pelo álcool para não ir à droga propriamente dita). Afinal, o que fica na vida de cada um (física ou mental) mais que o esforço por algo que é a marca ou tara individual? Carga, ônus e pesadelo de nossa passagem (ou estada) no planeta?





1 de jul. de 2020

O apocalipse como hipótese

FESTIVAL DE CATAGUASES 50 ANOS


Maria Alcina hoje: cores da glória.

     Em junho de 1969 a equipe do SLD – Suplemento Literatura Difusão realizou o “1º Festival de Música Popular Brasileira de Cataguases”. Na Comissão Organizadora: Lila Carneiro Gonçalves, Geraldo Ramos Santos, Joaquim Branco, Paulo Dalforne, Milton Barbosa e Ronaldo Werneck.
     No júri, presidido pelo poeta Francisco Marcelo Cabral, nomes como Lúcio Alves, Nelson Motta, Mariozinho Rocha, o filósofo Jorge Roux, o crítico (na verdade, de cinema) Alberto Silva e os poetas-processo Álvaro de Sá, Nei Leandro de Castro e Moacy Cirne. Cinquenta anos depois – imortais, mas nem tanto – não estão mais entre nós Geraldo Ramos Santos, Francisco Marcelo Cabral, Lúcio Alves, Jorge Roux, Alberto Silva, Álvaro de Sá, Moacy Cirne.
     No palco do Cine-Teatro Edgar em 1969, belas toadas como “Virandeiro”, do também saudoso Messias dos Santos e Eugênio Malta (cantada por Luely Figueiró, aquela eterna “certinha do Lalau”), mesclavam-se a experiências de vanguarda: “Trânsito Livre”, de Aquiles Branco, e a vencedora, “Apocalipopótese, a paz depois”, do paraibano Marcus Vinícius de Andrade.
     Mais tarde parceiro de Paulinho da Viola e de Augusto de Campos, Marcus Vinícius lançaria nos anos 70 dois belos “LPs de autor”, com uma penca de músicas experimentais. Hoje é maestro, compositor de trilhas para cinema (“A Hora da Estrela”, entre várias outras), arranjador de renome em São Paulo e Diretor-Geral da AMAR/SOMBRAS, e entidade que cuida dos direitos autorais dos músicos. Sua canção “Apocalipopótese” remetia à hipótese do Apocalipse segundo o neologismo criado pelo artista plástico-tropicalista Hélio Oiticica.

Marcus Vinícius: Apocalipopótese.

     Em cena (ou sina), havia ainda a cataguasense Maria Alcina, estreando no showbiz com a eletrizante “Pesadelo Refrigerado”, de Alfredo Condé, um saque sagaz de Carlos Moura, naquela letra ainda hoje up-to-date: “Uma fazenda no Texas/ um rifle na porta aberta/ em Nova York uma cabala/ um buquê de flor em Dallas/.../ Há sempre um lado incendiado/ um John queimado e um metralhado”. “Pesadelo” ficou em 2º lugar e Alcina, melhor intérprete, ganhou de Nelsinho Motta a promessa de lança-la no Rio (de Janeiro, seus sacanas!). Logo no ano seguinte, 1971, início da carreira e da fama, Maria Alcina grava seu primeiro disco, um compacto com as canções “Azeitonas verdes”, de Marcus Vinícius, o próprio, e “Mamãe, coragem, de Caetano Veloso e Torquato Neto.Em 1972, a consagração no Festival Internacional da Canção com “Fio Maravilha”, de Jorge (ainda) Ben: o Maracanãzinho em peso fascinado com seu gestual, sua elétrica interpretação. Hoje minha amiga, vejam só!, é nome de rua em Cataguases.


Maria Maravilha: Alcina e o Maracanãzinho a seus pés.

Zooilógico
     Em julho de 1970, lá se vão 50 anos, seria a vez do grande frisson performático-musical da história de Cataguases. A repercussão do evento anterior fora excelente, com ampla divulgação na mídia de BH e do Rio – e as frequências do meio musical estavam antenadas em Cataguases. Como o próprio nome já indicava, o “2º Festival Audiovisual de Cataguases” era um outro tipo de proposta feita pela turma do SLD, no sentido de mostrar a música de vanguarda com uma roupagem cenográfica, trazer o poema-processo para o palco, representar visualmente o som & coisas quetais. Pois é, aquele “papo-cabeça” dos anos 60 deu o maior ibope em Cataguases e em todo o país. Nunca, nem nos áureos tempos de Verde ou de Humberto Mauro, a cidade ocupou tanto espaço na mídia nacional.
     Com uma Comissão Organizadora formada por Geraldo Ramos Santos, Joaquim Branco, Ronaldo Werneck, Ernesto Guedes e Carlo del Prete Silveira, o Festival trazia a Cataguases, como concorrentes, nomes já conhecidos no cenário nacional: Rildo Hora, Ruy Maurity, Carlos Imperial, João Medeiros, Gutemberg Guarabira, Luiz Carlos Sá (o trio “Sá-Rodrix-Guarabira” foi formado a partir do Festival de Cataguases), José Carlos Capinam, Ronaldo Tapajós, Bia Bedran, Trio Yrakitan, Equipe Mercado e até mesmo Gilberto Gil, que mandara de Londres uma parceria inédita com Capinam. “Zooilógico” seria defendida por ninguém menos que Gal Costa, depois por Jards Macalé e depois por ninguém, já que os dois não puderam vir a Cataguases por motivos – quais mesmo? – vamos dizer, “ilógicos”. Gal acabaria gravando “Zooilógico” num de seus LPs da época: “Zoo, Zoo, Zoo, Zoológico/ Ilógico/  Logo sou/ Zoológico/ Ilógico/ Logo sou/ Logo sou a feros o zero a cidade/ Logo sou a ferocidade”. Vocês se lembram? Eu sim eu não: zooilogicamente que sim-não.

Comissão organizadora: Geraldo Santos, Carlos del Prete, Ronaldo Werneck, 
Lila Gonçalves, Sebastião Carvalho, Joaquim Branco.

Meio dia, doze mortes
     Quem veio foi José Carlos (Soy Loco por Ti América) Capinam, um dos letristas-ícones do tropicalismo. Mas por conta da outra música que classificara, “Gás Paralisante”, em parceria com o pernambucano Aristides Guimarães: “Falamos/ Depois falimos/ Respiramos/ Depois paramos/ Só vão ficar as estrelas/ E o mar batendo nas pedras/ Dos bujões/ Para as canções/ Dos bujões/ Aos corações/ O gás do Orgasmo/ Agônico/ O pânico Orgânico/ Das paixões/ E o mar batendo nas pedras”. Capinam acabou ganhando o Festival e me disse que com o dinheiro iria comprar, imaginem!, uma máquina elétrica para escrever seus poemas. Quais? Perdemos o contato e não os li jamais. Bons tempos aqueles, quando os poetas ainda buscavam calar os letristas de ocasião, empunhando seus eletromágicos teclados contra guitarras nem sempre plugadas no novo.
     Na verdade, mesclando compassos fortes a fugas dissonantes, a 2ª colocada, “Meio-dia, doze mortes” (“Cheque verde cheque mate cheque morte/ Choque/ Chocolate/ As locomotivas se locomovendo se movendo loucas/ A cidade devorando, devorando, devorando tudo”), do mesmo Marcus Vinícius que ganhara o Festival de 1969, era bem superior à canção de Guimarães & Capinam. Como também “Harpa Selvagem ou Nero Revisitado”, de Jadir de Sousa/Aquiles Branco, defendida com grande garra por Maria Alcina (de novo, melhor intérprete): um delírio que mesclava Roma & Wall Street, tendo o poeta maranhense Sousândrade como referencial & (porta) bandeira. Ou ainda “Chevrolet’s Go Home”, de Francisco Condé, com uma letra daquelas endiabradas de Antônio Jaime Soares: “O final, o fim, a nau/  O sinal, o sim, o não/ Chevrolet’s go home/ No fim da noite/.../ Som de plastibeijos a ferir/ A carne viva estremecer/ No sul sem fim/ O sul sem cor/.../ Chevrolet’s go home/ No fim da noite/ No fim do mundo”.

Tango terrível
     Isso sem contar a outra composição de Marcus Vinícius, “Se for com dez pés lá vai”, um bem-humorado rock sobre tema de cordel (“Você me deixa espantado/ Na luz mansa dessa tarde/ Meu amor escorregado/.../ Eu fico anestesiado, assim/ Teu riso desaba sobre mim/.../ Você cai/ Se eu cair, caio por cima/ Dos olhos desta menina/ E se for com dez pés lá vai”). Ou o delírio bélico/psicodélico de “Cristycaia”, de Messias dos Santos e Carlos Sérgio Bittencourt (“Pra ver a nave de Marte/ E contar pra todo mundo/ Que vi o avião de Plutão/ Talvez ir no cais/ Esperar o caos/ Que vem do Laos/ Talvez esperar Cristycaia que vem”. Ou a explosiva manemolência do “Tango Terrível” de Alfredo Condé e Carlos Moura, um momento totalmente tropicalista que o júri não entendeu. O poeta Affonso Romano de Sant´Anna, um dos jurados, veio me perguntar se seria válido votar em um tango num “festival de vanguarda”! Era sim, Affonso, principalmente quando cantado pelo Turi-trajando-Turi, de branco-malandro, Seu Mané!, de branco-sambista, um paradoxo tropical, em contraposição à letra de vários achados: “Tango terrível/ Madrugada/ Gardel Gardênia/ Média luz/ Cama de lona/ Sob a mata/ Luvas, polainas/ e capuz”. E, finalmente, “Marina Belair”, que não cabe neste parágrafo.

Manicure do Escândalo
      “Manicure/ Escândalo dos dedos/ Dédalus /.../ Lapa ofegante Ofélia /.../ Vidrilhos olh’eyes/ Yes olh’eyes /.../ Esmalte mickey mouse para os dedos da lapa/ Thomas de la rue and company limited london” – martelava a letra do poeta-processo Ronaldo Periassu para a marginal melodia (?) de seu parceiro Ricardo Guinsburg, autêntica desarmonia-heavy-metal-avant-la-lettre. No palco do Cine-Teatro Edgar, a performática Equipe Mercado fazia seu happening marcado pela guitarra de Stul e pela voz rascante da band-leader Diana, um furacão em cena. A apresentação do grupo era uma das mais esperadas daquela segunda noite do Festival, pois eles haviam participado do famoso “Show da Sucata”, no Rio, junto com Caetano, Gil & toda a tropicália. Além disso, o Mercado estava entre os finalistas do Festival Universitário da TV-Tupi, que acabaria vencendo com a bem-humorada “Mary-K no Esgoto das Maravilhas”.


2° FAC: O teatro superlotado.
     Meu amigo Ronaldo Periassu, que viajara de carona comigo para Cataguases, me perguntara onde achar carne para cachorro. Distraído (na verdade, pensando num piano que teríamos de colocar no palco), disse qualquer coisa como “num açougue desses aí”. Só quando a Equipe subiu ao palco, com meros trapos sobre os corpos seminus, brilhantes, lambuzados de óleo (óleo?), é que vi a “função” da carne pra cachorro: Diana, Stul & Co. entrecortavam acordes, scats & dentadas na carne, depois atirada a esmo na plateia. Nunca Cataguases viu nada assim, a chamada nata da sociedade recebendo na cara e onde mais pintasse grandes nacos de carne crua, numa canina caosticidade realçada pela estridência dos instrumentos e pelos rugidos de Diana: “Manicure do escândalo/ Marina Belair/  Afunda da furunculosidade”: e a bunda explícita voltada pro público atônito.

Apocalipopótese  
     Caos/ carne /carnaval. Anitta, essa de agora, perderia feio para o esplendor de Diana, a de outrora, caçadora que lançava sua presa aos quatro ventos. Quer dizer, até mesmo em Clementina de Jesus, a própria, que estava no palco, e foi premiada com um sangrento naco logo nos reluzentes sapatos que ela estava exato estreando.  “Um presente trazido de Paris por ´meu filho branco´ Hermínio Bello de Carvalho” –, como confessaria ainda no Rio, a mim e ao poeta Francisco Marcelo Cabral, quando a convidamos a vir a Cataguases.  A debutante Clementina: um misto suburbano de ingenuidade, timidez e favelado orgulho. Na noite da final, Clementina (en)cantou e magnetizou todos nós com aquela voz rascante, a voz de Quelé – sua força, sua doçura, sua resistência. Ah, sim, esqueci de dizer: as grandes vedetes do Festival estavam na verdade em cena, mas não eram propriamente concorrentes. Tantas foram as celebridades trazidas para o júri, que resolvemos colocá-las no avantajado palco do Cine-Edgard, cenografado com belos e funcionais praticáveis pelo artista plástico pernambucano Raul Córdula. Ali com certeza “nossas estrelas” iriam brilhar melhor. E não era pra menos.

O Juri de 1970 em cena: entre outros, na primeira fila, Luiz Carlos Maciel,
Clementina de Jesus, Francisco Marcelo Cabral. 
Atrás, Marina Colasanti; atrás dela, Neide e Álvaro de Sá.
 Atrás deles, Affonso Ávila. No fundo,Lúcio Alves.

     Acredito que jamais houve um Festival de Música com jurados daquele jaez: de BH, o casal de poetas Laís Correa de Araújo e Affonso Ávila; do Rio, além de Clementina de Jesus, presidente de honra, o poeta Affonso Romano de SantAnna, acompanhado da Editora do Caderno B do Jornal do Brasil,  Marina Colasanti (os dois começaram a namorar em Cataguases e estão juntos até hoje, evoé!), o crítico underground do Pasquim e colunista de Última Hora, Luiz Carlos Maciel, o crítico musical de Veja, Antônio Chrysóstomo, o do Globo e da TV Tupy, Nelson Motta, o então poeta-processo Walter Carvalho – hoje cineasta e um dos maiores fotógrafos do cinema nacional –, além do estado maior do poema processo: o casal de poetas Neide e Álvaro de Sá e mais Moacy Cirne e o papa Wlademir Dias-Pino. Álvaro, Moacy e Wlademir não estão mais aqui. Mas seus poemas resistem em processo.  
     O júri votou na música da Equipe Mercado como a melhor daquela noite e criou-se o chamado quiproquó. Joaquim Branco e eu fomos convocados pelo prefeito para uma reunião com o eminente delegado de polícia e o advogado oficial da comarca, ou coisa que o valha. Tínhamos que decidir: ou a Equipe Mercado voltava pro Rio ou o Festival terminava ali. Acabamos ficando com o Festival – e o Mercado (eu e Periassu somos amigos até hoje) e quase todo mundo compreendeu. Quase, porque a Veja, a Manchete e os jornais do Rio esbravejaram até mais não poder, principalmente o Carlinhos Oliveira, que desceu o pau na “arbitrariedade” durante vários dias em sua coluna do Jornal do Brasil. Ou meu saudoso amigo Luiz Carlos Maciel, que mesmo com seu estilo soft & elegante, cobriu de elogios o Festival, mas chiou a mais não poder com a malasorte da Equipe Mercado. Mais do que nunca, Cataguases foi o cais, o caldeirão de onde caía o caos da criatividade – pra nunca mais. Ciao, apocalipopótese!  
     Ficou/ficaram para mim as muitas amizades feitas naqueles dois festivais. Muitas delas para sempre, como as de Maria Alcina e Marcus Vinícius, dois caríssimos que me deram a honra da presença quando lancei meu livro Há Controvérsias 2 em São Paulo.

Maria Alcina e RW, Lançamento Há Controvérsias 2,
São Paulo, 2011. 

Livraria Martins Fontes, São Paulo, 2011: RW olha para 
Maria Alcina que olha para  um Marcus Vinícius distraído com a fotógrafa, 
a escritora Eltânia André.