24 de jul de 2017

A lágrima do morto


A Paulo Fialho, em seu velório




a morte esse cavalo
pégaso solto no ar
a noite esse halo
o corpo o não lugar

no foco um só plongée
cavalo alado torto
enquadra a cena e vê
em decúbito o corpo

corpo o corpo esquálido
por mais que a vida chame
face amarelo pálido
branco branco origami

e como se esculpida
a lágrima do morto
surge súbito e tímida
vida a dobrar em dobro

lágrima esse cristal
vida que vem da morte
e só dela só se alça
solta-se em malasorte

da vida para a morte
da morte para a vida
a lágrima esculpida
vida que estanca a morte

e não escorre a lágrima
vã pulsão que se fixa
lá para sempre lá
vida e morte vívida

não é de malasorte
a lágrima da morte
antes sopro de vida
que jorra esquecida

vida a correr da morte
esse animal cevado
vida esse cavalo
a dobra o dobro: corte

Ronaldo Werneck
maio/julho de 17


19 de jul de 2017

Therezinha Castro: Esse sempre obsclaro prazer



    Desde o início o trabalho dessa admirável artista plástica que é Therezinha Castro voltou-se para um arenoso espaço de indagações transcendentais sobre o tempo, a persona, o être-en-soi existencial e outras mumunhas & cositas más. Um profundo mergulho de onde agora emerge a sua criança, essa menina inesperada. A Therezinha de hoje é reflexo da simplicidade imantada de sua infância, do prazer de ser menina, o riso solto – não me lembro de nada assim tão puro, tão cristalino –, o riso pleno dessa obsclara liberdade.


 A partir de sua primeira mostra individual, na Galeria Spac – Ipanema, 1980 – ou, se, quisermos maior precisão, de sua primeira coletiva no Salão Nacional de Belas Artes – Rio, 1973 –, a artista atravessou etapas de extrema coerência na busca de uma linguagem própria, sempre marcada por rica densidade pictórica. Aqui uma primeva e fugaz pincelada, um rápido primitivismo logo tomado pela sofisticada simbologia de máscaras e ampulhetas, o tempo e a persona aflorando. Ali um expressionismo que explode amadurecido em figurações & fulgurações de pássaros e fetos, crianças e cores, cores e crianças e crianças e cores.


    No princípio, era plena de amarelo a sua paleta, clara referência à luminosidade de Van Gogh. Mas ao longo do percurso Therezinha redescobriu e reincorporou ao seu universo suaves texturas em ocre, em marinho – tramas que ela tanto ama. Vale a rima: a polissêmica & policrômica. Desde Vitória do Espírito Santo às Minas Gerais, estrada & trilho inicial, tudo é cíclico e simples e magnífico. Tudo está onde sempre esteve, principalmente Cataguases e sua ancestral mineiridade. A luz da Mata volta aqui – e para sempre. Soma de muitas cores, Therezinha é por excelência uma refinada colorista que tem na criança o seu obsclaro objeto de prazer.


 “Ils ont oublié leur propre enfance”, exclamava atônito, na virada dos anos 50, o Sartre da Critique de la Raison Dialectique (Paris, 1960). Ao recuperar a infância, Therezinha Castro nos doa a sua redescoberta e faz com que nossa criança não se obscureça no oblívio. Que são essas garatujas senão garatujas? Esses rabiscos parecem saltar de seu suporte com a força de um resgate da pureza. Um retorno com a sabedoria de agora, um retomar da criança com a plenitude do adulto. Tem uma força estranha essa Therezinha de hoje, um poder de menina, um poder que tudo pode, sem amarras, um lúdico despojamento que só se consegue com muito sacrifício.


   Foram muitas as voltas para que a artista pudesse finalmente expressar-se com essa economia, com a difícil simplicidade desses traços, dessas figuras atávicas que surgem assim, como se por acaso. Aqui, nada vem do acaso. É como se a arte de Therezinha Castro fosse fabrico de mágica artesania, de uma pureza em construção. Melhor, esses trabalhos são na verdade uma desconstrução consciente em busca do expressar-se de sua criança. Sua feitura é um eterno retorno no tempo – e sua fruição quase uma epifania. Escorre a areia da ampulheta, caem as máscaras. Nasce a verdadeira persona em sua plenitude, manhã primeira. O mundo é macio e perigoso. Mas que pode o mundo face a esse riso, a esse obsclaro prazer?





Ronaldo Werneck/1997-2017