8 de set de 2017

O POETA, ESSE REFUGIADO - Ronaldo Werneck


“De frio e fome/ cobertos apenas pela chuva/ eles morrem às dezenas,/ vindos do país do nada/ para o nada caminhando” – escreve Joaquim Branco na abertura de seu poema “Refugiados”, que dá título a esse novo e belo livro do poeta cataguasense. Não foi à toa que Platão expulsou os poetas da República, deixou-os fora do Banquete. Quando conscientes, poetas são perigosos. Poetas apontam o caos do cotidiano. Poetas são refugiados do sistema. Poetas são refugiados até mesmo da literatura.
E refugiados podem um dia insurgir, recusar, rebelar-se contra as injustiças: “Caminham em paralelas/ para o infinito ou para a morte/ sobre os trilhos que os libertem/ da difícil batalha contra a sorte". Exatamente como fazem os poetas da recusa, antenados com o mundo à sua volta. Não só com poemas participantes, de protesto, como com aqueles outros, os poemas visionários, antecipadores, que vão de encontro à arte tradicional. Nada mais são que também refugiados esses poetas que fabricam seus poemas de recusa.
“Braço que acusa o acaso”, escreveu Augusto de Campos em sua elegia para o poeta Mário Faustino, o ´aeromorto´. O mesmo Augusto que nos diz em seu livro “Poesia da Recusa” (Ed. Perspectiva, 2006): “Em defesa de Mallarmé, afirmou Valéry, certa vez, que o trabalho severo, em literatura, se manifesta e se opera por meio de recusas. A melhor poesia que se praticou em nosso tempo passou por esse crivo. Da recusa estética (Mallarmé) à recusa ética (Tzvietáieva), se é que ambas não estão confundidas numa só, essa poesia, baluarte contra o fácil”.
E Augusto se estende em seu rol de recusas: “A maioria das pessoas quer o consolo do entretenimento, arte fácil e descartável para descansar a cabeça, ‘esquecer da vida’, e não para problematizar-se. O que quer, afinal, Mallarmé, com tantos enigmas? Conhecer-se. Romper os limites da linguagem para compreender e exprimir melhor as angústias humanas diante do enigma supremo da vida e da morte. Revitalizar a própria linguagem, dando-lhe um sentido mais puro”.
Exatamente o que quis e quer Joaquim Branco em seus longos anos de ofício literário. Nós nos conhecemos – melhor, nos aproximamos e começamos a trocar ideias e dar início à fabricação de nossos projetos literários – lá nos longes de uma Cataguases dos anos 1960. Uma amizade que se solidifica a cada minuto, que é também (evoé, Cassiano Ricardo!) “um século XX”, já devidamente extrapolada para este século XXI.
E conhecer o homem, o amigo Joaquim Branco, é conhecer um ser em toda a sua dignidade, um intelectual íntegro, é saber das “recusas” representadas por seus trabalhos – da qualidade, da coerência de sua obra que se perpetua em sua já longa trajetória. É saber de suas incursões pelos vários movimentos que foram surgindo – concretismo, práxis, poema processo, poema postal, poema visual – que demonstraram o poeta atento ao seu tempo.
E essa “curiosidade” – impressa na produção de poemas que remetem a esses movimentos, como os que se encontram em seu novo livro, com suas artesanias & artimanhas de expressiva visualidade – me faz lembrar as investidas do citado Cassiano: exatamente como o Joaquim de hoje, um poeta já de “longo curso”, que também participou ativamente dos movimentos da poesia concreta e da poesia práxis, antes de criar os seus linossignos.
“Refugiados” revela novíssimos poemas, grande parte escritos em 2017, e traz uma bela capa idealizada pela filha do poeta, Natália Tinoco – que imprimiu ótimo tratamento na foto dos refugiados, alguma coisa meio “flou”, impressionante, como se suas almas pairassem sobre eles. O livro demonstra mais uma vez a vitalidade de Joaquim Branco – a quase magia de perpassar pelos vários momentos atravessados pela vanguarda nas últimas décadas sem perder a autenticidade, sem se deixar levar por aqueles falsos criadores de meras cópias, de simples pastiches.
Esses poemas, como sempre tonificados por instigantes pedras-de-toque, têm sua marca, sua assinatura, essa dicção própria e sempre inovadora que há muito tempo me fascina.  Às vezes seus versos brancos e livres podem nos lembrar alguma coisa dos primórdios do modernismo, mas logo percebemos terem a chancela inconfundível dos versos “branco Joaquim”, articulados por harmônicos enjambements.
Em 1939, ao perder seu grande amigo, o poeta inglês W.H. Auden escreveu Funeral Blues, uma das mais belas elegias de todos os tempos, que ficou mais conhecida pelo filme “Quatro Casamentos e um Funeral”. Na ótima tradução de Nelson Ascher, transcrevo os dois derradeiros quartetos, e logo digo o porquê: “Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto/ viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,/ meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;/ quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.// É hora de apagar estrelas — são molestas —/ guardar a lua, desmontar o sol brilhante,/
de despejar o mar, jogar fora as florestas,/ pois nada mais há de dar certo doravante”.
E agora sim, o porquê da citação de Funeral Blues: em 2014, Joaquim Branco perde sua esposa e logo escreve uma também pungente elegia, “Folhas Caídas”, que se encontra nesse livro “Refugiados”. Ele parte da canção popular “Se essa rua fosse minha”, mas inverte o sentido satírico, parodístico, produzindo versos de extrema delicadeza, de intensa comoção. Um poema pautado pela perda, mas que não acena para “apagar estrelas” como o de Auden – antes sinaliza para o súbito acender de uma nova estrela, pelo ascender da amada que partiu. Termino com esse tocante poema de Joaquim Branco para Sonia Regina, comovido como da primeira vez que o li:


FOLHAS CAÍDAS

Na via-crucis desta rua
mora um anjo que se chama Sonidão.
Se eu pudesse eu mandava ladrilhar
seus passos para que ficassem
na terra que os viu passar.

Na via-láctea do sonho, uma estrela
no céu da tarde se fez
além de Órion
e vai brilhar pela primeira vez
no voo orbital do Sol.

Na via-férrea deste outono
– entre folhas caídas –
uma entre mil outras renasce,
como se o céu se abrisse
para não deixá-la cair
(injustamente)
para sempre
na impossibilidade
do não-ser.



Ronaldo Werneck
Cataguases, 09.08.17



“Refugiados”, de Joaquim Branco
Editora do Autor, 61 pp
Cataguases MG, 2017
R$ 20,00


4 de set de 2017

Pomba Poema 40 anos: poema & cine-poema




       pressinto
                 cabreiro
      com horror
                  que estou
numa cidade
   do exterior
                   mineiro

 

Nem sempre menos é mais. Com sua abertura num enjambement forjado em redondilha menor – que a cada verso (palavra, linha, linossigno?) torna-se ainda mais diminuto, despojado, opresso, e tem seu fecho com a métrica curta em “mineiro” – esse fragmento ficou como uma das pedras-de-toque de meu livro pomba poema, que acaba de fazer 40 anos de seu lançamento (Cataguases, 20 de agosto de 1977). Na província do interior que se quer “exterior”, muitas vezes menos é menos mesmo.

Vários críticos já apontaram em meus poemas uma “poética do olhar”. Muitos outros, ao analisarem a obra de Jean-Luc Godard diziam que o cineasta “escrevia com a câmera” (aliás, título do belo livro de meu amigo Mário Alves Coutinho: Jean-Luc Godard: Escrever com a Câmera). O que assinala as inevitáveis controvérsias ao dito bíblico: “No princípio era o verbo”. O verbo ou a imagem? Que a turma do maldizer me perdoe: não estou querendo me comparar com o Godard, imagina! Apenas, e muito pelo contrário, apontando “díspares afinidades” (se me permitem o oxímoro) nessa tomada de foco. Desde sua primeira edição pensava em filmar meu poema-livro, que já trazia naquela e em suas duas reedições/releituras uma série de imagens fotográficas, quase diria “de cinema”: “minas em mim e o mar esse trem azul”, de 1999; e “cataminas pomba & outros rios”, de 2012.
Pomba Poema mereceu resenhas em vários jornais de Minas, São Paulo, do Rio. Destaco algumas, por servirem ao propósito desta minha crônica e do vídeo que acabo de postar em meu canal no youtube. No Globo (Rio, 30.10.77), escrevia Luiz de Miranda: “É com uma filmadora em punho que Ronaldo revela os cenários onde não deixam de aparecer os personagens característicos de uma época aliados aos fatos culturais e históricos. Pomba Poema é um canto a sua terra. (...) o poeta Ronaldo Werneck, surge a todo o momento com a força grave de seu verso: “ali na poeira onde o rio tomba/onde a margem estreita/esmaga o rio torto”... “não mais o mar/ mas o rio mar/ telando ainda agora/ as margens da memória”.
No Suplemento Literário Minas Gerais (Belo Horizonte, 04.11.78), dizia o poeta-crítico Hugo Pontes: “(...) Como se estivesse filmando sua cidade, o autor faz tomadas verbais dignas de um grande cineasta com suas câmeras. Sua desenvoltura, sabendo fazer uso da palavra, faz-nos ver Cataguases com seu povo e suas ruas num mundo entre o útero e o átomo; mostra-nos o menino descalço dentro de um jato chupando jabuticaba e num carro de bois sonhando com a Lua (...)”.
No Rio, em 1999, o poeta-crítico Marcus Vinícius Quiroga escrevia no jornal literário Panorama: “O poeta, com sua oito e meio na mão (quanta saudade!) faz-se cicerone e nos guia por esta cidade-tempo, qual a Roma de Fellini, subjetivo muitas vezes em seus signos cataguasenses, mas mantendo sempre a densidade poética dos versos”. E Joaquim Branco, no poema-texto de orelha: “Riverrun um filme ou barco/ que se toma em qualquer ponto/ (...) – fotos, arte, voz, meandros/ resultam na paisagem inflada a cada/ take planejado: foto/cine/drama/ da cidade-mundo que o poeta/ ama”.

Revendo esses textos, escritos há várias décadas, percebo como havia neles qualquer coisa de premonitório. Isso porque a partir da década de 1980 comecei a filmar Cataguases e suas gentes (super-8 na mão, ou “oito e meio”, com brincou Marcus Vinícius, remetendo ao filme de Fellini), tendo como fio condutor o pomba poema.  Fragmentos desse filme inacabável – “Tempos de Mineração”, cerca de oito horas já editadas, com imagens captadas em várias bitolas: Super 8, VHS, Super VHS, Full HD – encontram-se no vídeo que acabo de editar – focado somente no poema –, disponibilizado no meu canal do youtube.
A seguir, e também como homenagem aos 40 anos de sua publicação, apresento alguns fragmentos do Pomba Poema, tomados ao acaso.



nesgas neblina
manhã ainda agora
                                               O CHEIRO DA MAÇÃ
                                                            EVOCANDO A METRÓPOLE
                         O MUNDO EXTERIOR EXTRAÍDO
                                                                                     A CADA ODOR & DENTADA

 O MUNDO ALÉM DA RETA DA SAUDADE
                                                                    ANTES DAS INDÚSTRIAS            O MUNDO
                                            ATOLADO
                                   NA PONTE DO SABIÁ
HÁ? NÃO HÁ?
                               NÃO SABÍAMOS
                                                                NÃO SABEMOS
                                                                            NÃO SOUBEMOS
                                                                                                     NUNCA JAMAIS
ESTAVA ALI O MUNDO
                                     ANTES DO TEMPO E DA PONTE
NUM REPENTE
                                NA GIRÂNDOLA DO TEMPO
                                                                                                      MANGA
                                                                    JABUTICABA
                                                 ABIU
                                                                    EXPLODINDO NO DENTE

o pombaquário
                                                                       arrebata
                                                                                   dados como petecas
                                                             lançados
                                 sugados ao rio
                        como patacas
                                               na memória
                                                                       correndo corroendo
                        um século em cada minuto
                        afogado em flores alvas
                                                                       netrodorea pubescens
                                                                       laranjeira da mata
                                                                                   limo
                                                                          limoeiro dos campos
                                                           dos palcos gerais
                                                 ktá apenas
                                                 cata
                                                 cena
                                                         seus atletas
                                                                    seus patetas
                                                                                seus poetas

                                                          que passo é esse apressado?
                               que luz é essa amarela?
                                 quando quem o quê como por quê?
de quem são esses olhos?
       quem por trás da janela?

traiçoeira
                     a esmo
trágica
                                  caminhada
                                                     sem tutu
                                      sem torresmo
                                                                        sem o velho cabedal
                                                   e sua poção mágica
a pé sem rapé
                    aguado
              maneiro
                                                     resta o café

                                                                        deslocado no tempo
                                                   outrora agora
fora do tempo do urânio
dos tratados
contratos de ricos
conchavos de risco
                                                                              movida a carro de boi
                                                   e gerânios
                                                                 girando
como pião matreiro
                     fora                     dentro                          fora
no exterior mineiro


cata ktá catanga
catuauás cartazes catuauases
itacatuauases cataguases

catarte
catarse

catavento
em close na memória

aqui ali
frag´alimentada
parte por parte
catanada água argila
desesperada
cataguases
arte por arte
ainda cintila

cataguarte.