27 de mar de 2018

Show do Chico 2: a veia que salta





         O disco Caravanas está rolando no meu carro já há algum tempo. Fora “Tua Cantiga”, fora a própria canção “Caravanas”, há de Havana (de e sobre) um suave, quase melancólico bolero cubano, “Casualmente”, composto com Jorge Helder: “No volverá nunca más/ La canción sentimental/ Que casualmente em La Habana/ escuché cantar/ A uma mujer/ Como ya no veré/ Outra vez nada igual/ (...)/ La canción, la mujer/ El crepúsculo, la catedral/ Hasta el mar de La Habana es lo mismo, pero/ No es igual/ No es igual”. E “A Moça do Sonho”, canção-constatação, belíssima, em parceria com Edu Lobo: “Súbito me encantou/ A moça em contraluz/ Arrisquei perguntar: quem és?/ Mas fraquejou a voz/ (...)/ Há de haver algum lugar/ Um confuso casarão/ Onde os sonhos serão reais/ E a vida não/ (...)/ Um lugar deve existir/ Uma espécie de bazar/ Onde os sonhos extraviados/ Vão parar”.  
   Tem também “Massarandupió”, uma coisa, uma dessas pedras-de-toque tão Chico Buarque, feita com e para o “parceiro mais amado”, seu neto Chico Brown. O mar, o menino, a areia, o tempo. Areia que se faz de ampulheta como se regesse o passar da vida que não volta. É quando no palco as linhas arquitetadas por Hélio Eichbauer se transformam em teias que se movimentam no ritmo das ondas: “No mundaréu de areia à beira-mar/ de Massarandupió/ Em volta da massaranduba-mor/ de Massarandupió/ Aquele piá/ Aquele neguinho/ Aquele psiu/ Um bacuri ali sozinho/ (..)/ É o xuá/ Das ondas a se repetir/ Como é que eu vou saber dormir/ Longe do mar/ (...)/ Devia o tempo de criança ir se/ arrastando até escoar, pó a pó/ Num relógio de areia o areal de/ Massarandupió”.
Em seu livro “Letra e Música 1”, Humberto Werneck registra que “para trás de ´Tem mais samba´, ficou o que Chico chama de sua pré-história musical”: ´Tem mais samba no homem que trabalha/ Tem mais samba no som que vem da rua/ Tem mais samba no pranto de quem vê/ Que o bom samba não tem lugar nem hora/ Vem que passa/ teu sofrer/ se todo mundo sambasse/ seria tão fácil viver´. Mas entre essas canções “pré-históricas” existem coisas como ´Marcha para um dia de sol´, que já prenunciava uma certa participação social: ´Eu quero ver um dia/ numa só canção/ o pobre e o rico/ andando mão em mão/ que nada falte/ que nada sobre/ o pão do rico/ o pão do pobre”.
            Canções que saltam da pré-história para toda a história musical de Chico Buarque, suas recorrentes “assinaturas”, como “Caravanas”, que dá título ao disco e ao show e onde ele ironiza seus vizinhos da Zona Sul carioca: “É um dia de real grandeza, tudo azul/ Um mar turquesa à la Istambul/ enchendo os olhos/ Um sol de torrar os miolos/ Quando pinta em Copacabana/ (...)/ A caravana do Arará/ A caravana do Irajá, o comboio da Penha/ Não há barreira que retenha esses estranhos/ Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho/A caminho do Jardim de Alá/ (...)/Com negros torsos nus deixam em polvorosa/ A gente ordeira e virtuosa que apela/ Pra polícia despachar de volta/O populacho pra favela/Ou pra Benguela, ou pra Guiné// Sol, a culpa deve ser do sol/ Que bate na moleira, o sol/ (...)/ Tem que bater, tem que matar, / engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ Ou doido sou eu que escuto vozes/ Não há gente tão insana/ Nem caravana do Arará/ Não há, não há”.

Gumes aguçados


Mas ouvir ao vivo e a cores o cantar de Chico é mais, muito mais, “quase uma epifania”. Ah, as cores, as muitas cores reinventadas pela iluminação de Maneco Quinderé, que se harmonizam com o tom de cada canção. Cores que dialogam com a fantástica cenografia de Hélio Eichbauer, cordas que se entrecruzam no fundo e no alto do palco, onde surge uma espécie de astrolábio como a direcionar as caravanas que intitulam o disco e o show.
Escreve Arthur Dapieve, com rima e tudo: “Passada a polêmica da internet em torno do suposto machismo de ´Tua Cantiga´, ela pode ser apreciada pelo que é: uma linda canção de amor. Os anos me tornaram uma manteiga derretida, sei, sei, mas ao final da última estrofe (´E quando o nosso tempo passar/ Quando eu não estiver mais aqui/ Lembra-te, minha nega/ Desta cantiga/ Que fiz pra ti´) tive de secar o canto dos olhos com os dedos indicadores”.
Quando fez a letra de “João e Maria” para a música de Sivuca, Chico não entendeu o que ele mesmo tinha querido dizer com aquele “e o meu cavalo só falava inglês”. Levou o enigma a Francis Hime, que arriscou: “Acho que é um cavalo muito educado”. Como a canção falava de heróis e caubóis, eu arrisco outra coisa: cavalo de caubói em faroeste (clima de sonho da música) tinha mesmo era que falar inglês. Mas a gente às vezes não sabe mesmo o que quis dizer com determinados versos. Quando escrevi um poema em homenagem a João Cabral, disse lá pelas tantas: “a canção/ a praça/ o perfume/ tudo resta/ incólume/ imantado/ fotograma de gumes aguçados”. Canção, praça (infância), perfume estão presos ao passado, imantados acionadores da memória. OK. Mas, “fotograma de gumes aguçados”? Ah, sim: seria o cinema? Ou “gumes” era uma referência à “faca só lâmina” de Cabral? Vá lá saber. Não tente entender muito o poema, qualquer poema. Nem letras de música. A graça é mesmo o mistério.
Disse um dia Ney Matogrosso: “Eu dançava, embora não seja dançarino. Eu cantava, embora não fosse cantor. E eu atuava porque eu achava que era ator. Nunca subi no palco como uma pessoa. Sempre subi como um personagem”. Chico, ao contrário, diz sobre sua suposta timidez no palco: “Eu percebo que me exponho muito, fico muito vulnerável. Quase todo artista está lá como personagem, esse personagem o protege – a própria roupa de artista é uma máscara. Eu, não, eu estou no palco como pessoa física”.

Fecho com Tom


Pois foi essa pessoa física, de extrema delicadeza e sofisticação, que mais uma vez me encantou naquela noite no Rio de janeiro, ou vice-versa: de janeiro no Rio. Canções acionam a memória, fixam momentos, impulsionam o passado. Olha a voz que me resta. Olha a veia que salta. Olha a gota que falta. Vou voltar. Sei que ainda vou voltar. Vou deitar à sombra de uma palmeira. Que já não há. Não vai ser em vão que fiz tantos planos. De me enganar. Como fiz enganos. De me encontrar. Pretendo descobrir no último momento. Um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo sentimento. E bota no corpo uma outra vez. “Gota d´água”, “Sabiá”, “Todo o sentimento”, me emocionavam como da primeira vez – e quase tive que “secar o canto dos olhos”, como Arthur Dapieve. E qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água.
Quando Chico mandou de lá todo aquele blues de “A história de Lily Braun” (há uma gravação antológica da Gal, mas esse entoar de Chico não fica a dever), Patrícia, “a minha patroa”, a “Patrícia do poeta” – que como eu também adora essa música – me abraçou perguntando se eu estava feliz. Não consegui emitir qualquer som: segurei seu abraço em minhas mãos, meus olhos embotados de silêncio quase lágrimas.Pode serque passe o nosso tempo como qualquer primavera.
Espera. Me espera. Eu vou voltar. No palco, a voz de Chico: “Como num romance/ Era mais um/ Só que num relance/ Os seus olhos me chuparam/Feito um zoom”.
Fecho com Rubem Braga: “A coisa mais importante no momento em matéria de música popular é mesmo Chico Buarque de Hollanda. Sem desfazer em ninguém, porque o Brasil é grande, saudemos Chico Buarque de Hollanda como a bela novidade. Até assusta ver um rapaz tão novo fazendo as coisas tão boas e tão certas. Que a glória, que lhe vem tão fácil, não o atrapalhe”. (in Diário de Notícias, Rio, 13.10.1966).
Fecho com Caetano: “Chico foi, em todas as oportunidades, o mais elegante, discreto e generoso de todos os nossos colegas. Conheço-o bem e sempre soube que é isso que ele é, além de um virtuoso das rimas e dos ritmos verbais”. (in Verdade Tropical, 1997).
E fecho finalmente (nos dois sentidos) com Tom Jobim, o parceiro e maestro soberano, naquele memorável bilhete enviado de Nova York, outubro de 1989:
 “Chico Buarque meu herói nacional. Chico Buarque gênio da raça. Chico Buarque salvação do Brasil. A lealdade, a generosidade, a coragem. Chico carrega grandes cruzes, sua estrada é uma subida pedregosa. Seu desenho é prisco, atlético, ágil, bailarino. Let´s dance! Eterno, simples, sofisticado, criador de melodias bruscas, nítidas, onde a Vida e a Morte estão sempre presentes, o Dia e a Noite, o Homem e a Mulher, tristeza e alegria, o modo menor e o modo maior, onde o admirável intérprete revela o grande compositor, o sambista, o melômano inventivo, o criador, o grande artista, o poeta maior Francisco Buarque de Hollanda, o jogador de futebol, o defensor dos desvalidos, dos desatinados, das crianças que só comem luz, que mexe com os prepotentes, que discute com Deus e mora no coração do povo. Chico Buarque de Hollanda Rosa do Povo, seresteiro poeta e cantor que aborrece os tiranos e alegra a tantos, tantos”.
E Tom termina parodiando o famoso poema que Drummond dedicou a Charles Chaplin: “Ó Francisco, meu querido amigo/Tuas chuteiras caminham numa estrada de pó e esperança.”.

21 de mar de 2018

Show do Chico 1: epifania & futebol


“Chico Buarque vive no tempo próprio da delicadeza, sem deixar de dar pernada a três por quatro se alguém lhe desafia, como diz em 'Partido Alto'. A música está presente no show Caravanas, baseado em seu disco mais recente, que inicia temporada em São Paulo” – dizia o texto “paulista” de divulgação do show do Chico. Foi quando o imponderável, repentino Tom Zé mandou um recado:
“Chico, ´Tua Cantiga´, que coisa! Chico, que Deus lhe abençoe! Quando Chico cantou essas canções parecia a voz dele quando era jovem. Parece um homem que depois de chegar aos 80 anos (não sei se ele tem 80 anos, eu tenho 81)... um homem quando chega aos 80 anos o Tai-Chi diz, a concepção oriental de vida diz que nasceu de novo, está começando tudo de novo. Novamente cantando como se fosse criança, capaz de se apaixonar. Ter visto esse renascimento seu, que coisa pra nossa vida, que bênção! Que maravilha!”.
Danuza Leão escreveu outro dia que estava certa vez tomando uma chá em Paris, no Flore (como, íntima que só ela, chama o famoso Café de Flore de Saint-Germain-des-Prés), quando lembrou-se de uma canção da Piaf e começou a “cantarolar em silêncio”, pra dentro de si – se é que me faço (ou ela me fez) entender. Ela estava “em êxtase”. Mas, pra quê! Logo sentiu que rolavam insistentes lágrimas por suas faces. E percebeu que eram lágrimas de alegria, um momento único. Uma amiga lhe disse depois que ela havia tido uma epifania.  Danuza foi então ao dicionário procurar por epifania. Se vocês não sabem o que é, sugiro fazerem o mesmo. De certa forma, foi o que aconteceu comigo em janeiro ao ver no Rio o show Caravanas.
Um alumbramento, diria Manuel Bandeira. Mas existem também alumbrados outros, como o sujeito que confessou (è vero!) ter visto Chico Buarque em Paris, sentado numa mesa do Café de Flore. Ele estava numa mesa atrás daquela do Chico e ficou ali de vigia até que seu ídolo foi embora. O cidadão levantou-se de um jato e sentou-se na cadeira que o Chico ocupava. “Só pra sentir o quentinho do Chico”, como declarou depois. Haja!

Nunca cheguei a tanto, mesmo porque nas raras vezes em que estive em Paris, e algumas no “Flore” (olha a intimidade aí!), jamais vi o Chico sentado em uma de suas mesas (quem sabe um dia?). Mas me orgulho de um autógrafo que recebi dele em 1990, no livro “Letra e Música 1”, organizado pelo escritor Humberto Werneck (que me chama de “primo rico”, ora vejam só!). Na época, andei agarrando no gol do time do Chico, o Politheama, daí o porquê do autógrafo: “Para o grande poeta e goal-keeper Ronaldo Werneck, um grande abraço do center-forward Chico Buarque”. 


Comunhão & castigo
Chico estudou como interno no Colégio Cataguases durante o segundo semestre de 1959, mas me lembro muito pouco dele nessa época, pois éramos de turmas diferentes: ele estava no quarto ano do ginásio e eu já no primeiro científico. E Chico também não tem lá muitas lembranças daquele tempo em Cataguases, mesmo porque veio para cá de castigo. Como escreve Humberto Werneck, um pouco antes Chico e seu amigo Joaquim de Alcântara Machado embarcaram num movimento religioso, os Ultramontanos, que viviam ancorados na Idade Média e anunciavam para já o Juízo Final, quando a espada justiceira dos anjos do Senhor não pouparia mais que uns poucos eleitos. Para merecer ingresso nessa reduzida elite de sobreviventes, Chico e seus colegas puseram-se a comungar desenfreadamente.
Nas férias de julho de 1959, passadas na fazenda dos Alcântara Machado, os dois amigos empreendiam caminhadas de oito quilômetros, verdadeira peregrinação, para assistir à missa – todos os dias. Alarmados, os pais acharam que já era demais tamanha santidade. Os de Chico foram buscá-lo e o despacharam para o internato em Cataguases. É possível avaliar a irritação que tomava conta de sua mãe, dona Maria Amélia, ao preencher a ficha de inscrição do filho no Colégio: “De modo geral: influenciabilidade – desordem – faroleiro. Nas circunstâncias atuais: falta de solidariedade humana. Desinteresse pelas ocupações próprias do estado e da idade”.
Mas em Cataguases o aluno Chico Buarque iria logo se destacar. Havia no pátio do Colégio um quadro de honra onde eram colocados no final de cada mês os nomes dos alunos com as melhores notas. Nunca o nome de um interno surgiu ali. Até que um dia um tal de Francisco Buarque de Hollanda apareceu em primeiro lugar entre todos os alunos do Colégio. Lembro que eu estava olhando o quadro de honra, rodeado por um bando de alunos curiosos. Foi quando um deles soltou sua máxima: “Também, pudera, o cara é filho do homem do dicionário!”. Contei isso pro Chico quando voltávamos de um jogo do Politheama. Ele estava dirigindo e quase bateu com o carro de tanto rir. Na verdade, seu pai, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, não tinha nenhum parentesco com o “homem do dicionário”, o filólogo Aurélio Buarque de Holanda.


Footing & futebol
Ainda em Cataguases, sob o pseudônimo “Bananal”, Chico escreveu crônicas para o jornalzinho O Pirilampo, “que não guardou”, segundo Humberto Werneck. Mas eu consegui uma coleção do Pirilampo com seu editor, Eduardo Lunardelli, e cheguei mesmo a publicar algumas dessas crônicas do Chico (autorizadas por ele) na edição especial sobre Cataguases que organizei em 2013 para o Suplemento Literário Minas Gerais.   Naquela época do Colégio, como nós todos, também Chico fazia o footing nos fins de semana na Praça Rui Barbosa   é possivel que tenha visto a Banda do maestro Rogério Teixeira desfilar pela cidade. E não perdia jogo do Flamenguinho, onde nosso colega, o também interno Alfredo Napoleão, enfiava sucessivos gols no “Operal, Campeão local”, o meu pobre Operário Futebol Clube. “Mui modestamente”, é claro, foi no juvenil do Operal que eu “despontei” para a minha esporádica carreira de goal-keeper, finalizada décadas depois num fatídico jogo do Politheama do Chico.
 Meu contato com o Chico nos anos 1990 foi em face do futebol. E deveu-se ao meu querido amigo, o compositor Carlinhos Vergueiro, médio-apoiador e um dos destaques do Politheama, ao lado do Vinicius França, empresário do Chico, que nasceu aqui do lado, em Leopoldina. Foi Carlinhos quem me indicou como goleiro do Politheama. “Ali está o goal-keeper, fazendo cinema”, disse um dia o também goal-keeper Ary Barroso, que atuava portando impávido seus óculos – e não sei como conseguia enxergar aqueles cocos chutados do coqueiro que dava os próprios.
E foi “fazendo cinema” que eu defendi um dia um potente tirambaço num dos jogos do Politheama. Mas quebrei duas costelas naquela “magnífica ponte”, o que só percebi quando cheguei em casa: o corpo quente escondera a dor. Dias depois, num show do Carlinhos Vergueiro, eu estava em uma mesa com uma amiga quando alguém bateu às minhas costas: “E aí, você não aparece mais no Politheama?”. Era o Chico, o próprio. Minha amiga falou depois, com cara de espanto: “Ronaldo, o Chico Buarque levantou da mesa dele só pra vir falar com você!”. Foi quando disse pra ela que aquele não era o Chico Buarque que ela pensava, o compositor. Quem veio falar comigo foi o center-forward Chico Buarque.  


Apoteose




“O show do Chico tem sido uma apoteose atrás da outra. O público ovaciona o talento do Chico e o outro Brasil que ele representa”, escreveu Luis Fernando Veríssimo no Globo. E também Zélia Duncan, no mesmo jornal: “Chico andou passando poucas e boas apenas por se colocar, mas o que nos devolve dessas fases sombrias é um sol que, como sempre foi, ilumina e aquece. Os cães ladram e o Caravanas de Chico passa... e sempre vai passar”.
Chico já disse que gosta de caminhar e, "por onde caminho, nos bairros chiques do Rio, as pessoas finas passam com seus carros grandes e gritam: ´viado filho da puta!´, ´viado, vai pra Cuba´, vai pra Paris, viado. O único consenso é o viado”. No show do Rio, ao cantar ´Partido Alto´ – quando diz “Mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio/ Dou pernada a três por quatro e nem me despenteio/ Que eu já tô de saco cheio!” –, Chico dá uma pausa, meio que um breque. E frisa e repete umas duas vezes: “e bota a mãe no meio”. A plateia vem abaixo.
Como registrou o crítico Carlos Marcelo em dezembro, quando da estreia do show em Belo Horizonte: "Vai pra Cuba!", ordenam os críticos do cantor nas redes sociais. Pois Chico foi. Voltou de lá para o novo show com a tabelinha entre ´Iolanda´ e ´Desaforos´, resposta enviesada aos agressores virtuais (´Custo a crer que meros leros-leros de um cantor possam te dar tal dissabor´), reforçada pela inclusão de ´Injuriado´ (´Não entendo/ Porque anda agora falando de mim´). Durante ´As vitrines´, na qual surge o vigia que tanta polêmica histérica rendeu na linda ´Tua Cantiga´, a moça ao meu lado, não mais do que 20 anos, tira os óculos e enxuga as lágrimas. Como ele já dizia em Jorge Maravilha: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta”.
Fecho com a voz rediviva de Vinicius de Moraes, surgida há exatos 50 anos: “Outro dia saímos em passeata cívica, e éramos 100 mil na Avenida Rio Branco, estudantes, intelectuais, clero, donas de casa, protegidos por um extraordinário esquema de segurança bolado pelos próprios garotos. Uma beleza. Se alguma coisa de bom tem que sair deste país, vai ser à base do novo movimento estudantil. E, naturalmente, Chico Buarque de Hollanda”. (Prefácio do livro O jornal de Antônio Maria, julho de 1968).
Continua na próxima semana