13 de ago. de 2026

 

MORRE CARMINHA, A POETA

MARIA DO CARMO FERREIRA


 

Grande, enorme poeta, minha amiga e conterrânea Maria do Carmo Ferreira (Cataguases, 21/12/1938 – Rio,12/08/2026),  a Carminha, morreu ontem na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, onde estava internada há tempos, com sérios problemas de saúde. Não teve tempo sequer de curtir como merecia a abrangente antologia de sua obra poética em três belos volumes de capa dura, lançada em novembro último pela Editora Martelo, organizada pelos poetas Fabrício Marques e Silvana Guimarães – e vencedora do Prêmio da Academia Mineira de Letras em 2025.

No último novembro, estive em Belo Horizonte para o lançamento dessa antologia da Carminha, ocasião em que gravei um breve depoimento sobre minha amiga, que pode ser visto no link https://youtu.be/4oeMWo_P9rg?si=YRgEUKGLK0-iD_E3.

Carminha é uma poeta que precisa urgentemente ser lida. É das grandes, reafirmo. Na contracapa do último dos três volumes da Antologia, há o fragmento de um texto meu sobre Carminha: "Jogando habilmente com suas palavras-malabares, ela é uma poeta das melhores. Inexplicavelmente inédita em livro. Os leitores terão agora a oportunidade de conhecer e se espantar a cada página com os instigantes poemas de Maria do Carmo Ferreira. Carminha é poesia e cor-ação: carme, carma, carmim".  

 


 

Cave, carme, carmim e suas pedras de toque, como nesse fragmento de “Essa Menina”:  “Primeiro sem lugar sem rir sem falar/ de um pé ao outro de uma mãe a outra/ alucinando a corda umbilical./ Em posição de estátua/ pulando amarelinha/ fingindo-se de morta/ no nada feito atou sua autonomia.//(...)// Olho-a através do seu ponto de fuga/ no álbum de família./Quem poderia ser? Por quem se pauta?// Passiva de corpo e alma, errando de alvo,/ a menina dos olhos de outra vida.”. 

A seguir, em sua homenagem republico o texto que escrevi para a Revista Eletrônica Chicos há alguns anos.

 

Revista Chicos, 2020

O ENIGMA MARIA DO CARMO/

CARMINHA FERREIRA

Por Ronaldo Werneck

 

Irmã da poeta cataguasense Celina Ferreira (1928-2012), Maria do Carmo/Carminha Ferreira (Cataguases, 1938) é também poeta, e das grandes, apesar de inédita em livro até hoje. Alguns dados de Carminha, por ela mesma: “Maria do Carmo Ferreira, a Carminha, natural de Cataguases, a princesinha da Zona da Mata mineira. Aos 14 anos se tornou poeta por excesso de amor. Morou em Belo Horizonte, São Paulo, radicou-se no Rio por mais de duas décadas e finalmente mudou-se para Niterói. De 1969 a 1973 morou dois anos na Europa e dois nos Estados Unidos, cursando mestrado em Literatura Comparada e lecionou língua e literatura brasileira no Colégio dos Graduados, Universidade de Illinois. Aposentada da Rádio MEC, onde serviu por mais de 30 anos como criadora, tradutora, redatora, produtora e coordenadora de programas literários e lítero-musicais. Tem um livro de poemas inédito, “Cave Carmen”.  

Carminha e eu éramos vizinhos no Rio, quando morei no bairro do Leme nas décadas de 1960 e 70, mas só nos vimos uma vez, quando fomos jurados de um concurso de poesia organizado pela poeta Kátia Bento, que também não vejo há anos. Carminha sumiu há tempos. Soube que ainda anda pelas bandas de Niterói, está sempre na igreja e só fala com Deus e mais ninguém.  Em 1978 escrevi um poema a partir de um poema dela que fora publicado no ano anterior pelo Suplemento Literário Minas Gerais. Mas ela só soube disse tempos depois, quando desenvolvemos longa troca de emails no ano 2000. Os dois poemas, o meu e o dela, vão a seguir, junto com alguns desses e-mails que ela me mandou na ocasião, na verdade poemas sob a forma de emails, verdadeiros “poemails”. Logo depois, ela sumiu de novo, e não nos falamos desde então. Todos os meus poemas que ela cita nesses “poemails” a seguir estão em meu livro “Revisita Selvaggia”, que seria publicado em 2005.

 

A Quem Interessar Possa (*)

Uma pessoa

do sexo

feminino

38 anos

1,65

66 kg

sem lar

sem filhos

sem família

sem negócios

sem esperança

com 108 contos

na poupança.

 

Garante que possui

matéria-prima

para literatura

teatro

baby-sitter

trabalhos manuais.

Gosta de música.

Chega a tocar

de ouvido.

Conhece inglês

e línguas neo-latinas.

É boa datilógrafa.

Cozinha o trivial.

Prefere a natureza

à vida na cidade.

Amor, quase não faz

porém se adapta sem-

pre ao item men-

cionado.

 

Falta-lhe alma

um sopro que a reanime.

Se veleidades tem

é de sentir-se real.

Vive

por força

de viver

mas corre o risco

de se deixar morrer

sem que se dê

POR ISSO

oferece-se a quem

interessar possa

uma coisa

uma causa

uma pessoa

alguém

um problema social:

o caso dessa moça.

 

Maria do Carmo Ferreira

Publicado no Suplemento

Literário Minas Gerais em 1977

 

(*) Poema que motivou o meu “Esse Moço”

 



Esse Moço

Feroz a um breve contato,

à segunda vista, seco,

à terceira vista, lhano,

dir-se-ia que ele tem medo

de ser, fatalmente, humano

Drummond

um pouco à maneira e para 

maria do carmo ferreira (1)

 

do sexo masculino

uma pessoa

por todos prezada

um bom menino

se apresenta

esquivo

sem bossa

a quem interessar possa

só sozinho

entre todos

um mistério

um troço

um caso sério

o desse moço

 

amar

ama

na rua

no mar

                                          na cama

amar

ama

oferta seu corpo

a meninas

e mulheres-dama

 

amar

ama

 

mesmo fora

da cama

 

tão de dentro

tão fundo

como se gemendo

envolvesse o mundo

 

tudo e todos

saltam do peito

do mais profundo poço

dando forma e fundo

a esse moço

 

pássaros neutrônicos

elefantes levíssimos

patinetes em pânico

balões de neon

nada igual

 

pipas ensandecidas

bolas de gude

num vôo orbital

                                      

                                       entre eros e tanatos

decepado

entre fobos e deimos

largado

 

ao mar

por malasorte

habitado

 

nau

do ocaso

vau

frágil

vendaval

                         em vão

 

duro osso

esse moço.

 

 

Ronaldo Werneck

Rio, 1978

 

(1). Em 1978, o Suplemento Literário Minas Gerais publicava o poema “A quem interessar possa”, de Maria do Carmo Ferreira. Fiquei impressionado com o vigor da poeta, que desconhecia. Escrevi este poema em sua homenagem e absolutamente influenciado por sua dicção.  Só mais tarde soube que ela era minha conterrânea e até mesmo vizinha, no bairro do Leme no Rio.  Ficamos amigos, mas nunca lhe mostrei o poema, que acabou inédito. Carminha só soube dele quase vinte anos depois, ao visitar meu site na internet.

 

V(end)e-se

Ser feliz é ser outro em algum lugar

Abgar reinou!

 

Rende-se

ao saravá/saraivada

metralhadora assestada

de Ronaldo/Ronaldim:

é doido (nasceu assim?).

Como foi que não dei conta

e nem me dou por achada

se sair deste embolada

eu que conheci Vinicius

de Poética & outros vícios

nos quais revejo você

mas pra quem quiser saber

estoy contigo y no abro,

por supuesto, en la distancia,

pra lá de Gabo y Cortázar

Lesama Lima y naranjos:

debaixo de um pé-de-manga

de manga-espada e de ubá

quero mais poder contar

a quem não sabe e não viu

que o verdadeiro ronaldo

(ronaldinho do Brasil)

é werneck – e está na Bíblia:

werneck-melquisedec

cujas oferendas são

muy gratas à divindade:

primícias de vinho, pão...

e poesia de verdade!

P.S.

Era um dia era um dedo era um dado

falo o que sinto & o que sei:

não sou de mandar recado.

Era um dado era um dedo era um dia:

Tu, Lampião? Eu, Maria

(ou Carminha do Ronaldo?)

Era um dia era um dado era um dedo

melhor que tu não topei:

não sou de fazer segredo. (1)

 

Maria do Carmo Ferreira (2)

Niterói, 11.06.2000

 

 

1. Eis que, por emeio, rebato à provocação, em tom meio tonitroante. E se for cum dez pés lá vai: “nos dedos noite-dia aveludados/ reluz tua voz dado-diamante/avante, luz!, sus, sons atordoados”.

2. Maria do Carmo/Carminha, irmã de Celina Ferreira: queridas e sumidas. Duas grandes poetas de Cataguases.  Aparecer/desaparecer parece hábito antigo da poeta, como se vê por esta declaração de Décio Pignatari ao Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, 05.03.2000): “Há mais de 30 anos entusiasmei-me e publiquei um poema dela (“Meretrilho”) na Invenção (revista criada pelos poetas concretos). Sempre gostei de seus poemas e sempre fiquei esperando mais. Quando surgia um novo poema de Maria do Carmo, eu me interessava. Mas ela aparecia e desaparecia, brincando de esconde-esconde com a poesia e com o público. Cada palavra que escreve quer dizer alguma coisa. Ela tem um jeito moderno, forte e agressivo”.  O poema a que Décio se refere, “Meretilho” era “da pá-virada”, um caótico suceder de chocantes palavras-valise em permanente atrito, e que fechava com o quarteto “moscamenisca/meningepúbia/vagipenísola/clitórisputa”. Uma coisa. Ao receber este poema de Carminha, ainda atônito, agradeci com esta surrealista sextilha: “na dobra da manhã/ o céu desanoitece/ e o poeta se curva/ rápido e agradece/ palavras tão louçãs:/ rubor de guarda-chuva”. Jogando habilmente com suas palavras-malabares, Carminha é uma poeta e tanto e no entanto, e inexplicavelmente, inédita em livro. Vejam o poema a seguir e a montagem de “poemails”, pedras-de-toque que rolam, punti luminosi de uma intensa troca eletrônica em meados do ano 2000, após 20 anos de silêncio. Grande poeta, grande talento, grande tradutora. Vejam como ficou o Mallarmé do célebre solitud, récif. Étoile by Carminha: “solidão até – atol – estela”. Salut, “de porre mas de pé: tintim!”.   Pura transcriação. Depois, ela trancou-se de novo em copas, ou em capas de ypacaraí & never more. Rosa, rosácea, carmim, “where are you, polly maggoo?” Onde? Onde anda, por que banda, ó Car´mina Bu(saga)rana?

 

 

Suíte Carmeletrônica: poemails

09 junho 2000/21:58h

Ronaldim

des´en´contra´do

há tantos anos

de mim:

chorar

recua duas casas?

sorrir

avança três? (1)

Me dê sua mão agora:

vou me lançar de

skyflier

kamikase

aqualouca

pra ver se alcanço

você!

 

P.S.

Depois que te li, agorinha,

recuei 20 anos e um mês!

Carminha

 

P.S. 2

em tempo

deu morrer

sem saber

o puta enorme

poeta

que é você

no lastro de um

Vinicius

a Bandeira:

pai, sou;

poeta, sim;

a quem in-te-

ressar possa (2)

ou pre-cisar

de mim!

Avoé, Avoengo

Pai de Ulla & Pablo

e meu padim!

É você, Baco!

Ai de carmins!

 

1. Menção ao meu poema “No Rádio/Na TV/Veja Você”. 

2. Carminha refere-se a um trecho do poema “Esse Moço”, que lhe dediquei nos anos 80.

 

22 de junho 2000/23:27h

 

Ronnydeans: si vous voulez ancim,

seus e-mails, doces pra mim, são hieróglifos,

em grego e latim.


Você me lê aos trancos e barrancos,

Depois toca a perguntar de novo,

Ab ovo. (1)


Si lo que hablo no me lês,

pregunte al Pablo, (2)


Aranjuez,

já basta o desconcerto

do mundo (3)


sem fundo de olho

(pergunte ao Chico) (4)


e não me venhas de lá,

como o Cagiano, (5)


com fícus, oitis,

palmas imperiais.

Eu sou do tempo das acácias,

verídicas (ou virtuais?),

gregas, medas, semitas,

nem sei mais.

E feliz por feliz

antes em Paris,

catanga, ocê? (6)


catando o quê?

Miçangas, não tem mais...

Acácias reais, no más.

Fico com a Espanca,

flor bela entre as demais,

carnívora, incestuosa,

tudo o que se permite

e iu

a que ousava o que disse

(ninguém sabe, ninguém viu)

la prima entre fra ternos

arroubos juvenis...

Mas, xarpalá, (7)


que temos nós com iis?

Já Camões, ah Camões,

salvou seu manu´scrito

mas morreu Dinamene

que foi sua musa e mito,

mas não mais favorita

do que o livraço seu.

Para que você me ouça,

e me desafie a galope

ou martelo,

eu antes salvava a moça

e deixava ir pro inferno

ou profundo do mar

le livre... esse flagelo

por quem passou fome

e frio

sem cuidados sem cuitelos

no exílio desse inexílio (8)


sempiterno.

Mas virando pro Rimbaud:

peguei do Fabrício (9) um mote

e aqui vai, ou eu vô:

 

RIMBAUD ET L´AIR

 

Poeta sou

mas pelo avesso.

Cheguei ao extremo:

não faço versos.

 

Verti ao olho e al dente

uma estação no inferno.

Não vou nessa de Dante:

 

É sem acompanhante

que trafego

pelas profundas de mim mesmo.

 

               ***

E como me disse o Chico

cheio de cabeça e mãos:

O coração, sem-razões,

É o único a ter razão.

 

E mais não digo ou desdigo

Se não for a sós comigo.

Fica o não dito por dito

Que, desdita, não re´pito!

 

Com Deus, J.Joyce, digo, J.Deans

Ronny Deans, Ronalwinnwnner!

um carma, um carme, um carmim

 

 

1. Eram emeios, emeios, emeios sem ter fim. Carmim não dava tempo pra mim.

2. Meu filho Pablo

3. Referência a uma peça teatral que escrevi: “O Mundo em Desconcerto: Camões a Florbela Espanca”, encenada no Museu Chácara Dona Catarina (Cataguases, 2001).

4. O poeta Francisco Marcelo Cabral.

5. O poeta Ronaldo Cagiano.

6. “Catanga” é como sempre brinquei de chamar Cataguases desde o assassinato do líder nacionalista Patrice Lumumba no Congo Belga, em 1961. Talvez pelo que tenha ficado em minha memória do poema de Geir Campos dos tempos do “Violão de Rua” (n.º 1, Rio, 1962): “Patrice negro e congolês Lumumba!/Bambo bambu, molambo/de infinitas bandeiras/no céu da África acesa,/.../em Catanga, em Catanga/colho a estrela madura/ de um sonhar amarelo,/ e em Catanga, em Catanga/ abro a boca da noite/ com  meu grito mais belo”.  Como no Congo, também em Minas, na Zona da Mata dos anos 60, havia grandes escaramuças, pelo menos no futebol, entre as por mim denominadas cidades de Cataguases/Catanga e Leopoldina/Leopoldville.

7. Palavra-valise by Carminha (deixar parlar/deixa falar/deixa pra lá) que adaptei como “xaparlá” para o poema “Catar-se”, dedicado ao Francisco Marcelo Cabral, a ela e a mim

8. Referência ao poema-livro “Inexílio”, de Francisco Marcelo Cabral.

9. O poeta Fabrício Marques, que organizou o número especial do Suplemento Literário do Minas Gerais (Belo Horizonte, março de 2000, n.º 57), quase que exclusivamente dedicado a Maria do Carmo Ferreira.

 

Werneck´s Riverruns

 

Menino dentre os doutores

não caminha sobre as águas.

As águas é que se aninham

entre as linhas de sua mão

em mil pequenos lavores

de cortejos espaciais

e amores mais-que-perfeitos:

Menino do Rio Pomba

que traz mais pontes no peito

do que garças nos beirais.

Meia-pataca entrevista

a um privilegiado olhar

que jamais outros veriam

pois não voltara a se dar.

Pai, amigo, poeta, irmão

sem se saber quem precede

pela simultaneidade:

o espírito? o coração?

afetos? inteligência?

Vocação pela existência:

viver e deixar viver.


Dura, Ronaldo Werneck,

neste terno, quadra, quina

de quem tirou sorte grande

por te conhecer aos trinta

rever-te aos cinqüenta e sete

com a mesma pinta que nina

(Santa Maria!) o moleque!

Maria do Carmo Ferreira

Niterói, 17.07.2000

 

 

Maria do Carmo Ferreira

Por email – Trechos

Niterói, julho de 2000

17.07/ 09h54

 

Ronaldo,

Ontem terminei de reler Selva Selvaggia e O Mar em Minas, ambos excelentes, maduros, embora com décadas de distância espaço/temporal, e eu me pergunto se os 3 concretos conhecem de perto o que você escreve, vi até certas coincidências em nós dois (nan ja essa espuma, virgem verso…)¹ mas a sua vocação espacial nas páginas não é coisa nostra, é coisa muito sua e muito bem réssiste. (…) Quem teve o privilégio de conviver com um Humberto Mauro, um Rosário Fusco e um padrinho Geraldo Kneip (fiquei fã dele) tem mais é que amadurecer sabiamente, sem os protocolos dos sábios do Sião…

¹. Referência à sua tradução do poema “Salut”, de Mallarmé, publicada pelo Suplemento Literário Minas Gerais (n.º 57, Belo Horizonte, março de 2000).

17.07/16h33

Ronaldo,

sou Ferreira, e não de ferro. Se eu tivesse instrução e vervê faria uma matéria sobre os seus poemas-livros de longo fôlego. Sobretudo Minas em mim e o mar esse trem azul… Não tenho, não me cobre isso, por favor, fico emocionada, rateando, engasgada, ultravaidosa e orgulhosa de você ter chegado tão longe e com uma aparente displicência rosariofusqueana de quem faz tudo isso (inclusive filhos, amores, amigos, contatos) com um pé nas costas. Beato Lei!

Como se não bastasse, viaja que Deus dá, sai toda noite, escreve matérias as mais diversificadas todo dia pra todo jornal e revista que te dê uma brecha, faz conferências pras lindas normalistas, orienta teatro estudantil, que sei eu? Faz cinema, ah faz cinema, principalmente quando escreve!

22 julho de 2000/17:14h

 

                        Roneck

meu anjo

Rô Rô

Você me provocou:

“Quem mais, oh menina,

quem mais me alucina,

quem mais,

de ter mina”

(o coração

nas mãos

– haj´as´as –)

sob os pés?

 

Nem herpes

pé-de-atleta

joanete

cravo (calo)

me afeta

quando escarvo

touro desembestado

o solo em que nasci:

sou mercúrio ligeiro

hermes o mensageiro

tarzan pós-tudo

empós

da mata onde campeio

princesinhas

              na zona (1)

emails greeting cards

cariocas

lys-do-campo

sites links relâm/

pagos

hologramas poéticos...

Ainda, peri-patético,

atravesso os brasis

pondo os pingos

nos iis

e ocupando

              meu espaço

até que o dia grame

comme il faut, como o fiz

do tell (star) catanga

urbi et orbi

e tal:

da taba onde soul rei

(geo´grafia: sorrio)

cacique catauá

para a aldeia global.

 

Car´mina Bu(saga)rana

 

1. Cataguases é também conhecida como a “Princesinha da Zona da Mata”.  Um dia, num programa radiofônico, saí com uma brincadeira idiota. Falava-se que a mata estava em extinção. Bati firme: “Se mata não há mais, nem mesmo cataguais. Sem mata, ela vira ´Princesinha da Zona´, uais!”.  Logo depois, me redimi. E para sempre. Hoje, só chamo Cataguases de “Paris da Zona da Mata”. Não há controvérsias.

26 de julho de 2000/04:08h

                                  

 e agora, num tête-à-tête,

seo Werneck, me responda

sem tirar casquinha

em onda minha

por que a prosa do Rosa

e tã pedregosa?

 

Com este, eis dois claros enigmas

que lhe proponho,

era um era dois era três

que vou dormir de vez, e tome-o:

 

A flor com que a menina sonha

está no sonho ou na fronha?

 

Vai, segue em paz, figlio, amoroso giglio,

Rô da Rua,

Do vento, do tempo, do frio,

Das altas madrugas,

Um deus dormiu lá em casa

(teatro, tradução de um figueiredo)

um poeta em cataguases

dorme onde jazem os seus

(primus inter pares)

já nem dorme

alucina

sem porre, na porrada,

e em sua lazy mir´hada

me ilumina:

benza-o Deus!

                                                              q.q.isso, meu?

 

28 de julho de 2000/06:49h

 

Agora amoito, anoito:

De manhã escureço

de dia tardo

de tarde anoiteço

de noite ardo.

Do teu sósia em poesia, quer mais?

Menino, me bota um verso

Bem cheio de comoção:

Era uma vez um poeta

Mas não digo o nome não.

Tantas fez que a dor de corno

atirou ele no chão

machucou ele nas pedras

espremeu seu coração.

Que pensa usted que saiu?

Saiu cachaça e limão.

E assim caminha a humanidade.

Em ritmo de mango tree, poe!

Não vou perguntar nunca mais

Por que calou o bico.

Agora sou Dialógica:

- Como vais?

- Comovida!

Comoção as tuas garotas de Ipanema (1)

É ou não é coincidência com o meu

Oldfashion poemiseta?

Até mais longe, além muito além daquela serra

Que ainda azula no horizonte...

Carminha

1.  Referência ao meu poema “Verão”


Meia-Pataguá

 WERNECK/CAGIANO:

ESTE MANO-A-MANO

VAI DAR QUE FALAR.

QUERER DE VOCÊS??

QUEM VI VERVER AH

Q SERTÃO É TANTOS

DONDE (QUI SABRÁ?)

YA NO VUELVO MÁS!

 

MI BOLETO, AMIGOS,

NOTIENE-REGRESOS:

FIZ AS PAZES, SINTO,

CO’UM PASSADO EX-

TINTO, MAIS DE SAN-

GUE E CORTES - QUE

NÃO CICA/TRIZ/AM Y

NEM ME DE\MO\VEM.

 

Q’EROS GANG NOVA

CORRENDO N/AVEIA

E RON/ALVOS OVOS

PARA A MINHA CEIA

CHEIA DE CARÊNCIA

NESTE XEQUE-MATE

Q NÃO DESSEDENTA

TAL FOME DEVERDE!

 

Maria do Carmo Ferreira

Niterói, julho 2000