SELVA SELVAGGIA 50 ANOS
o poema é veículo
emissor & emoção:
a poesia carga nobre
suor insight calor coração
Há alguns dias, Murillo Azevedo – o
diretor de O mundo é macio e perigoso, filme
sobre minha trajetória poética – encontrou
num antiquário daqui de Cataguases um exemplar de meu livro Selva Selvaggia, lançado em 1976. Não um
exemplar qualquer, mas exatamente o livro que enviei na época para meu amigo, o
escritor Rosário Fusco, com a dedicatória toda em minúscula, como eu grafo meus
poemas: “para rosário fusco, selvagemente c/ admiração: et pour cause c/ as
falhas do estilo comum: os ditos, consumitos & não ditos de cada um.
abraços do ronaldo/ junho/76”.
Como esse exemplar, que agora volta às
minhas mãos, estava à venda naquele antiquário, eu não sei. Numa das várias
correspondências trocadas com Rosário Fusco ele me dizia que estava fazendo
anotações para um longo artigo sobre meu livro, que iria mandar para o
Suplemento Literário Minas Gerais. Nunca soube do destino desse “longo artigo”,
se ele o terminou. Publicado não foi, ao que eu saiba.
Mas encontro entre as páginas finais
do livro uma nota amarelada de uma serraria, indicando um pedido de compra
(datado de 11.09.1976) de uma mesa no valor de Cr$ 300,00. A nota parece servir
como “marcador de página”, o que me leva a crer que Fusco lera mesmo o livro,
pelo menos até aquela página, uma das últimas. E, outra surpresa, noutra página
(talvez também como marcador de leitura), uma estranhíssima carta
datilografada, sem mencionar para quem, datada de Juiz de Fora, em 05.04.1989,
12 anos após a morte de Rosário Fusco.
Carta
assinada, mas com letra ilegível. A dita começa assim: “Pode ser que existam
coisas melhores entre as folhas, entre os canteiros de samambaias, entre os
arlequins de uma peça genial, entre as mulheres que correm nuas e que vemos à
distância através de uma lente não objetiva, entre os dias & as noites de mashmallow(marshmallow?) ... Eu não sei.”.
Pois eu também não sei, ô meu, nem
imagino a que vem esse arrazoado, que termina enigmaticamente assim, à la
Nelson Rodrigues. Melhor, a um Nelson que desatinou: “Enquanto as calçadas
levam para o horizonte as ilusões de ótica de todo um povo, meu coração não se
cansa de ser um dogmático hipocondríaco, sobre os “arrabaldes” de madalaine (madeleine?) – que me desculpe Proust por tê-lo feito de
bobo e roubado-lhe a mulher. (...) Eu me perdôo, eu me perdôo e a você também,
é madaleine, que agora não deves me ouvir/ espere/ espere/ espere/ espere que
eu morra com os seus “arrabaldes”.
Guardo agora bem guardado esse
exemplar: 50 anos depois, ele volta intacto às minhas mãos, e ainda com essas
duas inesperadas surpresas: a nota da compra da mesa e a carta enigmática. E
com uma capa muito bem conservada, obra que me parece da Annie, a última esposa
do Fusco, que restaurava com todo o cuidado os livros da biblioteca do
escritor. 50 anos! Agora é que me dou
conta da data: 1976. Mais de 50 anos da criação desses poemas escritos entre
1962 e 1975. Sim, são 50 anos do lançamento carioca de Selva Selvaggia naquele 2 de junho de 1976 em Ipanema, na livraria
Muro. Um lançamento “histórico”, como se
vê a seguir.
O poeta perde o próprio
lançamento
Para contar essa inacreditável
história de eu ter perdido o próprio lançamento, transcrevo trechos do texto de
abertura que escrevi para meu livro Revisita
Selvaggia, de 2005 – retomada de Selva
Selvaggia quase 30 anos depois.
Manhã de 2 de junho, 1976: sou
entrevistado pelo Jornal Hoje da TV
Globo sobre Selva Selvaggia, a ser
lançado à noite na Livraria Muro, em Ipanema, junto com seis outros livros dos
poetas Antonio Fernando (Apesar de Maio),
Carlos Enrique de Escobar (Paisagem Alta),
Joaquim Branco (Consumito), Octávio
Mora (Exílio Urbano), Ricardo G.
Ramos (Estado de Coisas) e Ronaldo
Periassu (Fror).
Make war/ east or West/ more land/ less love. A repórter do Jornal Hoje pedira que eu falasse um poema
e na hora só me lembrei desse, onde num inglês capenga eu buscava desconstruir
o nome do general americano responsável pela escalada no Vietnam, colocando
Westmoreland no front e em choque com a máxima dos hippies. Terminada a
gravação, subi para Petrópolis, para checar a finalização do livro e trazer da
gráfica Vespertino os exemplares para o lançamento.
A impressão estava “ligeiramente”
atrasada. Enquanto almoço no restaurante D´Angelo, assisto na tevê – e sem
acreditar no que vejo – à minha entrevista indo ao ar na íntegra, com todo o meu
poema and all about. Ora pois, ou o inglês (do meu cavalo: evoé, Chico
Buarque!) era/continua de amargar, mas trotou com garbo pela censura, ou o
editor do jornal estava de bons bofes, e nada cortou. E assim, na Globo,
apareci pela primeira vez. E em inglês, of course. No mesmo dia, matéria
de Mário Pontes no Jornal do Brasil dava meia página do Caderno B para o
lançamento. Os poemas repercutiam, pelo
menos na mídia da hora.
Já em Petrópolis atropelos surgiam, e
vários, na gráfica Imprensa Vespertino. Uns, risíveis, como não conseguirem a
tinta que eu pedira para a capa. Era
sépia, mas saiu mesmo com uma cor inesperada, meio grená (seria isso flicts, Ziraldo?). Acabei resolvendo
“escorrer” a cor miolo adentro. Era um tempo de “espantar pela radicalidade”,
como no slogan criado por meu amigo Wlademir Dias-Pino para o poema- processo. E o livro saiu todo assim, em flicts, homenagem àquele quase-iodo do
VAT-69, uísque que eu traçava na época. Totalmente “inserido no
contexto”. Já outros problemas, mais dantescos, acenavam com exemplares só para
o outro dia, o que me fazia sentir em apuros, davvero em plena selva
oscura do vate florentino.
Atropelos, e muitos, agora atropelado
pela hora. Lançamento às oito, só consegui descer de Petrópolis às nove. No
banco de trás, apenas dez exemplares.
Cheguei em Ipanema pra riba de desoras. Poucos gatos (res)pingados pelo
outono. Vendi quatro livros, (in)sucesso
total num fim de noite chuvoso, com apenas dez convidados soçobrando, se tanto.
Enquanto me abraça, o saudoso contista Carlos Alberto Castelo Branco diz: “Que
pena, Ronaldo, veio muita gente, a livraria estava cheia. Sabe que até a
Clarice Lispector apareceu?”.
Na verdade, eu já vendera quase todos
os livros por antecipação e sobrou pouca coisa para os lançamentos que se
seguiram – em Brasília, Belo Horizonte e na Bahia. Curioso que não me lembro de
ter lançado em Cataguases, onde a “estratégia de marketing” funcionou bem: os
conterrâneos compraram vários exemplares.
meu
prezado:
também
pro leitor
hoje
o
preço do poema
é
peso-pesado.
por
trinta dinheiros
o
outro traiu
o
outro por trinta
e
cinco pratas
se
trai
todo
substrato
desse
poeta:
no
fundo
barato
ah
mas cansado
de
poetar
ele
não sabia
das
transas
da
economia
no
fundo
ele
queria
transformar
o
mundo:
enviar
seu fruto
como
cortesia.
seu
sangue
o
rubro
suor
de cada dia.
A partir do título – Dante como
bandeira: matriz e motor de tudo, l´amor che move il sole e l´altre
stelle –, o poema usado
como marketing de venda funcionou a pleno vapor. O poema, qualquer poema, é um
parque de diversões. Da cabeça, é claro: salve, Ferlinghetti! Roda-gigante, a vida e tudo o mais gira no mesmo lugar. Ou ao contrário. Como nos anos 60
(onde foram concebidos a maioria dos poemas do livro), pura viagem esta – e selvaggia.
Ao contrário da blague colocada no livro-matriz – collocate tutta speranza
voi ch´entrate –, o que vale aqui é mesmo a força do verso do vate: Per
me si va nella città dolente/ Per me si va nell´eterno dolore,/ Per me si va
tra la perduta gente.../ Lasciate ogni
speranza voi ch´entrate.
Selvaggia:
marketing
retraído
o poeta se curva
e
pede 35 pratas:
passagem
pra ser consumido
sem
essa de fantasia
ou
dilema
esqueça
o verso
da
poesia
acredite
no poema
sem
complexo
sem
cascatas
no
envelope anexo
envie
suas 35 pratas
Com esta, digamos, “poética” abertura
foi projetado o marketing de Selva Selvaggia, realizado por meio de
carta-resposta, datada de março de 1976, em que o destinatário assinava um
“Contrato Arisco” com o poeta. Inesperado sucesso, com essa estratégia
vendeu-se quase toda a edição, antes mesmo de o livro ser lançado.
Poeta
Êta, pó:
Achei po
(rr)
eta
– e com tato
o contrato
a carta-guia
(de importação)
a carta-ação
(entre amigos)
ex-
direitos
– à la Cacex –
com meus respeitos
novos e antigos
em que anuncia
ter vindo a lume
(que Dante o haja!)
o seu volume
Selva Selvaggia!
Ivo Barroso, Lisboa, 76
Drummond
& Selvaggia
Carlos Drummond de Andrade, o próprio,
também recebeu o “Contrato Arisco”. Não só “topou o risco” como chegou mesmo a
“vender” o livro para alguns amigos. Na época, editor da Revista Cacex do Banco
do Brasil no Centro do Rio, e morador de uma então selvagem Itaipu, “pra lá de
Niterói”, o poeta, este, direcionou as cartas-respostas para o endereço da Revista. O Poeta, o outro, o de
Itabira, foi pessoalmente com suas “35 pratas” dentro de um envelope com um
bilhete onde dizia “topar o contrato arisco” para receber o livro a domicílio.
RW estava almoçando e o envelope foi recebido por um colega: “bem que eu achei
já ter visto a cara daquele senhor em algum lugar!”.
Ao ligar para Drummond e dizer que a
carta fora mandada por engano pra ele, pois o seu exemplar, é claro, seria
enviado gratuitamente, ouviu o poeta de cá a resposta do Poeta de lá: “De jeito
nenhum. Poesia é coisa séria e faço questão de comprar o livro. Anote o
endereço de alguns amigos que também vão querer, com toda a certeza”. Assim, o pintor
Carlos Scliar comprou dois exemplares; o filólogo Paulo Rónai, também dois (e
enviou uma lista com uma série de “possíveis interessados”, que também acabaram
comprando). Ainda Nélida Piñon e outros mais compraram via Carlos Drummond de
Andrade, o grande “divulgador” de meu livro.
E assim foi que Drummond revelou-se um
dos melhores vendedores de Selva Selvaggia: cerca de 10 livros. E,
claro, na contramão daquele Apelo sacado de sua Viola de Bolso:
“Ah, não me tragam originais/para ler, para corrigir, para louvar/sobretudo
para louvar./ (...) /Não leio mais, não posso, que este tempo/ a mim
distribuído/ cai do ramo e azuleja o chão varrido,/ chão tão limpo de ambição/
que minha só leitura é ler o chão./ Nem sequer li os textos das pirâmides/ os
textos dos sarcófagos,/ estou atrasadíssimo nos gregos,/ não conheço os Anais
de Assurbanipal,/ como é que vou – / mancebos/ senhoritas/ – chegar à poesia de
vanguarda/ e às glórias do 2.000, que telefonam?”.
A mídia e a
crítica
Pasquim/Tidica
Rio, abril 1976
O RONALDO ACHA QUE
A POESIA É NECESSÁRIA
O
poeta Ronaldo Werneck, um dos autores da entrevista com Rosário Fusco aqui no Pasca, está se auto-editando e propondo um
“contrato arisco” firmado entre poeta e consumidor (o leitor). É assim: o cara
escreve pro Ronaldo e pede a remessa de Selva Selvaggia “inundado
por 84 patéticos planos em 150 maravilhosas páginas de papel off-set, tudo isso
a 35 pratas, devidamente autografado”. Mandem os pedidos pro Ronaldo no
seguinte endereço: Av. Rio Branco, 65 sala 18l0 – 20.000 – Rio de Janeiro.
Pasquim/Tidica
Rio, maio 1976
Lá vem Poesia!
Dia 2
de junho, quarta-feira, às 21 horas, na Livraria Muro (Visconde de Pirajá, 82 –
sobreloja – Praça Gal. Osório – Rio), um septeto de poetas vai se reunir para
autografar seus livros. A saber: Antonio Fernando, com “Apesar de Maio”, Carlos
Henrique Escobar, com “Paisagem Alta”, Joaquim Branco, com “Consumito”, Octávio
Mora, com “Exiliurbano – Andar Térreo”, Ricardo G. Ramos, com “Estado de
Coisas”, Ronaldo Periassu, com “Fror” e Ronaldo Werneck (que fez pro Pasquim a
entrevista com Rosário Fusco), com “Selva Selvaggia”. Nesse dia 2 vai ter mais
poeta per capita no Muro do que em qualquer lugar do país.
Ronaldo
Werneck vende
poemas
de Selva
Selvaggia pelo reembolso
Com esta manchete, a
coluna “Livros”,
assinada por Carlos Menezes
em “O Globo”, anunciava
em 08.06.76
a estratégia de
vendas criada pelo poeta.
Ronaldo Werneck, mineiro de Cataguases, reuniu sua produção poética dos
últimos 12 anos no livro Selva Selvaggia, para cuja distribuição e venda
montou o seguinte esquema: remete a amigos e conhecidos uma carta impressa, em
prosa e versos bem-humorados, e pede que lhe remetam Cr$ 35,00, custo do livro,
que em seguida é enviado ao comprador. Assim o poeta fala sobre obra:
– De 1962 a 1975 passaram-se 13 anos e outros tantos acontecimentos,
aqui e alhures. De certa forma, muita coisa desses 13 anos está em Selva
Selvaggia. Mudou o mundo, mudou o poeta, mudou tudo: posições foram
revistas, o fascínio da juventude pelo malabarismo gráfico-verbal cedeu lugar a
um tipo de construção poética que acredito mais honesta, mais consciente com o
homem de 32 anos que é o poeta hoje. De vez em quando existe um certo
derramamento verbal: ninguém é de ferro. Mas a palavra de ordem é contenção – Dichten: Condensare.
–
E tuas influências?
– Na verdade, Selva Selvaggia acabou sendo
uma ópera aberta no sentido de que é um somatório dos sucessivos namoros do
poeta com o concretismo, o poema-processo, o joão-cabralismo, o livro-signo do
Cassiano Ricardo, as experiências do Ferreira Gullar de Luta Corporal,
os lances da ocupação do espaço em branco do surrado Mallarmé e até – para
pasmo do distinto público – do nosso amigo Maiakovski que, acredito, jamais foi
conhecido pelas posições gráficas do poema em função da página. Selva
Selvaggia é isso e não é isso. São 86 dos poemas que sobraram dos últimos treze
anos. De tão velho, meu primeiro livro acabou virando antologia. Acho que,
visto agora, suprimiria vários poemas. Mas a coisa está pronta e deixei e deixo
como está. No fundo, uma catarse, um alívio por vê-los abandonando a gaveta.
Jornal
Cataguases/Espaço Social
Cataguases, agosto de 1976
Selva Selvaggia é
sucesso
“Affonso Romano de SantAnna, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Scliar,
Celso Japiassu, Erthos Albino de Souza, Mauro Gama, Nélida Piñon, Paulo Rónai,
foram algumas das quase quinhentas pessoas que já adquiriram pelo reembolso
postal o livro “Selva Selvaggia”, de Ronaldo Werneck.
O professor Rogério Ruschel (PUC/Porto Alegre) dará uma aula sobre
estratégia de marketing, utilizando como base a carta-propaganda que o poeta
cataguasense distribuiu entre os leitores”.
Ao comprar o livro, Affonso Romano de Sant´Anna mandou
mensagem para o poeta: “Ronaldo: KEEP the (R)humor. Affonso”. Ele publicaria logo
depois ótima resenha sobre Selva
Selvaggia na Revista Veja.
Na Folha de S.Paulo,
em 17.09.76, escrevia Luiz Carlos Maciel: “Está nas livrarias mais um
belo livro de poesias: Selva Selvaggia,
de Ronaldo Werneck, um poeta, acima de tudo, contemporâneo, uma sensibilidade
afinada com o seu tempo. O livro, que o poeta chama de Cine-Poema,
atribuindo-se o “roteiro e direção”, revela não só a convivência do autor com
os variados experimentalismos poéticos que assolaram nossas letras nos últimos
anos, mas também, e principalmente, uma experiência aguda e atenta do que
também significou simplesmente estar vivo nestes últimos anos. Werneck é um
poeta cujo amor pela palavra contamina o leitor. Recomendo.”.
Minas
Gerais/Suplemento Literário
Selva Selvaggia: Um cine-poema de Ronaldo Werneck
Com
este título, o “Suplemento do Minas” reproduzia na página 2 a capa do livro e,
na íntegra, o prefácio assinado pelo poeta Francisco Marcelo Cabral. (Belo Horizonte, 21/08/76)
O poeta-crítico Moacy Cirne registrava em 1976 no º 6 da Revista de Cultura Vozes: “Selva Selvaggia, de
Ronaldo Werneck. Poemas discursivos para-concretos e poemas gráfico-visuais
(entre os quais, alguns poemas/processo). O livro é apresentado como um
cine-poema, dividido em 10 sequências, sendo que o argumento foi “extraído de
fatos vivenciados pelo poeta no eixo minas-bahia-rio, entre 1962 e 1975, e de
outros lidos, vistos, consumidos: pelo telstar, pela tv, pelo cinematógrafo,
sem ordem cronológica”. Os melhores momentos são visuais: himeneu, libertarde e mass media. Mas há alguns bons momentos para-concretos: asfalto: trilogia é um
exemplo. Outro exemplo: tropegal
canto para gal costa. Recomendamos”.
Em 04.07.76,
no jornal O Globo, escrevia Marcia Brito: “Neste cine-poema, a poesia vive uma
odisseia no espaço. Selva Selvaggia
não é o título de mais um livro de poesias, mas sim o nome
de um cine-poema. O roteirista e diretor extraiu o argumento desta edição de
fatos vivenciados por ele mesmo no eixo Minas-Bahia-Rio, entre 1962-1975, e de
“outros lidos, vistos, consumidos – pelo telstar, pela tv, pelo cinematógrafo”. Essa a proposta de Ronaldo
Werneck, que sem dúvida alguma suou e sofreu para compor seus poemas – “na rua,
na cama, no teclado da máquina, subitamente dentro de um cinema”.
“Ronaldo
Werneck é um poeta “amadurecido” em barris de carvalho. Seu poema é uma dose
dupla de batida de limão misturada com muitos copos de cerveja, duas vodcas e
vários uísques. A quem brinda? A Oswald de Andrade, Fellini, Mallarmé, Jorge de
Lima, Mário Faustino, João Cabral, Maiakovski, Camões, e.e. cummings e muitos
outros. O que brinda o poeta? A palavra e o homem.
“O poeta
encerra a sequência cinco com o poema-processo “Pop/lar” – um poema
eletrodoméstico social onde aparece uma página de jornal anunciando uma
liquidação de geladeiras, aparelhos de tv, liquidificadores, fogões,
bicicletas, enceradeiras. Na mesma página, a notícia – “O mundo é macio e
perigoso” – é o título do poema-texto, que tem como ilustrações fotografias de crianças
rindo e correndo de felicidade. Neste poema-texto Ronaldo mostra em versos como
vê a realidade social deste mundo macio e perigoso. – Uma canção de espera/ uma canção de esperança/ ancião/ ânsia/ canção/
anunciação/ retribuição/ risos/ grunhidos/ febre/ vômito/ de esperança/ é o
mundo/ que te anuncio.
Em
Recife, Iran
Gama publicava no Jornal da
Semana/Cultura & Tempo (15 a
21/06/76): “Ronaldo Werneck, no Rio de Janeiro, lança Selva Selvaggia (1976), livro que obedece a uma programação visual
ampla, onde a tônica maior é a crise do homem moderno e suas incongruências, a
crítica social de sentido reparador, que põe o homem diante de si mesmo.
Rotulado de cine-poema pelo autor, o livro obedece a um roteiro estético
inteligente e sem suavidades, um plano geral de montagem, onde desfilam desde
haicais a textos concretistas e práxis, passando por poemas-processos e
foto-montagens, numa mistura picante, demonstrando que o poeta escolheu um
caminho, no qual se desdobra na procura de novas formas. Veja-se o poema de Werneck, extraído de
“Selva Selvaggia”, que estamos publicando:
No
Rio, ainda em 1976, em longo artigo intitulado “Poesia pelas brechas”, ilustrado
pelo poema visual Caca is Caco, de
Ronaldo Werneck, o crítico Wilson Coutinho registrava
na coluna Tendências e Cultura do Jornal Opinião: “Extremamente bem cuidado, o
livro Selva Selvaggia, de Ronaldo
Werneck, se define como cine-poema. Tenho a impressão de que a poesia visual
acabou encontrando seu verso de ouro”.
Diario ABC Color de Asunción
16
de agosto de 1977 – Assunção – Paraguai
"Ronaldo Werneck estuvo por Asunción con la carga de sus versos, con su condición de poeta, que le permitió conocermos de ese modo especial que ellos tienen para acceder al descubrimiento de las cosas, de la gente.
"Nacido en Matto Grosso (sic)
en un día de octubre de 1943, Ronaldo Werneck es autor de un libro sumamente
original, Selva Selvaggia, inspirado en la Divina Comedia, de Dante, y por
supuesto en el Infierno. Decimos por supuesto, porque solamente ese capítulo
podía interesar a un hombre como Werneck tan joven, tan cordial tan humano.
"En su libro figuran todos
los seres humanos y las cosas de nuestro tiempo. Ellos son los protagonistas,
los hombres, las mujeres, el cine. Los primeros algunos con sus nombres
proprios y sus circunstancias. El libro fue publicado en 1976 en Rio de Janeiro
y es su primera obra, pero desde luego que poemas suyos aparecieron en diarios
y revistas de su país y del extranjero.
"Ronaldo Werneck pertenece
al grupo concretista y dirige un suplemento literario Tótem, del diario Cataguases,
de Minas Gerais. En este Suplemento el recoge la ingente obra que sus
compatriotas están realizando en el campo de la poesía".
Rubem Fonseca
Carta ao poeta: Rio, 13/10/77
Prezado Ronaldo Werneck: recebi teus admiráveis livros “Pomba Poema” e
“Selva Selvaggia”.
Muito obrigado. Enquanto houver poesia
death shall have dominion,
como dizia
o poeta Dylan (o que não tocava guitarra).
Um forte
abraço. Rubem.
Hugo Pontes
Suplemento
Literário Minas Gerais, BH, 04.11.78
Há tempos, Ronaldo Werneck tem-nos
dado algumas obras de fôlego. Entre elas destacamos o livro Selva Selvaggia, cine-poema cuja
montagem revela-nos autênticas tomadas de câmeras com olhos eletrônicos
voltados para a imagem, a cor e o som, dentro de um espaço que é a folha de
papel, virgem, aguardando revelação. Em 1977, centenário de Cataguases — cem
anos de vida e cultura — Ronaldo lança sua moderna epopeia sobre Cataguases — pomba poema. (...) Como se estivesse
filmando sua cidade, o autor, auxiliado pelas fotos de Adriana Monteiro, faz
tomadas verbais dignas de um grande cineasta com suas câmeras.
Sua
desenvoltura, sabendo fazer uso da palavra, faz-nos ver Cataguases com seu povo
e suas ruas num mundo entre o útero e o átomo; mostra-nos o menino descalço
dentro de um jato chupando jabuticaba e num carro de bois sonhando com a Lua.
Em gritos de desespero e acordes “samboleantes”; entre a luz e a sombra; entre
o mar e a montanha Werneck compôs sua epopeia a Cataguases interrogando e
questionando toda uma existência na qual o sabor da maçã não é tão revelador
quanto o aroma que exala.
Na Tribuna de Santos, Francisco Teixeira Rienzi publicava em 27/08/78: “Selva
Selvaggia, uma edição graficamente bem cuidada, nos revela um itinerário poético
estruturado à maneira de um filme (ressalte-se uma citação de Glauber Rocha
logo no início), para onde convergem todas as informações possíveis da moderna
poesia: as vanguardas, do concretismo ao poema-processo, com alguns leves
toques, embora em menor escala, da poesia práxis. Em outros poemas constata-se
que Ronaldo Werneck é um bom ouvinte de música popular. Mesmo quando há traços
mais lineares, a criação de imagens poéticas obedece a uma superação do
meramente descritivo, não é a poesia do princípio-meio-fim tradicionais,
encontrável em boa parte de nossos poetas consagrados ou naqueles rotulados de
“participantes” que, no mais das vezes, apenas nos dão um produto reacionário e
envelhecido. Na maioria dos poemas integrantes de Selva Selvaggia, as palavras soltas no branco da
página, ao invés de se constituírem em elementos isolados (no próprio movimento
concreto, é bom que se diga, não havia esse isolamento, tão denunciado por seus
detratores), formam uma união constelar, possibilitando níveis de leitura
alternados.
Em maio de 1978, o crítico Fábio Lucas publicava em Lisboa longo artigo no n.º 43 da Revista Colóquio Letras: “(...) Poesia culta, Selva
Selvaggia a cada abertura de capítulo apoia-se num módulo informativo, como se
fora um mote. Cada Sequência corresponderia a um Canto, unidade ideológica duma
epopeia. (...) Selva Selvaggia é mais que o poema de todos os ritmos. Inclui a
herança do experimentalismo dos anos 60. Traz a sedução da rebeldia.”.
Já em julho de 2000, numa série
de e-mails, escrevia a grande poeta Maria do
Carmo Ferreira, que
finalmente teve sua obra editada, numa completíssima e bem cuidada antologia em
três volumes (Martelo Casa Editorial, Goiânia, 2025). A seguir, alguns trechos
desses longos e-mails enviados por minha amiga Carminha
Ferreira.
“Niterói, julho de
2000
Ronaldo, Ontem
terminei de reler Selva Selvaggia e O Mar em Min(as), ambos excelentes,
maduros, embora com décadas de distância espaço/temporal, e eu me pergunto se
os 3 concretos conhecem de perto o que você escreve, vi até certas
coincidências em nós dois (nanja essa espuma, virgem verso...) (*) mas a sua
vocação espacial nas páginas não é cosa nostra, é coisa muito sua e muito bem réussite. (...) Quem teve o privilégio
de conviver com um Humberto Mauro, um Rosário Fusco e um padrinho Geraldo Kneip
(fiquei fã dele) tem mais é que amadurecer sabiamente, sem os protocolos dos
sábios do Sião...
(*) Referência
à tradução feita por Carminha do poema “Salut”, de Mallarmé, publicada pelo
Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, BH, março de 2000)“.
Niterói, 17.07.2000
Ronaldo, sou Ferreira, e não de ferro. Se
eu tivesse instrução e verve faria uma matéria sobre os seus poemas-livros de
longo fôlego. Sobretudo Minas em mim e o mar esse trem azul... Não tenho, não me
cobre isso, por favor, fico emocionada, rateando, engasgada, ultravaidosa e
orgulhosa de você ter chegado tão longe e com uma aparente displicência
rosariofusqueana de quem faz tudo isso (inclusive filhos, amores, amigos,
contatos) com um pé nas costas. Beato
Lei! Como se não bastasse, viaja que Deus dá, sai toda noite, escreve matérias
as mais diversificadas todo dia, pra todo jornal e revista que te dê uma
brecha, faz conferências pras lindas normalistas, orienta teatro estudantil,
que sei eu? Faz cinema, ah faz cinema principalmente quando escreve!
Em 15.09.2005,
trinta
anos depois do lançamento de Selva
Selvaggia, o romancista Luiz Ruffato
escrevia no Caderno B do Jornal do Brasil: “Pós-moderno é Ronaldo Werneck,
que em 1976 lançou a primeira edição, agora revisitada, deste Selva selvaggia. Que a paixão
de Werneck pelo cinema torna-se nesse livro quase obsessão é um fato. Basta
tomar seu depoimento – “Selva Selvaggia tem como epígrafe uma ‘tirada’
de Glauber Rocha (...) e foi estruturado como se fosse um filme” – e perceber a
presença, além do genial baiano, de Eisenstein e Fellini conduzindo “tomadas”.
E toda terminologia nos remete ao universo fílmico: são cortes, montagem,
takes, planos, sequências, argumento, cenografia, roteiro, direção.(...)
“Mas,
é a arte literária que se esparrama em cada recôndito dessas páginas. E, se são
vários os interlocutores de Ronaldo Werneck, não o é sua filiação. Ele se forma
claramente entre as hostes dos barulhentos bárbaros que questionam o
estabelecido, que se rebelam contra o antigo, que se batem pelo novo. Nesse
sentido, é no “pensamento concretista” que ele se radica – não no concretismo,
mas na “tradição concretista”: Gregório de Matos Guerra, Sousândrade, Oswald de
Andrade, Augusto e Haroldo de Campos, no Brasil; Mallarmé, Rimbaud, Pound,
Maiakóvski, Cortázar (sim, Cortazar, o ficcionista, o ensaísta), no exterior”.









.jpeg)





.jpeg)

.jpeg)







.jpeg)

.jpeg)








