16 de jun. de 2026

 

 

SELVA SELVAGGIA 50 ANOS



o poema é veículo

emissor & emoção:

a poesia carga nobre

suor insight calor coração

  

Há alguns dias, Murillo Azevedo – o diretor de O mundo é macio e perigoso, filme sobre minha trajetória poética encontrou num antiquário daqui de Cataguases um exemplar de meu livro Selva Selvaggia, lançado em 1976. Não um exemplar qualquer, mas exatamente o livro que enviei na época para meu amigo, o escritor Rosário Fusco, com a dedicatória toda em minúscula, como eu grafo meus poemas: “para rosário fusco, selvagemente c/ admiração: et pour cause c/ as falhas do estilo comum: os ditos, consumitos & não ditos de cada um. abraços do ronaldo/ junho/76”.

Como esse exemplar, que agora volta às minhas mãos, estava à venda naquele antiquário, eu não sei. Numa das várias correspondências trocadas com Rosário Fusco ele me dizia que estava fazendo anotações para um longo artigo sobre meu livro, que iria mandar para o Suplemento Literário Minas Gerais. Nunca soube do destino desse “longo artigo”, se ele o terminou. Publicado não foi, ao que eu saiba.

Mas encontro entre as páginas finais do livro uma nota amarelada de uma serraria, indicando um pedido de compra (datado de 11.09.1976) de uma mesa no valor de Cr$ 300,00. A nota parece servir como “marcador de página”, o que me leva a crer que Fusco lera mesmo o livro, pelo menos até aquela página, uma das últimas. E, outra surpresa, noutra página (talvez também como marcador de leitura), uma estranhíssima carta datilografada, sem mencionar para quem, datada de Juiz de Fora, em 05.04.1989, 12 anos após a morte de Rosário Fusco.

Carta assinada, mas com letra ilegível. A dita começa assim: “Pode ser que existam coisas melhores entre as folhas, entre os canteiros de samambaias, entre os arlequins de uma peça genial, entre as mulheres que correm nuas e que vemos à distância através de uma lente não objetiva, entre os dias & as noites de mashmallow(marshmallow?) ... Eu não sei.”.

Pois eu também não sei, ô meu, nem imagino a que vem esse arrazoado, que termina enigmaticamente assim, à la Nelson Rodrigues. Melhor, a um Nelson que desatinou: “Enquanto as calçadas levam para o horizonte as ilusões de ótica de todo um povo, meu coração não se cansa de ser um dogmático hipocondríaco, sobre os “arrabaldes” de madalaine (madeleine?)  – que me desculpe Proust por tê-lo feito de bobo e roubado-lhe a mulher. (...) Eu me perdôo, eu me perdôo e a você também, é madaleine, que agora não deves me ouvir/ espere/ espere/ espere/ espere que eu morra com os seus “arrabaldes”.

 


Guardo agora bem guardado esse exemplar: 50 anos depois, ele volta intacto às minhas mãos, e ainda com essas duas inesperadas surpresas: a nota da compra da mesa e a carta enigmática. E com uma capa muito bem conservada, obra que me parece da Annie, a última esposa do Fusco, que restaurava com todo o cuidado os livros da biblioteca do escritor.  50 anos! Agora é que me dou conta da data: 1976. Mais de 50 anos da criação desses poemas escritos entre 1962 e 1975. Sim, são 50 anos do lançamento carioca de Selva Selvaggia naquele 2 de junho de 1976 em Ipanema, na livraria Muro. Um  lançamento “histórico”, como se vê a seguir.


O poeta perde o próprio lançamento

Para contar essa inacreditável história de eu ter perdido o próprio lançamento, transcrevo trechos do texto de abertura que escrevi para meu livro Revisita Selvaggia, de 2005 – retomada de Selva Selvaggia quase 30 anos depois.

Manhã de 2 de junho, 1976: sou entrevistado pelo Jornal Hoje da TV Globo sobre Selva Selvaggia, a ser lançado à noite na Livraria Muro, em Ipanema, junto com seis outros livros dos poetas Antonio Fernando (Apesar de Maio), Carlos Enrique de Escobar (Paisagem Alta), Joaquim Branco (Consumito), Octávio Mora (Exílio Urbano), Ricardo G. Ramos (Estado de Coisas) e Ronaldo Periassu (Fror).

 

 



Make war/ east or West/ more land/ less love. A repórter do Jornal Hoje pedira que eu falasse um poema e na hora só me lembrei desse, onde num inglês capenga eu buscava desconstruir o nome do general americano responsável pela escalada no Vietnam, colocando Westmoreland no front e em choque com a máxima dos hippies. Terminada a gravação, subi para Petrópolis, para checar a finalização do livro e trazer da gráfica Vespertino os exemplares para o lançamento. 

A impressão estava “ligeiramente” atrasada. Enquanto almoço no restaurante D´Angelo, assisto na tevê – e sem acreditar no que vejo – à minha entrevista indo ao ar na íntegra, com todo o meu poema and all about. Ora pois, ou o inglês (do meu cavalo: evoé, Chico Buarque!) era/continua de amargar, mas trotou com garbo pela censura, ou o editor do jornal estava de bons bofes, e nada cortou. E assim, na Globo, apareci pela primeira vez. E em inglês, of course. No mesmo dia, matéria de Mário Pontes no Jornal do Brasil dava meia página do Caderno B para o lançamento.  Os poemas repercutiam, pelo menos na mídia da hora. 





Já em Petrópolis atropelos surgiam, e vários, na gráfica Imprensa Vespertino. Uns, risíveis, como não conseguirem a tinta que eu pedira para a capa.  Era sépia, mas saiu mesmo com uma cor inesperada, meio grená (seria isso flicts, Ziraldo?). Acabei resolvendo “escorrer” a cor miolo adentro. Era um tempo de “espantar pela radicalidade”, como no slogan criado por meu amigo Wlademir Dias-Pino para o poema- processo.  E o livro saiu todo assim, em flicts, homenagem àquele quase-iodo do VAT-69, uísque que eu traçava na época. Totalmente “inserido no contexto”. Já outros problemas, mais dantescos, acenavam com exemplares só para o outro dia, o que me fazia sentir em apuros, davvero em plena selva oscura do vate florentino.







Atropelos, e muitos, agora atropelado pela hora. Lançamento às oito, só consegui descer de Petrópolis às nove. No banco de trás, apenas dez exemplares.  Cheguei em Ipanema pra riba de desoras. Poucos gatos (res)pingados pelo outono.  Vendi quatro livros, (in)sucesso total num fim de noite chuvoso, com apenas dez convidados soçobrando, se tanto. Enquanto me abraça, o saudoso contista Carlos Alberto Castelo Branco diz: “Que pena, Ronaldo, veio muita gente, a livraria estava cheia. Sabe que até a Clarice Lispector apareceu?”.  

Na verdade, eu já vendera quase todos os livros por antecipação e sobrou pouca coisa para os lançamentos que se seguiram – em Brasília, Belo Horizonte e na Bahia. Curioso que não me lembro de ter lançado em Cataguases, onde a “estratégia de marketing” funcionou bem: os conterrâneos compraram vários exemplares.

 

 

meu prezado:

também pro leitor

hoje

o preço do poema

é peso-pesado.

por trinta dinheiros

o outro traiu

o outro por trinta

e cinco pratas

se trai

todo substrato

desse poeta:

no fundo

barato

 

ah mas cansado

de poetar

ele não sabia

das transas

da economia

no fundo

ele queria

transformar

o mundo:

enviar seu fruto

como cortesia.

seu sangue

o rubro

suor de cada dia.

 

A partir do título – Dante como bandeira: matriz e motor de tudo, l´amor che move il sole e l´altre stelle –, o poema usado como marketing de venda funcionou a pleno vapor. O poema, qualquer poema, é um parque de diversões. Da cabeça, é claro: salve, Ferlinghetti! Roda-gigante, a vida e tudo o mais gira no mesmo lugar. Ou ao contrário. Como nos anos 60 (onde foram concebidos a maioria dos poemas do livro), pura viagem esta – e selvaggia. Ao contrário da blague colocada no livro-matriz – collocate tutta speranza voi ch´entrate –, o que vale aqui é mesmo a força do verso do vate: Per me si va nella città dolente/ Per me si va nell´eterno dolore,/ Per me si va tra la perduta gente.../ Lasciate  ogni speranza voi ch´entrate.

 



 

Selvaggia: marketing

 


retraído

o poeta se curva

e pede 35 pratas:

 

passagem

pra ser consumido

sem essa de fantasia

ou dilema

esqueça o verso

da poesia

acredite no poema

 

sem complexo

sem cascatas

no envelope anexo

envie suas 35 pratas

 

Com esta, digamos, “poética” abertura foi projetado o marketing de Selva Selvaggia, realizado por meio de carta-resposta, datada de março de 1976, em que o destinatário assinava um “Contrato Arisco” com o poeta. Inesperado sucesso, com essa estratégia vendeu-se quase toda a edição, antes mesmo de o livro ser lançado.

 

Poeta

Êta, pó:

Achei po

(rr)

       eta

– e com tato

o contrato

a carta-guia

(de importação)

a carta-ação

                      (entre amigos)

ex-

         direitos

– à la Cacex –

com meus respeitos

novos e antigos

em que anuncia

ter vindo a lume

(que Dante o haja!)

o seu volume

Selva Selvaggia!

Ivo Barroso, Lisboa, 76

 

Drummond & Selvaggia

Carlos Drummond de Andrade, o próprio, também recebeu o “Contrato Arisco”. Não só “topou o risco” como chegou mesmo a “vender” o livro para alguns amigos. Na época, editor da Revista Cacex do Banco do Brasil no Centro do Rio, e morador de uma então selvagem Itaipu, “pra lá de Niterói”, o poeta, este, direcionou as cartas-respostas para o  endereço da Revista. O Poeta, o outro, o de Itabira, foi pessoalmente com suas “35 pratas” dentro de um envelope com um bilhete onde dizia “topar o contrato arisco” para receber o livro a domicílio. RW estava almoçando e o envelope foi recebido por um colega: “bem que eu achei já ter visto a cara daquele senhor em algum lugar!”.

Ao ligar para Drummond e dizer que a carta fora mandada por engano pra ele, pois o seu exemplar, é claro, seria enviado gratuitamente, ouviu o poeta de cá a resposta do Poeta de lá: “De jeito nenhum. Poesia é coisa séria e faço questão de comprar o livro. Anote o endereço de alguns amigos que também vão querer, com toda a certeza”. Assim, o pintor Carlos Scliar comprou dois exemplares; o filólogo Paulo Rónai, também dois (e enviou uma lista com uma série de “possíveis interessados”, que também acabaram comprando). Ainda Nélida Piñon e outros mais compraram via Carlos Drummond de Andrade, o grande “divulgador” de meu livro.

E assim foi que Drummond revelou-se um dos melhores vendedores de Selva Selvaggia: cerca de 10 livros. E, claro, na contramão daquele Apelo sacado de sua Viola de Bolso: “Ah, não me tragam originais/para ler, para corrigir, para louvar/sobretudo para louvar./ (...) /Não leio mais, não posso, que este tempo/ a mim distribuído/ cai do ramo e azuleja o chão varrido,/ chão tão limpo de ambição/ que minha só leitura é ler o chão./ Nem sequer li os textos das pirâmides/ os textos dos sarcófagos,/ estou atrasadíssimo nos gregos,/ não conheço os Anais de Assurbanipal,/ como é que vou – / mancebos/ senhoritas/ – chegar à poesia de vanguarda/ e às glórias do 2.000, que telefonam?”.

A mídia e a crítica

Em março de 1976, o poeta Francisco Marcelo Cabral escrevia em seu prefácio: “Selva Selvaggia é um livro medroso, doído, pasmo, de um homem na casa dos trinta, que teve como guias uma porção de Virgílios, nos 13 anos de uma caminhada au tour de soi même: um “romântico incurável” que atravessou a aridez experimentalista do concretismo e do poema-processo, mas acabou redescobrindo os santos óleos de Rosário Fusco e reassumiu seu sensualismo essencial, em que deságuam descaradamente os últimos poemas do livro.



 “Talvez este seja o único livro de poemas brasileiro – continua Cabral – que obedece declaradamente a um plano geral de montagem. O poeta o quis estruturado como um filme. E essa verdadeira trouvaille, esse truque, acabou por dar ao livro uma dimensão que ultrapassa a de uma simples coletânea. (...) Com o seu copioso referencial de epígrafes, citações, reminiscências, homenagens, e principalmente pelo achado de sua estruturação, este livro talvez seja um e o único poema-processo realmente réussit que eu conheço. O fato é que ele nos colhe em suas malhas e nos faz acompanhar uma trajetória de experimentações estéticas que tudo indica que encerra (contém ou dá fecho) um ciclo. Pessoal? De uma geração?

“(...) Sei que o livro de Ronaldo Werneck me perturba – finaliza Cabral. E não ‘literariamente’. Mas porque me faz vislumbrar o ser humano do seu autor, e talvez seja esta a força de toda obra de arte: comunicar-nos a sensação do “outro”, irresistível fonte de perturbação, “intransmissível solidão” (evoé, Fusco). De agora em diante, Ronaldo Werneck é um poeta que relerei. Porque amamos as mesmas coisas e gentes e outras ele me faz amar através de seus poemas. Prazer que positivamente eu não dispenso”.





 

Pasquim/Tidica

Rio, abril 1976

O RONALDO ACHA QUE

A POESIA É NECESSÁRIA

O poeta Ronaldo Werneck, um dos autores da entrevista com Rosário Fusco aqui no Pasca, está se auto-editando e propondo um “contrato arisco” firmado entre poeta e consumidor (o leitor). É assim: o cara escreve pro Ronaldo e pede a remessa de Selva Selvaggia “inundado por 84 patéticos planos em 150 maravilhosas páginas de papel off-set, tudo isso a 35 pratas, devidamente autografado”. Mandem os pedidos pro Ronaldo no seguinte endereço: Av. Rio Branco, 65 sala 18l0 – 20.000 – Rio de Janeiro.

 

Pasquim/Tidica

Rio, maio 1976

Lá vem Poesia!

Dia 2 de junho, quarta-feira, às 21 horas, na Livraria Muro (Visconde de Pirajá, 82 – sobreloja – Praça Gal. Osório – Rio), um septeto de poetas vai se reunir para autografar seus livros. A saber: Antonio Fernando, com “Apesar de Maio”, Carlos Henrique Escobar, com “Paisagem Alta”, Joaquim Branco, com “Consumito”, Octávio Mora, com “Exiliurbano – Andar Térreo”, Ricardo G. Ramos, com “Estado de Coisas”, Ronaldo Periassu, com “Fror” e Ronaldo Werneck (que fez pro Pasquim a entrevista com Rosário Fusco), com “Selva Selvaggia”. Nesse dia 2 vai ter mais poeta per capita no Muro do que em qualquer lugar do país.

 

Ronaldo Werneck vende

poemas de Selva

Selvaggia pelo reembolso

Com esta manchete, a coluna “Livros”,

assinada por Carlos Menezes

 em O Globo”, anunciava em 08.06.76

a estratégia de vendas criada pelo poeta.

 

Ronaldo Werneck, mineiro de Cataguases, reuniu sua produção poética dos últimos 12 anos no livro Selva Selvaggia, para cuja distribuição e venda montou o seguinte esquema: remete a amigos e conhecidos uma carta impressa, em prosa e versos bem-humorados, e pede que lhe remetam Cr$ 35,00, custo do livro, que em seguida é enviado ao comprador. Assim o poeta fala sobre obra:

­– De 1962 a 1975 passaram-se 13 anos e outros tantos acontecimentos, aqui e alhures. De certa forma, muita coisa desses 13 anos está em Selva Selvaggia. Mudou o mundo, mudou o poeta, mudou tudo: posições foram revistas, o fascínio da juventude pelo malabarismo gráfico-verbal cedeu lugar a um tipo de construção poética que acredito mais honesta, mais consciente com o homem de 32 anos que é o poeta hoje. De vez em quando existe um certo derramamento verbal: ninguém é de ferro. Mas a palavra de ordem é contenção – Dichten: Condensare.

E tuas influências?

– Na verdade, Selva Selvaggia acabou sendo uma ópera aberta no sentido de que é um somatório dos sucessivos namoros do poeta com o concretismo, o poema-processo, o joão-cabralismo, o livro-signo do Cassiano Ricardo, as experiências do Ferreira Gullar de Luta Corporal, os lances da ocupação do espaço em branco do surrado Mallarmé e até – para pasmo do distinto público – do nosso amigo Maiakovski que, acredito, jamais foi conhecido pelas posições gráficas do poema em função da página. Selva Selvaggia é isso e não é isso. São 86 dos poemas que sobraram dos últimos treze anos. De tão velho, meu primeiro livro acabou virando antologia. Acho que, visto agora, suprimiria vários poemas. Mas a coisa está pronta e deixei e deixo como está. No fundo, uma catarse, um alívio por vê-los abandonando a gaveta.

 


Jornal Cataguases/Espaço Social

Cataguases, agosto de 1976  

Selva Selvaggia é sucesso

“Affonso Romano de SantAnna, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Scliar, Celso Japiassu, Erthos Albino de Souza, Mauro Gama, Nélida Piñon, Paulo Rónai, foram algumas das quase quinhentas pessoas que já adquiriram pelo reembolso postal o livro “Selva Selvaggia”, de Ronaldo Werneck.

O professor Rogério Ruschel (PUC/Porto Alegre) dará uma aula sobre estratégia de marketing, utilizando como base a carta-propaganda que o poeta cataguasense distribuiu entre os leitores”.

Ao comprar o livro, Affonso Romano de Sant´Anna mandou mensagem para o poeta: “Ronaldo: KEEP the (R)humor. Affonso”. Ele publicaria logo depois ótima resenha sobre Selva Selvaggia na Revista Veja.

Na Folha de S.Paulo, em 17.09.76, escrevia Luiz Carlos Maciel: “Está nas livrarias mais um belo livro de poesias: Selva Selvaggia, de Ronaldo Werneck, um poeta, acima de tudo, contemporâneo, uma sensibilidade afinada com o seu tempo. O livro, que o poeta chama de Cine-Poema, atribuindo-se o “roteiro e direção”, revela não só a convivência do autor com os variados experimentalismos poéticos que assolaram nossas letras nos últimos anos, mas também, e principalmente, uma experiência aguda e atenta do que também significou simplesmente estar vivo nestes últimos anos. Werneck é um poeta cujo amor pela palavra contamina o leitor. Recomendo.”.

 

Minas Gerais/Suplemento Literário 

Selva Selvaggia: Um cine-poema de Ronaldo Werneck

Com este título, o “Suplemento do Minas” reproduzia na página 2 a capa do livro e, na íntegra, o prefácio assinado pelo poeta Francisco Marcelo Cabral. (Belo Horizonte, 21/08/76)

O poeta-crítico Moacy Cirne registrava em 1976 no º 6 da Revista de Cultura Vozes: Selva Selvaggia, de Ronaldo Werneck. Poemas discursivos para-concretos e poemas gráfico-visuais (entre os quais, alguns poemas/processo). O livro é apresentado como um cine-poema, dividido em 10 sequências, sendo que o argumento foi “extraído de fatos vivenciados pelo poeta no eixo minas-bahia-rio, entre 1962 e 1975, e de outros lidos, vistos, consumidos: pelo telstar, pela tv, pelo cinematógrafo, sem ordem cronológica”. Os melhores momentos são visuais: himeneu, libertarde e mass media. Mas há alguns bons momentos para-concretos: asfalto: trilogia é um exemplo. Outro exemplo: tropegal canto para gal costa. Recomendamos”.














Em 04.07.76, no jornal O Globo, escrevia Marcia Brito: “Neste cine-poema, a poesia vive uma odisseia no espaço. Selva Selvaggia não é o título de mais um livro de poesias, mas sim o nome de um cine-poema. O roteirista e diretor extraiu o argumento desta edição de fatos vivenciados por ele mesmo no eixo Minas-Bahia-Rio, entre 1962-1975, e de “outros lidos, vistos, consumidos – pelo telstar, pela tv, pelo cinematógrafo”. Essa a proposta de Ronaldo Werneck, que sem dúvida alguma suou e sofreu para compor seus poemas – “na rua, na cama, no teclado da máquina, subitamente dentro de um cinema”.

“Ronaldo Werneck é um poeta “amadurecido” em barris de carvalho. Seu poema é uma dose dupla de batida de limão misturada com muitos copos de cerveja, duas vodcas e vários uísques. A quem brinda? A Oswald de Andrade, Fellini, Mallarmé, Jorge de Lima, Mário Faustino, João Cabral, Maiakovski, Camões, e.e. cummings e muitos outros. O que brinda o poeta? A palavra e o homem.

“O poeta encerra a sequência cinco com o poema-processo “Pop/lar” – um poema eletrodoméstico social onde aparece uma página de jornal anunciando uma liquidação de geladeiras, aparelhos de tv, liquidificadores, fogões, bicicletas, enceradeiras. Na mesma página, a notícia – “O mundo é macio e perigoso” – é o título do poema-texto, que tem como ilustrações fotografias de crianças rindo e correndo de felicidade. Neste poema-texto Ronaldo mostra em versos como vê a realidade social deste mundo macio e perigoso. – Uma canção de espera/ uma canção de esperança/ ancião/ ânsia/ canção/ anunciação/ retribuição/ risos/ grunhidos/ febre/ vômito/ de esperança/ é o mundo/ que te anuncio.

 




 



Em Recife, Iran Gama publicava no Jornal da Semana/Cultura & Tempo (15 a 21/06/76): “Ronaldo Werneck, no Rio de Janeiro, lança Selva Selvaggia (1976), livro que obedece a uma programação visual ampla, onde a tônica maior é a crise do homem moderno e suas incongruências, a crítica social de sentido reparador, que põe o homem diante de si mesmo. Rotulado de cine-poema pelo autor, o livro obedece a um roteiro estético inteligente e sem suavidades, um plano geral de montagem, onde desfilam desde haicais a textos concretistas e práxis, passando por poemas-processos e foto-montagens, numa mistura picante, demonstrando que o poeta escolheu um caminho, no qual se desdobra na procura de novas formas. Veja-se o poema de Werneck, extraído de “Selva Selvaggia”, que estamos publicando:



No Rio, ainda em 1976, em longo artigo intitulado “Poesia pelas brechas”, ilustrado pelo poema visual Caca is Caco, de Ronaldo Werneck, o crítico Wilson Coutinho registrava na coluna Tendências e Cultura do Jornal Opinião: “Extremamente bem cuidado, o livro Selva Selvaggia, de Ronaldo Werneck, se define como cine-poema. Tenho a impressão de que a poesia visual acabou encontrando seu verso de ouro”.

 

 


 





 

Diario ABC Color de Asunción

16 de agosto de 1977 – Assunção – Paraguai

"Ronaldo Werneck estuvo por Asunción con la carga de sus versos, con su condición de poeta, que le permitió conocermos de ese modo especial que ellos tienen para acceder al descubrimiento de las cosas, de la gente.

"Nacido en Matto Grosso (sic) en un día de octubre de 1943, Ronaldo Werneck es autor de un libro sumamente original, Selva Selvaggia, inspirado en la Divina Comedia, de Dante, y por supuesto en el Infierno. Decimos por supuesto, porque solamente ese capítulo podía interesar a un hombre como Werneck tan joven, tan cordial tan humano.

"En su libro figuran todos los seres humanos y las cosas de nuestro tiempo. Ellos son los protagonistas, los hombres, las mujeres, el cine. Los primeros algunos con sus nombres proprios y sus circunstancias. El libro fue publicado en 1976 en Rio de Janeiro y es su primera obra, pero desde luego que poemas suyos aparecieron en diarios y revistas de su país y del extranjero.

"Ronaldo Werneck pertenece al grupo concretista y dirige un suplemento literario Tótem, del diario Cataguases, de Minas Gerais. En este Suplemento el recoge la ingente obra que sus compatriotas están realizando en el campo de la poesía".

Rubem Fonseca

Carta ao poeta: Rio, 13/10/77

Prezado Ronaldo Werneck: recebi teus admiráveis livros “Pomba Poema” e “Selva Selvaggia”.

Muito obrigado. Enquanto houver poesia

                                                                                    death shall have dominion,

como dizia o poeta Dylan (o que não tocava guitarra).

Um forte abraço. Rubem.

 

Hugo Pontes

Suplemento Literário Minas Gerais, BH, 04.11.78

Há tempos, Ronaldo Werneck tem-nos dado algumas obras de fôlego. Entre elas destacamos o livro Selva Selvaggia, cine-poema cuja montagem revela-nos autênticas tomadas de câmeras com olhos eletrônicos voltados para a imagem, a cor e o som, dentro de um espaço que é a folha de papel, virgem, aguardando revelação. Em 1977, centenário de Cataguases — cem anos de vida e cultura — Ronaldo lança sua moderna epopeia sobre Cataguases — pomba poema. (...) Como se estivesse filmando sua cidade, o autor, auxiliado pelas fotos de Adriana Monteiro, faz tomadas verbais dignas de um grande cineasta com suas câmeras.

Sua desenvoltura, sabendo fazer uso da palavra, faz-nos ver Cataguases com seu povo e suas ruas num mundo entre o útero e o átomo; mostra-nos o menino descalço dentro de um jato chupando jabuticaba e num carro de bois sonhando com a Lua. Em gritos de desespero e acordes “samboleantes”; entre a luz e a sombra; entre o mar e a montanha Werneck compôs sua epopeia a Cataguases interrogando e questionando toda uma existência na qual o sabor da maçã não é tão revelador quanto o aroma que exala.





Na Tribuna de Santos, Francisco Teixeira Rienzi publicava em 27/08/78: Selva Selvaggia, uma edição graficamente bem cuidada, nos revela um itinerário poético estruturado à maneira de um filme (ressalte-se uma citação de Glauber Rocha logo no início), para onde convergem todas as informações possíveis da moderna poesia: as vanguardas, do concretismo ao poema-processo, com alguns leves toques, embora em menor escala, da poesia práxis. Em outros poemas constata-se que Ronaldo Werneck é um bom ouvinte de música popular. Mesmo quando há traços mais lineares, a criação de imagens poéticas obedece a uma superação do meramente descritivo, não é a poesia do princípio-meio-fim tradicionais, encontrável em boa parte de nossos poetas consagrados ou naqueles rotulados de “participantes” que, no mais das vezes, apenas nos dão um produto reacionário e envelhecido. Na maioria dos poemas integrantes de Selva Selvaggia, as palavras soltas no branco da página, ao invés de se constituírem em elementos isolados (no próprio movimento concreto, é bom que se diga, não havia esse isolamento, tão denunciado por seus detratores), formam uma união constelar, possibilitando níveis de leitura alternados.





Em maio de 1978, o crítico Fábio Lucas publicava em Lisboa longo artigo no n.º 43 da Revista Colóquio Letras: “(...) Poesia culta, Selva Selvaggia a cada abertura de capítulo apoia-se num módulo informativo, como se fora um mote. Cada Sequência corresponderia a um Canto, unidade ideológica duma epopeia. (...) Selva Selvaggia é mais que o poema de todos os ritmos. Inclui a herança do experimentalismo dos anos 60. Traz a sedução da rebeldia.”.


Já em julho de 2000, numa série de e-mails, escrevia a grande poeta Maria do Carmo Ferreira, que finalmente teve sua obra editada, numa completíssima e bem cuidada antologia em três volumes (Martelo Casa Editorial, Goiânia, 2025). A seguir, alguns trechos desses longos e-mails enviados por minha amiga Carminha Ferreira.

“Niterói, julho de 2000

Ronaldo, Ontem terminei de reler Selva Selvaggia e O Mar em Min(as), ambos excelentes, maduros, embora com décadas de distância espaço/temporal, e eu me pergunto se os 3 concretos conhecem de perto o que você escreve, vi até certas coincidências em nós dois (nanja essa espuma, virgem verso...) (*) mas a sua vocação espacial nas páginas não é cosa nostra, é coisa muito sua e muito bem réussite. (...) Quem teve o privilégio de conviver com um Humberto Mauro, um Rosário Fusco e um padrinho Geraldo Kneip (fiquei fã dele) tem mais é que amadurecer sabiamente, sem os protocolos dos sábios do Sião...

(*) Referência à tradução feita por Carminha do poema “Salut”, de Mallarmé, publicada pelo Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, BH, março de 2000)“.

Niterói, 17.07.2000

Ronaldo, sou Ferreira, e não de ferro. Se eu tivesse instrução e verve faria uma matéria sobre os seus poemas-livros de longo fôlego. Sobretudo Minas em mim e o mar esse trem azul... Não tenho, não me cobre isso, por favor, fico emocionada, rateando, engasgada, ultravaidosa e orgulhosa de você ter chegado tão longe e com uma aparente displicência rosariofusqueana de quem faz tudo isso (inclusive filhos, amores, amigos, contatos) com um pé nas costas.  Beato Lei! Como se não bastasse, viaja que Deus dá, sai toda noite, escreve matérias as mais diversificadas todo dia, pra todo jornal e revista que te dê uma brecha, faz conferências pras lindas normalistas, orienta teatro estudantil, que sei eu? Faz cinema, ah faz cinema principalmente quando escreve!






Em 15.09.2005, trinta anos depois do lançamento de Selva Selvaggia, o romancista Luiz Ruffato escrevia no Caderno B do Jornal do Brasil: “Pós-moderno é Ronaldo Werneck, que em 1976 lançou a primeira edição, agora revisitada, deste Selva selvaggia. Que a paixão de Werneck pelo cinema torna-se nesse livro quase obsessão é um fato. Basta tomar seu depoimento – “Selva Selvaggia tem como epígrafe uma ‘tirada’ de Glauber Rocha (...) e foi estruturado como se fosse um filme” – e perceber a presença, além do genial baiano, de Eisenstein e Fellini conduzindo “tomadas”. E toda terminologia nos remete ao universo fílmico: são cortes, montagem, takes, planos, sequências, argumento, cenografia, roteiro, direção.(...)

Mas, é a arte literária que se esparrama em cada recôndito dessas páginas. E, se são vários os interlocutores de Ronaldo Werneck, não o é sua filiação. Ele se forma claramente entre as hostes dos barulhentos bárbaros que questionam o estabelecido, que se rebelam contra o antigo, que se batem pelo novo. Nesse sentido, é no “pensamento concretista” que ele se radica – não no concretismo, mas na “tradição concretista”: Gregório de Matos Guerra, Sousândrade, Oswald de Andrade, Augusto e Haroldo de Campos, no Brasil; Mallarmé, Rimbaud, Pound, Maiakóvski, Cortázar (sim, Cortazar, o ficcionista, o ensaísta), no exterior”.






       Para finalizar essa postagem comemorativa dos 50 anos de Selva Selvaggia, vejam o texto que escrevi em Petrópolis para a orelha do livro em 29 de abril de 1976.





 

 


 

 

 

 

 

 

 



 

 

 




 

 













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