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14 de dez. de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 2

A morena foi embora 



Morto recentemente aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar (São Luís do Maranhão, 10.09.1930; Rio de Janeiro, 04.12.2016) gostava de dizer que muitas pessoas se enganavam ao vê-lo na janela. Nem sempre ele estava olhando a rua, a paisagem – mas sim trabalhando em algum poema. Gostava também de mencionar o episódio de um economista que conheceu durante o seu exílio no Chile dos anos 1970. O sujeito namorava linda morena, que sempre trazia a tiracolo, e seu assunto era só economia, economia, economia. “Um porre”, dizia o poeta. Até que um dia a morena deixou o gajo e ele apareceu meio transtornado e só falava poesia, poesia, poesia. Para o “espanto” de Gullar, ele sabia de cor poemas de Eliot, de Shakespeare, de Whitman e outros, e outros.
Foi quando Gullar se deu conta (antes dele ter descoberto a palavra “espanto” como espécie de motor de seus poemas) de que “a poesia vem quando a morena vai embora”. O samba de Ataulfo Alves parece ter acertado na mosca para autenticar o “surgimento” da poesia pelo poeta: Pois é/ falaram tanto/ que dessa vez/ a morena foi embora./ Disseram que ela era a maioral/ e eu é que não soube aproveitar./ Endeusaram a morena tanto tanto/ que ela resolveu me abandonar. Não sei dizer quantas morenas foram embora da vida do poeta, se é que foram. O que sei é que a poesia às vezes demorava, mas quando vinha era quase sempre de alta qualidade.
Encontrei-me com Gullar poucas vezes nessa vida, quase sempre em seu apartamento de Copacabana, na Rua Duvivier. Lembro-me de uma delas, meados dos anos 1990, quando lá estive ao lado dos poetas Francisco Marcelo Cabral e Suzana Vargas. Gullar iria se apresentar dias depois no CCBB; melhor, apresentar-se com seus poemas-objeto num evento realizado por Suzana. Levamos uma câmera, a do próprio Francisco/Chico Cabral, e um cameraman improvisado, no caso eu mesmo. O poeta dispôs seus poemas na grande mesa da sala e começou a discorrer sobre eles, enquanto eu os enquadrava com a câmera quase em close, passeando em lento travelling sobre sua obra. A coisa ia caminhando bem, até que foquei um poema estranhíssimo, escuro, mais que escuro, preto; mais que preto, pretíssimo e em movimento, com num súbito fade-out.


“Essa é boa – cheguei a pensar – um poema em movimento, um Malevich às avessas: não white on white, mas black on black. Um espanto: sem dúvida a poesia vem do espanto, como diz Gullar”. Antes que me espantasse de vez resolvo tirar o olho do visor e me deparo com o gato de estimação de Gullar passeando preguiçoso, manemolente, sobre os poemas. Brinco com Gullar: “ele é seu melhor poema, pelo menos quem parece compreendê-los melhor”.
O poeta mineiro Francisco Marcelo Cabral, meu saudoso amigo Chiquinho Cabral, me contou certa vez que costumava frequentar nos anos 1950 o apartamento que o maranhense Ferreira Gullar dividia no Rio, na rua do Catete, com o jornalista paraense Oliveira Bastos e com o cronista capixaba Carlinhos de Oliveira.  Amigo de Oliveira Bastos – que foi secretário particular de Oswald de Andrade, além de ter participado do famoso Suplemento Dominical do JB e também ser quem “aplicou” a poesia de Sousândrade nos irmãos Augusto e Haroldo de Campos –, Chico Cabral assistia e quase sempre também participava das longas discussões de “alta cultura” do jornalista com o poeta. Discussões só interrompidas para dar passagem ao barulho infernal de algum bonde que zunia em seus trilhos ali embaixo da janela – e que eram retomadas logo depois, no mesmo e altíssimo tom. A um canto, Carlinhos Oliveira, recém-chegado ao Rio, batia com as mãos na cabeça clamando aos céus: “Gente, como sou burro! Não estou entendendo nada!”.
Quando se mudou do apartamento, Gullar escreveu o “Poema de adeus ao falado 56”, dedicado a Oliveira Bastos e J.C. Oliveira, com passagens como: “Sexta-feira parto/ até outra vez/ Fica de nós, o quarto/ Fica de mim, vocês// (...)// Homens de dia dúplice/ temos um sol verbal/ além desse sol cúmplice/ da guarda-pessoal// Sol que se acende, moço,/ da boca de quem lê/ fogo-fátuo do osso/ do velho Mallarmé// (...)// Meu anjo da guarda não/ levo; livro-me enfim/ desse que como um cão/ me protege de mim.// Deixo-o para a casa/ varrer e defender,/ e sumir sob a asa/ o que quer se perder:// o telegrama, o prato,/ o pente, a citação/ erudita e o vão/ vocábulo exato”.
Avenida Copacabana, 2001. Um meio-dia de sol. Um poeta vem do Leme. O outro pro Leme vai. Um não viu o outro, nem o outro o um. Tamanho o calor e o caminhar, que só depois me dou conta da figura de Gullar. Vem do espanto a poesia: Saberá que, no centro/ de seu corpo, um grito/ se elabora?/.../ Grito, fruto obscuro/ e extremo dessa árvore: galo/ Mas que, fora dele/ é mero complemento de auroras.


O Poeta na Praça
para Ferreira Gullar



findo o seu cantar
                                                                      manhã já no meio
                                            o galo-gullar
                                                        não cisca
                      antes
                                 levanta a crista
                                                            e logo ei-lo
                                                                        esguio
                                                         elegante
                          pela praça do lido
                                                     ereto e no prumo
rumo-leme
                        passa apressado o poeta
                                                                       – ZÁZ!
                                               esbaforido
                                                                       o poema bufa atrás
                        – a poesia freme



Ronaldo Werneck
Rio, 2001




Continua na próxima semana

10 de jan. de 2017

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 5

Pomba Poema sujo  




    “A experiência da poesia é hors-concours./ Aterro no Poema Sujo. Meto o dedo no cujo:/espirra luz.// (...) Navegar na poesia: reduzir, redundar.../ Em Ferreira Gullar as nuvens nuvem./ Murilo Mendes manda o luar luar”, escrevia em 1982 Carminha Ferreira, a injustamente esquecida poeta mineira Maria do Carmo Ferreira, até hoje inédita em livro. O poema de Ferreira Gullar marcou época – e Gullar, o poeta, foi objeto de várias controvérsias, como se percebe no texto a seguir, publicado por meu amigo, o também poeta e jornalista Carlos Ávila, em sua coluna na Revista Eletrônica Dom Total.
    “Segue-se o Poema sujo, de grande repercussão. Tenso e intenso – uma espécie de suma poético-autobiográfica –, mas longo e desigual (como a neobarroca Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima), esse poema é considerado o ponto alto da produção de Gullar: “vozes perdidas na lama”. Poema Sujo ganha muito quando lido pelo próprio poeta (há registros em CD e DVD) – possui uma dimensão oral, a presença do ritmo da fala na escrita. A morte de Gullar é a morte da poesia-espanto, do poema sujo de vida (e – por que não? – também de morte). Contraditório – estética e politicamente –, com seus altos e baixos (o que levou este colunista a nomeá-lo, oswaldianamente, ´IrreGullar´, num comentário anterior), o poeta maranhense criou uma poesia única, suja de lama e de alma – entre as mais significativas da segunda metade do séc. 20 no Brasil”.
    Gullar começou a escrever o Poema sujo em maio de 1975. Ele achava que seria o derradeiro poema de sua vida, já que vivia exilado e sem passaporte (negado pela Embaixada brasileira) numa Buenos Aires às vésperas do golpe militar e sem ter pra onde ir, rodeado por uma série de ditaduras em grande parte da América Latina. Não sabia como iria desenvolver o poema, que começa a sair (“vomitado”, segundo ele) de modo estranho e sem sentido, para espanto do próprio poeta: turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro/ escuro/ menos menos/ menos que  escuro/ menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo/ escuro/ mais que escuro:/ claro...”. Mas Gullar deixou a abertura assim, incompreensível até mesmo para ele. O poema só teria seu real começo à frente: um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.
    E se encadearia na sequência “modernista”, como fala de dicção cotidiana – e flutuaria na cabeça do poeta e em sua escrita incessante, como febre, obsessão, por quase sete meses: eu não sabia tu/ não sabias/ fazer girar a vida/ com seu montão de estrelas e oceano/ / bela bela/ mais que bela/ mas como era o nome dela? perdeu-se na profusão de coisas acontecidas// (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma?/ / quanta coisa se perde/ nesta vida// Como se perdeu o que eles falavam ali/ mastigando/ misturando feijão com farinha e nacos de carne assada e diziam coisas tão reais como a toalha bordada/ ou a tosse da tia no quarto/ e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela/ tão reais que/ se apagaram para sempre/ Ou não?

De tarde, prata. De noite, mata
    Na antevéspera deste Ano Novo, conversava sobre as muitas mangas de dezembro com Dona Alva, avó de minha mulher, Patrícia. E logo me lembrei de minha Tia Carmem-Cacai e de suas superstições: “Manga com leite, manga com banana: é tudo muito perigoso. De noite, então, é morte certa”. Quando falei em banana, Dona Alva logo articulou os versos folclóricos da “maldição” da banana: “De manhã, ouro./ De tarde, prata./ De noite, mata”. O que me remeteu de imediato ao Poema sujo e à sua profusão de bananas podres: Uma banana/ não apodrece do mesmo modo/ que muitas bananas/ dentro de/ uma tina// no quarto de um sobrado/ na Rua das Hortas, a mãe/ passando roupa a ferro/ fazendo vinagre//(...) // e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx –/ ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais/ grosso) que o do relógio/ fazendo vinagre// um rio/ não faz vinagre/ mesmo que um quitandeiro o ponha para apodrecer/ numa tina// um rio não apodrece como as bananas//...//E como nenhum rio apodrece/ do mesmo jeito que outro rio/ assim o rio Anil/ apodrece a seu modo/ naquela parte da ilha de São Luís.



    Hoje, dia 4 de janeiro de 2017, percebo que fiquei um mês exato entregue ao “barato” de escrever sobre Gullar, 30 dias inteiros a contar de sua morte – tomado por meu texto quase como ele por seu poema. Um mês em que passei também como se em transe a falar sobre o poeta com quem, apesar de tudo, tenho afinidades e um curioso rol de coincidências. Como, por exemplo, o fato de ter trabalhado na redação do Diário de Notícias junto com o também poeta Lago Burnett, grande amigo de Gullar desde os tempos de juventude em São Luís. Lago e eu também nos tornamos bons amigos – longos papos sobre poesia e quejandos, não por acaso regados a queijos e cachaças da melhor qualidade numa queijaria ao lado do jornal, na Rua do Riachuelo – e senti muito quando soube de sua morte em São Luís, em 1995. Troquei email com Gullar na época, que se confessou arrasado: “éramos muito amigos, começamos a escrever juntos”.
      Já falei em crônicas anteriores de poemas de Gullar e meus, de tônica assemelhada: Guevara, Vietnam etc. O livro “Toda Poesia”, de 1980, comentado ao longo dessas crônicas, tem capa de meu amigo (e hoje vizinho aqui no prédio em Cataguases), o designer Dounê Spínola, que fizera antes a capa da primeira edição do Poema Sujo, de 1976 (da Civilização Brasileira, meu exemplar tem o nº 712) e, coincidência das coincidências, também de outros livros meus (Cataminas pomba & outros rios, de 2012), inclusive o Pomba Poema, de 1977.  Aliás, foi do Dounê a sugestão para fazermos a diagramação do Pomba Poema no formato horizontal – como fizera a Léa Caulliraux com o livro do Gullar –, o que o tornou ainda mais parecido, pelo menos graficamente, com o Poema sujo. Nessa primeira edição do poema, que tenho em minhas mãos, escreve Otto Maria Carpeaux: “Poema sujo mereceria ser chamado Poema nacional, porque encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. É o Brasil mesmo, em versos ´sujos´ e, portanto, sinceros. Só nos resta sentir com Ferreira Gullar – fraternalmente”.

Polvilho, pedreira, palavras
    Ainda não sabia do Poema sujo, que seria lançado meses depois, quando em janeiro de 1976 me mudei para Itaipu, em Niterói. Certo domingo, numa praia das proximidades, Itacoatiara, comendo o indefectível biscoito de polvilho, meu distraído olhar desviou-se das ondas e fixou-se numa pedreira defronte, com inscrições que não conseguia identificar. Ita-ipu, Ita-coatiara, tudo pedra: polvilho, pedreira, palavras. Tudo remetia a Cataguases: o biscoito de polvilho da infância, as inscrições na velha pedreira: e já janeiro/ bate/ intensamente lá/ nas escarpas/de ita/ coatiara/ ali/ na areia/ frente ao mar/ o biscoito/ de polvilho estala/ na memória/ e sabe/ a padaria cabral/ ao pão quente/ do vitória/ nesse domingo/ azul de itaipu/ surgem são soam/ estranhas/ as palavras/ polvilhadas/ e s p a l h a d a s/ espelhadas/ na pedracoatiara/ remetem a/ itacat'agua'ses/ pomba/ pedra/ palavras grafadas/ a esmo no mesmo/ traço traçadas/ a seco no pó/ emaranhadas/ arranhadas/ na pedra/ no tempo/ esparso.
    Então, ao contrário do poema de Gullar, com seu início “vomitado”, mas que ficou como saiu, o meu surgiu “pelo meio” – um fragmento que só apareceria mais à frente no corpo do poema, deflagrado por aquele proustiano biscoito de polvilho, pura madeleine.  O poema foi tomando corpo aos poucos, mas eu ainda sem saber no que aquilo iria dar: surgia a cidade, a história, a minha história na cidade, a cidade dentro de mim. Até que, já com o poema em andamento, o livro do Gullar foi lançado e vi como parecia com o poema que eu estava fazendo (“o homem está na cidade como a cidade está no homem”). Muitas semelhanças, embora a motivação de meu poema, o que o conduziria a partir de certo ponto (ele acabaria focando o centenário de Cataguases, que se daria no ano seguinte, 1977) não fosse bem a mesma: no Pomba Poema a história da cidade era vista/atravessada pelo rio Pomba, supostamente claro e clean na memória, não pelo rio Anil do Poema sujo, “solidário com a miséria, com a vida suja”, como diria depois Gullar, “apodrecido” em meio à gente humilde e “encardida” de São Luís): Ah, minha cidade suja/ de muita dor em voz baixa/ de vergonha que a família abafa/ em suas gavetas mais fundas/ de vestidos desbotados/ de camisas mal cerzidas/ de tanta gente humilhada.



   Como Gullar, também fiquei um longo tempo (talvez até mais que ele: quase ano e meio) “atravessado”, tomado por meu poema. E desde seu real início, logo depois do episódio da praia de Itacoatiara, só aproveitado mais à frente, foi um só pensar exclusivamente no poema, a exemplo do acontecido com Gullar: nesgas neblina manhã/ ainda agora/ o cheiro da maçã/ evocando a metrópole/ o mundo exterior extraído/ a cada odor & dentada// o mundo além da reta da saudade/ antes das indústrias o mundo/ atolado/ na ponte do sabiá/ há? não há?/ não sabíamos/ não sabemos/não soubemos/ nunca jamais/ estava ali o mundo/ antes do tempo e da ponte/ num repente/ na girândola/ do tempo/ manga/ jabuticaba/ abiu/ explodindo no dente/ mas o mar mar/ telando as pedras/ no meio da luz/ e dia memória.
    “Mas a poesia não existia ainda”, escreveria Gullar em determinado ponto de seu poema. Confesso que me assustei, pois essa ideia estava também em meu poema, quase da mesma forma, embora em outro contexto:
    Poema Sujo – Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade/ sob/ as sombras da guerra// Stalingrado resiste.// A cada nova manhã/ nas janelas nas esquinas na manchete dos jornais// Mas a poesia não existia ainda// (...) Muitos/ muitos dias há num dia só/...//coberto pela sombra quase pânica/ das árvores/ de galhos que subiam mudos/ como enigmas/ tudo parado/ feito uma noite verde ou vegetal/ e de água/ muito embora em cima das árvores/ por cima/ lá no alto/ revelando seu costado luminoso nas folhas/ passasse o dia (o século XX).// (...)  muitos são os dias num só dia/ fácil de entender/ mas difícil de penetrar.
   Pomba Poema – ainda não existia a poesia/ ou antes/ estava/ toda ali/ roubando pães na rua/ do sobe‐e‐desce/ anunciando a manhã/ como o leite/ escorrendo/ circunspecta/ pelo relógio/ imenso/ entrevisto pelas frestas/ da casa e do tempo/ onde laura do carmo/ ensaiava acordes para o jazz‐band/ o violino mesclado/ aos cascos da manhã/a poesia/ nas árvores/ pendurada/ nos galhos/ não no papel/ impressa/ opressa/mas saltando livre/ sem pressa/ escorrendo das folhas/ como gerânios/ se debruçando/ explodindo/ em arco/ sobre o rio/ sangrando suada/ veloz singrando/ num só arremesso/ singrando/ como bola de pano/ estava ali/a poesia/ antes/ da poesia.
    Também o sexo se assemelhava na noite, nas ruas, a céu aberto. Meio descritivo, no Poema sujo (de prosa), como no primeiro modernismo; paradoxalmente entrecortado por enjambements com menções aos poetas concretos em Pomba Poema.
      Poema sujo – A noite adormece as galinhas/ e põe a funcionar os cinemas/ aciona/ os programas de rádio, provoca/ discussões à mesa do jantar, excessos/ entre jovens que se beijam e se esfregam/ junto à cancela/ no escuro// Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,/ o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.// E todos buscavam/ num sorriso num gesto/ nas conversas da esquina/ no coito em pé na calçada escura do Quartel/ no adultério/ no roubo/ a decifração do enigma/ – Que faço entre coisas?/ – De que me defendo?
    Pomba Poema – era engraçado/ o sexo/ engraxado por brancos jatos/ lubrificado/ por amplos amplexos/ curtos‐tardos/ despojados/ longos‐lentos/ soltos a cada momento/ despejados/ no negro sexo de jânio quadros/ negra jânio viva negra vulva/ noite exímia/ preta preta/ pretíssimas/ retas augustas/ em M fortuitas suas coxas/ fartas sujas concretas pignatrizes/ as cujas crespas carnudas cornucópias/ duro penhor desce o pignatário piche puro pendor/ torpor anteparando paus pernas espermas/ vorazes varando sexos afoitos/ campos adubados induzindo/ ao infinito conduzindo/ em M despertam suas pernas/ enroscadas no infinito/ em 8 pós‐coito o torto corpo.
    Ou ainda a metáfora do tanque a “jorrar manhã” de Gullar e a minha do leiteiro também a “jorrar a manhã”.

    Poema sujo – quando a gente acorda cedo e fica/ deitado assuntando/ o processo do amanhecer:/ os primeiros passos na rua/ os primeiros/ ruídos na cozinha/ até que de galo em galo/ um galo/ rente a nós/ explode/ (no quintal)/ e a torneira do tanque de lavar roupas/ desanda a jorrar manhã.
   Pomba Poema – tal/ vez que agora é finda a missa/ o leiteiro jorra a manhã em cada porta/ lavada a alma/ – torta?/ descemos em bando famintos da pá‐virada moleques/ a inaugurar o domingo/ sobe‐e‐desce afora/ é quando/ mais belo se faz o pão nas janelas/ pescado/ triturado/ a cada dentada/ esquentando o vazio/ entre a alma e o nada/ era deixado o jornal/ como prêmio/ mas esse não interessa/ estava longe o grêmio/ a palavra impressa.
  E ainda o sobe-desce das ruas, os olhares estrangeiros pelas janelas: São Luís de Cataguases?
     Poema sujo – Descendo ou subindo a rua,/ mesmo que vás a pé,/ verás que as casas são praticamente as mesmas/ mas na janelas / surgem rostos desconhecidos/como num sonho mau.
    Pomba Poema – Descendo/ a rua/ do/ sobe/ e/ desce/ pressinto/cabreiro/ com horror/ que estou/ numa cidade do exterior/ mineiro// que passo é esse apressado?/ que luz é essa amarela?/ quando quem o quê como por quê?/de quem são esses olhos/ quem por trás da janela?
Ainda em Buenos Aires, de maio a julho de 1975, Gullar debruçou-se sobre seu poema de forma frenética, como se tomado por uma força estranha. Ríamos, é certo,/ em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas/ de hortelã enroladas em papel de seda colorido,/ ríamos, sim,/ mas/ era como se nenhum afeto valesse/ como se não tivesse sentido rir/ numa cidade tão pequena. De repente, a fonte secou. Não saía mais nada, mas ele sentia que o poema não estava terminado. Como já disse numa das crônicas anteriores, só em setembro, já angustiado, Gullar lembrou-se de um livro de Lênin, que lera quando estava no Chile, onde havia uma citação de Hegel: “a árvore está no ramo da árvore”. A partir desse conceito, de uma coisa estar em outra, o poeta finalmente consegue terminar seu livro em outubro daquele ano, com dicção e octossílabos a lá João Cabral de Melo Neto:
O homem não está na cidade/ como uma árvore num livro// (...) a cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa// cada coisa está em outra/ de sua própria maneira/ e de maneira distinta/ de como está em si mesma// a cidade não está no homem/ do mesmo modo que em suas/ quitandas praças e ruas.
      No livro “Sobre arte, sobre poesia”, publicado em 2006, dizia Gullar: “Sou um poeta do Nordeste brasileiro, um poeta do Maranhão, da cidade de São Luís do Maranhão. Sou um poeta da rua do Coqueiro, da rua dos Afogados, da quinta dos Medeiros, do Caga-Osso, da rua do Sol e da praia do Caju. Um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi, irmão de Dodô e de Adi, de Newton, de Nelson, de Alzirinha, de Concita, de Norma, de Leda, de Consuelo, amigo de Esmagado e de Espírito da Garagem de Bosta.  Um foragido e um sobrevivente. Alguém que conseguiu escapar do anonimato, que vem do sofrimento interior, da tragédia cotidiana e obscura que se desenrola sob os tetos de minha pátria, abafada em soluços; a tragédia da vida-nada, da vida-ninguém. Se algum sentido tem o que escrevo, é dar voz a esse mundo sem história”.



    Dar voz a esse mundo sem história foi uma das proezas do poeta Ferreira Gullar.

18 de set. de 2024

DE ONDE VEM O POEMA


Ruínas romanas de Tipasa, classificadas pela UNESCO como Patrimônio Mundial


  Certa vez, convidado a falar sobre poesia, o poeta Federico García Lorca limitou-se a estender as duas mãos abertas e dizer: Yo no puedo, yo no sé hablar sobre poesia./ Yo la tengo aqui en mis manos, sé que está/ quemando mi piel, pero no lo sé o que és. De onde vem, como nasce o poema? Ferreira Gullar dizia que era do espanto. De certa forma, estava certo. Mas não é só disso, de espantar-se com o mundo, com o acontecimento, que surge o poema. Ele vem às vezes do alto, como no avião que vi cortando o céu de Botafogo, numa manhã carioca da semana passada. Avião que me levou de volta exatamente a um dos meus poemas prediletos de Gullar, vindo lá dos anos 1970, “Por você por mim”: 

  É dia feito em Botafogo/ Homens de pasta, paletó, camisa limpa, dirigem-se para o trabalho./ As pessoas marcaram encontros,/ irão ao cinema,/ à buate,/ se amarão nas praias/ na cama/ nos carros./ Nenhuma ameaça/ pesa sobre a cidade./ O avião no céu/ vai para São Paulo./ O avião no céu/ não é um Thunderchief da USAF/ que chega trazendo a morte/ como em Hanói./ Que se passa em Huê? em Da Nang?/ No Delta do Mekong?/ Te pergunto,/ nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,/ te pergunto,/ que se passa no Vietnam?

    Alguns dias após a morte de Ferreira Gullar (São Luís do Maranhão, 10.09.1930/ Rio de Janeiro, 04.12.2016), eu publicava em meu blog três vídeos que acabara de editar sobre o poeta, inclusive um em que eu havia gravado o poema “Por você por mim”, que pode ser visto no link a seguir: Por você Por mim - Ferreira Gullar por Ronaldo Werneck ( https://youtu.be/BKFFWK_8cTA )

    O poema então – além do espanto, como dizia Gullar – surge também da memória, às vezes de um avião no céu que me leva ao poema de Gullar, que me leva ao Vietnam. E, pelo menos para mim, o poema, qualquer poema, tem muito do olhar, de observar o mundo com olhos aguçados, olhos de ver/apreender. De desenvol/ver. Situações, paisagens, lembranças, alguma coisa sensorial perdida no tempo e que volta súbito e nos enlaça sob a forma de poema. E nos traz para o agora. Imagem + palavra: inventividade, experimentação.  Palavras fora do dicionário, como em Drummond: “Já não quero dicionários/ consultados em vão./ Quero só a palavra/ que nunca estará neles/ nem se pode inventar”. 

    Isso tudo para dizer do estranho (e “espantoso”?) nascimento do poema que vai a seguir – e que ficou por quase 50 anos embrionário em minha cabeça. Era um verão literalmente africano na Argélia, setembro de 1979. Eu caminhava solitário e sem rumo por uma praia deserta nas proximidades de Chéraga, na província de Argel. O vento vinha do mar, levantava a areia e batia suave em meu rosto. Nunca mais, em toda a minha vida, eu me esqueci desse momento iluminado, de absoluta plenitude, uma quase epifania. Voltava de uma visita que me emocionara a Tipasa, exatos 69 km de Argel – a pequena Tipasa, a cidade argelina hoje Patrimônio Mundial da Humanidade, debruçada sobre o Mediterrâneo, com seus penhascos, suas escarpas e ruínas romanas. 

    “O mar/ la mer aussi/ e ruínas/ romanas/ e belas”– como no meu poema L´après-midi à Tipasa, escrito ainda em 1979 e publicado anos depois em meu livro “minerar O branco” (Editora Artepaubrasil, São Paulo, 2008).  Eu fora a Tipasa levado por lembranças de Albert Camus, um de meus “escritores de cabeceira”, e de seu icônico “Bodas em Tipasa” – uma “ode ao sol”, cujos textos relia numa edição francesa comprada em Paris: Noces à Tipasa (tônica no último “a” de Tipasa, como no bom francês, s´il vous plaît). 

    Au printemps, Tipasa est habitée par les dieux et les dieux parlent dans le soleil et l´odeur des absinthes, la mer cuirassée d´argent, le ciel bleu écru, les ruines couvertes de fleurs e la lumière à gros bouillons dans les amas de pierres grellés.  Assim, Camus abria seu livro. Numa rápida tradução: “Na primavera, Tipasa é habitada pelos deuses e os deuses falam sob o sol e o aroma dos absintos, o mar blindado de prata, o céu puro azul, as ruínas cobertas de flores e a luz fervendo nas pilhas de pedras de granito”. 

    Mais tarde, em Retour à Tipasa, escreveria Camus: Il n´est pas pour moi un seul de ces soixante-neuf kilomètres de route qui ne soit recouverte de souvenir et de sensations. Lembrança e sensações: pontos de partida e chegada. Fulcros da feitura do poema. De onde vêm, para onde vão os poemas? Em 1961, dentro das ruínas romanas de Tipasa, de frente para o mar e para o monte Chenoua, foi erguida uma stela em homenagem a Albert Camus com esta frase em francês extraída de sua obra “Noces à Tipasa”: Je comprends ici ce qu'on appelle gloire : le droit d'aimer sans mesure. (“Entendo aqui o que se chama glória: o direito de amar desmedidamente").  

    Então, naquele setembro de 1979, não era a primavera de Camus, mas sim o final de um abrasivo verão. E em Tipasa eu vira ainda há pouco a luz ferver ainda com mais intensidade nas pedras empilhadas penhasco abaixo até o mar blindado de prata. Ainda há pouco: imagina, há 50 anos! E essa imagem não me sai da memória. Agora, 2020, é outro verão no Shangrilá, o sítio que temos no alto de um morro, nos arredores de Cataguases, de frente e em panorâmica sobre as montanhas de Minas.  Ilhado há meses pela pandemia, leio numa rede, o mundo-minas em plano geral, o mar de morros.  

    Vejo avencas, acácias. Vem um vento a bater suave em meu rosto – o mesmo daquela tarde em Argel? O mar de morros. Mediterrâneo? Avencas, acácias? Há um forte aroma de tâmaras (dattes! dattes!) vindo de longe, de não sei onde. Não! Eu sei de onde. Esse vento, esse aroma na memória, essas improváveis tâmaras – Argel ressurge súbito no ritmo oitavado desse poema, até mesmo na métrica de seu título. Ritmo só atravessado por duas súbitas estrofes em redondilhas menores, a ressaltarem a “palavra palavra/ para sempre fica/ pois é poesia”. Tipasa está aqui, nessa tarde, nesse après-midi, pois a trago comigo ainda agora – e para sempre: o mar/ o mundo/ a recomeçar/ au jour-le jour/ tous/ tous les jours/ todos/ todos/ os dias todos/ sob luz intensa/ sempre/ nova/ luz/ a pris´mar/ plátanos/ tâmaras/ absintos. 

Link para os poemas 
OITIS AVENCAS O VENTO e L´APRÈS-MIDI À TIPASA:

https://drive.google.com/file/d/1p4HAi9sRZ4fYUpz2DFRlG2JtyuiT00CN/view?usp=sharing

8 de dez. de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 1 Vida não dá meia-sola



      Copacabana, um dia qualquer dos anos 1960: saio pro trabalho e tomo um ônibus E. de Ferro-Leblon (quando criança, de férias no Rio, em vez de “Estrada de Ferro” eu lia “É de Ferro-Leblon” e nada entendia). Dois bancos à minha frente, na diagonal, vejo Ferreira Gullar também indo pro trabalho (na época ele era copidesque da Sucursal do Estadão). O poeta fumava e lia atentamente o Jornal do Brasil quando, de repente, o amassa com raiva e fica olhando para o nada pela janela. Penso até hoje no que teria lido o poeta, qual notícia o teria irritado tanto.
      O mesmo acontecia comigo quando lia (não leio mais, e agora nunca mais) suas crônicas plenas de diatribes na Folha de S.Paulo, que tanto me irritavam. Na época em que ele começou, lembro-me do Alcione Araújo me contar que Gullar lhe perguntara o que ele achava de ele aceitar o convite para escrever as tais crônicas (engraçado como muita gente ia pedir conselhos ao meu saudoso amigo Alcione sobre os mais variados assuntos). Alcione me disse que o desaconselhou. O poeta, naturalmente, não deu ouvidos ao dramaturgo. E meteu os pés pelas mãos, ou coisa que o valha.
    Irritadíssimo ficaria também eu, quase trinta anos depois do episódio do “E. de Ferro/Leblon”, ao ler um texto de Gullar sobre arte moderna no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Mas não rasguei o jornal. Peguei o texto e escrevi outro a partir dele, rebatendo (meio que raivosamente, no calor da hora) as ideias do poeta. Mandei pro Mário Pontes, então editor do Caderno do JB. Mário me ligou, dizendo ser melhor não publicar: embora achando que em parte eu tinha razão, não queria criar polêmica com o poeta. Melhor assim, acabei achando também. E acho ainda hoje ao reler o que escrevi, embora continue a não gostar nada do que o Gullar disse naquele texto. 
    Mas, voltando ao início dos anos 1960, irritado também eu ficara ao ler o seu João Boa Morte, aquela regressão em redondilhas publicada pelos “Cadernos do Povo/ Violão de Rua”, com poemas que buscavam “vender” poesia barata aos operários e homens do campo (literalmente barata: impressos no modelo canoa, grampeados a exemplo da poesia de cordel, os livrinhos eram vendidos a preço de banana, mas nem assim atingiram o alvo). Um saltatrás de Gullar face aos avanços vanguardistas de seu livro A Luta Corporal, que tanto me impressionara.
     Pois é, a gente só se enfurece, a gente só se irrita mesmo, com coisas vindas de quem gostamos. As outras “passam corrido” e nem ligamos ou lhes damos importância. Tempos depois, em “Dentro da Noite Veloz”, e já próximo de seu “Poema Sujo” e da dicção que faria dele um de nossos grandes poetas, Gullar parecia se “redimir” de sua “escorregadela da Boa Morte”, retomando o apuro formal sem deixar de lado o conteúdo “participante”, como se dizia na época: “Poeta fui de rápido destino./ Mas a poesia é rara e não comove/ nem move o pau-de-arara”.
     Corta para hoje, melhor para domingo passado, dia 4 de dezembro. Como sempre acontece nos domingos em que estou em Cataguases, fui almoçar num restaurante de Leopoldina. Não só por gostar de dirigir (cerca de 20 km), como porque ele fica aberto o dia inteiro (o que não acontece com os daqui). Almoço tarde, hábito antigo, e quando dou por mim aqui está tudo fechado aos domingos.
     Levei comigo a Folha de S.Paulo, e foi assim: passei os olhos pelas manchetes do jornal, li o Cony, o Jânio de Freitas e pulei pra Ilustrada. Por acaso, dei de cara com a coluna do Ferreira Gullar, que evito ler faz longo tempo pra não me irritar ainda mais com a “estranha” guinada política do poeta. Mas o título “Solidariedade” me chamou a atenção e acabei lendo. Gullar começa se perguntando “por que pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais”.
    Logo ele avança situando essas pessoas como as que “militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista (ao qual ele mesmo aderiu em 1964), fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana”. Até aí, o mesmo Gullar dos últimos tempos. 
     E já começava a me irritar novamente com suas idiossincrasias quando sou tomado pelo “espanto” (palavra tão cara à definição de poesia usada pelo poeta) ao ler os demais parágrafos. “Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto. Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho – que, na época, eram simplesmente selvagens – mudaram, alcançando as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado”. Mas logo Gullar descamba para sua velha cantilena de maldizer “o sonho marxista e os dogmas ditos revolucionários".
     E, num paradoxo, reafirma obviedades sobre o capitalismo: “Tampouco pode-se negar que o regime capitalista se move essencialmente pela exploração do trabalho e pela acumulação do lucro. A ambição desvairada pelo lucro é o mal do capitalismo que deve ser extirpado. E, creio eu, isso talvez possa ser feito sem violência, uma vez que, de fato, ninguém necessita de acumular fortunas fantásticas para ser feliz”. A crônica é finalizada com um exemplo mais que exemplar: “Sabem por que Bill Gates deixou a presidência de sua empresa capitalista para dirigir a entidade beneficente que criou? Porque isso o faz mais feliz, dá sentido à sua vida”.   
      Fechei o jornal, dessa vez sem o amassar nem jogar fora. Entrei no carro e vim pela estrada afora, meio que “reconciliado” com o poeta: “Vida tenho uma só/ que se gasta com a sola de meu sapato/ a cada passo pelas ruas/ e não dá meia-sola// Perdi-a já/ em parte/ num pôquer solitário,/ mas a ganhei de novo/ para um jogo comum// E neste jogo a jogo/ inteira, a cada lance/ que a vida ou se perde ou se ganha com os demais/ e assim se vive/ que o mais é pura perda”.   
      Eu não levara o celular para o almoço, não sabia das notícias desde a noite anterior. Chego em casa, ligo a tv ao acaso, e sou surpreendido com a morte do poeta. Mais surpreso ainda ao saber que essa sua crônica, a última, fora escrita no hospital onde estava internado há quase vinte dias em Copacabana (não tinha conhecimento disso: eu acabara de chegar do exterior e estava sem notícias do Brasil). Segundo Zuenir Ventura, que o acompanhou internado, suas últimas palavras foram à filha Luciana, pedindo para não prolongarem sua vida com aparelhos: “Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”.
       Coisa de poeta? É, coisa de poeta. Eu mesmo já tive um “desvario marítimo” desses, quando um médico maluco daqui me disse que meu glaucoma (“de estimação”) tinha evoluído tanto que não adiantava mais me receitar colírio algum: eu iria ficar cego em seis meses, um ano no máximo. Voltei pra casa aturdido, é “claro/escuro”, e não dormi a noite toda. Lá pelas tantas pensei que o melhor seria ir pro Rio e ver o mar pela última vez. Foi quando parei de pensar besteira dei uma risada: “Deixa de babaquice, Ronaldo! Procure outro médico amanhã”. Dito e (bem) feito. Hoje, após uma cirurgia, com direito a catarata e tudo o mais, estou enxergando maravilhosamente em technicolor e cinemascope – e até mesmo o mar visto de Cataguases. O mar, o mar azul, o mar-espanto, que iria me proporcionar um longo, imenso poema, e que deu a Gullar esse concreto insight:

mar azul
mar azul marco azul 
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

    Em 1992, Gullar participou de um Ciclo sobre Fernando Pessoa no CCBB/Rio. Depois de sua palestra, fiz longa entrevista com ele, gravada em VHS. Infelizmente, a fita não resistiu ao tempo e a maior parte se perdeu. O que dela restou (as imagens não estão lá essas coisas, mas o áudio é bem razoável) foi usado como material para o vídeo que acabo de editar e que se encontra na abertura desta crônica. O enquadramento também não está perfeito, com a câmera focada em mim, enquanto Gullar ficou meio de lado, olhando pra mim enquanto falava, quase de perfil. Mas vale como registro. Ah, sim: o sujeito travestido de Fernando Pessoa fazia parte da encenação sobre o poeta português.
    Uma curiosidade: na entrevista, Gullar chama Oswald de Andrade de “poeta menor”, embora não deixe de elogiá-lo e de lembrar quando Oswald esteve pessoalmente em sua casa no dia de seu aniversário, dizendo ter lido e gostado de A Luta Corporal. O mesmo episódio que lembraria 25 anos depois, numa de suas crônicas no primeiro semestre deste ano. Aquela “crônica-spaghettilândia” que resultou num spaghetti western dos diabos com o poeta Augusto de Campos. Em 1954, quando da morte de Oswald de Andrade, Gullar escreveria a elegia que se segue pro poeta paulista.   
  “Enterraram ontem em São Paulo/ um anjo antropófago/ de asas de folha de bananeira/ (mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)// As escolas e as usinas paulistas/ não se detiveram/ para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio/ Quanto mais pressa mais vagar// O lenço em que pela última vez/ assoou o nariz/ era uma bandeira nacional” Nota de Gullar, em pé-de-página do poema: “Fez sol o dia inteiro em Ipanema/ Oswald de Andrade ajudou o crepúsculo/ hoje domingo 24 de outubro de 1954”.
     Repito suas últimas palavras: “Me leva pra Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora”. Mar e Ipanema. Nada mais justo que inserir em meu vídeo a canção que Gullar letrou para Caetano Veloso no primeiro álbum tropicalista do baiano: “Onde andarás nesta tarde vazia/ Tão clara e sem fim/ Enquanto o mar bate azul em Ipanema/ Em que bar, em que cinema, te esqueces de mim”.

23 de dez. de 2016

GULLAR ANTE(S) (D)O ESPANTO - 3

O prazer do poema




Em seu poema “Uma voz”, diz Ferreira Gullar: “Sua voz quando ela canta/ me lembra um pássaro mas/ não um pássaro cantando/ lembra um pássaro voando”. O belo é uma alegria eterna – digo eu, numa tradução apressada do verso famoso de John Keats (1795-1821): a thing of beauty is a joy forever. Em “O prazer do poema”, antologia lançada em 2014, Gullar desfila todo um rol de poetas e poemas, daqui e dacolá, que o fascinaram ao longo da vida. Na introdução, ele escreve: “o propósito declarado é oferecer o poema como puro prazer de leitura e deslumbramento”. E cita o verso de Keats numa tradução literal, prosaica, um pouco mais apressada que a minha, sem preservar o ritmo e a métrica do poeta inglês: “uma coisa bela é uma alegria para sempre”. E afirma ainda: “todo poema só cumpre sua função quando a sua leitura resulta em prazer estético”.
 Prazer estético é sem dúvida o que me proporciona o seu poema “Uma voz”. Um poema “mais-que-perfeito”, com a surpresa, o inesperado dessa voz que lembra a beleza de um pássaro voando. Ritmado em redondilha maior, o poema pertence ao livro “Dentro da Noite Veloz” (1962/1975) e é dedicado à grande cantora lírica Maria Lúcia Godoy. Tendo entre seus “fãs de carteirinha” ninguém menos que o então presidente Juscelino Kubitschek, a soprano mineira Maria Lúcia ostenta – entre suas muitas glórias – a proeza de ser “a voz que deu voz” da melhor forma à Bachiana nº 5 de Villa-Lobos. Convidada especial de Juscelino, era dela a “voz maviosa” que se ouviu no Planalto Central em 1960, quando da inauguração de Brasília.
“La Godoy” – como sempre a chamei, brincando/reverenciando –, minha amiga Maria Lúcia, que não vejo há tempos, sempre se recorda com grande orgulho do belo poema que Gullar lhe dedicou. Ela ia dizer – para minha grande honra – alguns dos poemas de meu livro mais recente, “o mar de outrora & poemas de agora”, quando do lançamento em Belo Horizonte, em 2014, mas não pôde ir devido a uma forte gripe. De lá pra cá não mais nos vimos, mas soube que “La Godoy” recebeu em setembro último, do alto de seus 92 anos, o título de Doutor Honoris Causa da UFMG. Mais que merecido.
Mas o papo é sobre Gullar. Então, vamos lá. Com rima & tudo. Numa tarde de 1980 fui até a Biblioteca do Banco do Brasil (hoje no CCBB/Rio), então localizada no mesmo prédio da Av. Presidente Vargas onde eu era um dos redatores da Revista Cacex. Passava sempre por lá, para alguma pesquisa e também para papear com meu amigo, o poeta e hoje grande e irreverente sonetista Glauco Mattoso – então editor do ousado e abusado “Jornal Dobrasil” –, que lá trabalhava e ainda não fora totalmente tomado pelo glaucoma (daí seu pseudônimo) que o cegaria poucos anos depois. Glauco perguntou se eu ia ao lançamento do livro do Gullar, numa livraria das proximidades. Não sabia, mas logo combinamos de ir juntos.
“O anjo é grave/ agora./ Começo a esperar a morte”.// (...) “Onde jorrara a fonte, jorrara/ a fome. Onde jorrara/ a morte, jorrara/ a fonte. Aqui/ jorrara a fonte”.// O livro que estava sendo lançado era a reunião de poemas de Gullar, “Toda Poesia”, um abrangente balanço de sua obra poética até então, que abria com um prefácio altamente elogioso de Sérgio Buarque de Hollanda: “De Ferreira Gullar pôde escrever Vinicius de Moraes que é o último grande poeta brasileiro. Parece-me a mim, além disso, que, exceção de algumas peças de Mário de Andrade e também de Carlos Drummond de Andrade (mormente em Rosa do povo), é o nosso único poeta maior dos tempos de hoje”. (...) “Para a singularidade e a importância de sua contribuição, só encontro comparável, no Brasil, a prosa de Guimarães Rosa”.
Tenho aqui em minha mesa o “Toda Poesia”, devidamente autografado por Gullar, com grande parte de seus poemas marcados, os mesmos que anteriormente já grifara em suas primeiras publicações, que possuo ainda hoje – de A Luta Corporal (1954) ao Na Vertigem do Dia (1975-1980). Hábito antigo esse meu, de destacar as pedras-de-toque dos poemas/textos de que gosto, ou que julgo importantes, e que conservo ainda agora. Aquelas palavras-chave – highlights, punti luminosi – que saltam de sua poética: tempo, tarde, bananas (podres, quase sempre): “Naquele canto/ em sombra/ da quitanda/ a tarde – o tempo/ o sol da tarde/ nas bananas virava mel/ (aliás/ mais água/ do que mel)/ na boca/ de Newton Ferreira/ a mesma/ tarde (de fachadas/ e espelhos)/ falava português/ e ria/ (na saliva)/ ou talvez/ não/ mas sem dúvida alguma/ se esvaía”.
A tarde, o mar, a morte
A tarde, aquela tarde que se fixa numa “fotografia aérea”, de certa forma antecipadora da atmosfera coloquial do Poema Sujo: “Eu devo ter ouvido aquela tarde/ um avião passar sobre a cidade/ aberta como a palma da mão/ entre palmeiras/ e mangues/ vazando no mar o sangue de seus rios/ as horas/ do dia tropical/ aquela tarde vazando seus esgotos seus mortos/ no jardim/ eu devo ter ouvido/ aquela tarde/ em meu quarto/ na sala/ no terraço/ ao lado do quintal?/ o avião passar sobre a cidade/ geograficamente/ desdobrada”.// “(...) o ronco do motor enquanto lia/ e ouvia/ a conversa da família na varanda/ dentro daquela tarde/ que era clara/ e para sempre perdida// “(...) meu rosto agora/ sobrevoa/ sem barulho/ essa fotografia aérea./ Aqui está/ num papel/ a cidade que houve/ (e não me ouve)/ com suas águas e seus mangues/ aqui está/ (no papel)/ uma tarde que houve/ com suas ruas e casas/ uma tarde/ com seus espelhos/ e vozes (voadas/ na poeira)/ uma tarde que houve numa cidade/ aqui está/ no papel que (se quisermos) podemos rasgar”.
Ou o mar, o mar ainda. O mar de sempre, recorrente em Gullar. Mar sem rima: “Vê o céu. Mais/ que azul, ele é o nosso/ sucessivo morrer. Ácido/ céu”.// “(...) Despreza o mar acessível/ que nas praias se entrega, e/ o das galeras de susto; despreza o mar/ que amas, e só assim, terás/ o exato inviolável/ mar autêntico!// (...) Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem./ Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,/ a alegria debaixo das palavras”// (...) o mar buzina/ voz de ostra garganta dos séculos fósseis/ corneta perdida/ o que nos diz essa voz de cal?// (...) Beleza oh pura pura/ o que te ofereço? O auriverde pendão da minha terra?”.
A tarde e o mar (l´éternité de Rimbaud, quem sabe?) se reencontram nesse pungente poema que bate “no clarão da lembrança” (não por acaso tem a “Memória” como título) e que passo a vocês, intacto:  “menino no capinzal/ caminha/ nesta tarde e em outra / havida// Entre aurora e mata-pastos/ vai, pisa/ nas ervas mortas ontem/ e vivas hoje/ e revividas no clarão da lembrança// E há qualquer coisa azul que o ilumina/ e que não vem do céu, e se não vem do chão, vem/ decerto do mar batendo noutra tarde/ e no meu corpo agora/ – um mar defunto que se acende na carne/ como noutras vezes se acende o sabor/ de um fruta/ ou a suja luz dos perfumes da vida/ ah vida!”.
Num dos poemas de “Dentro da noite veloz”, publicado em 1975, Gullar como que previa o decorrer de sua morte: “Se morro/ o universo se apaga como se apagam/ as coisas deste quarto/ se apago a lâmpada:/ os sapatos-da-ásia, as camisas/ e guerras na cadeira, o paletó-/ dos-andes,/ bilhões de quatrilhões de seres/ e de sóis/ morrem comigo.// Ou não:/ o sol voltará a marcar/ este mesmo ponto do assoalho/ onde esteve meu pé;/ deste quarto/ ouvirás o barulho dos ônibus na rua;/ uma nova cidade/ surgirá de dentro desta/ como a árvore da árvore. // Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens/ a mesma história que eu leio, comovido”.
 Ao que parece, este poema foi feito depois, ou logo depois, do Poema Sujo, e traz embutido um conceito (“árvore dentro da árvore”) que Gullar foi buscar numa leitura que fez, ainda no Chile, de um livro de Lenin. Isso antes do surgimento do Poema Sujo, que aconteceu em Buenos Aires. Ao comentar sobre a feitura de seu longo poema, na gravação que fez em 2015 no Instituto Moreira Salles, Gullar lembrou-se do livro de Lenin e de quando este citava Hegel, quando o filósofo alemão abordava a relação entre particular e universal, dizendo que “a árvore está no ramo da árvore”.
     E Gullar só foi entender o significado disso mais tarde, já na Argentina. E acabou, em setembro de 1975, partindo do conceito para elaborar o fecho (que estava “travado” há quase um mês) do Poema Sujo, que foi escrito entre os meses de maio e outubro daquele ano: “O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ (...)/ mas variados são os modos/ como uma coisa/ está em outra coisa/ o homem, por exemplo, não está na cidade/ como uma árvore está/ em qualquer outra/ nem como uma árvore/ está em qualquer uma de suas folhas”. Interessante ainda nos lembrarmos que, vinte anos antes de saber da “árvore hegeliana”, Gullar já registrava a palavra árvore solta de seu significado árvore, a palavra em plena autonomia, “árvore-árvore”, como no famoso poema concreto dos anos 1950:
árvore

árvore
árvore
árvore


Contexto histórico
            Poemas de participação social, de um pensar sobre o mundo, de um situar-se no “contexto histórico”, como se dizia na época, permeiam “Toda Poesia”, toda a vida: “Não se trata do poema e sim do homem/ e sua vida//(...) // Não se trata do poema e sim da fome/ de vida,/ o sôfrego pulsar entre constelações/ e embrulhos, entre engulhos./ Alguns viajam/ vão/ a Nova York, a Santiago/ do Chile. Outros ficam/ mesmo na Rua da Alfândega, detrás/ de balcões e guichês./ Todos te buscam, facho/de vida, escuro e claro”.// “(...) Vista do alto,/ com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade/ é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém./ Mas vista/ de perto/ revela o seu túrbido presente, sua/ carnadura de pânico; as/ pessoas que vão e veem// (...) // São pessoas que passam sem falar/ e estão cheias de vozes/ e ruínas. És Antônio?/ És Francisco? És Mariana?/ Onde escondeste o verde/ clarão dos dias/ Onde/ escondeste a vida/ que em teu olhar se apaga mal se acende?// (...) Mas, dentro, no coração, eu sei,/ a vida bate./ Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,/ sob as penas da lei,/ em teu pulso,/ a vida bate./ E é essa clandestina esperança/ misturada ao sal do mar/ que me sustenta/ esta tarde/ debruçada à janela de meu quarto em Ipanema/ na América Latina.
Ou ainda, nesse outro poema-constatação: “Onde está/ a poesia? Indaga-se/ por toda a parte. E a poesia/ vai à esquina comprar jornal.// Cientistas esquartejam Púchkin e Baudelaire./ Exegetas desmontam a máquina da linguagem./ A poesia ri.// (...) Poesia – dever a vida com palavras?/ Não – libertá-las,/ fazê-la voz e fogo em nossa voz. Po-/ esia – falar/ o dia/ acendê-lo do pó/ abri-lo/ como carne em cada sílaba, de-/ flagrá-lo/ como bala em cada não/ como arma em cada mão// E súbito da calçada sobe/ e explode/ junto ao meu rosto do pás-/ saro? O pás-/ Como chamá-lo? Pombo? Prombo? Como?/ Ele/ bicava o chão há pouco/ era um pombo mas/ súbito explode/ em ajas brulhos zules bulha zalas/ e foge!/ como chamá-lo? Pombo? Não:/ poesia/ paixão/ revolução”.
“O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,/ relógio de lilases, concretismo/ neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,/ que a vida/ eu a compro à vista aos donos do mundo./ Ao peso dos impostos, o verso sufoca,/ a poesia agora responde a inquérito policial militar.//Digo adeus à ilusão/ mas não ao mundo. Mas não à vida,/ meu reduto e meu reino./ Do salário injusto,/ da punição injusta, /da humilhação, da tortura, /do terror,/ retiramos algo e com ele construímos um artefato/ um poema/ uma bandeira”.


Continua na próxima semana

21 de mai. de 2025

 

Maria Lúcia Godoy:

pássaro em pleno voo


 


         

         Aos 100 anos, faleceu na última sexta-feira, 16 de maio, a soprano mineira  Maria Lúcia Godoy (Mesquita, MG, 02.09.1924 – Belo Horizonte,  16.05.2025). Incensada por grandes nomes (JK, Bidu Sayão, Ferreira Gullar,  Drummond, Fernando Sabino, Glauber Rocha), Maria Lúcia foi uma de nossas  maiores cantoras líricas. Nós nos conhecemos em meados da década de 1990, quando ela fez um concerto apresentado por mim no CCBB/Rio, onde desfilava modinhas imperiais recolhidas por Mário de Andrade e belas serestas mineiras, “paixão e alento das gentes das Gerais”, como me dizia. Acabamos amigos: Minas nos uniu. Em fevereiro de 2004, Maria Lúcia realizou um concerto aqui em Cataguases, no Centro Cultural Humberto Mauro. Fui de novo o apresentador e publiquei na ocasião um texto sobre minha amiga na revista Usina Cultural, que eu editava junto com Mônica Botelho.  Eu a chamava, brincando, de “La Godoy”, epíteto que cai bem na Diva que realmente era. Em sua homenagem, reproduzo a seguir meu texto. 

 



    “Sua voz, quando ela canta,/ Me lembra um pássaro/ Mas não um pássaro    cantando/ Lembra um pássaro voando”. “A mais bela, a mais comovente, a      mais importante voz deste país”. “A tua voz confundia-se com o aroma das        rosas. Era tão segura e forte que enfraqueceu meu coração, meu corpo e                minha alma, de tal modo que não tive forças para te procurar e agradecer-te           por tudo e de joelhos te dizer muito obrigado”.

     “Nada de prima-donna, nenhum traço de afetação ou vedetismo que a            ópera nos acostumou a atribuir aos cantores líricos. Maria Lúcia tem um                jeito familiar de the Girl Next Door, como dizem os americanos – não fosse a        voz que, mesmo apenas falando, sugere aquele denso e profundo mistério          da criação: uma voz em que a poesia se reflete”. “Dona, sua voz é a paz no          coração, sua voz é o silêncio do mundo”. “Lembrar as serras de Minas/                   Demolidas, como dói!/ Mas me consolo se escuto/ Maria Lúcia Godoy./ Foi-        se o ferro de Itabira?/ O ouro não se destrói:/ Está na voz da mineira/ Maria          Lúcia Godoy”.

    O primeiro poema é de Ferreira Gullar. A frase a seguir, de Juscelino Kubitschek. A outra, de Cartola. Depois, Fernando Sabino. Aqueloutra, de um gari da Prefeitura de Belo Horizonte. O último poema, claro, é de Carlos Drummond de Andrade. “Ouvir Minas é ouvir Maria Lúcia Godoy”. Esta é do ex-Secretário de Cultura Angelo Oswaldo.

    Referência obrigatória da cultura contemporânea brasileira, a soprano Maria Lúcia Godoy veio a Cataguases em novembro para cantar no encerramento das atividades da Escola de Música Lila Carneiro Gonçalves e lançar três CDs: Cantares de Minas, Modinhas Imperiais Brasil-Portugal e Maria Lúcia Godoy canta Manuel Bandeira.

Na chuva e sem barreiras
    

    “Eu vim aí pelas ruas de Cataguases, do hotel até aqui, literalmente cantando na chuva” – diz a diva ensopada, enxugando-se no saguão do Centro Cultural Humberto Mauro. “É sempre um prazer cantar para uma cidade especial como Cataguases, com sua literatura e entidades do quilate desta Fundação, que protege e está frequentemente patrocinando arte e artistas. Esse povo precisa e merece. E é sempre bom cantar num teatro maravilhoso como este. Ainda mais com o Choro e Canção Patápio Silva, esse grupo cataguasense de gente muito simples, maravilhosa, extremamente musical.

    “Cantar. É sempre um prazer cantar. Ultimamente tenho trabalhado muito com o Arte sem Barreiras, programa que trata da inclusão do artista deficiente na sociedade. É um movimento criado nos EUA e que em nosso país é desenvolvido pela Funarte e dirigido por Albertina Santos Brasil, uma mulher fantástica, de quase 80 anos e safenada, que viaja pra todo o lado, Brasil e exterior, levantando de forma comovente a bandeira do Programa. Antes de tudo, o artista deficiente é um artista, um ser humano como qualquer outro, que deve poder mostrar sua arte. E Albertina sabe disso como ninguém.

    Maria Lúcia lembra-se então de seu sobrinho Arnaldo Godoy, deficiente visual, que acabara de nos emocionar dias antes, quando foi exibido o filme "Janela da Alma", de João Jardim e Walter Carvalho. Numa das sequências, ele conta ter entrado no mar de Copacabana com a filha menor e que, de repente, ela desgarrou-se de suas mãos e ele ficou desesperado por ter perdido a menina em meio ao mar. Logo ela voltou às suas mãos e o susto passou.  Arnaldo e eu conversamos muito nos dias em que ele esteve em Cataguases. Um cego muito bem-humorado, pleno de piadas, mesmo quando,  agora,  já conseguia falar sorrindo sobre o episódio da praia.

    “Cantar sempre ilumina", diz Maria Lúcia. "Um dia meu sobrinho          Arnaldo         Godoy, que é cego, convidou-me para cantar num teatro que construíra para         os integrantes do Arte sem Barreiras em Belo Horizonte. Eu cantava ‘Ai, por          quem és, desce do céu,/ Oh! Lua Branca/ Essa amargura do meu peito, vem,          arranca/ Dá-me o luar da tua compaixão/ Oh! Vem por Deus iluminar meu coração’, pois é, eu cantava com os cegos do Instituto São Rafael o ‘Lua Branca’, de Chiquinha Gonzaga, quando aparece uma lua gigantesca, maravilhosa, uma coisa mágica. Desse momento iluminado eu não me esqueço mais.

 

Glauber e o soluço engasgado




          Se falo baixo é para preservar minha voz, que é técnica mais emoção. É uma coisa que brota de mim, natural, espontânea. Eu a preservo porque esta é minha força, meu projeto de arte, é como levo emoção ao meu público. Lembro de um poema meu: ‘Cumpra meu canto até onde possa imaginá-lo/ Que possa tensionar as palavras/ E ser o arco musical das intenções´.

    Gosto muito de poesia. Esse disco que gravei com poemas de Manuel Bandeira é usado em universidades americanas para estudo de poetas brasileiros. Em Tóquio, no Japão, e até no Afeganistão eu cantei “Azulão”. Na Alemanha, França, Itália, Espanha, na Europa toda, também em Bagdá, essas coisas belíssimas do Bandeira com o Jayme Ovalle (cantarola):  ‘vai azulão, vai companheiro´, grande sucesso em vários países.

    “Uma de minhas maiores emoções foi cantar no enterro de Glauber Rocha, a convite de sua mãe. Quem cantou as Bachianas no filme “Deus e o Diabo” foi a Bidu Sayão, Glauber não me conhecia ainda. Foi uma surpresa quando Dona Lúcia me procurou: ‘Ah Maria Lúcia, Glauber era apaixonado por você, gostava tanto de sua voz, tinha todos os seus discos, estão quase furados de tanto ouvir! Ele queria muito colocar você num filme sobre O Guarani’. Cantei ao vivo pro Glauber, ele morto, e foi uma coisa comovente.

    “Cantar é sempre muita emoção, é uma dádiva.  Mais que amor, é uma doação onde temos como resposta o aplauso do público. Isso nos desgasta muito, a gente coloca sempre muita intensidade e sempre se sujeita às intempéries da vida. É como escrevi no poema musicado pelo Waldemar Henrique (cantarola): ‘A voz é triste e a canção magoa/ Entretanto eu canto/ Entretanto eu canto/ E nesse exercício raro/ Vai-se enxugando o meu pranto/ Eu vou guardando entanto a voz/ Meu amor, meu desencanto/ Entretanto eu canto/ Na garganta preso/ Como um pássaro/ Um soluço engasgado”.

Ferreira Gullar tem razão: cantando, Maria Lúcia Godoy “lembra um pássaro voando”.

Cataguases, fevereiro de 2004